Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

look alike

look alike

http://www.aref-adib.com/archives/cat_lookalikes.html

Sabe aquela coisa de juntar fotos de duas pessoas muito parecidas, de quem se diz serem gêmeas separadas no nascimento? Aref Adib radicalizou a coisa, e vê semelhanças entre lustres e prédios, árvores e geleiras... as fotos são bem curiosas.

Escrito por Marcelo Coelho às 20h00

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Como falar do que não lemos?

Como falar do que não lemos?

Desde que comecei este blog, minha quantidade de leituras diminuiu. Não pelo tempo que gasto escrevendo aqui, mas pelo fato de que me dispersei demais: comecei a assinar mais revistas, a xeretar mais coisas na internet, e termino me desacostumando à leitura contínua de um livro inteiro.

 

Nestes dias de praia, fico feliz de ter me concentrado mais –e tive tempo de me divertir com um livro recém-lançado pela editora Objetiva, que trata desse assunto de leituras interrompidas, mal-feitas, esquecidas, ou simplesmente inexistentes.

 

Trata-se de Como Falar dos Livros que Não Lemos?, e foi escrito por Pierre Bayard, professor de literatura na Universidade de Paris 8 e psicanalista.

 

Bayard é terrivelmente satírico, mas a principal qualidade de seu livro é que, ao mesmo tempo, contém idéias sérias e verdadeiras sobre a cultura literária e nossa maneira de nos relacionarmos com ela.

 

Ele começa citando Um Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. É um dos romances que ele só folheou; Bayard usa aliás um código para indicar sua familiaridade com os textos a que se refere. Há os “LO” (livros de que ouviu falar), os “LF”, livros que folheou, “LE”, livros que esqueceu, e os “LD”, livros que desconhece.

 

Pois bem, no romance de Musil há um personagem que é bibliotecário, e que aparenta conhecer todos os volumes da imensa biblioteca de que toma conta. Como você fez?, pergunta-lhe um visitante. O segredo, diz o bibliotecário, é nunca ter lido nenhum dos livros da biblioteca. O título, o índice, e o recurso a catálogos bibliográficos dá plenamente conta do problema. Se ele fosse ler os livros um a um, morreria antes de atingir um milésimo das leituras necessárias, e naufragaria na ignorância.

 

A fábula é irônica, mas Bayard tira dela um ensinamento interessante. A cultura, diz ele, não depende apenas (ou nada) do que podemos absorver de um livro em particular, mas da nossa capacidade de “situar” o livro num contexto feito de relações com outros livros.

 

Evidentemente, isso não é um elogio da não-leitura, mas sim de uma espécie de conhecimento “secreto” a respeito do que vale a pena ser lido, e quando, e como... Ele próprio admite alegremente nunca ter lido o Ulisses,  de James Joyce, mas sabe (graças a sua “cultura”) o que é o livro, o que representa, e pode citá-lo em suas aulas, ou recorrer a ele se necessário, sem que por isso tenha vivido a experiência de uma leitura de ponta a ponta.

 

Bayard é especialmente pérfido ao citar alguns textos de Paul Valéry, onde o famoso poeta deixa claro não ter lido os autores que comenta extensamente. O primeiro é Proust, e Valéry é explícito: leu pouquíssimo. O segundo é Anatole France, objeto de um famoso discurso, supostamente em sua homenagem (Valéry assumia a sua cadeira na Academia Francesa), onde o poeta sequer cita o nome de seu antecessor, e destrói a sua imagem a cada elogio que lhe dedica. É que Anatole France ironizara, muitos anos antes, o ídolo de Valéry, Stéphane Mallarmé.

 

Justo aquele que, num verso célebre, dissera “já ter lido todos os livros”. Licença poética, é claro. Diz a lenda que o último ser humano a ter lido todos os livros à disposição em sua época foi Pico della Mirandola, lá por 1400 e tantos.

 

Valéry também escreveu sobre Bergson sem dar a mínima indicação que conhecia as obras do filósofo. Para cúmulo da perversidade, Bayard cita um livro sobre “o método crítico” de Valéry, onde elogiosamente se afirma que a este interessava menos o autor, o que ele tinha escrito, os seus livros, e mais a idéia da obra. Ou seja, o autor como “símbolo” de alguma coisa: da total dedicação intelectual a uma única idéia, por exemplo, ou da impossibilidade estética do romance, etc. etc.

 

São as leis não-escritas do alto mandarinato, que tantas vezes pilham os autodidatas em delito de honestidade.

 

Pessoalmente, acho bom dizer, quase nunca abandono um livro pela metade. Mesmo se chato, vou até o final. O contrário do que faço no cinema, onde tenho grande prazer em sair a qualquer momento. “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzki, abandonei depois de uns quinze minutos. “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood, uns dez minutos antes do fim.

 

Valéry, "en habit d'académicien"

Escrito por Marcelo Coelho às 19h22

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superposições urbanas

A artista gráfica Marlette Menezes faz uma mistura de fotografia e colagem com cenas de cidade. Eis uma imagem, da exposição que realiza em Ouro Preto:

Escrito por Marcelo Coelho às 17h49

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Guerra Fria cultural (2)

Guerra Fria cultural (2)

O ambiente da Guerra Fria é muito bem descrito no livro de Frances Saunders, Quem Pagou a Conta? (editora Record), que resenhei para a Ilustrada de sábado passado.

 

A autora descreve, por exemplo, o papel do diplomata George Kennan na formulação das bases teóricas e legais para a criação da CIA.

 

Num discurso na Escola Nacional de Guerra, em dezembro de 1947, foi Kennan quem introduziu o conceito de “mentira necessaria” como um componente vital da diplomacia americana no pós-guerra. Os comunistas, disse ele, haviam conquistado uma “posição forte na Europa, imensamente superior à nossa (...), através do uso despudorado e habilidoso de mentiras. Eles nos têm combatido com a irrealidade, com a irracionalidade. Porventura podemos combater com êxito essa irrealidade, usando a verdade e a ajuda econômica honesta e bem-intencionada?”

 

Ele achava, evidentemente, que não. Chegou a cogitar de uma intervenção armada na Itália, que naqueles anos estava próxima de dar aos comunistas uma vitória eleitoral; valeria a pena, pensava Kennan, mesmo que o país terminasse dividido, como a Coréia, por exemplo. No fim, a CIA agiu mais discretamente, ajudando os candidatos anticomunistas, mas sobre isso o livro de Saunders não dá detalhes.

 

O conceito de “mentira necessaria” também ecoa numa frase do grande filósofo alemão Karl Jaspers, que num momento menos rigoroso disse que “a própria verdade, hoje em dia, não dispensa a propaganda”...

 

Quem não sai muito arranhado do livro é o presidente Dwight D. Eisenhower, que segundo Saunders expressou dúvidas prudentes às vésperas da execução dos Rosenberg. O casal, com dois filhos pequenos, foi condenado à morte por ter passado segredos nucleares americanos à União Soviética. Naquela época, a opinião pública internacional tendia a acreditar na inocência dos dois; só muito recentemente vieram a público as provas definitivas de que, com efeito, houvera traição. O relato de Saunders é bem interessante:

 

Numa reunião do gabinete ministerial, em 19 de junho de 1953, data marcada para a execução, Eisenhower admitiu, nervoso, estar “impressionado com dados de sua correspondência que refletiam uma dúvida sincera” a respeito do julgamento dos Rosenberg, e disse parecer “estranho que nosso sistema judicial seja atacado num caso tão claro”. Herbert Brownell assegurou-lhe que não se “cogitava de nenhuma dúvida nessa matéria (...) [era] apenas uma minudência técnica”. “O público não entende de minudências técnicas”, retrucou Eisenhower. Ao que Brownell respondeu: “Quem é que vai decidir, os grupos de pressão ou o sistema judiciário? O objetivo dos comunistas é mostrar que é possível pressionar Dwight Eisenhower”. Eisenhower tornou a manifestar impaciência, dizendo a Brownell que estava “preocupado apenas com os cidadãos decentes”. Nesse momento, C.D. Jackson interrompeu e reconheceu que algumas pessoas vinham achando difícil compreender a condenação à morte, à luz do fato de que ela não fora imposta a outros espiões condenados, como Klaus Fuchs. Ao que um amigo de C.D., Henry Cabot Lodge (recém-nomeado especialista tático de Eisenhower em matéria de comunismo), retrucou em tom confiante: “Pode-se explicar tudo com muita facilidade”. “Não com facilidade para mim”, bufou Eisenhower.

