Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Um economista no bebedouro

Um economista no bebedouro

Apesar das loucuras, há idéias interessantes em Mais Sexo é Sexo Mais Seguro, o livro de Steven Landsburg sobre economia aplicada à vida cotidiana (ver post anterior).

 

Para professores às voltas com alunos desatentos, Landsburg propõe uma iniciativa simples. Em toda escola, quando o professor pergunta alguma coisa, a regra é que quem sabe a resposta levante a mão. Isso em geral não funciona muito bem: o bom aluno muitas vezes não quer passar pelo ridículo de mostrar que sabe, enquanto os maus alunos ficam quietos, sem se mexer.

 

Por que não inverter a regra? A partir de agora, pode dizer o professor, quem não sabe ou não quiser responder deve levantar a mão. O raciocínio de Landsburg é bem econômico: impõe-se, com essa nova regra, um custo adicional a quem não quer ser incomodado. No mínimo, o aluno que não sabe terá de prestar mais atenção do que antes na aula: tem de estar atento para os momentos em que a situação o obriga a levantar a mão.

 

Mas é quando não há professores por perto que o ultraliberalismo de Landsburg entra em delírio.

 

Ele é contra filas, por exemplo. Uma fila num bebedouro público já é, segundo ele, “uma pequena calamidade”. É que o primeiro da fila tende a gastar mais tempo do que precisa bebendo água, uma vez que não sofre nenhum custo adicional pelo tempo que desperdiça; quem arca pelo desperdício de tempo são os que estão atrás dele.

 

“Se eu gastar meio minuto bebendo água enquanto dez pessoas esperam atrás de mim, impus aos outros um custo no valor de cinco minutos. Quais são as probabilidades de que meu gole d’água realmente valha tanto? Eu teria ficado ali bebendo se ele tivesse custado cinco minutos do meu tempo?”

 

Tenho dificuldades até de entender o raciocínio. Na média, afinal, o meu gole d´água já custou cinco minutos do meu tempo, pois quando entrei na fila eu estava, imagino, em décimo lugar também. Ou, vá lá, em sexto ou sétimo lugar; a fila compreensivelmente vai aumentando quanto mais cada bebedor gasta alguns segundos a mais.  Calculemos então que tenha custado quatro minutos do meu tempo. O preço está incluído na minha conta quando entro na fila. Qual o problema? Ou melhor, qual a solução?

 

Existe uma solução mercadológica, diz Landsburg: “Se eu estiver na sua frente, você pode me pagar para que eu saia da fila ou fazer uma vaquinha entre as pessoas que estão atrás de você e depois pagar para que eu saia.”

 

É o clássico sistema do cambista. Mas, obviamente, um copo d’ água não é  a mesma coisa que um concerto único de Nelson Freire. E Landsburg ignora, então, que inventaram uma solução para o problema da fila no bebedouro: o copinho de água mineral a R$ 1. Quem está na fila já “precificou” sua espera de cinco minutos, considerando-a menos dispendiosa do que entregar um real para o homem do carrinho.

 

Acontece que, como no caso dos rins, Landsburg não se conforma com o fato de que existam coisas fora das relações de mercado. Tudo tem de ser comprável e vendável. Por isso a fila é um absurdo em sua ótica.

 

Na verdade, minha frase anterior é um pouco inexata. Não é bem das relações de mercado que se trata. Podemos imaginar que há, com efeito, dois “mercados” em funcionamento, um em que o valor em jogo é o tempo, outro em que o valor em jogo é o dinheiro. São, evidentemente, intercambiáveis: gasto um real no copinho de água se a fila no bebedouro grátis for de quarenta minutos. Aquilo que incomoda Landsburg, a verdade, não é que as relações de mercado deixem de funcionar em algumas situações. É que a tradução de um valor em dinheiro não seja total.

 

É isto, aliás, o que torna fascinante o livro de Landsburg. Ele sabe, tanto quanto qualquer crítico do capitalismo, que as relações de mercado tendem a dominar todas as esferas de nosso comportamento. Todo o seu engenho e criatividade está em inventar modos de tornar isso traduzível em relações de preço. O delírio, acho, é pensar que tudo melhoraria desse modo.

 

Enfim, esta é apenas uma hipótese de interpretação. Não li todo o livro.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h25

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Faça o seu cartão corporativo

Faça o seu cartão corporativo

Recebo de uma amiga o caminho para a tapioca de graça. O site produz em segundos uma imagem de cartão corporativo com o nome que você quiser digitar. Quem gostar de brincadeiras pela internet, pode acessar este link

Escrito por Marcelo Coelho às 10h44

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animação mural

animação mural

http://www.vimeo.com/426617

Recebo a dica de uma amiga. São animações de um artista chamado blu. O desenho é feito sobre a parede, com resultados muito desconcertantes e originais; nascimento, morte, deglutição e rotina ganham uma interpretação angustiada, quase violenta, mas muito vital. Precisa instalar o flash player 9, mas é rapidíssimo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h21

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Rins e economistas

Rins e economistas

Não tenho nenhum preconceito com as teorias do tipo “freakonomics”. Comprei o livro de Steven Levitt, e é um daqueles que ficam me chamando da estante para serem lidos –e acabam perdendo um pouco da atualidade.

 

Peguei entretanto outro do mesmo tipo, que acaba de sair pela editora Campus-Elsevier. Chama-se Mais sexo é sexo mais seguro: a lógica econômica para desvendar os mistérios da vida cotidiana. Foi escrito por Steven Landsburg,e traz na capa elogios do autor de Freakonomics.

 

Li alguns capítulos. Minha impressão é que Landsburg está completamente doido. Depois de tantas utopias atribuindo ao Estado e ao Partido a capacidade de resolver todos os problemas do mundo, alguns economistas resolveram que o Mercado é uma espécie de pedra filosofal, cujos poderes milagrosos mal começamos a vislumbrar.

 

Liberalismo, para Landsburgh, é pouco; pelo menos do jeito que o conhecemos hoje. É um apóstolo do Super-Mercado; nos seus momentos mais moderados, ele se contenta em defender o livre comércio de órgãos humanos. Leia-se isto.

 

uma coisa é certa: há um número excessivo de rins no mundo. Eu mesmo tenho um além do que preciso, e, provavelmente, você também. Gosto de ter um rim sobressalente, mas não gosto dele tanto quanto muitos pacientes com problemas renais (...)

Em um mundo mentalmente são, os rins seriam comprados e vendidos como buchos de suínos. Os economistas calculam que, nesse tipo de mundo, o preço de mercado de um rim estaria em torno de $10 mil ou $15 mil. A esse preço, eu não venderia meu rim sobressalente, mas (segundo cálculos) um número suficiente de pessoas faria o negócio, satisfazendo a demanda.

 

Seria curioso saber que tipo de “mundo mentalmente são” seria esse, onde haveria pessoas pobres o bastante (ou viciados em crack, talvez) para vender um rim em troca de dez mil dólares. Talvez não chegassem a tanto: assassinar crianças para tirar-lhes os rins seria uma premiação econômica para atos de crueldade ou perversão que, hoje em dia, são feitos de graça (e por isso são relativamente raros).

 

Landsburgh recua um pouco de sua proposta, e oferece uma versão mais moderada.

 

Em última instância, poderíamos isentar do pagamento da taxa da licença de motoristas os candidatos que constassem da lista de “doadores de órgãos”. Se é trágico para as pessoas andarem por aí com um rim extra do qual talvez nunca tenham precisado, é mais trágico ainda as pessoas serem enterradas com um rim extra do qual certamente não mais precisarão.

 

Nosso economista faz aqui um pequeno erro de cálculo. A maioria das pessoas é enterrada com dois rins extras, e não precisarão de nenhum dos dois. No fundo, ele mistura no mesmo argumento a venda de um rim em vida com a doação de rins post mortem. É assim que logo ele volta para o radicalismo inicial.

 

Se permitíssemos a existência de um mercado de rins, alguns vendedores não teriam arrependimentos? Com certeza. Alguns poderiam acabar precisando daquele rim que venderam (...) Mas e daí? Existem vendedores arrependidos em todos os mercados.

 

Talvez precisamente por isso, diria alguém com espírito lógico, não se queira criar um mercado de rins. Mas Landsburgh podia ser mais liberal ainda. Poderia propor um leasing de rins. Você aluga o rim, e se precisar de novo, pode requerê-lo para uso próprio. Se não precisar, quando você estiver morto o rim passa definitivamente a quem o arrendou.

