...e, talvez, de todos os séculos passados ou vindouros foi pronunciada pelo biólogo (evolucionista, é claro) D' Arcy Thompson (1860-1948), e diz o seguinte:
Tudo é como é porque ficou desse jeito.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h02
hambúrgueres rechonchudos
E, por falar em "gordinhos sinistros", aqui vai o registro de certos sanduíches que fotografei para a coleção de cartazes populares a que este blog se dedica ocasionalmente.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21
Manuel Bandeira cronista (3)
Os textos mais preciosos da coletânea de crônicas inéditas de Bandeira (veja o site especial da Cosacnaify sobre o livro aqui)são aqueles em que Bandeira faz rápida crítica de literatura. Interessante o que ele diz do livro de estréia de Augusto Frederico Schmidt, primeiro ser humano a receber o clássico e transitivo apelido de “Gordinho Sinistro”.
O que torna os versos de Schmidt muito apreciáveis, à parte o dom de poesia que respiram mau grado muitos defeitos de composição apressada, é que eles não falam do Brasil nem fazem batuques verbais com vocábulos negros, praga que torna ilegíveis quase todas as brochurinhas dos novos poetas brasileiros. Esses rapazes oscilam entre a virtuosidade precisa de Guilherme de Almeida, as tintas claras de Ronald [de Carvalho] e o molengo mestiço de Mário de Andrade. E tome Brasil da primeira à última página!
Ora, o gordinho Augusto Frederico Schmidt rompeu com esta cacetada e começou o seu canto anunciando logo com displicência: “Não quero mais cantar a minha terra. Não quero mais o Brasil. Não quero mais geografia nem pitoresco.” Esse enjôo do Brasil como tema pitoresco vinha sendo sentido por muitos (...)

A.F. Schmidt, o "gordinho sinistro": enjôo de Brasil.
Engraçado que Bandeira tenha escrito isso em 1929, se pensarmos que seu livro O Ritmo Dissoluto, de apenas cinco anos antes, trazia poemas como “Berimbau” (“Os aguapés dos aguaçais/ nos igapós dos japurás...”)
Outra referência curiosa em Crônicas Inéditas, 1, diz respeito a Mário de Andrade. Manuel Bandeira cita uma das várias “perfídias amicais” feitas por Oswald de Andrade ao autor de Macunaíma. Oswald escreve: “Quanto ao Mário, esse, coitado, ficará confinado no folklore...” Bandeira toma a defesa de Mário, sem deixar de fazer um pouco de média com Oswald (a crônica é de 1929). Diz que a seriedade de Mário, seu lado “professor”, provoca “o instinto de judiação”. E cita uma outra “maldadezinha” de Oswald a respeito do amigo.
[Mário] nasceu para andar por caminho errado com gente atrás.
Seria “maldadezinha” ou “maldadezona”? Citando a frase, Bandeira provavelmente não reconheceu as conotações impublicáveis que talvez estivessem presentes na frase oswaldiana.

