é tudo verdade (3)
“Me deixem morrer em paz. Selvagens. Não quero isso”. O homem, no último grau da magreza e da velhice, está cercado de enfermeiras que tentam a todo custo enfiar-lhe uma sonda de alimento pelo nariz. “Qual o seu nome?”, perguntam-lhe. Ele não responde. “Onde o senhor mora?” “Não interessa”. Enfiam-lhe finalmente a sonda. Dói. “Que violência, meu Deus”. “O senhor quer estar aqui neste hospital?” “Não. Me joguei fora. Joguei fora o meu nome. Eu não teria coragem de me sucidar. Não serviria para japonês.” Acabam descobrindo quem ele é.
“Solitário Anônimo”, o documentário de Débora Diniz que faz parte da competição nacional de curtas-metragens do “É tudo verdade”, não revela a identidade de seu protagonista. Traz, em quinze minutos, muitas entrevistas com esse homem, a quem foi negado o direito de morrer.
As transformações pelas quais ele passa, entretanto, não permitem uma conclusão unívoca sobre o quanto há de errado, e o quanto há de certo, na violência da engrenagem hospitalar. Ninguém sabe, na prática. É um filme impactante, de imagens a princípio muito duras, mas de grande sobriedade.
Terça, dia 1, às 15h, e quarta, dia 2, às 19h30, no Cine Olido.
“Beijo na Boca Maldita”, de Yanko del Pino, não tem o mesmo valor cinematográfico, no sentido em que há pouco o que ver nesse curta-metragem, mas seu interesse humano é inegável, pelo retrato que faz, a partir de muitos (muitos, muitos) depoimentos, de uma bizarra personagem curitibana. Trata-se de “Gilda”, mendigo que circulava pela “Boca Maldita”, no centro da cidade, dando beijos em homens, vestindo-se (mais ou menos) de mulher. Não chegava a ser travesti, e usou barba durante certo tempo. O bonito do filme é a simpatia que grande parte da população lhe dedicava, apesar da perseguição de uma autoridade local. Seria uma boa reportagem na revista “Piauí”, mais do que propriamente um filme, mas não dá para falar mal do que foi feito.
Sábado, dia 29, às 15h30 na Cinemateca, e terça, dia 1, às 17h, no Olido.
A arte de compor música para cinema é valorizada com bastante carinho por Bernardo Uzeda, no curta-metragem dedicado a Remo Usai, um nome pioneiro nesse campo, responsável pela trilha musical de mais de 100 filmes brasileiros. Sua música para “Assalto ao Trem Pagador” é comentada em detalhe pelo próprio Usai, que rememora seus anos de aprendizado em Hollywood, logo depois da Segunda Guerra, com o célebre Miklos Rózsa. Aprende-se bastante com “Remo Usai –Um Músico para o Cinema”, mas infelizmente parece ter faltado tempo, dinheiro e filme para contar mais sobre o personagem. As circunstâncias econômicas e históricas que determinaram seu ocaso profissional são objeto de referência muito vaga, sem balizas cronológicas ou explicações sobre o que teria tornado seu estilo de composição fora de moda. É uma pena. Mas os exemplos de música analisados no documentário –do próprio Usai e também de um filme de Hitchcock, “Spellbound”, onde Miklos Rózsa dá mostras de sua competência no ofício, não decepcionam o espectador. O curta será exibido nas mesmas sessões de “Beijo na Boca Maldita”, comentado acima.

O solitário anônimo de Débora Diniz.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h25
Continuo falando um pouco do “É Tudo Verdade”, festival de documentários que continua nos próximos dias em São Paulo.
Dos curtas-metragens selecionados que já vi, “Mar de Dentro”, de Paschoal Samora, é sem dúvida o mais bonito. Imagens nada óbvias do litoral de Santa Catarina se sucedem --chuvas, névoas, relâmpagos—enquanto ouvimos depoimentos de pescadores sobre o mar. A simplicidade da linguagem, e a seleção muito inteligente do que é dito, cria frases poéticas a cada instante. Medo e amor ao mar se confundem, e nunca temos a impressão, tão freqüente quando se entrevistam cidadãos comuns, de estarmos ouvindo apenas banalidades e coisas previsíveis. Enquanto conserta uma rede, um pescador bastante idoso diz, por exemplo, que conhece bem o mar; mas “aqui da terra, não conheço muito, não.” A técnica de som do filme é muito elaborada, fazendo com que pouco a pouco as vozes individuais dos entrevistados se confundam num coral único, entrechocado e vasto, como o oceano, esse outro “ancião celibatário”, sobre quem tanto escreveu Lautréamont.
É um filme infelizmente curto (acho que uns 15 minutos) mas até isso contribui para dar uma aura de inconclusão poética e, ao mesmo tempo, de perenidade e infinitude ao que assistimos. “Mar de Dentro” terá exibições no sábado dia 29, às 19 h, no Cinesesc, no domingo, dia 30, às 15h30, na sala Cinemateca, na terça,dia 1, e na quarta, dia 2, às 19h 30, no Olido.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h50
de volta ao embrião
A discussão a respeito já foi bem longe, e talvez nunca termine. Mas são interessantes os argumentos que leio na última Quinzaine Littéraire (16-31 de março) a respeito da vida (ou não) do embrião humano.
O filósofo Francis Kaplan acaba de publicar um livro sobre o tema, L´embryon est-il un être vivant? (Le Félin, ed.), e transcrevo aqui alguns trechos de sua entrevista a Lucette Finas.
A primeira coisa que me surpreendeu lendo seu livro é que a afirmação da Igreja Católica segundo a qual o embrião é vivo desde a concepção não provém da fé, contrariamente ao que se pensa geralmente (...)
Francis Kaplan- O fato –geralmente ignorado—é que a Igreja considerou, de modo absolutamente explícito e oficial, até meados do século 19, que o embrião só se torna um ser vivo, e que o aborto só é portanto homicídio, a partir do 40º. dia depois da concepção –e, para as meninas, a partir do 80º. dia. É o que diz São Tomás de Aquino, o teólogo que mais autoridade possui na Igreja Católica: é o que repetem Sixto 5 e Gregório 14; é o que ensina o catecismo romano de Pio 4 e Pio 5. E se a Igreja mudou depois, não é por razões teológicas, mas –como diz Bento 16—em função do que ela acredita ser afirmado pela ciência moderna. É possível, então, uma discussão, e, evidentemente, no puro terreno científico e epistemológico. (...)
Como a ciência –ou a epistemologia—pode demonstrar que o embrião não é um ser vivo desde o momento da concepção?
Francis Kaplan—É preciso distinguir entre “estar vivo” e ser “um ser vivo”. Pode-se dizer que um embrião está vivo no mesmo sentido com que se pode dizer que meu olho, porque pode ver, está vivo em oposição a um olho cego, que pode ser considerado um olho morto, e que minha mão, porque ela pode pegar um objeto, é uma mão viva em oposição a uma mão paralisada, que pode ser considerada uma mão morta no mesmo sentido em que se fala de folhas mortas, tecidos mortos, células mortas. Mas nem meu olho nem minha mão são seres vivos. Um ser vivo é um ser que tem funções chamadas, precisamente, de funções vitais, de tal modo que formam um sistema, que não necessitam de nenhuma outra função para mantê-lo vivo, de tal modo que se uma delas não funciona, nenhuma outra funciona e então o ser se decompõe. Minha mão, meu olho, têm uma função (pegar, ver), mas não têm funções que os mantenham vivos; são mantidos vivos apenas graças ao ser vivo ao qual pertencem, no caso, eu, que sou um ser vivo (...) Quanto ao embrião, ele não tem praticamente nenhuma função vital; as funções vitais de que ele precisa para estar vivo são as da sua mãe. É graças à função digestiva da mãe que ele recebe o alimento digerido de que tem necessidade e do qual não poderia tirar proveito se a mãe não o tivesse digerido; é graças à função glicogênica do fígado da mãe que ele recebe a glicose de que necessita; é graças à função respiratória da mãe que os glóbulos vermelhos de seu sangue terão o oxigênio de que ele necessita; é graças à função excretória da mãe que ele expulsa as matérias nocivas, os detritos que de outro modo o envenenariam.
Isso significaria que o embrião é uma parte da mãe, como o olho é uma parte do ser vivo ao qual pertence. Mas o embrião também não provém do pai? E como se pode ser ao mesmo tempo uma parte de um ser vivo –a mãe—e uma parte de outro ser vivo –o pai? Não se deveria concluir que ele é um novo ser independente tanto da mãe quanto do pai?
Francis Kaplan—Mas como pode ele ser um ser vivo se não possui as funções vitais que o mantêm em vida? Com toda a certeza, ele não é uma parte do pai uma vez que não é o pai que o mantém vivo (...)
