Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

latinhas recicladas

latinhas recicladas

Um leitor manda esta foto de uma panelinha de pressão, feita com lata de cerveja. Bem bonito foi o uso do abridorzinho como trava da panela. Foi comprada em Londrina.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h40

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pizzas e cia. | PermalinkPermalink #

Abaixo-assinado pelo Masp (2)

Eis a lista das personalidades que já assinaram:

Diretores e ex-Diretores de Entidades e Personalidades ligadas à Gestão Pública da Cultura, aos Museus, ao Patrimônio Cultural, às Humanidades e às Artes em Geral

 

Agnaldo Farias, Crítico, Curador e Professor Universitário, USP

Cacilda Teixeira da Costa, Curadora

Célio Turino, Secretário de Programas e Projetos do Ministério da Cultura

Fábio Magalhães, Crítico, Curador, ex-Curador-Chefe do Masp, ex-Diretor do Memorial da América Latina

José Arthur Giannotti, Filósofo, co-fundador e ex-Diretor do CEBRAP, Professor Universitário Aposentado, USP

Lilia Moritz Schwarcz, Curadora e Professora Universitária, USP

Luiz Camillo Osorio - Crítico e Professor Universitário, UNIRIO e PUC-RJ.

Luciano Migliaccio, Curador e Professor Universitário, USP

Luiz Marques, ex-Curador-Chefe do Masp, Professor Universitário, Unicamp

Luiza Strina, galerista

Magaly Cabral, Diretora do Museu da República, RJ

Manuela Carneiro da Cunha, Antropóloga, University of Chicago
Mauro W. Barbosa de Almeida, Antropólogo, Unicamp
Nelson Aguilar, Crítico, Curador e Professor Universitário, Unicamp

Paulo Sérgio de Moraes Sarmento Pinheiro, UNICEF

Sandra Regina Ramalho e Oliveira, Presidente da ANPAP (Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas)

Sonia Guarita do Amaral, Museóloga

Tadeu Chiarelli - Chefe do Depto de Artes Plásticas ECA-USP. Ex-curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo

William Daghlian, Professor de Piano. Doador de numerosas obras de arte ao Masp

 

 

Universidade e Demais Setores da Sociedade Civil

 

