Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
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fim-de-semana

Provavelmente não vou poder blogar nos próximos dias. Segunda ou terça estou de volta. Até lá!

Escrito por Marcelo Coelho às 20h24

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leão rampante

leão rampante

Para voltar a exemplos de publicidade popular, não menos estranhos, mas de psicologia mais inteligível, eis aqui alguns cartazes de pizzaria na Chácara Klabin.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h39

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mistérios da publicidade

No artigo de hoje para a Ilustrada, comentei alguns anúncios e marcas que me parecem carentes de qualquer explicação. Difícil saber, por exemplo, o que aquele burocrata russo tem a ver com uma empresa de TV a cabo, o que o nome Apple tem de sugestivo para se tornar marca de computador, e por que uma agência de publicidade resolveu adotar o nome de África. Assinantes podem ler aqui.

Alguns leitores mandaram por e-mail explicações muito interessantes para as questões que eu estava tentando resolver. Seguem-se duas mensagens que recebi.

Apenas a título de informação com respeito ao seu texto “A foice e o

martelo” de 02.01.08; a maçã como logotipo característico da empresa de

Computação Apple, deve-se evidentemente ao nome da empresa, mas este foi

escolhido, segundo informações oficiais, em homenagem a Issac Newton e sua

famosa lei da gravidade atribuída à observação da queda de uma maçã. O

logotipo da empresa, como uma maçã mordida foi criado em 1976 pelo

designer gráfico Rob Janoff no qual as cores do arco-irís, adotadas como

cores internas do logotipo até 1998, pode ser entendida como a difração da

luz branca em cores primárias, igualmente estudada por Newton.

Contudo, há uma grande tendência em admitir o logo da Apple é uma

homenagem ao matemático inglês Alan Mathison Turing, por muitos aceitos

como o pai da computação e que desenvolveu a “lógica” básica da moderna

programação. Alan se suicidou em 1954, ingerindo uma maçã previamente

contaminada com cianido. Era homossexual assumido e a maçã mordida nas

cores do arco-íris seria uma referencia direta à opção sexual desse

matemático.

 

* * * * *

 

...o personagem da NET veicula a seguinte mensagem: comunismo = internet acessível para todos.

 

Apple = gancho no sucesso da gravadora dos Beatles, em um momento (anos 80) em que o mundo ficava órfão de seus sucessos e a marca, com alta visibilidade e associações afetivas implementadas nas mentes consumidoras, perdia seu impacto (a marca processo Jobs anos depois).

 

África = continente mal aproveitado com grande potencial para o futuro.

 

De todo o modo, símbolos publicitários são feitos de aglutanações e assim recebem aportes significantes complementares:

Comunista da Net = internet gratuita + disciplina militar + alusão a território gigantesco + conceito do espião (que é tanto aquele que se infiltra, quanto o que possui um 'segredo' capaz de dominar o mundo -um mundo 'dos NET'), etc.

 

 Apple = logo da gravadora dos Beatles + desenho límpido, simétrico, pecado-prazer, etc.

 

África = continente com potencial de ser aproveitado melhor + política de reparação de desigualdades + valorização das diferenças, etc.

 

O problema que você trata no texto em questão versa sobre o que se chama 'implicatura' (em tradução livre de 'implicature' do inglês), que é relativo às intenções por trás do discurso. De fato, a língua é um veículo à intencionalidade e, tal como os problemas da substitutividade (de substitutivity) revelam (ver Carnap, Quine, Frege), não há redução possível da cognição a um sistema referente, não havendo igualmente, redução ponto a ponto a um sistema de referenciação.

Isto é, para além destes exemplos extremos que o senhor localiza, o mesmo princípio 'relativamente arbitrário' se impõe na fala convencional.

 

[PS]

Desculpe,

mas creio que deixei alguns pontos muito em aberto:

quando disse que este mesmo problema se estabelece na língua como um todo, sob os desígnios da 'substitutivity' (vai assim mesmo pois nunca vi isso em português) eu quis dizer o seguinte:

Considerando que 'África' seja uma etiqueta sobre um engrama (um simbolo é algo que substitui outro algo -ver Newell e Simon) e supondo que 'cadeia' e outros símbolos, também o sejam, o problema relativo à razão da agência de publicidade receber este nome, após o continente, remete-se ao problema de um conjunto de lojas adquirir o outro, após 'prisão'.

Em face desta conjuntura, o ponto principal é que a solução não está sempre nos efeitos (aqueles que lhe causam surpresa em face de sua aparente arbitrariedade), ela é historicizada sobre a rede de associações cognitivas cuja intencionalidade não é, ponto a ponto, identificada com algo exterior (uma história solipsista dos agentes linguísticos).

