Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
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Ensaiando Haydn

Ensaiando Haydn

Escrevi num post anterior sobre humildade e arrogância de maestros, e há um DVD capaz de ensinar alguma coisa sobre isso. É um filme de Barrie Gavin, com cenas do maestro Christoph von Dohnányi ensaiando uma sinfonia de Haydn com a Philharmonia Orchestra. Já passou na televisão, no canal Film & Arts, e está disponível no youtube também

 

A sinfonia de Haydn (número 88, em sol maior) é uma obra-prima de lógica, eferverscência e humor. Dohnanyi comenta: não temos nada, nos dias atuais, que se possa comparar como entretenimento de altíssimo nível... e, no fundo, o que Haydn queria era fazer entretenimento!

 

Ele –e a orquestra—se divertem bastante durante o ensaio. Há uma alegria de fazer música, sem formalidades e, sobretudo, sem violência. Dohnányi reclama de algumas afinações, pede a um ou outro solista que seja menos mecânico, e diga alguma coisa com as notas que tem para tocar. Mas o principal é seu poder de criar um clima de compreensão, de estímulo, de entusiasmo que parece especialmente adequado para a sinfonia que será tocada.

 

Dohnányi cita com algum horror um ensaio que assistiu da Primeira Sinfonia de Brahms, com Wilhelm Furtwängler. “Por vezes, o solista não te dá aquilo que você estava querendo ouvir”, diz ele, e isso aconteceu com o encarregado de um solo de oboé naquela obra. “A orquestra inteira ficou parada, enquanto Furtwängler ensaiou durante meia hora a passagem com o solista, parando e mandando repetir a cada segundo”... Claro que o resultado ficou bom, mas Dohnányi resume: “ele era um assassino”.

 

Um senso de comunicação humana mais aberta pode ser intuído no ensaio, e mesmo nas instruções de Dohnányi para aquela obra específica. Em alguns momentos, ele recomenda à orquestra que toque tal passagem como um diálogo entre duas pessoas; ou pede, no trio do terceiro movimento, que todos ouçam o fagote, a quem confia um potencial de surpresa na execução.  Seus comentários, em entrevista, repetem muito a palavra “humano”. Por exemplo:

 

“Há coisas que você não consegue explicar. Você vê que há um instrumentista nervoso na orquestra, mas de algum modo acredita que ele vai conseguir tocar aquele trecho –e ele consegue. Se você não confiar nele, e ficar nervoso também, provavelmente ele errará e atrapalhará tudo. São coisas, sabe, que acontecem entre seres humanos”.

 

Dohnányi parece ter bom desempenho nesse quesito.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h52

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Júlio Neves, sem condições

Não sou de fazer comentários pessoais e demonizar indivíduos, mas acho que não estou sozinho ao dizer que é hora de Júlio Neves pedir demissão da presidência do Masp. Ele está há dez anos nesse cargo, e não deu sinais de capacidade para superar uma crise que se aprofunda de maneira espantosa.

 

Ainda hoje leio que o tesoureiro do Masp, falando em nome da instituição, defende que cerquem o prédio com grades...!

 

Quem leu alguns artigos meus sobre o Masp sabe que não tenho nenhum fetichismo com relação à obra de Lina Bo Bardi. Mas cercar de grades o Masp já é, por si, uma idéia que mereceria levar ao impeachment de toda a direção do museu.

 

Na “Veja São Paulo” de algumas semanas atrás saiu uma matéria com idéias para superar a crise do Masp. Vale a pena ler. É impressionante a falta de iniciativas e de transparência da atual gestão. Como é possível que não exista um sistema de captação de recursos eficiente no Masp?  Será que não haveria, na sociedade paulistana, gente disposta a contribuir para fechar um rombo de 10 milhões de reais nas suas contas? Por que –segundo a revista—não ficam disponíveis na internet os balanços financeiros e relatórios de atividades do Masp?

 

E como deixam três vigias cuidando do prédio, e mais nada, depois de uma tentativa de roubo há menos de dois meses?

 

Se o Masp falir, uma cláusula no seu estatuto prevê que todo o acervo será encampado pela Pinacoteca do Estado.

 

Eis um caso em que uma entidade pública mostra mais eficiência do que a famosa “iniciativa privada” –que tem na direção do Masp representantes dos mais ilustres, mas aparentemente incapazes de gerir aquilo com padrões minimamente aceitáveis.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h02

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maestros humildes e arrogantes

maestros humildes e arrogantes

Na edição de novembro da revista Gramophone, o maestro Esa Pekka-Salonen conta um encontro que teve, nos anos 80, com o compositor polonês Witold Lutoslawski, já uma celebridade indiscutível no mundo da música contemporânea.

 

Pekka-Salonen tinha pouco mais de vinte anos na época (nasceu em 1958), e estava coberto de arrogância juvenil. Tinha estudado em profundidade algumas obras de UOL Busca Witold Lutoslawski, em especial sua Segunda Sinfonia. E notara algumas “discrepâncias na organização harmônica da peça”, ou seja, “erros, do ponto de vista técnico”. Ele ia reger a peça num festival em Berna, e lá encontrou-se com o compositor.