Alcir Pécora, Professor Universitário, Unicamp

Aldo Arantes

Amarilio Ferreira Jr., Professor Universitário, UFSCar

Augusto César Buonicore, Instituto Maurício Grabóis

Bruno de Matos Fiuza, Historiador e Editor da revista História Viva

Carlos Alberto Dória, Sociólogo, Doutorando, Unicamp

Carlos Eduardo Ornelas Berriel, Professor Universitário, Unicamp

Carlos Marigo, Musicólogo, Doutorado, Université de Paris I

Cristiane Rebello Nascimento, Professora Universitária, FACAMP

Danila Zanon, Mestra em História, Unicamp

Edson Françozo - Depto. de Lingüística, IEL-UNICAMP

Edvaldo Soares de Magalhães

Elaine Dias, Pós-Doutorado em História da Arte, USP

Elisa Lustosa Byington, Doutorado em História da Arte, Unicamp

Fabiane Dutra Oliveira

Fernando Tadeu Caldeira Brandt, Professor Universitário, USP

Francisco Achcar, Professor Universitário aposentado, Unicamp

Heloísa Fernandes, Professora Universitária, USP

Iliana Grinstein, designer, IED

Irene Ruth Hirsch, Professora Universitária, UFOP

João Quartim Moraes, Professor Universitário, Unicamp 

Joatan Vilela Berbel, Consultor em Projetos Culturais

José Roberto Guedes de Oliveira, Historiador

Mamede Mustafa Jarouche, Professor Universitário, USP

Maria Antonia Couto da Silva, Doutorado em História da Arte, Unicamp

Maria de Sousa Pereira, Socióloga, UFC

Maria Cecília Carneiro da Cunha, Aposentada

Maria Cristina Louro Berbara, Professora Universitária, UERJ

Maria Elena Bernardes, Pesquisadora, Unicamp

Mariana de Campos Françozo, Doutorado, Unicamp

Marilena Bittar,  Professora Universitária, UFMS

Mariluce Bittar, Professora Universitária, UCDB

Marina Massimi, Professora Universitária, USP

Mário Cézar  Ferreira, Professor Universitário, UnB

Mário Henrique Simão D’Agostino, Professor Universitário, USP

Marsia Bittar, Professora Universitária, UFSCar

Miriam Laranetto

Patrícia Vieira Trópia, Professora Universitária, PUC-Campinas

Paulo Elias Allane Franchetti, Professor Universitário, Unicamp

Raphael do Sacramento Fonseca, Mestrado, Unicamp

Raul Weber Abramo, Professor Universitário, USP

Rodrigo Ferreira Rezende, Professor Universitário, UnB

Sabine Pompéia, Professora Universitária, Unifesp

Samuel Sérgio Salinas, Procurador de Justiça aposentado, fundador do Ministério Público Democrático

Silvio Costa - Professor Universitário, PUC-Goiás

Tito Martino

Vanderley Caixe – advogado, diretor da revista O Berro

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h03

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Abaixo-assinado pelo Masp

Recebo, por e-mail, o texto do abaixo-assinado pedindo que o Estado passe a gerir o Masp. Para quem não leu, vai aqui a íntegra.

 

SOS MASP: Apelo aos Poderes Públicos

 

O Museu de Arte de São Paulo é de há muito uma instituição enferma, sem recursos e sem direção profissional. Seu estado hoje é terminal, como bem exemplificado pelo furto do Picasso e do Portinari. Faz-se imperativa, portanto, a intervenção dos poderes públicos. Para além do que compete fazer no plano judicial, é preciso encontrar uma fórmula jurídica que garanta ao Museu as condições  necessárias para melhor cumprir sua missão formadora de cultura.

O problema a ser atacado de frente é de ordem institucional, pois, deste ponto de vista, o Masp é uma aberração: não sendo uma fundação, não dispõe de dotação original; não sendo, por outro lado, um museu do Estado, não é amparado por lei orçamentária. O mais importante Museu de Arte do hemisfério sul é uma sociedade civil de direito privado, constituída por algumas dezenas de associados que não contribuem para a manutenção de sua associação. Essa sociedade outorga-se a gestão de um patrimônio formado, em parte, por doações de beneméritos já falecidos e, em grande parte, por um aporte oriundo da Caixa Econômica Federal, vale dizer, do Estado brasileiro. Ora, tal patrimônio, público em sua essência, exige uma injeção constante de crescentes recursos, materiais e humanos, que esses associados se demonstraram incapazes de arregimentar. Portanto, a realidade incontornável é de uma singela simplicidade: os investimentos necessários para evitar outros furtos e reverter o processo de profunda degradação do Museu estão fora do alcance da sociedade que o controla.

A passagem do Masp à esfera dos poderes públicos afigura-se como uma solução altamente positiva. O bom desempenho de instituições como a Pinacoteca do Estado, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e o Museu da Língua Portuguesa demonstra uma notável racionalização na gestão pública da cultura. É preciso adotar para o Masp um estatuto jurídico e um modelo de gestão à imagem e semelhança dessas instituições que têm dado certo. Ao garantir o fluxo de recursos e uma direção confiada a um profissional da área (assessorado por um conselho científico), tal fórmula jurídica permitirá sanar duas das causas maiores da crise aguda do Museu.

O prédio do Masp é um próprio da Prefeitura, cedido em comodato à sociedade Masp por 40 anos. Ele deverá ser devolvido em 12 de novembro de 2008. A ocasião é perfeita para se retirar das instâncias privadas vigentes o controle do Museu e para se inaugurar uma outra fase de sua história, mais eficiente e sobretudo mais compatível com suas necessidades atuais e futuras. A municipalidade de São Paulo não possui um grande Museu de Arte. É mais que chegado o momento de preencher esta lacuna: que os poderes públicos – do Município, do Estado e/ou da Federação – intervenham para permitir que o Masp torne-se, enfim, o Museu de que a megalópole que somos necessita!

