Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

Aimé Césaire

Aimé Césaire

http://www.salamalandro.redezero.org/aime-cesaire/

Um dos poetas fundamentais da "negritude", ao lado de Léopold Sédar Senghor, Aimé Césaire morreu nesta semana, aos 95 anos. No link para o ótimo blog de poesia Salamandro, a tradução de um poema seu.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h00

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voltaire de souza

Algumas crônicas publicadas no "Agora" desta semana.

 

PODERES DE UMA CUECA

 

 

Consumir mais é desejo de todos. Para Valdete, era uma terapia.

--Luxo não mata ninguém.

A vida sem graça. A rotina no casamento.

--Não sei... o Renato parece que não quer mais saber de mim...

Veio a notícia inusitada.

Os bens de um famoso traficante estavam à venda num bazar.

Relógios. Cafeteiras. Sapatos. Cuecas. Calcinhas.

Tudo a preços de liquidação.

Valdete foi das primeiras a aproveitar o saldão da cocaína.

--Uma calcinha para mim... e uma cueca para o Renato.

O marido gostou das peças íntimas. Em pouco tempo, seu comportamento mudou.

--Vem cá, sua cachorra. Sua safada.

Começou a adotar um excitante sotaque castelhano.

--Te quiero. Y si no me amares, yo te mato.

Valdete estava achando interessante. Mas mudou de idéia.

Numa crise de ciúmes, Renato abateu-a a tiros de escopeta.

O rapaz segue em fuga para Medellín.

A alma de um homem é como uma cueca. Por vezes, pode ser virada do avesso.  

 

SUQUINHO E CAFUNÉ

 

Praias. Natureza. Aventura. O turismo deve ser incentivado em nosso país.

O americano Norton adorava o Brasil.

--A sensualidááádji. As mul-yéérs.

Ele estava hospedado num charmoso hotel de praia.

--Um vélyu caul-çáum di bányu.... a táárdj prwa vah-diyar...

Ao seu lado, a bela morena Talytta oferecia sucos e encantos.

--Olha, Norton... o sol está se pondo... vamos dar um mergulho no mar?

Norton não queria.

--Ishtou com uma pry-guííç...

A rede balançava suavemente.

--Uma molêêuz...

--Puxa, Norton... acho que você está ouvindo muito Dorival Caymmi.

--Faish um cafyunééý...

Veio em seguida um beijo ardente. Não era paixão. Não era Caymmi.

No hospital, o diagnóstico veio na hora.

Dengue. Com direito a muito suquinho e cafuné.

O amor sobrevive a tudo.

Mas as flechas de Cupido muitas vezes não passam de uma picada de mosquito.

 

 

DETALHES EM METAL

 

Consumir é desejo de todos.

O sonho de Cynara era adquirir uma bolsa de grife.

--Autêntica. De verdade.

A notícia inusitada chegou rapidamente a seus ouvidos.

Os bens de um conhecido traficante de drogas seriam postos à venda.

--Nossa. Mais barato que liqüidação.

Seu Fiesta cor de chumbo rumou rapidamente para o local do bazar.

--Ofertas de arrasar. Queima total.

Depois de muita luta, Cynara saiu com um troféu.

Uma bolsa tipo bauzinho. Forro acetinado. Detalhes em metal.

A caminho de casa, uma surpresa no sinal vermelho.

O menor carente Xaveco tinha um 38 na mão. E fazia exigências.

--Passa a bolsa para cá.

A revolta de Cynara foi imediata.

--A bolsa de um megatraficante. Passar para esse pé-de-chinelo. Absurdo.

Sua resistência teve resposta rápida. Três tiros. Queima total.

O marido já encomendou o caixão. Tipo bauzinho. Forro acetinado. Detalhes em metal.

O luxo, como a morte, nem sempre chega na hora certa.

 

O MUNDO É GRANDE

 

A vida na cidade grande é rica em sensações.

Wagner tinha acabado de se aposentar.

--Mas sempre encontro o que fazer.

A família tinha dado para ele um celular com câmera fotográfica.

--Beleza. O mundo é grande.

Primeiro, foi o bazar do traficante Abadia.

--Vamos lá. Testemunha ocular da história.

