Primeiro casamento

A babá de meus filhos casou-se neste sábado, só no civil, e fomos convidados para o almoço de comemoração. Há vários dias as crianças entregavam-se a muita expectativa e excitação, creio que principalmente devido às roupas especiais –paletozinho, etc.—que queriam exibir na festa.

 

Dormiram durante o longo trajeto de carro, e comportaram-se de modo mais ou menos normal, eu acho: certo estranhamento diante da quantidade de convidados, muita euforia ao ver a babá vestida de noiva, certo sucesso em roubar, por alguns minutos, o foco geral das atenções. Meu filho de 4 anos não se conformava de que um bolo pudesse ser cortado sem parabéns nem velinhas; quanto ao mais, ele e seu irmão maior (6 anos) comeram, brincaram, conversaram.

 

Prestei atenção no momento em que foram apresentados ao noivo; conheciam-no apenas de fotografia. Nenhuma emoção especial, nenhuma hostilidade, nenhum ciúme.

 

Lembro que também tinha seis anos quando minha babá se casou. O noivo, que trabalhava num bar, fizera um cuidadoso trabalho de aproximação comigo: sempre que aparecia em casa trazia uma ou outra guloseima; incumbido de carregar as alianças até o altar no dia do casamento, creio que dei conta do recado. Sabia que estava me separando da minha babá, que ela deixaria de morar comigo, mas bem ou mal eu sabia, também, que deveria conformar-me com o fato; a tristeza que sem dúvida eu estava sentindo foi controlada.

 

A babá dos meus filhos não deixará de trabalhar conosco, mas seguirá outros horários e agendas. Tudo ia bem, portanto, durante a festa. Mas quando chegou a hora de voltarmos para casa, meu filho maior disse que queria ir junto com a babá e o noivo para a viagem de lua-de-mel ao litoral. Sentei-o no meu colo, expliquei-lhe o que era lua-de-mel, citando até a clássica frase de cinema dos noivos que, ao fechar a porta do quarto, dizem “enfim, sós!”

 

Um choro manso, ou nem isso, só dois olhos marejados, foram sua resposta. Dali a pouco, estava tudo provisoriamente superado: alguém convidava-o, e ao irmão, para um passeio de moto. A novidade da aventura virou rapidamente aquele capítulo de perdas. Mas todo capítulo de perdas é um capítulo de ganhos também. Vi que meu filho não mais esperneava, mostrava mau-humor, inventava exigências absurdas para compensar sua frustração. É que ele estava às voltas com uma frustração mais funda, das que calam e se interiorizam; passou da idade das “reações emocionais” para aquela em que brotam, com a timidez de olhos úmidos, os sentimentos mais íntimos da gente; não responde mais com os nervos, mas com o coração. Vi nele repetir-se o que aconteceu, há muito tempo, comigo: a primeira página desse longo romance que cada um escreve sem palavras, e de que Flaubert roubou o título para sua “Educação Sentimental”.