Não se pode pelo menos dizer que um embrião é um ser vivo em potência e que destruir um ser vivo em potência é quase tão grave quanto destruir um ser vivo “em ato”, uma vez que um ser vivo em potência, se não o destróem, haverá necessariamente de tornar-se, salvo por um intercorrência acidental, um ser vivo “em ato”?
Francis Kaplan—(...) Uma folha de papel não se torna um desenho a não ser pela intervenção de um fator externo ao papel –o desenhista—e ninguém pensará que destruir um papel é quase tão grave quanto destruir um desenho. Uma semente de carvalho é um carvalho em potência, pois o solo onde está plantada só desempenha um papel nutricional, e sua passagem do estado de semente ao estado de carvalho só se deve a fatores internos à semente. Costuma-se pensar que é a mesma coisa com o embrião. Na verdade, não é assim: os trabalhos científicos mais recentes em embriologia mostram o papel necessário da mãe. Não é o embrião que se desenvolve, é a mãe que o desenvolve. (...) Ninguém conseguiu fazer que um embrião se desenvolvesse apenas colocando-o num ambiente que o nutrisse; só se obtém com isso uma multiplicação desordenada de células (...)
Escrito por Marcelo Coelho às 00h32
é tudo verdade
Começa nesta quarta-feira em São Paulo o 13º. Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, com pilhas de coisas interessantes para ver. Na medida do possível, vou comentando alguns filmes por aqui.
Uma das atrações é “Sem fim à vista”, um longa-metragem de Charles Ferguson sobre a intervenção americana no Iraque, um dos cinco indicados para o Oscar de documentário deste ano.
Digo “intervenção”, e não “invasão”, porque há poucas cenas de guerra, e a maior parte do filme se concentra no período posterior à derrubada de Saddam Hussein. Poderia até ser visto como um documentário que não contesta, a rigor, o ataque norte-americano.
Pelo menos, tem-se a impressão de que, uma vez consumado o objetivo de derrubar Saddam, tudo poderia ter dado certo, não fosse a incompetência do governo Bush. Os maiores erros, pelo que mostra o documentário, vieram depois da invasão. O espectador fica com vontade de torcer o pescoço de Donald Rumsfeld, secretário de Defesa, e de Paul Bremer, nomeado administrador do Iraque um mês depois do desembarque americano.
O grande mérito de “Sem fim à vista” é justamente o de dar voz a personalidades da própria administração americana, como diplomatas e especialistas da CIA, que tentavam alertar Rumsfeld e seu grupo ultra-restrito a respeito da necessidade de impor alguma lei e ordem ao território ocupado.
O filme informa que, em plena 2ª Guerra, os americanos planejaram com dois anos de antecedência o que fariam quando ocupassem a Alemanha. No caso do Iraque, não houve planejamento nenhum. Eles simplesmente derrubaram Saddam e se abstiveram (talvez num intuito de manter as “mãos limpas”) de qualquer outra medida.
A teoria de Rumsfeld, sem dúvida, era fazer uma guerra curta e com o mínimo de envolvimento de tropas em terra. Parece até boa idéia. Mas com isso os americanos deixaram de impedir, por exemplo, a onda de saques que se iniciou logo depois de Bagdá ter se tornado uma cidade sem polícia, sem exército, sem lei.
As coisas pioraram muitíssimo um mês depois, quando Paul Bremer decidiu desmobilizar o exército de Saddam. Centenas de milhares de soldados, que sabiam exatamente onde estavam as armas, foram despedidos do emprego... No caos que se seguiu, uma das poucas instituições sólidas eram as organizações religiosas muçulmanas, entre as quais as dos xiitas mais radicais. Além disso, Bremer decidiu a “des-baathificação” da administração iraquiana, tirando de seus postos qualquer funcionário que tivesse sido filiado ao partido de Saddam. Ora, dizem os próprios membros da inteligência americana, muita gente era filiada apenas por conveniência; havia desde saddamistas perigosos até bibliotecárias de escolinha infantil.
Assiste-se o filme com as mãos na cabeça, tão evidente parece ser a sucessão de erros, de improvisação e de arrogância. Pode-se mesmo ter a conclusão de que a guerra, em mãos mais competentes, teria sido um sucesso... Mas o filme, de qualquer modo, é uma das grandes atrações deste festival.
Será exibido no Cinesesc, em São Paulo, no dia 3 de abril (quinta-feira) às 23h, e no Rio, na sessão de abertura do Festival, dia 28, às 14h, no Unibanco Arteplex. Mais informações no link.

cena de "No End in Sight": no início da invasão, entusiasmo popular.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h32
o laranja e a china
http://www.thecolororange.net/uk/
Eu não reclamaria nem um pouco se boicotassem os jogos olímpicos de Pequim. Uma organização internacional propõe, entretanto, uma campanha diferente pelos direitos humanos na China. A idéia é usar a cor de laranja como símbolo, onde quer que passe a tocha olímpica e em outras ocasiões do gênero. Para quem se lembra do amarelo das diretas, a idéia tem forte apelo.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h48
Obama, derrota anunciada?
Pelas últimas pesquisas, a estrela de Barack Obama começa a declinar; a divulgação de alguns pronunciamentos do reverendo Jeremiah Wright Jr., líder da igreja a que Obama pertence, precipitou um fenômeno que o pré-candidato democrata vinha evitando com imensa habilidade e talento político. Tratava-se de diminuir o componente “racial” de sua candidatura; de apresentá-la como um caminho de união, não de conflito, para o povo americano. Muitas das falas de Jeremiah Wright vão no sentido oposto, e Obama faz o possível para se desvincular, agora, do reverendo –de quem emprestou, aliás, o título de um sermão para dar nome ao livro “A Audácia da Esperança”.
Ganha interesse, nesse contexto, um estudo recém-publicado nos Estados Unidos: A Bound Man: Why We Are Excited About Obama and Why He Can’t Win [Um Homem Vinculado (?): Por que Estamos Excitados com Obama e Por que Ele não Pode Vencer], de Shelby Steele.O livro foi resenhado na New York Review of Books, na edição de 6 de março; aparentemente, a “Obamania” ainda estava em pleno curso, e Darryl Pinckney, que assina a resenha, tinha todas as razões para manifestar ceticismo diante do diagnóstico do livro.
Três quartos da resenha se dedicam a contar a história de vida de Obama, e o quanto se desvincula do figurino clássico do militante dos direitos negros nos Estados Unidos. Para Darryl Pinckney, o livro sobre Obama é “esquálido e infeliz”. Steele acusa Obama de apresentar-se a si mesmo como uma voz de protesto entre os negros e de unificação entre os brancos. Mas quando Steele afirma que Obama não pode servir as aspirações de uma raça sem trair as da outra, é Steele, que faz acusações contra a “chantagem [moral] dos negros”, quem se mostra ultrapassado e ameaçadíssimo pela candidatura de Obama. Será o único? Será que as idéias que Obama “ultrapassa” não estão a ponto de pegá-lo na curva, agora?
Uma teoria maluca que li recentemente afirmava que Obama seria o próximo presidente, porque seu perfil se assemelha ao de Pernalonga. Ao contrário de seu companheiro Patolino, Pernalonga sempre se mantém frio e superior nos embates mais decisivos. Foi o que aconteceu, segundo a teoria, com Kennedy vencendo Nixon, e com Reagan vencendo... quem mesmo?
Mas a teoria “Pernalonga” pode se desfazer diante de outro conto, mais clássico, o da corrida entre o coelho e a tartaruga. A velocidade de Obama poderia se dar mal, então, diante da lerdeza de Mc Cain. Teorias, é claro, que não têm nada a não ser pesquisas (quanto valem?) para embasá-las. O fato é que, no momento em que a resenha contra Shelby Steele foi publicada na “NYRB”, as teses do livro resenhado se tornam mais interessantes do que era de esperar.