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h00

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O papa e a razão

Continuo aqui os comentários sobre a nova encíclica do papa, que já foi assunto de posts anteriores.

 

Ratzinger afirma que a fé não se resume a uma questão de convicção individual. “Como é que se chegou”, pergunta, “a considerar o cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros”?

 

O erro, segundo Ratzinger, vem com a própria idade moderna. A descoberta da América e as novas conquistas da técnica inauguraram uma nova época na história humana. A encíclica elege como alvo as concepções de Francis Bacon (1561-1626), que confiava numa “vitória da arte sobre a natureza”, ou seja, numa nova correlação entre ciência e prática; a redenção não viria da fé, mas da possibilidade de se instaurar, neste mundo mesmo, “o reino do homem”.

 

Desse modo, diz Ratzinger, a fé passou a ser entendida como algo irrelevante para o mundo. “Esta visão programática determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia inclusive a atual crise da fé que, concretamente, é sobretudo uma crise da esperança cristã.”

 

 

Progresso, razão, liberdade: são estes três conceitos que o papa considera necessário criticar, ou, pelo menos, reduzi-los a dimensões mais modestas. O leitor da encíclica pode ver com clareza que o estigma de “reacionário” e “conservador”, que se aplica freqüentemente ao papa, está longe de ser um mero clichê jornalístico.

 

Ratzinger combate a idéia de que razão e liberdade possam “garantir, por si mesmas, em virtude de sua intrínseca bondade, uma nova comunidade humana perfeita”. E recorre a dois exemplos fartamente conhecidos: a revolução francesa e a revolução russa, que visando a instituir uma comunidade perfeita produziram os assassinatos e os horrores que se conhece.

 

Sempre me pergunto, nessas ocasiões, por que sociedades desenvolvidas e livres, como Holanda ou Dinamarca, nunca são lembradas como experiências sociais bem-sucedidas dentro desse mesmo espírito de “modernidade” que o papa quer criticar... Dois países protestantes, aliás.

 

Para combater os ideais modernos de razão e liberdade, o papa utiliza um recurso bastante capcioso. O socialismo defendido por Marx não deu certo, diz Ratzinger, porque “o homem permanece sempre o homem”. Marx esqueceu “que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis.”

 

Acho que há formas mais convincentes de explicar o fracasso do sistema soviético, ou os horrores de Robespierre, por um excesso de confiança na razão e na liberdade... Se foram terríveis os crimes cometidos nesses períodos, eles o foram exatamente porque atentaram contra a razão e a liberdade humanas. E todo historiador sabe perfeitamente que, na Rússia de 1917, as condições econômicas eram tudo, menos “favoráveis” ao projeto que se queria implantar.

 

Por outro lado, como fica a “esperança” quando alguém afirma que o “homem permanece sempre o homem”? Ao contrário, vejo que, em condições materiais favoráveis, não é que todo mundo se torne santo –mas as possibilidades de se transformar num genocida ao estilo de Darfur tendem a diminuir. Em determinada sociedade, a maioria da população se entrega a festins de violência, racismo e intolerância. Em outra sociedade, o número de psicopatas decresce a uma minoria estatística. O materialismo, embora não explique tudo, ajuda muito.

 

Quanto à razão, Ratzinger admite que seja um grande dom de Deus à humanidade. Mas, pergunta, “a razão inteira reduz-se à razão do poder e do fazer?” Certamente, não. Mas o argumento de Ratzinger leva a identificar o domínio da razão com o domínio da ciência. Ninguém ignora que a ciência, sozinha, pode ter efeitos tão benéficos quanto devastadores. Cria remédios e bombas atômicas. Por isso mesmo, podemos falar em usos “racionais” e “irracionais” da tecnologia. Não é preciso abandonar o conceito de razão quando se quer criticar, por exemplo, o uso de armas químicas... Mas, para Ratzinger, armas químicas seriam um exemplo de um excessivo domínio da razão...  Claro que, com esse estratagema, só a Fé se apresenta como remédio para nossos males.

