Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

Elizabeth, a Era de Ouro

Elizabeth, a Era de Ouro

Há belas cenas de batalha naval em Elizabeth, a Era de Ouro, que vale assistir em algum cinema bem grande; vi no Bristol. A Invencível Armada de Felipe 2º., tentando invadir a Inglaterra, produz belos efeitos de pintura, com seus galeões incendiados.

 

O filme de Shekhar Kapur (trailer aqui)seria perfeito aí por volta de 1940, quando os ingleses sofriam o ataque cerrado de Hitler. Como os nazistas, ou os fundamentalistas islâmicos de hoje, os espanhóis de Elizabeth são fanáticos medonhos, e não passariam de uma caricatura cinematográfica não fossem alguns bons diálogos dos seus embaixadores na corte britânica, e uma astúcia de espionagem que não posso revelar.

 

Como se estivéssemos em 1940, Elizabeth trata de celebrar as virtudes da Grã-Bretanha ameaçada pelo invasor: a liberdade religiosa inglesa, a equitação inglesa, a sensaboria da mulher inglesa.

 

Cate Blanchett, no papel da Rainha Virgem, é uma ótima voz e uma ótima rainha, mas uma mulher muito chata e pouquíssimo sedutora. Situação agravada pela maquiagem que esconde suas sobrancelhas, e pela terrível seqüência de penteados e perucas que ela experimenta ao longo do filme (perto dos quais os terríveis chapéus de Elizabeth 2ª. até que são engraçadinhos).

 

Ainda assim, as conversas de Elizabeth com aquele que poderia ser o amor de sua vida, sir Walter Raleigh (Clive Owen, num pastiche de Errol Flynn), são muito bem escritas; o pirata, fundador da colônia americana de Virgínia (nome com que homenageou a rainha), é um conquistador e tanto, ideal para donzelas românticas inglesas.

 

Além de guerra (numa grande banheira) e amor (a seco), há também a política, entregue nas mãos de um sonolento Geoffrey Rush, no papel de primeiro-ministro da rainha. A mensagem é clara. Trata-se de defender a tolerância religiosa protestante contra o fanatismo católico e a Inquisição, mesmo que para isso todo suspeito de conspiração tenha de ser torturado a valer nas masmorras da liberdade anglo-saxã. Geoffrey Rush acompanha de perto as cenas de tortura, e depois parece desinteressar-se do filme, ou o filme dele, tanto faz. Em todo caso, ao contrário de Rush, assisti o filme até o fim.

 

Nada sexy, mas as roupas dão ao filme força fashion

Escrito por Marcelo Coelho às 20h22

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Ciro e Sabatella

Letícia Sabatella fez bonito em seu entrevero com Ciro Gomes, anteontem no Congresso. Leia a notícia da Folha aqui (para assinantes do uol).

 Confiante no próprio charme, que é verdadeiro, o ex-ministro foi tratando a atriz com desenvoltura.

 

"Nós nos conhecemos desde o seu primeiro trabalho, por que essa formalidade?", questionou. "Porque não temos intimidade", retrucou a atriz. E emendou: "Li no jornal que o senhor é um dos que mais faltam ao Congresso".

 

Ela farejou uma coisa muito comum em certos setores dominantes, que poderíamos chamar da “prepotência da intimidade”. É quando alguém chama o inferior de “meu filho”, por exemplo, ou quando se diz “minha querida, não tenho tempo agora” à operadora de telemarketing.

 

Do mesmo modo, é comum tratar as mulheres pelo primeiro nome, seja qual for sua profissão e status social; fazemos o mesmo com políticos, mas isso não invalida o raciocínio de que nosso estilo de mandonismo é esse mesmo.

 

Em inglês existe a palavra “patronizing”, se não me engano, que equivaleria ao nosso “paternalismo”. Mas lá é verbo, e aqui é sintomático que não exista o verbo corresponde. É um estado de coisas, não uma ação reprovável na qual se incide ocasionalmente.

