Assim de chofre, pensei que era algum poema de Mário Quintana dedicado ao Dia das Mães. Não. Apesar da organização em estrofes e versos, era um texto da Associação Brasileira das Agências de Publicidade, a favor dos anúncios de cerveja. Saiu há alguns dias no jornal, mas não dá para passar batido. Transcrevo e comento.
QUEREM PROIBIR
A PUBLICIDADE
DE CERVEJAS NO BRASIL.
É O MESMO QUE PROIBIREM
A FABRICAÇÃO DE ABRIDORES
DE GARRAFAS NO BRASIL.
[eles não tiveram jeito de dizer: “é o mesmo que proibir a fabricação de cervejas no Brasil”, porque correriam o risco de alguém achar uma boa medida. Mas a comparação ficou estranha, porque abridores de garrafa abrem outras coisas além de cerveja, como suco de uva e groselha, por exemplo. De resto, por que tanta preocupação? Proibida a publicidade de cerveja, nada impede que surjam novas contas e novas batalhas publicitárias envolvendo, por exemplo, Maguary e Superbom.]
Nem a propaganda,
nem o abridor são a motivação
para irresponsáveis dirigirem embriagados.
[“motivação”, eis a palavra capciosa. Um abridor não “motiva” ninguém. A propaganda sim. Mas “motivação” aqui foi usado como sinônimo de “causa”, inocentando obviamente o abridor e, de contrabando, a propaganda.]
A propaganda ou o abridor
não são os culpados pela venda criminosa
de bebidas alcoólicas a menores.
[mas a propaganda,ao contrário do abridor, pode dar vontade em menores de beber cerveja]
Abridores e propaganda
não são incentivadores dos covardes
que praticam a violência doméstica.
[quem disse, aliás, que esses covardes bebem cerveja...? A julgar pela propaganda, os bebedores de cerveja são em geral solteiros e têm ótimo relacionamento com mulheres].
Essas são questões que só a educação,
a democratização da informação
e o rigor no cumprimento das leis podem resolver.
[entra de contrabando aqui outra palavra mágica, “informação”, cercada de conotações positivas, para depois ser reutilizada.]
Por isso,
proibir a publicidade de cervejas
não vai mudar em nada esse quadro.
[gosto do plural aqui: “cervejas”. O texto, para se mostrar neutro e isento, zela pelo pluralismo do produto, reconhecendo subliminarmente que há cervejas e cervejas, boas ou más, e que compete, claro, ao leitor escolher entre elas.]
A não ser tirar de você o direito
de gostar ou não gostar desta
ou daquela publicidade.
[Eis um direito novo no mercado. Naturalmente, eles não conseguiriam ir tão longe a ponto de dizer que a lei tiraria o direito de tomar cerveja, porque isso não ocorre. Então, é a própria publicidade que se apresenta como produto a ser usufruído, apreciado... sem moderação.]
De se informar e de formar a sua opinião.
[Opinião sobre o quê? Sobre a qualidade de determinado anúncio? Era isso o que prenunciava a estrofe anterior. Mas é claro que aqui a opinião se refere a tomar ou não cerveja, desta ou daquela marca; opinião que será “formada”, segundo o raciocínio do texto, vendo-se o maior número de anúncios possíveis, para julgar com plenitude de informação o que fazer com o abridor na mão.]
Um direito tão sagrado,
quanto o que você tem de comprar ou não
um abridor de garrafas.
[de novo, não tiveram coragem de dizer que o direito de tomar cerveja é sagrado. Entra então o álibi do abridor de garrafas]
E decidir o que fazer com ele.
Obrigado, mas posso decidir sozinho o que fazer com ele. Sem ninguém me martelando na cabeça que cerveja é alegria, corpo atlético, potência sexual etc.
Como sempre, esse tipo de defesa invoca a “liberdade de informação”. Mas não se trata de informar ninguém: trata-se de induzir pessoas a um comportamento que se quer que elas tenham.
Em resumo, uma droga.

No site PUNDO3000, há fotos comparando anúncio e realidade. Vale ver.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h28
Algumas crônicas recentes do jornal "Agora".
E ENTRETANTO SE MOVE
Em São Paulo, a terra treme.
No geral, entretanto, a vida continua a mesma.
A rotina abafava o casamento de Marli.
--O Gonçalo é um bom homem, mas...
Tinha-se extinguido a velha chama do amor.
--Ele chega em casa, e todo dia é a mesma coisa.
--Marli. Traz a cerveja.
O noticiário. A novela. A janta. A outra garrafa.
Gonçalo ia para o quarto se arrastando de sono.
Naquela noite, carinhos se trocaram.
--Vem, Gonçalo. Que isso não dói.
Movimentos lentos e ritmados tomaram conta do casal.
De repente, o acontecimento inusitado. O ponto G. O clímax do amor.
--Gonçaaaalooo... aííhnhh... faz mais. Desse jeitooo...
Marli nunca tinha sentido tanto prazer. Olhou para o marido.
Ele dormia profundamente. Imóvel. Quem tinha se movido era a cama da suíte.
Marli suspira. E espera ardentemente um outro terremoto.
O lar, como o subsolo, esconde perigosas placas tectônicas.
MILAGRES ACONTECEM
Nossos jovens precisam de mais contato com a natureza.
Rodrigo e Cauê eram adolescentes de classe média.
Feriadão. Um carro. Um pouco de dinheiro no bolso.
--Vamos pegar uma praia?
Os dois irmãos eram adeptos do surfe.
Santa Catarina é um bom destino para os ligados no mar.
Tempo feio. Ressaca. Bom, às vezes, para as atividades da prancha.
Caía a tarde. Rodrigo fazia questão.
--Hora do baseado.
Os amigos se perderam na contemplação do horizonte sem fim.
--Pô... que barato...
Veio o LSD. A cabeça de Cauê zunia. Ele teve um susto de repente.
--Cara. Alucinei. Que é que é isso?
Um padre acenava desesperado no céu. Preso a centenas de balões coloridos.
Rodrigo e Cauê vieram para São Paulo antes do tempo.
Juram que não vão mais usar drogas. E não param de ler a Bíblia.
A mãe prefere não falar nada a respeito da tragédia do padre Adelir.
Mas a realidade, quando alucina, também opera milagres.
JANELA INDISCRETA
Medo. Ódio. Suspeita. O crime e a barbárie invadem os lares da classe média.
Lisandra tinha acabado de se mudar para seu novo apartamento.
O Condomínio Chateau de Landru oferecia piscina, play ground e churrasqueira.
Uma vista privilegiada da Paulista era garantida pelas sacadas neoclássicas.
A noite começava tranqüila lá pelos lados do Paraíso.
Lisandra notou uma movimentação estranha no prédio em frente.
Um homem corpulento ia e vinha. Parecia carregar um corpo.
--Matou alguém. Tenho certeza.
Depois, veio a dúvida.
--Acho que é uma mala grande. Mas isso é estranho também.
Lisandra pensou mais um pouco.
--Matou, picou e guardou na mala. Isso é muito comum.
Lisandra ajustava o foco do binóculo. Subiu em cima da cama para ver melhor.
O homem apagou a luz. Lisandra debruçou-se na janela.
O binóculo quis escapar das mãos da dona de casa. Um movimento brusco.
Lisandra perdeu o equilíbrio. Caiu do décimo andar. Sem chance de ver mais nada.
Crimes podem ser testemunhados em toda parte.
Mas não é preciso binóculo para ter visões do paraíso.
Escrito por Marcelo Coelho às 21h46