Depois, a Mulher Melancia apareceu no Ceagesp.

--Testemunha ocular da gostosura.

Veio então a notícia.

O pai e a madrasta da menina Isabella reencontram a liberdade.

Wagner resolveu rumar para lá.

Seu Chevette 88 acelerou pelas ruas da cidade.

Os olhos curiosos de Wagner deixaram de ver uma coisa.

A kombi desgovernada que descia uma ladeira em sentido contrário.

O corpo do aposentado é retirado com dificuldade das ferragens.

Diante dos olhares de muita gente. Que também tira foto com celular.

Fotos e fatos são importantes. Mas não se pode ficar desatento ao contexto geral.

  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h29

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Casamento gay: a pré-história

Muito antes de se falar em união civil entre homossexuais, e antes mesmo que as suspeitas a respeito da orientação sexual de A ou B se generalizassem no cotidiano e nas conversas, uma forma de sacramentar a ligação entre pessoas do mesmo sexo era comum no âmbito do culto cristão.

É o que leio em The Philosophy of Friendship, de Mark Vernon, doutor em Filosofia e ex-sacerdote anglicano. Vernon conta, por exemplo, que na igreja dos Dominicanos em Constantinopla pode-se ver o túmulo de Sir William Neville e de Sir John Clanvowe.

Os dois morreram em 1391 e foram enterrados juntos. Dois elmos de cavalaria estão sobre o túmulo, como se unidos num beijo. Isso, na época, era sinal de que ambos eram “irmãos jurados”. O beijo dos elmos representa o “beijo da paz” trocado na missa, antes da comunhão. Esse tipo de beijo marcava uma conexão divinamente sancionada entre dois amigos. Ou amigas: Anne Lister e Ann Walker trocaram esse beijo, na Páscoa de 1834, rezando para terem “uma união feliz”, que “fosse tão boa como um casamento”.

Na capela do Christ’s College, de Cambridge, há um túmulo compartilhado por John Finch e Thomas Baines, datado de 1682. Tem uma inscrição.

"Para que aqueles que durante a vida fundiram seus interesses, fortunas, conselhos, e mesmo almas, possam do mesmo modo, na morte, ao menos fundir suas sagradas cinzas."

Questões de herança, aposentadoria e plano de saúde não estavam previstas. Quanto ao resto da vida terrena, não se sabe.

Mais sobre o assunto pode ser encontrado no livro The Friend, de Alan Bray (Chicago, 2003).

Túmulo de John Finch e Thomas Baines em Oxford

Escrito por Marcelo Coelho às 23h59

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imagens contra Pequim

São meio fraquinhas, e não tão fáceis de achar na web quanto eu pensava, os anti-logotipos de organizações de direitos humanos a respeito das Olimpíadas de Pequim. Os interesses comerciais e a vontade geral do público, nessas horas, fazem vista grossa aos antipaticíssimos, para dizer o menos, governantes chineses. Não sei se o boicote seria a melhor maneira de estimular um pouco mais de abertura política na China, ou se, ao contrário, a própria realização dos jogos ajuda nisso. Pesa no meu julgamento o desinteresse pela competição, pelas "esperanças brasileiras" no tiro ao alvo (alguém do Bope concorre?), na natação e coisas do gênero. Gosto quando a corrida da tocha olímpica tropeça nos ativistas. Em todo caso, é uma torcida entre outras. Alguns anti-logos:

 

este último apareceu num site que publica relatórios sobre o trabalho infantil na China, com destaque para as fábricas que produzem artigos licenciados dos Jogos.

Há também a camiseta com a imagem clássica, que pode ser comprada no site dos Repórteres Sem Fronteiras:

Escrito por Marcelo Coelho às 14h11

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Poemas de separação

Poemas de separação

Muitos poemas no final de  A fúria da beleza, livro de Elisa Lucinda que já comentei aqui, tratam da separação amorosa. Seleciono alguns trechos.

 

PEDIDO DE AMOR

 

Cuide de nós, meu amor.

 

(...)

 

Cuide de nosso amor,

antúrio, avenca, samambaia,

Polvilhe teus elegantes dedos

nas primaveras das plantas de nossas casas.

