Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Pausa

Pensei que ia ter tempo, mas não deu para postar nada aqui. Nesta terça viajo para o Rio, e na quarta, para Belo Horizonte, com a famosa palestra sobre amizade. Quem quiser acessar, a palestra será transmitida ao vivo na terça, às 19h, pelo site da ABL. Na quinta eu volto, não sei se em condições psicológicas de postar alguma coisa. Não fico nervoso na hora de falar, mas a antecipação do evento é sempre desastrosa.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h01

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Primeiro casamento

Primeiro casamento

A babá de meus filhos casou-se neste sábado, só no civil, e fomos convidados para o almoço de comemoração. Há vários dias as crianças entregavam-se a muita expectativa e excitação, creio que principalmente devido às roupas especiais –paletozinho, etc.—que queriam exibir na festa.

 

Dormiram durante o longo trajeto de carro, e comportaram-se de modo mais ou menos normal, eu acho: certo estranhamento diante da quantidade de convidados, muita euforia ao ver a babá vestida de noiva, certo sucesso em roubar, por alguns minutos, o foco geral das atenções. Meu filho de 4 anos não se conformava de que um bolo pudesse ser cortado sem parabéns nem velinhas; quanto ao mais, ele e seu irmão maior (6 anos) comeram, brincaram, conversaram.

 

Prestei atenção no momento em que foram apresentados ao noivo; conheciam-no apenas de fotografia. Nenhuma emoção especial, nenhuma hostilidade, nenhum ciúme.

 

Lembro que também tinha seis anos quando minha babá se casou. O noivo, que trabalhava num bar, fizera um cuidadoso trabalho de aproximação comigo: sempre que aparecia em casa trazia uma ou outra guloseima; incumbido de carregar as alianças até o altar no dia do casamento, creio que dei conta do recado. Sabia que estava me separando da minha babá, que ela deixaria de morar comigo, mas bem ou mal eu sabia, também, que deveria conformar-me com o fato; a tristeza que sem dúvida eu estava sentindo foi controlada.

 

A babá dos meus filhos não deixará de trabalhar conosco, mas seguirá outros horários e agendas. Tudo ia bem, portanto, durante a festa. Mas quando chegou a hora de voltarmos para casa, meu filho maior disse que queria ir junto com a babá e o noivo para a viagem de lua-de-mel ao litoral. Sentei-o no meu colo, expliquei-lhe o que era lua-de-mel, citando até a clássica frase de cinema dos noivos que, ao fechar a porta do quarto, dizem “enfim, sós!”

 

Um choro manso, ou nem isso, só dois olhos marejados, foram sua resposta. Dali a pouco, estava tudo provisoriamente superado: alguém convidava-o, e ao irmão, para um passeio de moto. A novidade da aventura virou rapidamente aquele capítulo de perdas. Mas todo capítulo de perdas é um capítulo de ganhos também. Vi que meu filho não mais esperneava, mostrava mau-humor, inventava exigências absurdas para compensar sua frustração. É que ele estava às voltas com uma frustração mais funda, das que calam e se interiorizam; passou da idade das “reações emocionais” para aquela em que brotam, com a timidez de olhos úmidos, os sentimentos mais íntimos da gente; não responde mais com os nervos, mas com o coração. Vi nele repetir-se o que aconteceu, há muito tempo, comigo: a primeira página desse longo romance que cada um escreve sem palavras, e de que Flaubert roubou o título para sua “Educação Sentimental”.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h11

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Apocalipse motorizado

Apocalipse motorizado

Escrevi há uns bons anos sobre Apocalipse Motorizado, de Ned Ludd: um conjunto de textos persuasivos e magnéticos contra o uso do automóvel. A tendência para aderir aos movimentos pró-bicicleta ou dia sem carro só aumenta com o trânsito de São Paulo e as ameaças de aquecimento global. O livro, editado pela Conrad, foi agora posto gratuitamente para download no site da editora.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h07

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Lula of Brazil

Lula of Brazil

Não tinha ouvido falar do inglês Richard Bourne, que faz parte, pelo que leio na internet, de um instituto de "commonwealth studies" em Kensington. Saiu dele, nos Estados Unidos, uma biografia publicada na University of California Press, Lula of Brazil-- The Story so far. Trechos do livro podem ser lidos na Amazon. Do que espiei, o tom é amplamente favorável, do tipo: "em três anos de governo, Lula fez mais viagens ao Exterior do que Fernando Henrique em quatro". Ah. Um capítulo é dedicado às dificuldades com o mensalão. Não é o tipo de livro que eu encomendaria na Amazon, mas fica o registro.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h44

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Adalgisa Nery

 

Este é o texto integral do poema de Adalgisa Nery que citei no artigo de hoje, sobre internet, Google Earth e vizinhanças.

 

 

A POESIA SE ESFREGA NOS SERES E NAS COUSAS

 

 

Nunca sentiste uma força melodiosa

Cercando tudo o que teus olhos vêem,

Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa

Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?

Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas

Deparando com um campo devoluto

Semelhante a uma virgem esquecida?

Num circo, nunca se apoderou de ti um amargor sutil

Vendo animais amestrados

E logo depois te mostrarem

Seres humanos imitando um réptil?

Nunca reparaste na beleza de uma estrada

Cortando as carnes do solo

Para unir carinhosamente

Todos os homens, de um a outro pólo?

Nunca te empolgastes diante de um avião

Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,

Ou de qualquer outra invenção?

Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia

Ao mistério da noite,

Na extensão da tua dor

E na delícia de tua alegria?

Pois então faz de teus olhos o cume da mais alta montanha

Para que vejas com toda a amplitude

A grandeza infindável da poesia que não percebes

E que é tamanha!

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h15

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Adalgisa Nery

 

Este é o texto integral do poema de Adalgisa Nery que citei no artigo de hoje, sobre internet, Google Earth e vizinhanças.

 

 

A POESIA SE ESFREGA NOS SERES E NAS COUSAS

 

 

Nunca sentiste uma força melodiosa

Cercando tudo o que teus olhos vêem,

Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa

Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?

Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas

Deparando com um campo devoluto

Semelhante a uma virgem esquecida?

Num circo, nunca se apoderou de ti um amargor sutil

Vendo animais amestrados

E logo depois te mostrarem

Seres humanos imitando um réptil?

Nunca reparaste na beleza de uma estrada

Cortando as carnes do solo

Para unir carinhosamente

Todos os homens, de um a outro pólo?

Nunca te empolgastes diante de um avião

Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,

Ou de qualquer outra invenção?

Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia

Ao mistério da noite,

Na extensão da tua dor

E na delícia de tua alegria?

Pois então faz de teus olhos o cume da mais alta montanha

Para que vejas com toda a amplitude

A grandeza infindável da poesia que não percebes

E que é tamanha!

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h14

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"Foram eles"

Quem vê a capa da revista “Veja” desta semana lê primeiro a frase, em letras enormes: FORAM ELES. Em seguida, se ainda estiver olhando a primeira página e não tiver corrido para ler a matéria interna, encontrará escrito em amarelo, em tamanho bem menor: “Para a polícia, não há mais dúvidas sobre a morte de Isabella”.

 

É uma forma ruim e perigosa de fazer jornalismo. “Veja” parece endossar a acusação da polícia, enquanto se registra uma fúria popular desenfreada contra o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá.

 

Certo, não há nenhum indício de uma “terceira pessoa” no caso. Ainda que sejam de 99% as possibilidades de eles terem matado a pequena Isabella, o 1% que resta possui, a meu ver, um peso equivalente se quisermos evitar mais uma injustiça jornalística do gênero Escola Base ou Bar Bodega.

 

Se a revista dispusesse de alguma informação exclusiva que, em tese, encerrasse defintivamente as dúvidas sobre o caso, poderia investir com mais autoridade nesse tipo de enfoque. Não custava adotar um mínimo de sobriedade nessa cobertura.