 

Um bom economista deveria calcular os custos de um crescimento enorme dos transplantes de rim, comparando-o talvez a outros procedimentos em pesquisa terapêutica. Mas fiquemos por aqui. A idéia do mercado de rins não é a proposta mais estranha ou impensável do livro. Depois comento outras.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h52

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yukiza, teatro de bonecos

yukiza, teatro de bonecos

Recebo de Hermano Taruma uma linda série de fotos do "yukiza", teatro de marionetes japonês. A tradição vem do século 17, e está sendo realizada uma turnê de espetáculos aqui no Brasil. Veja as informações no link. Haverá apresentações em São Paulo, no Sesc Vila Nova, nos dias 27 (21h) e 28 de fevereiro (17h e 21h).

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h54

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Hugo Chávez e Zizek

Eis um apoio e tanto. Entre os intelectuais de esquerda de hoje em dia, poucos são tão criativos, bons de ler e surpreendentes quanto Slavoj Zizek. Mas sua última surpresa é realmente de doer. Saiu na London Review of Books de novembro, mas leio só agora a transcrição de seu texto, na Harper’s de fevereiro.

 

Zizek está resenhando um livro de Simon Critchley, Infinitely Demanding, que advoga uma atitude de resistência permanente ao Estado capitalista. O futuro da esquerda estaria em bombardeá-lo com demandas sempre crescentes, a partir de grupos de pressão específicos: ecologistas, pacifistas, feministas etc.

 

Besteira, diz Zizek. O que o autor de um livro desses diria aos democratas americanos? Que parem de lutar pela presidência e se dediquem a esse tipo de oposicionismo auto-organizado?

 

E aí vem a bomba.

 

É notável que o rumo adotado por Hugo Chávez desde 2006 seja o oposto exato do escolhido pela esquerda pós-moderna: longe de resistir ao poder de Estado, ele o tomou (tentando primeiro dar um golpe, e depois democraticamente), usando implacavelmente os aparelhos de Estado venezuelanos para promover seus objetivos. Mais ainda, ele está militarizando os barrios e organizando o treinamento de unidades armadas ali. E, numa máxima ameaça, agora que ele está sentindo os efeitos econômicos da “resistência” do capital ao seu poder (escassez temporária de alguns produtos nos supermercados subsidiados pelo Estado), ele se dedicou a consolidar num único partido os vinte e quatro partidos que o apóiam. Mesmo alguns de seus aliados são céticos a esse respeito [...]

 

Entretanto, sua opção, embora arriscada, deveria ser apoiada plenamente: a tarefa é fazer o novo partido funcionar não como um típico partido socialista (ou peronista) de Estado mas como um veículo para a mobilização de novas formas de política (como os comitês de base nas favelas). O que deveríamos dizer a alguém como Chávez? “Não, não tome o poder de Estado, retire-se apenas, deixe o Estado e a situação atual no seu lugar”? Chávez é freqüentemente desprezado como uma espécie de palhaço –mas uma retirada desse tipo não iria justamente reduzi-lo a uma versão do subcomandante Marcos, a quem muitos esquerdistas mexicanos se referem agora como “subcomediante Marcos”?

 

Em vez do subcomediante, Zizek prefere o supercomediante... É de perder a paciência a credulidade de pessoas sofisticadas de esquerda diante do espetáculo bruto do poder.

 

Será possível que Zizek acredita que o partido de Chávez é outra coisa além de um instrumento do poder pessoal de um caudilho? Acredita que, num país dominado pelo personalismo incansável de um líder que aparece horas e horas por dia na televisão, organizações de base numa favela tenham algum tipo de independência crítica diante do salvador da pátria? Acredita na “escassez temporária” de alguns produtos, depois de tantas experiências fracassadas de controle burocrático da economia?

 

E esse era um intelectual sofisticado...

Escrito por Marcelo Coelho às 23h20

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Demônios no convento

Demônios no convento

Freiras endemoninhadas: faz muito tempo que li, sobre o assunto, o ensaio histórico (hoje chamaríamos de livro-reportagem) de Aldous Huxley, Os Demônios de Loudun. Trata-se de um caso real, ocorrido na França do século 17, que Huxley desmonta com seu velho e bom racionalismo –o único instrumento que possuímos, afinal, contra os demônios.

 

O livro mais tarde foi transformado em ópera por Penderecki –ouvi isso há muito tempo, também, numa transmissão da rádio Cultura FM; a orquestra imitava sons de instrumentos de tortura, terror total.

 

Agora saiu em DVD, pelo selo Lume, um filme de outro polonês, Jerzy Kawalerowicz, com o mesmo tema. Chama-se Madre Joana dos Anjos, e ganhou o prêmio do júri do Festival de Cannes em 1961. Com perdão da ignorância, nunca tinha ouvido falar nem do filme nem do diretor.

 

Recomendo vivamente. Em especial a primeira metade do filme, quando o padre exorcista primeiro se aproxima do convento, começa a ouvir os boatos e comentários das pessoas da estalagem, vai ficando com medo, e enfim se encaminha, para encontrar a madre superiora... Sem pressa, mas sem um minuto que não acrescente um pouco de tensão, o diretor nos prepara para o pior. Não há torturas. Ou melhor, o verdadeiro torturado, do ponto de vista psicológico, é o exorcista, um sacerdote que sem ser jovem não tem nenhuma experiência do mundo exterior; viveu ele próprio desde criança num mosteiro.

 

A madre superiora o espera, humilde, imaculada, de cabeça baixa. É uma atriz excelente, e bem bonita (Lucyna Winnicka). Um dos truques do diretor, repetido várias vezes, mas que não cansa, é filmá-la de costas; ela então se volta, e nunca sabemos como será a expressão do seu rosto. Provocação, malevolência, inteligência, endemoninhamento, doçura, tudo pode ser lido simultaneamente nos olhos dessa atriz.

 

O jogo entre muitas tonalidades de branco e cinza-claro (a planície que circunda o convento, algumas extensões de neve, o hábito das freiras) dá lugar a outras longas passagens em negro (o hábito do exorcista, o interior de uma estalagem). O diretor faz o que quer com as expectativas de quem vê o filme.

 

Há seqüências (não que eu seja especialista nesse tipo de coisa) que parecem ter sido planejadas magistralmente: de um close de rosto a câmera se afasta, faz um longo percurso mostrando objetos e pessoas a meia-distância, para encontrar depois um personagem que não sabíamos estar presente na cena... Apesar de um final meio bruto em termos narrativos, “Madre Joana dos Anjos” é grande cinema.

 

Interessante, também, como exercício de circunlóquio político. Um compositor como Penderecki escreveu muitas missas e oratórios: a cultura polonesa, não é preciso dizer, está profundamente marcada pelo catolicismo. Num país comunista, alguma negociação precisava ser feita, imagino, para tantas obras religiosas. Na ópera de Penderecki, como aqui neste filme de Kawalerowicz, talvez esteja em jogo um estratagema. Denuncia-se os horrores, a inumanidade, do sistema de crenças católico. Mas, na medida em que mostram inquisições, torturas, exorcismos e ortodoxias, o subtexto dessas obras parece ser a crítica ao sistema de crenças estalinista.

 

Nada mais parecido com o exorcismo sucessivo a que Madre Joana é submetida do que um processo contra os dissidentes do regime. Assim como Bukharin e outros, nos anos trinta, tiveram de confessar não apenas sua oposição a Stálin, mas uma série de outros crimes, Madre Joana está possuída por sete demônios diferentes, e eles têm de ser expulsos um a um. O tribunal de padres que acompanha o processo nunca está contente, é claro.

 

Outra aproximação curiosa é do ponto de vista visual. Madre Joana está num pátio interno do convento, e irá entrar em mais um breve e profundo diálogo com o exorcista. Entre os dois, uma série de varais onde estão pendurados os hábitos branquíssimos das freiras. Ela brinca levemente com o varais, que oscilam de leve, num vaivém. No “Encouraçado Potemkin”, de Eisenstein, as redes dos marinheiros, as peças de carne penduradas na cozinha, conhecem o mesmo tipo de oscilação, ameçadora e inocente. É a hora de soltar os demônios da insurreição.

