Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

W. G. Sebald, Pasternak, estações de trem

W. G. Sebald, Pasternak, estações de trem

Leio em vários lugares os maiores elogios ao escritor UOL Busca W. G. Sebald (1944-2001), de quem a Companhia das Letras publica Austerlitz, não sei se bem romance ou escrito autobiográfico, que começo a ler agora. Já disseram que, com Sebald, a literatura mais recente pode por fim encontrar uma grandeza semelhante à de autores como Proust, Joyce e Thomas Mann.

 

É uma expectativa e tanto para quem abre as páginas de um livro. A prosa do autor é surpreendentemente simples e direta, encadeando reminiscências e conversas sobre as quais pesa, como uma sombra, a barbárie imensa da história européia. O mais fascinante, do ponto de vista literário, é o tom indefinível de tristeza que o estilo de Sebald transmite desde o início. Tristeza? A palavra é subjetiva demais: as coisas vão sendo contadas e discutidas sem nenhuma paixão, sem nenhum colorido, sem sequer a estranheza em “branco e preto” da prosa kafkiana.

 

Não se trata, obviamente, de literatura fantástica, mas tampouco de literatura realista: é “literatura objetiva”, se dá para dizer assim, em torno da qual parece pairar não sei que aura de inverdade. Para isso contribuem as fotos e ilustrações que acompanham o livro, como se o autor necessitasse provar que tudo aquilo a que se refere existe de verdade.

 

Sebald (ou seu amigo Jacques Austerlitz, cujas conversas rememora) faz diversos comentários sobre a arquitetura metropolitana européia de finais do século 19, a começar pela monumental estação ferroviária de Antuérpia. Algumas páginas adiante, são as gares de Paris que entram em discussão. Austerlitz

 

costumava visitar quase diariamente uma das grandes estações, em geral a Gare du Nord e a Gare de l’ Est, sobretudo de manhã ou à noite, para observar as locomotivas a vapor que ingressavam no pátio de vidro negro de fuligem ou o suave deslizar dos misteriosos vagões-leitos, esplendidamente iluminados, que rumavam noite adentro como navios na imensidão do mar. Não raro ele ficara à mercê das mais perigosas e para ele totalmente incompreensíveis correntes de emoção nas estações parisienses, que ele, como dizia, considerava lugares a um só tempo de felicidade e infelicidade.

 

Este trecho me lembrou um poema de UOL Busca Boris Pasternak, que ponho aqui a partir da tradução francesa de Alexandre Schick (editora Pierre Seghers):

 

A ESTAÇÃO DE TREM

 

A estação de trem –o cofre-forte

Das minhas despedidas, dos reencontros, e das despedidas,

Amiga fiel e conselheira,

Quantos serviços me prestou!

 

Antigamente –toda minha vida se prendia a um cachecol,

Desde que eu pudesse pegar o trem,

E como harpias amordaçadas

As nuvens de vapor enevoavam os meus olhos.

 

Antigamente –desde que me sentava ao lado dela—

Psiu! –eu me inclinava para ela e me erguia:

Adeus, está na hora, vida minha!

Certo, estou descendo, bilheteiro!

 

Antigamente –eram as tempestades e os trilhos

Que me entreabriam o espaço,

E os flocos de neve me riscando a pele

Impediam que as juntas dos vagões me pegassem.

 

O apito se repete e se perde.

Ouvimos de longe como um eco, um outro ainda—

E o trem já é um turbilhão, os vagões

Passam como uma monção curvada e surda.

 

O crepúsculo se impacienta,

Engolindo a fumaça de perto,

O campo e o vento a seguem.

Ah, como eu gostaria de estar com eles!

 

Foto tirada durante a grande inundação de Paris de 1910.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h44

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Teste para os sabidos

Todo mundo –ou melhor, 99% das pessoas—se acha mais sabido do que é. Esta cifra (99%) não é um chute. Pesquisadores chegaram a isso graças a um teste muito simples, que li no livro SupercrunchersPor que pensar com números é a nova maneira de ser inteligente, de Ian Ayres, recém-lançado pela Ediouro.

 

Experimente fazer o teste.

 

Para cada uma das seguintes dez questões, dê a faixa de respostas dentro da qual você está 90% confiante de que tem a resposta correta. Por exemplo, para a primeira questão, você deve preencher: “Tenho 90% de confiança de que a idade de Martin Luther King no momento de sua morte era algo entre ____ anos e _____ anos.” Não se preocupe se não souber a resposta exata. O objetivo aqui é ver se você pode construir intervalos de confiança que incluam a resposta correta em 90% dos casos. Aqui estão as dez questões:

 

                                                                                              BAIXO                   ALTO

 

1. Qual a idade de Martin Luther King quando morreu?   ______                   ______

2. Qual a extensão do rio Nilo, em quilômetros?              _______                  ______

3. Quantos países pertencem à Opep?                              _______                  ______

4. Quantos livros há no Velho Testamento?                     ______                    ______

5. Qual o diâmetro da Lua, em km?                                 _______                    _____

6. Qual o peso de um Boeing 747 vazio, em quilos?        ______                    ______

7. Em que ano nasceu Mozart?                                        _______                  ______

8. Qual o período de gestação de um elefante asiático,   ______                    _____

      em dias?