 

Não acredito que seja apenas para “vender revista” no sentido mais primário da expressão, corrente nos que acusam o sensacionalismo da imprensa em geral.

 

Acho que “Veja” quer, mais uma vez, poupar do leitor o trabalho da dúvida –e assumir, por si mesma, a missão de guiar a opinião pública naquilo que acha certo. Editorializar um escândalo político ainda vai. Mas um caso de crime familiar já envolve atitudes que nem mesmo a ideologia e o partidarismo explicam.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h16

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mais para filósofos

mais para filósofos

http://www.paris4philo.org/

Heidegger declamando poemas de Hoelderlin? Gravações de entrevistas e palestras de gente como Lévi-Strauss? É no link aí em cima.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h03

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Blog humilhante

Blog humilhante

http://fish.blogs.nytimes.com/

Imperdível o blog do filósofo Stanley Fish no "NY Times". Em dois longos posts, a propósito de um livro que já foi traduzido no Brasil ("Filosofia Francesa", de François Custet), ele explica da maneira mais clara e razoável do mundo o que representam as teorias da desconstrução, Derrida, essa coisa toda. E faz um belo comentário sobre a morte de Charlton Heston também.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h44

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Clarice é pop?

Clarice é pop?

Clarice Lispector conta com grande número de leitores entre jovens e adolescentes. Faz sucesso na blogosfera. Era bonita e suas fotos, mais do que isso, têm aquele charme das grandes artistas de cinema do passado.

 

Se isso basta para torná-la “pop”, tudo bem. Foi com esse título que apareceu uma reportagem na “Ilustrada” de sábado, tomando como gancho uma fotobiografia de Clarice, organizada por Nádia Battela Gotlib. Mas esse livro, de capa dura, com 651 páginas, das quais cerca de 170 são dedicadas a notas de pesquisa contextualizando e datando cada uma das imagens publicadas, está longe de ser um álbum de fã-clube. 

 

Ferreira Gullar, entrevistado na matéria da “Ilustrada”, diz: “Não por acaso se faz um álbum assim com Clarice. É justamente porque ela é uma mulher bonita e misteriosa.”

Claro que beleza e mistério ajudam. Mas já houve, há tempos, um álbum parecido, em formato maior, dedicado a Manuel Bandeira. Na França, a coleção da Pléiade produz álbuns sobre autores tão diversos quanto Rimbaud (pop, bonito, misterioso) e Maupassant (o contrário disso tudo). O Instituto Moreira Salle faz publicações parecidas, em papel couché e cobertas de fotos, sobre autores como Guimarães Rosa, Raduan Nassar e Ignácio de Loyola Brandão. Não ficaram mais ou menos pop por causa disso.

 

Abrindo a fotobiografia de Clarice Lispector, o que mais impressiona não são as fotos da autora, mas a quantidade de pesquisa sobre os lugares de onde veio e por onde passou. Salta à vista, em primeiro lugar, o abrasileiramento de sua família.

 

Tudo começa numa cidadezinha da Ucrânia, e seguimos todo o percurso dos pais de Clarice até chegar ao Nordeste brasileiro. Vemos casas tortas e caídas de judeus entre os pinheiros de Tchechelnik, que lembram os quadros de Vlaminck e de Chagall; ruas apinhadas na Moldávia, cavalarias de cossacos, carroças em Budapeste.

 

E logo depois, inundada de sol, uma praça de Maceió onde o tio de Clarice tinha uma fábrica de sabão. Primos e irmãs posam para as fotos de braços de fora. Uma foto de Clarice aos dez anos, de vestidinho preto pela morte da mãe, cabelo curto, apoiada na mureta de um chafariz, mostra-nos a futura escritora sem nenhum mistério, com aquele tipo de olhar fundo de criança antiga, amorenada, modesta, brasileiríssima: Clarice podia passar por uma irmã menor de Rachel de Queiroz. Outra foto, com o primo Anatólio Rabin, em 1930: é uma pequena alagoana triste e enfezada.  

 

Passam-se os anos, e os capítulos seguintes mostram todo o circuito internacional  elegante em que Clarice acompanhava seu marido, o diplomata Maury Valente. Na verdade, ela só surge em toda a sua beleza depois do primeiro filho, e depois de separar-se do marido. Este, aliás, é a figura realmente misteriosa do casal: sempre com a mesma cara, a mesma expressão de coisa nenhuma...

 

Junto vão dezenas de fotos dos manuscritos da autora, das capas dos livros que leu e que escreveu. É documentação pura, cheia de curiosidades nada “pop”, como por exemplo uma foto antiquíssima dos mineiros Otto Lara Resende (de bigode), Paulo Mendes Campos (aparentando menos de 15 anos...) e outros registros raros, como de um Santiago Dantas na flor da mocidade.

 

O leitor sem dúvida é movido pela curiosidade algo mexeriqueira de saber como era a cara do marido ou em que tipo de casa Clarice vivia. Mas é o que se pode dizer de qualquer obra biográfica; o que temos aqui, mais do que oba-oba e idolatria, é documentação. Se isso virou pop, ótimo para o pop.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h34

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Aimé Césaire (2)

Procurei mais coisas de Aimé Césaire para postar aqui, mas pela internet não encontrei muita coisa. O blog de Luís Favre tem vários comentários sobre as posições políticas do poeta (que foi comunista até 1956, optando depois pela luta anticolonialista independente dos povos negros). O site aimécesaire ponto-org é inútil (e lentíssimo) para quem procura textos originais do poeta.

 

Procurando nas antologias de poesia francesa que tenho em casa, topei com um punhado de poemas, todos difíceis de traduzir (muitos termos locais de fauna e flora) e, principalmente, típicos daquela imagética surrealista que raras vezes, para dizer a verdade, me convence. Acontece que o surrealismo de Césaire está impregnado da realidade negra e da paisagem da Martinica, onde ele nasceu (e de cuja capital foi prefeito por mais de 50 –cinqüenta—anos).

 

Aimé Césaire não nasceu na capital de seu país, mas sim numa pequena cidade, Basse Pointe, no sopé de um vulcão, o Mont Pelé. Esse ‘monte pelado’ ficou famoso em 1902, quando uma erupção gigantesca fez dezenas de milhares de vítimas. Além disso, causou pânico nos animais da floresta, que invadiram enlouquecidos as cidades: lagartos, cobras, amontoavam-se pelas ruas. Talvez a informação seja de ajuda para entender o poema que me arrisco mal e mal a traduzir. “Anolis”, palavra estranha que mantive no texto, é um gênero de lagartos.

 

SOL SERPENTE

 

 

Sol serpente olho a fascinar meu olho

e o mar empiolhado de ilhas estalando nos dedos das rosas lança-chamas e meu corpo     intacto de fulminado

A água sacia as carcaças de luz perdidas no corredor sem bombeiros

os turbilhões de granizo aureolam o coração fumegante dos corvos

nossos corações

são a voz dos relâmpagos aprisionados girando sobre seus gonzos de lagarta

transmissão de anolis na paisagem de vidros quebrados

são as flores-vampiro subindo no turno das orquídeas

elixir do fogo central

fogo justo mangueira da noite coberta de abelhas

meu desejo um acaso de tigres surpreendidos nos enxofres

mas o despertar de estanho se doura de jazidas infantis

e meu corpo de calhau comendo peixe comendo pomba e sono

o açúcar da palavra Brasil no fundo do charco

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h50

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Aimé Césaire

Aimé Césaire

http://www.salamalandro.redezero.org/aime-cesaire/

Um dos poetas fundamentais da "negritude", ao lado de Léopold Sédar Senghor, Aimé Césaire morreu nesta semana, aos 95 anos. No link para o ótimo blog de poesia Salamandro, a tradução de um poema seu.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h00

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voltaire de souza

Algumas crônicas publicadas no "Agora" desta semana.