 

Mas, como sempre, a tese do “às favas com os escrúpulos” prevaleceu.

Saunders faz bem, entretanto, em lembrar que

 

nenhum dos lobbies formados com apoio comunista para defender o casal divulgou o fato de que, no mesmo dia em que foi fundado na França o Comitê de Defesa dos Rosenberg, onze antigos líderes do partido comunista tcheco foram executados em Praga. Eles também não discutiram o fato de mais comunistas terem sido fuzilados por Stalin do que em qualquer país fascista; ou de os trabalhadores da União Soviética serem mandados para campos de trabalho forçado, se se atrasassem mais de cinco minutos para o trabalho por duas vezes; nem tampouco o fato de que, quando se instruíram artistas a participar de um concurso que escolheria uma estátua comemorativa do centenário de Pushkin, o primeiro prêmio foi para um escultor cuja estátua mostrava Stalin lendo um texto de Púchkin.

 

O terrível nessa história, e que sempre se repete, é que parece impossível a todos os envolvidos no debate criticar uma coisa e a outra. No livro de Ronald Aronson sobre a briga entre Sartre e Camus, que também já comentei aqui, tudo pega fogo depois de Camus se aproximar rapidamente do campo anticomunista, com a publicação de seu O Homem Revoltado, que receberia resenha duríssima na revista de Sartre, Les Temps Modernes. Camus mandou uma carta “ao sr. Diretor”, reclamando do texto, e o próprio Sartre respondeu, com crueldade impressionante. Aronson tenta ser imparcial, mas suas simpatias acabam tendendo para Camus

 

Mais tarde, com a Guerra da Argélia, Camus recusou-se a participar de um evento contra a tortura –que era praticada largamente pelos franceses contra os rebeldes árabes--, porque não podia concordar com o terrorismo destes. Mas será que não é possível ser contra o terrorismo e contra quem tortura terroristas? Na prática, evidentemente, o espaço para a pureza política é próximo do inexistente. Mas parece que todos aqueles intelectuais levavam seu engajamento ao ponto de se imaginarem chefes de Estado em miniatura, “optando” entre situações dadas como se estivessem numa reunião de gabinete ministerial.

 

Para lembrar o velho UOL Busca Julien Benda, isso é justamente ignorar o papel real dos intelectuais. Condenando isso ou aquilo, eles estão influenciando na opinião pública, e, na medida do possível, elevando uma voz moral num mundo onde todo governante ouve demais a frase “às favas com os escrúpulos”. Se o próprio intelectual emprega essa frase, sua função se torna dispensável: os governantes utilizarão suas belas palavras, ridicularizando-os secretamente. Poderão até pagar por elas, como o livro de Saunders mostra detalhadamente... Mas uma coisa é ter recebido dinheiro da CIA sem nem saber, como parece ter sido o caso de Derek Walcott, Carlos Fuentes e Wole Soyinka, além dos listados mais célebres. Outra coisa é prestar o serviço de graça, achando-se além disso mais esperto e “político” do que os próprios políticos.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h48

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The Atlantic

The Atlantic

http://www.theatlantic.com/

Esta é uma ótima revista americana, que de vez em quando aparecia nas bancas de jornais em São Paulo. Agora o seu conteúdo, desde 1994, tem livre acesso na internet.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h20

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hamburguer rosa

hamburguer rosa

Na linha dos cartazes de comida, fotografei este hamburguer perto da Paulista. Interessante a transição do amarelo para o rosa no pão.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

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voltaire de souza

Uma crônica publicada há alguns dias no "Agora".

 

 

ALTAS TEMPERATURAS

 

Pânico. Turbulência. Dias difíceis no mercado financeiro.

Miltinho era cobra no assunto.

Pelo celular, ele se comunicava com Tóquio e Nova York.

No computador, cálculos. Dólares. Decisões.

--Está tudo desaquecendo. Impressionante.

Ele contemplou, da janela do hotel, um bucólico horizonte.

--Quem diria... eu aqui, de férias no Pantanal...

Deu um risinho satisfeito.

--E os mercados pegando fogo.

Ele não se preocupava demais.

--O Brasil é saudável financeiramente. Estamos vacinados contra as crises.

Uma caipirinha. Mais alguns cliques no computador.

O sono da tarde. A certeza de lucros garantidos.

Miltinho acordou logo depois. Estranhos delírios assaltavam sua mente.

--O FMI. Sanguessugas internacionais. É o fim.

Num posto de saúde em Corumbá, o diagnóstico. Febre amarela.

Ele já fez o testamento. Deixando tudo para associações de caridade.

Dólares são como mosquitos. A febre que causam nem sempre tem vacina.

 

Mais uma, sobre polêmico desfile na Fashion Week.

 

 

 

MODA PET

 

No mundo da moda, a criatividade também conta pontos.

Na Fashion Week, fizeram um desfile diferente. Inovador.

Passarela: a marginal do Tietê.

Cenário: favela e poluição. Cor predominante: marrom.

Perfume: esgoto doméstico e industrial.

A bela modelo Juju Santoro estava nos camarins.

O estilista Kuko Jimenez dava ordens nervosas.

--Tira a roupa. Põe essa. Agora não. É do outro lado.

A peça fundamental do desfile era o vestido de noiva.

Trapos brancos em volta de uma estrutura de embalagens pet.

--Vai ser a grande surpresa do dia. A noiva reciclada.

Mas o vestido tinha desaparecido do armário.

--Coisa da Mirella Griffoni. Minha maior concorrente.

Não era. O mendigo Derival tinha achado a peça.

Estava levando para a reciclagem quando foi pego pela segurança.

Juju teve pena do rapaz. Um olhar. Um beijo. E Derival virou consultor de políticas sociais da grife de Kuko.

A moda e os seres humanos são como plástico. Podem sempre se reciclar.

 

Uma terceira, sobre assunto já bastante explorado pela mídia.

 

 

NEGOCIAÇÕES MADURAS

 

O passado não volta. Elpídio se olhava no espelho.

--Acabado. Gordo. Careca.

A nostalgia era forte na alma do velho militante sindical.

Ele pegou um álbum de fotos.

--Anos de chumbo. Repressão. Mas eu era bonito pra burro.

A barba. As assembléias. Os palanques.

--E a mulherada. Tinha até empresária interessada em mim.

A ideologia impedira, entretanto, o amor entre classes antagônicas.

Veio a decisão. Heterodoxa. Radical.

--Vou fazer um implante de cabelo. Tiro da barba e ponho na testa.

Não era longe o consultório de um cirurgião plástico chinês.

O dr. Shi Li Kon. Na sala de espera, a surpresa. A empresária Bia Nardini estava na fila.

Pronta para mais um retoque facial. Beijos intensos se trocaram.

--Estou falida, Elpídio. Foi a crise de 81. Mas hoje plástica é tão barata...

Elpídio concorda com tudo. Mas desistiu do implante de cabelo.

--Prefiro implantar a coisa certa. No lugar certo.

No amor e no sindicalismo, por vezes as conquistas vêm a longo prazo.  

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h05

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Guerra Fria cultural

Guerra Fria cultural

Fiz para a “Ilustrada” uma resenha de Quem Pagou a Conta?, de Frances Stonor Saunders, livro publicado há alguns anos nos EUA com o titulo The Cultural Cold War, e que acaba de ser publicado aqui pela Record.

A autora conta as atividades da CIA no financiamento de atividades culturais durante a Guerra Fria. Congressos, concertos, exposições de arte foram secretamente patrocinados pela espionagem norte-americana, numa tentativa de vencer o grande predomínio intelectual dos partidos comunistas na Europa Ocidental.

Jackson Pollock e toda a corrente do expressionismo abstrato foram “lançados” no ambiente europeu como uma resposta moderna e avançada ao realismo soviético. Era, de fato, o tipo de arte que nenhum comunista podia aprovar: o dogma jdanovista considerava tudo aquilo fruto da decadência e do formalismo burgueses.

Para os ideólogos da Guerra Fria, tratava-se de mostrar o quanto aquela pintura simbolizava a liberdade, a grandeza, o espírito de iniciativa e de espontaneidade vigentes na “América”.