 

Veio também a frase de Ciro Gomes sobre “meter a mão na massa, às vezes suja de cocô”; meter a mão, mas manter limpa a cabeça. A interpretação mais plausível dessa frase é a de que, segundo Ciro Gomes, Letícia Sabatella tem cocô na cabeça. É a reação usual de alguém que vê uma mulher bonita convicta demais de uma tese discutível. A mulher bonita será chamada, num estágio, de “burra”, porque nunca ouviu falar da transposição do rio São Francisco. No segundo estágio, será chamada de “confusa”, porque manifesta dúvidas sobre o assunto. No terceiro estágio, convencida de que não deve haver a transposição, só pode “ter cocô na cabeça”.

 

A beleza física cobra um preço alto das mulheres que a têm; e mesmo no caso de Ciro Gomes, que também não é feio, acaba tendo conseqüências nefastas. Pois, quando ele não “abafa” com uma mulher, é natural que se irrite. Claro, ele se irrita muitas vezes. Mas é pelo hábito de ter sucesso pessoal.    

Escrito por Marcelo Coelho às 17h56

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planos diabólicos

No artigo de quarta-feira passada, comentei um pouquinho a aproximação entre o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, do PSDB, e o prefeito de Belo Horizonte, do PT. Não quis avançar muito na especulação, e não escrevi algo que me pareceu arriscado. Parece, entretanto, que o presidente do PMDB, Michel Temer, já tinha na cabeça alguma coisa parecida com o meu modesto plano diabólico.

 

Já declarou que o PMDB estaria de portas abertas para receber Aécio. A jogada é interessante. O PT não tem candidato forte à presidência da República; o PSDB tem dois, o PMDB nenhum.

 

Aécio, pelo PMDB, seria um candidato que Lula poderia tornar seu sucessor. Arranja-se um vice do PT, por que não Dilma ou, para aquietar os duros, Berzoini, e a chapa governista teria condições de sair vitoriosa. Já Serra seria o candidato tucano, e quem sabe com o esvaziamento de rivais ele termine unificando o partido.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h21

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arte e reciclagem

arte e reciclagem

Andei postando umas coisas feitas com material reciclado; esta aranha, obra de R. Muszkat, está em exposição permanente no Centro de Cultura Judaica de São Paulo.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h10

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Pedagogas e normalistas

Recebo da psicanalista Anna Veronica Mautner esta reflexão.

Onde está a normalista?

 

Não resisto a ser saudosista quando se trata de educação. Ai que saudades que tenho do tempo que a gente se orgulhava de ser, conhecer, ter na família uma jovem normalista! A Escola Normal já foi orgulho de sua comunidade, bairro ou cidade. A normalista era vista como uma pessoa preparada para apresentar o mundo para os pequeninos que estavam chegando. A normalista era formada para dar as primeiras tinturas de civilidade ao futuro cidadão.

 

Capricho, zelo, ordem, orgulho do que era feito bem-feito. Este era o começo de tudo. A Escola Normal alavancava a auto-estima de suas estudantes, cuja caligrafia e apresentação pessoal eram sempre impecáveis. Não lembro de professoras relaxadas.

 

[...]

 

Uma normalista levava-se a sério, acreditava na importância da sua missão. O lugar da normalista estava assegurado na sua comunidade, assim se via e assim eram vistas – em total redundância.

 

Hoje, me perdoem as pedagogas, mas sobre elas não percebo pairar a aura do orgulho de ser. A elite do colegial prefere seguir carreira nas Ciências, eventualmente em Letras. A pedagoga não brilha. Permitam-me a ousadia, mas a sociedade não as respeita. Tendo escolhido um curso sem glamour, a educadora fica à sombra do brilho dos médicos, psicólogos, advogados, etc.

 

Por que e como isso ocorreu, eu não acompanhei de perto. Acordei um dia consciente de que educadores tinham se tornado... o que mesmo? Não adjetivarei, mas tenho certeza que são menores, tornaram-se pouco significantes, como um espaço opaco na sociedade. Enquanto a normalista não voltar a ter o charme antigo, será difícil resgatar o status da escola. As normalistas eram pedra fundamental na aprendizagem não só do bê-á-bá, mas funcionavam também como modelo de moça/mulher e objeto de fantasia para os rapazes.