 

PODERES DE UMA CUECA

 

 

Consumir mais é desejo de todos. Para Valdete, era uma terapia.

--Luxo não mata ninguém.

A vida sem graça. A rotina no casamento.

--Não sei... o Renato parece que não quer mais saber de mim...

Veio a notícia inusitada.

Os bens de um famoso traficante estavam à venda num bazar.

Relógios. Cafeteiras. Sapatos. Cuecas. Calcinhas.

Tudo a preços de liquidação.

Valdete foi das primeiras a aproveitar o saldão da cocaína.

--Uma calcinha para mim... e uma cueca para o Renato.

O marido gostou das peças íntimas. Em pouco tempo, seu comportamento mudou.

--Vem cá, sua cachorra. Sua safada.

Começou a adotar um excitante sotaque castelhano.

--Te quiero. Y si no me amares, yo te mato.

Valdete estava achando interessante. Mas mudou de idéia.

Numa crise de ciúmes, Renato abateu-a a tiros de escopeta.

O rapaz segue em fuga para Medellín.

A alma de um homem é como uma cueca. Por vezes, pode ser virada do avesso.  

 

SUQUINHO E CAFUNÉ

 

Praias. Natureza. Aventura. O turismo deve ser incentivado em nosso país.

O americano Norton adorava o Brasil.

--A sensualidááádji. As mul-yéérs.

Ele estava hospedado num charmoso hotel de praia.

--Um vélyu caul-çáum di bányu.... a táárdj prwa vah-diyar...

Ao seu lado, a bela morena Talytta oferecia sucos e encantos.

--Olha, Norton... o sol está se pondo... vamos dar um mergulho no mar?

Norton não queria.

--Ishtou com uma pry-guííç...

A rede balançava suavemente.

--Uma molêêuz...

--Puxa, Norton... acho que você está ouvindo muito Dorival Caymmi.

--Faish um cafyunééý...

Veio em seguida um beijo ardente. Não era paixão. Não era Caymmi.

No hospital, o diagnóstico veio na hora.

Dengue. Com direito a muito suquinho e cafuné.

O amor sobrevive a tudo.

Mas as flechas de Cupido muitas vezes não passam de uma picada de mosquito.

 

 

DETALHES EM METAL

 

Consumir é desejo de todos.

O sonho de Cynara era adquirir uma bolsa de grife.

--Autêntica. De verdade.

A notícia inusitada chegou rapidamente a seus ouvidos.

Os bens de um conhecido traficante de drogas seriam postos à venda.

--Nossa. Mais barato que liqüidação.

Seu Fiesta cor de chumbo rumou rapidamente para o local do bazar.

--Ofertas de arrasar. Queima total.

Depois de muita luta, Cynara saiu com um troféu.

Uma bolsa tipo bauzinho. Forro acetinado. Detalhes em metal.

A caminho de casa, uma surpresa no sinal vermelho.

O menor carente Xaveco tinha um 38 na mão. E fazia exigências.

--Passa a bolsa para cá.

A revolta de Cynara foi imediata.

--A bolsa de um megatraficante. Passar para esse pé-de-chinelo. Absurdo.

Sua resistência teve resposta rápida. Três tiros. Queima total.

O marido já encomendou o caixão. Tipo bauzinho. Forro acetinado. Detalhes em metal.

O luxo, como a morte, nem sempre chega na hora certa.

 

O MUNDO É GRANDE

 

A vida na cidade grande é rica em sensações.

Wagner tinha acabado de se aposentar.

--Mas sempre encontro o que fazer.

A família tinha dado para ele um celular com câmera fotográfica.

--Beleza. O mundo é grande.

Primeiro, foi o bazar do traficante Abadia.

--Vamos lá. Testemunha ocular da história.

Depois, a Mulher Melancia apareceu no Ceagesp.

--Testemunha ocular da gostosura.

Veio então a notícia.

O pai e a madrasta da menina Isabella reencontram a liberdade.

Wagner resolveu rumar para lá.

Seu Chevette 88 acelerou pelas ruas da cidade.

Os olhos curiosos de Wagner deixaram de ver uma coisa.

A kombi desgovernada que descia uma ladeira em sentido contrário.

O corpo do aposentado é retirado com dificuldade das ferragens.

Diante dos olhares de muita gente. Que também tira foto com celular.

Fotos e fatos são importantes. Mas não se pode ficar desatento ao contexto geral.

  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h29

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Casamento gay: a pré-história

Muito antes de se falar em união civil entre homossexuais, e antes mesmo que as suspeitas a respeito da orientação sexual de A ou B se generalizassem no cotidiano e nas conversas, uma forma de sacramentar a ligação entre pessoas do mesmo sexo era comum no âmbito do culto cristão.

É o que leio em The Philosophy of Friendship, de Mark Vernon, doutor em Filosofia e ex-sacerdote anglicano. Vernon conta, por exemplo, que na igreja dos Dominicanos em Constantinopla pode-se ver o túmulo de Sir William Neville e de Sir John Clanvowe.

Os dois morreram em 1391 e foram enterrados juntos. Dois elmos de cavalaria estão sobre o túmulo, como se unidos num beijo. Isso, na época, era sinal de que ambos eram “irmãos jurados”. O beijo dos elmos representa o “beijo da paz” trocado na missa, antes da comunhão. Esse tipo de beijo marcava uma conexão divinamente sancionada entre dois amigos. Ou amigas: Anne Lister e Ann Walker trocaram esse beijo, na Páscoa de 1834, rezando para terem “uma união feliz”, que “fosse tão boa como um casamento”.

Na capela do Christ’s College, de Cambridge, há um túmulo compartilhado por John Finch e Thomas Baines, datado de 1682. Tem uma inscrição.

"Para que aqueles que durante a vida fundiram seus interesses, fortunas, conselhos, e mesmo almas, possam do mesmo modo, na morte, ao menos fundir suas sagradas cinzas."

Questões de herança, aposentadoria e plano de saúde não estavam previstas. Quanto ao resto da vida terrena, não se sabe.

Mais sobre o assunto pode ser encontrado no livro The Friend, de Alan Bray (Chicago, 2003).

Túmulo de John Finch e Thomas Baines em Oxford

Escrito por Marcelo Coelho às 23h59

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imagens contra Pequim

São meio fraquinhas, e não tão fáceis de achar na web quanto eu pensava, os anti-logotipos de organizações de direitos humanos a respeito das Olimpíadas de Pequim. Os interesses comerciais e a vontade geral do público, nessas horas, fazem vista grossa aos antipaticíssimos, para dizer o menos, governantes chineses. Não sei se o boicote seria a melhor maneira de estimular um pouco mais de abertura política na China, ou se, ao contrário, a própria realização dos jogos ajuda nisso. Pesa no meu julgamento o desinteresse pela competição, pelas "esperanças brasileiras" no tiro ao alvo (alguém do Bope concorre?), na natação e coisas do gênero. Gosto quando a corrida da tocha olímpica tropeça nos ativistas. Em todo caso, é uma torcida entre outras. Alguns anti-logos:

 

este último apareceu num site que publica relatórios sobre o trabalho infantil na China, com destaque para as fábricas que produzem artigos licenciados dos Jogos.

Há também a camiseta com a imagem clássica, que pode ser comprada no site dos Repórteres Sem Fronteiras:

Escrito por Marcelo Coelho às 14h11

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Poemas de separação

Poemas de separação

Muitos poemas no final de  A fúria da beleza, livro de Elisa Lucinda que já comentei aqui, tratam da separação amorosa. Seleciono alguns trechos.

 

PEDIDO DE AMOR

 

Cuide de nós, meu amor.

 

(...)