Por exemplo: me parece que cadeia (de lojas) vem de 'chain', que na verdade é 'corrente' -expressando que estas estão ligadas- e corrente é que foi associado à presos e então à cadeia. Eventualmente por uma má interpretação, eventualmente porque corrente já estava ocupada com um sentido muito forte (religioso, etc) no português, de modo que não seria vantajoso entrar nesta seara.

 

Em tempo: acabo de receber mais uma explicação de um leitor.

 

 

 

Gostaria de compartilhar minhas dúvidas sobre o russo da Net, também não compreendo.

Mas o porque da maçã, símbolo da Apple,

é um pouco mais simples.

Jeff Raskin, um dos idealizadores da Apple,

era um grande apreciador de maçãs da variedade Macintosh (vulgo Mac),

daí surgem os nomes, empresa e produto.

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h11

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os mortos na sala de jantar

Em post anterior, sobre cáries e dentistas, falei de escavações que acabam vitimando não apenas nossos dentes, mas toda a nossa existência; ocorreu-me dizer, algo sinistramente, que o tempo, a cada dia, fabrica nossa própria tumba.

         Vejo agora que a imagem não era integralmente minha. Eu já havia dado uma olhada em Os Mortos na Sala de Jantar, livro de poemas de Ademir Demarchi (editora Realejo, Santos), de onde inconscientemente tirei a comparação e o estado de espírito. Em “Da Individualidade Intransferível”, o poeta escreve:

 

         cada um cava

      seu próprio túmulo

 

E todos os poemas do livro tratam, obsessivamente, da morte. Curioso como existem, na literatura universal, tantos versos de amor e tão poucos, comparativamente, sobre a morte. Sem dúvida, há muitos poetas que falam da brevidade da existência, ou que meditam em cemitérios. Mas a morte em geral é pensada abstratamente, não na sua fisicalidade extrema, que assombra Ademir Demarchi, e motiva uma espécie de humor mais que negro, macabro. Alguns exemplos.

 

EPITÁFIOS

        

                  epitáfios são epígrafes

         de histórias que continuam

                  túmulo adentro

 

 

                   O TÚMULO DE GENGIS KHAN

 

 

 

                   o túmulo de gengis khan

 

 

                            existe

 

             mas não pode ser encontrado

pois os mongóis tinham por hábito

pisotear a cavalo sobre os túmulos dos seus chefes

                até que não mais se pudesse

             distingui-los  da  terra  ao  redor

 

 

PRIMEIRA GUERRA BIOLÓGICA

 

 

         na batalha de kaffa

colônia genovesa da criméia

           em 1346 os tártaros atacaram a cidade

             bem instalada ela resistiu o que pôde

                   dizimando parte da horda

 

 

 

                                  até que

                            mudando de tática

                       com o uso de catapultas

                           os tártaros lançaram

                         por cima das muralhas

                   os cadáveres dos seus soldados

                       mortos pela peste bubônica

 

 

 

Apesar disso, faço votos de um feliz 2008 para todos nós. 

 

    

                   arqueiro mongol

Escrito por Marcelo Coelho às 23h19

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O livro mudo do mundo

O livro mudo do mundo

Não dá para postar na íntegra “Assinatura”, o belo poema que leio em Pedra de Luz, de Rodrigo Petrônio (editora A Girafa), mas as estrofes que reproduzo abaixo já são suficientes, acho, para dar idéia da grande imaginação poética do autor, nascido em 1975.

 

Ele não tem medo dos poemas longos, das palavras “nobres”, como “amaranto”, “vinhas”, “alfombra”, “safira”, nem dos versos que são bonitos, bonitos sozinhos, sonoramente, e antiquadamente, como

 

Âmbar diáfano que teu coração irriga

(“Música natural”)

 

ou

 

Em algumas carícias breves abatida

 

(“Estampas de Minas)

 

Rodrigo Petrônio também não procura esconder as influências variadas (Rilke, Augusto dos Anjos, Dora Ferreira da Silva, Augusto Frederico Schmidt) que retornam com freqüência aos seus poemas, e que muitas vezes são o ponto de partida para um diálogo explícito com algumas obras que lhe servem de inspiração. Assim, “Memórias de um Século” começa com uma menção a Apollinaire:

 

Está cansado desse mundo antigo (...)?

 

E o fantasma de Drummond é invocado repetidamente, por exemplo em “Quetzalcoátl” (“Sou apenas um homem americano...”), em “Sobre a folha de água corrente” (“Quem se lembra de dinamitar Manhattan?”), assim como em “Assinatura” (a lua “diurética”). Mas vamos às estrofes de “Assinatura”.