 

 capa do romance de Adolfo Caminha, no site de livros usados buquineiro

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h58

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do Salmo 107

do Salmo 107

Pensando no post anterior, eis um trecho bíblico (Salmos, 107, 23-28)

Os que, tomando navios, descem aos mares, os que fazem tráfico na imensidade das águas,

Esses vêem as obras do Senhor, e as suas maravilhas nas profundezas do abismo.

Pois Ele falou, e fez levantar o vento tempestuoso, que elevou as ondas do mar.

Subiram até os céus, desceram até os abismos; no meio destas angústias, desfalecia-lhes a alma.

Andaram e cambalearam como ébrios, e perderam todo tino.

Então, na sua angústia, clamaram ao Senhor, e ele os livrou de suas tribulações.

O texto foi musicado por Herbert Sumsion (1899-1995), e pode ser encontrado num CD da Naxos, intitulado Psalms for the Soul. Trata-se de uma série de obras corais, "very british", que exigem muita atenção e silêncio (interno e externo) para serem ouvidas. A que mais agrada de imediato é de sir Hubert Parry, o Salmo 84:"como são belas tuas moradas, ó Senhor dos exércitos!", cujas frases melódicas curtas são bem parecidas com aqueles hinos que a gente não sabe bem onde ouviu; ou será algum andante de Haydn? O fato é que, como sugere o texto, estamos "em casa" ouvindo essa música. Junto com sir Charles Stanford (1852-1924), Parry (1848-1918) é um dos fundadores da música inglesa no século 20, antes que seus alunos, como Vaughan Williams, tomassem conta daquela morada, bastante vazia aliás naqueles tempos. 

 Nascer do sol com monstros marinhos, de Turner

Escrito por Marcelo Coelho às 02h47

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monogamia abissal

monogamia abissal

Por falar em monogamia, leio na NYRB uma resenha sobre The Deep: the extraordinary creatures of the abyss, de Claire Nouvian, que traz fotos de peixes e outros animais jamais vistos antes. Habitam as zonas mais profundas dos oceanos, e até pouco tempo atrás não havia sequer tecnologia para fotografá-los sob pressões tão altas.

 

Pois bem, há um peixe por ali cujo nome em inglês é “black seadevil”, capaz de comer peixes quase tão grandes quanto ele próprio, e que na frente da boca gigantesca dispõe de uma lanterna, funcionando como isca. Assim, pelo menos, é a fêmea da espécie.

 

O macho é minúsculo. Quando encontra a fêmea, morde-a e não larga dela nunca mais. Com o passar do tempo –sigo a descrição do resenhista Tim Flannery—as veias e artérias dele crescem junto com as dela, ao ponto de o macho se transformar numa espécie de feto, que depende do sangue da cônjuge para receber toda a alimentação de que necessita. Com isso, todas as suas funções –nadar, ver, mastigar por exemplo—desaparecem; o único órgão ativo são os testículos, “mas mesmo estes, ao que parece, são estimulados para atuar apenas segundo a vontade da fêmea que os engolfa. Quando ela já obteve tudo dele, o macho simplesmente desaparece, absorvido e dissipado por completo no corpo de sua bem-amada, deixando-a livre para procurar outro parceiro.”

 

Histórias de amor podem ter finais piores do que esse.

 

Abaixo, algumas das criaturas do fundo do mar; mais fotos neste link.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h43

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lanches e petiscos

lanches e petiscos

Duas fotos de uma lanchonete no litoral paulista, dentro da coleção de cartazes populares. Parece que lá eles ainda aceitam cartões corporativos.

Bom o detalhe das ranhuras nas bisnagas de catchup e mostarda. Gosto também da alface, como uma gravata borboleta. Abaixo, interessante o uso do preto para delimitar uma bata frita da outra:

O fundo cor-de-rosa, sem dúvida ingrato, conheceu boa harmonização de cores.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h12

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voltaire de souza

Algumas crônicas recentes, sobre cartões corporativos e outros assuntos, publicadas no jornal "Agora".