 

Cuide de nosso amor,

antúrio, avenca, samambaia,

Polvilhe teus elegantes dedos

nas primaveras das plantas de nossas casas.

Essas que existem na minha e na tua rua,

e essa perene que brilha entre as duas.

Aquela primavera-cigana que se estabelece nas estações,

se instala em todas as pousadas, quartos e cafundós,

se espalha em todos os chalés

e vai do hotel aeroporto, passa na Broadway, Cabo Verde,

Canadá, até o reino de Itaúnas.

Cuide comigo das nossas dunas

onde brincam e crescem nossos meninos,

para que vença o amor,

para que triunfe o melhor sentimento.

 

Porque não é de vento nossa estrada,

embora voe.

Nem é de mentira nossa dor,

embora perdoe.

 

Acho tão bonitos o final, a idéia de um amor abandonado de que se precisa cuidar, a imagem de uma planta vivendo entre duas casas, que não faz mal se há alguns versos dispensáveis (“para que vença o amor” e esse terrível “polvilhe teus elegantes dedos”).

 

Este também é muito bonito:

 

REBANHO PERDIDO NO PARAÍSO

 

Sem você a vida não é que seja exatamente ruim,

mas é que fica manca e puxa de uma perna toda beleza.

Então é surda ela de um ouvido

ou, o que não duvido, é cega dos óio.

(...)

Eu choro, por dentro, nas confeitarias,

choro nos balcões de caldo de cana e também nos balcões de poesia.

Tantos perdões te ofereci,

muitas compreensões te ofertei,

canções que cantei sem alarde nos banheiros em seu nome!

Tolerâncias-rebanho pus no altar de nossas oferendas

e agora, passeiam sem agendas nossos sonhos.

Gados sem vaqueiro percorrem o escuro do pasto.

Lá vão eles, são nossas doces quimeras.

Ovelhas sem rumo, porteira sem tramela.

Ninguém avisou a elas que podia ser de precipício o próximo passo.

Também pudera,

ovelhas pensam que o guia é certo como o sol, ele mesmo, o astro.

 

Gosto desse gado (por que o plural?) percorrendo “o escuro do pasto”. Compensa (e não posso deixar de apontar as implicâncias) os “balcões de poesia”, “o altar de nossas oferendas” e, deus do céu, essas “agendas de nossos sonhos”, que deviam ser riscadas. Mas que coisa verdadeira e misteriosa essa de chorar nos balcões de caldo de cana! Ai, dona Elisa Lucinda, que gato e sapato fizeste do rigor...

Clique no link para mais poemas de Elisa Lucinda.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h34

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Pequenos retratos

Este e outros quadros de Ana Mazzei estão no seu blog. Achei muito bonito o jogo do azul, do preto e do rosa, e, em especial, o recorte, o desenho do debruado preto da saia da mulher; repare nas inclinações do pé e da fivela do cinto. Já o ombro direito do homem não me parece bem solucionado. O principal, talvez, seja o contraste entre a simpatia espontânea do gesto, que tem a simplicidade de uma boa fotografia, e o quanto tudo se torna mais isolado e pungente ao ser traduzido em pintura. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h57

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Palestra pela internet

O ciclo "Vida vicio virtude", do qual participo, está tendo palestras em São Paulo, no Rio e em Belo Horizonte. As do Rio estão sendo transmitidas ao vivo pelo site da ABL . Veja a programação das próximas.

A intemperança, com Renato Janine Ribeiro, dia 22 de abril

A vergonha, com Ruwen Ogien (tradução simultânea do francês), dia 23

A passividade, com Maria Rita Kehl, dia 28

A amizade, comigo, dia 29

A intolerância, com Eugênio Bucci, dia 30

A indiferença, com Renato Lessa, dia 6 de maio

A liberdade, com Marilena Chaui, dia 7 de maio,

sempre às 19 horas.

Só lembrando: essa é a programação no Rio, para quem quiser acompanhar pela internet. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h45

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Vida vício virtude

É assim, sem vírgulas nem ponto, que se intitula o novo ciclo de palestras organizado por Adauto Novaes, que começa em São Paulo no dia 16, com o filósofo Franklin Leopoldo e Silva, falando sobre “O vazio do pensamento”. Dia 2 de maio será a minha vez, falando sobre amizade.

 

Recebi hoje o folheto que contém a sinopse do que dirá cada palestrante, e estou lendo para ver se esquento o motor, meio emperrado ultimamente.

 

Desde “O Silêncio dos Intelectuais”, e depois em “O Esquecimento da Política”, Adauto Novaes tem se dedicado a organizar ciclos de palestras que reflitam sua preocupação com a crise, com a mutação dos valores no mundo contemporâneo. Eis algumas palavras de sua introdução:

 

O século XXI nasce sob o signo da derrota dos projetos políticos revolucionários de emancipação e de um silêncio provisório da “aposta de refundação” filosófica, espiritual, ideológica ou política, ao se ver cercado de guerras sem que valores e virtudes se contraponham à barbárie.

 

(...) Vivemos um paradoxo: é exatamente no contexto da mundialização que virtudes e valores tendem a perder sua universalidade. Talvez seja correta a hipótese de oposição entre mundial e universal. O pior é que a idéia da relatividade destes valores e virtudes demonstrou que não tem força para enfrentar os problemas postos hoje a todas essas áreas da atividade: política, estética, sensibilidade,mentalidade, costumes etc.

 

(...) Que novos sentidos dar às velhas virtudes? Existe hoje uma assimetria, um descompasso, entre as condições de produção material e técnica e seus equivalentes em valores espirituais e mentais –entendendo por valores espirituais o trabalho do espírito e sua “potência de transformação”. Isso quer dizer que, em determinados momentos da história, pode haver acontecimentos sem conteúdo, pesadelo de uma realidade que não constrói vínculos com o pensamento, com os valores e as virtudes.

 

(...)Por fim, ao dar forma ao título deste ciclo –vida vício virtude—sem que nada separe as palavras, queremos dizer que é difícil separar vício e virtude. Deixemos a pergunta aos conferencistas: existe entre virtude e verdade, de um lado, e entre vício e erro, de outro, uma relação tão unívoca quanto pensamos? Ou tempos de certezas absolutas e “ideais puros” não seriam também perigosos? É certamente isso que Montesquieu quis dizer: “Quem diria! A própria virtude precisa de limites.”

 

Há diversas coisas a comentar aqui, e não é, acho, a primeira vez em que me sinto um pouco distante do pessimismo, ou das inquietações, de Adauto Novaes. Concordo com a idéia de que estejamos vivendo um “silêncio provisório” na aposta de “refundar” uma filosofia ou uma política que se oponha à barbárie. Mas acho que “a derrota dos projetos políticos revolucionários de emancipação”  não constitui nenhum choque recente ao pensamento político; o século 20 inteiro, pelo menos desde os processos stalinistas da década de 1930, não é senão a repetição desse mesmo sentimento de derrota. Ao mesmo tempo, um projeto não propriamente “revolucionário” de emancipação, pelo menos desde meados do século passado, vai se mostrando muito menos derrotado do que se pensa. As liberdades democráticas avançaram, o bem-estar material também (e é uma bela de uma emancipação), os níveis de instrução e de liberdade sexual mais ainda.

 

A barbárie, é claro, prossegue. Mas a assimetria entre crescimento material e empobrecimento espiritual não me parece uma novidade recente; nem sei como dimensioná-la com clareza. O que representou a Renascença para 90% da população européia da época, mergulhada no analfabetismo e na miséria?

 

Quanto a “acontecimentos sem conteúdo”, ao “pesadelo de uma realidade que não constrói vínculos com o pensamento, com os valores e as virtudes”, a formulação de Adauto Novaes é sem dúvida provocativa, e pode ser entendida de diversos modos.