O curioso, entretanto, é que para os verdadeiros direitistas americanos, aquela arte moderna era corrosiva, amalucada, e uma ponta-de-lança dos comunistas no seu intuito de desmoralizar completamente os valores tradicionais americanos.

Criou-se então um paradoxo bem interessante: a extrema-direita americana concordava, em tese, com os estalinistas no campo da estética. Ao mesmo tempo, a CIA procurava dar trela aos críticos do sistema soviético, mas sem querer aparentar falta de sofisticação. Sua intenção era granjear prestígio intelectual para os Estados Unidos, no exigente meio cultural europeu.

Em suma, queria fazer propaganda que não fosse propaganda. Para isso, precisava de artistas e intelectuais que não parecessem propagandistas. Procurou estimular autores que, sendo anticomunistas, não fossem de direita. A revista Encounter, que tinha no poeta Stephen Spender um de seus principais editores, publicava assim artigos de pessoas de esquerda, como UOL Busca Inazio Silone ou UOL Busca Nichola Chiaromonte, enquanto a direita americana esbravejava contra... o esquerdismo da CIA! Os cuidados chegaram a tal ponto que, no primeiro número de Encounter, os dirigentes da CIA acharam melhor não publicar nada de Raymond Aron e de Arthur Koestler, porque eles seriam anticomunistas demais!

Não deixa de ser bonito: prestígio intelectual não combina com propaganda, e dessa contradição a própria CIA não conseguiu se desvencilhar.

O problema é que prestígio e propaganda se confundiam bem do outro lado, onde a política cultural dos partidos comunistas não era a mesma daquela vigente na União Soviética. Picasso e Francis Ponge, por exemplo, faziam homenagens a Stálin, sem perder respeitabilidade por isso.

Podemos dizer, de todo modo, que Pollock ou Mary McCarthy tampouco perderam respeitabilidade porque a CIA os ajudou.

Desse ponto de vista, o livro de Saunders termina engolido pelo próprio paradoxo que ilumina. Dizer que Fulano recebeu favores da CIA é o equivalente a denunciar que Sicrano foi financiado pelo ouro de Moscou.

Seria preciso ver de que modo isso comprometeu a independência dos intelectuais, levou-os a rever suas posições, etc. Teriam escrito diferente se não tivessem esse apoio? Como medir, por exemplo, a moderação de pensamento a que levam as honrarias, cátedras, convites, etc., que cada escritor ou artista recebe? E qual o efeito propagandístico real que teve, no fim das contas, o apoio financeiro da CIA a revistas culturais ultra-elitistas, como a UOL Busca Kenyon Review, de John Crowe Ransom?

Curioso notar que, se alguém teve de mudar mais de posição do que os intelectuais, foi o poderoso chefão do grupo Time-Life, Henry Luce.

Durante a guerra contra o nazismo, suas revistas faziam retratos idílicos de Stalin. Com a Guerra Fria, a mudança de tom foi completa. E foi na “Life” que, por inspiração da CIA, lançou-se o nome de Jackson Pollock como “o maior pintor americano”: algo que ia contra as convicções de Luce e de seus próprios leitores.

Não sei se é a velha dialética, mas sem dúvida a ironia da história está presente nesse tipo de coisa.

O livro também é precioso pelo que conta do macartismo, das reações ao assassinato dos Rosenberg, e do funcionamento da CIA. Mas isso é assunto para depois. 

 

Stalin, por Picasso

 

   

Escrito por Marcelo Coelho às 16h33

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Desejo e reparação

Desejo e reparação

Não li o romance de Ian Mc Ewan em que se baseia Desejo e Reparação, filme de Joe Wright atualmente em cartaz em São Paulo, e que acaba de ser indicado para o Oscar.

 

Mas o que conheço de Mc Ewan me convence de que ele deve ter imaginado um enredo infinitamente mais complexo, ambíguo e carregado de terror moral do que o drama romântico a que assisti no Espaço Unibanco.

 

A personagem realmente interessante da história é a pequena escritora de uma família aristocrática inglesa que, em 1935, acusa injustamente o filho da governanta da casa de um crime de abuso sexual. Passam-se os anos e ela carrega a culpa de ter destruído, com essa calúnia, a vida do rapaz e a de sua própria irmã, que estava apaixonada por ele.

 

O que o filme fez foi concentrar o foco no caso de amor entre o rapaz e a mocinha, deixando a pequena linguaruda no papel puramente funcional de estragar o comovente caso de amor interclassista.

 

O resultado, a meu ver, termina sendo um dramalhão, cheio de pequenos malabarismos de montagem (mas nesse quesito um filme como As Horas, que também não é bom, se mostra superior), cheio de exageros na trilha sonora, e cheio de coincidências novelísticas. Cheio também, de clichês que mal seriam suportáveis num filme de 50 anos atrás.

 

Alguns exemplos: 1) o fiel e medíocre companheiro de armas do mocinho, que desempenha um papel mais ou menos cômico a certa altura do filme, mas que no momento mais fatal e lacrimoso se revela um bom e corajoso amigo. 2) A mãe do rapaz injustiçado, que extravasa uma vida inteira de servidão à classe dominante tentando agredir com golpes de guarda-chuva o carro de polícia que leva embora o filho para a prisão. 3) O repulsivo vilão de bigodinho, milionário engomado que sairá incólume de suas malignas investidas contra crianças inocentes 4) A famosa cena do casamento, onde o padre pergunta se há na platéia alguém que possa testemunhar contra a pureza dos noivos –“que fale agora ou cale-se para sempre”.

 

Sem contar o visual “branco” das toaletes de Keira Knightley, que parecem reciclados de O Grande Gatsby, e a presença de Vanessa Redgrave no papel de uma intelectual experiente no final do filme; só esse “casting” já é de uma previsibilidade exasperante.

 

Talvez Desejo e Reparação funcionasse melhor nas mãos de Joseph Losey, que com O Mensageiro tratou de situação semelhante com muito mais sutileza; ou mesmo nas mãos de Robert Altman, cujo Gosford Park, amplamente esquecível, tem pelo menos a qualidade de não se levar tanto a sério, e conseguir algum humor com isso.  

 

Em todo caso, esse filme teve mais de 80% de críticas favoráveis na imprensa de língua inglesa, segundo o site rottentomatoes. Você pode dar uma olhada aqui. E pode ver também uma bela foto de Keira Knightley, sem precisar de link:

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h27

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fora de conexão

Agora foi o meu filho mais velho que pegou catapora, e fiquei cuidando dele... a correria se reflete na ausência de postagens mas espero que não muito no artigo desta quarta-feira, que escrevi sobre "Laertevisão" (editora Conrad), coleção de tiras do quadrinhista da Folha Laerte Coutinho. Agora meu filho está melhor, viemos para a praia,mas as conexões envolvem uma sabedoria estratégica digna de um enxadrista. Gabo-me de ter conseguido, agora, configurar a coisa toda para um wi-fi que era dos mais misteriosos. Amanhã sigo em frente. Mesmo porque o tempo não está ajudando no litoral paulista... Até amanhã.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h54

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amizade e política (3)

Samuel Johnson pelo jeito mudava bastante de opinião. Transcrevi no post anterior suas considerações, escritas em 1750 ,sobre a impossibilidade de haver amigos em partidos políticos opostos. Em 1772, teve uma conversa com Oliver Goldsmith, assim contada por seu biógrafo James Boswell.

 

Começamos a discutir se pessoas que discordam em questões capitais poderiam manter a amizade. Johnson disse que poderiam. Goldsmith disse que não, uma vez que não tinham as idem velle atque idem nolle –os mesmos gostos e as mesmas aversões. JOHNSON. Ora, senhor, cabe-lhe evitar o assunto sobre o qual há discordância. Por exemplo, posso conviver muito bem com Burke: gosto de seu conhecimento, de seu gênio, sua expansividade, sua efusão na conversa; mas não falaria com ele a respeito do partido de Rockingham. GOLDSMITH. Mas, senhor, quando pessoas tem alguma discordância quando são amigas, e querem evitá-la, ficam na situação mencionada na história do Barba Azul: “Você pode entrar em todos os quartos, menos em um.” Mas surgirá a mais forte inclinação para olhar aquele quarto, e falar daquele assunto. JOHNSON (alteando a voz). Senhor, eu não estou dizendo que o senhor poderia continuar amigo de alguém de quem discorda em algum ponto: digo apenas que eu poderia...