 

“Não é a ciência que redime o homem”, prossegue o papa. “O homem é redimido pelo amor.” Mas não é preciso, a meu ver, jogar com uma alternativa tão radical e desbalanceada. Que tal se disséssemos: “Não é a ciência que redime o homem; o homem é redimido pela razão”? Não sei de horrores na história humana que não tiveram a razão entre suas primeiras vítimas. Sei de muitos horrores, entretanto, que tiveram a fé do seu lado. Mais respeito, por favor, com a razão –essa velha senhora é acusada de crimes que não cometeu.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h54

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Um poema de Ron Padgett

Um poema de Ron Padgett

Eis alguns versos que podem fazer sentido nesta época do ano. Insisti no uso do gerúndio, ao traduzir, porque o aspecto coloquial, tenso e culpado do poema se beneficia com isso. O poeta se chama Ron Padgett, e o poema está no livro How to be perfect

 

Às vezes quando eu ligava

para minha mãe lá em Tulsa, ela

dizia “espera um pouco, Ron, deixa

eu abaixar essa coisa”, e a coisa

era o som da televisão, e ela

ficava procurando o controle remoto

e se confundia com aqueles botõezinhos

enquanto a minha irritação ia crescendo

e a impaciência e eu tinha vontade de explodir

com ela dizendo “você assiste televisão demais

e muito alto e por que você não passeia um pouco

fora de casa” porque eu não tinha jeito

de encarar o medo que eu tinha da velhice

dela e do meu coração que ficava indiferente

a ela ainda amando ela mas sem querer

largar da minha própria vida vivendo

perto dela de modo que ela me visse todo dia

e não ficasse só me ouvindo, e é por isso

que ela abaixava o volume da TV e dizia,

“Agora melhorou”, e de vez em quando

se abria num relato em detalhes

de não sei que porcaria ela estava assistindo.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h49

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

humildade e arrogância

Um pouco mais sobre gênio e humildade. Acaba de sair um livro autobiográfico de James Watson, um dos maiores cientistas de nosso tempo (descobriu, junto com Francis Crick,a estrutura do DNA): Avoid Boring People.

 

A carreira de James Watson, como é notório, acabou mal recentemente: o prêmio Nobel de 1953 foi despedido do emprego por ter afirmado, numa ridícula especulação, que os negros não são tão inteligentes quanto os brancos.

 

Coube a um embaraçado geneticista americano, Jerry Coyne, escrever para o Times Literary Supplement de 14 de dezembro uma resenha do último livro de James Watson.

 

Não dava para deixar de mencionar os últimos papelões do grande gênio. Mas Jerry Coyne tenta salvar a “complexidade” da figura, e conta o seguinte episódio.

 

Toda vez que trato de julgar Watson, meus pensamentos se voltam para uma tarde de sábado na primavera de 1992 –Dia dos Alunos na Universidade de Chicago. Eu e um colega estávamos conversando no laboratório, quando sentimos a aproximação de um mal-ajambrado senhor de idade, cheio de indomadas mechas de cabelo branco. Ele nos informou que a sala em que estávamos era uma sala de aulas práticas no tempo em que ele era estudante. Meu colega disse para ele que agora o lugar era utilizado para pesquisas sobre DNA. “O que é que vocês fazem com DNA?”, perguntou o velhinho. Vendo que o visitante não conhecia nada sobre moléculas, meu colega ofereceu-lhe uma explicação detalhada e paciente sobre como ele estava identificando a seqüência de um fragmento de DNA, e para isso usou a analogia de contas coloridas num colar. O velhinho ouviu tudo com atenção e entusiasmo, assentindo esporadicamente para os detalhes que tinha entendido.

