Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

voltaire de souza

Uma crônica desta semana publicada no "Agora".

 

 

TENTAÇÕES DE PÁSCOA

 

 

Tempo de chocolates. Tempo de reflexão.

A Igreja se mobiliza contra o aborto e a pesquisa com embriões.

Dona Valéria era muito religiosa.

--Incrível. Mostraram até um feto na missa.

Ela estava convicta.

--Os embriõezinhos têm de nascer.

De repente, lembrou-se de uma coisa importante.

--Preciso comprar os ovos de Páscoa.

Os netinhos estavam esperando.

Na volta do supermercado, o dever cumprido. Tarde da noite, a tentação.

--Experimentar um ovinho... só um.

Subiu até a última prateleira do armário. Um belo ovo de dois quilos caiu lá de cima. Valéria tirou o papel cor-de-rosa. O chocolate estava todo rachado.

De dentro, uma vozinha. Parecia de um bebê.

--Não me abre ainda... por favor...  eu preciiiso viveeer...

A visão de um feto confundiu-se com a dor do enfarte.

Na UTI, o médico diz que ela não vai ver o coelhinho.

Chocolates são como fetos. São melhores no dia certo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h07

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A poesia de René Daumal

A poesia de René Daumal

Este ano se comemora o centenário de René Daumal (1908-1944), poeta inspirado por Rimbaud, pela ingestão de uma variedade especialmente tóxica do clorofórmio, e pelos seus estudos do sânscrito; de seu livro “Le Contre-ciel”, extraio três poemas, no belo estilo funerário-negro que é sua especialidade.

 

 

A PELE DO MUNDO

 

Eu vou e volto perguntando sobre a vida,

e a imagem irreconhecível de mim mesmo,

este mundo de ar, de pedra, de casas, de luzes,

de milhões de rostos sem leis, sem vozes,

este cobre, esta madeira envernizada, estes suspiros, estes gritos,

giram, com as cores à flor da pele,

formas tocadas, comidas, onde estou?

 

(Não, não, isto não é uma adivinha,

ai, não é uma adivinha,

que seja aqui ou em outra parte,

não me reconheço mais.)

 

Ordem tão frágil da geometria,

não me ofereças mais as consolações de teu coração de ferro.

Nestes dias, eu vou pelos corredores e pelos sons misturados,

e vejo a noite nas mais vivas cores,

mundo, monstruoso fantasma,

o teu dia é a mais vazia das noites.

Uma voz diz: “Onde estou? quem sou eu?”

Será a minha voz no deserto?

A superfície de cada coisa

Está esticada pela noite que a faz inchar-se

--Ah, esta noite coberta pelos véus do sol!

Sim, esta fala dentro da bolha da ilusão,

esta fala perdida,

será para sempre só a minha.

 

PERDENDO OS SENTIDOS

 

Odre cheio de gritos

--gritos vermelhos do sangue escuro,

e gritos brancos das mãos descarnadas,

e clamor azulado sob os tetos calmos das frontes—

couro cheio dos rumores

com ecos de cidades subterrâneas,

quando irás estourar em soluços

dissolvendo o teu ser confuso?

 

Rios arrastando grandes membranas mortas,

películas brancas do sofrimento,

derramamento dos suores e das lágrimas,

em que boca ireis perder-vos,

para renascer em flores de fogo?

 

As ondas nebulosas e salgadas

das pálpebras que batem e das portas

que se abrem sozinhas sobre os campos da sombra,

vão e voltam,

ventres sonoros das minhas queixas,

sempre as mesmas, mudando sempre,

vozes vazias em redemoinhos largos.

 

Vazias, pálidas, eu não as compreendo mais,

essas grandes vozes brancas.

 

OS QUATRO TEMPOS CARDEAIS

 

 

A galinha negra da noite

acaba de pôr mais uma aurora.

Saúdo a clara, saúdo a gema,

Saúdo o germe que não se vê.

 

O  senhor Meio-Dia, rei de um instante,

No alto do céu bate o gongo.

Saúdo o olho, saúdo os dentes,

saúdo a máscara que devora sem cessar.

 

Nas almofadas do horizonte,

a fruta vermelha da lembrança.

Saúdo o sol que sabe morrer,

sol, que queima nossa imundície.

 

Mas em silêncio eu saúdo a grande Meia-Noite,

A que não dorme quando os três se agitam.

Fechando os olhos eu a vejo sem nada ver além das trevas.

Tapando os ouvidos ouço seus passos que não se afastam nunca.

 

René Daumal, em 1923.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h06

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Pierre Bayard, detetive

Pierre Bayard, detetive

Já escrevi aqui sobre Como Falar dos Livros que Não Lemos, livro bastante irônico do psicanalista Pierre Bayard, que foi traduzido recentemente no Brasil. Ele é presença confirmada na próxima Flip, e sem dúvida haverá de divertir a platéia –e a si mesmo.