A edição feita pela Fox News dos pronunciamentos de Jeremiah Wright pode ser vista aqui. Sinceramente, com exceção do que ele diz a respeito da Aids, todas as suas críticas aos Estados Unidos, tachadas de antipatrióticas, são obviedades deste lado do Equador. Mas é claro que Obama não pode endossá-las sem risco de perder as eleições.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h56
Mais uma crônica sobre os problemas de brasileiros na Espanha. PODER DA BUROCRACIA Brasil. Espanha. Países amigos. Países irmãos. O ódio e o preconceito, por vezes, falam mais forte. Gianna era uma jovem de excepcional beleza. Olhos cor de mel. Pele da cor do pecado. Cabelos tipo samambaia. Sofria com a falta de recursos numa cidadezinha de Goiás. Veio a oportunidade. A tentação. Uma passagem para Madri. --Seus serviços serão bem remunerados. Gianna desembarcou no aeroporto de Barajas com um vestido de oncinha. O funcionário da imigração se chamava Juán Belisário. E logo desconfiou. --Más una brasileña que se vá para la prostitución. No entra acá en Barajas. Gianna arranhava um pouco de espanhol. --Quanto preconchecho... Soy una moza muy honesta y trabajadera. Um sorriso sedutor. Gianna continuou. Errando o nome do aeroporto. --No voy a entrar en Carajas. Sino que Carajas entrarán en mi. Juán Belisário fechou o guichê. E abriu a braguilha da calça. O amor rolou em pleno aeroporto. Como num ritual de boas vindas. Em qualquer país, os homens têm uma mentalidade muito burocrática. Querem sempre bater o carimbo na almofadinha.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h33
fetichismo da linguagem
Continuo a ler aos poucos o livro de Pierre Bayard, La Littérature appliquée à la Psychanalyse. Há no estilo desse autor, como notei aqui a propósito de Como Falar dos Livros que Não Lemos, um espírito que, de tão irônico, chega às raias do cinismo, para em seguida dar meia-volta e mostrar-se mais sério e profundo do que parecia de início. Mas o jogo retórico de Bayard vai se mostrando, quanto mais o lemos, excessivamente transparente.
Nesta sua teoria sobre a “literatura aplicada à psicanálise”, tudo começa com uma gracinha simpática. Bayard critica a tese de que a psicanálise deva ser aplicada à literatura, como um saber já constituído que pode ser utilizado no estudo de qualquer conto, poema ou romance. Quer o contrário: que o saber alcançado por um escritor qualquer a respeito da alma humana seja utilizado para ampliar o universo conceitual dos psicanalistas.Diz, entretanto, que sua teoria se revelou um fracasso; que ninguém ligou a mínima para o que já escreveu sobre o assunto...
Naturalmente, o leitor se vê capturado por esse tipo de honestidade faceciosa, que é a mesma presente no título de Como Falar dos Livros que Não Lemos. Não se sabe se é a sério ou no mesmo espírito de brincadeira, entretanto, que Bayard consome cinqüenta páginas de seu livro numa introdução extremamente redundante a respeito desse seu projeto teórico.
Muito bem, cheguei finalmente ao momento em que surge um primeiro exemplo prático de seu método. Bayard cita três parágrafos de As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, para mostrar de que modo, em pleno século 18, a literatura dos libertinos tinha desenvolvido uma técnica de interpretação psicológica, notando no que cada pessoa diz ou escreve um “não-dito” que revela, na verdade, o teor de seus desejos inconscientes. Bayard insiste: os libertinos não são “precursores” de Freud; podem acrescentar a Freud suas próprias técnicas de interpretação.
Nada a obstar, desde que se sistematize que técnicas são essas, que outros fenômenos, diferentes por exemplo do ato falho freudiano, eles chegaram a identificar. Bayard não apresenta, contudo, muita disposição para dar esse passo. Logo em seguida, dá outro exemplo, tirado de La Rochefoucauld. Mas vejamos o tom, o estilo, de suas considerações a respeito de Laclos.
Poderíamos tentar elaborar, a partir dos casos citados nas Ligações Perigosas, toda uma gramática dos mecanismos de defesa aos quais recorremos habitualmente em nosso discurso quotidiano, para nos proteger dos outros e de suas agressões, e do mesmo modo para nos proteger de nós mesmos e daquilo que, de nós, nos recusamos a conhecer. Essa gramática, mais completa e diversificada do que a de Freud, não é inadaptada à psicanálise e pode mesmo ser lida através das suas leis, mas possui também a força e a coerência de uma decupagem particular das relações do sujeito com a linguagem, que merece ser referenciada enquanto tal.E talvez fosse conveniente duplicar essa primeira gramática, acrescentando uma gramática da posse, consagrada agora aos mecanismos de ataque, graças aos quais os libertinos adquirem controle da linguagem de suas vítimas, descrita como o duplo meio de uma vontade de destruição do Outro e de uma tentativa de se defender dele. Poucos livros descrevem tão bem como se dedicar a possuir aquele cuja perda se decidiu precipitar. Aqui, a linguagem nem descreve nem narra: visa ou protege, e esse estatuto de arma de dois gumes constrói o lugar psicológico de um sujeito em guerra com os outros e consigo mesmo, que tenta sobreviver ao perigo mortífero das palavras.
Há muito, nesse trecho, de uma cortina de fumaça terminológica. Por que falar, por exemplo, numa gramática dos mecanismos de defesa? E não de um repertório? De um vocabulário? Por que não dizer que no livro há uma série de exemplos de mecanismos de defesa? A resposta, a meu ver, é que “gramática” fica mais chique e mais abstrato. Se tudo fosse apenas uma série de exemplos, a teoria de Freud daria conta. Aparentemente, dá conta mesmo. Mas para dar a impressão de que há mais coisa ali do que simples exemplificação, Bayard usa o prestigioso (cf. “gramatologia”, por exemplo) termo de “gramática”.
Por que dizer, em segundo lugar, que essa “gramática” possui a força de uma “decupagem particular das relações do sujeito com a sua linguagem”? No fundo, do que se trata é do uso da linguagem como instrumento de análise ou de sedução. A relação é, como sempre, utilitária e inteligível. Mas fica mais bonito se dissermos no plural –“relações do sujeito com a linguagem”, não sem antes observar, como é moda, que o sujeito se constitui na linguagem, que o sujeito é linguagem, ou que, melhor dizendo, a linguagem é que constitui o sujeito, que o sujeito não existe, e que “é falado” pela linguagem... Fetichismo puro da Linguagem, que começa com Valéry e daí por diante intoxica a teoria francesa em inúmeras ocasiões.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h28
O cronista do "agora" se inspira na Páscoa e em outros assuntos para escrever o que se segue. DIVISÃO EM FAMÍLIA A Páscoa se aproxima. Para as crianças, é um momento de alegria. Júlio tinha onze anos. Era o mais velho dos cinco irmãos. A mãe era separada e passava por dificuldades financeiras. Ela se chamava Doraly. --Tive de pôr todo mundo na escola pública. Ovos de chocolate eram uma tradição naquele simpático sobrado da Vila Remo. Três ovos de tamanho médio foram adquiridos por Dorali. --Júlio. Você que já está crescidinho. Dorali olhou seriamente para o filho maior. --Vai ter de me ajudar. Vamos ter de dividir isso direitinho. Para ninguém ficar triste. Sombras estúpidas tomaram conta do olhar do menino. --Três dividido por cinco? Está achando que eu sou um gênio? Dificuldades com Matemática são profundas nos alunos do ensino gratuito. Um safanão na mãe. Uma agressão à solidariedade em família. Júlio pegou os três ovos. Saiu correndo de casa. Devorou-os no fundão da classe durante a aula de Português. Sem dividir com ninguém. Numa sociedade sem regras, ignora-se até a tabuada do amor. DE NORTE A SUL O poder e o sexo movem grande parte da humanidade. Nos Estados Unidos, os escândalos são grandes. Nair assistia tudo pela TV. --Olha a cara desse sem-vergonha. Era o governador de um importante Estado americano. Diante das câmeras, ele dava entrevista. --I confess. Great error. Brazilian prostitute. Nair deu um risinho. --Todo moralista... todo certinho... terminou na gandaia. O marido de Nair se chamava Antônio César. --Bom... sabe como é... hipocrisia americana. Um ódio frio cintilou nos olhos de Nair. --Você não, né, Antônio César. Nem um pouco hipócrita... Na TV, a esposa do governador ficava como uma estátua ao lado do marido. --Mulher admirável... pessoa de fibra... ao lado dele nessa hora. O tabefe de Nair estalou na cara de Antônio César. --Faço o que ela não faz. Mas devia. Em nome das mulheres das Américas. Somos um só continente. Mas o rancor não conhece limites nem fronteiras. GENTE DE BEM Brasileiros e espanhóis sempre tiveram fortes laços de amizade. Mas nossos compatriotas andam sendo mal-tratados em Madri. Idalina assistia às notícias da TV. --Olha aí, mais um brasileiro que não deixam entrar. Um rapaz de boa aparência dava entrevista para a reportagem. --Deixaram a gente sem comer no aeroporto. Idalina levantou-se da poltrona. --Mas é o Paulinho! Neto da dona Espéria! Uma amiga de longa data ali do bairro. O marido de Idalina tomou-se de indignação cívica. --Gente de bem. Vamos até a casa dela. Na casa de dona Espéria, o som era de rock pesado. O cheiro de entorpecentes impregnava todo o quarteirão. Um adolescente de gorro ninja foi logo avisando. --A velha está no hospital faz tempo. O que é que vocês querem? Paulinho apareceu. Mandou o vigia esconder a semi-automática. --Festa particular. A venda do bagulho é só amanhã. Seres humanos são como drogas. Escondem-se em diversas embalagens.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h21