Creio que nas décadas de 1950 e 1960, os acontecimentos estavam cheios de “conteúdo”. Cito, por exemplo, as revoltas anticolonialistas na Ásia e na África. Será que era simples, entretanto, construir vínculos entre o que acontecia e os “valores e as virtudes” em jogo? O pesadelo não terá começado, por exemplo, quando se acreditava que certos valores estavam sendo plenamente representados num tipo de luta política onde, muitas vezes, a sanguinolência e o puro “realismo” da tática revolucionária na verdade os negavam de forma chocante?

 

E, se for assim, as “certezas absolutas” daqueles movimentos, e daquelas vinculações entre “acontecimento” e “valor”, mostraram-se perigosíssimas. Entretanto, só é possível, a meu ver, aquilatar o seu perigo a partir do momento em que estamos, precisamente, vendo as coisas a partir de um “ideal puro”. Sem essa “pureza”, como não se entregar ao perigo de uma cegueira moral em nome do “sentido revolucionário mais profundo” de seja lá que movimento político?

 

Enfim, isso nem se relaciona diretamente com o tema da minha palestra. Vou me desembrulhando como posso.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h07

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A poesia de Elisa Lucinda

A poesia de Elisa Lucinda

Virou moda, eu diria quase um cacoete em muitos críticos, elogiar este ou aquele poeta pelo seu “rigor formal”. Brinco que há mais rigor na poesia contemporânea brasileira do que no IML.

 

Claro que João Cabral era rigoroso, medido, centrado, intelectual. Drummond, também, mas de outro jeito. Claro que neles não existe uma palavra fora do lugar, uma explosão fora de hora...

 

Mas o cabralismo pode ser um defeito, quando serve apenas à timidez. Nesse caso, a influência de Manuel Bandeira é muito mais rara e difícil de ser trabalhada, porque a poesia de Bandeira não depende de se espremer em letra miúda e versinho “rigoroso”; ela se solta com pouca coisa, não precisa de verborragia mas tampouco de aperto encasacado.

 

Abri por acaso um livro de Elisa Lucinda, chamado A Fúria da Beleza. É a segunda edição, publicada em 2007 pela Record. Sem dúvida, essa escritora, cantora e atriz, nascida em 1958 em Vitória, corre muitos riscos quando escolhe um verso solto, cheio de exclamações, coloquial e bastante “declaratório” quando diz do que gosta, do que não gosta, quando fala de amor, paixão, criança... Mas que importa! “Deus salve as belezas corajosas!” diz ela, e descreve bem, com esse verso, um poema como o que se segue:

 

Ele

 

Já começa a beijar o meu pescoço

com sua boca meio gelada meio doce,

já começa a abrir-me seus braços

como se meu namorado fosse,

já começa a beijar a minha mão,

a morder-me devagar os dedos,

já começa a afugentar-me os medos

e dar cetim de pijama aos meus segredos.

Todo ano é assim:

vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,

vem ele disposto a quebrar meus galhos

e a varrer minhas folhas secas.

Já começa a soprar minha nuca

com sua temperatura de macho,

já começa a acender meu facho

e dar frescor às minhas clareiras.

Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,

seu discurso sedutor de renovação,

suas palavras coloridas,

e eu estou na sua mão.

 

Todo ano é assim:

mancomunado com o vento, seu moleque de recados,

esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos,

levanta-me a saia, beija meus pés,

lábios frios e língua quente,

calça minhas meias delicadamente

e muda a seu gosto a moda de minhas gavetas!

 

É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela,

meu jogo e minhas varetas.

Parece Deus, posto que está no céu, na terra,

nas inúmeras paisagens,

na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia,

dentro e fora dos meus vestidos,

na minha cama, nos meus sentidos.

 

Todo ano é assim:

já começa a me amar esse atrevido,

meu charmoso cavalheiro, o belo Outono,

meu preferido.

 

Bem, há um enorme controle e “rigor”, se quisermos, na maneira com que Elisa Lucinda deixa a metáfora meio escondida, meio sugerida, ao longo do poema, para revelá-la só no final.

 

Há um certo “passadismo”, também, nesse romantismo das estações, que me lembra um poeminha francês sobre o mês de Abril, que volta feliz “comme un prince acclamé après un long exil”. Ao mesmo tempo, que poder de transformação em dizer desse amante “que varre minhas folhas secas, que vem quebrar meus galhos”...

 

Por vezes, a inspiração fraqueja: “inúmeras paisagens”, “discurso sedutor de renovação”, são frases de uma triste vagueza comparadas à precisa e feliz lembrança do “muda a seu gosto a moda das minhas gavetas”. E tudo é feminino de verdade, sem feminice. Vamos ver como continua o livro.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h15

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A frase do século

...e, talvez, de todos os séculos passados ou vindouros foi pronunciada pelo biólogo (evolucionista, é claro) D' Arcy Thompson (1860-1948), e diz o seguinte:

Tudo é como é porque ficou desse jeito.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h02

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hambúrgueres rechonchudos

hambúrgueres rechonchudos

E, por falar em "gordinhos sinistros", aqui vai o registro de certos sanduíches que fotografei para a coleção de cartazes populares a que este blog se dedica ocasionalmente.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21

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Manuel Bandeira cronista (3)

Manuel Bandeira cronista (3)

Os textos mais preciosos da coletânea de crônicas inéditas de Bandeira (veja o site especial da Cosacnaify sobre o livro aqui)são aqueles em que Bandeira faz rápida crítica de literatura.  Interessante o que ele diz do livro de estréia de Augusto Frederico Schmidt, primeiro ser humano a receber o clássico e transitivo apelido de “Gordinho Sinistro”.

 

O que torna os versos de Schmidt muito apreciáveis, à parte o dom de poesia que respiram mau grado muitos defeitos de composição apressada, é que eles não falam do Brasil nem fazem batuques verbais com vocábulos negros, praga que torna ilegíveis quase todas as brochurinhas dos novos poetas brasileiros. Esses rapazes oscilam entre a virtuosidade precisa de Guilherme de Almeida, as tintas claras de Ronald [de Carvalho] e o molengo mestiço de Mário de Andrade. E tome Brasil da primeira à última página!

 

Ora, o gordinho Augusto Frederico Schmidt rompeu com esta cacetada e começou o seu canto anunciando logo com displicência: “Não quero mais cantar a minha terra. Não quero mais o Brasil. Não quero mais geografia nem pitoresco.” Esse enjôo do Brasil como tema pitoresco vinha sendo sentido por muitos (...)

 

A.F. Schmidt, o "gordinho sinistro": enjôo de Brasil.

 

Engraçado que Bandeira tenha escrito isso em 1929, se pensarmos que seu livro O Ritmo Dissoluto, de apenas cinco anos antes, trazia poemas como “Berimbau” (“Os aguapés dos aguaçais/ nos igapós dos japurás...”)

 Outra referência curiosa em Crônicas Inéditas, 1, diz respeito a Mário de Andrade. Manuel Bandeira cita uma das várias “perfídias amicais” feitas por Oswald de Andrade ao autor de Macunaíma. Oswald escreve: “Quanto ao Mário, esse, coitado, ficará confinado no folklore...” Bandeira toma a defesa de Mário, sem deixar de fazer um pouco de média com Oswald (a crônica é de 1929). Diz que a seriedade de Mário, seu lado “professor”, provoca “o instinto de judiação”. E cita uma outra “maldadezinha” de Oswald a respeito do amigo.

 

[Mário] nasceu para andar por caminho errado com gente atrás.

 

Seria “maldadezinha” ou “maldadezona”? Citando a frase, Bandeira provavelmente não reconheceu as conotações impublicáveis que talvez estivessem presentes na frase oswaldiana.