 

Na França, acaba de sair um outro livro dele, cuja resenha leio em La Quinzaine Littéraire de 1 de março. É  L´affaire du chien des Baskerville, onde depois de uma leitura cerrada e lacaniana do clássico romance policial de Conan Doyle, o autor conclui que Sherlock Holmes é um péssimo detetive. Suas deduções são sistematicamente erradas, e Bayard “prova” que o assassino é outro, que não o indicado pelo detetive. Como se não fosse bastante, Bayard considera que o assassino é tão diabólico que não apenas enganou Sherlock Holmes mas também o próprio Conan Doyle. Afinal, diz Bayard, é comum que personagens adquiram vida própria, independente daquilo pretendido pelos seus autores. Por que não ir além, e notar que o autor foi enganado pelo próprio personagem?

 

Assim caminha a inteligência francesa... a procura de originalidade se faz por meio da negação pós-moderna do próprio conceito de “original”, de “autêntico”, ou, se quisermos, de qualquer prioridade ontológica, do tipo “primeiro há o autor, depois a obra”. Deve ser divertido, de todo modo. O autor da resenha, Maurice Mourier, diz que os argumentos de Bayard são totalmente convincentes.

 

Estou lendo, de Bayard, La Littérature appliquée à la Psychanalyseé isso mesmo. Não se trata de usar a psicanálise como método para ler um romance, mas de usar um romance para chegar a conclusões capazes de enriquecer o sistema freudiano. A idéia, diz Bayard na introdução do livro, tem sido recebida com total indiferença; sua proposta, avançada em outros livros e artigos, é um fracasso! Mas ele insiste, no mesmo espírito irônico que já conhecemos. Estou ainda na página 50, mas até agora a teorização é bem peso-leve, com gracinhas e repetições, pouca coisa além disso.  

Escrito por Marcelo Coelho às 18h50

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crítica no subjuntivo

Comento, num texto curto para a “Ilustrada” deste domingo, a experiência que fizeram com os críticos do caderno. Tratava-se de encomendar a cada um deles um texto sobre áreas em que não são especialistas. O crítico de rock foi ao teatro, o de gastronomia faz crítica literária, e assim por diante.

 

Não tenho muito a acrescentar ao comentário que fiz (leia aqui), mas me ocorreu depois uma outra idéia.

 

Escrevi que, dentro dos limites de espaço do jornal, muitos críticos fazem ginástica para colocar num texto o mínimo que se espera de uma crítica (alguma informação sobre de que se trata o livro, filme ou peça, apontar seus prós e seus contras).

 

Trata-se, por assim dizer, de uma crítica no modo verbal do indicativo: é assim, isto é bom, isto é ruim. Sem dúvida, estamos melhor do que se fizéssemos a crítica no modo imperativo: tem de ser assim, tem de ser assado.

 

Mas fiquei pensando se não existe, também, uma crítica no modo verbal do subjuntivo: “se tivesse sido assim...”, “talvez fosse isso...” Estaríamos, de alguma maneira, mais próximos do ato de elaboração de determinada obra, e menos do seu ato de consumo, ou de fruição. A explicação deste ou daquele defeito, ou incoerência, numa interpretação artística ou num filme, exige comparar o que foi pretendido com as razões para aquilo não ter dado completamente certo. A comparação entre o que determinado autor tinha feito antes com o que faz agora envolveria um julgamento, não necessariamente de suas intenções subjetivas, mas das inflexões, dos novos rumos que poderia (ou não) estar disposto a adotar. Eis um tipo de crítica que, sem ser pura análise formal ou estudo universitário, caberia num jornal –se desse para textos mais longos caberem num jornal.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h35

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Problemas do Bolsa-Família

A reportagem de capa do “Estado” deste domingo aponta para um problema importante, o dos limites do Bolsa-Família (este o link). Em que medida esse programa social consegue manter as crianças e adolescentes na escola, como era seu objetivo? Como fazer com que a dependência do auxílio governamental não se agrave ao longo do tempo?

 

São questões sérias. Mas não é preciso ser doutor em Estatística para ver que os números levantados na reportagem são muito mais ambíguos do que o sugerido no jornal.

 

A manchete diz: “Abandono escolar cresce entre beneficiados do Bolsa-Família”.

 

A reportagem analisou os duzentos municípios mais beneficiados pelo programa. E constatou que, em 91 deles, o abandono escolar foi maior depois da implantação do Bolsa Família. Isto é, entre 2002 (quando não havia o programa) e 2005 (último ano com dados disponíveis), cresceu o número das crianças que abandonam a escola antes de completar a 8ª. Série.

 

Quem lê por alto conclui que o Bolsa Família estaria, por alguma razão, estimulando a evasão escolar. Mas as coisas não são tão claras assim.

 

Seria preciso comparar os municípios que recebem o Bolsa-Família com outros, em condições econômicas semelhantes, que não são atingidos pelo programa. Será que nesses municípios mais azarados a evasão escolar também não aumentou de 2002 a 2005?