Manuel Bandeira com algum igapó atrás.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h05
Manuel Bandeira cronista (2)
Em outra crônica do mesmo livro (ver post anterior), Bandeira trata com simpatia algo paternal o comunista Otávio Brandão, na época seu vizinho na rua do Curvelo. Brandão resolveu organizar uma Convenção do Bloco Operário na própria casa em que morava, “sala, quarto, cozinha e banheiro”.
A rua do Curvelo é uma ruazinha tranqüila, e embora a dez minutos do centro da cidade parece um trecho de província. As lavadeiras estendem a roupa nos paredões da calçada (fica um menino de guarda para dar aviso do aparecimento dos fiscais da municipalidade), as crianças brincam de corda, de amarela, de gude, e pela noitinha todos os namorados das redondezas vêm passear por aqui agarradinhos. Esta vidinha sossegada foi interrompida com escândalo pelos grupos de investigadores, de “tintureiros” (carros de condução dos presos), que puseram em sítio o morro do Curvelo. Quem descia dos bondes era acompanhado, e se se detinha nas imediações da casa do senhor Otávio Brandão, “tintureiro” com ele! A Convenção foi assim impedida por um golpe policial bem inútil.
O cronista explica a inutilidade do golpe. É que o militante comunista também fazia seus versinhos, como estes, publicados no Globo, que Bandeira transcreve:
Pelas manhãs,
Pagãs,
No jardim,
Perfumado de rosa e jasmim,
Canta um sabiá mavioso
Um canto maravilhoso...
A Revolução, conclui Bandeira, não haveria de ser iminente com seus líderes fazendo esse tipo de poesia... Mas nunca se sabe, poderia responder um policial. Como saber se tudo não era uma estratégia de despistamento? E quantos tiranos sanguinários não cometeram precisamente esse tipo de versinhos, ou fizeram suas aquarelas ingênuas, antes de chegar ao poder? É só perguntar aos policiais; de resto, fazem eles próprios seus versos e aquarelas também.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h00
Manuel Bandeira cronista
Há tantas coisas interessantes no livro Crônicas Inéditas 1, de Manuel Bandeira, que não foi muito o que coube na resenha que fiz do livro, publicada na Ilustrada de sábado passado. Transcrevo algumas.
Em janeiro de 1929, o poeta investia contra o imperialismo, numa espécie de profecia que ao mesmo tempo seria confirmada no longo prazo mas que, com “crack” da Bolsa daquele mesmo ano, ficou por um bom tempo parecendo bola fora.
Eu sou dos que acreditam no perigo americano. Vejo no imperalismo da grande República uma força a que só a revolução social poderá fazer frente. Ora, os entendidos em questões econômicas acham com boas razões que o capitalismo americano ainda está longe da crise decisiva e terá ainda pelo menos um século para crescer.
Bandeira comenta as solenidades em torno da visita do presidente Hoover ao Brasil. Critica a mania dos discursos derramados dos brasileiros, em contraste com a dureza objetiva do ianque. E dá um exemplo ótimo do ridículo da retórica brasileira. Foi quando um matemático, Amoroso Costa, morreu num acidente de aviação, em 1928. O avião caiu na baía da Guanabara. No enterro de Amoroso Costa, um orador disse o seguinte do defunto:
Tão modesto na morte como o fora em vida, quis que o seu corpo fosse o último a aparecer...
Grandes bobagens, vale acrescentar, não naufragam jamais.
É nesse tom de lembrança, de associação de idéia e de registro jornalístico que vão saindo todas as crônicas de Manuel Bandeira. Nada de poema em prosa por aqui.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h54
Bookcrossing
A idéia é simpática, embora tenha, como tantas outras, um quê de escoteiro. Trata-se de deixar livros em lugares públicos, para quem sabe alguém pegar. Até aí, não tem muita graça.
Mas inventaram um site no qual você se inscreve gratuitamente e ganha, para cada livro que se dispuser a jogar ao “mar”, um número de identidade. Desse modo, SE alguém pegar o livro, SE olhar no frontispício, SE você tiver escrito ali o número de identidade do livro, SE a pessoa que pegou o livro se inscrever no mesmo site, e SE jogar também o livro ao mar algum dia, depois de tudo isso será possível traçar a viagem desse livro pelo mundo, como aquelas tartarugas ou aves em extinção nas quais os biólogos tatuam ou pintam números para saber aonde foram parar.