Que o trânsito em São Paulo esteja péssimo, ninguém discute. Mas que o fenômeno já é antigo, isso também é óbvio. Se se agravou nas últimas semanas, não há nada de brusco nem de surpreendente no problema. Surge assim como puro oportunismo, a meu ver, o artigo publicado quinta-feira na Folha pelo ex-secretário dos Transportes na gestão Marta Suplicy, Carlos Zarattini. Intitula-se “O caos no transporte e a cidade tucana” (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2003200809.htm). Como se a “cidade petista” não tivesse também seu próprio caos no transporte. O sentido político do artigo é bastante claro. Assim como o PT amargou as críticas pelo caos aéreo, chegou a vez de Kassab e os tucanos serem responsabilizados pelo caos no trânsito. As situações são diferentes, contudo –o problema nos aeroportos surgiu de forma aguda, e o do trânsito existe há décadas. As autoridades federais anunciavam, de duas em duas semanas, que a questão do tráfego aéreo estava resolvida, e não estava. Lembro-me bem de uma conversa com um importante assessor da então prefeita Luiza Erundina, há uns quinze anos. Ele dizia que a prioridade para a prefeita, naquele seu segundo semestre de mandato, seria o trânsito. Falava com a segurança de quem discerne com lucidez as questões fundamentais da metrópole. A “cidade petista” de Marta Suplicy pode muito bem ter idealizado um plano de transporte que, sob Kassab, não foi levado adiante. É o argumento de Zarattini. Sei, entretanto, que durante a gestão Marta o trânsito ficou infernal durante a construção do túnel Rebouças, tão ou mais criticável do que qualquer obra malufista. No fundo, o mais chato dessa instrumentalização política é que todo candidato quer mostrar-se “bonzinho” e construtivo, isto é, capaz de agradar a todos, sem assumir corajosamente as idéias que podem dividir e desgostar parte do eleitorado. O rodízio é uma delas; tudo bem. Que se fizesse, ao menos, um plebiscito.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h14
Vai aqui uma crônica publicada há dias no "Agora" A FORÇA DO TEMPO E DO AMOR Bob Dylan. Júlio Iglesias. Ennio Morricone. Os dinossauros da música estão de volta na cidade. O dr. Luiz Pedro tinha sessenta anos. O romantismo ainda era o seu forte. O caderninho de telefones ainda guardava os números de antigas paixões. --Vou telefonar para a Sarita. Uma velha namorada dos anos 70. Ela atendeu com voz quente e sensual. --Um show? Você está me convidando? Para lembrar os velhos tempos? --É, Sarita. Lembra do mingau dançante do clube Espéria? Ela lembrava. Luiz Pedro foi esperar Sarita na porta do prédio. Uma senhora obesa passou pela portaria. Andando com dificuldade. Era Sarita. Luiz Pedro escondeu a decepção. Entraram no carro. Inundações. Congestionamento. Luiz Pedro respirou fundo. Olhou para Sarita. Uma surpresa. Ela já parecia mais magra. Mais jovem. Meia hora de trânsito depois, tinha virado uma perfeita adolescente. A chuva. O congestionamento. O mistério da renovação e da Páscoa. No drive-in Iê-iê Park, eles vivem uma segunda perda da virgindade. O verdadeiro amor é como um congestionamento. Parece que o tempo não passa nunca.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h55
No artigo de hoje para a Ilustrada, falei do trânsito paulistano e da possibilidade de ouvir CDs de literatura no carro. Recebo um e-mail simpático de uma editora de "audiobooks", que me passa este link para quem quiser comprar seus livros. O catálogo ainda é pequeno, mas vale dar uma olhada.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h40
meninos que detestam esportes
Meu filho maior, que está para completar seis anos, não tem nenhum gosto por esportes. Quem puxa aos seus não degenera... Mesmo assim, ele foi levado a umas aulas de natação, que lhe serviram bastante para se virar em piscinas que não dão pé. Empacou, todavia, quando começaram a lhe impor aquela bateção de pernas e de braços de ponta a ponta da piscina que nós, adultos, conhecemos bem.
Conduzi-o então a uma escolinha de esportes muito reputada, no Caoc: há desde exercícios com bola, jogos leves de corrida e de queimada, até rudimentos de ginástica olímpica. Meu filho assistiu a tudo agarrado no meu braço, ciente de que, por mais que eu dissesse, aquilo não era, obviamente, um programa legal.
Indicaram-me, então, aulas de ai-ki-dô. Estive lá com meu filho nesta segunda-feira.
Para começar pelo fim da história, ele adorou. Entregou-se às atividades de uma forma que eu, depois de ver sua resistência à escolinha de esportes, já não acreditava possível.
Mas tenho de falar mais do que vi lá, antes do que foi visto por meu filho. Uns cinco ou seis meninos, maiores e menores do que ele, estavam treinando quando chegamos. Faziam, em uníssono, de quimonos brancos, uma série de movimentos elementares, e ainda assim complexos. A impressão que tive foi marcante. Como ver tanta decisão, tanta altivez, tanta nobreza de olhar, em crianças assim frágeis, assim pequenas?
Minha vontade era de chorar só com isso, com essa harmonia, com essa imagem de virilidade que fosse ao mesmo tempo pura e graciosa.
Depois vieram as explicações do mestre: foram tantas, que numa só aula creio ter aprendido o bastante para um ano inteiro.
Em primeiro lugar, o lutador de ai-ki-dô deve apresentar-se ao adversário com a perna e o braço esquerdos avante. Sabe por quê? Por que o lado esquerdo é o mais frágil, o mais suave. E, segundo a ideologia do ai-ki-dô, a suavidade tem a primazia sobre a força.
Depois, o mestre (que não era japonês, era um jovem meio careca e quase gordinho, de óculos) explicou a origem do ai-ki-dô. Ao contrário do que se possa pensar, não se trata de uma “arte milenar”. Surgiu nos anos 50, quando o fascismo japonês já havia sido esmagado pelas bombas de Hiroxima. O seu idealizador, cujo nome não lembro, absorveu as lições da derrota na Segunda Guerra.
Aprendeu que é estupidez e morticínio querer destruir o adversário. Ao mesmo tempo, ele gostava de artes marciais. Tratou de inventar uma arte marcial que fosse voltada não para a guerra, mas para a paz. Todos os golpes do ai-ki-dô resultam da suavização de uma técnica que, levada para valer, pode quebrar a coluna vertebral do inimigo em mais de um ponto. “Não é preciso fazer isso”, diz o mestre para um grupo de crianças de oito ou nove anos. “Importa mostrar, apenas, do que somos capazes”.
Dali a pouco, ele ensinava como lidar com um inimigo que te agarra pelo antebraço e quer puxar você. “Se você ficar encanado no ponto em que ele te machuca, ele será vitorioso. Não resista à agressão dele. Aceite a agressão dele. Ela só atinge cinco por cento do seu corpo. Adote uma estratégia diferente. Aceite a força dele para puxá-lo em sua direção”. E, num passe de mágica, a força do agressor foi usada para levá-lo ao chão.
Sem que ninguém se machucasse. Um garoto de quatro anos conseguiu (claro que com ajuda pedagógica) derrubar outro de doze.
Meu filho ficou entusiasmado. Não sei se ele aprendeu tudo o que eu aprendi nesta segunda-feira. Mas, sem dúvida, dispõe de mais tempo do que eu.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h33
Na linha das obscenidades publicitárias, acho muito mais grave um anúncio de carro que vi recentemente, e que não sei será objeto das decisões do Conar que comentei nos posts anteriores.
Trata-se de um automóvel que pode funcionar tanto no hidramático quanto no sistema de marchas convencional. O protagonista da história está dirigindo o carro. No banco do passageiro, um amigo rói-se de inveja.
A direção é hidramática, e o motorista não precisa mudar de marcha. O amigo no banco do lado expressa suas dúvidas. Onde estaria a emoção no ato másculo de mudar de marcha?
Um anjinho e um demônio aparecem sobre os ombros do feliz proprietário do carro novo. “Mosta pra ele, mostra”, diz o demônio. Naturalmente, o motorista mostra. Muda a marcha quando quer.
O amigo, no banco ao lado, não se satisfaz. “quero ver ele mexer no rádio sem largar da direção”. O motorista se mostra capaz disso, também, e seu diabinho particular ri abertamente, enquanto o amigo, derrotado, se afunda no banco.
Que dizer desse anúncio? Em princípio, está em curso uma dupla infidelidade. A do motorista com o amigo, certamente. A do próprio carro, que não é simplesmente hidramático, mas pode voltar ao antigo sistema de marchas se quiser.