 

Lucynna Winnicka, indecifrável no meio do varal.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h01

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Nova edição de Montaigne

Nova edição de Montaigne

Má notícia para os admiradores de Montaigne: saiu uma nova edição dos “Ensaios”, na coleção da “Pléiade”. Eu já não gostava da anterior, dos anos 50 se não estou enganado, que obrigava o leitor a procurar nas notas do fim do volume a tradução dos inúmeros trechos em latim que Montaigne salpica ao longo dos seus escritos.

 

Agora, ficou pior ainda. Os editores resolveram eliminar, jogando também para o fim do volume, as famosas letrinhas entre parênteses --(a), (b), (c)—que indicavam as sucessivas modificações que Montaigne foi acrescentando ao texto original.

 

Funciona assim. Houve uma primeira edição dos “Ensaios”, publicada em 1580. Oito anos depois, Montaigne publicou outra edição, com um volume inédito e com muitos acréscimos aos textos já publicados. Depois de sua morte, em 1595, foi feita uma nova edição, com ainda mais acréscimos, que Montaigne havia anotado às margens de um exemplar dos “Ensaios”.

 

O efeito, para o leitor, é ver o próprio autor “escrevendo” seu texto, dialogando consigo mesmo, acendendo outras luzes sobre o que já tinha escrito. A Pléiade nova optou pelo texto corrido, como se apenas a última palavra fosse a definitiva. Nada menos montaigneano do negar, à aparência do próprio texto, seu caráter de improviso interminável.  

 

Mostro, em Folha Explica Montaigne, um exemplo importante e dramático desses acréscimos.

 

Na “Apologia de Raymond Sebond” –teoricamente uma defesa do cristianismo contra as pretensões da razão humana--, Montaigne escreve um parágrafo que, de início, parece uma crítica à religião pagã: “As coisas mais ignoradas são mais próprias para serem deificadas. Por isso, fazer de nós deuses, como a Antigüidade, ultrapassa a extrema fraqueza de raciocínio. Eu ainda teria preferido seguir os que adoravam a serpente, o cão e o boi, pois sua natureza e seu ser nos são menos conhecidos [...] mas haver feito deuses de condição igual à nossa, cuja imperfeição devemos conhecer, haver-lhes atribuído o desejo, a cólera, as vinganças, os casamentos, as procriações e os parentescos, o amor e o ciúme, nossos membros e nossos ossos, nossas ânsias e nossos prazeres, isso deve ter provindo de uma espantosa embriaguez do espírito humano.”

 

Até aqui, tudo certo. Mas a edição de 1595 [sempre indicada com um (c) no meio do texto, antes da péssima idéia da Pléiade] pôs algumas palavras a mais nesse texto. Voltemos um pouco. “...mas haver feito deuses de condição igual à nossa, cuja imperfeição devemos conhecer, haver-lhes atribuído o desejo, a cólera, as vinganças, os casamentos, as procriações e os parentescos, o amor e o ciúme, nossos membros e nossos ossos, nossas ânsias e nossos prazeres, (c) nossas mortes, nossas sepulturas, isso deve ter provindo de uma espantosa embriaguez do espírito humano.” Será que estamos forçando a interpretação se dissermos que esse acréscimo parece referir-se à figura de Jesus Cristo –a quem foram atribuídas uma morte e uma sepultura humanas?

 

Note-se que esse adendo foi feito por Montaigne depois de que a primeira edição passou pelo crivo do Vaticano.

 

Esse tipo de coisa, numa edição corrida, sem indicação dos acréscimos, fica entalado nas notas finais –que, com aquele papelzinho fino da Pléiade, são ainda mais incômodas de pesquisar. Bem fez Charles Rosen, na NYRB, ao criticar essa decisão.

 

Pode não ser a edição mais erudita, mas para meu gosto a mais cômoda e resistente a várias leituras é a da “Intégrale” das éditions du Seuil. Atualiza a ortografia francesa, o que pode tirar o sabor do texto, mas facilita bastante a leitura.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h12

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Veja e o neutrogena (2)

A edição de “Veja” desta semana está de fato bastante imparcial e “neutrógena” (ver post anterior) com relação ao PT. Tanto que elegeu para as páginas amarelas o deputado José Eduardo Martins Cardozo, novo secretário-geral do partido, prestando-lhe uma suprema homenagem –do ponto de vista do leitor da publicação. O título da entrevista faz com que Martins Cardozo surja aos olhos do leitor como um petista especialmente sincero e pronto a corrigir os “erros” do PT. “O mensalão existiu”, diz a revista, como se a frase fosse de Martins Cardozo, mas não é bem assim.

 

Veja- Como membro da CPI dos Correios, o senhor acha que o mensalão existiu ou compactua com a visão de colegas do partido de que foi tudo um complô das elites contra o governo Lula?

 

José Eduardo—Eu tento evitar conflitos semânticos. E a palavra mensalão pode ter vários sentidos. Naquele caso, eu não tenho dúvida de que houve situações de ilegalidade com a destinação de recursos financeiros de forma indevida a aliados políticos. Não tenho a menor dúvida.

 

Bem, mas isso não é dizer que “o mensalão existiu”. A bela admissão de Martins Cardozo (bela no sentido de que ele parece, aos olhos de Veja, diferente dos petistas linha-dura) resume-se apenas ao que tantos petistas já disseram: houve recursos de caixa 2 na campanha de Lula, distribuídos entre os aliados.

 

A questão do mensalão, como sempre sustentaram os não-petistas, era outra. Tratava-se de dar dinheiro na boca do caixa a parlamentares da base aliada, graças a empréstimos inacreditáveis obtidos por uma agência de propaganda, que prestava serviços ao setor público federal, junto a bancos que se beneficiaram de decisões do próprio governo federal. Os petistas insistem na firula semântica de que o dinheiro distribuído a parlamentares não saía todo mês, “logo, não era mensalão”. Mas o escândalo teve outra natureza, muito mais grave, do que a sugerida por Martins Cardozo. Envolveu pagamentos às vésperas de decisões importantes no Congresso, por exemplo. Mas Veja faz um favor a Martins Cardozo, que não é metalúrgico nem analfabeto, apresentando sua entrevista como exemplo de uma confissão que os petistas não tiveram coragem de fazer.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h41

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"Veja" e o Neutrogena

Discutindo miudezas. Achei surpreendentemente moderada a atitude da revista “Veja” desta semana, ao revelar duas despesas com cartões corporativos no governo Lula.

 

Primeira despesa. Atenção, contribuintes. Eis o texto de Alexandre Oltramari e Otávio Cabral.

 

Em 2004, a servidora Maria Emília Évora”, oitava no ranking dos gastadores do Planalto, apresentou uma nota fiscal no valor de 52,30 reais. A despesa se refere ao creme para mãos Neutrogena, a um protetor labial da marca Nivea e a um gel para pálpebras sensíveis. Em sua prestação de contas, Maria Emília relatou que a despesa foi feita para “atender necessidades da primeira-dama, dona Marisa. Comprou-se, também, uma pomada antibiótica para o presidente.

 

Logo adiante, um generoso impulso de justificação.

 

Um creme hidratante para a primeira-dama durante uma viagem oficial e um remédio de emergência para o presidente são despesas que nem mesmo na mais estóica das administrações podem ser consideradas luxo.

 

Ué. O contribuinte pode muito bem perguntar porque dona Mariza não gastou dinheiro do próprio bolso para comprar o Neutrogena. Uma administração mais conscienciosa faria isso. O que teria feito dona Ruth no lugar? Investigue-se, investigue-se.

 

Passemos à segunda despesa lulista na farra dos cartões. Eis o texto de “Veja”.

 

Um dos pagamentos aos quais VEJA teve acesso se refere a uma viagem de Lula a São Paulo no dia 29 de junho de 2004. A viagem ocorreu no Sucatão, o Boeing presidencial substituído três anos atrás pelo Aerolula. Havia 78 pessoas a bordo. Dois tipos de refeição foram servidos na viagem. O jantar dos viajantes foi comprado pela ecônoma Maria Emília Évora da empresa Gate Gourmet, do Rio de Janeiro –e pago em dinheiro vivo. Com caviar no cardápio, o jantar servido na cabine presidencial, ocupada por Lula e mais onze passageiros, custou 385 reais por pessoa.

