A poesia de René Daumal
Este ano se comemora o centenário de René Daumal (1908-1944), poeta inspirado por Rimbaud, pela ingestão de uma variedade especialmente tóxica do clorofórmio, e pelos seus estudos do sânscrito; de seu livro “Le Contre-ciel”, extraio três poemas, no belo estilo funerário-negro que é sua especialidade.
A PELE DO MUNDO
Eu vou e volto perguntando sobre a vida,
e a imagem irreconhecível de mim mesmo,
este mundo de ar, de pedra, de casas, de luzes,
de milhões de rostos sem leis, sem vozes,
este cobre, esta madeira envernizada, estes suspiros, estes gritos,
giram, com as cores à flor da pele,
formas tocadas, comidas, onde estou?
(Não, não, isto não é uma adivinha,
ai, não é uma adivinha,
que seja aqui ou em outra parte,
não me reconheço mais.)
Ordem tão frágil da geometria,
não me ofereças mais as consolações de teu coração de ferro.
Nestes dias, eu vou pelos corredores e pelos sons misturados,
e vejo a noite nas mais vivas cores,
mundo, monstruoso fantasma,
o teu dia é a mais vazia das noites.
Uma voz diz: “Onde estou? quem sou eu?”
Será a minha voz no deserto?
A superfície de cada coisa
Está esticada pela noite que a faz inchar-se
--Ah, esta noite coberta pelos véus do sol!
Sim, esta fala dentro da bolha da ilusão,
esta fala perdida,
será para sempre só a minha.
PERDENDO OS SENTIDOS
Odre cheio de gritos
--gritos vermelhos do sangue escuro,
e gritos brancos das mãos descarnadas,
e clamor azulado sob os tetos calmos das frontes—
couro cheio dos rumores
com ecos de cidades subterrâneas,
quando irás estourar em soluços
dissolvendo o teu ser confuso?
Rios arrastando grandes membranas mortas,
películas brancas do sofrimento,
derramamento dos suores e das lágrimas,
em que boca ireis perder-vos,
para renascer em flores de fogo?
As ondas nebulosas e salgadas
das pálpebras que batem e das portas
que se abrem sozinhas sobre os campos da sombra,
vão e voltam,
ventres sonoros das minhas queixas,
sempre as mesmas, mudando sempre,
vozes vazias em redemoinhos largos.
Vazias, pálidas, eu não as compreendo mais,
essas grandes vozes brancas.
OS QUATRO TEMPOS CARDEAIS
A galinha negra da noite
acaba de pôr mais uma aurora.
Saúdo a clara, saúdo a gema,
Saúdo o germe que não se vê.
O senhor Meio-Dia, rei de um instante,
No alto do céu bate o gongo.
Saúdo o olho, saúdo os dentes,
saúdo a máscara que devora sem cessar.
Nas almofadas do horizonte,
a fruta vermelha da lembrança.
Saúdo o sol que sabe morrer,
sol, que queima nossa imundície.
Mas em silêncio eu saúdo a grande Meia-Noite,
A que não dorme quando os três se agitam.
Fechando os olhos eu a vejo sem nada ver além das trevas.
Tapando os ouvidos ouço seus passos que não se afastam nunca.