Trata-se, subliminarmente, de eliminar qualquer fidelidade: a do motorista com seu carro antigo, a do personagem com seu amigo. Pressupõe-se em toda amizade uma disputa a ser vencida, como no modelo da concorrência comercial. Não sei se o Conar vai vetar uma coisa dessas.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h00
Um último exemplo de patrulhamento (não sou de usar esse termo, mas aqui se justifica) contra publicitários. Aqui, o Conar tomou a decisão sensata. Mas vale a pena inteirar-se da mentalidade que orientou a reclamação.
Anúncio de mídia externa do Departamento Estadual de Trânsito do Rio de Janeiro traz a mensagem “André Alves. Recém-formado em engenharia, ganhou do pai um carro de presente. Da garrafa de vodca que bebeu antes de dirigir, ganhou essa cadeira de rodas”.
O anúncio foi objeto de reclamação do IBDD –Instituto Brasileiro de Pessoas com Deficiência.
De acordo com a queixa, a maneira com que o anúncio é apresentado reforça alguns estereótipos sobre pessoas com deficiência, apresentando a condição como uma ameaça e sugerindo que a pior coisa que pode acontecer ao indivíduo é passar a ser usuário de cadeira de rodas.
A defesa nega que seu anúncio seja preconceituoso, esclarecendo que ele faz parte de uma campanha de educação de trânsito, e pede o arquivamento da representação.
O relator concordou com a defesa, não vendo irregularidades na peça. O arquivamento foi acordado unanimemente pelos membros do Conselho de Ética.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h23
Uma terceira decisão do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária que me deixa um pouco assustado. O Conar decidiu sustar um anúncio da Coca-Cola Zero, conforme a exposição abaixo.
Um casal troca beijos no interior de um carro, em um ambiente que se assemelha aos antigos “drive-in”. O rapaz solta o sutiã da moça e –surpresa!—caem no banco do carro duas garrafas de Coca-Cola Zero. Em seguida, o rapaz bebe das duas garrafas de refrigerante, mostrando sua satisfação. A cena foi questionada pela Ambev, que julgou que o comercial extrapola os padrões de decência, especialmente considerando que o público-alvo do produto envolve crianças e adolescentes.
A defesa alega que o apelo utilizado no comercial afasta qualquer viés de imoralidade, passando uma imagem repleta de bom humor.
Ao recomendar a reforma da decisão de primeira instância, que decidiu pelo arquivamento da representação, a relatora do recurso ordinário ponderou que o comercial é de fato bem-humorado e alegre, mas não deixa dúvidas de que induz o pensamento e a imaginação a uma seara libidinosa. A sustação da peça foi aceita por maioria de votos.
Bom, não sei de que jeito o rapaz bebeu “das duas garrafas”, mas poderíamos argumentar que o comercial justamente afasta o espectador de qualquer “seara libidinosa”, mostrando que é preferível tomar coca-cola a prosseguir na convivência com a namorada dentro do carro.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h13
Mais um anúncio que, conforme resolução do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária, terminou saindo do ar. É um comercial da Peugeot.
A peça mostra um carro com dificuldades para subir uma ladeira e, para compensar a falta de potência do motor, o casal nos bancos da frente começa a aliviar o peso do veículo, jogando objetos para fora da janela. Essa cena foi questionada pelo diretor executivo do Conar e por mais de uma centena de consumidores, já que a prática de jogar objetos na via pública fere o Código de Trânsito Brasileiro e é contrária à preservação do meio ambiente.
Em seu recurso, a defesa afirma que o desempenho de qualquer carro é influenciado pelo seu peso e que a intenção da mensagem é ressaltar que, com o Peugeot 206, não há necessidade de o consumidor deixar o carro vazio para manter a potência desejada. Reforça que a linguagem da peça é bem-humorada e claramente ficcional e que o anúncio é dirigido ao público adulto, que sabe perfeitamente distinguir ficção da realidade.
Por maioria de votos, os membros do Conselho de Ética mantiveram a decisão de primeira instância pela sustação do comercial, entendendo que a peça é deseducativa e incentiva o desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro, além de exibir atitude ecologicamente não recomendável.
É, talvez a defesa dos anunciantes seja mesmo inadequada: o público, mesmo adulto, não sabe distinguir realidade de ficção. Não é outro o pressuposto, no fundo, de toda atividade publicitária, para a qual, no fim das contas, a diferença entre adulto e criança não é das mais consideráveis.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h04
Não tenho simpatia pelo universo da publicidade, e acho que faltam ainda muitos controles sobre os anúncios de TV.
Apesar de uma muito divulgada iniciativa para auto-regulamentar a publicidade dirigida a crianças, por exemplo, o que vejo nos canais infantis de TV a cabo continua sendo uma espécie de massacre.
Pelo que vejo, só se coibiu o apelo direto, do tipo “peça logo para o papai”. As técnicas usuais da publicidade, que até com adultos têm um poder terrível, continuam entretanto aplicadas intensamente nas crianças.
Mas há também o outro lado. Não é pequeno o número dos chatos que reclamam sem razão dos anúncios mais diversos. Pode-se ver uma boa série de exemplos disso no Boletim do Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária), publicação mensal que recebo e sempre me diverte. Eis alguns exemplos de resoluções tomadas pelo conselho.
Diversos consumidores protestaram junto ao Conar contra anúncio de rádio da Skol, alegando que a peça estimula maus-tratos contra os animais. No anúncio, vários amigos chegam para um churrasco e começam a se perguntar quem trouxe a carne, no que todos respondem que trouxeram apenas a cerveja. Ouve-se um miado de gato, um dos amigos diz em tom bem-humorado que o “filé miau está garantido” e na seqüência ouve-se barulho de panelas.
Em primeira instância, a decisão pelo arquivamento da representação foi unânime, o que gerou recurso oferecido pela Associação Protetora dos Animais Oito Vidas.
Para a defesa, é nítido o tom humorístico do spot, pois a expressão “churrasquinho de gato” já foi incorporada ao vocabulário usual brasileiro como um churrasco de carne de segunda, e não do animal propriamente dito.
Em decisão unânime, os membros do Conselho de Ética reformaram o acórdão de primeira instância, votando pela sustação da peça por entender que a anunciante não leva em conta a sensibilidade de pessoas que dedicam afeto especial a bichos de estimação e tampouco atenta para as mais recentes tendências internacionais de busca de proteção de animais.
Os gatos podem, então, erguer um brinde à decisão do Conar. Quanto ao publicitário, coitado, que fez peça tão inocente, que trate de afogar as mágoas na cerveja.

Ataque de gatos numa HQ da Marvel
Escrito por Marcelo Coelho às 23h44
No site The Writer's Almanac, é possível inscrever-se para receber poemas diariamente, lidos em voz alta pelo locutor Garrison Kellor. Hoje veio um bem bonito de Marge Piercy, publicado em seu livro The Crooked Inheritance, de 2006.
Rastros
Os passarinhos deixam mensagens
cuneiformes sobre a neve: estive
aqui, estou com fome, preciso
comer. Do lugar em que joguei
sementes eles raspam as cascas
de pinhão e grãos gelados de areia.
Às vezes quando a neve cintila
atrás da janela, põe as árvores
e arbustos em surdina, cobre
o caminho, os gaios batem com seus bicos
na vidraça do meu quarto:
para eles eu sou feita de sementes.
Para os gatos eu sou amante e mãe,
brinquedo e colo, cozinheira e faxineira,
Para os coiotes sou alarme e caçadora.
Para os corvos, vigia, protetora.
Para os gambás, raposas e marmotas
uma sombra passageira, o vento de um instante.
Fui para um homem múmia malvada e vigilante.
Para outro eu era uma irmã que perdoa sempre,
cujas mãos derramavam mel e aloé;
para aquela mulher fui uma tempestade, cujas
ondas violentas ameaçavam seus alicerces; para outra,
um carvalho onde se apoiava sua videira em flor.
Usei os rostos, as máscaras,
de hieroglifos, deuses e demônios,
fantasmas com cara de morcego, ladra e sibila,
amante, perdedora, rosa vermelha e erva inútil,
esses foram os rastros que eu deixei
sobre a crosta branca do tempo.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h03
Uma crônica desta semana publicada no "Agora".
TENTAÇÕES DE PÁSCOA
Tempo de chocolates. Tempo de reflexão.
A Igreja se mobiliza contra o aborto e a pesquisa com embriões.
Dona Valéria era muito religiosa.
--Incrível. Mostraram até um feto na missa.
Ela estava convicta.
--Os embriõezinhos têm de nascer.
De repente, lembrou-se de uma coisa importante.
--Preciso comprar os ovos de Páscoa.
Os netinhos estavam esperando.
Na volta do supermercado, o dever cumprido. Tarde da noite, a tentação.
--Experimentar um ovinho... só um.