 

O cidadão que se escandalizou com uma tapioca a 8 reais e pouco haverá naturalmente de espumar diante da tripa-forra do metalúrgico analfabeto. “Veja”, não.

 

Também nesse caso não há estoicismo que justifique condenar o fato de um presidente da República se servir e aos convidados íntimos de um prato com caviar a 385 reais com cabeça durante uma viagem de trabalho.

 

Ou seja, a não ser que você seja muito “estóico” [eles queriam dizer “ascético”? “puritano”? “moralista”?], o caviar não deve ser condenado.

Imagino que não mesmo –ou teríamos de condenar também o eventual caviar de Fernando Henrique. Melhor passar batido. O dedo em riste na farra dos cartões pode continuar; mas na palma da mão dos mais “estóicos” porta-vozes da indignação do contribuinte já se passa, pelo que vejo, algum Neutrogena.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h57

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Elizabeth, a Era de Ouro

Elizabeth, a Era de Ouro

Há belas cenas de batalha naval em Elizabeth, a Era de Ouro, que vale assistir em algum cinema bem grande; vi no Bristol. A Invencível Armada de Felipe 2º., tentando invadir a Inglaterra, produz belos efeitos de pintura, com seus galeões incendiados.

 

O filme de Shekhar Kapur (trailer aqui)seria perfeito aí por volta de 1940, quando os ingleses sofriam o ataque cerrado de Hitler. Como os nazistas, ou os fundamentalistas islâmicos de hoje, os espanhóis de Elizabeth são fanáticos medonhos, e não passariam de uma caricatura cinematográfica não fossem alguns bons diálogos dos seus embaixadores na corte britânica, e uma astúcia de espionagem que não posso revelar.

 

Como se estivéssemos em 1940, Elizabeth trata de celebrar as virtudes da Grã-Bretanha ameaçada pelo invasor: a liberdade religiosa inglesa, a equitação inglesa, a sensaboria da mulher inglesa.

 

Cate Blanchett, no papel da Rainha Virgem, é uma ótima voz e uma ótima rainha, mas uma mulher muito chata e pouquíssimo sedutora. Situação agravada pela maquiagem que esconde suas sobrancelhas, e pela terrível seqüência de penteados e perucas que ela experimenta ao longo do filme (perto dos quais os terríveis chapéus de Elizabeth 2ª. até que são engraçadinhos).

 

Ainda assim, as conversas de Elizabeth com aquele que poderia ser o amor de sua vida, sir Walter Raleigh (Clive Owen, num pastiche de Errol Flynn), são muito bem escritas; o pirata, fundador da colônia americana de Virgínia (nome com que homenageou a rainha), é um conquistador e tanto, ideal para donzelas românticas inglesas.

 

Além de guerra (numa grande banheira) e amor (a seco), há também a política, entregue nas mãos de um sonolento Geoffrey Rush, no papel de primeiro-ministro da rainha. A mensagem é clara. Trata-se de defender a tolerância religiosa protestante contra o fanatismo católico e a Inquisição, mesmo que para isso todo suspeito de conspiração tenha de ser torturado a valer nas masmorras da liberdade anglo-saxã. Geoffrey Rush acompanha de perto as cenas de tortura, e depois parece desinteressar-se do filme, ou o filme dele, tanto faz. Em todo caso, ao contrário de Rush, assisti o filme até o fim.

 

Nada sexy, mas as roupas dão ao filme força fashion

Escrito por Marcelo Coelho às 20h22

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Ciro e Sabatella

Letícia Sabatella fez bonito em seu entrevero com Ciro Gomes, anteontem no Congresso. Leia a notícia da Folha aqui (para assinantes do uol).

 Confiante no próprio charme, que é verdadeiro, o ex-ministro foi tratando a atriz com desenvoltura.

 

"Nós nos conhecemos desde o seu primeiro trabalho, por que essa formalidade?", questionou. "Porque não temos intimidade", retrucou a atriz. E emendou: "Li no jornal que o senhor é um dos que mais faltam ao Congresso".

 

Ela farejou uma coisa muito comum em certos setores dominantes, que poderíamos chamar da “prepotência da intimidade”. É quando alguém chama o inferior de “meu filho”, por exemplo, ou quando se diz “minha querida, não tenho tempo agora” à operadora de telemarketing.

 

Do mesmo modo, é comum tratar as mulheres pelo primeiro nome, seja qual for sua profissão e status social; fazemos o mesmo com políticos, mas isso não invalida o raciocínio de que nosso estilo de mandonismo é esse mesmo.

 

Em inglês existe a palavra “patronizing”, se não me engano, que equivaleria ao nosso “paternalismo”. Mas lá é verbo, e aqui é sintomático que não exista o verbo corresponde. É um estado de coisas, não uma ação reprovável na qual se incide ocasionalmente.

 

Veio também a frase de Ciro Gomes sobre “meter a mão na massa, às vezes suja de cocô”; meter a mão, mas manter limpa a cabeça. A interpretação mais plausível dessa frase é a de que, segundo Ciro Gomes, Letícia Sabatella tem cocô na cabeça. É a reação usual de alguém que vê uma mulher bonita convicta demais de uma tese discutível. A mulher bonita será chamada, num estágio, de “burra”, porque nunca ouviu falar da transposição do rio São Francisco. No segundo estágio, será chamada de “confusa”, porque manifesta dúvidas sobre o assunto. No terceiro estágio, convencida de que não deve haver a transposição, só pode “ter cocô na cabeça”.

 

A beleza física cobra um preço alto das mulheres que a têm; e mesmo no caso de Ciro Gomes, que também não é feio, acaba tendo conseqüências nefastas. Pois, quando ele não “abafa” com uma mulher, é natural que se irrite. Claro, ele se irrita muitas vezes. Mas é pelo hábito de ter sucesso pessoal.    

Escrito por Marcelo Coelho às 17h56

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planos diabólicos

No artigo de quarta-feira passada, comentei um pouquinho a aproximação entre o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, do PSDB, e o prefeito de Belo Horizonte, do PT. Não quis avançar muito na especulação, e não escrevi algo que me pareceu arriscado. Parece, entretanto, que o presidente do PMDB, Michel Temer, já tinha na cabeça alguma coisa parecida com o meu modesto plano diabólico.

 

Já declarou que o PMDB estaria de portas abertas para receber Aécio. A jogada é interessante. O PT não tem candidato forte à presidência da República; o PSDB tem dois, o PMDB nenhum.

 

Aécio, pelo PMDB, seria um candidato que Lula poderia tornar seu sucessor. Arranja-se um vice do PT, por que não Dilma ou, para aquietar os duros, Berzoini, e a chapa governista teria condições de sair vitoriosa. Já Serra seria o candidato tucano, e quem sabe com o esvaziamento de rivais ele termine unificando o partido.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h21

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arte e reciclagem

arte e reciclagem

Andei postando umas coisas feitas com material reciclado; esta aranha, obra de R. Muszkat, está em exposição permanente no Centro de Cultura Judaica de São Paulo.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h10

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Pedagogas e normalistas

Recebo da psicanalista Anna Veronica Mautner esta reflexão.

Onde está a normalista?

 

Não resisto a ser saudosista quando se trata de educação. Ai que saudades que tenho do tempo que a gente se orgulhava de ser, conhecer, ter na família uma jovem normalista! A Escola Normal já foi orgulho de sua comunidade, bairro ou cidade. A normalista era vista como uma pessoa preparada para apresentar o mundo para os pequeninos que estavam chegando. A normalista era formada para dar as primeiras tinturas de civilidade ao futuro cidadão.

 

Capricho, zelo, ordem, orgulho do que era feito bem-feito. Este era o começo de tudo. A Escola Normal alavancava a auto-estima de suas estudantes, cuja caligrafia e apresentação pessoal eram sempre impecáveis. Não lembro de professoras relaxadas.

 

[...]

 

Uma normalista levava-se a sério, acreditava na importância da sua missão. O lugar da normalista estava assegurado na sua comunidade, assim se via e assim eram vistas – em total redundância.

 

Hoje, me perdoem as pedagogas, mas sobre elas não percebo pairar a aura do orgulho de ser. A elite do colegial prefere seguir carreira nas Ciências, eventualmente em Letras. A pedagoga não brilha. Permitam-me a ousadia, mas a sociedade não as respeita. Tendo escolhido um curso sem glamour, a educadora fica à sombra do brilho dos médicos, psicólogos, advogados, etc.

