correrias de assustar

Uff! Até que enfim consigo postar alguma coisa por aqui. Foi uma semana meio impossível para mim. Começou com uma palestra que tive de fazer no sábado passado, sobre o velho tema do texto no jornalismo cultural. Velhas anotações e velhos exemplos eu não tive coragem de ressuscitar. Fiz uma mistura, que depois tento resumir.

 

Veio depois uma participação (será a última) no programa Entrelinhas, da TV Cultura, cujo texto só na última hora consegui escrever. Já no mês passado eu tinha “fraquejado” um pouco no meu trabalho junto a esse programa, porque pedi para não mais aparecer eu mesmo na gravação. Só a voz em off já basta, porque o pessoal de lá é excelente em achar imagens que ilustrem o comentário que faço. Fazem um grande programa de literatura, e dá pena de sair, mas era o tipo de coisa que, embora feita uma vez por mês apenas, parece que você acabou de preparar uma e já estão te telefonando para fazer a próxima. Falei sobre uma coletânea de depoimentos a respeito de Mário de Andrade; logo mais cito alguma coisa.

 

Teve também uma resenha do livro “Crônicas Inéditas, vol. 1”, de Manuel Bandeira, a sair na Ilustrada deste sábado.

 

Troca de carro, troca de máquina de lavar, troca de ferro elétrico. Pega e busca criança, compra presente de festinha.

 

E por fim, na madrugada de ontem, quatro horas no pronto-socorro com meu filho menor, que acordou às duas da manhã com uma tosse ensurdecedora –parecia um carro de bombeiros. Ele já tinha tido isso aos dez meses. Nunca sei se é laringite ou faringite, e se é estridulosa, estrepitosa ou coisa parecida, mas merece o nome, porque é um barulhão inacreditável. O risco, que fiquei sabendo na primeira vez que isso aconteceu, é haver um fechamento da glote (ou da epiglote?), sufocando a criança. De modo que (vi isso num filme de Atom Egoyan), se o hospital for longe, o pai tem de levar consigo um canivete ou uma caneta Bic para furar a garganta da criança, numa traqueostomia a frio, para permitir sua respiração.

 

Escrevo tudo com espírito leve, porque o atendimento foi rapidíssimo, meu filho não precisou ser internado, e só permaneceu tanto tempo no hospital porque tinha de ficar sob observação. E principalmente porque, no meio de mais uma fase dificílima de birras e agressões, ele se portou de forma admirável. Houve apenas o choro básico da injeção, a resistência conhecida face ao aparelho de inalar oxigênio, mas o tempo todo uma calma, uma disponibilidade, que atribuo apenas ao fato de se sentir “dono” do pai naquela madrugada, sem ter de compartilhá-lo com ninguém. Devo dizer que correspondi ao desejado, e consegui inventar um brinquedo que recomendo para salas de espera.

 

Havia ali, como em todo lugar, um filtro de água com copinhos de plástico (melhor usar os pequenos, de café), e uma pia com aquelas toalhas de papel que, dizem, são suficientes para enxugar perfeitamente a sua mão. A idéia foi pegar duas ou três dessas toalhas, enrolando-as numa forma vagamente aparentada a uma pirâmide, e colocar o copinho branco de plástico no cume da pirâmide; estava pronto um fantasma de brinquedo.

 

Com uma caneta, desenhei dois olhos e uma boca assustadora no copinho. Depois, girando o copinho, desenhei uma cara feliz. A própria caneta, enfiada no interior do “lençol” do fantasma, pode ajudar na movimentação do boneco, e servir também como falsa seringa, aplicando uma injeção capaz de transformar o fantasma feroz num fantasma feliz. A mágica, aparentemente, deu certo.