 

Manuel Bandeira com algum igapó atrás.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h05

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Manuel Bandeira cronista (2)

Manuel Bandeira cronista (2)

Em outra crônica do mesmo livro (ver post anterior), Bandeira trata com simpatia algo paternal o comunista Otávio Brandão, na época seu vizinho na rua do Curvelo. Brandão resolveu organizar uma Convenção do Bloco Operário na própria casa em que morava, “sala, quarto, cozinha e banheiro”.

 

A rua do Curvelo é uma ruazinha tranqüila, e embora a dez minutos do centro da cidade parece um trecho de província. As lavadeiras estendem a roupa nos paredões da calçada (fica um menino de guarda para dar aviso do aparecimento dos fiscais da municipalidade), as crianças brincam de corda, de amarela, de gude, e pela noitinha todos os namorados das redondezas vêm passear por aqui agarradinhos. Esta vidinha sossegada foi interrompida com escândalo pelos grupos de investigadores, de “tintureiros” (carros de condução dos presos), que puseram em sítio o morro do Curvelo. Quem descia dos bondes era acompanhado, e se se detinha nas imediações da casa do senhor Otávio Brandão, “tintureiro” com ele! A Convenção foi assim impedida por um golpe policial bem inútil.

 

O cronista explica a inutilidade do golpe. É que o militante comunista também fazia seus versinhos, como estes, publicados no Globo, que Bandeira transcreve:

 

Pelas manhãs,

Pagãs,

No jardim,

Perfumado de rosa e jasmim,

Canta um sabiá mavioso

Um canto maravilhoso...

 

A Revolução, conclui Bandeira, não haveria de ser iminente com seus líderes fazendo esse tipo de poesia... Mas nunca se sabe, poderia responder um policial. Como saber se tudo não era uma estratégia de despistamento?  E quantos tiranos sanguinários não cometeram precisamente esse tipo de versinhos, ou fizeram suas aquarelas ingênuas, antes de chegar ao poder? É só perguntar aos policiais; de resto, fazem eles próprios seus versos e aquarelas também.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h00

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Manuel Bandeira cronista

Manuel Bandeira cronista

Há tantas coisas interessantes no livro Crônicas Inéditas 1, de Manuel Bandeira, que não foi muito o que coube na resenha que fiz do livro, publicada na Ilustrada de sábado passado. Transcrevo algumas.

 

Em janeiro de 1929, o poeta investia contra o imperialismo, numa espécie de profecia que ao mesmo tempo seria confirmada no longo prazo mas que, com “crack” da Bolsa daquele mesmo ano, ficou por um bom tempo parecendo bola fora.

 

Eu sou dos que acreditam no perigo americano. Vejo no imperalismo da grande República uma força a que só a revolução social poderá fazer frente. Ora, os entendidos em questões econômicas acham com boas razões que o capitalismo americano ainda está longe da crise decisiva e terá ainda pelo menos um século para crescer.

 

Bandeira comenta as solenidades em torno da visita do presidente Hoover ao Brasil. Critica a mania dos discursos derramados dos brasileiros, em contraste com a dureza objetiva do ianque. E dá um exemplo ótimo do ridículo da retórica brasileira. Foi quando um matemático, Amoroso Costa, morreu num acidente de aviação, em 1928. O avião caiu na baía da Guanabara. No enterro de Amoroso Costa, um orador disse o seguinte do defunto:

 

Tão modesto na morte como o fora em vida, quis que o seu corpo fosse o último a aparecer...

 

Grandes bobagens, vale acrescentar, não naufragam jamais.

 

É nesse tom de lembrança, de associação de idéia e de registro jornalístico que vão saindo todas as crônicas de Manuel Bandeira. Nada de poema em prosa por aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h54

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Bookcrossing

Bookcrossing

A idéia é simpática, embora tenha, como tantas outras, um quê de escoteiro. Trata-se de deixar livros em lugares públicos, para quem sabe alguém pegar. Até aí, não tem muita graça.

 

Mas inventaram um site no qual você se inscreve gratuitamente e ganha, para cada livro que se dispuser a jogar ao “mar”, um número de identidade. Desse modo, SE alguém pegar o livro, SE olhar no frontispício, SE você tiver escrito ali o número de identidade do livro, SE a pessoa que pegou o livro se inscrever no mesmo site, e SE jogar também o livro ao mar algum dia, depois de tudo isso será possível traçar a viagem desse livro pelo mundo, como aquelas tartarugas ou aves em extinção nas quais os biólogos tatuam ou pintam números para saber aonde foram parar.

 

Recebo release avisando que neste sábado, 12 de abril, das 15h às 17h, haverá um encontro de bookcrossing em São Paulo, no bar Central das Artes (rua Apinagés, 1081), que se declara “a primeira e única zona oficial de troca” do movimento na cidade.

 

Já existem 4,7 milhões de livros registrados no site, segundo o release, e 660 mil membros no mundo todo; em São Paulo, são 1400. É, sem dúvida, uma vasta biblioteca circulante... O link do site está aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h55

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Coreografia do PAC

Eis uma ótima foto, publicada pela Zero Hora, da passagem de Lula pela cidade de Porto Alegre, lançando uma obra do PAC. Vi no blog www.jornalismob.wordpress.com, que seu autor acabou de me recomendar. Os comentários à foto são muito bons, e nada tenho a lhes acrescentar.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h49

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Nilson Lombardi

Nilson Lombardi

Leio no “Estado” que o compositor Nilson Lombardi morreu nesta quarta-feira, aos 82 em anos, em Sorocaba. Foi aluno de Camargo Guarnieri durante quinze anos, e suas composições são fortemente influenciadas pelo mestre nacionalista.

 

O único disco que tenho dele é um LP de 1976, do selo Fermata, intitulado “Attilio Mastrogiovanni interpreta Nilson Lombardi”, com várias de suas composições para piano. Os “Dez Ponteios” não poderiam ser mais guarnierianos, e por isso mesmo sempre gostei muito de ouvi-los.

 

Um mesmo desenho de melodia, uma mesma figura de acompanhamento, e em vez de monotonia, a sensação de que nunca se sabe para onde a música vai: é que as harmonias vão ficando cada vez mais estranhas, mais evasivas, mais carregadas de interrogações. Não que com isso comecem a ferir demais os ouvidos; a suavidade, certo charme hipnótico, persistem, numa espécie de dança de não sei quantos véus.

 

A descrição serve, acho, tanto para as peças moderadas e seresteiras quanto para as tensas corridas de síncopes e desencontros que marcam os ponteios mais difíceis. Em tudo, um diabo de contraponto –tome-se o de número 5, “Com enlevo”—em que cada mão parece ter de se destroncar do pulso para seguir os caminhos que se entortam e bifurcam das melodias justapostas.

 

Como na música de Camargo Guarnieri, há aqui um Brasil bem bonito de se ouvir: um ideal de refinamento que não abandona a simplicidade, sempre sóbrio como as linhas de Brasília, mas intenso de sentimentos; só que o sentimento não se derrama em gritaria e tropicalidade; está ali, sofrido, como nas árvores do cerrado, que se retorcem, florescem e se calam. Nilson Lombardi, como Camargo Guarnieri e aquela escola de interpretar o Brasil, calaram-se também.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21

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Gramatissimamente

Aprender gramática, como diria Voltaire de Souza, não faz mal a ninguém. Difícil antipatizar, portanto, com a iniciativa de um professor de português do cursinho Anglo, que oferece na Universidade do Livro, entidade vinculada à Unesp, um curso em três dias intitulado “As contribuições da gramática para o texto”.

 

Leia-se, contudo, o release do tal curso.

 

O objetivo é demonstrar que, mais útil do que tomar o texto como um mostruário de fatos gramaticais, é descrever como as formas e os mecanismos gramaticais atuam para articular enunciados que criam unidade de sentido.

