Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

Novelas em três linhas

Novelas em três linhas

 

Quem gosta da recente voga de microcontos, ou aprecia as histórias de Voltaire de Souza, haverá de achar graça num livro de Félix Fénéon, intitulado Nouvelles en trois Lignes. O livro acaba de sair em tradução americana (daí fiquei sabendo de sua existência), mas foi publicado pela primeira vez em 1906.

 

Félix Fénéon reescrevia, para um jornal da época, despachos policiais das agências de notícias. Dou exemplos logo abaixo.

 

Seu papel na literatura francesa é dos mais discretos; amigo de Valéry, Gide e dos simbolistas, aparece sempre como dedicatário de um poema ou outro... não tenho certeza se La Jeune Parque, de Valéry, não foi dedicada a ele. Estou sem o livro aqui.

 

Simpático aos anarquistas, chegou a ser envolvido num processo contra autores de atentado a bomba.

 

Fénéon foi, sobretudo, o editor de uma importante revista da “belle époque”, a Revue Blanche, que publicava Proust, Gide e companhia. Acaba de sair na França uma história completíssima dessa revista, um livro de cerca de 1200 páginas, que não é obra de nenhum historiador da literatura, e sim de um engenheiro, Paul Henri Bourrelier. Mas passemos às “novelas em três linhas”, que traduzo do francês.

 

 

O sr. Colombe, de Rouen, matou-se com um tiro ontem. Sua mulher lhe havia dado três em março, e o divórcio estava próximo.

 

Uma louca na cidade de Puéchabon, a sra. Bautiol, née Hérail, acordou seus sogros a golpes de marreta.

 

O sr. Scheid, de Dunkerque, atirou três vezes em sua mulher. Como não acertava nunca, mirou em sua sogra: a bala entrou.

 

Em oito dias, o segundo caso de bigamia constatado em Toulon: trata-se da mulher de um pedreiro que virou a de um mestre-de-obras.

 

Pernas, braços e cabeça do sr. Louis Lévêque, de Aubenas, viraram cinzas num incêndio. Só encontraram o tronco.

 

Entre os árabes de Douaouda: um casal capturou um galanteador audacioso demais e mutilou-o, anulando para sempre sua concupiscência.

 

O sr. Frachet, de Lyon, mordido por um cachorrinho, e considerado são (Instituto Pasteur), quis morder sua mulher e morreu de raiva.

 

Foi no boliche que a apoplexia derrubou o sr. André, 75 anos, de Levallois. Jogou uma bola que ainda rolava quando ele deixou de existir.

 

NT- “Cochonnet” não é boliche, mas sim uma espécie de bocha; não resisti.

 

A "Revue Blanche", por UOL Busca Bonnard

Escrito por Marcelo Coelho às 00h34

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look alike

look alike

http://www.aref-adib.com/archives/cat_lookalikes.html

Sabe aquela coisa de juntar fotos de duas pessoas muito parecidas, de quem se diz serem gêmeas separadas no nascimento? Aref Adib radicalizou a coisa, e vê semelhanças entre lustres e prédios, árvores e geleiras... as fotos são bem curiosas.

Escrito por Marcelo Coelho às 20h00

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Como falar do que não lemos?

Como falar do que não lemos?

Desde que comecei este blog, minha quantidade de leituras diminuiu. Não pelo tempo que gasto escrevendo aqui, mas pelo fato de que me dispersei demais: comecei a assinar mais revistas, a xeretar mais coisas na internet, e termino me desacostumando à leitura contínua de um livro inteiro.

 

Nestes dias de praia, fico feliz de ter me concentrado mais –e tive tempo de me divertir com um livro recém-lançado pela editora Objetiva, que trata desse assunto de leituras interrompidas, mal-feitas, esquecidas, ou simplesmente inexistentes.

 

Trata-se de Como Falar dos Livros que Não Lemos?, e foi escrito por Pierre Bayard, professor de literatura na Universidade de Paris 8 e psicanalista.

 

Bayard é terrivelmente satírico, mas a principal qualidade de seu livro é que, ao mesmo tempo, contém idéias sérias e verdadeiras sobre a cultura literária e nossa maneira de nos relacionarmos com ela.

 

Ele começa citando Um Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. É um dos romances que ele só folheou; Bayard usa aliás um código para indicar sua familiaridade com os textos a que se refere. Há os “LO” (livros de que ouviu falar), os “LF”, livros que folheou, “LE”, livros que esqueceu, e os “LD”, livros que desconhece.

 

Pois bem, no romance de Musil há um personagem que é bibliotecário, e que aparenta conhecer todos os volumes da imensa biblioteca de que toma conta. Como você fez?, pergunta-lhe um visitante. O segredo, diz o bibliotecário, é nunca ter lido nenhum dos livros da biblioteca. O título, o índice, e o recurso a catálogos bibliográficos dá plenamente conta do problema. Se ele fosse ler os livros um a um, morreria antes de atingir um milésimo das leituras necessárias, e naufragaria na ignorância.

