Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

Apocalipse motorizado

Apocalipse motorizado

Escrevi há uns bons anos sobre Apocalipse Motorizado, de Ned Ludd: um conjunto de textos persuasivos e magnéticos contra o uso do automóvel. A tendência para aderir aos movimentos pró-bicicleta ou dia sem carro só aumenta com o trânsito de São Paulo e as ameaças de aquecimento global. O livro, editado pela Conrad, foi agora posto gratuitamente para download no site da editora.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h07

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Lula of Brazil

Lula of Brazil

Não tinha ouvido falar do inglês Richard Bourne, que faz parte, pelo que leio na internet, de um instituto de "commonwealth studies" em Kensington. Saiu dele, nos Estados Unidos, uma biografia publicada na University of California Press, Lula of Brazil-- The Story so far. Trechos do livro podem ser lidos na Amazon. Do que espiei, o tom é amplamente favorável, do tipo: "em três anos de governo, Lula fez mais viagens ao Exterior do que Fernando Henrique em quatro". Ah. Um capítulo é dedicado às dificuldades com o mensalão. Não é o tipo de livro que eu encomendaria na Amazon, mas fica o registro.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h44

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Adalgisa Nery

 

Este é o texto integral do poema de Adalgisa Nery que citei no artigo de hoje, sobre internet, Google Earth e vizinhanças.

 

 

A POESIA SE ESFREGA NOS SERES E NAS COUSAS

 

 

Nunca sentiste uma força melodiosa

Cercando tudo o que teus olhos vêem,

Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa

Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?

Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas

Deparando com um campo devoluto

Semelhante a uma virgem esquecida?

Num circo, nunca se apoderou de ti um amargor sutil

Vendo animais amestrados

E logo depois te mostrarem

Seres humanos imitando um réptil?

Nunca reparaste na beleza de uma estrada

Cortando as carnes do solo

Para unir carinhosamente

Todos os homens, de um a outro pólo?

Nunca te empolgastes diante de um avião

Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,

Ou de qualquer outra invenção?

Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia

Ao mistério da noite,

Na extensão da tua dor

E na delícia de tua alegria?

Pois então faz de teus olhos o cume da mais alta montanha

Para que vejas com toda a amplitude

A grandeza infindável da poesia que não percebes

E que é tamanha!

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h15

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Adalgisa Nery

 

Este é o texto integral do poema de Adalgisa Nery que citei no artigo de hoje, sobre internet, Google Earth e vizinhanças.

 

 

A POESIA SE ESFREGA NOS SERES E NAS COUSAS

 

 

Nunca sentiste uma força melodiosa

Cercando tudo o que teus olhos vêem,

Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa

Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?

Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas

Deparando com um campo devoluto

Semelhante a uma virgem esquecida?

Num circo, nunca se apoderou de ti um amargor sutil

Vendo animais amestrados

E logo depois te mostrarem

Seres humanos imitando um réptil?

Nunca reparaste na beleza de uma estrada

Cortando as carnes do solo

Para unir carinhosamente

Todos os homens, de um a outro pólo?

Nunca te empolgastes diante de um avião

Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,

Ou de qualquer outra invenção?

Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia

Ao mistério da noite,

Na extensão da tua dor

E na delícia de tua alegria?

Pois então faz de teus olhos o cume da mais alta montanha

Para que vejas com toda a amplitude

A grandeza infindável da poesia que não percebes

E que é tamanha!

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h14

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"Foram eles"

Quem vê a capa da revista “Veja” desta semana lê primeiro a frase, em letras enormes: FORAM ELES. Em seguida, se ainda estiver olhando a primeira página e não tiver corrido para ler a matéria interna, encontrará escrito em amarelo, em tamanho bem menor: “Para a polícia, não há mais dúvidas sobre a morte de Isabella”.

 

É uma forma ruim e perigosa de fazer jornalismo. “Veja” parece endossar a acusação da polícia, enquanto se registra uma fúria popular desenfreada contra o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá.