 

Por que e como isso ocorreu, eu não acompanhei de perto. Acordei um dia consciente de que educadores tinham se tornado... o que mesmo? Não adjetivarei, mas tenho certeza que são menores, tornaram-se pouco significantes, como um espaço opaco na sociedade. Enquanto a normalista não voltar a ter o charme antigo, será difícil resgatar o status da escola. As normalistas eram pedra fundamental na aprendizagem não só do bê-á-bá, mas funcionavam também como modelo de moça/mulher e objeto de fantasia para os rapazes.

 

 capa do romance de Adolfo Caminha, no site de livros usados buquineiro

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h58

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do Salmo 107

do Salmo 107

Pensando no post anterior, eis um trecho bíblico (Salmos, 107, 23-28)

Os que, tomando navios, descem aos mares, os que fazem tráfico na imensidade das águas,

Esses vêem as obras do Senhor, e as suas maravilhas nas profundezas do abismo.

Pois Ele falou, e fez levantar o vento tempestuoso, que elevou as ondas do mar.

Subiram até os céus, desceram até os abismos; no meio destas angústias, desfalecia-lhes a alma.

Andaram e cambalearam como ébrios, e perderam todo tino.

Então, na sua angústia, clamaram ao Senhor, e ele os livrou de suas tribulações.

O texto foi musicado por Herbert Sumsion (1899-1995), e pode ser encontrado num CD da Naxos, intitulado Psalms for the Soul. Trata-se de uma série de obras corais, "very british", que exigem muita atenção e silêncio (interno e externo) para serem ouvidas. A que mais agrada de imediato é de sir Hubert Parry, o Salmo 84:"como são belas tuas moradas, ó Senhor dos exércitos!", cujas frases melódicas curtas são bem parecidas com aqueles hinos que a gente não sabe bem onde ouviu; ou será algum andante de Haydn? O fato é que, como sugere o texto, estamos "em casa" ouvindo essa música. Junto com sir Charles Stanford (1852-1924), Parry (1848-1918) é um dos fundadores da música inglesa no século 20, antes que seus alunos, como Vaughan Williams, tomassem conta daquela morada, bastante vazia aliás naqueles tempos. 

 Nascer do sol com monstros marinhos, de Turner

Escrito por Marcelo Coelho às 02h47

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monogamia abissal

monogamia abissal

Por falar em monogamia, leio na NYRB uma resenha sobre The Deep: the extraordinary creatures of the abyss, de Claire Nouvian, que traz fotos de peixes e outros animais jamais vistos antes. Habitam as zonas mais profundas dos oceanos, e até pouco tempo atrás não havia sequer tecnologia para fotografá-los sob pressões tão altas.

 

Pois bem, há um peixe por ali cujo nome em inglês é “black seadevil”, capaz de comer peixes quase tão grandes quanto ele próprio, e que na frente da boca gigantesca dispõe de uma lanterna, funcionando como isca. Assim, pelo menos, é a fêmea da espécie.

 

O macho é minúsculo. Quando encontra a fêmea, morde-a e não larga dela nunca mais. Com o passar do tempo –sigo a descrição do resenhista Tim Flannery—as veias e artérias dele crescem junto com as dela, ao ponto de o macho se transformar numa espécie de feto, que depende do sangue da cônjuge para receber toda a alimentação de que necessita. Com isso, todas as suas funções –nadar, ver, mastigar por exemplo—desaparecem; o único órgão ativo são os testículos, “mas mesmo estes, ao que parece, são estimulados para atuar apenas segundo a vontade da fêmea que os engolfa. Quando ela já obteve tudo dele, o macho simplesmente desaparece, absorvido e dissipado por completo no corpo de sua bem-amada, deixando-a livre para procurar outro parceiro.”

 

Histórias de amor podem ter finais piores do que esse.

 

Abaixo, algumas das criaturas do fundo do mar; mais fotos neste link.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h43

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lanches e petiscos

lanches e petiscos

Duas fotos de uma lanchonete no litoral paulista, dentro da coleção de cartazes populares. Parece que lá eles ainda aceitam cartões corporativos.

Bom o detalhe das ranhuras nas bisnagas de catchup e mostarda. Gosto também da alface, como uma gravata borboleta. Abaixo, interessante o uso do preto para delimitar uma bata frita da outra:

O fundo cor-de-rosa, sem dúvida ingrato, conheceu boa harmonização de cores.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h12

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voltaire de souza

Algumas crônicas recentes, sobre cartões corporativos e outros assuntos, publicadas no jornal "Agora".

ALMA EM BRASA 

 

Churrascarias. Banquetes. Tapioca.

Algumas autoridades andaram abusando no uso dos cartões corporativos.

O dr. Ximenes era um famoso advogado em Brasília.

--Absurdo. E o povo pagando a conta.

Ele freqüentava uma das mais luxuosas churrascarias da cidade.

A Boi no Pasto. Especialidade em carnes nobres.

Ximenes reconheceu um famoso político na mesa ao lado.

--Bandido. Patife. Com o meu dinheiro.

O garçom Eliezer fatiava cuidadosamente uma picanha.

Ximenes apropriou-se da faca de churrasco.

--Paga o que me deve, seu safado.

Um sorriso conciliador surgiu nos lábios do político.

--Ora, ora... compreendo sua revolta... mas no meu caso...

--Se não quer devolver o dinheiro, paga em espécie.

Ximenes ia cortar parte da coxa da autoridade quando os seguranças chegaram.

Veio a dor no peito. Era enfarte. Na UTI, Ximenes amaldiçoa os políticos.

Já o médico põe a culpa no excesso de picanha engordurada.

A mente humana é como um churrasco: quando esquenta demais, passa do ponto.

 

CHUVAS DA MADRUGADA

 

Assaltos. Seqüestros. Robertão tomava o maior cuidado.

Carro novo. Dinheiro no bolso. Vida bem-sucedida.

--E a mulherada não reclama.

Ele estava voltando sozinho de um motel na Marginal.

Tinha deixado a bela morena Gilvanka perto da entrada de Guarulhos.

Estava perto do Sambódromo quando uma moto se aproximou.

O assalto foi rápido. E humilhante.

--Me deixa pelo menos com a cueca.

--Peladão, cara. Que eu gostei desse modelo.

De fato, era uma fina peça em seda pura.

Nudez. Desespero. A chuva das altas horas da noite.

Foi quando Robertão viu uma coisa brilhando na enxurrada.

Era um tapa-sexo feminino. Relíquia de um quente carnaval.

As lantejoulas douradas cobriam mal a privilegiada anatomia do rapaz.

Mas atraíram o dr. Pedrosa. Que dirigia seu Subaru em estado de adiantada embriaguez.

A carona foi bem-vinda. O beijo também.

Robertão descobre novos prazeres no apê do engenheiro aposentado.

O Carnaval pode passar. Mas não se escondem para sempre os desejos mais ocultos.

 

 

TEMPO DE MUDANÇAS

 

 

Churrascos. Aparelhos de ginástica. Flores.

O bom gosto de nossos governantes é inquestionável.

Cartões corporativos asseguram a todos um bom padrão de consumo.

Julinho era dono de um botequim em São Bernardo.

Durante muitos anos, ele servia o básico.

--Pinga. Ovo cozido. Torresmo. Cerveja.

Mas é tempo de mudanças. Sua filha concluíra um curso de gastronomia.

--Papai. Podemos transformar essa biboca num bistrô.

Peixes com molho tailandês. Vinhos australianos. Compota de caju.

E um cartaz.

--Brinde especial para cartões corporativos.

Logo uma autoridade apareceu. Elogiou a cozinha. E mostrou o cartão.

--Qual é o brinde? Acho que eu tenho direito.

Julinho trouxe uma garrafa de champanhe.

Rachou-a com violência na cabeça do asessor ministerial.

--É isso aí. Depois que viramos bistrô, entrei para a oposição.

Restaurantes são como políticos.

Por vezes, não convém confiar em suas promessas.

 

AGENDA DE MUDANÇAS

 

 

Prévias. Debates. Pesquisas.

O dr. Calasans estava fascinado com as eleições americanas.

--Um negro. Candidato. Incrível.

O senador Barack Obama atrai as atenções de todo o mundo.