Essas que existem na minha e na tua rua,

e essa perene que brilha entre as duas.

Aquela primavera-cigana que se estabelece nas estações,

se instala em todas as pousadas, quartos e cafundós,

se espalha em todos os chalés

e vai do hotel aeroporto, passa na Broadway, Cabo Verde,

Canadá, até o reino de Itaúnas.

Cuide comigo das nossas dunas

onde brincam e crescem nossos meninos,

para que vença o amor,

para que triunfe o melhor sentimento.

 

Porque não é de vento nossa estrada,

embora voe.

Nem é de mentira nossa dor,

embora perdoe.

 

Acho tão bonitos o final, a idéia de um amor abandonado de que se precisa cuidar, a imagem de uma planta vivendo entre duas casas, que não faz mal se há alguns versos dispensáveis (“para que vença o amor” e esse terrível “polvilhe teus elegantes dedos”).

 

Este também é muito bonito:

 

REBANHO PERDIDO NO PARAÍSO

 

Sem você a vida não é que seja exatamente ruim,

mas é que fica manca e puxa de uma perna toda beleza.

Então é surda ela de um ouvido

ou, o que não duvido, é cega dos óio.

(...)

Eu choro, por dentro, nas confeitarias,

choro nos balcões de caldo de cana e também nos balcões de poesia.

Tantos perdões te ofereci,

muitas compreensões te ofertei,

canções que cantei sem alarde nos banheiros em seu nome!

Tolerâncias-rebanho pus no altar de nossas oferendas

e agora, passeiam sem agendas nossos sonhos.

Gados sem vaqueiro percorrem o escuro do pasto.

Lá vão eles, são nossas doces quimeras.

Ovelhas sem rumo, porteira sem tramela.

Ninguém avisou a elas que podia ser de precipício o próximo passo.

Também pudera,

ovelhas pensam que o guia é certo como o sol, ele mesmo, o astro.

 

Gosto desse gado (por que o plural?) percorrendo “o escuro do pasto”. Compensa (e não posso deixar de apontar as implicâncias) os “balcões de poesia”, “o altar de nossas oferendas” e, deus do céu, essas “agendas de nossos sonhos”, que deviam ser riscadas. Mas que coisa verdadeira e misteriosa essa de chorar nos balcões de caldo de cana! Ai, dona Elisa Lucinda, que gato e sapato fizeste do rigor...

Clique no link para mais poemas de Elisa Lucinda.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h34

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Pequenos retratos

Este e outros quadros de Ana Mazzei estão no seu blog. Achei muito bonito o jogo do azul, do preto e do rosa, e, em especial, o recorte, o desenho do debruado preto da saia da mulher; repare nas inclinações do pé e da fivela do cinto. Já o ombro direito do homem não me parece bem solucionado. O principal, talvez, seja o contraste entre a simpatia espontânea do gesto, que tem a simplicidade de uma boa fotografia, e o quanto tudo se torna mais isolado e pungente ao ser traduzido em pintura. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h57

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Palestra pela internet

O ciclo "Vida vicio virtude", do qual participo, está tendo palestras em São Paulo, no Rio e em Belo Horizonte. As do Rio estão sendo transmitidas ao vivo pelo site da ABL . Veja a programação das próximas.

A intemperança, com Renato Janine Ribeiro, dia 22 de abril

A vergonha, com Ruwen Ogien (tradução simultânea do francês), dia 23

A passividade, com Maria Rita Kehl, dia 28

A amizade, comigo, dia 29

A intolerância, com Eugênio Bucci, dia 30

A indiferença, com Renato Lessa, dia 6 de maio

A liberdade, com Marilena Chaui, dia 7 de maio,

sempre às 19 horas.

Só lembrando: essa é a programação no Rio, para quem quiser acompanhar pela internet. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h45

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Vida vício virtude

É assim, sem vírgulas nem ponto, que se intitula o novo ciclo de palestras organizado por Adauto Novaes, que começa em São Paulo no dia 16, com o filósofo Franklin Leopoldo e Silva, falando sobre “O vazio do pensamento”. Dia 2 de maio será a minha vez, falando sobre amizade.

