Gerald Finzi
O compositor Gerald Finzi (1901-1956) tinha 17 anos, e seu pai e seus cinco irmãos já estavam mortos. A infância, para ele, foi uma época de sofrimento bem maior do que no caso do poeta William Wordsworth (1770-1850), cuja obra é uma imensa e elaborada redescoberta do encantamento inicial do menino com as coisas do mundo. Talvez seja uma das maiores influências na obra de Proust; desconheço estudos a respeito.
Seja como for, Finzi compôs uma longa cantata baseada num dos mais famosos poemas de Wordsworth, Intimations of Immortality. Finzi é autor de algumas lindas canções baseadas em textos de Shakespeare, mas aqui suas intenções são mais grandiosas. Devo dizer infelizmente? Não sei; o Cd da Naxos melhora na medida em que o escuto mais vezes, só que mesmo assim...
O começo é muito bonito. Depois de uma introdução orquestral, matizada, suave e rica, o tenor canta os primeiros versos do poema de Wordsworth.
There was a time when meadow, grove, and stream,
The earth, and every common sight
To me did seem
Apparelled in celestial light...
[Vale, nascente, ravina: um tempo havia--
em que a Terra, e toda vista trivial
A mim parecia
Envolta em luz celestial]
Seria difícil imaginar uma melodia tão fluente, tão caseira, tão solta, como a que Finzi criou para essas linhas iniciais do poema. Logo em seguida o coro entra em confirmações exultantes e complexas; mas o coração do ouvinte já foi conquistado pela simplicidade que está sendo celebrada aqui.
Obviamente, celebrar a simplicidade não é a mesma coisa do que ser simples; talvez seja o contrário: quem a valoriza se situa fora dela, numa esfera mental mais reflexiva.
Por vezes, entretanto, é possível a síntese entre uma coisa e outra. Na segunda estrofe da ode, que diz simplesmente nos primeiros versos:
The Rainbow comes and goes,
and lovely is the Rose,
[O arco-íris surge e desaparece,
E a Rosa não se esquece]
Finzi recorre a um mecanismo simplíssimo, e ao mesmo tempo sofisticado, para transmitir a idéia de arco-íris: faz o tenor solista e as vozes mais agudas do coro cantarem em uníssono (ou será que existe algum intervalo mais amplo nisso? meu ouvido não chega a tanto) a mesma melodia, e repete a frase, com clareza, como num reflexo, quando chegam os versos
Waters on a starry night
Are beautiful and fair
[As águas na noite estrelada
São belas e claras]
É uma das qualidades insuperáveis de Wordsworth, aliás, esse tipo de constatação prosaica misturada com uma progressiva profundidade de pensamento, como se não fosse preciso ser complexo para ser profundo. Qualidade que sua poesia tem em comum com as águas mais claras, aliás.
Infelizmente, Finzi quer variar demais o espírito reflexivo desse poema, imiscuindo exaltações e fortíssimos onde o melhor seria deixar tudo em mansidão. Sem dúvida, Wordsworth também queria colocar um pouco mais de variedade e ritmo em seu poema, assumindo tons mais agudos quando escreve
The cataracts blow their trumpets from the steep
[Cataratas tocam suas trombetas das alturas]
Mas é incrível como a música fica mais chata nesses momentos de exaltação.
Melhor quando tudo se acalma, perto do final. O poeta volta a invocar suas fontes, correntes, vales e ravinas, pedindo que não haja mais separação entre seu amor e o que essas entidades (supostamente) lhe dedicam. Na música, há passagens descritivas com flautas e oboés, mas o literal dessas figurações logo se desencarna em pura melodia afirmativa, pontuada de acordes inocentes. O efeito mágico do uníssono entre coro e tenor solista se repete aqui, em tons um pouco mais escuros e dourados. Os versos refletem uma enorme gratidão para o “coração humano”, uma vez que é capaz de “ternuras, alegrias e temores”; o poeta diz que, para ele, “a menor flor que nasce pode trazer/ pensamentos que, vezes sem conta, escondem-se fundo demais para suscitar o pranto.” A música, aqui, nada mais faz senão concordar com o que foi dito.

Gerald Finzi
Escrito por Marcelo Coelho às 02h01
No artigo de quarta-feira para a Ilustrada, falei um pouco mais do livro que andei comentando aqui, o Mais Sexo é Sexo Mais Seguro, do economista Steven Landsburg. Um dos assuntos que ele aborda é o do crescimento da obesidade nos Estados Unidos, avançando a teoria de que o Mc Donald’s não é necessariamente uma das causas do fenômeno.