Calasans não desgrudava de um canal noticioso americano.

--Really... Fantastic... Caucus.

A família estranhou quando Calasans passou a falar em inglês nas refeições.

--I want more tapióc.

O funcionário público aposentado voltou a usar gravata.

--America must cháááánge...

A mulher dele resolveu ter uma conversa séria.

--Querido. Falar em inglês tudo bem. Mas fazer bronzeamento artificial?

De fato, Calasans estava freqüentando a Clínica Bella Skin.

Um lampejo de ódio surgiu nos olhos de Calasans.

--Hillary. I don’t love you. Good bye. For ever.

Ele sumiu de casa com uma maleta executivo. E pretende fazer campanha em todos os Estados deste grande país.

Mudanças são importantes. Por vezes, contudo, podem ir longe demais.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h47

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tapioca e caviar

O artigo de hoje para a Ilustrada, “Macarthismo das miudezas”, até que recebeu menos pedradas do que o de duas semanas atrás, sobre a falta de soberania na Amazônia. Com o passar do tempo, na verdade, não me incomoda nem a falta nem o excesso de manifestações iradas dos leitores: não sou dos que procuram esse tipo de coisa, como é comum no jornalismo, nem perco o sono, como me acontecia antigamente, pensando “será que exagerei? será que fui justo?”

 

A rigor, lamento não me dedicar mais à crítica de literatura, de cinema, ou a crônicas mais leves sobre o cotidiano: o espaço da Ilustrada deveria ser antes de tudo dedicado a isso. Mas quando começo a ter opiniões, seja sobre escândalos ou Amazônia, que não vejo muito expressas no dia-a-dia do jornal, acabo achando que vale a pena escrever a contrapelo da maioria.

 

Naturalmente, o PT e seus defensores parecem até cansados de esbravejar inutilmente contra a suposta conspiração da imprensa contra o mandato Lula; as últimas falas de Tarso Genro, sobre o “terceiro turno” que se pretenderia impor com o caso dos cartões corporativos, revestem-se da pouca credibilidade que assume uma estratégia de autodefesa inúmeras vezes repetida.

 

Ter sido acusado de pró-Serra e “empregado do Frias” nas vezes em que ataquei o PT no mensalão pelo menos me ajuda, acho, a falar com menos suspeição quando diferencio entre o valerioduto e a tapioca. Não digo isso para me fazer de esperto, nem de imaculado, mas porque o famoso “apartidarismo” jornalístico, freqüentemente desacreditado, serve não como  uma âncora absoluta, mas como tentativa de manter certa medida do real. Coisa que, pelas paixões ideológicas, tende a perder-se facilmente.

 

Dito isso, acho que há pontos que poderiam ser mais desenvolvidos no artigo. A idéia do “caso de amor” PT/PSDB talvez tenha desvãos psicológicos que ainda não consigo identificar bem.

 

Noto, antes de tudo, a simetria das posições partidárias em três casos. O valerioduto, que começou com o PSDB mineiro para ser transposto ao PT nacional. A oposição à CPMF, que começou com o PT para receber depois sua versão tucano-demista. E agora, o quiproquó da CPI dos cartões, assunto em que sequer os tucanos se entendem direito.

 

Quantos peessedebistas não querem a desgraça de Serra? O quanto a blindagem a Serra não auxilia a blindagem a Lula? De que modo uma CPI pode atingir tanto oposicionistas quanto governistas? Há nisso um teste, quem sabe, inconsciente para verificar, na prática, a medida em que todos convergem em interesses comuns de autopreservação.

 

A questão é que a luta política se baseia, atualmente, na desmoralização do adversário –no levantamento de suas irregularidades éticas. Entretanto, a vida política continua a depender, entre gregos e troianos, da preservação de uma mesma estrutura, fadada a gerar corrupção.

 

Como o PT se recusou, em nome da governabilidade, a transformar a vida política --confiando basicamente na mesma estrutura que deu funcionamento ao governo FHC—as cartas do baralho da disputa política continuam as mesmas, trocando e retrocando de mãos; numa rodada, um perde, na outra rodada, ganha.

 

Será apenas isso o jogo democrático? Seria, se estivessem em disputa visões alternativas para o futuro do país. Mas no que tange a políticas educacionais, projetos de saúde, planos de infraestrutura, política monetária, etc. etc., as diferenças entre PT e PSDB são pequenas. A disputa política deixa o PSDB a reboque do DEM; a perspectiva administrativa deixa o PSDB próximo do PT moderado; o PSDB se divide, entretanto, não apenas em função dessa dualidade de situações, mas em função das rivalidades paulistas entre Serra, Alckmin e FHC.

 

O conflito pessoal no interior do tucanato se sublima no ódio pessoal dos eleitores tucanos contra Lula: é a presença de um Lula no governo, e não propriamente o governo Lula em si, o que inflama o eleitor de oposição. Tirem Lula, e tudo se resolve, diz a oposição, do mesmo modo que, antigamente, muitos petistas achavam que pondo Lula tudo se resolveria.

 

Essa análise, que vou elaborando ao correr da pena, não explica entretanto a terminologia que empreguei sobre o “caso de amor”. Talvez existam exemplos de duas pessoas que não se suportam até o momento em que se descobrem apaixonados; não lembro qual a comédia de Shakespeare que tinha esse enredo. Não era a “Comédia dos Erros”, nem “Trabalhos de Amor Perdidos”, nem “Bem Está o que Bem Acaba”. “Medida por Medida”? CPI por CPI? Quem sabe a “Megera Domada”. Não, lembrei agora: é As You Like It (“Como gostais”) que eu queria citar. Bom nome para uma tapiocaria de luxo.   

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h15

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amizade, política, Sartre

 

Amizade e política nos tempos de Guerra Fria: leio sobre o rompimento de relações entre Jean-Paul Sartre e Raymond Aron. Antigos colegas ou “camaradinhas”, como eles gostavam de se tratar, foram tomando rumos opostos na política depois da 2ª. guerra. Aron, com relações cordiais com De Gaulle, defendia a aproximação entre França e Estados Unidos, escrevendo num jornal conservador, o “Figaro”. Sartre tornava-se cada vez mais de esquerda. Eis como Raymond Aron conta o caso, em suas Memórias (ed. Nova Fronteira). Note-se, sobretudo, a impressionante ausência de emoções do narrador, e sua aparente ausência de remorso. Estava, sem dúvida, diante de uma situação difícil, mas com a qual poderia ter lidado de outro modo.

 

No governo Ramadier, Sartre conseguira um programa de rádio; conversava livremente com alguns de seus amigos. Em uma das suas primeiras transmissões, falou do general de Gaulle. Um de seus interlocutores comparou longamente o general de Gaulle a Hitler (“as pálpebras pesadas...”) Claro, a comparação causou escândalo. À noite, fui convidado para me reunir na estação de rádio com J.-P. Sartre e seus contraditores. Vi-me cercado por gaullistas excitados (...) que atacavam Sartre com censuras violentas, mais ou menos injuriosas. Permaneci silencioso, não podendo dar razão a Sartre e menos ainda a aderir aos “vituperadores”. Soube, algumas semanas depois, que Sartre não me perdoava meu “silêncio” quando se encontrava só em meio a inimigos.

 

Em seu diálogo com Simone de Beauvoir, em 1974, ele narra essa mesma cena, tal como a viveu: “Aron, é toda uma história do gaullismo e de um diálogo no rádio; tínhamos uma hora no rádio, toda semana, para discutir a situação política, e tínhamos sido muito violentos contra de Gaulle. Alguns gaullistas quiseram responder-me frente a frente (...) Quando cheguei à rádio, não deveríamos nos encontrar antes do diálogo. Aron foi, acho que eu o escolhera para servir de árbitro entre nós, estando convencido, aliás, que ficaria do meu lado; Aron nem pareceu me ver; juntou-se aos outros; compreendia que visse os outros mas não que me deixasse na mão. Foi a partir daí que compreendi que Aron estava contra mim; no plano político, considerei uma ruptura sua solidariedade aos gaullistas contra mim. Sempre houve uma forte razão para minhas desavenças, mas afinal, fui sempre eu quem tomou a decisão de romper”.