 

O curso se propõe a inverter o procedimento habitual: em vez de tomar o texto como um conjunto de regras gramaticais dispersas, descreve-se (sic) formas e mecanismos usados para gerar um texto e direcioná-lo para atingir o resultado planejado. Haverá ainda uma parte prática, com exercícios de interpretação e reescritura de textos.

 

Poderiam começar interpretando e reescrevendo isso que me mandaram.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h11

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Guia do observador de nuvens

Comentei no artigo de quarta um livro muito bonito e informativo, o Guia do Observador de Nuvens, de Gavin Pretor-Pinney. O autor mistura fatos históricos e científicos com um senso muito próprio da beleza que existe em ficar vendo o momento que passa; parece típico de quem não tem nada o que fazer, mas temos também de pensar no que estamos fazendo quando estamos cheios de coisa para fazer... E entre comentar o caso do dossiê e falar de nuvens no céu, preferi a segunda opção. Não que o caso do dossiê não mereça; mas um comentário a mais não faria diferença nesse caso. Aqui vai o link para a sociedade dos apreciadores de nuvens, de onde extraio as fotos que se seguem.

Um grupo de nuvens (não me pergunte o tipo) na Argentina.

Na Itália, perto de Veneza, um rosto (ou máscara) olhando para a terra.

Nuvens e neve numa estação de esqui francesa.

Um pintinho na Islândia. Repare no homenzinho de amarelo na parte de baixo da foto.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h04

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Baudelaire na Biblioteca

Baudelaire na Biblioteca

No artigo desta quarta-feira, fiz referência a dois poemas em prosa de Baudelaire, que estão longe de me convencer como literatura... O segundo deles, apesar da bela descrição das nuvens que citei (“moventes arquiteturas que Deus faz de vapores, maravilhosas construções do impalpável”) termina de maneira bastante tosca, porque enquanto o poeta admira as nuvens, sua bela namorada se irrita e termina lhe dando um murro nas costas: “toma a sopa, f. da p.!” Contraste que mesmo em meados do século 19 não tinha como não ser banal.

 

A novidade, falando em Baudelaire, está na exposição de obras raras da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, que começa neste dia 10 de abril e vai até 29 de junho, de segunda a sexta das 9h às 18h, e nos sábados das 10h às 16h, no Instituto de Estudo Brasileiros (Cidade Universitária).

 

Lá será exibido um valioso exemplar da primeira edição das Flores do Mal. Pertenceu a um dos juízes do processo sofrido por Baudelaire, em função da “imoralidade” de sua obra. Baudelaire foi condenado a pagar uma multa de 300 francos e teve de suprimir, sob pena de apreensão de todo o livro, seis poemas especialmente “perigosos”. Mas o exemplar da Biblioteca ainda traz as peças condenadas.

 

Outro exemplar, que foi de Paulo Prado e também pertence à Biblioteca, tem anotações a lápis que teriam sido feitas pelo próprio Baudelaire.

 

Leio estas informações na Revista Biblioteca Mário de Andrade, número 63, que traz uma pequena colaboração minha comparando os jornais da década de 50 e os de hoje.

 

Uma boa notícia desta revista é a (re)descoberta da biblioteca particular de Otto Maria Carpeaux, que tinha sido comprada pela Mário de Andrade depois da morte do célebre crítico, em 1978... e desde então espalhada por várias sub-unidades da Biblioteca Municipal. Sem contar um conjunto de livros, muitos com dedicatórias, que ficou empacotado e inacessível, inexplicavelmente, até hoje. Agora se reúne tudo de novo, com as fichas de Carpeaux, numa coleção a que o público terá acesso quando terminar a reforma toda da Biblioteca, que segue em bom ritmo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h25

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três sopranos

três sopranos

A grande estrela de hoje em dia é provavelmente a russa Anna Netrebko, mas o mundo das sopranos não deixa de estar dominado por três nomes franceses: Natalie Dessay, Véronique Gens e Sandrine Piau.

 

Comprei uns discos recentes das três. Véronique Gens canta, para o selo Naxos, uma seleção dos “Chants d’ Auvergne” de UOL Busca Joseph Canteloube (1879-1957), que são uma delícia para quem associa imediatamente qualidade melódica ao poder de envolvimento da cantora que interpreta a música. Vale dizer que, à parte o refinamento e a opulência do arranjo orquestral, esses “Chants d’Auvergne” são menos eruditos do que certas coisas feitas na música popular. Mas não há como resistir aos trulilululus do dialeto regional francês que Véronique Gens gorjeia com todas as cores de um arco-íris sobre a paisagem algo pálida e medíocre, mas sempre feliz, de Canteloube.

 

Natalie Dessay é uma soprano mais potente, pronta a qualquer desafio técnico: basta ver, no youtube, sua interpretação da famosa “Ária dos Sininhos” da ópera Lakmé, de Delibes. Se você não tiver paciência, adiante o vídeo perto do final, para ver a qualidade sonora, a afinação, daquelas notinhas infernais que ela expele do corpo como pérolas.

 

Dois lindos CDs de Natalie Dessay estão à disposição do consumidor paulistano. Um reúne árias de Richard Strauss, extremamente difíceis e agudas, mas que valem a pena uma tentativa. As partes mais sublimes das óperas de Strauss foram escritas para duetos e trios femininos, e o ápice do CD está no terceiro ato de Der Rosenkavalier, reunindo num berreiro sinuoso e sensual as vozes de Natalie Dessay, Felicity Lott e Angelika Kirshlagert. É como se um caldeirão de geléia de amora gerasse, sem querer, toneladas de gordura de porco, até o momento em que a intervenção da orquestra põe um pouco as coisas no lugar. Segue-se um trio reconciliado em vozes puríssimas.

 

O segundo CD de Natalie Dessay se chama “Vocalises”, e é bem mais acessível. Esqueça a faixa 1, com a famosa e muito brega vocalise de Rachmaninov. As coisas melhoram na mais brega ainda “Les Filles de Cadix”, de Delibes, em que Natalie Dessay apresenta ligações surpreendentes de uma frase a outra, deixando a voz “cair” em lugares que nunca seria de esperar. Esplêndida a “Vocalise en forme de Habanera” de Ravel, e o concerto, tão brasileiro, para coloratura e orquestra do russo Glière, cujas formas de modinha  podem ser conferidas aqui, com uma linda Anna Netrebko.

 

Mas nada disso, a meu ver, se compara ao CD de Sandrine Piau intitulado “Évocation”, que reúne canções de autores tão distantes no tempo como Chausson e Schoenberg. Véronique Gens tem pureza, Natalie Dessay tem uma técnica formidável, mas só Sandrine Piau, nos CDs que ouvi, é capaz de transcender em pura beleza vocal a partitura que tem para cantar. Desde a primeira canção de Chausson, sente-se que a voz de Sandrine Piau não é apenas “cristalina”, como se espera de qualquer soprano. No meio de uma nota, como se fosse um diamante que reflete inesperadamente um reflexo de cor, Sandrine Piau cintila.

 

O repertório desse CD é, além disso, de especial interesse. Debussy faz aqui uma má figura, com  “Nuit d’ Étoiles”, talvez sua pior composição. Mas o relativamente desconhecido Charles Koechlin, que merecerá um post qualquer dia, surge fascinante em suas “Sept chansons pour Gladys”, que são uma espécie de ponte entre Fauré (de quem Koechlin foi aluno) e Messiaen (de quem não sei se foi professor). Não sei quem é “Gladys”, mas o compositor tinha uma enorme atração pelas atrizes de Hollywood, apaixonando-se por Lilian Harvey, a quem dedicou algumas peças sem obter resposta.

Mas Koechlin é assunto para outro post. Fico por aqui, com as fotos dele e de sua musa.

 

UOL Busca Charles Koechlin

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h16

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clínica veterinária

clínica veterinária

Para a coleção de pinturas comerciais populares, algumas imagens de uma clínica veterinária em Moema.

