Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

O mundo em figuras

O mundo em figuras

Talvez o que mais me atraia nesses cartazes populares que costumo postar por aqui seja o seguinte. Quando um dono de boteco faz um cartaz com as palavras "batata frita", e desenha embaixo, da maneira mais tosca possível, um prato de batatas fritas, o que ele está fazendo é uma espécie de "hiperrepresentação". O mundo abstrato das palavras não o satisfaz. Ele quer representá-las figurativamente também. É como se apresentasse a coisa e a sua legenda, o texto e a sua tradução.

Esse sistema, essa insatisfação com a linguagem, pode aparecer de vários modos. Num blog maravilhoso, dedicado a livros e estampas antigas, encontrei um "mapa figurativo". Ou seja, nesse mapa não basta desenhar abstratamente o contorno dos países, mas desenhar junto aquilo que esses países "representam". Vai aqui um exemplo:

Escrito por Marcelo Coelho às 15h41

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Leituras com idade certa?

Leituras com idade certa?

Não sou dos que acreditam muito nessa coisa de estimular os jovens para a leitura. Claro que é importante pôr livros, o máximo de livros, nas mãos de quem é  pequeno. Mas sei, por experiência própria, o que é ser “estimulado” para fazer esportes quando não se quer isso de jeito nenhum. No máximo, eu poderia ter adquirido algum gosto pela natação, coisa que adquiri mais tarde, e que, entetanto, revelou-se um erro: depois de acumular alguns progressos na piscina, desenvolvi não sei que espécie de inflamação num tal de manguito rotatório (primeiro num braço, depois em ambos), demonstrando que a minha natureza não poderia ser contrariada sem exigir um preço doloroso em médicos e fisioterapeutas. Em suma, quem não gosta de ler, não irá ler.

 

Isso não significa que se deva atrapalhar a vida dos pequenos leitores. E é isso, acho, o que resultará de uma medida aprovada por um grupo de editoras inglesas, que pretendem colocar indicações de idade adequada para os livros infanto-juvenis que produzem.

 

Alguns autores de histórias infantis já se mobilizam contra a idéia, segundo matéria publicada hoje no The Guardian. Um desses escritores raciocina: o menino que, devido a suas dificuldades, estiver lendo um livro fácil demais poderá sentir-se desestimulado se souber, pela capa, que o indicam para uma faixa etária inferior.

 

Talvez seja muito exagero da parte desse autor: só falta querer proteger crianças de traumas desse tipo. E é justamente, creio eu, uma cultura de hiperproteção que está por trás da iniciativa.

 

Os critérios do “adequado” e do “inadequado” logo se transformam numa espécie de camisa de força para autores, pais e crianças. A excessiva moralização, o intuito edificante, a insistente pedagogia moral de muitos livros infantis recentes constitui, a meu ver, um desestímulo a mais na leitura.

 

Histórias que deveriam não ter outro fim exceto o de divertir –o de compartilhar fantasias—vão colocando agora a moralidade em primeiro plano. As fábulas antigas reservavam a moral da história apenas para a última linha, e mesmo livros terrivelmente edificantes como “Pinóquio” terminavam perdendo-se no próprio delírio antes de atingir o fim exclusivamente “educativo” a que se propunham. Hoje, é comum que moralizações interfiram a todo momento ao longo da trama.

 

Faz parte da experiência de todo leitor topar com livros “abaixo” ou “acima” do seu nível de compreensão. Ler coisas “adequadas” e “inadequadas” alternativamente não deixa de ser uma forma de exercitar a leitura crítica. Retornar, anos depois, a um livro que se julgou difícil, e surpreender-se com o fato de ter ficado fácil, é uma vivência intelectual de grande importância.

 

Sugerir faixas etárias me parece, assim, mais emburrecedor do que benéfico. “Ah, você é contra faixas em livros, mas a favor de classificação etária em programas de TV e em filmes...” Sim. Não posso folhear um filme, como folheio um livro, para saber do que se trata.

 

Claro que já cometi erros. Fui ler um livro, muito ilustradinho e simples, para meu filho menor, no qual o menino pequeno emburrava porque sua mãe saía todo dia de casa para trabalhar. O tema me parecia dos mais adequados para a fase, muito possessiva, que meu filho estava vivendo. Algumas páginas adiante, o livro entrou por um assunto espinhoso. O menino perguntava o paradeiro da mãe de um coleguinha seu. A mãe tinha morrido. “Para onde ela foi?”, perguntava a criança. “Está misturada nas plantas, nas flores, no vento...” Argh. Para que poetizar com antecedência um assunto que, se fosse para ocultá-lo, melhor seria nem abordar ainda? Meu filho não entendeu nada, exceto o meu mal-estar ao longo da leitura. Estavam-lhe sendo oferecidas respostas vagas a uma pergunta que ele nem havia formulado ainda.

 

Paciência. Não entender faz parte do aprendizado. E nada garante que as editoras não pusessem, num livro a meu ver impróprio, uma indicação de faixa etária correspondente à idade do meu filho. A não ser que os adultos sejam muito broncos para imaginar que tipo de livro devem dar para as crianças, prefiro que as editoras não assumam essa responsabilidade de forma tão explícita. E, se os pais forem broncos, um livro errado não é o pior que pode acontecer a seus filhos.

 

Detalhe de pintura de Rosso Fiorentino

Escrito por Marcelo Coelho às 20h22

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inflação na arte

A valorização no mercado de arte parece estar assumindo as características de uma bolha colossal. Atribuem isso à entrada de novos milionários (russos, chineses, etc.), mas os pintores latino-americanos também têm seus preços indo para as nuvens.

 

No leilão da Sotheby’s realizado ontem, uma escultura de Sérgio Camargo estimada em cerca de 50 mil dólares saiu por 169 mil. Um quadro de Di Cavalcanti (feioso que dói), estimado em cerca de 90 mil, foi vendido a 133 mil. Mira Schendel, calculada em torno de 35 mil, alcançou 85 mil.

 

Os recordes ficaram com artistas de países irmãos. Um quadro do mexicano Rufino Tamayo, estimado em 2 milhões, foi vendido a 3, 62 milhões. O argentino Quinquela Martín, com um quadro bonito como poucos em sua obra, estava orçado em 105 mil e foi vendido por 421 mil.

"Macumba", de Di Cavalcanti

 

"Comedor de Melancias", de Rufino Tamayo

 

 

Porto em Buenos Aires, por Quinquela Martin

Escrito por Marcelo Coelho às 02h36

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The brilliant brazilian diplomat

Só uma pessoa se aproxima, hoje em dia, do charme, da inteligência, da coragem e do idealismo do brasileiro Sérgio Vieira de Mello (o diplomata da ONU assassinado em 2003 num ataque terrorista no Iraque). E essa pessoa é Barack Obama.

 

Quem diz isso é Samantha Powers, autora de Chasing the Flame, biografia de Sérgio Vieira de Mello lançada há pouco nos Estados Unidos, de que é publicado um extrato na nova edição da revista Piauí. A autora foi assessora de campanha de Obama, até recentemente, quando seus comentários sobre Hillary Clinton (“é um monstro”) forçaram-na a retirar-se.

 

A resenha de Rosemary Righter, no TLS, faz um eficiente apanhado do livro de 622 páginas, e nota algumas características (e pontos polêmicos) na trajetória de Vieira de Mello. O livro não resiste, segundo Rosemary Righter, a acompanhar a grande quantidade de conquistas amorosas de Vieira de Mello, assim como os detalhes, menos palpitantes, das intrigas no interior das Nações Unidas.

 

Nota que com o tempo Vieira de Mello foi se tornando mais pragmático. “ ‘Inaceitável’ é uma palavra que tive de aprender a riscar de meu vocabulário”, dizia o diplomata; teria ido longe demais, segundo seus críticos, quando acompanhou a crise na ex-Iugoslávia, época em que teria ganho o apelido de “Sérvio” Vieira de Mello.

 

Mas é difícil ler por aí uma caracterização tão elogiosa de alguém como a que se segue:

 

Hired by the UN High Commission for Refugees because of his impressive command of several languages, young Sergio’s energy, physical bravery and capacity to improvise in impossible situations rapidly propelled him up the hierarchy. “Chasing the flame” (of idealism, or of conflagration?) was less a manifestation of his idealism than a psychological necessity. He was never merrier, or cooler, or more captivating than when strolling within range of snipers, often deliberately dispensing with a flak jacket so as to share the risks run by the civilians he was there to assist. “I look for trouble, it’s true”, he admitted. “Because in trouble I find truth and reality.” He had gaiety, a lightly worn cosmopolitan charm, chiselled good looks and a Clinton-like knack of making even someone he barely noticed feel as though they had his undivided attention.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h56

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Disney, desenho, Dalí

A captação é muito ruim, mas está disponível no youtube a íntegra do desenho animado que Walt Disney projetou junto com Salvador Dalí em 1946. Veja no link. O original tinha apenas uns 20 segundos, mas o filho de Disney retrabalhou os diversos esboços encontrados nos arquivos. O desenho teve sua estréia mundial em 2003, num festival de animação em Annecy.

Na verdade, se pensarmos na arte de Disney em filmes como "Fantasia", é como se a presença de Salvador Dalí prejudicasse em vez de ajudar. Encontramos os velhos ícones do pintor --relógios derretidos, telefones monumentais, ciclistas no deserto, formigas saindo de estátuas--, a contracenar com uma típica "princesa étnica" das produções mais recentes do estúdio, que têm em geral o defeito de uma expressão facial muito estereotipada; soma-se a isso uma coreografia de balé convencional. O que havia de mais perturbador nas telas de Dalí, pode-se perceber agora, era a fixidez: uma cena de transformação e de delírio ganhava, no quadro, uma espécie de solenidade implausível, uma monumentalidade que a tornava, acima de qualquer outra característica eventual, essencialmente surrealista.

Ora, o "surrealismo" e a transformação visual de A em B são a base de todo desenho animado, a começar do Pica-Pau. Desse modo, o surrealismo de Dalí ficou mais tranqüilo de assistir, mais "favas contadas" do que nos seus quadros e esculturas; restou ao rosto da mocinha responder pela dramaticidade e pela estranheza, que o cenário não é capaz inteiramente de produzir no espectador.

Claro, em 1946 talvez tudo fosse diferente. O espectador que hoje revê "Spellbound", de Hitchcock, que tinha cenas de sonho concebidas por Dalí, sabe do que se trata: uma vinheta deslocada e decorativa dentro de uma concepção de mundo totalmente diversa, em que o delírio e o estranho tinham obrigatoriamente de surgir como indícios, como pistas, numa trama policial, e não emergir, como nos quadros do pintor, de forma clássica, a-histórica, alheia a qualquer narrativa; a pintura de Dalí funciona como cristalização de uma narrativa desconhecida, não como pretexto para animação posterior. 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h04

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Junho de 1968 (2)

Junho de 1968 (2)

A maior parte do livro de Evandro Teixeira é dedicada ao grupo de cem pessoas que, identificadas na foto da Passeata dos Cem Mil, foram novamente fotografadas em 2008 e escrevem depoimentos geralmente curtos sobre sua participação naquele momento da luta contra a ditadura.