 

Retomemos alguns pontos: “Tínhamos sido muito violentos contra o general de Gaulle.” Isso é minimizar: tinham comparado longamente o general de Gaulle a Hitler, fazendo até aproximações físicas. Podia eu aprovar isso por amizade a ele? (...) Certamente, eu poderia ter encontrado um meio de agir diferentemente, de testemunhar-lhe minha amizade sem me solidarizar com seu programa da véspera. Recordo-me dessa breve cena como um momento insuportável: de um lado, os gaullistas, pelos quais não sentia nenhuma simpatia, e, do outro, Sartre, impávido sob as injúrias, e eu, silencioso. Cada um saiu para o seu lado.

 

Dito isto, Sartre tem razão, a amizade estava morrendo por si, inexoravelmente. Após [os anos na École Normale Supérieure, onde ambos foram colegas], ele preferiu as amizades femininas; as conversas entre homens lhe pareceram estéreis e logo aborrecidas. Discutíamos filosofia enquanto não escrevíamos livros [...] Nem conversas políticas, porque vivíamos em universos diferentes, nem conversas filosóficas, porque ele não apreciava a controvérsia: teria podido sobrar [...] o nada ou o essencial, o prazer de se reencontrar, mesmo sem nada a dizer; essa felicidade jamais nos foi concedida.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h34

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aviso sobre e-mails

Acidentalmente, apaguei todos os e-mails de minha caixa postal. Peço desculpas aos que não receberam resposta minha até agora, e peço-lhes que reenviem suas mensagens.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h18

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monogamia, parte dois

monogamia, parte dois

No final do último post, criticando as idéias de Chesterton sobre monogamia, defendi um argumento que me parece correto, mas por meio de uma metáfora um bocado batida e vulgar.

 

Tenho de resenhar agora para a Folha um texto muito curto de André Gorz, intitulado Carta a D. A idéia não é tanto a monogamia, mas a fidelidade; e menos a fidelidade, afinal, do que o amor. Eis como começa o livro, escrito em 2006.

 

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e dois anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.

 

O parágrafo foi bastante lembrado no fim do ano passado, quando veio a notícia de André Gorz e sua mulher, Dorine, suicidaram-se. Ela sofria de uma doença degenerativa há muitos anos. Eles se conheceram em 1947.

 

Eu despi o seu corpo com cautela. Descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne. O brilho nacarado do pescoço iluminava o seu rosto. Mudo, contemplei longamente esse milagre de vigor e de doçura.

 

Entra em discussão o tema do casamento.

 

Eu tinha objeções de princípio, ideológicas. Para mim o casamento era uma instituição burguesa; eu considerava que ele codificava juridicamente e socializava uma relação que, sendo de amor, ligava duas pessoas no que elas tinham de menos social [...] Eu dizia: “O que nos prova que, em dez ou vinte anos, nosso pacto para a vida inteira corresponderá ao desejo do que teremos nos tornado?”

A sua reposta era incontornável: “Se você se une a alguém para a vida inteira, os dois estão pondo em comum sua vida e deixarão de fazer o que divide ou contraria a união. A construção do casal é um projeto comum aos dois, e vocês nunca terminarão de confirmá-lo, de adaptá-lo e de reorientá-lo em função das situações que forem mudando. Nós seremos o que fizermos juntos”. Era quase Sartre.

 

Naturalmente, o segredo está no sentido que se atribui ao termo “adaptá-lo”. Sartre e Simone de Beauvoir construíram uma vida em comum que se “adaptou” aos inúmeros casos que ambos tiveram fora da relação. O problema começa quando há desacordo a respeito das formas com que cada um dos cônjuges concebe a “adaptação”. É muito provável que um dos lados “se adapte” mais do que o outro...

 

Só achei uma foto antiga de Gorz e Dorine na web

 

 

 

mas me mandaram esta, também.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h04

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uma defesa da monogamia

uma defesa da monogamia

“Creio porque é absurdo”, dizia Tertuliano, nos começos da era cristã. Ortodoxia, o livro de G.K. Chesterton que comentei no artigo de quarta-feira (para assinantes, este é o link), desenvolve com grande poesia, e paradoxos mais fantásticos que os de Oscar Wilde, esse tipo de raciocínio. Eis um exemplo:

 

No conto de fadas há uma felicidade incompreensível que se apóia numa condição incompreensível. Abre-se uma caixa, e todos os males saem voando. Esquece-se uma palavra, e cidades são destruídas. Acende-se uma lâmpada, e o amor voa embora. Colhe-se uma flor, e vidas humanas são perdidas. Come-se uma maçã, e a esperança de Deus desaparece.

 

Esse é o tom dos contos de fadas, e certamente não se trata de desregramento ou mesmo de liberdade [...] As fadas madrinhas parecem no mínimo tão rigorosas quanto as outras madrinhas. A Cinderela recebeu uma carruagem proveniente do País das Maravilhas e um cocheiro que saiu do nada, mas ela recebeu uma ordem –que poderia ter sido expedida do subúrbio de Brixton—que deveria estar de volta às doze horas. Além disso, tinha sapatos de vidro; e não pode ser coincidência que o vidro seja uma substância tão comum no folclore. Esta princesa mora num castelo de vidro, aquela numa colina de vidro; esta aqui enxerga tudo num espelho; elas todas podem morar em casa de vidro,se não atirarem pedras. Pois essa tênue cintilação do vidro em toda parte é a expressão do fato de que a felicidade brilha, mas é frágil, como a substância mais facilmente quebrada por uma doméstica ou um gato.

 

Esse sentimento dos contos de fada também calou fundo em mim e tornou-se um sentimento em relação ao mundo inteiro. Eu sentia e sinto que a vida em si brilha como um diamante, mas é frágil como uma vidraça; e quando os céus eram comparados a um terrível cristal, eu ainda posso lembrar-me do calafrio. Tinha medo de que Deus deixasse o cosmos cair e ele se espatifasse.

 

Lembre-se, porém, que ser quebrável não é o mesmo que ser perecível. Golpeie um vidro, e ele não vai resistir um instante; simplesmente não o golpeie, e ele vai resistir mil anos. Assim me parecia que era a alegria do ser humano, no país dos elfos ou na terra: a felicidade dependia de NÃO FAZER ALGO que você poderia fazer a qualquer momento, e, muitas vezes, não era óbvio o motivo por que não deveria fazê-lo.

 

Ora, o ponto principal nesse caso é que, para MIM, isso não parecia injusto. Se o terceiro filho do moleiro dissesse à fada: “Explique-me por que não devo plantar bananeira no palácio das fadas”, a fada poderia responder-lhe: “Bem, se é isso que se trata, explique o palácio das fadas”. Se a Cinderela disser: “Por que razão devo deixar o baile à meia-noite?” sua fada madrinha poderia responder: “Por que razão você vai ficar lá até meia-noite?”

 

Vê-se que, do elogio à felicidade mais feérica, Chesterton passa rapidamente à defesa de proibições incompreensíveis. Poderíamos argumentar, no mesmo tom, que a primeira pergunta de Cinderela não se dirigia a uma fada, e sim à sua madrasta: “Por que não posso ir ao baile?”

De modo que a obediência, defendida por Chesterton, vale só quando há fadas por perto. Vejamos como continua o texto.

 

[...] Por essa razão (podemos chamar isso de filosofia da fada madrinha) nunca associar-me aos jovens do meu tempo no que eles chamavam sentimento geral de REVOLTA. Eu teria oposto resistência, é de esperar, a quaisquer regras que fossem perversas [...] mas não me sentia disposto a resistir a alguma regra simplesmente porque era misteriosa.

 

[...] Neste ponto só vou apresentar um exemplo ético para mostrar o que pretendo dizer. Eu nunca consegui envolver-me no burburinho geral daquela geração contra a monogamia, porque nenhuma restrição imposta ao sexo parecia-me tão estranha e inesperada quanto o sexo em si. [...] Restringir-se a uma única mulher é um preço pequeno diante do simples fato da visita a uma única mulher. Queixar-me de que eu só poderia casar-me uma vez era como queixar-me de ter nascido só uma vez. Era algo desproporcionado em relação à terrível emoção de que se estava falando. Aquilo mostrava, não uma sensibilidade exagerada, mas uma curiosa insensibilidade ao sexo. Louco é quem se queixa de não entrar no Éden por cinco portas ao mesmo tempo.

 

A poligamia é a falta de realização do sexo: é como quem apanha cinco peras de uma só vez num mero gesto de insanidade.

