No artigo de hoje para a Ilustrada, falei do trânsito paulistano e da possibilidade de ouvir CDs de literatura no carro. Recebo um e-mail simpático de uma editora de "audiobooks", que me passa este
link para quem quiser comprar seus livros. O catálogo ainda é pequeno, mas vale dar uma olhada.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h40
meninos que detestam esportes
Meu filho maior, que está para completar seis anos, não tem nenhum gosto por esportes. Quem puxa aos seus não degenera... Mesmo assim, ele foi levado a umas aulas de natação, que lhe serviram bastante para se virar em piscinas que não dão pé. Empacou, todavia, quando começaram a lhe impor aquela bateção de pernas e de braços de ponta a ponta da piscina que nós, adultos, conhecemos bem.
Conduzi-o então a uma escolinha de esportes muito reputada, no Caoc: há desde exercícios com bola, jogos leves de corrida e de queimada, até rudimentos de ginástica olímpica. Meu filho assistiu a tudo agarrado no meu braço, ciente de que, por mais que eu dissesse, aquilo não era, obviamente, um programa legal.
Indicaram-me, então, aulas de ai-ki-dô. Estive lá com meu filho nesta segunda-feira.
Para começar pelo fim da história, ele adorou. Entregou-se às atividades de uma forma que eu, depois de ver sua resistência à escolinha de esportes, já não acreditava possível.
Mas tenho de falar mais do que vi lá, antes do que foi visto por meu filho. Uns cinco ou seis meninos, maiores e menores do que ele, estavam treinando quando chegamos. Faziam, em uníssono, de quimonos brancos, uma série de movimentos elementares, e ainda assim complexos. A impressão que tive foi marcante. Como ver tanta decisão, tanta altivez, tanta nobreza de olhar, em crianças assim frágeis, assim pequenas?
Minha vontade era de chorar só com isso, com essa harmonia, com essa imagem de virilidade que fosse ao mesmo tempo pura e graciosa.
Depois vieram as explicações do mestre: foram tantas, que numa só aula creio ter aprendido o bastante para um ano inteiro.
Em primeiro lugar, o lutador de ai-ki-dô deve apresentar-se ao adversário com a perna e o braço esquerdos avante. Sabe por quê? Por que o lado esquerdo é o mais frágil, o mais suave. E, segundo a ideologia do ai-ki-dô, a suavidade tem a primazia sobre a força.
Depois, o mestre (que não era japonês, era um jovem meio careca e quase gordinho, de óculos) explicou a origem do ai-ki-dô. Ao contrário do que se possa pensar, não se trata de uma “arte milenar”. Surgiu nos anos 50, quando o fascismo japonês já havia sido esmagado pelas bombas de Hiroxima. O seu idealizador, cujo nome não lembro, absorveu as lições da derrota na Segunda Guerra.
Aprendeu que é estupidez e morticínio querer destruir o adversário. Ao mesmo tempo, ele gostava de artes marciais. Tratou de inventar uma arte marcial que fosse voltada não para a guerra, mas para a paz. Todos os golpes do ai-ki-dô resultam da suavização de uma técnica que, levada para valer, pode quebrar a coluna vertebral do inimigo em mais de um ponto. “Não é preciso fazer isso”, diz o mestre para um grupo de crianças de oito ou nove anos. “Importa mostrar, apenas, do que somos capazes”.
Dali a pouco, ele ensinava como lidar com um inimigo que te agarra pelo antebraço e quer puxar você. “Se você ficar encanado no ponto em que ele te machuca, ele será vitorioso. Não resista à agressão dele. Aceite a agressão dele. Ela só atinge cinco por cento do seu corpo. Adote uma estratégia diferente. Aceite a força dele para puxá-lo em sua direção”. E, num passe de mágica, a força do agressor foi usada para levá-lo ao chão.
Sem que ninguém se machucasse. Um garoto de quatro anos conseguiu (claro que com ajuda pedagógica) derrubar outro de doze.
Meu filho ficou entusiasmado. Não sei se ele aprendeu tudo o que eu aprendi nesta segunda-feira. Mas, sem dúvida, dispõe de mais tempo do que eu.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h33
Na linha das obscenidades publicitárias, acho muito mais grave um anúncio de carro que vi recentemente, e que não sei será objeto das decisões do Conar que comentei nos posts anteriores.
Trata-se de um automóvel que pode funcionar tanto no hidramático quanto no sistema de marchas convencional. O protagonista da história está dirigindo o carro. No banco do passageiro, um amigo rói-se de inveja.
