Guerra Fria cultural
Fiz para a “Ilustrada” uma resenha de Quem Pagou a Conta?, de Frances Stonor Saunders, livro publicado há alguns anos nos EUA com o titulo The Cultural Cold War, e que acaba de ser publicado aqui pela Record.
A autora conta as atividades da CIA no financiamento de atividades culturais durante a Guerra Fria. Congressos, concertos, exposições de arte foram secretamente patrocinados pela espionagem norte-americana, numa tentativa de vencer o grande predomínio intelectual dos partidos comunistas na Europa Ocidental.
Jackson Pollock e toda a corrente do expressionismo abstrato foram “lançados” no ambiente europeu como uma resposta moderna e avançada ao realismo soviético. Era, de fato, o tipo de arte que nenhum comunista podia aprovar: o dogma jdanovista considerava tudo aquilo fruto da decadência e do formalismo burgueses.
Para os ideólogos da Guerra Fria, tratava-se de mostrar o quanto aquela pintura simbolizava a liberdade, a grandeza, o espírito de iniciativa e de espontaneidade vigentes na “América”.
O curioso, entretanto, é que para os verdadeiros direitistas americanos, aquela arte moderna era corrosiva, amalucada, e uma ponta-de-lança dos comunistas no seu intuito de desmoralizar completamente os valores tradicionais americanos.
Criou-se então um paradoxo bem interessante: a extrema-direita americana concordava, em tese, com os estalinistas no campo da estética. Ao mesmo tempo, a CIA procurava dar trela aos críticos do sistema soviético, mas sem querer aparentar falta de sofisticação. Sua intenção era granjear prestígio intelectual para os Estados Unidos, no exigente meio cultural europeu.
Em suma, queria fazer propaganda que não fosse propaganda. Para isso, precisava de artistas e intelectuais que não parecessem propagandistas. Procurou estimular autores que, sendo anticomunistas, não fossem de direita. A revista Encounter, que tinha no poeta Stephen Spender um de seus principais editores, publicava assim artigos de pessoas de esquerda, como
Inazio Silone ou
Nichola Chiaromonte, enquanto a direita americana esbravejava contra... o esquerdismo da CIA! Os cuidados chegaram a tal ponto que, no primeiro número de Encounter, os dirigentes da CIA acharam melhor não publicar nada de Raymond Aron e de Arthur Koestler, porque eles seriam anticomunistas demais!
Não deixa de ser bonito: prestígio intelectual não combina com propaganda, e dessa contradição a própria CIA não conseguiu se desvencilhar.
O problema é que prestígio e propaganda se confundiam bem do outro lado, onde a política cultural dos partidos comunistas não era a mesma daquela vigente na União Soviética. Picasso e Francis Ponge, por exemplo, faziam homenagens a Stálin, sem perder respeitabilidade por isso.
Podemos dizer, de todo modo, que Pollock ou Mary McCarthy tampouco perderam respeitabilidade porque a CIA os ajudou.
Desse ponto de vista, o livro de Saunders termina engolido pelo próprio paradoxo que ilumina. Dizer que Fulano recebeu favores da CIA é o equivalente a denunciar que Sicrano foi financiado pelo ouro de Moscou.
Seria preciso ver de que modo isso comprometeu a independência dos intelectuais, levou-os a rever suas posições, etc. Teriam escrito diferente se não tivessem esse apoio? Como medir, por exemplo, a moderação de pensamento a que levam as honrarias, cátedras, convites, etc., que cada escritor ou artista recebe? E qual o efeito propagandístico real que teve, no fim das contas, o apoio financeiro da CIA a revistas culturais ultra-elitistas, como a
Kenyon Review, de John Crowe Ransom?
Curioso notar que, se alguém teve de mudar mais de posição do que os intelectuais, foi o poderoso chefão do grupo Time-Life, Henry Luce.
Durante a guerra contra o nazismo, suas revistas faziam retratos idílicos de Stalin. Com a Guerra Fria, a mudança de tom foi completa. E foi na “Life” que, por inspiração da CIA, lançou-se o nome de Jackson Pollock como “o maior pintor americano”: algo que ia contra as convicções de Luce e de seus próprios leitores.
Não sei se é a velha dialética, mas sem dúvida a ironia da história está presente nesse tipo de coisa.
O livro também é precioso pelo que conta do macartismo, das reações ao assassinato dos Rosenberg, e do funcionamento da CIA. Mas isso é assunto para depois.

Stalin, por Picasso