 

Os alunos mais velhos finalmente o apresentaram. Meu colega, que ficou roxo de vergonha, percebeu que estava explicando o DNA, como se fosse para uma criança, para Jim Watson. Mas, longe de ficar ofendido, Watson ficou tão contente de saber que um cientista tinha gasto tanto tempo e atenção para explicar o seu trabalho, que dotou nosso departamento de uma generosa bolsa de conferências.

 

Como se pedisse desculpas a Watson por ter aludido a seu racismo, Jerry Coyne termina o artigo com a seguinte frase: “assim, também assim, é o real –e complexo—Jim Watson”.

 

Como no caso de Esa Pekka-Salonen, citado em post anterior, o discípulo parece excessivamente reverente ao mestre. Não consigo ver, na narrativa de Jerry Coyne, outra coisa além da perversidade de um prêmio Nobel se fazendo de bobo diante de pesquisadores inocentes. É a partir de uma posição de extremo poder –poder quase aterrorizante—que James Watson brinca de gato e rato com os dois jovens cientistas. Estaria pronto a destroçá-los a qualquer deslize.

 

 

É pelo alívio de não ter sido destroçado que Jerry Coyne se mostra agradecido. Do mesmo modo, Esa Pekka-Salonen cultua as lições que recebeu de Lutoslawski pelo simples fato de este não ter reprimido com uma bronca homérica sua audácia juvenil. Gênios como Lutoslawski e James Watson bem que poderiam ter recebido, nesses episódios, uma boa lição. Mas, se não as tiveram, é porque Jerry Coyne e Esa Pekka-Salonen não são gênios. 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h52

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

o papa performático (2)

 

 

 

 

 

Para quem sempre soube que havia três virtudes, não me lembro se teologais ou cardinais—a fé, a caridade e a esperança—é bastante estranho ver, na encíclica do papa que estou comentando, uma identificação quase que perfeita entre “fé” e “esperança”.

 

Bento 16 desenvolve uma erudita exegese dos textos canônicos para estabelecer esse ponto. O que será que ele pretende? Talvez dizer que não pode haver esperança fora da fé... vejamos.

 

Os cristãos, diz Ratzinger, “sabem em termos gerais que sua vida não termina no vazio”. Qual o sentido do verbo “saber”, nessa frase? Se fosse apenas uma esperança, seria apenas o que todo mundo deseja. Mais do que uma esperança, é um “saber”; poderíamos traduzir o termo por “convicção”.

 

Isso, entretanto, não basta para o papa. Convicções são crenças individuais. Está entretanto em jogo a fé, ou seja, algo que transcende o indivíduo. O erro do protestantismo, segundo o papa, foi justamente confundir fé com convicção individual. A salvação, nesse sentido, seria muito pobre se se concentrasse neste ou naquele indivíduo, agraciado com ela.

 

Simpático, porém terrível: a mensagem do Evangelho não se restringe, modestamente, ao âmbito de cada pessoa, mas só será efetiva se envolver a vida de toda a comunidade... Não estaremos então, diante de um sonho totalitário e católico ao mesmo tempo? Importa evangelizar a sociedade inteira, não levar a boa nova a cada alma individual. Foi sem dúvida esse o pressuposto de todo o catolicismo de esquerda. Ratzinger, evidentemente, elimina o esquerdismo da mensagem, mas mantém o ímpeto legislador do cristianismo sobre a sociedade em seu conjunto.

 

Não seria melhor dissociar, de vez, esperança e fé? Posso ter esperança em dias melhores, esperança no progresso, sem precisar para isso de nenhuma fé religiosa...

 

Vê-se claramente, então, qual o objetivo da encíclica. Trata-se de combater os esperançosos sem fé, e de combater os religiosos que vêem na fé uma simples questão de convicção (ou de graça divina). A saber, esquerdistas e protestantes.  Eis um trecho da encíclica:

 

como pôde desenvolver-se a idéia de que a mensagem de Jesus é estritamente individualista e visa apenas o indivíduo? Como é que se chegou a interpretar a “salvação da alma” como fuga da responsabilidade geral e, consequentemente, a considerar o programa do cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros?