(veja a jovem violinista Alexandra Soumm interpretando "Subito", a última composição de Lutoslawski, aqui)

 

Foram almoçar juntos. Pekka-Salonen narra o encontro, do qual saiu envergonhado e culpado. Claro, ele estava com a partitura, e de modo bastante “imaturo”, apontou os erros da composição para Lutoslawski.

 

“Bem, isto me lembra uma história”, Lutoslawki respondeu. O jovem [maestro] Hermann Scherchen ia reger uma ópera de Hindemith, e notou montes de erros na partitura. Hindemith desobedecia as regras de sua própria composição, e Scherchen perguntou-lhe: “o que vamos fazer com respeito a esses problemas?” Hindemith respondeu: “Querido Hermann, se você não tiver sucesso como regente, você vai virar um excelente revisor tipográfico”.

 

Lutoslawski contou a história com um sorriso angelical no rosto. Depois de ouvi-la, Pekka-Salonen caiu em si: “Eu me senti completamente, e horrivelmente, estúpido. Mas aprendi muito em meio minuto. Não apenas sobre música, mas sobre a vida, sobre as pessoas, e sobre mim mesmo também... Eu, como um jovenzinho, estava terrivelmente ansioso para mostrar o que eu tinha descoberto... E Lutoslawski não apenas me mostrou o meu lugar, mas fez isso de modo muito gentil e pedagógico”.

 

Não se pode dizer que Pekka-Salonen não tenha ficado humilde depois dessa “lição”. Mas acho que o errado, na história, não era ele, e sim Lutoslawski. Confrontado com aqueles “erros técnicos” na partitura, o compositor, por mais famoso que fosse, tinha duas alternativas. Ou reconhecer que tinha errado, e tentar corrigir os detalhes ali mesmo, ou então explicar a Pekka-Salonen por que razão tinha preferido infringir as próprias regras naquela passagem.

 

Esta, a meu ver, seria a real humildade do mestre. Pekka-Salonen pode ter saído mais humilde do encontro, mas Lutoslawski, apesar de seu sorriso angelical, continuou com a arrogância de sempre. Devia é ter agradecido e elogiado um jovem maestro que tinha estudado tão cuidadosamente sua partitura.

 

UOL Busca Esa Pekka-Salonen

Escrito por Marcelo Coelho às 19h55

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latinhas recicladas

latinhas recicladas

Na linha da arte popular, recebi de uma leitora do blog algumas imagens de um concurso de reciclagem de latinhas, creio que patrocinado por uma marca de cerveja, na Turquia. Há um caminhãozinho que é um primor:

  

Há também um trompete interessante, mas o mais legal é o barzinho em miniatura que se pode ver em segundo plano.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h56

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Argumento forte

Se algum dia eu cometer algum crime, não tenho dúvidas quanto ao advogado que vou procurar. Fiquei espantado com a vitória de César Borges, defensor de um dos acusados do assassinato da missionária Dorothy Stang.

 

Não vi o processo, é claro, e me baseio na notícia de jornal. César Borges conseguiu que o julgamento fosse anulado porque um dos argumentos da defesa não foi submetido a exame do júri.

 

O argumento era que a freira chegou a ameaçar o acusado antes do crime.

Se comprovada a tese, não é que o assassino vai ser absolvido por legítima defesa, mas sua pena pode ser reduzida em até um terço.

 

Freira perigosa, essa. Pior até que o bispo Cappio, que ameaça apenas morrer de inanição.  

 

    

slide utilizado em antigos truques de fantasmagoria

Escrito por Marcelo Coelho às 19h40

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voltaire de souza

Um dos hábitos do cronista do "Agora" são as histórias natalinas. Aqui vai uma.

 

BRILHOS DO NATAL

 

 

Esta época do ano é cruel para os corações solitários.

Elizabeth tinha cerca de quarenta anos.

Há muito tempo sem encontrar um amor.

Do alto de seu apartamento no Ipiranga, ela via as luzes de Natal.

--E eu não tenho com quem festejar.

A família longe. As amigas meio arredias.

A noite chegava com jeito de chuva. Elizabeth adormeceu no sofazinho.

Umas batidas no vidro da sacada.

--Abre... abre, por favor...

Entre chuvas e relâmpagos, o vulto de um homem gordo surgiu.

--Na sacada do décimo andar? Como pode? Será o Papai Noel?

Não era. Tratava-se do sr. Martinho. Zelador do edifício.

Instalando as lâmpadas chinesas da decoração natalina.

Elizabeth abriu a porta da sacada e o próprio coração.

O sr. Martinho enrolou-se em seu corpo como um fio elétrico em volta de um pinheirinho triste. Luzes se acenderam na mente da mulher solteira.

--Djingo béu, djingo béu...