Subiu até a última prateleira do armário. Um belo ovo de dois quilos caiu lá de cima. Valéria tirou o papel cor-de-rosa. O chocolate estava todo rachado.
De dentro, uma vozinha. Parecia de um bebê.
--Não me abre ainda... por favor... eu preciiiso viveeer...
A visão de um feto confundiu-se com a dor do enfarte.
Na UTI, o médico diz que ela não vai ver o coelhinho.
Chocolates são como fetos. São melhores no dia certo.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h07
A poesia de René Daumal
Este ano se comemora o centenário de René Daumal (1908-1944), poeta inspirado por Rimbaud, pela ingestão de uma variedade especialmente tóxica do clorofórmio, e pelos seus estudos do sânscrito; de seu livro “Le Contre-ciel”, extraio três poemas, no belo estilo funerário-negro que é sua especialidade.
A PELE DO MUNDO
Eu vou e volto perguntando sobre a vida,
e a imagem irreconhecível de mim mesmo,
este mundo de ar, de pedra, de casas, de luzes,
de milhões de rostos sem leis, sem vozes,
este cobre, esta madeira envernizada, estes suspiros, estes gritos,
giram, com as cores à flor da pele,
formas tocadas, comidas, onde estou?
(Não, não, isto não é uma adivinha,
ai, não é uma adivinha,
que seja aqui ou em outra parte,
não me reconheço mais.)
Ordem tão frágil da geometria,
não me ofereças mais as consolações de teu coração de ferro.
Nestes dias, eu vou pelos corredores e pelos sons misturados,
e vejo a noite nas mais vivas cores,
mundo, monstruoso fantasma,
o teu dia é a mais vazia das noites.
Uma voz diz: “Onde estou? quem sou eu?”
Será a minha voz no deserto?
A superfície de cada coisa
Está esticada pela noite que a faz inchar-se
--Ah, esta noite coberta pelos véus do sol!
Sim, esta fala dentro da bolha da ilusão,
esta fala perdida,
será para sempre só a minha.
PERDENDO OS SENTIDOS
Odre cheio de gritos
--gritos vermelhos do sangue escuro,
e gritos brancos das mãos descarnadas,
e clamor azulado sob os tetos calmos das frontes—
couro cheio dos rumores
com ecos de cidades subterrâneas,
quando irás estourar em soluços
dissolvendo o teu ser confuso?
Rios arrastando grandes membranas mortas,
películas brancas do sofrimento,
derramamento dos suores e das lágrimas,
em que boca ireis perder-vos,
para renascer em flores de fogo?
As ondas nebulosas e salgadas
das pálpebras que batem e das portas
que se abrem sozinhas sobre os campos da sombra,
vão e voltam,
ventres sonoros das minhas queixas,
sempre as mesmas, mudando sempre,
vozes vazias em redemoinhos largos.
Vazias, pálidas, eu não as compreendo mais,
essas grandes vozes brancas.
OS QUATRO TEMPOS CARDEAIS
A galinha negra da noite
acaba de pôr mais uma aurora.
Saúdo a clara, saúdo a gema,
Saúdo o germe que não se vê.
O senhor Meio-Dia, rei de um instante,
No alto do céu bate o gongo.
Saúdo o olho, saúdo os dentes,
saúdo a máscara que devora sem cessar.
Nas almofadas do horizonte,
a fruta vermelha da lembrança.
Saúdo o sol que sabe morrer,
sol, que queima nossa imundície.
Mas em silêncio eu saúdo a grande Meia-Noite,
A que não dorme quando os três se agitam.
Fechando os olhos eu a vejo sem nada ver além das trevas.
Tapando os ouvidos ouço seus passos que não se afastam nunca.

René Daumal, em 1923.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h06
Pierre Bayard, detetive
Já escrevi aqui sobre Como Falar dos Livros que Não Lemos, livro bastante irônico do psicanalista Pierre Bayard, que foi traduzido recentemente no Brasil. Ele é presença confirmada na próxima Flip, e sem dúvida haverá de divertir a platéia –e a si mesmo.
Na França, acaba de sair um outro livro dele, cuja resenha leio em La Quinzaine Littéraire de 1 de março. É L´affaire du chien des Baskerville, onde depois de uma leitura cerrada e lacaniana do clássico romance policial de Conan Doyle, o autor conclui que Sherlock Holmes é um péssimo detetive. Suas deduções são sistematicamente erradas, e Bayard “prova” que o assassino é outro, que não o indicado pelo detetive. Como se não fosse bastante, Bayard considera que o assassino é tão diabólico que não apenas enganou Sherlock Holmes mas também o próprio Conan Doyle. Afinal, diz Bayard, é comum que personagens adquiram vida própria, independente daquilo pretendido pelos seus autores. Por que não ir além, e notar que o autor foi enganado pelo próprio personagem?
Assim caminha a inteligência francesa... a procura de originalidade se faz por meio da negação pós-moderna do próprio conceito de “original”, de “autêntico”, ou, se quisermos, de qualquer prioridade ontológica, do tipo “primeiro há o autor, depois a obra”. Deve ser divertido, de todo modo. O autor da resenha, Maurice Mourier, diz que os argumentos de Bayard são totalmente convincentes.
Estou lendo, de Bayard, La Littérature appliquée à la Psychanalyse –é isso mesmo. Não se trata de usar a psicanálise como método para ler um romance, mas de usar um romance para chegar a conclusões capazes de enriquecer o sistema freudiano. A idéia, diz Bayard na introdução do livro, tem sido recebida com total indiferença; sua proposta, avançada em outros livros e artigos, é um fracasso! Mas ele insiste, no mesmo espírito irônico que já conhecemos. Estou ainda na página 50, mas até agora a teorização é bem peso-leve, com gracinhas e repetições, pouca coisa além disso.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h50
Comento, num texto curto para a “Ilustrada” deste domingo, a experiência que fizeram com os críticos do caderno. Tratava-se de encomendar a cada um deles um texto sobre áreas em que não são especialistas. O crítico de rock foi ao teatro, o de gastronomia faz crítica literária, e assim por diante.
Não tenho muito a acrescentar ao comentário que fiz (leia aqui), mas me ocorreu depois uma outra idéia.
Escrevi que, dentro dos limites de espaço do jornal, muitos críticos fazem ginástica para colocar num texto o mínimo que se espera de uma crítica (alguma informação sobre de que se trata o livro, filme ou peça, apontar seus prós e seus contras).
Trata-se, por assim dizer, de uma crítica no modo verbal do indicativo: é assim, isto é bom, isto é ruim. Sem dúvida, estamos melhor do que se fizéssemos a crítica no modo imperativo: tem de ser assim, tem de ser assado.
Mas fiquei pensando se não existe, também, uma crítica no modo verbal do subjuntivo: “se tivesse sido assim...”, “talvez fosse isso...” Estaríamos, de alguma maneira, mais próximos do ato de elaboração de determinada obra, e menos do seu ato de consumo, ou de fruição. A explicação deste ou daquele defeito, ou incoerência, numa interpretação artística ou num filme, exige comparar o que foi pretendido com as razões para aquilo não ter dado completamente certo. A comparação entre o que determinado autor tinha feito antes com o que faz agora envolveria um julgamento, não necessariamente de suas intenções subjetivas, mas das inflexões, dos novos rumos que poderia (ou não) estar disposto a adotar. Eis um tipo de crítica que, sem ser pura análise formal ou estudo universitário, caberia num jornal –se desse para textos mais longos caberem num jornal.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h35
A reportagem de capa do “Estado” deste domingo aponta para um problema importante, o dos limites do Bolsa-Família (este o link). Em que medida esse programa social consegue manter as crianças e adolescentes na escola, como era seu objetivo? Como fazer com que a dependência do auxílio governamental não se agrave ao longo do tempo?
São questões sérias. Mas não é preciso ser doutor em Estatística para ver que os números levantados na reportagem são muito mais ambíguos do que o sugerido no jornal.
A manchete diz: “Abandono escolar cresce entre beneficiados do Bolsa-Família”.
A reportagem analisou os duzentos municípios mais beneficiados pelo programa. E constatou que, em 91 deles, o abandono escolar foi maior depois da implantação do Bolsa Família. Isto é, entre 2002 (quando não havia o programa) e 2005 (último ano com dados disponíveis), cresceu o número das crianças que abandonam a escola antes de completar a 8ª. Série.
Quem lê por alto conclui que o Bolsa Família estaria, por alguma razão, estimulando a evasão escolar. Mas as coisas não são tão claras assim.
Seria preciso comparar os municípios que recebem o Bolsa-Família com outros, em condições econômicas semelhantes, que não são atingidos pelo programa. Será que nesses municípios mais azarados a evasão escolar também não aumentou de 2002 a 2005?