 

A fábula é irônica, mas Bayard tira dela um ensinamento interessante. A cultura, diz ele, não depende apenas (ou nada) do que podemos absorver de um livro em particular, mas da nossa capacidade de “situar” o livro num contexto feito de relações com outros livros.

 

Evidentemente, isso não é um elogio da não-leitura, mas sim de uma espécie de conhecimento “secreto” a respeito do que vale a pena ser lido, e quando, e como... Ele próprio admite alegremente nunca ter lido o Ulisses,  de James Joyce, mas sabe (graças a sua “cultura”) o que é o livro, o que representa, e pode citá-lo em suas aulas, ou recorrer a ele se necessário, sem que por isso tenha vivido a experiência de uma leitura de ponta a ponta.

 

Bayard é especialmente pérfido ao citar alguns textos de Paul Valéry, onde o famoso poeta deixa claro não ter lido os autores que comenta extensamente. O primeiro é Proust, e Valéry é explícito: leu pouquíssimo. O segundo é Anatole France, objeto de um famoso discurso, supostamente em sua homenagem (Valéry assumia a sua cadeira na Academia Francesa), onde o poeta sequer cita o nome de seu antecessor, e destrói a sua imagem a cada elogio que lhe dedica. É que Anatole France ironizara, muitos anos antes, o ídolo de Valéry, Stéphane Mallarmé.

 

Justo aquele que, num verso célebre, dissera “já ter lido todos os livros”. Licença poética, é claro. Diz a lenda que o último ser humano a ter lido todos os livros à disposição em sua época foi Pico della Mirandola, lá por 1400 e tantos.

 

Valéry também escreveu sobre Bergson sem dar a mínima indicação que conhecia as obras do filósofo. Para cúmulo da perversidade, Bayard cita um livro sobre “o método crítico” de Valéry, onde elogiosamente se afirma que a este interessava menos o autor, o que ele tinha escrito, os seus livros, e mais a idéia da obra. Ou seja, o autor como “símbolo” de alguma coisa: da total dedicação intelectual a uma única idéia, por exemplo, ou da impossibilidade estética do romance, etc. etc.

 

São as leis não-escritas do alto mandarinato, que tantas vezes pilham os autodidatas em delito de honestidade.

 

Pessoalmente, acho bom dizer, quase nunca abandono um livro pela metade. Mesmo se chato, vou até o final. O contrário do que faço no cinema, onde tenho grande prazer em sair a qualquer momento. “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzki, abandonei depois de uns quinze minutos. “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood, uns dez minutos antes do fim.

 

Valéry, "en habit d'académicien"

Escrito por Marcelo Coelho às 19h22

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superposições urbanas

A artista gráfica Marlette Menezes faz uma mistura de fotografia e colagem com cenas de cidade. Eis uma imagem, da exposição que realiza em Ouro Preto:

Escrito por Marcelo Coelho às 17h49

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Guerra Fria cultural (2)

Guerra Fria cultural (2)

O ambiente da Guerra Fria é muito bem descrito no livro de Frances Saunders, Quem Pagou a Conta? (editora Record), que resenhei para a Ilustrada de sábado passado.

 

A autora descreve, por exemplo, o papel do diplomata George Kennan na formulação das bases teóricas e legais para a criação da CIA.

 

Num discurso na Escola Nacional de Guerra, em dezembro de 1947, foi Kennan quem introduziu o conceito de “mentira necessaria” como um componente vital da diplomacia americana no pós-guerra. Os comunistas, disse ele, haviam conquistado uma “posição forte na Europa, imensamente superior à nossa (...), através do uso despudorado e habilidoso de mentiras. Eles nos têm combatido com a irrealidade, com a irracionalidade. Porventura podemos combater com êxito essa irrealidade, usando a verdade e a ajuda econômica honesta e bem-intencionada?”

 

Ele achava, evidentemente, que não. Chegou a cogitar de uma intervenção armada na Itália, que naqueles anos estava próxima de dar aos comunistas uma vitória eleitoral; valeria a pena, pensava Kennan, mesmo que o país terminasse dividido, como a Coréia, por exemplo. No fim, a CIA agiu mais discretamente, ajudando os candidatos anticomunistas, mas sobre isso o livro de Saunders não dá detalhes.

 

O conceito de “mentira necessaria” também ecoa numa frase do grande filósofo alemão Karl Jaspers, que num momento menos rigoroso disse que “a própria verdade, hoje em dia, não dispensa a propaganda”...