 

Em cada página, aparece a foto da pessoa em 1968 e a sua foto atual. Muitos homens engordaram, estão de terno e gravata, ficaram carecas; são, entretanto, plenamente reconhecíveis em sua maioria, apesar da falta de nitidez do antigo retrato, fortemente ampliado. Algumas mulheres mudaram totalmente; outras continuam quase iguais.

 

Há pessoas bem conhecidas no meio político, artístico e intelectual (Clóvis Brigagão, Eduardo Escorel, Carlos Zílio, Augusto Nunes, Moreira Franco, Gilberto Velho, Miguel Rio Branco, Heloísa Buarque de Hollanda, Alfredo Sirkis), e muita gente que, na administração pública ou em empresas estatais, manteve-se na militância de esquerda.

 

Embora muita gente se diga menos idealista, menos socialista, certamente menos revolucionária do que era em 1968, predomina em todos os personagens apresentados no livro um sentido de continuidade. Talvez os que realmente “mudaram de lado” não tenham sido encontrados, nem procurados, ou não tenham querido se manifestar.

 

A idéia geral que o livro transmite é que, apesar de tudo, ninguém se arrepende de ter estado ali, e que, por mais que se fale nas “ilusões” da juventude, estas não se perdem completamente. Constituem também o que seremos depois.

 

Uma consideração importante sobre 1968 vem da cientista política Nanci Valadares:

 

... foi o ano de 1968 que criou uma ponte entre o que fui e o que sou, ou melhor, entre o mundo que se insinuava e o que hoje existe. A geração 68 representa um fenômeno que acontece uma só vez no século, quando um grupo de jovens inicia sua vida política num mundo que se apresenta completamente diverso do que aquele vivido pelas muitas gerações que nos antecederam. Isso porque os acontecimentos culturais e políticos eram vividos, até então, dentro do campo nacional, enquanto, a partir de 1968, surge um vislumbre do global (...) Mas, enquanto agora se luta pela democratização do Planeta, a consciência da época se limitava ao conflito direto às convenções. Sem que se deslocassem os valores tradicionais dentro da estrutura familiar, educacional e política, o mindo que hoje queremos construir não teria uma linguagem comum em favor da igualdade de oportunidades, do respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente.

 

Sem dúvida, pouca gente de esquerda naquela época colocaria esses termos –igualdade de oportunidades, respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente—na lista básica de suas prioridades. A ideologia de esquerda era bem mais convencionalmente bolchevique do que o legado prático e existencial que ficou daqueles tempos. A teoria estava bem mais atrasada do que o tipo de organização e de experiência social que surgia naquelas manifestações; sem querer, a esfera política e cultural rumavam para a mesma direção, cada vez mais convergentes, sem que fosse possível conciliá-las teoricamente naquele momento. Os homens e mulheres entrevistados no livro parecem menos desencantados do que “decantados”; leva tempo para todo mundo encontrar seu próprio eixo. São, aliás, os sobreviventes de um período; houve quem tivesse perdido o eixo –e a vida—rapidamente.     

Escrito por Marcelo Coelho às 01h20

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Junho de 68

Junho de 68

Em 1968, Evandro Teixeira era fotógrafo do “Jornal do Brasil” (continua lá até hoje) e no dia 26 de junho recebeu a incumbência de acompanhar durante todo o dia o líder estudantil Vladimir Palmeira. “Havia boatos de que ele seria preso”, conta o fotógrafo.

“Estava certo de que enfrentaríamos mais um dia de violência no centro do Rio, mas esse acabou sendo um dos episódios mais tranqüilos na cobertura do movimento estudantil”.

 

Os conflitos entre estudantes e polícia em 1968 no Rio de Janeiro são narrados com rapidez e objetividade pelo jornalista Fritz Uzeri. No dia 28 de março, 25 soldados do Batalhão de Choque da PM invadiram o restaurante estudantil Calabouço, onde alguns alunos assistiam aula, outros jantavam e outros preparavam uma passeata de protesto contra as más condições do restaurante.

 

Os policiais entraram agredindo; os estudantes passaram a revidar com pedradas. “Foi nesse momento”, diz reportagem do JB, “que o tenente-comandante do pelotão sacou o revólver e atingiu Édson Luiz de Lima Souto, que, em companhia de Benedito Frasão Dias, assistia à aula.”

 

Os estudantes, continua Fritz Uzeri, saíram do restaurante carregando o corpo de Édson Luiz de Lima Souto e foram direto para a Assembléia Legislativa, onde o colocaram sobre uma mesa. O governo estava em polvorosa (Negrão de Lima era o governador), e o superintendente da Polícia Executiva, general Osvaldo Niemeyer (demitido no dia seguinte por Negrão) declarara que, ao invadir o Calabouço, a PM “viu-se inferiorizada em poder de fogo”.

 

O enterro de Edson Luiz, no dia seguinte, teve 20 mil pessoas, sem incidentes. Na segunda-feira, 1º de abril, os estudantes convocaram passeata de protesto contra a ditadura. O JB saiu com manchete condenatória: “Estudantes fazem o caos e anunciam nova passeata”. Houve depredações de lojas e bancos, carros oficiais foram virados. Fritz Uzeri comenta que os policiais eram deixados nas ruas desde de manhã, sem comida nem bebida, e à medida que o tempo passava, iam se enchendo de fome, ódio e frustração. O JB conta que, naquele dia, “O momento de maior violência (...) ocorreu quando o comandante de todo o dispositivo militar, coronel Célio Costa de Carvalho, retirou-se para o quartel, cerca de 19h30, e disse a seus comandados: Estou cansado, vou jantar. Agora vocês podem se divertir. Cerca de 400 policiais em estado de grande excitação passaram imediatamente a agir. Em grupos de dez ou 20 avançavam em quem estivesse à sua frente.”

 

Na missa de 7º. dia, a polícia atacou com golpes de cassetete e sabre os que assistiam à cerimônia. O comandante de uma tropa de cavalaria ordenou a seus soldados que desembainhassem as espadas para dispersar a multidão que, com uma fileira de 16 padres à frente, saía da igreja.

 

Mais uma passeata com violência no dia 19 de junho. No dia 21, a ‘sexta-feira sangrenta” houve 23 pessoas baleadas e 4 mortes, inclusive, conta Uzeri, o soldado da PM Nélson de Barros, atingido por um tijolo jogado de um prédio.

 

No sábado, 22, intelectuais, políticos, artistas e mães divulgaram um documento de protesto contra “o clima de terror militar existente na Guanabara”.

 

Foi nesse clima que o governador Negrão de Lima resolveu antecipar sua volta das férias de meio de ano e terminou autorizando, pela TV, depois de reunir-se com o comandante do I Exército, a manifestação que passaria a ter o nome de “Passeata dos Cem Mil”.

 

Foi no dia 26 de junho. Evandro Teixeira acompanhava Vladimir Palmeira, e tirou muitas fotos. Uma delas, tirada às onze horas, mostrava a vista que o líder estudantil tinha da multidão à sua frente. Não foi publicada no jornal. Em 1983, organizando um livro de fotojornalismo, Teixeira selecionou-a. Um casal amigo reconheceu-se na foto, lembrando a circunstância de nem sequer se conhecerem na época. Em outras ocasiões, mais e mais pessoas se reconheciam.

 

Daí veio a idéia de fazer o livro que acaba de ser publicado pela editora Textual, com apoio da Petrobrás.

 

Há fotos incrivelmente nítidas e movimentadas daquele dia. E, uma a uma, vão sendo identificadas cem pessoas que estavam naquela fotografia das onze horas: todas escrevem um depoimento, posando também para as lentes de Evandro Teixeira quarenta anos depois.

 

Quem eram, o que pensavam, o que dizem agora? Fica para o próximo post.

 

Foto de Evandro Teixeira, no livro 1968 Destinos 2008

Escrito por Marcelo Coelho às 00h55

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Emily Dickinson, Aaron Copland

Este é o dom de ser simples

Este é o dom de ser livre

Este é o dom de chegar

Onde a gente tinha de estar

E quando a gente se encontra

No certo e exato lugar

Será esse o vale

Do amor e do folgar.

 

Quando se consegue a simplicidade verdadeira e boa,

Inclinar-se e curvar-se não traz vergonha

Virar, virar, será um deleite e um folgar

Até que virando, virando, bem retos iremos ficar.

 

 

Estes versos vêm de uma canção folclórica americana, que ouço no arranjo para coral e orquestra feito por Aaron Copland, no CD Old American Songs. A melodia foi aproveitada por Copland em outra obra sua, das mais famosas, Appalachian Spring.. Mas o que chama a atenção nesses versos é a semelhança, quase indefinível, que eles têm com poemas de Emily Dickinson. Cito alguns, da tradução feita por José Lira num livro editado pela Iluminuras:

 

Deus deu um Pão a cada Ave

E uma Migalha  --a mim-

Não vou comê-la –embora à Míngua--

Meu pungente prazer –

 

De tê-la –de tocá-la —prova—

Que este Pedaço é meu—

Nada maior para a Cobiça—

De tão feliz Pardal –

 

Pode haver Fome –aí afora—

Não me faz falta um Grão—

Tanto sorriso à minha mesa—

Grande meu Silo é—

 

Penso o que sente –quem é Rico—

Um Conde –um Marajá—

Acho que só com uma Migalha—

Mais que todos eu sou –

 

Ou então:

 

Dizem que “o Tempo tudo cura” –

Mas o certo é que não –

A dor que é dor fica mais rija

Como velho Tendão

 

O Tempo é Teste de Tormentos—

Não Remédio afinal—

Se algo isso prova, também prova

Que não havia Mal –

 

É distante, reconheço, a semelhança entre esses poemas de Emily Dickinson e a canção folclórica citada no início. Mas não sei que espírito comum existe em tudo isso. Uma mistura, talvez, de Coragem –para falar como a poeta – e Resignação –.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h42

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O STF com o pé na estrada

O jornal impresso, como se sabe, vai cedendo espaço à internet. Mas por enquanto a edição em papel da “Folha” traz mais fotos do que sua versão eletrônica. Por isso, não tenho como reproduzir aqui uma fotografia absolutamente notável, que saiu na pág. A-12 da edição de hoje.