Recebo release avisando que neste sábado, 12 de abril, das 15h às 17h, haverá um encontro de bookcrossing em São Paulo, no bar Central das Artes (rua Apinagés, 1081), que se declara “a primeira e única zona oficial de troca” do movimento na cidade.
Já existem 4,7 milhões de livros registrados no site, segundo o release, e 660 mil membros no mundo todo; em São Paulo, são 1400. É, sem dúvida, uma vasta biblioteca circulante... O link do site está aqui.
Escrito por Marcelo Coelho às 22h55
Eis uma ótima foto, publicada pela Zero Hora, da passagem de Lula pela cidade de Porto Alegre, lançando uma obra do PAC. Vi no blog www.jornalismob.wordpress.com, que seu autor acabou de me recomendar. Os comentários à foto são muito bons, e nada tenho a lhes acrescentar.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h49
Nilson Lombardi
Leio no “Estado” que o compositor Nilson Lombardi morreu nesta quarta-feira, aos 82 em anos, em Sorocaba. Foi aluno de Camargo Guarnieri durante quinze anos, e suas composições são fortemente influenciadas pelo mestre nacionalista.
O único disco que tenho dele é um LP de 1976, do selo Fermata, intitulado “Attilio Mastrogiovanni interpreta Nilson Lombardi”, com várias de suas composições para piano. Os “Dez Ponteios” não poderiam ser mais guarnierianos, e por isso mesmo sempre gostei muito de ouvi-los.
Um mesmo desenho de melodia, uma mesma figura de acompanhamento, e em vez de monotonia, a sensação de que nunca se sabe para onde a música vai: é que as harmonias vão ficando cada vez mais estranhas, mais evasivas, mais carregadas de interrogações. Não que com isso comecem a ferir demais os ouvidos; a suavidade, certo charme hipnótico, persistem, numa espécie de dança de não sei quantos véus.
A descrição serve, acho, tanto para as peças moderadas e seresteiras quanto para as tensas corridas de síncopes e desencontros que marcam os ponteios mais difíceis. Em tudo, um diabo de contraponto –tome-se o de número 5, “Com enlevo”—em que cada mão parece ter de se destroncar do pulso para seguir os caminhos que se entortam e bifurcam das melodias justapostas.
Como na música de Camargo Guarnieri, há aqui um Brasil bem bonito de se ouvir: um ideal de refinamento que não abandona a simplicidade, sempre sóbrio como as linhas de Brasília, mas intenso de sentimentos; só que o sentimento não se derrama em gritaria e tropicalidade; está ali, sofrido, como nas árvores do cerrado, que se retorcem, florescem e se calam. Nilson Lombardi, como Camargo Guarnieri e aquela escola de interpretar o Brasil, calaram-se também.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h21
Aprender gramática, como diria Voltaire de Souza, não faz mal a ninguém. Difícil antipatizar, portanto, com a iniciativa de um professor de português do cursinho Anglo, que oferece na Universidade do Livro, entidade vinculada à Unesp, um curso em três dias intitulado “As contribuições da gramática para o texto”.
Leia-se, contudo, o release do tal curso.
O objetivo é demonstrar que, mais útil do que tomar o texto como um mostruário de fatos gramaticais, é descrever como as formas e os mecanismos gramaticais atuam para articular enunciados que criam unidade de sentido.
O curso se propõe a inverter o procedimento habitual: em vez de tomar o texto como um conjunto de regras gramaticais dispersas, descreve-se (sic) formas e mecanismos usados para gerar um texto e direcioná-lo para atingir o resultado planejado. Haverá ainda uma parte prática, com exercícios de interpretação e reescritura de textos.
Poderiam começar interpretando e reescrevendo isso que me mandaram.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h11
Comentei no artigo de quarta um livro muito bonito e informativo, o Guia do Observador de Nuvens, de Gavin Pretor-Pinney. O autor mistura fatos históricos e científicos com um senso muito próprio da beleza que existe em ficar vendo o momento que passa; parece típico de quem não tem nada o que fazer, mas temos também de pensar no que estamos fazendo quando estamos cheios de coisa para fazer... E entre comentar o caso do dossiê e falar de nuvens no céu, preferi a segunda opção. Não que o caso do dossiê não mereça; mas um comentário a mais não faria diferença nesse caso. Aqui vai o link para a sociedade dos apreciadores de nuvens, de onde extraio as fotos que se seguem.