A direção é hidramática, e o motorista não precisa mudar de marcha. O amigo no banco do lado expressa suas dúvidas. Onde estaria a emoção no ato másculo de mudar de marcha?
Um anjinho e um demônio aparecem sobre os ombros do feliz proprietário do carro novo. “Mosta pra ele, mostra”, diz o demônio. Naturalmente, o motorista mostra. Muda a marcha quando quer.
O amigo, no banco ao lado, não se satisfaz. “quero ver ele mexer no rádio sem largar da direção”. O motorista se mostra capaz disso, também, e seu diabinho particular ri abertamente, enquanto o amigo, derrotado, se afunda no banco.
Que dizer desse anúncio? Em princípio, está em curso uma dupla infidelidade. A do motorista com o amigo, certamente. A do próprio carro, que não é simplesmente hidramático, mas pode voltar ao antigo sistema de marchas se quiser.
Trata-se, subliminarmente, de eliminar qualquer fidelidade: a do motorista com seu carro antigo, a do personagem com seu amigo. Pressupõe-se em toda amizade uma disputa a ser vencida, como no modelo da concorrência comercial. Não sei se o Conar vai vetar uma coisa dessas.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h00
Um último exemplo de patrulhamento (não sou de usar esse termo, mas aqui se justifica) contra publicitários. Aqui, o Conar tomou a decisão sensata. Mas vale a pena inteirar-se da mentalidade que orientou a reclamação.
Anúncio de mídia externa do Departamento Estadual de Trânsito do Rio de Janeiro traz a mensagem “André Alves. Recém-formado em engenharia, ganhou do pai um carro de presente. Da garrafa de vodca que bebeu antes de dirigir, ganhou essa cadeira de rodas”.
O anúncio foi objeto de reclamação do IBDD –Instituto Brasileiro de Pessoas com Deficiência.
De acordo com a queixa, a maneira com que o anúncio é apresentado reforça alguns estereótipos sobre pessoas com deficiência, apresentando a condição como uma ameaça e sugerindo que a pior coisa que pode acontecer ao indivíduo é passar a ser usuário de cadeira de rodas.
A defesa nega que seu anúncio seja preconceituoso, esclarecendo que ele faz parte de uma campanha de educação de trânsito, e pede o arquivamento da representação.
O relator concordou com a defesa, não vendo irregularidades na peça. O arquivamento foi acordado unanimemente pelos membros do Conselho de Ética.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h23
Uma terceira decisão do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária que me deixa um pouco assustado. O Conar decidiu sustar um anúncio da Coca-Cola Zero, conforme a exposição abaixo.
Um casal troca beijos no interior de um carro, em um ambiente que se assemelha aos antigos “drive-in”. O rapaz solta o sutiã da moça e –surpresa!—caem no banco do carro duas garrafas de Coca-Cola Zero. Em seguida, o rapaz bebe das duas garrafas de refrigerante, mostrando sua satisfação. A cena foi questionada pela Ambev, que julgou que o comercial extrapola os padrões de decência, especialmente considerando que o público-alvo do produto envolve crianças e adolescentes.
A defesa alega que o apelo utilizado no comercial afasta qualquer viés de imoralidade, passando uma imagem repleta de bom humor.
Ao recomendar a reforma da decisão de primeira instância, que decidiu pelo arquivamento da representação, a relatora do recurso ordinário ponderou que o comercial é de fato bem-humorado e alegre, mas não deixa dúvidas de que induz o pensamento e a imaginação a uma seara libidinosa. A sustação da peça foi aceita por maioria de votos.
Bom, não sei de que jeito o rapaz bebeu “das duas garrafas”, mas poderíamos argumentar que o comercial justamente afasta o espectador de qualquer “seara libidinosa”, mostrando que é preferível tomar coca-cola a prosseguir na convivência com a namorada dentro do carro.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h13
Mais um anúncio que, conforme resolução do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária, terminou saindo do ar. É um comercial da Peugeot.
A peça mostra um carro com dificuldades para subir uma ladeira e, para compensar a falta de potência do motor, o casal nos bancos da frente começa a aliviar o peso do veículo, jogando objetos para fora da janela. Essa cena foi questionada pelo diretor executivo do Conar e por mais de uma centena de consumidores, já que a prática de jogar objetos na via pública fere o Código de Trânsito Brasileiro e é contrária à preservação do meio ambiente.
Em seu recurso, a defesa afirma que o desempenho de qualquer carro é influenciado pelo seu peso e que a intenção da mensagem é ressaltar que, com o Peugeot 206, não há necessidade de o consumidor deixar o carro vazio para manter a potência desejada. Reforça que a linguagem da peça é bem-humorada e claramente ficcional e que o anúncio é dirigido ao público adulto, que sabe perfeitamente distinguir ficção da realidade.