Certa dificuldade em retratar o cachorro de frente, e a falta de naturalidade no gesto da profissional, não tiram o prazer de apreciar como os volumes do seu corpo, ocultos pela roupa branca, foram bem desenhados.

A ênfase, aqui, está mais no jato d'água e nas bolhas... mas a melhor imagem é esta, do veterinário:

 

Gosto da expressão atenta de escuta. Mas não sei onde foi parar uma perna do homem.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21

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O coveiro da Revolução

O coveiro da Revolução

Na revista Harper’s de março, transcreve-se uma entrevista impressionante, capaz de dar idéia precisa do que foi o regime maoísta. Não tanto pelo que significou de perseguição política a dissidentes, mas pelos perigos que uma extrema politização da administração pública era capaz de trazer.

 

Jang Dao Ling tem setenta e um anos, e foi agente funerário em Chengdu, na China, desde 1957. Eis alguns trechos de sua entrevista.

 

Comecei em 1957, no auge da campanha antidireitista, de modo que o Partido Comunista local me indicou este trabalho, e se eu recusasse poderia ser tachado de direitista. Naquela época, as pessoas usavam pouco as agências funerárias. Todos os serviços fúnebres eram feitos nas casas e nas aldeias. Em meados da década de 50, o presidente Mao encorajava as pessoas a fazerem cremações, pois não havia espaço nos cemitérios. Mas havia resistência à cremação, e portanto eu não tinha muito trabalho...

 

O presidente Mao iniciou o Grande Salto Para a Frente em 1958. Alguns jovens invadiram a agência funerária, exigindo que convertêssemos o forno de cremação num pequeno forno siderúrgico, para produzir ferro e aço. O diretor tentou explicar que os dois tipos de forno eram projetados de forma diferente, mas os jovens não acreditaram numa palavra do que ele dizia, e mandaram-no para a polícia. Numa espécie de compromisso, ele os autorizou a montar um novo forno no quintal... Eu corria de um lado para outro como um louco, coletando toda peça de metal que eu podia encontrar, de bicicletas a utensílios de cozinha. Mas foi um desastre total. Produzimos apenas uns pedaços de ferro inútil, de baixa qualidade.

 

O negócio se tornou mais ativo durante a Grande Fome de 1960. Uma vez que todos estavam ocupados com o grande plano de produção de aço de Mao, ninguém cuidou das plantações. Nesta região morreram dezenas de milhares de pessoas. Era impossível fazer serviços fúnebres individuais. As pessoas não tinham força nem tempo para fazer caixões. Tudo o que se fazia era envolver os mortos em esteiras de palha e empilhá-las para a cremação.

 

Na primavera de 1961, as coisas ficaram piores. Milhares de pessoas invadiam as montanhas como gafanhotos, procurando desesperadamente coisas comestíveis –cascas de árvore, grama, raízes, mato, insetos. O alto das montanhas fora desmatado para alimentar os fornos siderúrgicos durante o Grande Salto para a Frente. As pessoas que andavam por ali procurando coisas para comer muitas vezes caíam mortas no chão. Os guardas costumavam forçar os prisioneiros –antigos donos de terra, fazendeiros ricos, direitistas—a escalar as montanhas e recolher os cadáveres. Mas os prisioneiros também tinham fome. Ensaiaram uma greve (...) Então o chefe de polícia teve uma idéia inovadora para o recolhimento dos cadáveres. Usando uma corda comprida, ele amarrava vários cadáveres juntos e tinha algumas pessoas jovens para puxá-los até embaixo. Isso economizou muita energia.

 

Por volta de 1962, os sinais de canibalismo apareceram. Os cadáveres trazidos das montanhas estavam na sua maioria desmembrados. Toda a carne das coxas, dos ombros, das costas e das nádegas tinha sumido. Os líderes do governo local mandaram-nos ficar quietos e nos livrar dos corpos imediatamente.

 

O texto completo será publicado numa coletânea de entrevistas de Liao Yiwu, The Corpse Walker, em abril, pela Pantheon Books.  

 

Quadro de  Yue Minjun

Escrito por Marcelo Coelho às 00h01

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correrias de assustar

correrias de assustar

Uff! Até que enfim consigo postar alguma coisa por aqui. Foi uma semana meio impossível para mim. Começou com uma palestra que tive de fazer no sábado passado, sobre o velho tema do texto no jornalismo cultural. Velhas anotações e velhos exemplos eu não tive coragem de ressuscitar. Fiz uma mistura, que depois tento resumir.

 

Veio depois uma participação (será a última) no programa Entrelinhas, da TV Cultura, cujo texto só na última hora consegui escrever. Já no mês passado eu tinha “fraquejado” um pouco no meu trabalho junto a esse programa, porque pedi para não mais aparecer eu mesmo na gravação. Só a voz em off já basta, porque o pessoal de lá é excelente em achar imagens que ilustrem o comentário que faço. Fazem um grande programa de literatura, e dá pena de sair, mas era o tipo de coisa que, embora feita uma vez por mês apenas, parece que você acabou de preparar uma e já estão te telefonando para fazer a próxima. Falei sobre uma coletânea de depoimentos a respeito de Mário de Andrade; logo mais cito alguma coisa.

 

Teve também uma resenha do livro “Crônicas Inéditas, vol. 1”, de Manuel Bandeira, a sair na Ilustrada deste sábado.

 

Troca de carro, troca de máquina de lavar, troca de ferro elétrico. Pega e busca criança, compra presente de festinha.

 

E por fim, na madrugada de ontem, quatro horas no pronto-socorro com meu filho menor, que acordou às duas da manhã com uma tosse ensurdecedora –parecia um carro de bombeiros. Ele já tinha tido isso aos dez meses. Nunca sei se é laringite ou faringite, e se é estridulosa, estrepitosa ou coisa parecida, mas merece o nome, porque é um barulhão inacreditável. O risco, que fiquei sabendo na primeira vez que isso aconteceu, é haver um fechamento da glote (ou da epiglote?), sufocando a criança. De modo que (vi isso num filme de Atom Egoyan), se o hospital for longe, o pai tem de levar consigo um canivete ou uma caneta Bic para furar a garganta da criança, numa traqueostomia a frio, para permitir sua respiração.

 

Escrevo tudo com espírito leve, porque o atendimento foi rapidíssimo, meu filho não precisou ser internado, e só permaneceu tanto tempo no hospital porque tinha de ficar sob observação. E principalmente porque, no meio de mais uma fase dificílima de birras e agressões, ele se portou de forma admirável. Houve apenas o choro básico da injeção, a resistência conhecida face ao aparelho de inalar oxigênio, mas o tempo todo uma calma, uma disponibilidade, que atribuo apenas ao fato de se sentir “dono” do pai naquela madrugada, sem ter de compartilhá-lo com ninguém. Devo dizer que correspondi ao desejado, e consegui inventar um brinquedo que recomendo para salas de espera.

 

Havia ali, como em todo lugar, um filtro de água com copinhos de plástico (melhor usar os pequenos, de café), e uma pia com aquelas toalhas de papel que, dizem, são suficientes para enxugar perfeitamente a sua mão. A idéia foi pegar duas ou três dessas toalhas, enrolando-as numa forma vagamente aparentada a uma pirâmide, e colocar o copinho branco de plástico no cume da pirâmide; estava pronto um fantasma de brinquedo.

 

Com uma caneta, desenhei dois olhos e uma boca assustadora no copinho. Depois, girando o copinho, desenhei uma cara feliz. A própria caneta, enfiada no interior do “lençol” do fantasma, pode ajudar na movimentação do boneco, e servir também como falsa seringa, aplicando uma injeção capaz de transformar o fantasma feroz num fantasma feliz. A mágica, aparentemente, deu certo.  

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h01

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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