Tento acompanhar sua argumentação.
Nos Estados Unidos, a obesidade está aumentando entre todas as faixas etárias, todas as raças, entre ambos os sexos e em todos os Estados da União. A região em que a obesidade apresenta os índices mais altos do país continua a ser o Sul (...) Mas o tremendo crescimento da obesidade ocorreu em toda a nação, liderado pela Geórgia e seguido pelo Novo México, Virgínia, Califórnia e Vermont. Em 1991, pouco mais de 12% da população do país era obesa; oito anos mais tarde, esse número pulou para 20%.
Bem, o que mudou na última década? Uma das coisas foi o tamanho das porções do Mc Donald’s. Em 1970, o Mc Donald’s oferecia batatas fritas em uma porção que tinha determinado tamanho. Hoje esse tamanho é denominado “pequeno”. Mais tarde, eles introduziram um novo tamanho e o denominaram “grande”; hoje, esse tamanho é denominado “médio”. Existe um tamanho novo, maior, grande mesmo, mas sempre é possível ir um passo além do grande e apresentar uma nova porção “gigante”.
Portanto, estamos mais gordos porque estamos sendo mais bem alimentados? Devagar! Porções maiores não significam necessariamente refeições maiores.
Devagar digo eu: é aqui que a lógica “freakonômica” do autor começa a mostrar as suas garras.
Quando as porções eram menores, podíamos pedir duas porções de fritas e comer as duas; agora que as porções são enormes, podemos pedir uma gigante e dividi-la com a família. Quantas vezes isso ocorre? Não tenho a mínima idéia.
Eu tenho. Deve ocorrer rarissimamente. Pouca gente pediria duas porções de fritas para comê-las sozinho, porque se sentiria anormal. Pode perfeitamente pedir uma porção média ou uma grande sentindo-se normal, porque ainda há a gigante que ele está recusando. O sujeito pode pedir uma porção grande ou gigante para dividi-la com a família, mas haverá o filho que quer batata frita com catchup e outro que quer sem catchup. Na dúvida, em caso de divisão, o pai de família compra duas porções grandes em vez de uma gigante. A sobra de batatas que há nesse cálculo para cima tende a ser consumida também, porque o comportamento médio é de ir comendo até acabar o que está no saquinho.
Tudo isso seria calculável estatisticamente, e com toda certeza leva a maior consumo de batatas a partir de porções maiores, por mais que Landsburg tenha argumentos em contrário. De resto, este economista não leva em conta a variável fundamental, que é a do preço. Duas porções pequenas devem sair mais caro do que uma porção grande, porque o ganho de escala do Mc Donald’s permite o desconto no famoso “tamanho econômico”.
Mas quem consegue argumentar com um economista quando ele está disposto a bater o pé em sua tese? Landsburg prossegue com o trecho que citei no artigo da Ilustrada.
E mesmo se as pessoas estiverem comendo mais batatas fritas hoje em dia a pergunta continua: quem nasceu primeiro –o ovo ou a galinha? Ou seja, as grandes refeições geram obesidade ou a obesidade gera grandes refeições? O Mc Donald’s decidiu, por capricho, tornar todos mais gordos ou suas pesquisas de mercado revelaram que clientes maiores passaram a exigir porções maiores? Aposto na segunda, afinal, supõe-se que o Mc Donald’s era tão ganancioso em 1970 quanto o é hoje, portanto, se quiséssemos porções gigantes naquele mesmo, provavelmente as teríamos obtido.
O problema, aqui, é que Landsburg está acostumado a um tipo de crítica ao capitalismo que costuma insistir no lado moral, isto é, o da ganância de seus agentes. Investe contra esse tipo de argumento, mas isso não quer dizer que o seu ponto de vista esteja correto. Por mais que o Mc Donald’s fosse tão ganancioso em 1970 quanto hoje, não podemos ignorar que sempre surgem, ou devem surgir, novas idéias para aumentar os lucros em face daqueles obtidos pela concorrência. Pensando não na instituição Mc Donald’s, mas nos agentes individuais que nela trabalham (sejamos liberalofrênicos neste momento), haverá sempre alguém querendo ser premiado, por ganância pessoal, pelas idéias melhores que tiver se comparadas aos do colega da mesa do lado ou da lanchonete rival. Um gênio pode ter tido a idéia de inventar uma porção grande, ou gigante, que substitua as ridículas duas porções pequenas que o faminto quer comprar. O lucro aumenta, a porção aumenta, o cliente engorda, sem que a ganância “do Mc Donald’s” fosse menor em 1970 do que é hoje. Capitalismo é inovação, como todos gostam de dizer.