 

Certo, não há nenhum indício de uma “terceira pessoa” no caso. Ainda que sejam de 99% as possibilidades de eles terem matado a pequena Isabella, o 1% que resta possui, a meu ver, um peso equivalente se quisermos evitar mais uma injustiça jornalística do gênero Escola Base ou Bar Bodega.

 

Se a revista dispusesse de alguma informação exclusiva que, em tese, encerrasse defintivamente as dúvidas sobre o caso, poderia investir com mais autoridade nesse tipo de enfoque. Não custava adotar um mínimo de sobriedade nessa cobertura.

 

Não acredito que seja apenas para “vender revista” no sentido mais primário da expressão, corrente nos que acusam o sensacionalismo da imprensa em geral.

 

Acho que “Veja” quer, mais uma vez, poupar do leitor o trabalho da dúvida –e assumir, por si mesma, a missão de guiar a opinião pública naquilo que acha certo. Editorializar um escândalo político ainda vai. Mas um caso de crime familiar já envolve atitudes que nem mesmo a ideologia e o partidarismo explicam.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h16

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mais para filósofos

mais para filósofos

http://www.paris4philo.org/

Heidegger declamando poemas de Hoelderlin? Gravações de entrevistas e palestras de gente como Lévi-Strauss? É no link aí em cima.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h03

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Blog humilhante

Blog humilhante

http://fish.blogs.nytimes.com/

Imperdível o blog do filósofo Stanley Fish no "NY Times". Em dois longos posts, a propósito de um livro que já foi traduzido no Brasil ("Filosofia Francesa", de François Custet), ele explica da maneira mais clara e razoável do mundo o que representam as teorias da desconstrução, Derrida, essa coisa toda. E faz um belo comentário sobre a morte de Charlton Heston também.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h44

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Clarice é pop?

Clarice é pop?

Clarice Lispector conta com grande número de leitores entre jovens e adolescentes. Faz sucesso na blogosfera. Era bonita e suas fotos, mais do que isso, têm aquele charme das grandes artistas de cinema do passado.

 

Se isso basta para torná-la “pop”, tudo bem. Foi com esse título que apareceu uma reportagem na “Ilustrada” de sábado, tomando como gancho uma fotobiografia de Clarice, organizada por Nádia Battela Gotlib. Mas esse livro, de capa dura, com 651 páginas, das quais cerca de 170 são dedicadas a notas de pesquisa contextualizando e datando cada uma das imagens publicadas, está longe de ser um álbum de fã-clube. 

 

Ferreira Gullar, entrevistado na matéria da “Ilustrada”, diz: “Não por acaso se faz um álbum assim com Clarice. É justamente porque ela é uma mulher bonita e misteriosa.”

Claro que beleza e mistério ajudam. Mas já houve, há tempos, um álbum parecido, em formato maior, dedicado a Manuel Bandeira. Na França, a coleção da Pléiade produz álbuns sobre autores tão diversos quanto Rimbaud (pop, bonito, misterioso) e Maupassant (o contrário disso tudo). O Instituto Moreira Salle faz publicações parecidas, em papel couché e cobertas de fotos, sobre autores como Guimarães Rosa, Raduan Nassar e Ignácio de Loyola Brandão. Não ficaram mais ou menos pop por causa disso.

 

Abrindo a fotobiografia de Clarice Lispector, o que mais impressiona não são as fotos da autora, mas a quantidade de pesquisa sobre os lugares de onde veio e por onde passou. Salta à vista, em primeiro lugar, o abrasileiramento de sua família.

 

Tudo começa numa cidadezinha da Ucrânia, e seguimos todo o percurso dos pais de Clarice até chegar ao Nordeste brasileiro. Vemos casas tortas e caídas de judeus entre os pinheiros de Tchechelnik, que lembram os quadros de Vlaminck e de Chagall; ruas apinhadas na Moldávia, cavalarias de cossacos, carroças em Budapeste.