 

O diálogo é típico da forma de Johnson fazer graça com os próprios acessos de impaciência, que terminam implodindo o que ele estava defendendo antes.

 

O trecho está numa antologia organizada por Eudora Welty e Ronald Sharp, The Norton Book of Friendship.

Goldsmith diria de Johnson que, com certeza, ele tinha "certa rudeza de maneiras. Mas um coração terno como ninguém. Do urso, tem só a pele."

 

 Johnson, por Joshua Reynolds

Escrito por Marcelo Coelho às 15h45

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amizade e política (2)

Interessante ver que, muito antes de Koestler (ver post anterior), a impossibilidade de que uma amizade sobreviva ao desacordo político foi enfatizada com grande eloqüência. Samuel Johnson, em 1750, num artigo de seu jornal The Rambler, dizia o seguinte:

 

Ainda que se tenha, porventura, sabido de um grande afeto que algumas vezes se manteve entre homens eminentes de facções contrárias, amigos assim devem ser apresentados mais como prodígios que como exemplos, e não é mais adequado regular nossa conduta por tais casos, do que saltar num precipício porque alguns nele caíram e escaparam com vida.

 

Não pode ser senão extremamente difícil preservar a ternura mútua em meio à oposição pública, na qual por força estarão envolvidos mil incidentes, que estenderão sua influência sobre a conversa e a privacidade. Homens engajados, por motivos morais ou religiosos, em partidos contrários, geralmente haverão de olhar com olhos diferentes todo outro homem, e decidir quase toda questão a partir de diferentes princípios.

 

[O exemplo serve para relativizar a idéia de que o totalitarismo, como sistema de idéias que abarca integralmente todos os campos da experiência humana, é um fenômeno exclusivo do século 20.]

 

Quando ocorrem tais ocasiões de disputa, ser complacente é trair a nossa causa e manter nossa amizade deixando de merecê-la; silenciar é perder a alegria e a dignidade da independência, viver em perpétuo constrangimento, e desertar, se não trair; e quem vai determinar qual dos amigos deve ceder, quando nenhum dos dois acredita estar errado, e ambos confessam a importância da questão? O que resta, assim, a não ser contradição e polêmica? E, destas, o que se pode esperar, exceto acrimônia e veemência, a insolência do triunfo, a vergonha da derrota, e, com o tempo, a fadiga do debate e a extinção da benevolência?

 

O texto vai nessa linha, e no fundo não passa da extensão de um lugar-comum. Mas sua leitura oferece prazeres literários de um gênero muito próprio, a que nem sempre temos a paciência de nos entregar.

 

À primeira vista, tudo parece uma seqüência de sinônimos evitados; uma grande fumarada de palavras pomposas. Mas a abstração dos vocábulos não elimina o que têm de preciso, e há muita síntese escondida em tanta prolixidade.

 

“Insolência do triunfo”. “Vergonha da derrota” [vexation of defeat]. Uma independência que traz, ao mesmo tempo “alegria” e “dignidade”... tudo isso é mais verdadeiro do que a retórica a que o trecho parece reduzir-se.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h50

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Folha e ditadura

Folha e ditadura

http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14058&editoria_id=5

Um leitor manda o link para reportagem da agência Carta Maior, sobre as relações da Folha com o regime militar. Reproduzo aqui, para comodidade e julgamento do leitor. Não vi sinal de financiamento a tortura no que foi publicado.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h26

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voltaire de souza

Algumas crônicas do "Agora" para amenizar um pouco o quadro.

 

CRISE ANUNCIADA

 

Debates. Emoções. Começa a campanha presidencial americana.

Valério ligou a televisão.

--Ué... esse candidato é negro?

O senador Barack Obama fazia discurso.

A mulher de Valério se chamava Paula e deu um risinho.

--Como você é racista, Valério. É negro, sim, o que é que tem?

Valério aumentou o volume do aparelho.

--Peace... Dream... Great country.

Paula quis saber o que dizia o candidato. A resposta de Valério foi dura.

--Ele disse que lugar de mulher é na cozinha.

Paula ia retirar-se ofendida do local. Mas na telinha já surgia Hillary Clinton.

--A new era... Change. Hope.

Valério fez a tradução perversa.

--É só propaganda de calcinha. Vê se traz logo a lasanha.

O que veio foi um tabefe violento. Valério reagiu na canelada.

A briga foi feia. Só mais tarde, na suíte, trocaram-se beijos de paz.

Crises de um casal lembram, por vezes, a política estadunidense.

Começam em barraco mas terminam com cama.

 

 

FAZENDO BEICINHO

 

A vida em família, por vezes, destrói a intimidade de um casal.

Alfredo e Cilene estavam curtindo uma semana a sós.

--A casa fica tão vazia sem as crianças, né, Alfredo?

Os filhos estavam num acampamento de férias.

--Nada daquelas choradeiras do Júnior...

--As birras da Juliana...

Um beijo. Um drinque. Um DVD. E os primeiros desentendimentos.

--Esse filme eu não gosto.

--Mas eu quero. Sua chata.

Na hora do jantar, uma discussão básica. Com muito beicinho.

--Quero ir no Mac Donald’s.

--Quero pizza com sorvete. Eu quéééérooo...

Irritado, Alfredo pegou um livro para ler. Harry Potter.

Cilene arrancou o volume de suas mãos.

--É meu. Não deixo você ler. Seu feio.

Pôs a língua para o marido. Empurrões. Choramingos.

Alfredo e Cilene agora estão de mal. E não querem ouvir falar em terapia.

A vida de um casal é como leite de mamadeira. Azeda rapidinho.

 

NO CAMINHO DO MAR

 

Verão. Sol. Férias. Falta infra-estrutura nas praias paulistas.

Reinaldo tinha alugado um apartamento em Mongaguá.

Na hora de tomar banho, a decepção.

--Está faltando água de novo?

A mulher dele se chamava Silvana e aproveitou para criticar.

--Também... férias de pobre, o que você quer.

--Eu me mato o ano inteiro... e você nem para reconhecer.

O olhar de Silvana perdeu-se no horizonte azul.

--Se eu tivesse casado com o Luís Pedro...

--O que é que tem, o Luís Pedro?

--Era tão rico... Com ele, eu ia ficar num resort cinco estrelas...

Reinaldo saiu do apartamento com muita raiva dentro da alma.

--Vou tomar uma ducha lá no quiosque do Chicão.

Na avenida, tudo parado. Um sujeito gordinho tentava empurrar um Chevette 83. A visão foi extremamente agradável para Reinaldo.

--Luís Pedro! É você? Precisa de ajuda? Carrinho ruim, hein?

Laços de uma antiga amizade se reataram entre cervejas e pastéis.

O fracasso financeiro é como o mar. Mais de um rio nele desemboca.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h27

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José Dirceu

No artigo desta quarta-feira para a Ilustrada (aqui para assinantes), comentei a reportagem da revista Piauí sobre as atividades de José Dirceu, discutindo as raízes de sua impassibilidade nos momentos em que é abordado por cidadãos hostis. Houve muitos e-mails de apoio e de protesto ao que escrevi, e cito alguns.

Marcelo, assustador mesmo é esse cara que gritou "safado. safado!" Tenho muito medo de pessoas que elegem bodes expiatórios. Elas são capazes de trucidar em público, mas parecem que são incapazes de mudanças nelas próprias. E continuam a achar que "caçador de marajás" ou coisa parecida é que  podem salvar a pátria. Se eu fosse repórter, iria atrás desse "histérico" para saber melhor quem é ele. Deve retratar melhor a política e a sociedade brasileira do que o seu bode. O homem parece ter coragem, mas é um covarde ao meu ver.

Correto. Esse tipo de comportamento não me inspira nenhuma simpatia.