De resto, haveria um teste claro para ver se o raciocínio de Landsburg se sustenta. O Mc Donald’s cobra mais barato por uma porção gigante do que pelo peso equivalente de batatas em porções pequenas? Imagino que sim. Se isto ocorre, o problema do ovo e da galinha está resolvido. O Mc Donalds está induzindo, pelo sacrossanto sistema dos preços de mercado, a população a comer mais, e não o contrário. Ora bolas.

Pequeno consumidor exercendo seus direitos de escolha
Escrito por Marcelo Coelho às 00h35
Algumas crônicas publicadas no "Agora" nos últimos tempos.
VOZES EM CONFLITO
Culpas. Dúvidas. Remorsos.
A religião, muitas vezes, não dá sossego a quem tem casos de amor.
Norma era muito católica. E tinha um problema. A gravidez indesejada.
--Deus que me perdoe. Mas tenho de abortar.
Dificuldades econômicas graves dificultariam a vida do bebê.
A clínica ficava no centro da cidade.
A bela moça se encaminhava para o local. Quando viu uma igreja.
--Melhor rezar um pouco antes do aborto.
Silêncio. Velas. Vitrais. De repente, Norma ouviu rumores.
--Peccato... non farrre questo abórrrto...
Era a voz do papa Bento 16. Um calafrio percorreu a espinha de Norma.
--Santo papa... deixa eu explicar...
Mas o papa já não ouvia. Duas vozes angelicais tomaram seu lugar.
--Deixa o bebê com a gente... que cuidamos dele... hahn, hahn...
Norma olhou em volta. Nada. Só uma cova. Uma escavação.
Duas múmias. Freiras de muito tempo atrás. Pareciam sorrir.
Norma prometeu o anjinho para as freiras mumificadas. E agora passa bem.
Mensagens espirituais são como hieroglifos. Cada um lê do seu jeito.
NAS ALTURAS
A polícia não descansa. Até o Homem Aranha caiu nas teias da Lei.
Tayane achava injustiça.
--Ué. Ninguém pode fazer o que ele fez?
O francês Alain Robert inventou de trepar no Edifício Itália.
A bela moreninha dava um sorriso.
--Eu faço isso todo dia...
Olhou para o chefe de seu departamento.
--Não é, doutor Estêvão?
O respeitável advogado olhou em volta.
--Cuidado, Tayane. As paredes têm ouvidos.
A paixão rolava entre os dois. O dr. Estevão foi até o armário do almoxarifado.
--Aquele mensageiro... o Jackson... aposto que fica espiando a gente.
O rapaz, de fato, estava lá. Estevão agarrou-o pelo pescoço.
--Eu te jogo pela janela, seu safado.
Do trigésimo quarto andar, a queda seria fatal. Foi quando Estêvão deu um grito.
Uma aranha de médias proporções se escondia entre resmas de papel sulfite.
Jackson sumiu de cena com agilidade. Tayane e Estevão se enredam nas teias do amor.
Escalar um prédio pode ser interessante. Mas quem ama está sempre perto do céu.
CORCEL INDOMÁVEL
O tempo não perdoa. Custódio coçou a careca.
--É, esse carro não dá mais...
Era um Corcel 74. Vermelho sangue. Muito problema. Muito conserto.
--Quanto será que ele vale?
Um amigo negociava com carros usados.
--Isso aqui, Custódio, nem de graça.
Custódio respirou fundo. E tentou um último argumento.
--Olha, o rádio até que está bom.
Chiados. Interferência. O amigo foi atender outro cliente.
Aos ouvidos de Custódio, entretanto, chegava uma mensagem.
--La lucha continua. Para siempre Cuba. No vamos desanimar.
A voz de Fidel Castro deu a Custódio um ímpeto renovado.
--Pé na tábua, minha gente. Que aqui tem comandante.
Acelerou o veículo no rumo de outra revendedora.
Não viu o Audi em alta velocidade. Traumatismo craniano.
O sangue de Custódio banha silenciosamente o asfalto paulista.
O desenvolvimento histórico é como um carro velho.
Por vezes, pisar no breque não adianta nada.
Escrito por Marcelo Coelho às 09h21
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