 

Quem não sai muito arranhado do livro é o presidente Dwight D. Eisenhower, que segundo Saunders expressou dúvidas prudentes às vésperas da execução dos Rosenberg. O casal, com dois filhos pequenos, foi condenado à morte por ter passado segredos nucleares americanos à União Soviética. Naquela época, a opinião pública internacional tendia a acreditar na inocência dos dois; só muito recentemente vieram a público as provas definitivas de que, com efeito, houvera traição. O relato de Saunders é bem interessante:

 

Numa reunião do gabinete ministerial, em 19 de junho de 1953, data marcada para a execução, Eisenhower admitiu, nervoso, estar “impressionado com dados de sua correspondência que refletiam uma dúvida sincera” a respeito do julgamento dos Rosenberg, e disse parecer “estranho que nosso sistema judicial seja atacado num caso tão claro”. Herbert Brownell assegurou-lhe que não se “cogitava de nenhuma dúvida nessa matéria (...) [era] apenas uma minudência técnica”. “O público não entende de minudências técnicas”, retrucou Eisenhower. Ao que Brownell respondeu: “Quem é que vai decidir, os grupos de pressão ou o sistema judiciário? O objetivo dos comunistas é mostrar que é possível pressionar Dwight Eisenhower”. Eisenhower tornou a manifestar impaciência, dizendo a Brownell que estava “preocupado apenas com os cidadãos decentes”. Nesse momento, C.D. Jackson interrompeu e reconheceu que algumas pessoas vinham achando difícil compreender a condenação à morte, à luz do fato de que ela não fora imposta a outros espiões condenados, como Klaus Fuchs. Ao que um amigo de C.D., Henry Cabot Lodge (recém-nomeado especialista tático de Eisenhower em matéria de comunismo), retrucou em tom confiante: “Pode-se explicar tudo com muita facilidade”. “Não com facilidade para mim”, bufou Eisenhower.

 

Mas, como sempre, a tese do “às favas com os escrúpulos” prevaleceu.

Saunders faz bem, entretanto, em lembrar que

 

nenhum dos lobbies formados com apoio comunista para defender o casal divulgou o fato de que, no mesmo dia em que foi fundado na França o Comitê de Defesa dos Rosenberg, onze antigos líderes do partido comunista tcheco foram executados em Praga. Eles também não discutiram o fato de mais comunistas terem sido fuzilados por Stalin do que em qualquer país fascista; ou de os trabalhadores da União Soviética serem mandados para campos de trabalho forçado, se se atrasassem mais de cinco minutos para o trabalho por duas vezes; nem tampouco o fato de que, quando se instruíram artistas a participar de um concurso que escolheria uma estátua comemorativa do centenário de Pushkin, o primeiro prêmio foi para um escultor cuja estátua mostrava Stalin lendo um texto de Púchkin.

 

O terrível nessa história, e que sempre se repete, é que parece impossível a todos os envolvidos no debate criticar uma coisa e a outra. No livro de Ronald Aronson sobre a briga entre Sartre e Camus, que também já comentei aqui, tudo pega fogo depois de Camus se aproximar rapidamente do campo anticomunista, com a publicação de seu O Homem Revoltado, que receberia resenha duríssima na revista de Sartre, Les Temps Modernes. Camus mandou uma carta “ao sr. Diretor”, reclamando do texto, e o próprio Sartre respondeu, com crueldade impressionante. Aronson tenta ser imparcial, mas suas simpatias acabam tendendo para Camus

 

Mais tarde, com a Guerra da Argélia, Camus recusou-se a participar de um evento contra a tortura –que era praticada largamente pelos franceses contra os rebeldes árabes--, porque não podia concordar com o terrorismo destes. Mas será que não é possível ser contra o terrorismo e contra quem tortura terroristas? Na prática, evidentemente, o espaço para a pureza política é próximo do inexistente. Mas parece que todos aqueles intelectuais levavam seu engajamento ao ponto de se imaginarem chefes de Estado em miniatura, “optando” entre situações dadas como se estivessem numa reunião de gabinete ministerial.

 

Para lembrar o velho UOL Busca Julien Benda, isso é justamente ignorar o papel real dos intelectuais. Condenando isso ou aquilo, eles estão influenciando na opinião pública, e, na medida do possível, elevando uma voz moral num mundo onde todo governante ouve demais a frase “às favas com os escrúpulos”. Se o próprio intelectual emprega essa frase, sua função se torna dispensável: os governantes utilizarão suas belas palavras, ridicularizando-os secretamente. Poderão até pagar por elas, como o livro de Saunders mostra detalhadamente... Mas uma coisa é ter recebido dinheiro da CIA sem nem saber, como parece ter sido o caso de Derek Walcott, Carlos Fuentes e Wole Soyinka, além dos listados mais célebres. Outra coisa é prestar o serviço de graça, achando-se além disso mais esperto e “político” do que os próprios políticos.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h48

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The Atlantic

The Atlantic

http://www.theatlantic.com/

Esta é uma ótima revista americana, que de vez em quando aparecia nas bancas de jornais em São Paulo. Agora o seu conteúdo, desde 1994, tem livre acesso na internet.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h20

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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