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Eis um apoio e tanto. Entre os intelectuais de esquerda de hoje em dia, poucos são tão criativos, bons de ler e surpreendentes quanto Slavoj Zizek. Mas sua última surpresa é realmente de doer. Saiu na London Review of Books de novembro, mas leio só agora a transcrição de seu texto, na Harper’s de fevereiro.
Zizek está resenhando um livro de Simon Critchley, Infinitely Demanding, que advoga uma atitude de resistência permanente ao Estado capitalista. O futuro da esquerda estaria em bombardeá-lo com demandas sempre crescentes, a partir de grupos de pressão específicos: ecologistas, pacifistas, feministas etc.
Besteira, diz Zizek. O que o autor de um livro desses diria aos democratas americanos? Que parem de lutar pela presidência e se dediquem a esse tipo de oposicionismo auto-organizado?
E aí vem a bomba.
É notável que o rumo adotado por Hugo Chávez desde 2006 seja o oposto exato do escolhido pela esquerda pós-moderna: longe de resistir ao poder de Estado, ele o tomou (tentando primeiro dar um golpe, e depois democraticamente), usando implacavelmente os aparelhos de Estado venezuelanos para promover seus objetivos. Mais ainda, ele está militarizando os barrios e organizando o treinamento de unidades armadas ali. E, numa máxima ameaça, agora que ele está sentindo os efeitos econômicos da “resistência” do capital ao seu poder (escassez temporária de alguns produtos nos supermercados subsidiados pelo Estado), ele se dedicou a consolidar num único partido os vinte e quatro partidos que o apóiam. Mesmo alguns de seus aliados são céticos a esse respeito [...]
Entretanto, sua opção, embora arriscada, deveria ser apoiada plenamente: a tarefa é fazer o novo partido funcionar não como um típico partido socialista (ou peronista) de Estado mas como um veículo para a mobilização de novas formas de política (como os comitês de base nas favelas). O que deveríamos dizer a alguém como Chávez? “Não, não tome o poder de Estado, retire-se apenas, deixe o Estado e a situação atual no seu lugar”? Chávez é freqüentemente desprezado como uma espécie de palhaço –mas uma retirada desse tipo não iria justamente reduzi-lo a uma versão do subcomandante Marcos, a quem muitos esquerdistas mexicanos se referem agora como “subcomediante Marcos”?
Em vez do subcomediante, Zizek prefere o supercomediante... É de perder a paciência a credulidade de pessoas sofisticadas de esquerda diante do espetáculo bruto do poder.
Será possível que Zizek acredita que o partido de Chávez é outra coisa além de um instrumento do poder pessoal de um caudilho? Acredita que, num país dominado pelo personalismo incansável de um líder que aparece horas e horas por dia na televisão, organizações de base numa favela tenham algum tipo de independência crítica diante do salvador da pátria? Acredita na “escassez temporária” de alguns produtos, depois de tantas experiências fracassadas de controle burocrático da economia?
E esse era um intelectual sofisticado...
Escrito por Marcelo Coelho às 23h20
Demônios no convento
Freiras endemoninhadas: faz muito tempo que li, sobre o assunto, o ensaio histórico (hoje chamaríamos de livro-reportagem) de Aldous Huxley, Os Demônios de Loudun. Trata-se de um caso real, ocorrido na França do século 17, que Huxley desmonta com seu velho e bom racionalismo –o único instrumento que possuímos, afinal, contra os demônios.
O livro mais tarde foi transformado em ópera por Penderecki –ouvi isso há muito tempo, também, numa transmissão da rádio Cultura FM; a orquestra imitava sons de instrumentos de tortura, terror total.
Agora saiu em DVD, pelo selo Lume, um filme de outro polonês, Jerzy Kawalerowicz, com o mesmo tema. Chama-se Madre Joana dos Anjos, e ganhou o prêmio do júri do Festival de Cannes em 1961. Com perdão da ignorância, nunca tinha ouvido falar nem do filme nem do diretor.