 

Recebi hoje o folheto que contém a sinopse do que dirá cada palestrante, e estou lendo para ver se esquento o motor, meio emperrado ultimamente.

 

Desde “O Silêncio dos Intelectuais”, e depois em “O Esquecimento da Política”, Adauto Novaes tem se dedicado a organizar ciclos de palestras que reflitam sua preocupação com a crise, com a mutação dos valores no mundo contemporâneo. Eis algumas palavras de sua introdução:

 

O século XXI nasce sob o signo da derrota dos projetos políticos revolucionários de emancipação e de um silêncio provisório da “aposta de refundação” filosófica, espiritual, ideológica ou política, ao se ver cercado de guerras sem que valores e virtudes se contraponham à barbárie.

 

(...) Vivemos um paradoxo: é exatamente no contexto da mundialização que virtudes e valores tendem a perder sua universalidade. Talvez seja correta a hipótese de oposição entre mundial e universal. O pior é que a idéia da relatividade destes valores e virtudes demonstrou que não tem força para enfrentar os problemas postos hoje a todas essas áreas da atividade: política, estética, sensibilidade,mentalidade, costumes etc.

 

(...) Que novos sentidos dar às velhas virtudes? Existe hoje uma assimetria, um descompasso, entre as condições de produção material e técnica e seus equivalentes em valores espirituais e mentais –entendendo por valores espirituais o trabalho do espírito e sua “potência de transformação”. Isso quer dizer que, em determinados momentos da história, pode haver acontecimentos sem conteúdo, pesadelo de uma realidade que não constrói vínculos com o pensamento, com os valores e as virtudes.

 

(...)Por fim, ao dar forma ao título deste ciclo –vida vício virtude—sem que nada separe as palavras, queremos dizer que é difícil separar vício e virtude. Deixemos a pergunta aos conferencistas: existe entre virtude e verdade, de um lado, e entre vício e erro, de outro, uma relação tão unívoca quanto pensamos? Ou tempos de certezas absolutas e “ideais puros” não seriam também perigosos? É certamente isso que Montesquieu quis dizer: “Quem diria! A própria virtude precisa de limites.”

 

Há diversas coisas a comentar aqui, e não é, acho, a primeira vez em que me sinto um pouco distante do pessimismo, ou das inquietações, de Adauto Novaes. Concordo com a idéia de que estejamos vivendo um “silêncio provisório” na aposta de “refundar” uma filosofia ou uma política que se oponha à barbárie. Mas acho que “a derrota dos projetos políticos revolucionários de emancipação”  não constitui nenhum choque recente ao pensamento político; o século 20 inteiro, pelo menos desde os processos stalinistas da década de 1930, não é senão a repetição desse mesmo sentimento de derrota. Ao mesmo tempo, um projeto não propriamente “revolucionário” de emancipação, pelo menos desde meados do século passado, vai se mostrando muito menos derrotado do que se pensa. As liberdades democráticas avançaram, o bem-estar material também (e é uma bela de uma emancipação), os níveis de instrução e de liberdade sexual mais ainda.

 

A barbárie, é claro, prossegue. Mas a assimetria entre crescimento material e empobrecimento espiritual não me parece uma novidade recente; nem sei como dimensioná-la com clareza. O que representou a Renascença para 90% da população européia da época, mergulhada no analfabetismo e na miséria?

 

Quanto a “acontecimentos sem conteúdo”, ao “pesadelo de uma realidade que não constrói vínculos com o pensamento, com os valores e as virtudes”, a formulação de Adauto Novaes é sem dúvida provocativa, e pode ser entendida de diversos modos.

Creio que nas décadas de 1950 e 1960, os acontecimentos estavam cheios de “conteúdo”. Cito, por exemplo, as revoltas anticolonialistas na Ásia e na África. Será que era simples, entretanto, construir vínculos entre o que acontecia e os “valores e as virtudes” em jogo? O pesadelo não terá começado, por exemplo, quando se acreditava que certos valores estavam sendo plenamente representados num tipo de luta política onde, muitas vezes, a sanguinolência e o puro “realismo” da tática revolucionária na verdade os negavam de forma chocante?