ALMA EM BRASA 

 

Churrascarias. Banquetes. Tapioca.

Algumas autoridades andaram abusando no uso dos cartões corporativos.

O dr. Ximenes era um famoso advogado em Brasília.

--Absurdo. E o povo pagando a conta.

Ele freqüentava uma das mais luxuosas churrascarias da cidade.

A Boi no Pasto. Especialidade em carnes nobres.

Ximenes reconheceu um famoso político na mesa ao lado.

--Bandido. Patife. Com o meu dinheiro.

O garçom Eliezer fatiava cuidadosamente uma picanha.

Ximenes apropriou-se da faca de churrasco.

--Paga o que me deve, seu safado.

Um sorriso conciliador surgiu nos lábios do político.

--Ora, ora... compreendo sua revolta... mas no meu caso...

--Se não quer devolver o dinheiro, paga em espécie.

Ximenes ia cortar parte da coxa da autoridade quando os seguranças chegaram.

Veio a dor no peito. Era enfarte. Na UTI, Ximenes amaldiçoa os políticos.

Já o médico põe a culpa no excesso de picanha engordurada.

A mente humana é como um churrasco: quando esquenta demais, passa do ponto.

 

CHUVAS DA MADRUGADA

 

Assaltos. Seqüestros. Robertão tomava o maior cuidado.

Carro novo. Dinheiro no bolso. Vida bem-sucedida.

--E a mulherada não reclama.

Ele estava voltando sozinho de um motel na Marginal.

Tinha deixado a bela morena Gilvanka perto da entrada de Guarulhos.

Estava perto do Sambódromo quando uma moto se aproximou.

O assalto foi rápido. E humilhante.

--Me deixa pelo menos com a cueca.

--Peladão, cara. Que eu gostei desse modelo.

De fato, era uma fina peça em seda pura.

Nudez. Desespero. A chuva das altas horas da noite.

Foi quando Robertão viu uma coisa brilhando na enxurrada.

Era um tapa-sexo feminino. Relíquia de um quente carnaval.

As lantejoulas douradas cobriam mal a privilegiada anatomia do rapaz.

Mas atraíram o dr. Pedrosa. Que dirigia seu Subaru em estado de adiantada embriaguez.

A carona foi bem-vinda. O beijo também.

Robertão descobre novos prazeres no apê do engenheiro aposentado.

O Carnaval pode passar. Mas não se escondem para sempre os desejos mais ocultos.

 

 

TEMPO DE MUDANÇAS

 

 

Churrascos. Aparelhos de ginástica. Flores.

O bom gosto de nossos governantes é inquestionável.

Cartões corporativos asseguram a todos um bom padrão de consumo.

Julinho era dono de um botequim em São Bernardo.

Durante muitos anos, ele servia o básico.

--Pinga. Ovo cozido. Torresmo. Cerveja.

Mas é tempo de mudanças. Sua filha concluíra um curso de gastronomia.

--Papai. Podemos transformar essa biboca num bistrô.

Peixes com molho tailandês. Vinhos australianos. Compota de caju.

E um cartaz.

--Brinde especial para cartões corporativos.

Logo uma autoridade apareceu. Elogiou a cozinha. E mostrou o cartão.

--Qual é o brinde? Acho que eu tenho direito.

Julinho trouxe uma garrafa de champanhe.

Rachou-a com violência na cabeça do asessor ministerial.

--É isso aí. Depois que viramos bistrô, entrei para a oposição.

Restaurantes são como políticos.

Por vezes, não convém confiar em suas promessas.

 

AGENDA DE MUDANÇAS

 

 

Prévias. Debates. Pesquisas.

O dr. Calasans estava fascinado com as eleições americanas.

--Um negro. Candidato. Incrível.

O senador Barack Obama atrai as atenções de todo o mundo.

Calasans não desgrudava de um canal noticioso americano.