E há a questão da faixa etária. Se a evasão escolar, nos municípios favorecidos, ocorre principalmente depois dos 15 anos (data-limite para o recebimento do benefício), isso é sinal que, até os 15 anos, o Bolsa-Família está segurando o aluno na escola. Num município sem Bolsa-Família, será que a evasão não ocorre mais cedo, por exemplo?
Faltam essas bases de comparação. Identificar o fenômeno apenas nos municípios onde o programa está a pleno vapor tende a dificultar qualquer avaliação mais aprofundada do que está acontecendo.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h13
Barcos, lençol, nevoeiro
O ruído das ondas tornou-se mais alto. Ele levantou as cortinas da janela. Como imaginara, havia as luzes dos barcos pesqueiros no mar. Parecia-lhe que estavam mais distantes do que há pouco. Havia também o nevoeiro que vinha descendo sobre o mar.
Ao virar-se em direção à cama, o coração gelou de susto. Viu apenas um pano branco estendido plano sobre o leito.
O corpo de sua noiva, talvez por estar afundado no acolchoado macio, não revelava nenhuma elevação sob a coberta do leito. Apenas sua cabeça formava um volume sobre o amplo travesseiro.
Contemplando longamente a noiva adormecida, lágrimas silenciosas brotaram de seus olhos, sem motivo algum.
O leito branco parecia uma folha branca de papel caída no chão iluminado pelo luar. Sentiu um súbito tremor da janela de cortinas levantadas. Desceu as cortinas e aproximou-se da cama.
Apoiou o cotovelo na armação da cabeceira e ficou espiando o rosto da noiva por algum tempo. Então, deslizando as mãos ao redor do pé da cama, ajoelhou-se. Encostou a testa no pé de ferro cilíndrico da cama. O frio do metal perpassou a cabeça.
Serenamente, juntou as mãos como se orasse.
--Oh, não! Não faça assim, por favor! –disse ela.—Até parece que está rezando para uma pessoa morta.
Ele se pôs em pé, corando um pouco.
--Estava acordada?
--Não dormi nem um pouco. Sonhei o tempo todo.
Quando ela arqueou o torso para olhá-lo, o lençol branco se remexeu, formando um tépido volume. Ele deu umas batidinhas de leve no lençol.
--O nevoeiro está cobrindo o mar.
--Aqueles barcos já foram todos embora?
--Não. Ainda estão bem distantes da terra.
--Mas você disse que o nevoeiro está cobrindo o mar.
--Sim. Mas é uma névoa fraca, não deve causar problemas. Vamos, descanse mais, querida.
Assim começa o conto “De mãos postas para orar”, escrito em 1926 por Yasunari Kawabata (1899-1972). Está no livro Contos da Palma da Mão, recém-lançado pela Editora Estação Liberdade, e que devo resenhar em breve para a “Ilustrada”.
São mais de 120 histórias curtas, cobrindo cerca de quarenta anos da carreira literária de Kawabata, prêmio Nobel de 1968. Dele, eu já tinha resenhado Viagem ao País das Neves e A Casa das Belas Adormecidas (que inspirou o último romance de Gabriel García Márquez).
O que há de mais bonito nesses contos, e creio que aparece no trecho citado acima, é um uso muito especial da metáfora, que talvez seja bem oposto ao que costumamos ver na literatura do Ocidente. Para nós, metáforas têm de ser necessariamente símbolos, ou alegorias: de qualquer modo, o que está em jogo é um significado oculto, mais “natural” ou “artificial” conforme o caso, mas sempre um objeto para nossa interpretação.
No trecho do conto que transcrevi, há evidentemente uma aproximação, um jogo de semelhanças, entre o nevoeiro e lençol, entre os barcos que deveriam voltar para a costa e a noiva que devia estar acordando. A aproximação existe, mas seria tosco “interpretá-la”: está ali, digamos, plasticamente, visualmente, e a arte do autor não reside no fato da intenção escondida atrás das palavras, mas na capacidade de registrar, de anotar, uma coincidência já presente no real. Trata-se de saber contemplar, de estar aberto ao que acontece, mais do que “imaginar”, “construir” um texto literário. Imagino que seja assim, também, no caso de um hai-kai. Mas aí seria preciso conhecer muito da literatura japonesa. Sem dúvida, muitas delicadezas dos contos de Kawabata se perdem por esse meu desconhecimento ocidentalizado – mas várias páginas têm uma beleza capaz de resistir a essa ignorância.
Paisagem noturna de Chelsea, por James Mc Neill Whistler
Escrito por Marcelo Coelho às 00h08
Gerald Finzi
O compositor Gerald Finzi (1901-1956) tinha 17 anos, e seu pai e seus cinco irmãos já estavam mortos. A infância, para ele, foi uma época de sofrimento bem maior do que no caso do poeta William Wordsworth (1770-1850), cuja obra é uma imensa e elaborada redescoberta do encantamento inicial do menino com as coisas do mundo. Talvez seja uma das maiores influências na obra de Proust; desconheço estudos a respeito.
Seja como for, Finzi compôs uma longa cantata baseada num dos mais famosos poemas de Wordsworth, Intimations of Immortality. Finzi é autor de algumas lindas canções baseadas em textos de Shakespeare, mas aqui suas intenções são mais grandiosas. Devo dizer infelizmente? Não sei; o Cd da Naxos melhora na medida em que o escuto mais vezes, só que mesmo assim...
O começo é muito bonito. Depois de uma introdução orquestral, matizada, suave e rica, o tenor canta os primeiros versos do poema de Wordsworth.
There was a time when meadow, grove, and stream,
The earth, and every common sight
To me did seem
Apparelled in celestial light...
[Vale, nascente, ravina: um tempo havia--
em que a Terra, e toda vista trivial
A mim parecia
Envolta em luz celestial]
Seria difícil imaginar uma melodia tão fluente, tão caseira, tão solta, como a que Finzi criou para essas linhas iniciais do poema. Logo em seguida o coro entra em confirmações exultantes e complexas; mas o coração do ouvinte já foi conquistado pela simplicidade que está sendo celebrada aqui.
Obviamente, celebrar a simplicidade não é a mesma coisa do que ser simples; talvez seja o contrário: quem a valoriza se situa fora dela, numa esfera mental mais reflexiva.
Por vezes, entretanto, é possível a síntese entre uma coisa e outra. Na segunda estrofe da ode, que diz simplesmente nos primeiros versos:
The Rainbow comes and goes,
and lovely is the Rose,
[O arco-íris surge e desaparece,
E a Rosa não se esquece]
Finzi recorre a um mecanismo simplíssimo, e ao mesmo tempo sofisticado, para transmitir a idéia de arco-íris: faz o tenor solista e as vozes mais agudas do coro cantarem em uníssono (ou será que existe algum intervalo mais amplo nisso? meu ouvido não chega a tanto) a mesma melodia, e repete a frase, com clareza, como num reflexo, quando chegam os versos
Waters on a starry night
Are beautiful and fair
[As águas na noite estrelada
São belas e claras]
É uma das qualidades insuperáveis de Wordsworth, aliás, esse tipo de constatação prosaica misturada com uma progressiva profundidade de pensamento, como se não fosse preciso ser complexo para ser profundo. Qualidade que sua poesia tem em comum com as águas mais claras, aliás.
Infelizmente, Finzi quer variar demais o espírito reflexivo desse poema, imiscuindo exaltações e fortíssimos onde o melhor seria deixar tudo em mansidão. Sem dúvida, Wordsworth também queria colocar um pouco mais de variedade e ritmo em seu poema, assumindo tons mais agudos quando escreve
The cataracts blow their trumpets from the steep
[Cataratas tocam suas trombetas das alturas]
Mas é incrível como a música fica mais chata nesses momentos de exaltação.
Melhor quando tudo se acalma, perto do final. O poeta volta a invocar suas fontes, correntes, vales e ravinas, pedindo que não haja mais separação entre seu amor e o que essas entidades (supostamente) lhe dedicam. Na música, há passagens descritivas com flautas e oboés, mas o literal dessas figurações logo se desencarna em pura melodia afirmativa, pontuada de acordes inocentes. O efeito mágico do uníssono entre coro e tenor solista se repete aqui, em tons um pouco mais escuros e dourados. Os versos refletem uma enorme gratidão para o “coração humano”, uma vez que é capaz de “ternuras, alegrias e temores”; o poeta diz que, para ele, “a menor flor que nasce pode trazer/ pensamentos que, vezes sem conta, escondem-se fundo demais para suscitar o pranto.” A música, aqui, nada mais faz senão concordar com o que foi dito.

Gerald Finzi
Escrito por Marcelo Coelho às 02h01
No artigo de quarta-feira para a Ilustrada, falei um pouco mais do livro que andei comentando aqui, o Mais Sexo é Sexo Mais Seguro, do economista Steven Landsburg. Um dos assuntos que ele aborda é o do crescimento da obesidade nos Estados Unidos, avançando a teoria de que o Mc Donald’s não é necessariamente uma das causas do fenômeno.