 

E, se for assim, as “certezas absolutas” daqueles movimentos, e daquelas vinculações entre “acontecimento” e “valor”, mostraram-se perigosíssimas. Entretanto, só é possível, a meu ver, aquilatar o seu perigo a partir do momento em que estamos, precisamente, vendo as coisas a partir de um “ideal puro”. Sem essa “pureza”, como não se entregar ao perigo de uma cegueira moral em nome do “sentido revolucionário mais profundo” de seja lá que movimento político?

 

Enfim, isso nem se relaciona diretamente com o tema da minha palestra. Vou me desembrulhando como posso.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h07

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A poesia de Elisa Lucinda

A poesia de Elisa Lucinda

Virou moda, eu diria quase um cacoete em muitos críticos, elogiar este ou aquele poeta pelo seu “rigor formal”. Brinco que há mais rigor na poesia contemporânea brasileira do que no IML.

 

Claro que João Cabral era rigoroso, medido, centrado, intelectual. Drummond, também, mas de outro jeito. Claro que neles não existe uma palavra fora do lugar, uma explosão fora de hora...

 

Mas o cabralismo pode ser um defeito, quando serve apenas à timidez. Nesse caso, a influência de Manuel Bandeira é muito mais rara e difícil de ser trabalhada, porque a poesia de Bandeira não depende de se espremer em letra miúda e versinho “rigoroso”; ela se solta com pouca coisa, não precisa de verborragia mas tampouco de aperto encasacado.

 

Abri por acaso um livro de Elisa Lucinda, chamado A Fúria da Beleza. É a segunda edição, publicada em 2007 pela Record. Sem dúvida, essa escritora, cantora e atriz, nascida em 1958 em Vitória, corre muitos riscos quando escolhe um verso solto, cheio de exclamações, coloquial e bastante “declaratório” quando diz do que gosta, do que não gosta, quando fala de amor, paixão, criança... Mas que importa! “Deus salve as belezas corajosas!” diz ela, e descreve bem, com esse verso, um poema como o que se segue:

 

Ele

 

Já começa a beijar o meu pescoço

com sua boca meio gelada meio doce,

já começa a abrir-me seus braços

como se meu namorado fosse,

já começa a beijar a minha mão,

a morder-me devagar os dedos,

já começa a afugentar-me os medos

e dar cetim de pijama aos meus segredos.

Todo ano é assim:

vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,

vem ele disposto a quebrar meus galhos

e a varrer minhas folhas secas.

Já começa a soprar minha nuca

com sua temperatura de macho,

já começa a acender meu facho

e dar frescor às minhas clareiras.

Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,

seu discurso sedutor de renovação,

suas palavras coloridas,

e eu estou na sua mão.

 

Todo ano é assim:

mancomunado com o vento, seu moleque de recados,

esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos,

levanta-me a saia, beija meus pés,

lábios frios e língua quente,

calça minhas meias delicadamente

e muda a seu gosto a moda de minhas gavetas!

 

É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela,

meu jogo e minhas varetas.

Parece Deus, posto que está no céu, na terra,

nas inúmeras paisagens,

na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia,

dentro e fora dos meus vestidos,

na minha cama, nos meus sentidos.

 

Todo ano é assim:

já começa a me amar esse atrevido,

meu charmoso cavalheiro, o belo Outono,

meu preferido.

 

Bem, há um enorme controle e “rigor”, se quisermos, na maneira com que Elisa Lucinda deixa a metáfora meio escondida, meio sugerida, ao longo do poema, para revelá-la só no final.

 

Há um certo “passadismo”, também, nesse romantismo das estações, que me lembra um poeminha francês sobre o mês de Abril, que volta feliz “comme un prince acclamé après un long exil”. Ao mesmo tempo, que poder de transformação em dizer desse amante “que varre minhas folhas secas, que vem quebrar meus galhos”...

 

Por vezes, a inspiração fraqueja: “inúmeras paisagens”, “discurso sedutor de renovação”, são frases de uma triste vagueza comparadas à precisa e feliz lembrança do “muda a seu gosto a moda das minhas gavetas”. E tudo é feminino de verdade, sem feminice. Vamos ver como continua o livro.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h15

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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