Complementando, acho que vc foi  muiiiiiiiiiiiiiito injusto com o Zé Dirceu em várias partes do seu artigo, especialmente qdo. diz que " No centro do poder ou fora dele, o militante continua a ter uma vida clandestina: ...".  Como clandestina, se ele tem um site, um blog, escreve jornais para a imprensa, faz palestras por aí, frequenta a mesma churrascaria, anda de avião etc.?
Você tb. fala de impassibilidade e do desaparecimento das "grandes causas". Isso é demais... Basta ler os artigos que ele escreve, as entrevistas que realiza com pensadores do Brasil, as entrevistas que dá (como na Piauí), as correspondências que mantem com seus leitores... Impassibilidade, só se for com ele próprio. Com o Brasil e o mundo, de jeito nenhum. O homem continua debatendo o país, tendo idéias, propostas, críticas.
No mais , esse negócio de sorriso, creme hidrante, implante de cabelo, botox or not botox... é de uma leviandade da mídia que dói. Isso sim, dá vontade de estrebuchar.
Não sou amiga, conhecida, eleitora, correligionária,  familiar, nem mesmo admiradora do Zé Dirceu. Mas também não sou cega, surda e muda.
 
Bem, aí tenho de discordar. Acho muito bom que o José Dirceu tenha um blog, no qual discute o tempo todo soluções para o Brasil. Mas pensei em clandestinidade no próprio caso do mensalão --dos segredos de Estado que sua função envolvia durante o poder, e na semelhança entre seu comportamento na churrascaria e nos tempos em que ele tinha de se ocultar sob outra identidade. Seria leviandade da mídia, apenas, a coisa dos cremes e do implante de cabelo? Achei importante notar o que ele disse sobre o Garibaldi Alves: que o novo presidente do Senado logo ia cuidar dos dentes, estava se vestindo melhor, etc., o que mostra que se há leviandade, o José Dirceu também pode ser acusado disso quando se refere ao Garibaldi.
 
Houve também quem estranhasse minha análise do José Dirceu quando "nunca escrevi contra" Fernando Henrique. Isso é desconhecer a quantidade de artigos, muitas vezes semelhantes ao de hoje no seu enfoque "psicológico", que dediquei a FHC.
 
Outro tipo de crítica, de que transcrevo um trecho:
 
agora que você acabou de levantar uma hipótese, muito pessoal, sobre o perfil psicológico do José Dirceu, gostaria de fazer-lhe uma sugestão: por que, ao se recolher no seu quarto, travesseiro ou banheiro, você agora não se auto-analisa e tente entender ou encontrar elementos, conscientes e inconscientes, que subjazem, latentes ou ativos, em você - ser humano, homem, profissional da mídia talentoso, culto, versado em áreas várias do saber -, quando você se detém assim tão cuidadosa e emocionalmente na figura, na imagem projetada do outro. Que tal o desafio, hem!

 Aceito sem problemas... aliás, acho até que me auto-analiso em excesso neste blog e na Folha também. Procuro sempre assinalar a dimensão de subjetividade dos meus comentários. Para mim, a questão não é ser "subjetivo" numa crítica: é tentar ser o mais preciso e específico possível na expressão dessa subjetividade, e analisar as razões, muitas vezes variadas, da reação inicial que tive diante de determinado fenômeno. Mas no caso do artigo de hoje, aproveito para tocar em alguns pontos.

--a contradição entre "boa vida" e ideologia de esquerda, se é que é contradição, é minha também, mais do que de José Dirceu, e com certeza o sujeito que o vê na churrascaria odeia o ex-deputado não só porque o considera "safado", mas porque não admite (imagino) gente do PT em bons restaurantes. Eles tinham de ser coerentes com a ideologia, mas são criticados pela ideologia e pelo fato de a renegarem... Aí fica complicado!

--a questão de envelhecer, sem dúvida, me atinge tanto quanto a José Dirceu. Ainda não comprei meus cremes, entretanto. Admito que fui pesado ao lembrar do caso de Brejnev. Poderia ter lembrado Sarney ou Edison Lobão, que nunca foram bolcheviques. Mas acho mesmo que, além da fraqueza comum a todos nós, de querer continuar com aparência jovem, pesa no caso de Dirceu a necessidade de manter uma continuidade ainda que física em meio a tantas transformações pelas quais o mundo, e ele, já passaram.

Um comentário de outro tipo, difícil de contestar:

não tenho nenhuma simpatia por jose dirceu. concordo contigo em relação ao perigo que é alguém tão disciplinado na luta por uma causa. a hipótese - que considero bem possível - de que ele não roubou um centavo para o seus próprios bolsos só reforça a imagem assustadora de que ele faria qualquer coisa em nome de sua causa. na matéria da piaui ele confirmou uma história que sempre comentei com amigos: a de que ele nem mexeria os cabelos se alguém o chamasse de dicer ou de zé quando usava o nome de carlos henrique.

a despeito de todas essas concordâncias, não vi na matéria da ótima daniela pinheiro o mesmo sujeito imperturbável na luta pela causa. a sua atitude impassível frente aos constantes xingamentos me pareceu uma inevitável resignação frente ao massacre moral que tem ele tem sido exposto
.

Com certeza, ele não teria muita coisa sensata a fazer com o sujeito da churrascaria além de se manter imperturbável. Mas ainda aqui o treino a que foi submetido, durante o regime militar, não deixa de ser um peso a mais na constituição de seu comportamento.

Mais forte o tom desta crítica:

Bons tempos aqueles em que colunistas arriscavam menos palpites e escreviam sobre o que de fato entendiam. Ou faziam crônicas sobre o totó da vizinha ou o passarinho madrugador do outro vizinho. E que saudade de uma boa e saudável, cheia de erros mas repleta de bons artigos e digna de se chamar imprensa.
 
Acaso já lhe passou pela cabeça escrever um perfil cheio de palpites sobre o caráter e a psicologia do grande FHC? Devia, pois homem que deixa filho sem sobrenome nem é digno de ser chamado homem. Ou então de um capo da imprensa paulista que apoiou e dizem, finaciou as torturas nos anos duros da redentora?
 
Escrevi muitos palpites sobre o caráter e a psicologia do grande FHC. Financiar as torturas da ditadura é coisa que Octavio Frias nunca fez. Se tivesse feito, e eu quisesse escrever sobre isso, teria a dignidade de pedir demissão do jornal antes de publicar qualquer matéria nesse sentido. É engraçado esse tipo de desafio. Parece aquelas coisas que dizem quando condenamos a violência policial: ah, imagine se sua filha fosse estuprada, você não apoiaria o fuzilamento do estuprador? É como se o argumento quisesse colocar a gente contra a parede, mas para isso precisa de um tremendo empurrão. O leitor continua:
 
Amigo, chutar cachorro morto é fácil. Vai bater em quem ta vivo. Ou então arruma outro jeito de resolver seus medos.
 
´Mas um dos palpites do artigo é que José Dirceu não está morto, embora se faça de. Quanto a resolver meus medos, que são muitos, acho que ter saudades de uma imprensa que falava de passarinho da vizinha não deixa de revelar medos também.
Por hoje chega, antes que eu comece a virar guerrilheiro na discussão com alguns leitores.
 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h07

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amizade e política

amizade e política

Devo fazer uma conferência sobre amizade e política, no mês de abril, e trato de ler um pouco sobre o assunto. Veio a calhar o livro de Ronald Aronson, Camus e Sartre- o polêmico fim de uma amizade no pós-guerra, que acaba de sair pela Nova Fronteira.

Há boas fofocas, embora não inéditas. Aronson cita amplamente as memórias de Simone de Beauvoir, e biografias “clássicas”, como a de Camus feita por Olivier Todd.

É sempre espantoso, entretanto, ler o relato das bebedeiras de Sartre e sua turma. Numa festa, já muito alcoolizado, Sartre chega para Camus e exige-lhe que admita: “sou muito mais inteligente do que você. Sou ou não sou?”

Incrível como todo mundo é criança...

Mais inteligente ou não, Sartre acaba ficando com os piores papéis nessa história, como tem sido aliás a tendência de todas as análises sobre seu pensamento nos últimos tempos; Sartre defendia a “violência revolucionária” e fez vista grossa para os horrores do estalinismo, com os quais Camus não transigiu.

Ronald Aronson procura, de qualquer modo, ser equilibrado em sua exposição. Seu livro, apesar de uma ou outra cena picante, é principalmente uma análise dos textos e declarações que marcaram o progressivo afastamento político e pessoal dos dois escritores. O retrato da amizade entre ambos, a rigor, é bastante pálido e genérico, como o próprio Aronson admite. Sartre e seu grupo, depois da grande ruptura de 1952, acabaram minimizando retrospectivamente a profundidade de suas relações com Camus.