 

Mostra dois ministros do STF, Ayres de Britto e Carmen Lúcia, com o pé na estrada. Estrada é modo de dizer. Eles caminham numa trilha de pedra clara, que atravessa um descampado com jeito de pasto, com uma colina tipicamente interiorana, coisa de sítio paulista.

 

Estão visitando a reserva Raposa/Serra do Sol. Ayres de Britto está de jeans e tênis branco. Carmen Lúcia usa uma calça preta, e tênis também. Ao lado deles, um índio de jeans e camisa abotoada laranja conversa e gesticula.

 

Nunca pensei que, para dar um voto de constitucionalidade, juízes do Supremo saíssem de seus gabinetes. A iniciativa de visitar a reserva é um ato extraordinário, e eu, se fosse ministro, não teria a menor disposição para fazê-lo. Vejo que Carmen Lúcia e Ayres de Britto são muito mais democratas do que eu.

 

Ao mesmo tempo, a foto é sintoma de um fenômeno algo preocupante. Com certeza, o ato de conversar, ouvir informalmente as partes interessadas de um conflito, visitar in loco as regiões onde este se dá, combina mais com membros do Legislativo e do Executivo do que do Supremo Tribunal. A estes, em tese, compete apenas julgar a compatibilidade das leis com a Constituição.

 

O mundo da técnica jurídica dá lugar a considerações concretas de ordem política. Nunca, é claro, essas esferas foram separadas no essencial. Mas são separadas no que diz respeito à linguagem, à forma, ao modo de atuação. Será bom que juízes abandonem a frieza dos gabinetes? Que outros raciocínios, além dos estritamente legais, estão em curso?

 

Em princípio, simpatizo com a iniciativa de Ayres Britto e Carmen Lúcia. Mas será que não traz uma conseqüência lógica a ser cogitada no futuro? A saber, o da eleição dos ministros do Supremo. Se eles têm legitimidade técnica para julgar, não têm legitimidade política para julgar politicamente; são, no máximo, oriundos de uma indicação presidencial. Será o bastante, para as funções que começam a exercer no país?

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h03

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O STF com o pé na estrada

O jornal impresso, como se sabe, vai cedendo espaço à internet. Mas por enquanto a edição em papel da “Folha” traz mais fotos do que sua versão eletrônica. Por isso, não tenho como reproduzir aqui uma fotografia absolutamente notável, que saiu na pág. A-12 da edição de hoje.

 

Mostra dois ministros do STF, Ayres de Britto e Carmen Lúcia, com o pé na estrada. Estrada é modo de dizer. Eles caminham numa trilha de pedra clara, que atravessa um descampado com jeito de pasto, com uma colina tipicamente interiorana, coisa de sítio paulista.

 

Estão visitando a reserva Raposa/Serra do Sol. Ayres de Britto está de jeans e tênis branco. Carmen Lúcia usa uma calça preta, e tênis também. Ao lado deles, um índio de jeans e camisa abotoada laranja conversa e gesticula.

 

Nunca pensei que, para dar um voto de constitucionalidade, juízes do Supremo saíssem de seus gabinetes. A iniciativa de visitar a reserva é um ato extraordinário, e eu, se fosse ministro, não teria a menor disposição para fazê-lo. Vejo que Carmen Lúcia e Ayres de Britto são muito mais democratas do que eu.

 

Ao mesmo tempo, a foto é sintoma de um fenômeno algo preocupante. Com certeza, o ato de conversar, ouvir informalmente as partes interessadas de um conflito, visitar in loco as regiões onde este se dá, combina mais com membros do Legislativo e do Executivo do que do Supremo Tribunal. A estes, em tese, compete apenas julgar a compatibilidade das leis com a Constituição.

 

O mundo da técnica jurídica dá lugar a considerações concretas de ordem política. Nunca, é claro, essas esferas foram separadas no essencial. Mas são separadas no que diz respeito à linguagem, à forma, ao modo de atuação. Será bom que juízes abandonem a frieza dos gabinetes? Que outros raciocínios, além dos estritamente legais, estão em curso?

 

Em princípio, simpatizo com a iniciativa de Ayres Britto e Carmen Lúcia. Mas será que não traz uma conseqüência lógica a ser cogitada no futuro? A saber, o da eleição dos ministros do Supremo. Se eles têm legitimidade técnica para julgar, não têm legitimidade política para julgar politicamente; são, no máximo, oriundos de uma indicação presidencial. Será o bastante, para as funções que começam a exercer no país?

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h02

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Jéfferson Peres

Fui só uma vez fazer reportagem em Brasília. Era para escrever sobre uma sabatina com Armínio Fraga, que acabava de ser indicado por Fernando Henrique para o Banco Central, depois do vasto estrago de Chico Lopes e congêneres.

 

A sala era pequena, e estava atulhada de jornalistas. Resolvi passear um pouco pelo Senado, que tinha aparelhos de TV interna aqui e ali transmitindo a sabatina em lugares onde eu podia me sentar.

 

Eu passava por uma espécie de saguão, onde serviam café, quando uma porta subitamente se abriu, com a velocidade de um espanto. Fiquei por instantes frente a frente com o senador Jéfferson Peres.

 

Era uma pessoa muito franzina, muito miúda, com o olhar dardejante e o rosto inclinado um pouco para a frente, em expressão obcecada.

 

Já naquela época, há quase dez anos, ele se notabilizava pela atuação em CPIs; não se rebaixava a fazer discurseiras para o público, embora um mínimo de teatro fosse perceptível em seu jeito de inquirir.

 

Era frio e seco nas perguntas, mas depois de fazê-las gostava de afastar com um gesto rápido o microfone giratório que tinha diante de si, como se com isso golpeasse imaginariamente o interrogado; dava-se “por satisfeito” depois de algumas dessas.

 

Há algo de terrível numa pessoa que jamais ri, que jamais se descontrai, e esta impressão, que Jefferson Peres transmitia nas comissões do Senado, pareceu confirmar-se quando o vi frente a frente, como uma aparição trágica e impassível, no abrir-se de uma porta branca de repartição.

 

Era como se nem tivesse notado a presença de um ser humano à sua frente: seu olhar continuava fixo, dentro da moldura oval e preta daquele seu modelo de óculos --estranhamente “moderno”, aliás, para uma figura ainda cercada, a meu ver, daquela postura de político da República Velha, preso a um colarinho duro imaginário.

 

Arrependo-me, ao saber de sua morte, de não ter puxado conversa com ele naquela hora. Mas é claro que um homem desse tipo não parecia estar disponível para conversas com jornalistas.

 

Jéfferson Peres era político de uma espécie rara. Político, talvez, como não há político possível. Incapaz de conversas ociosas, imagino; de uma dureza teoricamente difícil de compatibilizar com os padrões do atual sistema político.

 

Será? Que Amazonas, que PDT, Jéfferson Peres representou? De onde veio? Quem o elegeu?

 

Perguntas que terão respostas, espero, nos próximos dias. Mas o incompreensível em sua figura permanece. Revejo-a, rígida e ríspida, nesta hora: abrindo uma porta com violência, com fúria e frieza, sem saber de nada que não fosse condenável à sua frente. Havia muita coisa. Jéfferson Peres fará falta.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h51

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Barenboim, Beethoven

Barenboim, Beethoven

         “O silêncio pode ser mais barulhento e estridente do que o maior fortíssimo de uma orquestra”, diz o pianista e maestro Daniel Barenboim a respeito das pausas que sucedem os grandes momentos de clímax nas sinfonias de Anton Bruckner –autor que ele irá reger em São Paulo nos próximos dias.

         É preciso certa coragem para enfrentar o “banquete Bruckner” programado para a Sala São Paulo; poucas vezes tive capacidade para ouvir uma sinfonia inteira do compositor sem me sentir incomodamente empanturrado depois de uns 40 minutos de formidáveis acumulações sonoras de violoncelos, tímpanos e contrabaixos com espesso acompanhamento de não sei quantas tubas e trombones. Em todo caso, ver a orquestra em funcionamento ao vivo, e não tentando arrebentar os alto-falantes do sistema de som em casa, pode ser bem mais interessante.

         Contento-me, ou melhor, satisfaço-me bem mais com outra coisa de Daniel Barenboim: a integral das sonatas para piano de Beethoven, que ele interpreta numa série de DVDs. A caixa não custa barato, mas traz junto um presente inestimável: a filmagem de algumas horas de “master classes” oferecidas por Barenboim a estudantes e jovens pianistas, em que ele discute a interpretação das sonatas de Beethoven.

         É muito instrutivo do ponto de vista musical, e também do ponto de vista psicológico. Pegue-se o pianista francês David Kadouch, por exemplo, que toca diante de Barenboim uma sonata relativamente “leve” de Beethoven, a op. 31 no. 1.

         Kadouch começa todo animado, cheio de caretas enquanto seus dedos correm desabaladamente pelas teclas. Termina o movimento, e Barenboim faz os elogios de praxe, antes de passar às sugestões e comentários críticos. Sem ser indiscreta, a câmera acompanha as reações faciais de Kadouch quando os reparos de Barenboim à sua interpretação começam a doer mais. Sem dúvida, o jovem pianista estava acostumado a se achar o máximo, e as explicações de Barenboim nos convencem de que não é bem o caso.

         Digo “explicações”, porque Barenboim não deixa de fundamentar, na medida do possível, aquilo que muitos artistas tendem a confinar ao universo do transcendente e do intuitivo. Em determinado momento, por exemplo, Kadouch toca “forte” um determinado acorde. Barenboim pergunta: “por que você tocou assim?” Já um pouco espicaçado, o jovem responde: “porque gosto assim”. Todos riem, e Barenboim orienta a discussão para um terreno menos perigoso.

         Mostra que a mesma harmonia enfatizada naquele acorde já tinha aparecido, do mesmo modo, em duas situações anteriores, relativamente próximas, naquele movimento. E chama a atenção para a mudança de harmonia que se opera logo em seguida àquele acorde tocado com ênfase por David Kadouch. “Veja, você tocando isso forte, enfatiza apenas aquilo que já não continha nenhuma informação nova do ponto de vista musical. Se deixar ‘piano’, a atenção do ouvinte será dirigida para as notas seguintes, que justamente são o que traz novidade naquele momento da partitura.” Barenboim toca o mesmo trecho. Mesmo um leigo como eu –incapaz de notar as imprecisões rítmicas que Barenboim criticava alguns minutos antes—é capaz de perceber a diferença.