 

E há a questão da faixa etária. Se a evasão escolar, nos municípios favorecidos, ocorre principalmente depois dos 15 anos (data-limite para o recebimento do benefício), isso é sinal que, até os 15 anos, o Bolsa-Família está segurando o aluno na escola. Num município sem Bolsa-Família, será que a evasão não ocorre mais cedo, por exemplo?

 

Faltam essas bases de comparação. Identificar o fenômeno apenas nos municípios onde o programa está a pleno vapor tende a dificultar qualquer avaliação mais aprofundada do que está acontecendo.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h13

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Barcos, lençol, nevoeiro

Barcos, lençol, nevoeiro

         O ruído das ondas tornou-se mais alto. Ele levantou as cortinas da janela. Como imaginara, havia as luzes dos barcos pesqueiros no mar. Parecia-lhe que estavam mais distantes do que há pouco. Havia também o nevoeiro que vinha descendo sobre o mar.

 

         Ao virar-se em direção à cama, o coração gelou de susto. Viu apenas um pano branco estendido plano sobre o leito.

 

         O corpo de sua noiva, talvez por estar afundado no acolchoado macio, não revelava nenhuma elevação sob a coberta do leito. Apenas sua cabeça formava um volume sobre o amplo travesseiro.

 

         Contemplando longamente a noiva adormecida, lágrimas silenciosas brotaram de seus olhos, sem motivo algum.

 

         O leito branco parecia uma folha branca de papel caída no chão iluminado pelo luar. Sentiu um súbito tremor da janela de cortinas levantadas. Desceu as cortinas e aproximou-se da cama.

 

         Apoiou o cotovelo na armação da cabeceira e ficou espiando o rosto da noiva por algum tempo. Então, deslizando as mãos ao redor do pé da cama, ajoelhou-se. Encostou a testa no pé de ferro cilíndrico da cama. O frio do metal perpassou a cabeça.

 

         Serenamente, juntou as mãos como se orasse.

 

         --Oh, não! Não faça assim, por favor! –disse ela.—Até parece que está rezando para uma pessoa morta.

 

         Ele se pôs em pé, corando um pouco.

 

         --Estava acordada?

 

         --Não dormi nem um pouco. Sonhei o tempo todo.

 

         Quando ela arqueou o torso para olhá-lo, o lençol branco se remexeu, formando um tépido volume. Ele deu umas batidinhas de leve no lençol.

 

         --O nevoeiro está cobrindo o mar.

 

         --Aqueles barcos já foram todos embora?

 

         --Não. Ainda estão bem distantes da terra.

 

         --Mas você disse que o nevoeiro está cobrindo o mar.

 

         --Sim. Mas é uma névoa fraca, não deve causar problemas. Vamos, descanse mais, querida.

 

 

Assim começa o conto “De mãos postas para orar”, escrito em 1926 por Yasunari Kawabata (1899-1972). Está no livro Contos da Palma da Mão, recém-lançado pela Editora Estação Liberdade, e que devo resenhar em breve para a “Ilustrada”.

 

São mais de 120 histórias curtas, cobrindo cerca de quarenta anos da carreira literária de Kawabata, prêmio Nobel de 1968. Dele, eu já tinha resenhado Viagem ao País das Neves e A Casa das Belas Adormecidas (que inspirou o último romance de Gabriel García Márquez).

 

O que há de mais bonito nesses contos, e creio que aparece no trecho citado acima, é um uso muito especial da metáfora, que talvez seja bem oposto ao que costumamos ver na literatura do Ocidente. Para nós, metáforas têm de ser necessariamente símbolos, ou alegorias: de qualquer modo, o que está em jogo é um significado oculto, mais “natural” ou “artificial” conforme o caso, mas sempre um objeto para nossa interpretação.

 

No trecho do conto que transcrevi, há evidentemente uma aproximação, um jogo de semelhanças, entre o nevoeiro e lençol, entre os barcos que deveriam voltar para a costa e a noiva que devia estar acordando. A aproximação existe, mas seria tosco “interpretá-la”: está ali, digamos, plasticamente, visualmente, e a arte do autor não reside no fato da intenção escondida atrás das palavras, mas na capacidade de registrar, de anotar, uma coincidência já presente no real. Trata-se de saber contemplar, de estar aberto ao que acontece, mais do que “imaginar”, “construir” um texto literário. Imagino que seja assim, também, no caso de um hai-kai. Mas aí seria preciso conhecer muito da literatura japonesa. Sem dúvida, muitas delicadezas dos contos de Kawabata se perdem por esse meu desconhecimento ocidentalizado – mas várias páginas têm uma beleza capaz de resistir a essa ignorância.

 

  

 Paisagem noturna de Chelsea, por James Mc Neill Whistler

Escrito por Marcelo Coelho às 00h08

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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