Um grupo de nuvens (não me pergunte o tipo) na Argentina.

Na Itália, perto de Veneza, um rosto (ou máscara) olhando para a terra.

Nuvens e neve numa estação de esqui francesa.

Um pintinho na Islândia. Repare no homenzinho de amarelo na parte de baixo da foto.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h04
Baudelaire na Biblioteca
No artigo desta quarta-feira, fiz referência a dois poemas em prosa de Baudelaire, que estão longe de me convencer como literatura... O segundo deles, apesar da bela descrição das nuvens que citei (“moventes arquiteturas que Deus faz de vapores, maravilhosas construções do impalpável”) termina de maneira bastante tosca, porque enquanto o poeta admira as nuvens, sua bela namorada se irrita e termina lhe dando um murro nas costas: “toma a sopa, f. da p.!” Contraste que mesmo em meados do século 19 não tinha como não ser banal.
A novidade, falando em Baudelaire, está na exposição de obras raras da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, que começa neste dia 10 de abril e vai até 29 de junho, de segunda a sexta das 9h às 18h, e nos sábados das 10h às 16h, no Instituto de Estudo Brasileiros (Cidade Universitária).
Lá será exibido um valioso exemplar da primeira edição das Flores do Mal. Pertenceu a um dos juízes do processo sofrido por Baudelaire, em função da “imoralidade” de sua obra. Baudelaire foi condenado a pagar uma multa de 300 francos e teve de suprimir, sob pena de apreensão de todo o livro, seis poemas especialmente “perigosos”. Mas o exemplar da Biblioteca ainda traz as peças condenadas.
Outro exemplar, que foi de Paulo Prado e também pertence à Biblioteca, tem anotações a lápis que teriam sido feitas pelo próprio Baudelaire.
Leio estas informações na Revista Biblioteca Mário de Andrade, número 63, que traz uma pequena colaboração minha comparando os jornais da década de 50 e os de hoje.
Uma boa notícia desta revista é a (re)descoberta da biblioteca particular de Otto Maria Carpeaux, que tinha sido comprada pela Mário de Andrade depois da morte do célebre crítico, em 1978... e desde então espalhada por várias sub-unidades da Biblioteca Municipal. Sem contar um conjunto de livros, muitos com dedicatórias, que ficou empacotado e inacessível, inexplicavelmente, até hoje. Agora se reúne tudo de novo, com as fichas de Carpeaux, numa coleção a que o público terá acesso quando terminar a reforma toda da Biblioteca, que segue em bom ritmo.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h25
três sopranos
A grande estrela de hoje em dia é provavelmente a russa Anna Netrebko, mas o mundo das sopranos não deixa de estar dominado por três nomes franceses: Natalie Dessay, Véronique Gens e Sandrine Piau.
Comprei uns discos recentes das três. Véronique Gens canta, para o selo Naxos, uma seleção dos “Chants d’ Auvergne” de Joseph Canteloube (1879-1957), que são uma delícia para quem associa imediatamente qualidade melódica ao poder de envolvimento da cantora que interpreta a música. Vale dizer que, à parte o refinamento e a opulência do arranjo orquestral, esses “Chants d’Auvergne” são menos eruditos do que certas coisas feitas na música popular. Mas não há como resistir aos trulilululus do dialeto regional francês que Véronique Gens gorjeia com todas as cores de um arco-íris sobre a paisagem algo pálida e medíocre, mas sempre feliz, de Canteloube.
Natalie Dessay é uma soprano mais potente, pronta a qualquer desafio técnico: basta ver, no youtube, sua interpretação da famosa “Ária dos Sininhos” da ópera Lakmé, de Delibes. Se você não tiver paciência, adiante o vídeo perto do final, para ver a qualidade sonora, a afinação, daquelas notinhas infernais que ela expele do corpo como pérolas.
Dois lindos CDs de Natalie Dessay estão à disposição do consumidor paulistano. Um reúne árias de Richard Strauss, extremamente difíceis e agudas, mas que valem a pena uma tentativa. As partes mais sublimes das óperas de Strauss foram escritas para duetos e trios femininos, e o ápice do CD está no terceiro ato de Der Rosenkavalier, reunindo num berreiro sinuoso e sensual as vozes de Natalie Dessay, Felicity Lott e Angelika Kirshlagert. É como se um caldeirão de geléia de amora gerasse, sem querer, toneladas de gordura de porco, até o momento em que a intervenção da orquestra põe um pouco as coisas no lugar. Segue-se um trio reconciliado em vozes puríssimas.
O segundo CD de Natalie Dessay se chama “Vocalises”, e é bem mais acessível. Esqueça a faixa 1, com a famosa e muito brega vocalise de Rachmaninov. As coisas melhoram na mais brega ainda “Les Filles de Cadix”, de Delibes, em que Natalie Dessay apresenta ligações surpreendentes de uma frase a outra, deixando a voz “cair” em lugares que nunca seria de esperar. Esplêndida a “Vocalise en forme de Habanera” de Ravel, e o concerto, tão brasileiro, para coloratura e orquestra do russo Glière, cujas formas de modinha podem ser conferidas aqui, com uma linda Anna Netrebko.
Mas nada disso, a meu ver, se compara ao CD de Sandrine Piau intitulado “Évocation”, que reúne canções de autores tão distantes no tempo como Chausson e Schoenberg. Véronique Gens tem pureza, Natalie Dessay tem uma técnica formidável, mas só Sandrine Piau, nos CDs que ouvi, é capaz de transcender em pura beleza vocal a partitura que tem para cantar. Desde a primeira canção de Chausson, sente-se que a voz de Sandrine Piau não é apenas “cristalina”, como se espera de qualquer soprano. No meio de uma nota, como se fosse um diamante que reflete inesperadamente um reflexo de cor, Sandrine Piau cintila.
O repertório desse CD é, além disso, de especial interesse. Debussy faz aqui uma má figura, com “Nuit d’ Étoiles”, talvez sua pior composição. Mas o relativamente desconhecido Charles Koechlin, que merecerá um post qualquer dia, surge fascinante em suas “Sept chansons pour Gladys”, que são uma espécie de ponte entre Fauré (de quem Koechlin foi aluno) e Messiaen (de quem não sei se foi professor). Não sei quem é “Gladys”, mas o compositor tinha uma enorme atração pelas atrizes de Hollywood, apaixonando-se por Lilian Harvey, a quem dedicou algumas peças sem obter resposta.
Mas Koechlin é assunto para outro post. Fico por aqui, com as fotos dele e de sua musa.