 

Olho no céu essa lua

Essa esférica bacia

Que molha todo esse mundo

Com sua prata derretida

 

Olho no céu essa lua

O que é que nela palpita?

Seria o sonho dos vivos

Que pra ela à noite migra?

 

Olho no céu essa lua

Poética e radioativa

A mesma que sobre Herodes

Pousou suas asas de brisa

 

Olho no céu essa lua

Que esparge sua bênção fria

Sobre todas as criaturas

Cospe sua ração líqüida

 

... Olho no céu essa lua

Que ilumina São João

Com a cabeça separada

Do corpo em putrefação

 

... Olho no céu essa lua

Esse disco de algodão

Que o discóbolo lançou

Há dois mil anos do chão

 

... Olho no céu essa lua

Em seu alcoólico elixir

Seus mil dedos de anêmona

Afagam o que está por vir

 

... Olho no céu essa lua

Não é aérea ou mineral

Sua compleição feminina

Sua coloração de hospital

 

Olho no céu essa lua

Canteiro de turmalina

Despeja luz sobre tudo

Com tinta branca se assina

 

No livro mudo do mundo.

 

Lua no Pólo Sul- Foto de Jonathan Berry

  

Escrito por Marcelo Coelho às 04h32

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presentes de Papai Noel

presentes de Papai Noel

Agora que os presentes de Natal foram distribuídos, vejo com tristeza o estrago que a publicidade é capaz de fazer sobre crianças impressionáveis e pais molóides, como costumo ser em assuntos de consumo.

         Meu filho de cinco anos e meio começou pedindo a papai Noel um tal de computador do Ben 10. Fui ver: é um computador de verdade, com tantos pentiums e megabytes quanto o meu, e custava quase R$ 2 mil. Fora a cor verde e algumas decorações alusivas ao super-herói, não tinha nada que outro computador não pudesse fazer –e meu filho tem lá os seus acessos limitados ao lap top de casa.

         Coube-me explicar a ele que, apesar de todos os notáveis esforços empreendidos ao longo do ano no que diz respeito ao bom comportamento (e de fato ele está próximo do irrepreensível), não ganharia esse computador do Papai Noel. Argumentei que era coisa para crianças mais velhas, que já sabem ler bem e usar o computador... “Mas eu sei!”, disse ele, e era verdade.

         Mesmo assim, foi negado o pedido. Meu filho se conformou rápido, e refez sua lista. Queria um boneco do Max Steel, e um jogo, não muito caro, chamado “Guerra dos Monstros”. Aparentemente, é uma novidade no mercado de brinquedos, e não havia como dizer não dessa vez.

         Atendido o desejo, que a pura publicidade havia criado, os brinquedos foram praticamente esquecidos assim que meu filho os recebeu. O Max Steel é um boneco desses de super-herói, com um motorzinho que o faz andar em círculos sobre uma espécie de skate. Não há muito o que fazer com ele.

             “Guerra dos Monstros” é uma espécie de pin-ball, que pelo acionar de um gatilho derruba uma dezena de monstrinhos de plástico minúsculos, acoplados a uma plataforma transparente. Trata-se de um produto bastante precário, com umas molinhas que vão escapando rapidamente do lugar onde deveriam ficar, e com dispositivos de disparo que travam sem muita explicação.

         Em resumo, é como se meu filho não tivesse ganho nenhum presente de Natal. Caiu, caímos, no mesmo logro recentemente. No Dia da Criança, ele queria uma maquineta capaz de lançar teias do Homem-Aranha em todas as direções. O triste é que ele pensava que eram teias reais, que o fizessem escalar muros e pular de prédio em prédio. Bem, ele não pensava exatamente isso, mas era isso o que ele queria pensar.

         Ganhou, entretanto, uma espécie de arma de brinquedo que expulsa uma gosma cinzenta com velocidade incrível –o que determina a necessidade quase imediata de se comprar um refil daquelas teias. Garatujas pegajosas de falsa aranha grudaram-se no teto do apartamento, como num lembrete irônico: é desta matéria que são feitos todos os sonhos.

         A recomendação prática, se posso dar alguma, é deixar que o presente de Papai Noel seja uma surpresa. E confiar mais em nós mesmos do que no desejo das crianças. Sabemos o que valem os desejos que vêm do próprio sujeito: esgotam-se rapidamente, e foram criados por algum tipo de crença arbitrária e traiçoeira.

         Outra recomendação: nunca compre a barraca de montar do Homem-Aranha, ou a do Acampamento da Mônica. A não ser que você seja um Paulo Mendes da Rocha, será incapaz de fazer aquele negócio ficar de pé.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h23

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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