meninos que detestam esportes

Meu filho maior, que está para completar seis anos, não tem nenhum gosto por esportes. Quem puxa aos seus não degenera... Mesmo assim, ele foi levado a umas aulas de natação, que lhe serviram bastante para se virar em piscinas que não dão pé. Empacou, todavia, quando começaram a lhe impor aquela bateção de pernas e de braços de ponta a ponta da piscina que nós, adultos, conhecemos bem.

 

Conduzi-o então a uma escolinha de esportes muito reputada, no Caoc: há desde exercícios com bola, jogos leves de corrida e de queimada, até rudimentos de ginástica olímpica. Meu filho assistiu a tudo agarrado no meu braço, ciente de que, por mais que eu dissesse, aquilo não era, obviamente, um programa legal.

 

Indicaram-me, então, aulas de ai-ki-dô. Estive lá com meu filho nesta segunda-feira.

 

Para começar pelo fim da história, ele adorou. Entregou-se às atividades de uma forma que eu, depois de ver sua resistência à escolinha de esportes, já não acreditava possível.

 

Mas tenho de falar mais do que vi lá, antes do que foi visto por meu filho. Uns cinco ou seis meninos, maiores e menores do que ele, estavam treinando quando chegamos. Faziam, em uníssono, de quimonos brancos, uma série de movimentos elementares, e ainda assim complexos. A impressão que tive foi marcante. Como ver tanta decisão, tanta altivez, tanta nobreza de olhar, em crianças assim frágeis, assim pequenas?

 

Minha vontade era de chorar só com isso, com essa harmonia, com essa imagem de virilidade que fosse ao mesmo tempo pura e graciosa.

 

Depois vieram as explicações do mestre: foram tantas, que numa só aula creio ter aprendido o bastante para um ano inteiro.

 

Em primeiro lugar, o lutador de ai-ki-dô deve apresentar-se ao adversário com a perna e o braço esquerdos avante. Sabe por quê? Por que o lado esquerdo é o mais frágil, o mais suave. E, segundo a ideologia do ai-ki-dô, a suavidade tem a primazia sobre a força.

 

Depois, o mestre (que não era japonês, era um jovem meio careca e quase gordinho, de óculos) explicou a origem do ai-ki-dô. Ao contrário do que se possa pensar, não se trata de uma “arte milenar”. Surgiu nos anos 50, quando o fascismo japonês já havia sido esmagado pelas bombas de Hiroxima. O seu idealizador, cujo nome não lembro, absorveu as lições da derrota na Segunda Guerra.

 

Aprendeu que é estupidez e morticínio querer destruir o adversário. Ao mesmo tempo, ele gostava de artes marciais. Tratou de inventar uma arte marcial que fosse voltada não para a guerra, mas para a paz. Todos os golpes do ai-ki-dô resultam da suavização de uma técnica que, levada para valer, pode quebrar a coluna vertebral do inimigo em mais de um ponto. “Não é preciso fazer isso”, diz o mestre para um grupo de crianças de oito ou nove anos. “Importa mostrar, apenas, do que somos capazes”.

 

Dali a pouco, ele ensinava como lidar com um inimigo que te agarra pelo antebraço e quer puxar você. “Se você ficar encanado no ponto em que ele te machuca, ele será vitorioso. Não resista à agressão dele. Aceite a agressão dele. Ela só atinge cinco por cento do seu corpo. Adote uma estratégia diferente. Aceite a força dele para puxá-lo em sua direção”. E, num passe de mágica, a força do agressor foi usada para levá-lo ao chão.

 

Sem que ninguém se machucasse. Um garoto de quatro anos conseguiu (claro que com ajuda pedagógica) derrubar outro de doze.

 

Meu filho ficou entusiasmado. Não sei se ele aprendeu tudo o que eu aprendi nesta segunda-feira. Mas, sem dúvida, dispõe de mais tempo do que eu.