Charles Koechlin

Escrito por Marcelo Coelho às 03h16
clínica veterinária
Para a coleção de pinturas comerciais populares, algumas imagens de uma clínica veterinária em Moema.

Certa dificuldade em retratar o cachorro de frente, e a falta de naturalidade no gesto da profissional, não tiram o prazer de apreciar como os volumes do seu corpo, ocultos pela roupa branca, foram bem desenhados.

A ênfase, aqui, está mais no jato d'água e nas bolhas... mas a melhor imagem é esta, do veterinário:

Gosto da expressão atenta de escuta. Mas não sei onde foi parar uma perna do homem.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h21
O coveiro da Revolução
Na revista Harper’s de março, transcreve-se uma entrevista impressionante, capaz de dar idéia precisa do que foi o regime maoísta. Não tanto pelo que significou de perseguição política a dissidentes, mas pelos perigos que uma extrema politização da administração pública era capaz de trazer.
Jang Dao Ling tem setenta e um anos, e foi agente funerário em Chengdu, na China, desde 1957. Eis alguns trechos de sua entrevista.
Comecei em 1957, no auge da campanha antidireitista, de modo que o Partido Comunista local me indicou este trabalho, e se eu recusasse poderia ser tachado de direitista. Naquela época, as pessoas usavam pouco as agências funerárias. Todos os serviços fúnebres eram feitos nas casas e nas aldeias. Em meados da década de 50, o presidente Mao encorajava as pessoas a fazerem cremações, pois não havia espaço nos cemitérios. Mas havia resistência à cremação, e portanto eu não tinha muito trabalho...
O presidente Mao iniciou o Grande Salto Para a Frente em 1958. Alguns jovens invadiram a agência funerária, exigindo que convertêssemos o forno de cremação num pequeno forno siderúrgico, para produzir ferro e aço. O diretor tentou explicar que os dois tipos de forno eram projetados de forma diferente, mas os jovens não acreditaram numa palavra do que ele dizia, e mandaram-no para a polícia. Numa espécie de compromisso, ele os autorizou a montar um novo forno no quintal... Eu corria de um lado para outro como um louco, coletando toda peça de metal que eu podia encontrar, de bicicletas a utensílios de cozinha. Mas foi um desastre total. Produzimos apenas uns pedaços de ferro inútil, de baixa qualidade.
O negócio se tornou mais ativo durante a Grande Fome de 1960. Uma vez que todos estavam ocupados com o grande plano de produção de aço de Mao, ninguém cuidou das plantações. Nesta região morreram dezenas de milhares de pessoas. Era impossível fazer serviços fúnebres individuais. As pessoas não tinham força nem tempo para fazer caixões. Tudo o que se fazia era envolver os mortos em esteiras de palha e empilhá-las para a cremação.
Na primavera de 1961, as coisas ficaram piores. Milhares de pessoas invadiam as montanhas como gafanhotos, procurando desesperadamente coisas comestíveis –cascas de árvore, grama, raízes, mato, insetos. O alto das montanhas fora desmatado para alimentar os fornos siderúrgicos durante o Grande Salto para a Frente. As pessoas que andavam por ali procurando coisas para comer muitas vezes caíam mortas no chão. Os guardas costumavam forçar os prisioneiros –antigos donos de terra, fazendeiros ricos, direitistas—a escalar as montanhas e recolher os cadáveres. Mas os prisioneiros também tinham fome. Ensaiaram uma greve (...) Então o chefe de polícia teve uma idéia inovadora para o recolhimento dos cadáveres. Usando uma corda comprida, ele amarrava vários cadáveres juntos e tinha algumas pessoas jovens para puxá-los até embaixo. Isso economizou muita energia.
Por volta de 1962, os sinais de canibalismo apareceram. Os cadáveres trazidos das montanhas estavam na sua maioria desmembrados. Toda a carne das coxas, dos ombros, das costas e das nádegas tinha sumido. Os líderes do governo local mandaram-nos ficar quietos e nos livrar dos corpos imediatamente.
O texto completo será publicado numa coletânea de entrevistas de Liao Yiwu, The Corpse Walker, em abril, pela Pantheon Books.

Quadro de Yue Minjun
Escrito por Marcelo Coelho às 00h01
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