Interessante ver de que modo o conflito entre ambos já se prefigurava em várias conversas sobre o tema da amizade e da política. Num “night-club” parisiense, o Schéhérazade, reuniram-se para tomar drinques Sartre, Simone de Beauvoir, Camus, sua esposa Francine, e Arthur Koestler. O ano era 1946. Koestler, um ex-comunista cujos escritos seriam largamente aproveitados pela propaganda anti-soviética, tomou vodca e champanhe. Simone de Beauvoir conta:

 

Koestler entristeceu-se ao ouvir Olhos Negros; “Impossível sermos amigos, quando não nos entendemos politicamente!” disse-nos ele, com voz acusadora. Repisava suas mágoas contra a Rússia de Stálin, reprovava Sartre e mesmo Camus por pactuarem com ela. Não levamos a sério sua melancolia; não avaliávamos o frenesi de seu anticomunismo. Enquanto Koestler monologava, Camus nos dizia: “O que temos em comum, vocês e eu, é que os indivíduos contam em primeiro lugar, para nós; preferimos o concreto ao abstrato, as pessoas às doutrinas, colocamos a amizade mais alto do que a política.” Concordamos, com uma emoção que o álcool e a hora tardia se encarregavam de exaltar. Koestler repetia: “Impossível! Impossível!”

 

A meu ver, tudo depende de que tipo de política se está falando. Se se trata de uma ideologia que prevê fuzilamentos para traidores da causa, as divergências políticas logo se tornam coisa de vida ou morte, e a amizade só pode sobreviver se os envolvidos rejeitarem um radicalismo desse tipo. Nada mais eloqüente do que o diálogo entre Camus e um antigo companheiro na Resistência, a quem o livro de Aronson nomeia apenas pelo sobrenome, Tar. É Camus quem narra.

 

Encontrei Tar [...] Ele tem o ar reticente, e no entanto o mesmo olhar de amizade que tinha quando o recrutei aos grupos do Combat.

--Você agora é marxista?

--Sim.

--Então será um assassino.

--Já o fui.

--Eu também. Mas não quero mais.

--E você foi meu padrinho.

Era verdade.

--Ouça, Tar. O problema verdadeiro é o seguinte: aconteça o que acontecer, sempre o defenderei contra os fuzis de execução. Mas você será obrigado a aprovar que me fuzilem. Reflita sobre isso.

--Refletirei.

 

 Nada mais precisa ser dito; mas vale como um epílogo cômico um segundo encontro entre Camus, Sartre, Koestler e sua mulher, Mamaine, em outra boate, um ano depois daquela noitada. Simone de Beauvoir conta o que se passou.

 

Num tom mais hostil do que no ano anterior, [Koestler] retomou o tema do “Não há amizade sem acordo [melhor, no caso: concordância] político”. Para se distrair, Sartre fazia a Mamaine uma corte demasiado aberta para ser discreta, e que nossa embriaguez comum desarmava. De repente, Koestler jogou em direção a Sartre um copo que se estilhaçou contra a parede.

 

A situação era bastante tensa, não apenas do ponto de vista político, como explica Aronson. Camus apaixonara-se pela mulher de Koestler, a quem Sartre cortejava na presença de Simone; Simone tinha feito sexo com Koestler; tinha-se oferecido a Camus, que não dera a menor bola. Todos saem então da boate. Koestler terminou perdendo a carteira e quis continuar a discussão com Sartre. Camus disse a Koestler, amigavelmente, que todos deveriam ir para casa, e segurou em seu ombro. Koestler se soltou e deu um soco em Camus, que quis revidar. Terminam pondo Camus dentro do carro; ele chora: “Era meu amigo! E me esmurrou!” Sai guiando, quase desmaiado sobre o volante. “Nós o endireitávamos, sóbrios pelo medo”, diz Simone.

Tempos perigosos.

 

 Arthur Koestler e Mamaine

Escrito por Marcelo Coelho às 01h33

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SOS Masp

Recebo de Luiz Marques, organizador do movimento em defesa do Masp, a seguinte mensagem, que circula pela internet:

SOS Masp. Apelo aos Poderes Públicos  www.sosmasp.com.br 

 

Após 20 dias de circulação entre emails e 10 dias em rede (3 de janeiro), esse documento colheu mais de 2600 assinaturas. Sempre aberto a novas subscrições, ele continua crescendo a passos largos.

 

Até hoje, dia 12 de Janeiro de 2008, a direção do Masp não emitiu qualquer sinal de abertura para negociações com o poder público. Ao contrário, vem reiterando na imprensa escrita e no rádio seu entendimento de que o Masp pode e deve manter-se sob seu controle.

 

Entretanto, a recuperação pela polícia do Picasso e do Portinari furtados não pôs fim nem às inquietações manifestadas quanto ao presente e ao futuro do Masp, nem levou a qualquer progresso na solução dos problemas de insolvência e de gestão do Museu. Poucos hoje duvidam do caráter estrutural  de tais problemas, uma vez que radicam no estatuto jurídico da instituição: como associação de direito privado, o Masp está naturalmente impedido de usufruir de recursos expressivos e contínuos oriundos do erário, imprescindíveis para que cumpra plenamente sua função educadora.

 

Sem excessivo otimismo, parecem hoje reais as chances de um desbloqueio muito favorável da situação. Não é nem mesmo de se descartar uma rápida evolução tendente ao ótimo, com redefinição tanto do estatuto jurídico do Museu, quanto de seu modelo de gestão. 

 

O abaixo-assinado SOS Masp já foi comunicado à Promotora Dra. Mariza Schiavo Tucunduva e será entregue oportunamente também ao Governador e ao Prefeito.

 

Para manter a pressão da opinião pública pelo advento de uma nova fase na história do Masp, é essencial que a lista de assinaturas do documento  SOS Masp. Apelo aos Poderes Públicos não perca seu ritmo de crescimento.

 

Peço-lhes, assim, que continuem a divulgar o site, promovendo o fortalecimento do documento através de novas assinaturas. O cadastramento da assinatura em uma das três listas disponíveis é feito direta e automaticamente no próprio site (no item: cadastre-se)

 

 

ESCLARECIMENTO: 
O documento não advoga que se confie a gestão do Masp à administração direta do Estado, mas sim que se estatize seu acervo e que se adote para o Museu, respeitadas obviamente suas peculiaridades, um modelo de gestão compartilhada entre o Estado e uma OS (Organização Social), nos termos da lei que vem sendo aplicada com êxito na Pinacoteca do Estado e na OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado), entre outras instituições culturais.

 

A esse respeito, o jornal O Estado de São Paulo publicou no domingo passado o seguinte texto, por mim redigido, em resposta à seguinte questão:

 

A gestão do Masp deve ser de responsabilidade do poder público?

 

A discussão sobre a substantiva redefinição institucional que, cedo ou tarde, o Masp, o Estado e a sociedade terão de enfrentar, supõe distinguir, claramente, estatuto jurídico e modelo de gestão. Vale lembrar que, em 1957, recursos estatais saldaram mais da metade da dívida contraída para a aquisição do acervo. Sem eles, o Masp teria sido um sonho, interrompido por um brutal seqüestro judicial em Nova York. O Estado brasileiro é, moralmente, ao menos co-proprietário da pinacoteca de arte européia do Masp. A estatização do acervo nada teria, portanto, de arbitrária. Quanto à gestão, ninguém em sã consciência advogaria a administração direta do Estado. A fórmula que prevalece hoje é a gestão compartilhada com uma Organização Social ( O.S.) credenciada. O essencial é, de um lado, assegurar a autonomia, a agilidade e a proficiência do curador do Museu, assessorado e legitimado por um conselho científico e administrativo; de outro, garantir o fluxo de recursos e a vigilância de parte dos poderes públicos.

 

No documento SOS Masp, esta mesma idéia se explicita quando se afirma que o modelo de gestão proposto para o Masp deve ser redefinido à imagem e semelhança do que prevalece na Pinacoteca e na OSESP, entre outras instituições.