--Really... Fantastic... Caucus.

A família estranhou quando Calasans passou a falar em inglês nas refeições.

--I want more tapióc.

O funcionário público aposentado voltou a usar gravata.

--America must cháááánge...

A mulher dele resolveu ter uma conversa séria.

--Querido. Falar em inglês tudo bem. Mas fazer bronzeamento artificial?

De fato, Calasans estava freqüentando a Clínica Bella Skin.

Um lampejo de ódio surgiu nos olhos de Calasans.

--Hillary. I don’t love you. Good bye. For ever.

Ele sumiu de casa com uma maleta executivo. E pretende fazer campanha em todos os Estados deste grande país.

Mudanças são importantes. Por vezes, contudo, podem ir longe demais.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h47

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tapioca e caviar

O artigo de hoje para a Ilustrada, “Macarthismo das miudezas”, até que recebeu menos pedradas do que o de duas semanas atrás, sobre a falta de soberania na Amazônia. Com o passar do tempo, na verdade, não me incomoda nem a falta nem o excesso de manifestações iradas dos leitores: não sou dos que procuram esse tipo de coisa, como é comum no jornalismo, nem perco o sono, como me acontecia antigamente, pensando “será que exagerei? será que fui justo?”

 

A rigor, lamento não me dedicar mais à crítica de literatura, de cinema, ou a crônicas mais leves sobre o cotidiano: o espaço da Ilustrada deveria ser antes de tudo dedicado a isso. Mas quando começo a ter opiniões, seja sobre escândalos ou Amazônia, que não vejo muito expressas no dia-a-dia do jornal, acabo achando que vale a pena escrever a contrapelo da maioria.

 

Naturalmente, o PT e seus defensores parecem até cansados de esbravejar inutilmente contra a suposta conspiração da imprensa contra o mandato Lula; as últimas falas de Tarso Genro, sobre o “terceiro turno” que se pretenderia impor com o caso dos cartões corporativos, revestem-se da pouca credibilidade que assume uma estratégia de autodefesa inúmeras vezes repetida.

 

Ter sido acusado de pró-Serra e “empregado do Frias” nas vezes em que ataquei o PT no mensalão pelo menos me ajuda, acho, a falar com menos suspeição quando diferencio entre o valerioduto e a tapioca. Não digo isso para me fazer de esperto, nem de imaculado, mas porque o famoso “apartidarismo” jornalístico, freqüentemente desacreditado, serve não como  uma âncora absoluta, mas como tentativa de manter certa medida do real. Coisa que, pelas paixões ideológicas, tende a perder-se facilmente.

 

Dito isso, acho que há pontos que poderiam ser mais desenvolvidos no artigo. A idéia do “caso de amor” PT/PSDB talvez tenha desvãos psicológicos que ainda não consigo identificar bem.

 

Noto, antes de tudo, a simetria das posições partidárias em três casos. O valerioduto, que começou com o PSDB mineiro para ser transposto ao PT nacional. A oposição à CPMF, que começou com o PT para receber depois sua versão tucano-demista. E agora, o quiproquó da CPI dos cartões, assunto em que sequer os tucanos se entendem direito.

 

Quantos peessedebistas não querem a desgraça de Serra? O quanto a blindagem a Serra não auxilia a blindagem a Lula? De que modo uma CPI pode atingir tanto oposicionistas quanto governistas? Há nisso um teste, quem sabe, inconsciente para verificar, na prática, a medida em que todos convergem em interesses comuns de autopreservação.

 

A questão é que a luta política se baseia, atualmente, na desmoralização do adversário –no levantamento de suas irregularidades éticas. Entretanto, a vida política continua a depender, entre gregos e troianos, da preservação de uma mesma estrutura, fadada a gerar corrupção.

 

Como o PT se recusou, em nome da governabilidade, a transformar a vida política --confiando basicamente na mesma estrutura que deu funcionamento ao governo FHC—as cartas do baralho da disputa política continuam as mesmas, trocando e retrocando de mãos; numa rodada, um perde, na outra rodada, ganha.