 

Um esquerdista haveria de exultar com essas preocupações papais. Mas a encíclica se encaminhará para outros objetivos. Depois continuo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

voltaire de souza

Mais um conto natalino do cronista do "Agora".

 

NOEL NO ARMÁRIO

 

Natal. Tempo de ver a família.

Beatriz estava nervosa. Tinha uma notícia importante a comunicar.

--O pessoal lá de casa é tão preconceituoso...

Mas seu amor era mais forte.

--A Carla. Só ela me fez sentir uma mulher.

O plano era apresentar a nova namorada na festa de Natal.

A mãe de Beatriz, contudo, tinha outras preocupações.

--O Gonçalo está mal de saúde. Já não levanta da cadeira.

A velha roupa de Papai Noel ia ficar no armário.

--Quem vai fazer a alegria das crianças?

Um sorriso iluminou o rosto de Beatriz.

--Deixa que eu cuido disso.

Carla foi avisada. Tinha o necessário. A obesidade. O riso fácil e espontâneo.

--Hô – hô- hô. Só preciso da barba e do saco.

O namoro foi bem recebido pela família.

Na base do peru e do bate-o-sino-pequenino.

A sexualidade humana é como roupa de Papai Noel.

Na hora certa, acaba saindo do armário.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h20

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

o papa performático

Comentei, no artigo desta quarta-feira, alguns trechos da encíclica de Bento 16 sobre a esperança e a fé. Infelizmente, o espaço foi curto para analisar sua argumentação, que a meu ver tem a virtude de se dirigir não aos católicos exclusivamente, mas a todo leitor de boa fé –mesmo o que for ateu, como é o meu caso.

 

Discordei logo do início da encíclica, em que Ratzinger aponta o que considera ser um “aspecto performativo” da mensagem cristã. Ele se refere ao clássico livro do filósofo analítico J. L. Austin, How to do things with words. Austin examina uma série de enunciados que seria tolo perguntar se são “verdadeiros” ou não.

 

Por exemplo. Se um padre, depois de ouvidos os votos sacramentais, declara alguém marido e mulher, o casamento se fez: a frase do padre efetivamente “mudou” o mundo, e é a condição essencial para que Fulano e Fulana se tornem, de fato, marido e mulher. O mesmo quando alguém diz: “está encerrada a sessão”. A sessão, por meio dessa frase, foi de fato encerrada.

 

Ratzinger afirma que, nesse sentido, também o Evangelho é “performativo”. “Não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber [por exemplo, a da Salvação da alma], mas uma comunicação que gera fatos e que muda a vida”.

 

Ele continua, belamente: “a porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova”.

 

Mas Bento 16 está ampliando, nessa passagem, de forma indevida o conceito do “performativo”. A circunstância de um enunciado produzir efeitos reais não é suficiente para tornar esse enunciado “performativo” no sentido estrito.

 

Inúmeros enunciados geram efeitos. Se ouço pelo rádio que um furacão se aproxima, procuro um abrigo. Se a previsão é de tempo ruim, saio com um guarda-chuva. A frase que ouvi no rádio muda o meu comportamento. Mas não mudou a realidade, do mesmo modo que uma frase performativa é capaz de fazer.

 

Se o presidente de uma mesa-redonda diz: “estão abertas as inscrições para os debates”, isso automaticamente abre as inscrições para os debates. Não é a mesma coisa, por exemplo, do que o efeito que uma previsão do tempo possa ter sobre o comportamento individual (que envolve o ato de acreditar ou não no meteorologista). Trata-se de um estado de coisas que passa a ser instituído pela simples autoridade (reconhecida) de quem fala.

 

Nada mais católico, no fundo, do que minimizar essa diferença, como faz a encíclica do papa. Pois a base da fé católica está na autoridade ritual, sacramental, de uma hierarquia. Se alguém disse, está falado. Isso vale na vida cotidiana, nos enunciados performativos descritos por Austin. Não vale, entretanto, na vida intelectual moderna, onde o “quem diz” é menos importante do que a verificabilidade e o conteúdo do que foi dito.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h04

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.

free stats