Recomendo vivamente. Em especial a primeira metade do filme, quando o padre exorcista primeiro se aproxima do convento, começa a ouvir os boatos e comentários das pessoas da estalagem, vai ficando com medo, e enfim se encaminha, para encontrar a madre superiora... Sem pressa, mas sem um minuto que não acrescente um pouco de tensão, o diretor nos prepara para o pior. Não há torturas. Ou melhor, o verdadeiro torturado, do ponto de vista psicológico, é o exorcista, um sacerdote que sem ser jovem não tem nenhuma experiência do mundo exterior; viveu ele próprio desde criança num mosteiro.
A madre superiora o espera, humilde, imaculada, de cabeça baixa. É uma atriz excelente, e bem bonita (Lucyna Winnicka). Um dos truques do diretor, repetido várias vezes, mas que não cansa, é filmá-la de costas; ela então se volta, e nunca sabemos como será a expressão do seu rosto. Provocação, malevolência, inteligência, endemoninhamento, doçura, tudo pode ser lido simultaneamente nos olhos dessa atriz.
O jogo entre muitas tonalidades de branco e cinza-claro (a planície que circunda o convento, algumas extensões de neve, o hábito das freiras) dá lugar a outras longas passagens em negro (o hábito do exorcista, o interior de uma estalagem). O diretor faz o que quer com as expectativas de quem vê o filme.
Há seqüências (não que eu seja especialista nesse tipo de coisa) que parecem ter sido planejadas magistralmente: de um close de rosto a câmera se afasta, faz um longo percurso mostrando objetos e pessoas a meia-distância, para encontrar depois um personagem que não sabíamos estar presente na cena... Apesar de um final meio bruto em termos narrativos, “Madre Joana dos Anjos” é grande cinema.
Interessante, também, como exercício de circunlóquio político. Um compositor como Penderecki escreveu muitas missas e oratórios: a cultura polonesa, não é preciso dizer, está profundamente marcada pelo catolicismo. Num país comunista, alguma negociação precisava ser feita, imagino, para tantas obras religiosas. Na ópera de Penderecki, como aqui neste filme de Kawalerowicz, talvez esteja em jogo um estratagema. Denuncia-se os horrores, a inumanidade, do sistema de crenças católico. Mas, na medida em que mostram inquisições, torturas, exorcismos e ortodoxias, o subtexto dessas obras parece ser a crítica ao sistema de crenças estalinista.
Nada mais parecido com o exorcismo sucessivo a que Madre Joana é submetida do que um processo contra os dissidentes do regime. Assim como Bukharin e outros, nos anos trinta, tiveram de confessar não apenas sua oposição a Stálin, mas uma série de outros crimes, Madre Joana está possuída por sete demônios diferentes, e eles têm de ser expulsos um a um. O tribunal de padres que acompanha o processo nunca está contente, é claro.
Outra aproximação curiosa é do ponto de vista visual. Madre Joana está num pátio interno do convento, e irá entrar em mais um breve e profundo diálogo com o exorcista. Entre os dois, uma série de varais onde estão pendurados os hábitos branquíssimos das freiras. Ela brinca levemente com o varais, que oscilam de leve, num vaivém. No “Encouraçado Potemkin”, de Eisenstein, as redes dos marinheiros, as peças de carne penduradas na cozinha, conhecem o mesmo tipo de oscilação, ameçadora e inocente. É a hora de soltar os demônios da insurreição.

Lucynna Winnicka, indecifrável no meio do varal.
Escrito por Marcelo Coelho às 22h01
Nova edição de Montaigne
Má notícia para os admiradores de Montaigne: saiu uma nova edição dos “Ensaios”, na coleção da “Pléiade”. Eu já não gostava da anterior, dos anos 50 se não estou enganado, que obrigava o leitor a procurar nas notas do fim do volume a tradução dos inúmeros trechos em latim que Montaigne salpica ao longo dos seus escritos.
Agora, ficou pior ainda. Os editores resolveram eliminar, jogando também para o fim do volume, as famosas letrinhas entre parênteses --(a), (b), (c)—que indicavam as sucessivas modificações que Montaigne foi acrescentando ao texto original.