 

Será apenas isso o jogo democrático? Seria, se estivessem em disputa visões alternativas para o futuro do país. Mas no que tange a políticas educacionais, projetos de saúde, planos de infraestrutura, política monetária, etc. etc., as diferenças entre PT e PSDB são pequenas. A disputa política deixa o PSDB a reboque do DEM; a perspectiva administrativa deixa o PSDB próximo do PT moderado; o PSDB se divide, entretanto, não apenas em função dessa dualidade de situações, mas em função das rivalidades paulistas entre Serra, Alckmin e FHC.

 

O conflito pessoal no interior do tucanato se sublima no ódio pessoal dos eleitores tucanos contra Lula: é a presença de um Lula no governo, e não propriamente o governo Lula em si, o que inflama o eleitor de oposição. Tirem Lula, e tudo se resolve, diz a oposição, do mesmo modo que, antigamente, muitos petistas achavam que pondo Lula tudo se resolveria.

 

Essa análise, que vou elaborando ao correr da pena, não explica entretanto a terminologia que empreguei sobre o “caso de amor”. Talvez existam exemplos de duas pessoas que não se suportam até o momento em que se descobrem apaixonados; não lembro qual a comédia de Shakespeare que tinha esse enredo. Não era a “Comédia dos Erros”, nem “Trabalhos de Amor Perdidos”, nem “Bem Está o que Bem Acaba”. “Medida por Medida”? CPI por CPI? Quem sabe a “Megera Domada”. Não, lembrei agora: é As You Like It (“Como gostais”) que eu queria citar. Bom nome para uma tapiocaria de luxo.   

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h15

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amizade, política, Sartre

 

Amizade e política nos tempos de Guerra Fria: leio sobre o rompimento de relações entre Jean-Paul Sartre e Raymond Aron. Antigos colegas ou “camaradinhas”, como eles gostavam de se tratar, foram tomando rumos opostos na política depois da 2ª. guerra. Aron, com relações cordiais com De Gaulle, defendia a aproximação entre França e Estados Unidos, escrevendo num jornal conservador, o “Figaro”. Sartre tornava-se cada vez mais de esquerda. Eis como Raymond Aron conta o caso, em suas Memórias (ed. Nova Fronteira). Note-se, sobretudo, a impressionante ausência de emoções do narrador, e sua aparente ausência de remorso. Estava, sem dúvida, diante de uma situação difícil, mas com a qual poderia ter lidado de outro modo.

 

No governo Ramadier, Sartre conseguira um programa de rádio; conversava livremente com alguns de seus amigos. Em uma das suas primeiras transmissões, falou do general de Gaulle. Um de seus interlocutores comparou longamente o general de Gaulle a Hitler (“as pálpebras pesadas...”) Claro, a comparação causou escândalo. À noite, fui convidado para me reunir na estação de rádio com J.-P. Sartre e seus contraditores. Vi-me cercado por gaullistas excitados (...) que atacavam Sartre com censuras violentas, mais ou menos injuriosas. Permaneci silencioso, não podendo dar razão a Sartre e menos ainda a aderir aos “vituperadores”. Soube, algumas semanas depois, que Sartre não me perdoava meu “silêncio” quando se encontrava só em meio a inimigos.

 

Em seu diálogo com Simone de Beauvoir, em 1974, ele narra essa mesma cena, tal como a viveu: “Aron, é toda uma história do gaullismo e de um diálogo no rádio; tínhamos uma hora no rádio, toda semana, para discutir a situação política, e tínhamos sido muito violentos contra de Gaulle. Alguns gaullistas quiseram responder-me frente a frente (...) Quando cheguei à rádio, não deveríamos nos encontrar antes do diálogo. Aron foi, acho que eu o escolhera para servir de árbitro entre nós, estando convencido, aliás, que ficaria do meu lado; Aron nem pareceu me ver; juntou-se aos outros; compreendia que visse os outros mas não que me deixasse na mão. Foi a partir daí que compreendi que Aron estava contra mim; no plano político, considerei uma ruptura sua solidariedade aos gaullistas contra mim. Sempre houve uma forte razão para minhas desavenças, mas afinal, fui sempre eu quem tomou a decisão de romper”.