         Em outra “master class”, Barenboim analisa a interpretação do primeiro movimento da “Appassionata”, tal como apresentada pelo virtuose chinês Lang Lang, que já faz parte do circuito milionário dos grandes concertistas. Lang Lang é reconhecidamente um astro, mas criticadíssimo pelo espalhafato de suas apresentações. Ele entra na sala acompanhado de Barenboim como uma grande celebridade. Toca com grande efeito e violência o “allegro assai”. Barenboim sugere várias mudanças; mas o notável é que, por mais duvidoso que seja o gosto e o estilo de Lang Lang, estão ali dialogando duas inteligências musicais superiores; o jovem entende imediatamente o que está sendo apontado pelo mestre, e não esperneia.

         Mesmo as formulações paradoxais de Barenboim –como a que citei no início, a respeito do barulho que o silêncio pode fazer—ganham sentido quando ele ou Lang Lang repetem determinada passagem em que o paradoxo tem de ser posto em prática de algum modo. Também nessa sonata, há um momento em que “teoricamente” determinado som do piano deveria conhecer um “crescendo”. Coisa impossível de fazer no instrumento, pois uma vez percutida a tecla, o som naturalmente decresce de volume sem parar. Barenboim sabe disso, mas, questionado pela platéia a respeito desse ponto, explica com sabedoria que “internamente” o intérprete deve estar imaginando esse crescendo, e que isso fará diferença no jeito com que ele irá tocar as notas seguintes. Segredos, sem dúvida, da “cozinha” musical. Mas que são fascinantes, pelo menos, de entrever, ou entreouvir, nessa coleção de DVDs.

 

Daniel Barenboim e Lang Lang

Escrito por Marcelo Coelho às 00h50

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voltaire de souza

 

O VERDE EM CHAMAS

 

Frio em São Paulo. Na Amazônia, o tempo continua quente.

Índios querem defender a floresta. Fazendeiros discordam.

O americano Norton queria ver as coisas de perto.

Ele admirava muito o nosso país.

--O sááámb. As muláááts. Ámazoonn... very beautiful.

Ele desembarcou em Manaus com a máquina fotográfica carregada.

Jipes e barcos o levaram até o coração da floresta.

Tudo parecia calmo. Pássaros cantavam. Mosquitos atacavam.

Norton queria ver imagens de devastação. Comunicou-se com o guia local.

--Maish éh akki kih ishtáo queimándu o vérdje?

O guia se chamava Irapuã e tinha um trato com as autoridades da região.

--Ah, é isso o que o senhor quer ver? Venha, que eu levo para um lugar legal.

No Acampamento Filhos de Dandahrah, maconha e outras drogas eram consumidas numa boa. A ex-hippie Shamana estava de top-less. E deu para Norton um baseado.

--Vem, bicho. Queimar uma erva. Que fica tudo muito odara. Sacou?

A fumaça da maconha levou Norton às profundezas do inconsciente.

--Fôugu no deséért... Saddam... Vamush toumár cónt diyssu aki... vém cá, muláát.

A consciência humana é como uma selva. Tem suas clareiras e áreas de sombra.

22/5/2008

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h22

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Cartões de Guignard

Cartões de Guignard

Hoje, no MAM (Parque do Ibirapuera), às 20h, será lançado um livro com fac-símiles dos 111 cartões que Alberto da Veiga Guignard mandou para suas duas irmãs, nascidas em Campinas, e sua musa, Amalita Fontenelle. O crítico Olívio Tavares de Araújo fará uma apresentação. Em outro volume, há uma série de estudos críticos sobre esse lado mais íntimo da obra do grande pintor. Guignard, como se sabe, tinha lábio leporino e sua vida sentimental não era nada invejável. Abaixo, três exemplos de suas comoventes expansões de afeto.

 

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h47

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Sonhos e azares de um arquiteto

Sonhos e azares de um arquiteto

O artigo desta quarta é sobre uma peça de Rui Tavares, historiador português que escreveu um ensaio premiado sobre o grande terremoto de Lisboa de 1755. Esta peça chama-se “O Arquiteto” e também fala de destruição.

 

De duas destruições, aliás, que conferem certamente ao arquiteto Minoru Yamasaki o lugar de grande azarado arquitetônico do século 20, como eu escrevi no artigo. Ele construiu o conjunto habitacional Pruitt-Ingoe, suposta obra-prima modernista que teve de ser implodida em 1972, e outra obra que também não resistiu aos ataques do entorno: o World Trade Center.

 

A “descoberta” de Rui Tavares, por assim dizer, está no fato de que Yamasaki tinha grande admiração pela arquitetura árabe, e havia sido autor de importantes obras na Arábia Saudita. A peça refere-se a um texto em que Yamasaki imagina o WTC como a “Meca do Capitalismo” e vai adiante, atribuindo ao arquiteto uma direta inspiração na fé muçulmana. O senso da ironia histórica é o mais forte nesse texto, que tem pouco de teatral a meu ver. Mas vale ler os trechos em que Yamasaki explica seu projeto:

 

MINORU YAMASAKI- (...) já há muito que sou um beduíno da arquitetura nas areias da casa de Saud. No fim dos anos 1950, fiz o aeroporto de Dahran. Eles gostaram tanto, que estamparam o edifício no dinheiro deles, nas notas propriamente ditas. Depois disso, a casa real me convidou para tudo o que era projeto, mas recusei quase tudo. Só aceitei três obras, criteriosamente escolhidas. O Banco Central em Riad, por exemplo: recusei o projeto há três anos. Disse-lhes: “até terminar o World Trade Center não aceito mais nada.” E não é que eles esperaram por mim? Abençoados sauditas!

 

(...) sabe por que eles gostaram das minhas obras lá? Por serem edifícios tão árabes (...) decidi que o aeroporto de Dahran iria ser inspirado nas tendas dos nômades: leves, fluidas, frescas. Comecei a estudar a arquitetura islâmica (...)

 

O próprio conceito de mesquita, de qualquer mesquita, é uma influência grande em um dos meus edifícios. Conseguem adivinhar qual?(...) Quais são,meus senhores, os princípios fundamentais de uma mesquita? (...) O perímetro, normalmente retangular, em torno de um pátio interior. E num dos cantos a torre, ou minarete (...) Ora, se olharmos para o norte, o que temos aqui? Temos a nossa plaza, delimitada por um quadrado de edifícios (...) E temos o nosso minarete, que na verdade são dois, ou melhor, duas torres, que, acumulando gente, ajudam a liberar espaço para o nosso pátio interior, onde podemos ter sombra, fontes de água e uma escultura central. Isso não os faz lembrar de nada?

 

(...) Esta será a Meca do capitalismo. Gente de todo mundo virá aqui para fazer negócio,para conversar. E esta praça será a praça do entendimento, da paz, da boa vontade.

 

FAZLUR RAHMAN KHAN

 

E a escultura no centro é a kaaba. A pedra sagrada dos muçulmanos. Acertei?

 

Resposta irresistível: é, acertaram em cheio.

Sobre o assunto, vale ler um texto da revista Slate neste link., de onde tirei a foto da praça central do WTC:

praça central do WTC

 

Aeroporto projetado por Yamasaki em Dahrein

 

cédula saudita em homenagem à obra

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h43

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O violino esfrangalhado de Enesco

O violino esfrangalhado de Enesco

Música doentia, que parece vir “dos nervos esfrangalhados de um cigano”. Quem descreveu assim a música do húngaro Béla Bártok (1881-1945) foi, se não me falha a memória, seu compatriota, o filósofo marxista Georg Lukács.

 

Não sei o que Lukács inventaria para desqualificar a música de outro compositor, mais “esfrangalhado” e “cigano” ainda, o romeno Georges Enesco (1881-1955). Suas obras são, por vezes, de uma intensidade nervosa capaz de deixar qualquer um de cabelo em pé.

 

A boa notícia é que estão lançando em dois CDs as obras completas de Enesco para violino e piano, no selo Hänssler Classic, com Remus Azoitei no violino e Eduard Stan no piano.

 

O primeiro CD da coleção começa em altíssimo estilo, com as pouco conhecidas “Impressões de Infância”,  op.28, de 1940.

 

Béla Bártok fazia o violino gritar e dançar como um louco, em explosões de violência e súbitos recolhimentos noturnos, mas sua expressividade era de todo modo obediente à lógica mais rigorosa, seja na fuga aspérrima e máscula da sonata para violino solo, seja nas terríveis flutuações das sonatas para violino e piano.

 

Em Enesco, ciganismo e rapsódia parecem mais soltos, mais descontrolados, com uma multidão de efeitos instrumentais. A primeira peça das “Impressões de Infância” é uma imitação do solo de uma rabeca popular, aparentemente festiva e “parlante”, mas logo tão perdida nos escorregões do arco, tão desesperada –como se procurasse se lembrar de uma melodia que já não existe mais--, que logo percebemos que, digamos, as coisas não  andavam nada bem na Romênia da década de 30.

 

A segunda peça, “Velho Mendigo”, tem um acorde inicial que, justamente, lembra de uma coisa –que não devia estar ali: remete claramente ao começo da sonata para violino e piano de Debussy, composta quase 30 anos antes. Logo intervém uma das marcas da escrita de Enesco para o instrumento, uma espécie de glissando descendente muito rouco, que entra quando menos se espera no meio da melodia, enquanto o piano ainda tenta debulhar umas notas em direção ao agudo.

 

Na terceira peça, “Regato no Fundo do Jardim”, os dois instrumentos se cruzam em cintilações e estilhaços, como se quisessem mostrar alguma coisa debaixo d’ água. Sem dúvida, o ouvinte tem dificuldades em respirar. Depois, “O Passarinho na Gaiola e o Cuco na Parede” apresenta um violino superagudo, imitando sons de pássaros com um máximo de acidez. A linda “Canção de Ninar”, obsessiva, circulando em torno de uma cadência de duas notas, é uma peça antológica, que não se entende por que não é tocada mais freqüência. Quanto ao resto, dá para entender: há coisas difícilimas, e diz o folheto do CD que a quantidade de instruções na partitura com relação ao timbre do violino são capazes de desanimar qualquer virtuoso.

 

Enesco foi um dos grandes violinistas da história, e ficou conhecido principalmente por sua obra mais comercial: uma “Rapsódia Romena” animadíssima, na linha do “Capricho Espanhol” de Rimsky-Korsakov, da “Sinfonia Espanhola” de Lalo e coisas do gênero. Custamos a crer que se trata do mesmo compositor. Para quem gosta de Bártok, Enesco é a segunda melhor pedida. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h19

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voltaire de souza

Uma crônica da semana passada, do "Agora".

 

CORAÇÃO CARENTE

 

O Dia das Mães já passou.

Mas as tristezas da infância não passam jamais.

Aos cinqüenta anos, Avelar guardava lembranças amargas.

--Minha mãe. Sumiu de casa quanto eu tinha dois anos.

Tarde fria em Pirituba. Avelar respirou fundo.

A famíla ouvia em silêncio.