Por maioria de votos, os membros do Conselho de Ética mantiveram a decisão de primeira instância pela sustação do comercial, entendendo que a peça é deseducativa e incentiva o desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro, além de exibir atitude ecologicamente não recomendável.
É, talvez a defesa dos anunciantes seja mesmo inadequada: o público, mesmo adulto, não sabe distinguir realidade de ficção. Não é outro o pressuposto, no fundo, de toda atividade publicitária, para a qual, no fim das contas, a diferença entre adulto e criança não é das mais consideráveis.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h04
Não tenho simpatia pelo universo da publicidade, e acho que faltam ainda muitos controles sobre os anúncios de TV.
Apesar de uma muito divulgada iniciativa para auto-regulamentar a publicidade dirigida a crianças, por exemplo, o que vejo nos canais infantis de TV a cabo continua sendo uma espécie de massacre.
Pelo que vejo, só se coibiu o apelo direto, do tipo “peça logo para o papai”. As técnicas usuais da publicidade, que até com adultos têm um poder terrível, continuam entretanto aplicadas intensamente nas crianças.
Mas há também o outro lado. Não é pequeno o número dos chatos que reclamam sem razão dos anúncios mais diversos. Pode-se ver uma boa série de exemplos disso no Boletim do Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária), publicação mensal que recebo e sempre me diverte. Eis alguns exemplos de resoluções tomadas pelo conselho.
Diversos consumidores protestaram junto ao Conar contra anúncio de rádio da Skol, alegando que a peça estimula maus-tratos contra os animais. No anúncio, vários amigos chegam para um churrasco e começam a se perguntar quem trouxe a carne, no que todos respondem que trouxeram apenas a cerveja. Ouve-se um miado de gato, um dos amigos diz em tom bem-humorado que o “filé miau está garantido” e na seqüência ouve-se barulho de panelas.
Em primeira instância, a decisão pelo arquivamento da representação foi unânime, o que gerou recurso oferecido pela Associação Protetora dos Animais Oito Vidas.
Para a defesa, é nítido o tom humorístico do spot, pois a expressão “churrasquinho de gato” já foi incorporada ao vocabulário usual brasileiro como um churrasco de carne de segunda, e não do animal propriamente dito.
Em decisão unânime, os membros do Conselho de Ética reformaram o acórdão de primeira instância, votando pela sustação da peça por entender que a anunciante não leva em conta a sensibilidade de pessoas que dedicam afeto especial a bichos de estimação e tampouco atenta para as mais recentes tendências internacionais de busca de proteção de animais.
Os gatos podem, então, erguer um brinde à decisão do Conar. Quanto ao publicitário, coitado, que fez peça tão inocente, que trate de afogar as mágoas na cerveja.

Ataque de gatos numa HQ da Marvel
Escrito por Marcelo Coelho às 23h44
No site The Writer's Almanac, é possível inscrever-se para receber poemas diariamente, lidos em voz alta pelo locutor Garrison Kellor. Hoje veio um bem bonito de
Marge Piercy, publicado em seu livro The Crooked Inheritance, de 2006.
Rastros
Os passarinhos deixam mensagens
cuneiformes sobre a neve: estive
aqui, estou com fome, preciso
comer. Do lugar em que joguei
sementes eles raspam as cascas
de pinhão e grãos gelados de areia.
Às vezes quando a neve cintila
atrás da janela, põe as árvores
e arbustos em surdina, cobre
o caminho, os gaios batem com seus bicos
na vidraça do meu quarto:
para eles eu sou feita de sementes.
Para os gatos eu sou amante e mãe,
brinquedo e colo, cozinheira e faxineira,
Para os coiotes sou alarme e caçadora.
Para os corvos, vigia, protetora.
Para os gambás, raposas e marmotas
uma sombra passageira, o vento de um instante.
Fui para um homem múmia malvada e vigilante.
Para outro eu era uma irmã que perdoa sempre,
cujas mãos derramavam mel e aloé;
para aquela mulher fui uma tempestade, cujas
ondas violentas ameaçavam seus alicerces; para outra,
um carvalho onde se apoiava sua videira em flor.
Usei os rostos, as máscaras,
de hieroglifos, deuses e demônios,
fantasmas com cara de morcego, ladra e sibila,
amante, perdedora, rosa vermelha e erva inútil,
esses foram os rastros que eu deixei
sobre a crosta branca do tempo.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h03
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