 

Retomemos alguns pontos: “Tínhamos sido muito violentos contra o general de Gaulle.” Isso é minimizar: tinham comparado longamente o general de Gaulle a Hitler, fazendo até aproximações físicas. Podia eu aprovar isso por amizade a ele? (...) Certamente, eu poderia ter encontrado um meio de agir diferentemente, de testemunhar-lhe minha amizade sem me solidarizar com seu programa da véspera. Recordo-me dessa breve cena como um momento insuportável: de um lado, os gaullistas, pelos quais não sentia nenhuma simpatia, e, do outro, Sartre, impávido sob as injúrias, e eu, silencioso. Cada um saiu para o seu lado.

 

Dito isto, Sartre tem razão, a amizade estava morrendo por si, inexoravelmente. Após [os anos na École Normale Supérieure, onde ambos foram colegas], ele preferiu as amizades femininas; as conversas entre homens lhe pareceram estéreis e logo aborrecidas. Discutíamos filosofia enquanto não escrevíamos livros [...] Nem conversas políticas, porque vivíamos em universos diferentes, nem conversas filosóficas, porque ele não apreciava a controvérsia: teria podido sobrar [...] o nada ou o essencial, o prazer de se reencontrar, mesmo sem nada a dizer; essa felicidade jamais nos foi concedida.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h34

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aviso sobre e-mails

Acidentalmente, apaguei todos os e-mails de minha caixa postal. Peço desculpas aos que não receberam resposta minha até agora, e peço-lhes que reenviem suas mensagens.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h18

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monogamia, parte dois

monogamia, parte dois

No final do último post, criticando as idéias de Chesterton sobre monogamia, defendi um argumento que me parece correto, mas por meio de uma metáfora um bocado batida e vulgar.

 

Tenho de resenhar agora para a Folha um texto muito curto de André Gorz, intitulado Carta a D. A idéia não é tanto a monogamia, mas a fidelidade; e menos a fidelidade, afinal, do que o amor. Eis como começa o livro, escrito em 2006.

 

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e dois anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.

 

O parágrafo foi bastante lembrado no fim do ano passado, quando veio a notícia de André Gorz e sua mulher, Dorine, suicidaram-se. Ela sofria de uma doença degenerativa há muitos anos. Eles se conheceram em 1947.

 

Eu despi o seu corpo com cautela. Descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne. O brilho nacarado do pescoço iluminava o seu rosto. Mudo, contemplei longamente esse milagre de vigor e de doçura.

 

Entra em discussão o tema do casamento.

 

Eu tinha objeções de princípio, ideológicas. Para mim o casamento era uma instituição burguesa; eu considerava que ele codificava juridicamente e socializava uma relação que, sendo de amor, ligava duas pessoas no que elas tinham de menos social [...] Eu dizia: “O que nos prova que, em dez ou vinte anos, nosso pacto para a vida inteira corresponderá ao desejo do que teremos nos tornado?”

A sua reposta era incontornável: “Se você se une a alguém para a vida inteira, os dois estão pondo em comum sua vida e deixarão de fazer o que divide ou contraria a união. A construção do casal é um projeto comum aos dois, e vocês nunca terminarão de confirmá-lo, de adaptá-lo e de reorientá-lo em função das situações que forem mudando. Nós seremos o que fizermos juntos”. Era quase Sartre.

 

Naturalmente, o segredo está no sentido que se atribui ao termo “adaptá-lo”. Sartre e Simone de Beauvoir construíram uma vida em comum que se “adaptou” aos inúmeros casos que ambos tiveram fora da relação. O problema começa quando há desacordo a respeito das formas com que cada um dos cônjuges concebe a “adaptação”. É muito provável que um dos lados “se adapte” mais do que o outro...

 

Só achei uma foto antiga de Gorz e Dorine na web

 

 

 

mas me mandaram esta, também.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h04

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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