--Aquela safada. Mulher da vida.

O frio pedia um conhaque. E um pouco de televisão.

--Alguém viu o controle remoto?

Na TV Senado, o clima era quente. A ministra Dilma apresentava explicações, broncas e desculpas. Avelar acompanhava o PAC com muito conhaque.

O passado voltou com grande emoção.

Lágrimas escorriam no rosto de Avelar quando ele abraçou o aparelho.

--Mãe. Mãe do PAC. E será a minha também.

Ficou abraçado na TV até aparecer de novo a reportagem sobre o travesti que fez programa com o Ronaldo Fenômeno. Avelar afastou-se na hora.

--Sai daí, coisa feia.

Mas as aparências importam pouco quando atingem um coração carente.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h03

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W. G. Sebald, Pasternak, estações de trem

W. G. Sebald, Pasternak, estações de trem

Leio em vários lugares os maiores elogios ao escritor UOL Busca W. G. Sebald (1944-2001), de quem a Companhia das Letras publica Austerlitz, não sei se bem romance ou escrito autobiográfico, que começo a ler agora. Já disseram que, com Sebald, a literatura mais recente pode por fim encontrar uma grandeza semelhante à de autores como Proust, Joyce e Thomas Mann.

 

É uma expectativa e tanto para quem abre as páginas de um livro. A prosa do autor é surpreendentemente simples e direta, encadeando reminiscências e conversas sobre as quais pesa, como uma sombra, a barbárie imensa da história européia. O mais fascinante, do ponto de vista literário, é o tom indefinível de tristeza que o estilo de Sebald transmite desde o início. Tristeza? A palavra é subjetiva demais: as coisas vão sendo contadas e discutidas sem nenhuma paixão, sem nenhum colorido, sem sequer a estranheza em “branco e preto” da prosa kafkiana.

 

Não se trata, obviamente, de literatura fantástica, mas tampouco de literatura realista: é “literatura objetiva”, se dá para dizer assim, em torno da qual parece pairar não sei que aura de inverdade. Para isso contribuem as fotos e ilustrações que acompanham o livro, como se o autor necessitasse provar que tudo aquilo a que se refere existe de verdade.

 

Sebald (ou seu amigo Jacques Austerlitz, cujas conversas rememora) faz diversos comentários sobre a arquitetura metropolitana européia de finais do século 19, a começar pela monumental estação ferroviária de Antuérpia. Algumas páginas adiante, são as gares de Paris que entram em discussão. Austerlitz

 

costumava visitar quase diariamente uma das grandes estações, em geral a Gare du Nord e a Gare de l’ Est, sobretudo de manhã ou à noite, para observar as locomotivas a vapor que ingressavam no pátio de vidro negro de fuligem ou o suave deslizar dos misteriosos vagões-leitos, esplendidamente iluminados, que rumavam noite adentro como navios na imensidão do mar. Não raro ele ficara à mercê das mais perigosas e para ele totalmente incompreensíveis correntes de emoção nas estações parisienses, que ele, como dizia, considerava lugares a um só tempo de felicidade e infelicidade.

 

Este trecho me lembrou um poema de UOL Busca Boris Pasternak, que ponho aqui a partir da tradução francesa de Alexandre Schick (editora Pierre Seghers):

 

A ESTAÇÃO DE TREM

 

A estação de trem –o cofre-forte

Das minhas despedidas, dos reencontros, e das despedidas,

Amiga fiel e conselheira,

Quantos serviços me prestou!

 

Antigamente –toda minha vida se prendia a um cachecol,

Desde que eu pudesse pegar o trem,

E como harpias amordaçadas

As nuvens de vapor enevoavam os meus olhos.

 

Antigamente –desde que me sentava ao lado dela—

Psiu! –eu me inclinava para ela e me erguia:

Adeus, está na hora, vida minha!

Certo, estou descendo, bilheteiro!

 

Antigamente –eram as tempestades e os trilhos

Que me entreabriam o espaço,

E os flocos de neve me riscando a pele

Impediam que as juntas dos vagões me pegassem.

 

O apito se repete e se perde.

Ouvimos de longe como um eco, um outro ainda—

E o trem já é um turbilhão, os vagões

Passam como uma monção curvada e surda.

 

O crepúsculo se impacienta,

Engolindo a fumaça de perto,

O campo e o vento a seguem.

Ah, como eu gostaria de estar com eles!

 

Foto tirada durante a grande inundação de Paris de 1910.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h44

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Teste para os sabidos

Todo mundo –ou melhor, 99% das pessoas—se acha mais sabido do que é. Esta cifra (99%) não é um chute. Pesquisadores chegaram a isso graças a um teste muito simples, que li no livro SupercrunchersPor que pensar com números é a nova maneira de ser inteligente, de Ian Ayres, recém-lançado pela Ediouro.

 

Experimente fazer o teste.

 

Para cada uma das seguintes dez questões, dê a faixa de respostas dentro da qual você está 90% confiante de que tem a resposta correta. Por exemplo, para a primeira questão, você deve preencher: “Tenho 90% de confiança de que a idade de Martin Luther King no momento de sua morte era algo entre ____ anos e _____ anos.” Não se preocupe se não souber a resposta exata. O objetivo aqui é ver se você pode construir intervalos de confiança que incluam a resposta correta em 90% dos casos. Aqui estão as dez questões:

 

                                                                                              BAIXO                   ALTO

 

1. Qual a idade de Martin Luther King quando morreu?   ______                   ______

2. Qual a extensão do rio Nilo, em quilômetros?              _______                  ______

3. Quantos países pertencem à Opep?                              _______                  ______

4. Quantos livros há no Velho Testamento?                     ______                    ______

5. Qual o diâmetro da Lua, em km?                                 _______                    _____

6. Qual o peso de um Boeing 747 vazio, em quilos?        ______                    ______

7. Em que ano nasceu Mozart?                                        _______                  ______

8. Qual o período de gestação de um elefante asiático,   ______                    _____

      em dias?

9. Qual a distância aérea entre Londres e Tóquio,            _____                   ______

    em km?

10. Qual é o ponto mais profundo dos oceanos, em

    metros?                                                                           ______                   _______

 

 

 


 

 

Não vale responder “Sei lá”. Isso também é uma mentira. É claro que você tem alguma idéia. Você sabe que o ponto mais profundo do oceano tem mais de 50 milímetros e menos de 150 mil quilômetros. Incluí as respostas corretas abaixo para que você possa ver o quanto se aproximou da verdade.

 

Se todos os dez intervalos que você colocou incluírem a resposta certa, você tem pouca confiança. Qualquer um poderia garantir que isso ocorreria –apenas colocando respostas arbitrariamente amplas. Tenho absoluta certeza de que Mozart nasceu entre 3 a. C. e, digamos, 1980. Mas quase todo mundo que responde a essas questões enfrenta o problema oposto, de superconfiança –eles não conseguem evitar a colocação de diferenças muito pequenas. As pessoas acham que sabem muito mais do que sabem. Na verdade (...) descobriu-se que a maioria das pessoas errava entre 4 e 7 questões. Menos de 1% das pessoas deram variações que incluíram a resposta certa em 9 ou 10 questões. Cerca de 99% das pessoas eram superconfiantes.

 

(As respostas certas são estas: 1- 39 anos; 2- 6 738km; 3- 13 países 4- 39 livros; 5-3.476 km; 6- 177 toneladas; 7- 1756; 8-645 dias; 9- 9 590km; 10- 11.033 metros.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h32

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O tempo e o lugar

O tempo e o lugar

Participei nesta terça-feira de um debate com Eduardo Escorel, diretor do documentário UOL Busca O Tempo e o Lugar, que já comentei num artigo para a Ilustrada, e que estréia sexta-feira em São Paulo.

 

O filme tem como personagem principal um pequeno agricultor alagoano, Genivaldo da Silva, que durante muito tempo militou na Pastoral da Terra e no MST. Liderou saques e ocupações. A certa altura, desencantou-se do movimento. O Tempo e o Lugar mostra um Genivaldo fortemente crítico das táticas do MST, relatando um treinamento que teve com “guerrilheiros do Sendero Luminoso” e contando de uma aventura de luta armada em que um líder do MST praticamente coagiu-o a arriscar a vida pela causa.

 

Bem, pode-se concordar ou não com as opiniões de Genivaldo. Pode-se criticar o filme de Eduardo Escorel em diversos aspectos. Acho, por exemplo, que o documentário ficaria mais completo se fosse procurado o líder do MST a quem Genivaldo se refere.

 

Eduardo Escorel considera que um documentário não precisa necessariamente seguir as regras do jornalismo, no sentido de “ouvir o outro lado”. Seu objetivo era focar-se na figura de Genivaldo, que tem uma trajetória interessante e conta coisas que não estamos habituados a ouvir por aí.

 

Por certo, seu documentário, de modo geral, dá crédito aos testemunhos de Genivaldo –que estão cheios de críticas ao MST.

 

Foi o bastante para que muita gente da platéia protestasse. “Joga água na moinho da direita”; “presta um desserviço às lutas populares”, coisa desse gênero. Outras pessoas concluíram com mais facilidade ainda que Genivaldo era um mentiroso, um fabulador.

 

Acho, como já disse, que o filme seria melhor se tentasse checar o que Genivaldo disse. Brinquei até com Eduardo Escorel, depois de encerrado o debate: se entrevistassem no filme o líder do MST a quem Genivaldo acusa de fanático, aí sim o desserviço à causa talvez corresse o risco de ser completo...

 

Mas é irritante a capacidade de algumas pessoas de esquerda de simplesmente se recusarem a admitir qualquer hipótese de crítica; pior que isso: julgar que qualquer crítica é necessariamente um desserviço. Ao contrário, abrir-se a críticas é o único modo de evitar que os mesmos erros sejam cometidos; depois perguntam todos porque o socialismo soçobrou no autoritarismo e no terror stalinista.

 

O fato é que muita gente defende o MST simplesmente porque atacá-lo seria fazer o jogo da direita. Do mesmo modo, muita gente defendia Stálin porque atacá-lo era fazer o jogo da direita. Se o defendessem menos, quem sabe a esquerda pudesse ter-se livrado dos fracassos em que se enredou.

 

Se Genivaldo mentiu ou não, não posso saber com certeza. Tendo a acreditar no que ele conta, e sem dúvida ele é melhor juiz dos seus próprios interesses como camponês do que eu. Tendo também a achar que ele (e o documentário) silenciam demais sobre suas ligações políticas posteriores à defecção do MST, e sobre “o tipo de gente com que ele se meteu” depois de ter-se metido com “o tipo de gente” do MST. Mas sem essas informações só posso, como o velho Montaigne, suspender meu julgamento.