 

Certo de contar com sua renovada colaboração na divulgação desse abaixo-assinado, envio minhas

 

Cordiais saudações,

 

 

Luiz Marques

Escrito por Marcelo Coelho às 14h04

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língua portuguesa

língua portuguesa

http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11449

Há uma entrevista minha na revista "Língua Portuguesa" deste mês, em que falo bastante sobre Voltaire de Souza.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h16

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loja em Cunha (SP)

loja em Cunha (SP)

Um leitor manda esta bela imagem de uma ema, numa loja do interior paulista. Curioso o contraste entre o tamanho da figura e o das letras.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h24

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A guerra dos videogames

A guerra dos videogames

Não sou xiita em matéria de videogames para crianças. Claro que os jogos de luta são assustadores, com sangue espirrando, impiedade assassina, violência contra (e de) mulheres.

 

Entendo, todavia, que esses jogos de computador têm duas funções para as crianças, mesmo pequenas, como é o caso do meu filho de cinco anos e meio. Trata-se, em primeiro lugar, de uma das raras oportunidades que ele tem para se sentir forte e poderoso. Imagino a sensação de fragilidade, de desamparo, que o acompanha desde o nascimento, ocupante de um pequeno corpo cercado de adultos que falam alto e, basicamente, passam o tempo todo a transmitir-lhe ordens e proibições.

 

Em segundo lugar, um bom treino em videogames passou a ser essencial para a própria sociabilidade dos meninos. No meu tempo, bastava ser bom em futebol. Hoje, a habilidade no computador constitui igual fonte de prestígio.

 

De qualquer modo, não há muito como lutar contra uma característica que é básica nessa nova geração. Para o bem ou para o mal, faz parte do que as crianças hoje são, e do tipo de adultos que serão amanhã. A influência em sentido contrário –livros, natureza, etc.—se dá nas horas vagas, e não deixará de marcar as diferenças individuais contra o pano de fundo comum e cibernético.

 

Dito isso, começo a ver com mais nitidez os males que o uso do videogame está causando na minha precária paz doméstica. Evidentemente, aquilo vicia. Até aí, nenhuma novidade: fui viciado em histórias em quadrinhos, outros o foram em futebol ou balas de goma.

 

O problema é conviver com o viciado. Repentinamente, a necessidade de entrar no site de jogos se manifesta a toda hora, e ai de quem quiser regular essa atividade (minha mulher e eu queremos, claro). O comportamento do meu filho passou das manhas da primeira infância para a rebeldia adolescente. Não ouço choradeiras, não presencio esperneios: passei a ser chamado de “panaca” e presenciar cenas de mau humor.

 

A razão é simples: o videogame evidenciou para meu filho o contraste entre seus poderes virtuais, imaginários, e aqueles que de fato tem. É nisso que reside, afinal, o conflito básico da adolescência, admiravelmente explicado pelo meu colega de Ilustrada, Contardo Calligaris.

 

Mais do que isso, a vida virtual abre para cada criança um mundo próprio, no qual ela é independente de seus pais. Já não precisa que lhe contem historinhas, ou que a levem ao circo, ao cinema ou ao zoológico. Os adultos se tornam dispensáveis, desde que provenham a senha do speedy; uma banana, portanto, para o que disserem depois.

 

O resultado, como em toda experiência educacional, acaba sendo mais draconiano do que seria de desejar. Proibições, cortes, restrições estão a caminho. Mais um pouco e prestarei consultoria ao ministro Paulo Bernardo e outras autoridades econômicas do governo federal.  

Escrito por Marcelo Coelho às 11h59

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Fotofestival, Porto Alegre

Por falar em verão, aqui vai uma foto de Martine Franck, da agência Magnum, onde se pode ver a influência de Cartier Bresson. A foto vai ser leiloada no festival de fotografia de Porto Alegre, que neste ano homenageia Claudia Andujar.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h45

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voltaire de souza

O verão no litoral paulista pode trazer sérios incômodos. Reproduzo uma coluna do "Agora", publicada no começo da semana.

CALORES DE VERÃO

 

 

Praia. Férias. Tempo bom. Tiago estava animado.

Seu Escort 92 rumava com velocidade para o litoral.

--Praia de Buçutuba. Lá que é o quente.

Os amigos tinham dado a informação.

--Muita mulher boa.

O rapaz andava solitário e solto no mundo.

--A fim de umas sereias.

Meio dia de sol.

Lindas jovens se banhavam nas águas claras daquele paraíso.

Fios dentais. Top-less. O clima sugeria liberdade total.

--Olha... tem até camisinha boiando.

Tiago nadou em direção de um grupo de gatas.

Sensações ardentes tomaram conta da virilha do rapaz.

Mas não era desejo.E o que boiava não eram camisinhas.

O contato com águas vivas levou Tiago ao pronto-socorro mais próximo.

Nossas praias estão infestadas, com efeito, pelos danosos habitantes do mar.

O desejo humano é como as águas-vivas.

Belo de longe, seus tentáculos invisíveis podem, por vezes, ferir.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h24

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Obama e sua igreja

No artigo de quarta-feira passada (assinantes do uol podem lê-lo aqui), fiz considerações sobre a disputa entre Hillary Clinton e Barack Obama, explicitamente admitindo minha ausência de informação sobre seus programas e idéias. A tentativa foi de transmitir uma pura impressão visual a respeito dos dois pré-candidatos democratas. Notei uma aparência de "desenraizamento" no caso de Obama, que, sem pertencer propriamente à comunidade dos afro-americanos descendentes de escravos, não parece ligado a figuras como Jesse Jackson ou Martin Luther King; haveria uma "laicidade" em sua figura política.

Um leitor mandou e-mail com link para uma reportagem sobre a igreja a que Obama pertence --advoga-se ali uma espécie de culto "afrocêntrico", onde a tradição bíblica é reinterpretada de forma bastante radical: a própria Terra Santa é considerada uma parte do "nordeste da África", e afirma-se que Jesus tinha pele escura e cabelo "pixaim". A reportagem é equilibrada, notando de que modo Obama tem feito questão de se desvincular das proposições mais radicais dessa igreja, e de que modo setores da direita americana tentam identificá-lo às teses radicais. O texto pode ser acessado aqui. Não vi de que maneira a reportagem pode desmentir a imagem "laica" de Obama, mas pode ser cegueira minha. 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h11

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previsões incorretas

Chega a quinta-feira, e nada de postagem por aqui. Muitas confusões de verão, incluindo nisso uma catapora infantil. Estive no litoral cuidando do caso, com dedicação exclusiva, e me recupero do stress geral. Logo volto. 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h30

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fim-de-semana

Provavelmente não vou poder blogar nos próximos dias. Segunda ou terça estou de volta. Até lá!

Escrito por Marcelo Coelho às 20h24

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leão rampante

leão rampante

Para voltar a exemplos de publicidade popular, não menos estranhos, mas de psicologia mais inteligível, eis aqui alguns cartazes de pizzaria na Chácara Klabin.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h39

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mistérios da publicidade

No artigo de hoje para a Ilustrada, comentei alguns anúncios e marcas que me parecem carentes de qualquer explicação. Difícil saber, por exemplo, o que aquele burocrata russo tem a ver com uma empresa de TV a cabo, o que o nome Apple tem de sugestivo para se tornar marca de computador, e por que uma agência de publicidade resolveu adotar o nome de África. Assinantes podem ler aqui.

Alguns leitores mandaram por e-mail explicações muito interessantes para as questões que eu estava tentando resolver. Seguem-se duas mensagens que recebi.

Apenas a título de informação com respeito ao seu texto “A foice e o

martelo” de 02.01.08; a maçã como logotipo característico da empresa de

Computação Apple, deve-se evidentemente ao nome da empresa, mas este foi

escolhido, segundo informações oficiais, em homenagem a Issac Newton e sua

famosa lei da gravidade atribuída à observação da queda de uma maçã. O

logotipo da empresa, como uma maçã mordida foi criado em 1976 pelo

designer gráfico Rob Janoff no qual as cores do arco-irís, adotadas como

cores internas do logotipo até 1998, pode ser entendida como a difração da

luz branca em cores primárias, igualmente estudada por Newton.

Contudo, há uma grande tendência em admitir o logo da Apple é uma

homenagem ao matemático inglês Alan Mathison Turing, por muitos aceitos

como o pai da computação e que desenvolveu a “lógica” básica da moderna

programação. Alan se suicidou em 1954, ingerindo uma maçã previamente

contaminada com cianido. Era homossexual assumido e a maçã mordida nas

cores do arco-íris seria uma referencia direta à opção sexual desse

matemático.

 

* * * * *

 

...o personagem da NET veicula a seguinte mensagem: comunismo = internet acessível para todos.

