Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

hamburguer rosa

hamburguer rosa

Na linha dos cartazes de comida, fotografei este hamburguer perto da Paulista. Interessante a transição do amarelo para o rosa no pão.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

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voltaire de souza

Uma crônica publicada há alguns dias no "Agora".

 

 

ALTAS TEMPERATURAS

 

Pânico. Turbulência. Dias difíceis no mercado financeiro.

Miltinho era cobra no assunto.

Pelo celular, ele se comunicava com Tóquio e Nova York.

No computador, cálculos. Dólares. Decisões.

--Está tudo desaquecendo. Impressionante.

Ele contemplou, da janela do hotel, um bucólico horizonte.

--Quem diria... eu aqui, de férias no Pantanal...

Deu um risinho satisfeito.

--E os mercados pegando fogo.

Ele não se preocupava demais.

--O Brasil é saudável financeiramente. Estamos vacinados contra as crises.

Uma caipirinha. Mais alguns cliques no computador.

O sono da tarde. A certeza de lucros garantidos.

Miltinho acordou logo depois. Estranhos delírios assaltavam sua mente.

--O FMI. Sanguessugas internacionais. É o fim.

Num posto de saúde em Corumbá, o diagnóstico. Febre amarela.

Ele já fez o testamento. Deixando tudo para associações de caridade.

Dólares são como mosquitos. A febre que causam nem sempre tem vacina.

 

Mais uma, sobre polêmico desfile na Fashion Week.

 

 

 

MODA PET

 

No mundo da moda, a criatividade também conta pontos.

Na Fashion Week, fizeram um desfile diferente. Inovador.

Passarela: a marginal do Tietê.

Cenário: favela e poluição. Cor predominante: marrom.

Perfume: esgoto doméstico e industrial.

A bela modelo Juju Santoro estava nos camarins.

O estilista Kuko Jimenez dava ordens nervosas.

--Tira a roupa. Põe essa. Agora não. É do outro lado.

A peça fundamental do desfile era o vestido de noiva.

Trapos brancos em volta de uma estrutura de embalagens pet.

--Vai ser a grande surpresa do dia. A noiva reciclada.

Mas o vestido tinha desaparecido do armário.

--Coisa da Mirella Griffoni. Minha maior concorrente.

Não era. O mendigo Derival tinha achado a peça.

Estava levando para a reciclagem quando foi pego pela segurança.

Juju teve pena do rapaz. Um olhar. Um beijo. E Derival virou consultor de políticas sociais da grife de Kuko.

A moda e os seres humanos são como plástico. Podem sempre se reciclar.

 

Uma terceira, sobre assunto já bastante explorado pela mídia.

 

 

NEGOCIAÇÕES MADURAS

 

O passado não volta. Elpídio se olhava no espelho.

--Acabado. Gordo. Careca.

A nostalgia era forte na alma do velho militante sindical.

Ele pegou um álbum de fotos.

--Anos de chumbo. Repressão. Mas eu era bonito pra burro.

A barba. As assembléias. Os palanques.

--E a mulherada. Tinha até empresária interessada em mim.

A ideologia impedira, entretanto, o amor entre classes antagônicas.

Veio a decisão. Heterodoxa. Radical.

--Vou fazer um implante de cabelo. Tiro da barba e ponho na testa.

Não era longe o consultório de um cirurgião plástico chinês.

O dr. Shi Li Kon. Na sala de espera, a surpresa. A empresária Bia Nardini estava na fila.

Pronta para mais um retoque facial. Beijos intensos se trocaram.

--Estou falida, Elpídio. Foi a crise de 81. Mas hoje plástica é tão barata...

Elpídio concorda com tudo. Mas desistiu do implante de cabelo.

--Prefiro implantar a coisa certa. No lugar certo.

No amor e no sindicalismo, por vezes as conquistas vêm a longo prazo.  

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h05

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Guerra Fria cultural

Guerra Fria cultural

Fiz para a “Ilustrada” uma resenha de Quem Pagou a Conta?, de Frances Stonor Saunders, livro publicado há alguns anos nos EUA com o titulo The Cultural Cold War, e que acaba de ser publicado aqui pela Record.