Tento acompanhar sua argumentação.
Nos Estados Unidos, a obesidade está aumentando entre todas as faixas etárias, todas as raças, entre ambos os sexos e em todos os Estados da União. A região em que a obesidade apresenta os índices mais altos do país continua a ser o Sul (...) Mas o tremendo crescimento da obesidade ocorreu em toda a nação, liderado pela Geórgia e seguido pelo Novo México, Virgínia, Califórnia e Vermont. Em 1991, pouco mais de 12% da população do país era obesa; oito anos mais tarde, esse número pulou para 20%.
Bem, o que mudou na última década? Uma das coisas foi o tamanho das porções do Mc Donald’s. Em 1970, o Mc Donald’s oferecia batatas fritas em uma porção que tinha determinado tamanho. Hoje esse tamanho é denominado “pequeno”. Mais tarde, eles introduziram um novo tamanho e o denominaram “grande”; hoje, esse tamanho é denominado “médio”. Existe um tamanho novo, maior, grande mesmo, mas sempre é possível ir um passo além do grande e apresentar uma nova porção “gigante”.
Portanto, estamos mais gordos porque estamos sendo mais bem alimentados? Devagar! Porções maiores não significam necessariamente refeições maiores.
Devagar digo eu: é aqui que a lógica “freakonômica” do autor começa a mostrar as suas garras.
Quando as porções eram menores, podíamos pedir duas porções de fritas e comer as duas; agora que as porções são enormes, podemos pedir uma gigante e dividi-la com a família. Quantas vezes isso ocorre? Não tenho a mínima idéia.
Eu tenho. Deve ocorrer rarissimamente. Pouca gente pediria duas porções de fritas para comê-las sozinho, porque se sentiria anormal. Pode perfeitamente pedir uma porção média ou uma grande sentindo-se normal, porque ainda há a gigante que ele está recusando. O sujeito pode pedir uma porção grande ou gigante para dividi-la com a família, mas haverá o filho que quer batata frita com catchup e outro que quer sem catchup. Na dúvida, em caso de divisão, o pai de família compra duas porções grandes em vez de uma gigante. A sobra de batatas que há nesse cálculo para cima tende a ser consumida também, porque o comportamento médio é de ir comendo até acabar o que está no saquinho.
Tudo isso seria calculável estatisticamente, e com toda certeza leva a maior consumo de batatas a partir de porções maiores, por mais que Landsburg tenha argumentos em contrário. De resto, este economista não leva em conta a variável fundamental, que é a do preço. Duas porções pequenas devem sair mais caro do que uma porção grande, porque o ganho de escala do Mc Donald’s permite o desconto no famoso “tamanho econômico”.
Mas quem consegue argumentar com um economista quando ele está disposto a bater o pé em sua tese? Landsburg prossegue com o trecho que citei no artigo da Ilustrada.
E mesmo se as pessoas estiverem comendo mais batatas fritas hoje em dia a pergunta continua: quem nasceu primeiro –o ovo ou a galinha? Ou seja, as grandes refeições geram obesidade ou a obesidade gera grandes refeições? O Mc Donald’s decidiu, por capricho, tornar todos mais gordos ou suas pesquisas de mercado revelaram que clientes maiores passaram a exigir porções maiores? Aposto na segunda, afinal, supõe-se que o Mc Donald’s era tão ganancioso em 1970 quanto o é hoje, portanto, se quiséssemos porções gigantes naquele mesmo, provavelmente as teríamos obtido.
O problema, aqui, é que Landsburg está acostumado a um tipo de crítica ao capitalismo que costuma insistir no lado moral, isto é, o da ganância de seus agentes. Investe contra esse tipo de argumento, mas isso não quer dizer que o seu ponto de vista esteja correto. Por mais que o Mc Donald’s fosse tão ganancioso em 1970 quanto hoje, não podemos ignorar que sempre surgem, ou devem surgir, novas idéias para aumentar os lucros em face daqueles obtidos pela concorrência. Pensando não na instituição Mc Donald’s, mas nos agentes individuais que nela trabalham (sejamos liberalofrênicos neste momento), haverá sempre alguém querendo ser premiado, por ganância pessoal, pelas idéias melhores que tiver se comparadas aos do colega da mesa do lado ou da lanchonete rival. Um gênio pode ter tido a idéia de inventar uma porção grande, ou gigante, que substitua as ridículas duas porções pequenas que o faminto quer comprar. O lucro aumenta, a porção aumenta, o cliente engorda, sem que a ganância “do Mc Donald’s” fosse menor em 1970 do que é hoje. Capitalismo é inovação, como todos gostam de dizer.
De resto, haveria um teste claro para ver se o raciocínio de Landsburg se sustenta. O Mc Donald’s cobra mais barato por uma porção gigante do que pelo peso equivalente de batatas em porções pequenas? Imagino que sim. Se isto ocorre, o problema do ovo e da galinha está resolvido. O Mc Donalds está induzindo, pelo sacrossanto sistema dos preços de mercado, a população a comer mais, e não o contrário. Ora bolas.

Pequeno consumidor exercendo seus direitos de escolha
Escrito por Marcelo Coelho às 00h35
Algumas crônicas publicadas no "Agora" nos últimos tempos.
VOZES EM CONFLITO
Culpas. Dúvidas. Remorsos.
A religião, muitas vezes, não dá sossego a quem tem casos de amor.
Norma era muito católica. E tinha um problema. A gravidez indesejada.
--Deus que me perdoe. Mas tenho de abortar.
Dificuldades econômicas graves dificultariam a vida do bebê.
A clínica ficava no centro da cidade.
A bela moça se encaminhava para o local. Quando viu uma igreja.
--Melhor rezar um pouco antes do aborto.
Silêncio. Velas. Vitrais. De repente, Norma ouviu rumores.
--Peccato... non farrre questo abórrrto...
Era a voz do papa Bento 16. Um calafrio percorreu a espinha de Norma.
--Santo papa... deixa eu explicar...
Mas o papa já não ouvia. Duas vozes angelicais tomaram seu lugar.
--Deixa o bebê com a gente... que cuidamos dele... hahn, hahn...
Norma olhou em volta. Nada. Só uma cova. Uma escavação.
Duas múmias. Freiras de muito tempo atrás. Pareciam sorrir.
Norma prometeu o anjinho para as freiras mumificadas. E agora passa bem.
Mensagens espirituais são como hieroglifos. Cada um lê do seu jeito.
NAS ALTURAS
A polícia não descansa. Até o Homem Aranha caiu nas teias da Lei.
Tayane achava injustiça.
--Ué. Ninguém pode fazer o que ele fez?
O francês Alain Robert inventou de trepar no Edifício Itália.
A bela moreninha dava um sorriso.
--Eu faço isso todo dia...
Olhou para o chefe de seu departamento.
--Não é, doutor Estêvão?
O respeitável advogado olhou em volta.
--Cuidado, Tayane. As paredes têm ouvidos.
A paixão rolava entre os dois. O dr. Estevão foi até o armário do almoxarifado.
--Aquele mensageiro... o Jackson... aposto que fica espiando a gente.
O rapaz, de fato, estava lá. Estevão agarrou-o pelo pescoço.
--Eu te jogo pela janela, seu safado.
Do trigésimo quarto andar, a queda seria fatal. Foi quando Estêvão deu um grito.
Uma aranha de médias proporções se escondia entre resmas de papel sulfite.
Jackson sumiu de cena com agilidade. Tayane e Estevão se enredam nas teias do amor.
Escalar um prédio pode ser interessante. Mas quem ama está sempre perto do céu.
CORCEL INDOMÁVEL
O tempo não perdoa. Custódio coçou a careca.
--É, esse carro não dá mais...
Era um Corcel 74. Vermelho sangue. Muito problema. Muito conserto.
--Quanto será que ele vale?
Um amigo negociava com carros usados.
--Isso aqui, Custódio, nem de graça.
Custódio respirou fundo. E tentou um último argumento.
--Olha, o rádio até que está bom.
Chiados. Interferência. O amigo foi atender outro cliente.
Aos ouvidos de Custódio, entretanto, chegava uma mensagem.
--La lucha continua. Para siempre Cuba. No vamos desanimar.
A voz de Fidel Castro deu a Custódio um ímpeto renovado.
--Pé na tábua, minha gente. Que aqui tem comandante.
Acelerou o veículo no rumo de outra revendedora.
Não viu o Audi em alta velocidade. Traumatismo craniano.
O sangue de Custódio banha silenciosamente o asfalto paulista.
O desenvolvimento histórico é como um carro velho.
Por vezes, pisar no breque não adianta nada.
Escrito por Marcelo Coelho às 09h21
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