 

Apple = gancho no sucesso da gravadora dos Beatles, em um momento (anos 80) em que o mundo ficava órfão de seus sucessos e a marca, com alta visibilidade e associações afetivas implementadas nas mentes consumidoras, perdia seu impacto (a marca processo Jobs anos depois).

 

África = continente mal aproveitado com grande potencial para o futuro.

 

De todo o modo, símbolos publicitários são feitos de aglutanações e assim recebem aportes significantes complementares:

Comunista da Net = internet gratuita + disciplina militar + alusão a território gigantesco + conceito do espião (que é tanto aquele que se infiltra, quanto o que possui um 'segredo' capaz de dominar o mundo -um mundo 'dos NET'), etc.

 

 Apple = logo da gravadora dos Beatles + desenho límpido, simétrico, pecado-prazer, etc.

 

África = continente com potencial de ser aproveitado melhor + política de reparação de desigualdades + valorização das diferenças, etc.

 

O problema que você trata no texto em questão versa sobre o que se chama 'implicatura' (em tradução livre de 'implicature' do inglês), que é relativo às intenções por trás do discurso. De fato, a língua é um veículo à intencionalidade e, tal como os problemas da substitutividade (de substitutivity) revelam (ver Carnap, Quine, Frege), não há redução possível da cognição a um sistema referente, não havendo igualmente, redução ponto a ponto a um sistema de referenciação.

Isto é, para além destes exemplos extremos que o senhor localiza, o mesmo princípio 'relativamente arbitrário' se impõe na fala convencional.

 

[PS]

Desculpe,

mas creio que deixei alguns pontos muito em aberto:

quando disse que este mesmo problema se estabelece na língua como um todo, sob os desígnios da 'substitutivity' (vai assim mesmo pois nunca vi isso em português) eu quis dizer o seguinte:

Considerando que 'África' seja uma etiqueta sobre um engrama (um simbolo é algo que substitui outro algo -ver Newell e Simon) e supondo que 'cadeia' e outros símbolos, também o sejam, o problema relativo à razão da agência de publicidade receber este nome, após o continente, remete-se ao problema de um conjunto de lojas adquirir o outro, após 'prisão'.

Em face desta conjuntura, o ponto principal é que a solução não está sempre nos efeitos (aqueles que lhe causam surpresa em face de sua aparente arbitrariedade), ela é historicizada sobre a rede de associações cognitivas cuja intencionalidade não é, ponto a ponto, identificada com algo exterior (uma história solipsista dos agentes linguísticos).

Por exemplo: me parece que cadeia (de lojas) vem de 'chain', que na verdade é 'corrente' -expressando que estas estão ligadas- e corrente é que foi associado à presos e então à cadeia. Eventualmente por uma má interpretação, eventualmente porque corrente já estava ocupada com um sentido muito forte (religioso, etc) no português, de modo que não seria vantajoso entrar nesta seara.

 

Em tempo: acabo de receber mais uma explicação de um leitor.

 

 

 

Gostaria de compartilhar minhas dúvidas sobre o russo da Net, também não compreendo.

Mas o porque da maçã, símbolo da Apple,

é um pouco mais simples.

Jeff Raskin, um dos idealizadores da Apple,

era um grande apreciador de maçãs da variedade Macintosh (vulgo Mac),

daí surgem os nomes, empresa e produto.

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h11

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os mortos na sala de jantar

Em post anterior, sobre cáries e dentistas, falei de escavações que acabam vitimando não apenas nossos dentes, mas toda a nossa existência; ocorreu-me dizer, algo sinistramente, que o tempo, a cada dia, fabrica nossa própria tumba.

         Vejo agora que a imagem não era integralmente minha. Eu já havia dado uma olhada em Os Mortos na Sala de Jantar, livro de poemas de Ademir Demarchi (editora Realejo, Santos), de onde inconscientemente tirei a comparação e o estado de espírito. Em “Da Individualidade Intransferível”, o poeta escreve:

 

         cada um cava

      seu próprio túmulo

 

E todos os poemas do livro tratam, obsessivamente, da morte. Curioso como existem, na literatura universal, tantos versos de amor e tão poucos, comparativamente, sobre a morte. Sem dúvida, há muitos poetas que falam da brevidade da existência, ou que meditam em cemitérios. Mas a morte em geral é pensada abstratamente, não na sua fisicalidade extrema, que assombra Ademir Demarchi, e motiva uma espécie de humor mais que negro, macabro. Alguns exemplos.

 

EPITÁFIOS

        

                  epitáfios são epígrafes

         de histórias que continuam

                  túmulo adentro

 

 

                   O TÚMULO DE GENGIS KHAN

 

 

 

                   o túmulo de gengis khan

 

 

                            existe

 

             mas não pode ser encontrado

pois os mongóis tinham por hábito

pisotear a cavalo sobre os túmulos dos seus chefes

                até que não mais se pudesse

             distingui-los  da  terra  ao  redor

 

 

PRIMEIRA GUERRA BIOLÓGICA

 

 

         na batalha de kaffa

colônia genovesa da criméia

           em 1346 os tártaros atacaram a cidade

             bem instalada ela resistiu o que pôde

                   dizimando parte da horda

 

 

 

                                  até que

                            mudando de tática

                       com o uso de catapultas

                           os tártaros lançaram

                         por cima das muralhas

                   os cadáveres dos seus soldados

                       mortos pela peste bubônica

 

 

 

Apesar disso, faço votos de um feliz 2008 para todos nós. 

 

    

                   arqueiro mongol

Escrito por Marcelo Coelho às 23h19

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O livro mudo do mundo

O livro mudo do mundo

Não dá para postar na íntegra “Assinatura”, o belo poema que leio em Pedra de Luz, de Rodrigo Petrônio (editora A Girafa), mas as estrofes que reproduzo abaixo já são suficientes, acho, para dar idéia da grande imaginação poética do autor, nascido em 1975.

 

Ele não tem medo dos poemas longos, das palavras “nobres”, como “amaranto”, “vinhas”, “alfombra”, “safira”, nem dos versos que são bonitos, bonitos sozinhos, sonoramente, e antiquadamente, como

 

Âmbar diáfano que teu coração irriga

(“Música natural”)

 

ou

 

Em algumas carícias breves abatida

 

(“Estampas de Minas)

 

Rodrigo Petrônio também não procura esconder as influências variadas (Rilke, Augusto dos Anjos, Dora Ferreira da Silva, Augusto Frederico Schmidt) que retornam com freqüência aos seus poemas, e que muitas vezes são o ponto de partida para um diálogo explícito com algumas obras que lhe servem de inspiração. Assim, “Memórias de um Século” começa com uma menção a Apollinaire:

 

Está cansado desse mundo antigo (...)?

 

E o fantasma de Drummond é invocado repetidamente, por exemplo em “Quetzalcoátl” (“Sou apenas um homem americano...”), em “Sobre a folha de água corrente” (“Quem se lembra de dinamitar Manhattan?”), assim como em “Assinatura” (a lua “diurética”). Mas vamos às estrofes de “Assinatura”.

 

Olho no céu essa lua

Essa esférica bacia

Que molha todo esse mundo

Com sua prata derretida

 

Olho no céu essa lua

O que é que nela palpita?

Seria o sonho dos vivos

Que pra ela à noite migra?

 

Olho no céu essa lua

Poética e radioativa

A mesma que sobre Herodes

Pousou suas asas de brisa

 

Olho no céu essa lua

Que esparge sua bênção fria

Sobre todas as criaturas

Cospe sua ração líqüida

 

... Olho no céu essa lua

Que ilumina São João

Com a cabeça separada

Do corpo em putrefação

 

... Olho no céu essa lua

Esse disco de algodão

Que o discóbolo lançou

Há dois mil anos do chão

 

... Olho no céu essa lua

Em seu alcoólico elixir

Seus mil dedos de anêmona

Afagam o que está por vir

 

... Olho no céu essa lua

Não é aérea ou mineral

Sua compleição feminina

Sua coloração de hospital

 

Olho no céu essa lua

Canteiro de turmalina

Despeja luz sobre tudo

Com tinta branca se assina

 

No livro mudo do mundo.

 

Lua no Pólo Sul- Foto de Jonathan Berry

  

Escrito por Marcelo Coelho às 04h32

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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