Funciona assim. Houve uma primeira edição dos “Ensaios”, publicada em 1580. Oito anos depois, Montaigne publicou outra edição, com um volume inédito e com muitos acréscimos aos textos já publicados. Depois de sua morte, em 1595, foi feita uma nova edição, com ainda mais acréscimos, que Montaigne havia anotado às margens de um exemplar dos “Ensaios”.
O efeito, para o leitor, é ver o próprio autor “escrevendo” seu texto, dialogando consigo mesmo, acendendo outras luzes sobre o que já tinha escrito. A Pléiade nova optou pelo texto corrido, como se apenas a última palavra fosse a definitiva. Nada menos montaigneano do negar, à aparência do próprio texto, seu caráter de improviso interminável.
Mostro, em Folha Explica Montaigne, um exemplo importante e dramático desses acréscimos.
Na “Apologia de Raymond Sebond” –teoricamente uma defesa do cristianismo contra as pretensões da razão humana--, Montaigne escreve um parágrafo que, de início, parece uma crítica à religião pagã: “As coisas mais ignoradas são mais próprias para serem deificadas. Por isso, fazer de nós deuses, como a Antigüidade, ultrapassa a extrema fraqueza de raciocínio. Eu ainda teria preferido seguir os que adoravam a serpente, o cão e o boi, pois sua natureza e seu ser nos são menos conhecidos [...] mas haver feito deuses de condição igual à nossa, cuja imperfeição devemos conhecer, haver-lhes atribuído o desejo, a cólera, as vinganças, os casamentos, as procriações e os parentescos, o amor e o ciúme, nossos membros e nossos ossos, nossas ânsias e nossos prazeres, isso deve ter provindo de uma espantosa embriaguez do espírito humano.”
Até aqui, tudo certo. Mas a edição de 1595 [sempre indicada com um (c) no meio do texto, antes da péssima idéia da Pléiade] pôs algumas palavras a mais nesse texto. Voltemos um pouco. “...mas haver feito deuses de condição igual à nossa, cuja imperfeição devemos conhecer, haver-lhes atribuído o desejo, a cólera, as vinganças, os casamentos, as procriações e os parentescos, o amor e o ciúme, nossos membros e nossos ossos, nossas ânsias e nossos prazeres, (c) nossas mortes, nossas sepulturas, isso deve ter provindo de uma espantosa embriaguez do espírito humano.” Será que estamos forçando a interpretação se dissermos que esse acréscimo parece referir-se à figura de Jesus Cristo –a quem foram atribuídas uma morte e uma sepultura humanas?
Note-se que esse adendo foi feito por Montaigne depois de que a primeira edição passou pelo crivo do Vaticano.
Esse tipo de coisa, numa edição corrida, sem indicação dos acréscimos, fica entalado nas notas finais –que, com aquele papelzinho fino da Pléiade, são ainda mais incômodas de pesquisar. Bem fez Charles Rosen, na NYRB, ao criticar essa decisão.
Pode não ser a edição mais erudita, mas para meu gosto a mais cômoda e resistente a várias leituras é a da “Intégrale” das éditions du Seuil. Atualiza a ortografia francesa, o que pode tirar o sabor do texto, mas facilita bastante a leitura.
Escrito por Marcelo Coelho às 22h12
A edição de “Veja” desta semana está de fato bastante imparcial e “neutrógena” (ver post anterior) com relação ao PT. Tanto que elegeu para as páginas amarelas o deputado José Eduardo Martins Cardozo, novo secretário-geral do partido, prestando-lhe uma suprema homenagem –do ponto de vista do leitor da publicação. O título da entrevista faz com que Martins Cardozo surja aos olhos do leitor como um petista especialmente sincero e pronto a corrigir os “erros” do PT. “O mensalão existiu”, diz a revista, como se a frase fosse de Martins Cardozo, mas não é bem assim.
Veja- Como membro da CPI dos Correios, o senhor acha que o mensalão existiu ou compactua com a visão de colegas do partido de que foi tudo um complô das elites contra o governo Lula?
José Eduardo—Eu tento evitar conflitos semânticos. E a palavra mensalão pode ter vários sentidos. Naquele caso, eu não tenho dúvida de que houve situações de ilegalidade com a destinação de recursos financeiros de forma indevida a aliados políticos. Não tenho a menor dúvida.