 

E logo depois, inundada de sol, uma praça de Maceió onde o tio de Clarice tinha uma fábrica de sabão. Primos e irmãs posam para as fotos de braços de fora. Uma foto de Clarice aos dez anos, de vestidinho preto pela morte da mãe, cabelo curto, apoiada na mureta de um chafariz, mostra-nos a futura escritora sem nenhum mistério, com aquele tipo de olhar fundo de criança antiga, amorenada, modesta, brasileiríssima: Clarice podia passar por uma irmã menor de Rachel de Queiroz. Outra foto, com o primo Anatólio Rabin, em 1930: é uma pequena alagoana triste e enfezada.  

 

Passam-se os anos, e os capítulos seguintes mostram todo o circuito internacional  elegante em que Clarice acompanhava seu marido, o diplomata Maury Valente. Na verdade, ela só surge em toda a sua beleza depois do primeiro filho, e depois de separar-se do marido. Este, aliás, é a figura realmente misteriosa do casal: sempre com a mesma cara, a mesma expressão de coisa nenhuma...

 

Junto vão dezenas de fotos dos manuscritos da autora, das capas dos livros que leu e que escreveu. É documentação pura, cheia de curiosidades nada “pop”, como por exemplo uma foto antiquíssima dos mineiros Otto Lara Resende (de bigode), Paulo Mendes Campos (aparentando menos de 15 anos...) e outros registros raros, como de um Santiago Dantas na flor da mocidade.

 

O leitor sem dúvida é movido pela curiosidade algo mexeriqueira de saber como era a cara do marido ou em que tipo de casa Clarice vivia. Mas é o que se pode dizer de qualquer obra biográfica; o que temos aqui, mais do que oba-oba e idolatria, é documentação. Se isso virou pop, ótimo para o pop.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h34

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Aimé Césaire (2)

Procurei mais coisas de Aimé Césaire para postar aqui, mas pela internet não encontrei muita coisa. O blog de Luís Favre tem vários comentários sobre as posições políticas do poeta (que foi comunista até 1956, optando depois pela luta anticolonialista independente dos povos negros). O site aimécesaire ponto-org é inútil (e lentíssimo) para quem procura textos originais do poeta.

 

Procurando nas antologias de poesia francesa que tenho em casa, topei com um punhado de poemas, todos difíceis de traduzir (muitos termos locais de fauna e flora) e, principalmente, típicos daquela imagética surrealista que raras vezes, para dizer a verdade, me convence. Acontece que o surrealismo de Césaire está impregnado da realidade negra e da paisagem da Martinica, onde ele nasceu (e de cuja capital foi prefeito por mais de 50 –cinqüenta—anos).

 

Aimé Césaire não nasceu na capital de seu país, mas sim numa pequena cidade, Basse Pointe, no sopé de um vulcão, o Mont Pelé. Esse ‘monte pelado’ ficou famoso em 1902, quando uma erupção gigantesca fez dezenas de milhares de vítimas. Além disso, causou pânico nos animais da floresta, que invadiram enlouquecidos as cidades: lagartos, cobras, amontoavam-se pelas ruas. Talvez a informação seja de ajuda para entender o poema que me arrisco mal e mal a traduzir. “Anolis”, palavra estranha que mantive no texto, é um gênero de lagartos.

 

SOL SERPENTE

 

 

Sol serpente olho a fascinar meu olho

e o mar empiolhado de ilhas estalando nos dedos das rosas lança-chamas e meu corpo     intacto de fulminado

A água sacia as carcaças de luz perdidas no corredor sem bombeiros

os turbilhões de granizo aureolam o coração fumegante dos corvos

nossos corações

são a voz dos relâmpagos aprisionados girando sobre seus gonzos de lagarta

transmissão de anolis na paisagem de vidros quebrados

são as flores-vampiro subindo no turno das orquídeas

elixir do fogo central

fogo justo mangueira da noite coberta de abelhas

meu desejo um acaso de tigres surpreendidos nos enxofres

mas o despertar de estanho se doura de jazidas infantis

e meu corpo de calhau comendo peixe comendo pomba e sono

o açúcar da palavra Brasil no fundo do charco

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h50

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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