 

O filme interessa pelas perguntas que deixa no ar; é também um pouco insatisfatório por essa mesma razão. Agora, sair atirando contra ele não é coisa de quem está na esquerda por ter uma alma generosa ou porque tem uma mentalidade crítica; é coisa de quem gosta de ser policial.   

Escrito por Marcelo Coelho às 01h49

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A cabeça dos italianos (2)

A cabeça dos italianos (2)

 

Muita coisa tipicamente italiana talvez não seja tão típica quanto Beppe Severgnini parece acreditar, em seu A cabeça do italiano (ver post anterior). Mas com certeza não é em qualquer shopping center do mundo que se pode ouvir uma mulher, no alto do terceiro andar, chamar pelo marido no térreo: “Maaaariooooooo...” O autor diz que isso acontece por lá.

 

Há nisso, certamente, um misto de domesticidade e ópera, que só se pode chamar de italiano. Uma informação interessante, que consta do livro, pode ter algo a ver com isso. É que, ao contrário do que acontece em muitos países, oito entre dez famílias italianas moram em casa própria.

 

Lembro de “A Família”, filme de Ettore Scola, em que várias gerações se sucediam no mesmo apartamento. Quem sabe essa sensação de “estar em casa”, de ser dono dos próprios domínios, e de encarar o pátio interno e a rua como extensões da própria moradia, ajude a explicar a sem-cerimônia italiana em lugares públicos.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h40

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A cabeça dos italianos

A cabeça dos italianos

Pode ser efeito da globalização. Mas o interesse pelas características nacionais parece ser mais intenso ultimamente. Não chega a ser contraditório. Todos os povos vão ficando mais parecidos do ponto de vista cultural, e justamente por isso as pequenas diferenças se tornam mais visíveis, mais conhecidas, mais intrigantes.

 

Estou acabando de ler A cabeça do italiano, do jornalista UOL Busca Beppe Severgnini (ed. Record). O texto é agradável, sorridente, tolerante, sem a paixão ou o desespero que teria um livro do mesmo gênero escrito por argentinos ou mexicanos.

 

Tudo tem um tom de crônica, levando-nos a uma viagem imaginária de dez dias pela Itália, de Milão até a Sardenha.

 

Quer dizer que vocês pretendem ficar dez dias? Vamos combinar o seguinte: a cada dia de viagem, examinamos três lugares. Há os clássicos, aqueles de que todos falam muito, talvez porque são pouco conhecidos. [será que a tradução está correta?]

Comecemos pelo aeroporto, já que estamos aqui.

 

Seguem-se anotações bem-humoradas sobre a mania dos italianos de gritarem no celular, o alívio que sentem ao passar ilesos pela alfândega, a teatralidade das desavenças conjugais em público.

 

OK, mas como sempre nesse gênero de textos sobre o “caráter nacional” desta ou daquela população, há muito impressionismo e falta de dados concretos. Seriam só os italianos que se sentem aliviados quando não são pegos pela polícia aduaneira? Ou será que o autor, italiano, sabe ler melhor as expressões faciais de seus compatriotas? Ou, ao contrário, quanto do que ele vê está sendo imaginado, servindo apenas para reforçar as próprias idéias preconcebidas que possui a respeito dos italianos?

 

Naturalmente, há coisas comuns na Itália (Severgnini fala especificamente de Nápoles) que valem para o Brasil do mesmo jeito: a fila dupla, o desrespeito às faixas de pedestres. E há coisas que Severgnini insiste em fazer parecer tipicamente italianas, mas são absolutamente comuns a qualquer parte do mundo: o silêncio contrangido entre vizinhos quando se encontram num elevador, ou a compra de bobagens de última hora, por impulso, quando estamos numa fila de supermercado.

 

O livro melhora quando surgem (raramente) algumas estatísticas significativas, que dão particularidade à Itália em relação a outros países europeus. Na Itália (mas também na Espanha) metade dos pais vive com filhos adultos. A proporção é incrivelmente menor entre os países, chegando a apenas 19% na Noruega. Daí a expressão “mammoni”, para os marmanjos que ainda moram com as mães.

 

Outra coisa curiosa: os italianos bebem, mas não caem de porre nas ruas como seus vizinhos mais ao Norte. Segundo o autor, os cartões de crédito não fazem o mesmo sucesso na Itália do que em outros países.

 

E há o caso Berlusconi. Um célebre aspecto de sua presença no poder é o fato de ele ser ao mesmo tempo dono de emissoras de televisão, e legislar como bem entende sobre o assunto. Não haveria aí uma incompatibilidade ética, ou um “conflito de interesses”, como diz Severgnini? Ele diz que isso passa batido os italianos, por vários motivos.

 

a incômoda posição de Berlusconi não será enfrentada enquanto os italianos não a considerarem um problema. É claro, os italianos não a considerarão um problema se a televisão não lhes disser que é, e aí está precisamente o xis da questão do conflito de interesses.

 

De resto, a sociedade italiana está permeada de situações desse tipo.

 

Os bancos oferecem aos poupadores seus próprios produtos financeiros. Jornalistas administram agências de mídia [assessorias de imprensa?] Arquitetos se elegem para comitês de planejamento urbano. Professores dão aulas particulares para seus próprios alunos em escolas públicas.

 

Como assim? Bancos deveriam ser impedidos de oferecer aos poupadores seus próprios produtos financeiros? Essa é nova para mim. Mas o autor, que colaborou para a The Economist por vários anos, deve saber do que está falando.   

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

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História, thriller, globalização

História, thriller, globalização

Dou notícia de alguns livros recebidos nos últimos tempos.

 

Mazagão – a Cidade que Atravessou o Atlântico, de Laurent Vidal (Martins Fontes). Um trecho:

 

Em 11 de março de 1769, na baía de Mazagão, uma cidade inteira se preparava para bater em retirada. Não se trata simplesmente de um exército que deixa o campo de batalha, mas de uma cidade que abandona seu espaço vital, uma sociedade urbana que se separa de seu invólucro de pedra. O exemplo é suficientemente raro para despertar nosso maior interesse. Quatorze embarcações foram enviadas de Lisboa para esse fim impressionante: organizar uma retirada urbana. Uma cidade sem muralhas, provisoriamente distribuída em 14 bairros flutuantes, faz vela rumo a Lisboa.

 

Mazagão era uma cidade de 2 mil habitantes, situada no Marrocos. Naquele ano de 1769, foi sitiada por 120 mil soldados mouros. Os mazaganenses foram deslocados para Lisboa e, em seguida, para a Amazônia; morrem quase todos.

 

Atualmente, Mazagão Velho abriga uma das principais comunidades negras do estado do Amapá –com a povoação de Curiaú. Seus habitantes são descendentes de quilombolas, escravos fugidos que se reagruparam nos quilombos.

 

Laurent Vidal, o autor do livro, é professor de História Urbana na Universidade de La Rochelle. 294 págs.

 

Os Sons dos Negros no Brasil- Cantos, danças, folguedos: as origens, de José Ramos Tinhorão (editora 34). 147 págs.

 

Há menção ao uso do berimbau na Bahia desde 1583; dos seus inimigos, um registro é o de dom Francisco Manuel de Melo, em 1685, que reclamava de ser “perturbado no estudo por bayles de bárbaros”. Dos calundus ou lundus da época de Gregório de Matos, o pesquisador vai até a literatura de finais do século 19, como a descrição de um samba no sertão cearense, em “Dona Guidinha do Poço”, de Manuel de Oliveira Paiva. O livro não diz muito em matéria musicológica sobre a evolução dos estilos musicais de origem africana, mas tem grande riqueza de informação histórica.

 

Latino-americanos à procura de um lugar neste século, de Néstor García Canclini (editora Iluminuras). 135 págs.

 

“Quem quer ser latino-americano?”, pergunta Canclini, conhecido pesquisador de assuntos culturais e de comunicação nascido na Argentina, interessado em discutir de que modo a identidade cultural do continente pode sobreviver numa época de globalização. Repete-se, com dados relativamente atualizados, mas não exaustivos, a velha preocupação com o predomínio da cultura norte-americana na produção e exportação de filmes e programas de TV. A isso se acrescenta uma nova “ameaça”, no entender do autor: os investimentos europeus na área editorial. Um trecho significativo, a respeito do mercado livreiro na Argentina:

 

Agora também se decide na Espanha quais os autores de nosso próprio país que podemos ler. O suplemento cultural do jornal Clarín de 16 de março de 2002 foi dedicado aos “nossos livros estrangeiros”: as últimas obras de Arturo Carrera, Rodolfo Fogwill, César Aira, Clara Obligado e Diana Bellessi não serão distribuídos no país desses escritores, Argentina, porque as filiais de seus editores espanhóis em Buenos Aires não têm como garantir a venda de mais de 3 mil exemplares.

 

Certo, mas era o momento do pleno colapso econômico argentino; circunstância que o autor lembra de passagem, mas que não parece abalar suas preocupações estruturais.

 

 

A Senhora das Savanas, de Hilton Marques. Ediouro, 261 págs.

 

Este é o primeiro romance publicado pelo autor, que é roteirista do programa “Jô Soares Onze e Meia”, e antigo colaborador em programas como “Planeta dos Homens” e “Viva o Gordo”. Uma “história original e envolvente, passada no coração da África”, segundo a contracapa, e que “prende o leitor do início ao fim”, segundo o próprio Jô Soares, na capa. Eis o início do primeiro capítulo.

 

O pessoal da fazenda se recolheu pouco depois das nove da noite. Antes das dez, a leoa atacou.

A presença de animais de grande porte por ali não era comum, pois o cheiro do homem os afugentava. A caça clandestina e a escassez de ofertas na cadeia alimentar naquela época do ano tangeram a leoa para fora de seu território e a colocaram na trilha de duas vacas que ocupavam o pequeno curral. O ataque foi vertiginoso e feroz. Em cinco segundos, a fera escalou o cercado e pulou sobre o costado da vaca de menor porte que, ao pressentir o perigo, escoiceou e mugiu e se arremessou contra a cerca e, na ânsia da fuga, espremeu a leoa contra os mourões.

Sindor Malek, o capataz da Fazenda Walcott, já sabia o que estava por acontecer, pois, antes de se recolher, registrara dois avisos naturais da iminência do perigo: havia animais inquietos e havia animais quietos demais.