Pessoas solitárias são como lâmpadas. Brilham quando ligadas na tomada.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h15

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Chauí e o totalitarismo

Seria a distinção entre “autoritarismo” e “totalitarismo” uma invenção da direita, em tempos de Guerra Fria? A idéia básica é que regimes militares, como os do Brasil, Chile e Argentina, durante os anos 70, merecem a qualificação de “autoritários”, porque repressivos e antidemocráticos, mas não “totalitários”, porque não pretendiam, como o nazifascismo e o comunismo, impor normas a todos os aspectos da vida social. Falava-se, por exemplo, em “arte proletária” ou em “arquitetura nazista”, num modelo de família, de educação, típicas do fascismo, ou de um “novo Homem” a surgir a partir da revolução bolchevique... Ambições que os regimes militares não possuíam, apresentando-se, no mais das vezes, como interregnos emergenciais, necessários para preparar determinada sociedade à “volta” de uma “verdadeira democracia”.

 

Cito em seguida parte do depoimento de Marilena Chauí sobre os 30 anos da criação do Cedec, publicado na revista Lua Nova no. 71, de 2007. Quatro temas, segundo a filósofa, eram muito discutidos na época, e tiveram papel importante durante a formação do Cedec—um instituto de pesquisa e reflexão política, nos moldes do Cebrap, fundado em 1978.

 

O primeiro tema era a da crise de legitimidade do “sistema” –a estrutura de poder montada pela ditadura. O segundo tema era o do autoritarismo na América Latina. Eis um trecho do depoimento:

 

Havia um debate que, de alguma maneira, estava polarizado entre duas interpretações a respeito desse autoritarismo: seria ele uma resposta a uma necessidade histórica (política) ou a uma necessidade econômica (o surgimento do capital multinacional)? Pela esquerda, vinha a explicação econômica, através de Enzo Faletto (Flacso contra Cepal) e Fernando Henrique Cardoso (Cebrap), isto é, a teoria da dependência. Pela direita, partindo do sociólogo espanhol radicado nos Estados Unidos e ligado ao Departamento de Estado norte-americano, vinha a explicação política, isto é, a diferença entre autoritarismo e totalitarismo, posição que foi encampada por intelectuais brasileiros como Bolívar Lamounier, Celso Lafer e José Guilherme Merquior. (...)

 

[Segundo a teoria da dependência] o autoritarismo aparecia como conseqüência da fraqueza do capital nacional, que precisava de um Estado ditatorial para estabelecer a relação com o capital internacional. Por seu turno, Juan Linz dava-se como tarefa a defesa do franquismo. E para isso propunha uma tipologia para diferenciar o autoritarismo do totalitarismo, afirmando que este último é a forma política do marxismo e se distingue do autoritarismo porque é imóvel, sem contradições, fixado, de uma vez por todas, sob a forma da coação, da repressão, do supertrabalho e do domínio do Estado; sobretudo, é uma ideologia (entendendo-se por ideologia não o conceito marxista, mas a concepção de muitos sociólogos norte-americanos para os quais a ideologia é um conjunto coerente de idéias que explicam a totalidade do mundo e são defendidas por um partido político). O autoritarismo, em contrapartida, não é uma ideologia; é temporário, limita algumas liberdades, mas não todas, opera politicamente sob uma Constituição e com o Poder Legislativo etc. Na América Latina, havia autoritarismo como defesa do continente contra a ameaça do totalitarismo, isto é, do comunismo.

Lembro-me de ter lido Juan Linz na década de 80, mas não posso jurar sobre o que ele dizia ou não dizia. Acho muito estranho, entretanto, demonizar desse jeito uma tipologia perfeitamente razoável, estabelecendo diferenças entre regimes autoritários e totalitários. Isso não significa defender os primeiros.

 

Em se tratando de Marilena Chauí, tão próxima, naquele tempo, às críticas ao regime soviético formuladas pelo grupo “Socialismo ou Barbárie”, de Lefort e Castoriadis, a recusa a essa distinção é das mais inexplicáveis. Foi justamente o tempo em que o termo “totalitarismo”, antes utilizado apenas no contexto da direita na Guerra Fria, ganhou trânsito entre os intelectuais de esquerda. Quando se falava em “radicalização” da democracia, em movimentos sociais (contra a lógica burocrática dos partidos de esquerda), em certa “reinvenção” da política, uma das inspirações era o “Solidariedade” de Lech Walesa. O PT surgiu, nesse contexto, como uma espécie de “não-partido”, sendo acusado pela esquerda tradicional de “obreirismo”, “espontaneísmo”, falta de leninismo etc... E seria uma resposta de esquerda aos males da burocratização, do culto à personalidade, dos “desvios” e do... totalitarismo que imperavam no campo soviético.

 

Quando alguém como Marilena Chauí minimiza a questão do totalitarismo, ou pelo menos desconfia do termo, acho que está se esquecendo da própria história da esquerda, e do PT, dos anos 80 para cá.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h20

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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