 

Naturalmente, as metáforas substituem qualquer raciocínio concreto, e poderiam ser respondidas melhor pelo mesmo tipo de metáforas: louco é o sujeito que, durante anos, alimenta-se unicamente de peras...

 

Mas o principal não é entrar nesse tipo de debates; Chesterton tem o bom gosto de defender um catolicismo que não se aferrava a dogmas específicos, a passagens escolhidas da Bíblia (livro que ele cita pouquíssimo). Não toma o escrito sagrado como autoridade verdadeira; confronta a sua experiência pessoal a uma idéia vasta de catolicismo, e nota a concordância de uma coisa com a outra. Mas, como eu disse no artigo, essa experiência pessoal é sobretudo a de uma pessoa fantasticamente feliz: o mundo real para ele é como um mundo de fadas... a religião, nesse caso, confirma tudo. 

 

 

Quadro da californiana UOL Busca Franceska Schifrin

Escrito por Marcelo Coelho às 14h40

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livros para aprender com os filhos

livros para aprender com os filhos

Um dos prazeres (melhor dizer: uma das alegrias) de ver os filhos crescendo é que isso abre a possibilidade, sempre inesgotável, de mostrar-lhes o mundo. Não resisto a entuchar meus filhos do máximo de informações possíveis, seja de vocabulário, seja de fatos históricos, nomes, lugares. Naturalmente, as crianças são rápidas e ávidas na absorção desse tipo de coisa, que talvez não faça muito sentido para elas (por que haveriam de conhecer palavras como “alternativa”, Constantinopla, glockenspiel?) mas faz sentido para mim, ou melhor, para meu relacionamento com elas.

Resumindo, não vejo vantagem nenhuma em facilitar as coisas. Há sem dúvida o prazer perverso, mas creio que também inocente, de ver como crianças pequenas pronunciam palavras polissilábicas. Mas há também uma sensação que tive quando dava aulas para estudantes de terceiro ano de jornalismo: você pode sempre baixar o nível de suas informações, para chegar ao básico do básico –mas nisso há sobretudo um desrespeito pela vontade de todo ser humano de vencer um desafio, e de se sentir mais sabido do que é. Quanto mais eu tornava difíceis minhas aulas –claro que com algum bom-senso nisso—, mais os alunos pareciam querer dificuldade, informação, cultura. O inteligível, o puramente inteligível, pode emburrecer. Emburrece tanto os alunos quanto o professor.

Alguns livros para crianças, editados recentemente, podem tornar os pais mais inteligentes. Pego, por exemplo, o Meu 1º. Larousse da História, coisa simples, para quem tem 7 ou 8 anos, quase em quadrinhos. Nunca tinha ouvido falar de Solimão, o Magnifíco, que governou um enorme império a partir de Istambul. Ou que o primeiro imperador da China se chamava Qin Shi Huangdi. Influências do multiculturalismo, que pegam desprevenidas as gerações mais velhas.

O livro é bem simples, e as gerações mais velhas haverão de se espantar pela absoluta ausência de menções à revolução russa e aos movimentos anticolonialistas do século 20. Em compensação, o pessoal da Larousse dedica duas páginas à Revolução Francesa sem falar de guilhotina.

Um livro mais detalhado, imagino para quem tenha seus 13 ou 14 anos, ou para quem tenha mais de 40, é Para entender o mundo, da editora SM. Cheio de números e fotos, além de simpáticas ilustrações de Orlando, pode ser lido com proveito por qualquer pessoa que se embatuca um pouco quando lhe perguntam sobre os conflitos da Bósnia ou de Darfur. Se eu tivesse de fazer vestibular neste ano, sem dúvida eu recorreria ao livro. Há desde a história da União Européia e da evolução dos preços do barril de petróleo de 1970 a 2004, até a informação de que existem 15 589 espécies de animais e plantas ameaçadas de extinção. A criança ou adolescente que tiver lido com atenção um livro desses haverá de saber, sobre o mundo atual, mais do que muitos jornalistas de renome.

Também é difícil acreditar que Arte para compreender o mundo, também uma edição da SM, sirva apenas para leitores em idade escolar. Começa com uma epígrafe de Picasso: “Arte não existe para decorar apartamentos: ela é uma arma ofensiva e defensiva contra o inimigo”.

Depois dizem que a Guerra Fria não existe mais... Mas o livro está longe de ter uma visão militante. Eu diria: procura uma atitude consciente. Esclarece as relações entre a arte e o sagrado, entre arte e expressão de sentimentos, entre arte e documentação, entre arte e política, entre arte e... decoração, com exemplos tirados dos países e épocas mais diversas.

Certamente, esse tipo de livros é feito tanto para os pais quanto para os filhos. Os meus ainda não estão em idade para avançar tanto assim, mas eu trato de ir dando uma olhada enquanto isso.

Seria errado terminar este post sem falar de um livraço, também da editora SM, que por ter um prefácio de minha autoria não pode ser mencionado sem desculpas pelo que possa haver de propaganda em minha atitude. Mas é que o livro é bom mesmo. Trata-se de Imagens que Contam o Mundo, de Eric Godeau. São trezentas fotos da agência Magnum, a mais extraordinária associação de talento fotojornalístico do século passado, contando a história do mundo de 1950 até o presente, com textos e comentários que não apenas contextualizam os fatos retratados, mas também trazem depoimentos dos próprios fotógrafos. De Elvis Presley a Martin Luther King, de Lula à Rainha Elizabeth, não há foto que não surpreenda, que não se inche de sentido. Seria absurdo deixar isso cair apenas nas mãos de alunos de colegial.  

 

Solimão [Suleiman], o magnífico

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h55

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Novelas em três linhas

Novelas em três linhas

 

Quem gosta da recente voga de microcontos, ou aprecia as histórias de Voltaire de Souza, haverá de achar graça num livro de Félix Fénéon, intitulado Nouvelles en trois Lignes. O livro acaba de sair em tradução americana (daí fiquei sabendo de sua existência), mas foi publicado pela primeira vez em 1906.

 

Félix Fénéon reescrevia, para um jornal da época, despachos policiais das agências de notícias. Dou exemplos logo abaixo.

 

Seu papel na literatura francesa é dos mais discretos; amigo de Valéry, Gide e dos simbolistas, aparece sempre como dedicatário de um poema ou outro... não tenho certeza se La Jeune Parque, de Valéry, não foi dedicada a ele. Estou sem o livro aqui.

 

Simpático aos anarquistas, chegou a ser envolvido num processo contra autores de atentado a bomba.

 

Fénéon foi, sobretudo, o editor de uma importante revista da “belle époque”, a Revue Blanche, que publicava Proust, Gide e companhia. Acaba de sair na França uma história completíssima dessa revista, um livro de cerca de 1200 páginas, que não é obra de nenhum historiador da literatura, e sim de um engenheiro, Paul Henri Bourrelier. Mas passemos às “novelas em três linhas”, que traduzo do francês.

 

 

O sr. Colombe, de Rouen, matou-se com um tiro ontem. Sua mulher lhe havia dado três em março, e o divórcio estava próximo.

 

Uma louca na cidade de Puéchabon, a sra. Bautiol, née Hérail, acordou seus sogros a golpes de marreta.

 

O sr. Scheid, de Dunkerque, atirou três vezes em sua mulher. Como não acertava nunca, mirou em sua sogra: a bala entrou.

 

Em oito dias, o segundo caso de bigamia constatado em Toulon: trata-se da mulher de um pedreiro que virou a de um mestre-de-obras.

 

Pernas, braços e cabeça do sr. Louis Lévêque, de Aubenas, viraram cinzas num incêndio. Só encontraram o tronco.

 

Entre os árabes de Douaouda: um casal capturou um galanteador audacioso demais e mutilou-o, anulando para sempre sua concupiscência.

 

O sr. Frachet, de Lyon, mordido por um cachorrinho, e considerado são (Instituto Pasteur), quis morder sua mulher e morreu de raiva.

 

Foi no boliche que a apoplexia derrubou o sr. André, 75 anos, de Levallois. Jogou uma bola que ainda rolava quando ele deixou de existir.

 

NT- “Cochonnet” não é boliche, mas sim uma espécie de bocha; não resisti.

 

A "Revue Blanche", por UOL Busca Bonnard

Escrito por Marcelo Coelho às 00h34

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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