A autora conta as atividades da CIA no financiamento de atividades culturais durante a Guerra Fria. Congressos, concertos, exposições de arte foram secretamente patrocinados pela espionagem norte-americana, numa tentativa de vencer o grande predomínio intelectual dos partidos comunistas na Europa Ocidental.

Jackson Pollock e toda a corrente do expressionismo abstrato foram “lançados” no ambiente europeu como uma resposta moderna e avançada ao realismo soviético. Era, de fato, o tipo de arte que nenhum comunista podia aprovar: o dogma jdanovista considerava tudo aquilo fruto da decadência e do formalismo burgueses.

Para os ideólogos da Guerra Fria, tratava-se de mostrar o quanto aquela pintura simbolizava a liberdade, a grandeza, o espírito de iniciativa e de espontaneidade vigentes na “América”.

O curioso, entretanto, é que para os verdadeiros direitistas americanos, aquela arte moderna era corrosiva, amalucada, e uma ponta-de-lança dos comunistas no seu intuito de desmoralizar completamente os valores tradicionais americanos.

Criou-se então um paradoxo bem interessante: a extrema-direita americana concordava, em tese, com os estalinistas no campo da estética. Ao mesmo tempo, a CIA procurava dar trela aos críticos do sistema soviético, mas sem querer aparentar falta de sofisticação. Sua intenção era granjear prestígio intelectual para os Estados Unidos, no exigente meio cultural europeu.

Em suma, queria fazer propaganda que não fosse propaganda. Para isso, precisava de artistas e intelectuais que não parecessem propagandistas. Procurou estimular autores que, sendo anticomunistas, não fossem de direita. A revista Encounter, que tinha no poeta Stephen Spender um de seus principais editores, publicava assim artigos de pessoas de esquerda, como UOL Busca Inazio Silone ou UOL Busca Nichola Chiaromonte, enquanto a direita americana esbravejava contra... o esquerdismo da CIA! Os cuidados chegaram a tal ponto que, no primeiro número de Encounter, os dirigentes da CIA acharam melhor não publicar nada de Raymond Aron e de Arthur Koestler, porque eles seriam anticomunistas demais!

Não deixa de ser bonito: prestígio intelectual não combina com propaganda, e dessa contradição a própria CIA não conseguiu se desvencilhar.

O problema é que prestígio e propaganda se confundiam bem do outro lado, onde a política cultural dos partidos comunistas não era a mesma daquela vigente na União Soviética. Picasso e Francis Ponge, por exemplo, faziam homenagens a Stálin, sem perder respeitabilidade por isso.

Podemos dizer, de todo modo, que Pollock ou Mary McCarthy tampouco perderam respeitabilidade porque a CIA os ajudou.

Desse ponto de vista, o livro de Saunders termina engolido pelo próprio paradoxo que ilumina. Dizer que Fulano recebeu favores da CIA é o equivalente a denunciar que Sicrano foi financiado pelo ouro de Moscou.

Seria preciso ver de que modo isso comprometeu a independência dos intelectuais, levou-os a rever suas posições, etc. Teriam escrito diferente se não tivessem esse apoio? Como medir, por exemplo, a moderação de pensamento a que levam as honrarias, cátedras, convites, etc., que cada escritor ou artista recebe? E qual o efeito propagandístico real que teve, no fim das contas, o apoio financeiro da CIA a revistas culturais ultra-elitistas, como a UOL Busca Kenyon Review, de John Crowe Ransom?

Curioso notar que, se alguém teve de mudar mais de posição do que os intelectuais, foi o poderoso chefão do grupo Time-Life, Henry Luce.

Durante a guerra contra o nazismo, suas revistas faziam retratos idílicos de Stalin. Com a Guerra Fria, a mudança de tom foi completa. E foi na “Life” que, por inspiração da CIA, lançou-se o nome de Jackson Pollock como “o maior pintor americano”: algo que ia contra as convicções de Luce e de seus próprios leitores.