 

Apesar de alguns clichês (“pressentiu o perigo”, “ofertas na cadeia alimentar”, “animais de grande porte”), há aqui um ótimo ritmo narrativo e, não sei bem como dizer, uma “realidade” muito forte no detalhe dos “animais inquietos e dos animais quietos demais”; a cena de uma leoa “espremida contra os mourões” convence e tem impacto. O “thriller” promete o encontro entre um guerrilheiro dado como morto e uma médica brasileira que irá salvá-lo. Eis a globalização a pleno vapor.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h35

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Renato Borghi

Leio no blog "Cacilda" que Renato Borghi completa 50 anos de teatro. É uma delícia vê-lo no palco, com a sua leveza de movimentação, o jeito ao mesmo tempo meigo e próximo do insulto, que ele sabe manter com muitas nuances; é insubstituível quando se trata de aliar baixeza e fragilidade em cena. Mas faço este post sobretudo para registrar uma coisa inacreditável: Renato Borghi nunca trabalhou em textos de Nelson Rodrigues. Seria o ator rodriguiano ideal-- e espero que algum diretor de teatro pense nisso. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h05

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Como Você Quer

Como Você Quer

Sempre tive um bocado de prevenção contra Pirandello. A surpresa de uma peça como “Seis Personagens em Busca de um Autor” parece que se esgota, a meu ver, numa época saturada de metalinguagem, de filmes que falam de filmes, de romances que são como cobras engolindo o próprio rabo, e até nos quadrinhos de “Mônica” surge, de vez em quando, o desenhista em crise de inspiração ou interagindo com os personagens que criou.

 

A idéia de que tudo é representação, e que atrás de uma máscara não se encontra nada além de outra máscara, pode ter sido importante para discutir a chamada “crise intelectual do século 20”, mas afinal pode ser também um mero truque sofístico.

 

Tive uma ótima surpresa ontem, assistindo a “Como Você Me Quer”, uma peça de Pirandello bem mais profunda do que esse jogo a que me referi. Nesse drama, está em funcionamento, mais uma vez, toda aquela história de que cada indivíduo é apenas uma personagem criada pelos outros, ou por si mesma, e de que não há uma “verdade interior”, nem mesmo uma “verdade factual” capaz de dizer quem e o quê, de fato, cada um é.

 

Acontece que esse labirinto de identidades está, no caso dessa peça, a serviço de uma situação dramática real, em que uma personagem de carne e osso de fato tem de “enganar” as pessoas à sua volta –sem que o espectador saiba em momento nenhum se se trata de um embuste mesmo ou se a personagem apenas finge estar enganando os outros para descobrir quais suas verdadeiras intenções.

 

A atenção intelectual do espectador se mantém desperta o tempo todo, sem que o texto perca em clareza na montagem –que teve a excelente idéia de fazer com que vários atores assumissem, alternativamente, o papel dessa personagem. Acentua-se, assim, a presença das múltiplas “personalidades” que a protagonista assume quando engana ou quando diz a verdade aos outros; e, ao mesmo tempo, evita-se que o peso de um papel dificílimo recaia apenas sobre uma das atrizes da companhia.

 

Todos –atores e atrizes— estão numa sinuca, pois têm de representar bem e, ao mesmo tempo, têm de representar mal. Uma pessoa tentando fingir que é outra pessoa nunca é perfeita em seu fingimento; acontecem exageros, momentos inconvincentes, etc. Como um ator pode fazer isso sem dar a impressão de que representa mal também?

 

Ziza Brisola (grávida), empenha-se com sucesso e no fio da navalha do dramalhão nessa tarefa. Fernanda Moura, que é quem começa assumindo o papel da protagonista na peça, é uma sofisticada presença no palco, ao estilo das divas italianas de outros tempos, mas se ressente do fato de que a complexidade da situação ainda não foi exposta plenamente para o espectador naqueles momentos iniciais; um pouco mais de estilo “cinema mudo”, e menos drama, talvez a beneficiasse.

 

A encenação de Mauricio Paroni de Castro não cai no erro comum de acrescentar novos elementos e maluquices a um texto que já é suficientemente complexo em si mesmo. Ou melhor, acrescenta uma de que não gosto: um longo balé de travestis, quando os atores masculinos passam a representar, também, o papel da protagonista.

 

Entretanto, a idéia de deixar uma cadeira de rodas vazia, num momento crucial da peça, que não posso descrever em detalhes, é um bom “acréscimo”, acho. Tira, na verdade, uma coisa que imagino existir numa encenação tradicional, e ao mesmo tempo a idéia geral do espetáculo se fortalece.

“Como Você Me Quer” está sendo encenada toda quarta-feira, às 21h, no Teatro João Caetano, com direção de Maurício Paroni de Castro –que, à frente da Companhia Manufactura Suspeita e da Companhia Linhas Aéreas, teve o gesto amigo de encenar as histórias de Voltaire de Souza nos Satyros, ano passado. Às quintas, no mesmo horário e teatro, eles encenam outra peça de Pirandello, “Cada um a seu Modo”.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h55

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De 1960 a 1968

No artigo de hoje, falo de “Crônica de um Verão”, documentário de Jean RouchEdgar Morin que mostra a solidão e a monotonia dos parisienses no verão de 1960. Ninguém diria que oito anos depois a insatisfação com o cotidiano fosse explodir nas ruas; mas depois de isso ter acontecido, parece que estava tudo prenunciado no filme.

 

Um aspecto que não abordei no artigo é o das relações interraciais. Jean Rouch fizera filmes na África, e um dos personagens de “Crônica de um Verão” é Landry, jovem negro que está estudando em Paris. Seu encontro com o operário Angélo é dos mais bonitos: como na maior parte do filme, a verdade está nos olhares de cada um. Landry e Angélo conversam sentados numa escada, o branco num andar de cima, o negro embaixo. Aparentemente, Landry, como estudante, está num nível socialmente superior ao de Angélo: encara o operário com certa curiosidade “mítica”, fundamentada, talvez, na esperança marxista de ver nos trabalhadores de fábrica a salvação do mundo. Angélo solta seu desprezo sobre os colegas de trabalho, a seu ver pretensiosos, individualistas, competitivos e dissimulados. Os olhares que ambos trocam parecem fraternos: um irmão mais velho explicando a realidade para o mais moço.

 

Cenas como essa parecem indicar que racismo e xenofobia não eram correntes na França de 1960. Uma conversa muito amigável entre dois negros e um grupo de brancos e brancas também é registrado no filme. Uma das mulheres brancas, sobrevivente de um campo de concentração, fala de seu desinteresse sexual pelos negros –embora reconheça que dancem como ninguém. A conversa se dá entre brincadeiras e gozações mútuas: aos poucos, parece que a conversa sobre sexo tinha esse efeito de liberar outros medos e preconceitos. Mais uma vez, 68 começava a surgir no horizonte.

 

A idéia de Morin era, justamente, fazer um “cinema de fraternidade”, em que pessoas comuns pudessem falar, e, mais importante do que isso, dialogar. Nesse sentido, os filmes de Eduardo Coutinho são ao mesmo tempo um avanço diante desse modelo e um retrocesso também. São um avanço, porque as conversas de Eduardo Coutinho tendem a ser mais surpreendentes e interessantes, e também porque seus documentários eliminam qualquer tipo de cena “encenada” –e há muitas encenações em “Crônica de um Verão”.

 

Por outro lado, nos filmes de Eduardo Coutinho os personagens raramente se encontram para uma conversa coletiva; só falam, na maior parte do tempo, com o diretor. Em “Crônica de um Verão”, há vários “debates” entre as personagens.

 

Um deles, no final do filme, é especialmente amargo e como que destrói algumas das expectativas fraternas que se iam criando no espectador. Os vários entrevistados assistem a uma primeira cópia do documentário, e dão suas opiniões sobre os “colegas” de entrevista. Uma mulher considera a outra entrevistada “insuportável”, e diz, na presença da própria, que não agüentaria ficar um minuto ao lado dela. Todos, ou quase todos, malham furiosamente o filme.

 

Não era apenas 68 que se prefigurava ali; o que veio depois também está anunciado.

 

cena de "UOL Busca Chronique d' un été"

Escrito por Marcelo Coelho às 09h49

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Marcha da maconha (2)

Só mais um comentário. O aborto também é criminalizado; não tenho certeza se uma marcha em favor do aborto iria despertar tamanha comoção policial.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h30

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A marcha da maconha

Pelo jeito, os tempos em que a maconha era chamada de “erva maldita” ainda estão longe de ter passado.

 

Pouca gente participou da “Marcha da Maconha” neste fim-de-semana, e menos gente ainda manifestou apoio público à iniciativa.

 

Os videos da manifestação apresentam pessoas pacíficas e razoáveis, levantando argumentos que, com a sumariedade inerente a passeatas e atos públicos, considero de qualquer modo corretos.

 

A proibição das bebidas alcoólicas nos Estados Unidos serviu apenas ao crime organizado. Nada mais lucrativo –e perigoso—do que associar uma atividade ilegal à produção de algum bem altamente demandado pela sociedade.

 

O ladrão que rouba e revende ao receptador se insere num circuito mais ou menos restrito; o vendedor de artigos falsificados já está comprometido com uma cadeia de produção mais complexa; o pequeno vendedor de drogas não tem como não estar associado a uma grande rede que envolve plantação, refino (no caso da cocaína), compra e venda, proteção armada, corrupção policial...

 

Sei perfeitamente que o número de dependentes de maconha aumentaria com a legalização. Mas minha preocupação é maior com o tráfico, com a violência que traz consigo; certamente causa muito mais mortes do que o consumo da droga.

 

Entretanto, parece que falar em legalização de maconha ainda é um tabu horroroso, e o aparato policial em torno da passeata –que apenas defendia a legalização, não o tráfico—era maior do que em qualquer investida e varredura nas favelas e pontos de comércio.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h29

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Amizade e cumplicidade

Transcrevo um trecho da palestra que dei na semana passada sobre amizade.

Construo uma situação, uma hipótese de como uma amizade pode começar. Vamos supor que alguém esteja num bar, numa sala de aula, em algum lugar qualquer, e veja uma pessoa totalmente desconhecida.

 

Essas duas pessoas trocam olhares, arriscam um sorriso, algum sinal de comunicação mútua. Pois bem, se o que predomina, nesse momento, é o interesse sexual, uma pessoa estará olhando para a outra, se comunicando com a outra, sem fazer referência a mais nada: olha para a outra pessoa, sorri para a outra pessoa, e espera apenas que no olhar da outra pessoa se reflita um movimento equivalente de interesse.

 

Imagine-se, entretanto, numa sala de aula, ou num bar, que exista um terceiro indivíduo –um professor, um garçom, um outro freqüentador do bar, um aluno—e que esse terceiro indivíduo tenha dito alguma coisa ridícula, tenha repetido algum hábito já conhecido, tenha entrado, por assim dizer, em algum papel social claramente caricatural.

 

As duas pessoas se olham novamente: trocam olhares, como no caso da paquera. Mas esse olhar não se esgota no interesse de um pelo outro; esse olhar, de cumplicidade, faz referência a um terceiro, a um outro, que é exterior às duas pessoas que se olham.