Bem, mas isso não é dizer que “o mensalão existiu”. A bela admissão de Martins Cardozo (bela no sentido de que ele parece, aos olhos de Veja, diferente dos petistas linha-dura) resume-se apenas ao que tantos petistas já disseram: houve recursos de caixa 2 na campanha de Lula, distribuídos entre os aliados.
A questão do mensalão, como sempre sustentaram os não-petistas, era outra. Tratava-se de dar dinheiro na boca do caixa a parlamentares da base aliada, graças a empréstimos inacreditáveis obtidos por uma agência de propaganda, que prestava serviços ao setor público federal, junto a bancos que se beneficiaram de decisões do próprio governo federal. Os petistas insistem na firula semântica de que o dinheiro distribuído a parlamentares não saía todo mês, “logo, não era mensalão”. Mas o escândalo teve outra natureza, muito mais grave, do que a sugerida por Martins Cardozo. Envolveu pagamentos às vésperas de decisões importantes no Congresso, por exemplo. Mas Veja faz um favor a Martins Cardozo, que não é metalúrgico nem analfabeto, apresentando sua entrevista como exemplo de uma confissão que os petistas não tiveram coragem de fazer.
Escrito por Marcelo Coelho às 21h41
Discutindo miudezas. Achei surpreendentemente moderada a atitude da revista “Veja” desta semana, ao revelar duas despesas com cartões corporativos no governo Lula.
Primeira despesa. Atenção, contribuintes. Eis o texto de Alexandre Oltramari e Otávio Cabral.
Em 2004, a servidora Maria Emília Évora”, oitava no ranking dos gastadores do Planalto, apresentou uma nota fiscal no valor de 52,30 reais. A despesa se refere ao creme para mãos Neutrogena, a um protetor labial da marca Nivea e a um gel para pálpebras sensíveis. Em sua prestação de contas, Maria Emília relatou que a despesa foi feita para “atender necessidades da primeira-dama, dona Marisa. Comprou-se, também, uma pomada antibiótica para o presidente.
Logo adiante, um generoso impulso de justificação.
Um creme hidratante para a primeira-dama durante uma viagem oficial e um remédio de emergência para o presidente são despesas que nem mesmo na mais estóica das administrações podem ser consideradas luxo.
Ué. O contribuinte pode muito bem perguntar porque dona Mariza não gastou dinheiro do próprio bolso para comprar o Neutrogena. Uma administração mais conscienciosa faria isso. O que teria feito dona Ruth no lugar? Investigue-se, investigue-se.
Passemos à segunda despesa lulista na farra dos cartões. Eis o texto de “Veja”.
Um dos pagamentos aos quais VEJA teve acesso se refere a uma viagem de Lula a São Paulo no dia 29 de junho de 2004. A viagem ocorreu no Sucatão, o Boeing presidencial substituído três anos atrás pelo Aerolula. Havia 78 pessoas a bordo. Dois tipos de refeição foram servidos na viagem. O jantar dos viajantes foi comprado pela ecônoma Maria Emília Évora da empresa Gate Gourmet, do Rio de Janeiro –e pago em dinheiro vivo. Com caviar no cardápio, o jantar servido na cabine presidencial, ocupada por Lula e mais onze passageiros, custou 385 reais por pessoa.
O cidadão que se escandalizou com uma tapioca a 8 reais e pouco haverá naturalmente de espumar diante da tripa-forra do metalúrgico analfabeto. “Veja”, não.
Também nesse caso não há estoicismo que justifique condenar o fato de um presidente da República se servir e aos convidados íntimos de um prato com caviar a 385 reais com cabeça durante uma viagem de trabalho.
Ou seja, a não ser que você seja muito “estóico” [eles queriam dizer “ascético”? “puritano”? “moralista”?], o caviar não deve ser condenado.
Imagino que não mesmo –ou teríamos de condenar também o eventual caviar de Fernando Henrique. Melhor passar batido. O dedo em riste na farra dos cartões pode continuar; mas na palma da mão dos mais “estóicos” porta-vozes da indignação do contribuinte já se passa, pelo que vejo, algum Neutrogena.
Escrito por Marcelo Coelho às 17h57
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PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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