Não sei se é a velha dialética, mas sem dúvida a ironia da história está presente nesse tipo de coisa.

O livro também é precioso pelo que conta do macartismo, das reações ao assassinato dos Rosenberg, e do funcionamento da CIA. Mas isso é assunto para depois. 

 

Stalin, por Picasso

 

   

Escrito por Marcelo Coelho às 16h33

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Desejo e reparação

Desejo e reparação

Não li o romance de Ian Mc Ewan em que se baseia Desejo e Reparação, filme de Joe Wright atualmente em cartaz em São Paulo, e que acaba de ser indicado para o Oscar.

 

Mas o que conheço de Mc Ewan me convence de que ele deve ter imaginado um enredo infinitamente mais complexo, ambíguo e carregado de terror moral do que o drama romântico a que assisti no Espaço Unibanco.

 

A personagem realmente interessante da história é a pequena escritora de uma família aristocrática inglesa que, em 1935, acusa injustamente o filho da governanta da casa de um crime de abuso sexual. Passam-se os anos e ela carrega a culpa de ter destruído, com essa calúnia, a vida do rapaz e a de sua própria irmã, que estava apaixonada por ele.

 

O que o filme fez foi concentrar o foco no caso de amor entre o rapaz e a mocinha, deixando a pequena linguaruda no papel puramente funcional de estragar o comovente caso de amor interclassista.

 

O resultado, a meu ver, termina sendo um dramalhão, cheio de pequenos malabarismos de montagem (mas nesse quesito um filme como As Horas, que também não é bom, se mostra superior), cheio de exageros na trilha sonora, e cheio de coincidências novelísticas. Cheio também, de clichês que mal seriam suportáveis num filme de 50 anos atrás.

 

Alguns exemplos: 1) o fiel e medíocre companheiro de armas do mocinho, que desempenha um papel mais ou menos cômico a certa altura do filme, mas que no momento mais fatal e lacrimoso se revela um bom e corajoso amigo. 2) A mãe do rapaz injustiçado, que extravasa uma vida inteira de servidão à classe dominante tentando agredir com golpes de guarda-chuva o carro de polícia que leva embora o filho para a prisão. 3) O repulsivo vilão de bigodinho, milionário engomado que sairá incólume de suas malignas investidas contra crianças inocentes 4) A famosa cena do casamento, onde o padre pergunta se há na platéia alguém que possa testemunhar contra a pureza dos noivos –“que fale agora ou cale-se para sempre”.

 

Sem contar o visual “branco” das toaletes de Keira Knightley, que parecem reciclados de O Grande Gatsby, e a presença de Vanessa Redgrave no papel de uma intelectual experiente no final do filme; só esse “casting” já é de uma previsibilidade exasperante.

 

Talvez Desejo e Reparação funcionasse melhor nas mãos de Joseph Losey, que com O Mensageiro tratou de situação semelhante com muito mais sutileza; ou mesmo nas mãos de Robert Altman, cujo Gosford Park, amplamente esquecível, tem pelo menos a qualidade de não se levar tanto a sério, e conseguir algum humor com isso.  

 

Em todo caso, esse filme teve mais de 80% de críticas favoráveis na imprensa de língua inglesa, segundo o site rottentomatoes. Você pode dar uma olhada aqui. E pode ver também uma bela foto de Keira Knightley, sem precisar de link:

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h27

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fora de conexão

Agora foi o meu filho mais velho que pegou catapora, e fiquei cuidando dele... a correria se reflete na ausência de postagens mas espero que não muito no artigo desta quarta-feira, que escrevi sobre "Laertevisão" (editora Conrad), coleção de tiras do quadrinhista da Folha Laerte Coutinho. Agora meu filho está melhor, viemos para a praia,mas as conexões envolvem uma sabedoria estratégica digna de um enxadrista. Gabo-me de ter conseguido, agora, configurar a coisa toda para um wi-fi que era dos mais misteriosos. Amanhã sigo em frente. Mesmo porque o tempo não está ajudando no litoral paulista... Até amanhã.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h54

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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