 

Esse olhar, que pode ser correspondido ou não, é diferente do olhar de interesse sexual: é um olhar de amizade. Claro, isso pode ser apenas o primeiro passo para um romance. Mas o fundamental, no caso, é que há um terceiro, uma esfera exterior, uma coisa “de fora”, à qual o olhar de duas pessoas se refere.

 

Nesse sentido é que eu considero a amizade uma espécie de cumplicidade do bem. Se, numa classe, numa sala de aula, eu “escolho” alguém para trocar esse olhar, no momento em que o professor repete uma besteira, é como se eu soubesse, por algum tipo de sinal, que a pessoa a quem eu dirijo esse olhar está no mesmo estágio de percepção das coisas, pode tão bem quanto eu perceber um traço ridículo que os demais talvez não percebam.

 

Pessoalmente, eu nunca me senti capaz de ter amizade com alguém sem ter essa instância “exterior” a respeito da qual se pode criar um espaço de cumplicidade, uma espécie de círculo mágico, do qual “os outros” estão excluídos.

 

Para dar um exemplo, ainda da época de faculdade, havia um professor com quem eu sentia muita afinidade, e que admirava muito. Houve momentos, em sala de aula, que trocamos olhares a respeito de uma intervenção mais desastrada de um aluno. Mas só começamos a ser mais amigos muito mais tarde, depois de eu ter encerrado minha vida universitária, no momento em que pudemos, com liberdade, falar mal –um pouco mal—de colegas meus.

 

Assim como o uso de palavrões, ou algum comentário sexista, é só a partir de alguma coisa “errada” feita em conjunto que se pode estabelecer algum laço de confiança, algum tipo de atitude que exigirá, posteriormente, de nós dois uma atitude de discrição.

 

Claro que essa referência a um terceiro, que eu estou simplificando aqui, passa por inúmeros testes, e encontra versões muito mais complexas do que as que eu exemplifiquei.

 

Pode surgir de situações de perigo comum, ou de empreitadas comuns, contra alguma coisa ou alguém; pode prosperar, frutificar ou não numa amizade longa, ou ir desaparecendo ao longo do tempo, em função de inúmeros outros fatores.

 

Tudo envolve, naturalmente, uma afinidade de interesses,de modos de vida, de gostos. Mas eu conheço muita gente de quem eu poderia ser amigo, pelos interesses, pelos modos de vida, pelos gostos, e que entretanto não é amiga minha, porque faltou esse tipo de vivência, esse tipo de ocasião em que, de algum modo, um relacionamento recíproco se fecha, ou se reserva um espaço, frente ao mundo exterior, sem entretanto ignorá-lo.

 

Dificilmente, portanto, eu concordaria com a visão de uma amizade em que uma alma é “espelho” da outra, ou, segundo a definição clássica, em que “uma alma só está ocupando dois corpos diferentes”. Se há espelho, no caso, é como se tivéssemos dois espelhos, em ângulos diferentes, que por alguma razão refletiram o mesmo objeto ao mesmo tempo; e que assim se completam, se criticam, e concordam quanto ao essencial.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h35

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Publicidade, cerveja, informação

Assim de chofre, pensei que era algum poema de Mário Quintana dedicado ao Dia das Mães. Não. Apesar da organização em estrofes e versos, era um texto da Associação Brasileira das Agências de Publicidade, a favor dos anúncios de cerveja. Saiu há alguns dias no jornal, mas não dá para passar batido. Transcrevo e comento.

 

QUEREM PROIBIR

A PUBLICIDADE

DE CERVEJAS NO BRASIL.

 

É O MESMO QUE PROIBIREM

A FABRICAÇÃO DE ABRIDORES

DE GARRAFAS NO BRASIL.

 

[eles não tiveram jeito de dizer: “é o mesmo que proibir a fabricação de cervejas no Brasil”, porque correriam o risco de alguém achar uma boa medida. Mas a comparação ficou estranha, porque abridores de garrafa abrem outras coisas além de cerveja, como suco de uva e groselha, por exemplo. De resto, por que tanta preocupação? Proibida a publicidade de cerveja, nada impede que surjam novas contas e novas batalhas publicitárias envolvendo, por exemplo, Maguary e Superbom.]

 

Nem a propaganda,

nem o abridor são a motivação

para irresponsáveis dirigirem embriagados.

 

[“motivação”, eis a palavra capciosa. Um abridor não “motiva” ninguém. A propaganda sim. Mas “motivação” aqui foi usado como sinônimo de “causa”, inocentando obviamente o abridor e, de contrabando, a propaganda.]

 

A propaganda ou o abridor

não são os culpados pela venda criminosa

de bebidas alcoólicas a menores.

 

[mas a propaganda,ao contrário do abridor, pode dar vontade em menores de beber cerveja]

 

Abridores e propaganda

não são incentivadores dos covardes

que praticam a violência doméstica.

 

[quem disse, aliás, que esses covardes bebem cerveja...? A julgar pela propaganda, os bebedores de cerveja são em geral solteiros e têm ótimo relacionamento com mulheres].

 

Essas são questões que só a educação,

a democratização da informação

e o rigor no cumprimento das leis podem resolver.

 

[entra de contrabando aqui outra palavra mágica, “informação”, cercada de conotações positivas, para depois ser reutilizada.]

 

Por isso,

proibir a publicidade de cervejas

não vai mudar em nada esse quadro.

 

[gosto do plural aqui: “cervejas”. O texto, para se mostrar neutro e isento, zela pelo pluralismo do produto, reconhecendo subliminarmente que há cervejas e cervejas, boas ou más, e que compete, claro, ao leitor escolher entre elas.]

 

A não ser tirar de você o direito

de gostar ou não gostar desta

ou daquela publicidade.

 

[Eis um direito novo no mercado. Naturalmente, eles não conseguiriam ir tão longe a ponto de dizer que a lei tiraria o direito de tomar cerveja, porque isso não ocorre. Então, é a própria publicidade que se apresenta como produto a ser usufruído, apreciado... sem moderação.]

 

De se informar e de formar a sua opinião.

 

[Opinião sobre o quê? Sobre a qualidade de determinado anúncio? Era isso o que prenunciava a estrofe anterior. Mas é claro que aqui a opinião se refere a tomar ou não cerveja, desta ou daquela marca; opinião que será “formada”, segundo o raciocínio do texto, vendo-se o maior número de anúncios possíveis, para julgar com plenitude de informação o que fazer com o abridor na mão.]

 

Um direito tão sagrado,

quanto o que você tem de comprar ou não

um abridor de garrafas.

 

[de novo, não tiveram coragem de dizer que o direito de tomar cerveja é sagrado. Entra então o álibi do abridor de garrafas]

 

E decidir o que fazer com ele.

 

Obrigado, mas posso decidir sozinho o que fazer com ele. Sem ninguém me martelando na cabeça que cerveja é alegria, corpo atlético, potência sexual etc.

 

Como sempre, esse tipo de defesa invoca a “liberdade de informação”. Mas não se trata de informar ninguém: trata-se de induzir pessoas a um comportamento que se quer que elas tenham.

 

Em resumo, uma droga.

 

No site PUNDO3000, há fotos comparando anúncio e realidade. Vale ver.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h28

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voltaire de souza

Algumas crônicas recentes do jornal "Agora".

E ENTRETANTO SE MOVE

 

 

Em São Paulo, a terra treme.

No geral, entretanto, a vida continua a mesma.

A rotina abafava o casamento de Marli.

--O Gonçalo é um bom homem, mas...

Tinha-se extinguido a velha chama do amor.

--Ele chega em casa, e todo dia é a mesma coisa.

--Marli. Traz a cerveja.

O noticiário. A novela. A janta. A outra garrafa.

Gonçalo ia para o quarto se arrastando de sono.

Naquela noite, carinhos se trocaram.

--Vem, Gonçalo. Que isso não dói.

Movimentos lentos e ritmados tomaram conta do casal.

De repente, o acontecimento inusitado. O ponto G. O clímax do amor.

--Gonçaaaalooo... aííhnhh... faz mais. Desse jeitooo...

Marli nunca tinha sentido tanto prazer. Olhou para o marido.

Ele dormia profundamente. Imóvel. Quem tinha se movido era a cama da suíte.

Marli suspira. E espera ardentemente um outro terremoto.

O lar, como o subsolo, esconde perigosas placas tectônicas.

 

 

 

MILAGRES ACONTECEM

 

Nossos jovens precisam de mais contato com a natureza.

Rodrigo e Cauê eram adolescentes de classe média.

Feriadão. Um carro. Um pouco de dinheiro no bolso.

--Vamos pegar uma praia?

Os dois irmãos eram adeptos do surfe.

Santa Catarina é um bom destino para os ligados no mar.

Tempo feio. Ressaca.  Bom, às vezes, para as atividades da prancha.

Caía a tarde. Rodrigo fazia questão.

--Hora do baseado. 

Os amigos se perderam na contemplação do horizonte sem fim.

--Pô... que barato...

Veio o LSD. A cabeça de Cauê zunia. Ele teve um susto de repente.

--Cara. Alucinei. Que é que é isso?

Um padre acenava desesperado no céu. Preso a centenas de balões coloridos.

Rodrigo e Cauê vieram para São Paulo antes do tempo.

Juram que não vão mais usar drogas. E não param de ler a Bíblia.

A mãe prefere não falar nada a respeito da tragédia do padre Adelir.

Mas a realidade, quando alucina, também opera milagres. 

 

 

JANELA INDISCRETA

 

 

Medo. Ódio. Suspeita. O crime e a barbárie invadem os lares da classe média.

Lisandra tinha acabado de se mudar para seu novo apartamento.

O Condomínio Chateau de Landru oferecia piscina, play ground e churrasqueira.

Uma vista privilegiada da Paulista era garantida pelas sacadas neoclássicas.

A noite começava tranqüila lá pelos lados do Paraíso.

Lisandra notou uma movimentação estranha no prédio em frente.

Um homem corpulento ia e vinha. Parecia carregar um corpo.

--Matou alguém. Tenho certeza.

Depois, veio a dúvida.

--Acho que é uma mala grande. Mas isso é estranho também.

Lisandra pensou mais um pouco.

--Matou, picou e guardou na mala. Isso é muito comum.

Lisandra ajustava o foco do binóculo. Subiu em cima da cama para ver melhor.

O homem apagou a luz. Lisandra debruçou-se na janela.

O binóculo quis escapar das mãos da dona de casa. Um movimento brusco.

Lisandra perdeu o equilíbrio. Caiu do décimo andar. Sem chance de ver mais nada.

Crimes podem ser testemunhados em toda parte.

Mas não é preciso binóculo para ter visões do paraíso.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h46

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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