9. Qual a distância aérea entre Londres e Tóquio,            _____                   ______

    em km?

10. Qual é o ponto mais profundo dos oceanos, em

    metros?                                                                           ______                   _______

 

 

 


 

 

Não vale responder “Sei lá”. Isso também é uma mentira. É claro que você tem alguma idéia. Você sabe que o ponto mais profundo do oceano tem mais de 50 milímetros e menos de 150 mil quilômetros. Incluí as respostas corretas abaixo para que você possa ver o quanto se aproximou da verdade.

 

Se todos os dez intervalos que você colocou incluírem a resposta certa, você tem pouca confiança. Qualquer um poderia garantir que isso ocorreria –apenas colocando respostas arbitrariamente amplas. Tenho absoluta certeza de que Mozart nasceu entre 3 a. C. e, digamos, 1980. Mas quase todo mundo que responde a essas questões enfrenta o problema oposto, de superconfiança –eles não conseguem evitar a colocação de diferenças muito pequenas. As pessoas acham que sabem muito mais do que sabem. Na verdade (...) descobriu-se que a maioria das pessoas errava entre 4 e 7 questões. Menos de 1% das pessoas deram variações que incluíram a resposta certa em 9 ou 10 questões. Cerca de 99% das pessoas eram superconfiantes.

 

(As respostas certas são estas: 1- 39 anos; 2- 6 738km; 3- 13 países 4- 39 livros; 5-3.476 km; 6- 177 toneladas; 7- 1756; 8-645 dias; 9- 9 590km; 10- 11.033 metros.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h32

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O tempo e o lugar

O tempo e o lugar

Participei nesta terça-feira de um debate com Eduardo Escorel, diretor do documentário UOL Busca O Tempo e o Lugar, que já comentei num artigo para a Ilustrada, e que estréia sexta-feira em São Paulo.

 

O filme tem como personagem principal um pequeno agricultor alagoano, Genivaldo da Silva, que durante muito tempo militou na Pastoral da Terra e no MST. Liderou saques e ocupações. A certa altura, desencantou-se do movimento. O Tempo e o Lugar mostra um Genivaldo fortemente crítico das táticas do MST, relatando um treinamento que teve com “guerrilheiros do Sendero Luminoso” e contando de uma aventura de luta armada em que um líder do MST praticamente coagiu-o a arriscar a vida pela causa.

 

Bem, pode-se concordar ou não com as opiniões de Genivaldo. Pode-se criticar o filme de Eduardo Escorel em diversos aspectos. Acho, por exemplo, que o documentário ficaria mais completo se fosse procurado o líder do MST a quem Genivaldo se refere.

 

Eduardo Escorel considera que um documentário não precisa necessariamente seguir as regras do jornalismo, no sentido de “ouvir o outro lado”. Seu objetivo era focar-se na figura de Genivaldo, que tem uma trajetória interessante e conta coisas que não estamos habituados a ouvir por aí.

 

Por certo, seu documentário, de modo geral, dá crédito aos testemunhos de Genivaldo –que estão cheios de críticas ao MST.

 

Foi o bastante para que muita gente da platéia protestasse. “Joga água na moinho da direita”; “presta um desserviço às lutas populares”, coisa desse gênero. Outras pessoas concluíram com mais facilidade ainda que Genivaldo era um mentiroso, um fabulador.

 

Acho, como já disse, que o filme seria melhor se tentasse checar o que Genivaldo disse. Brinquei até com Eduardo Escorel, depois de encerrado o debate: se entrevistassem no filme o líder do MST a quem Genivaldo acusa de fanático, aí sim o desserviço à causa talvez corresse o risco de ser completo...

 

Mas é irritante a capacidade de algumas pessoas de esquerda de simplesmente se recusarem a admitir qualquer hipótese de crítica; pior que isso: julgar que qualquer crítica é necessariamente um desserviço. Ao contrário, abrir-se a críticas é o único modo de evitar que os mesmos erros sejam cometidos; depois perguntam todos porque o socialismo soçobrou no autoritarismo e no terror stalinista.

 

O fato é que muita gente defende o MST simplesmente porque atacá-lo seria fazer o jogo da direita. Do mesmo modo, muita gente defendia Stálin porque atacá-lo era fazer o jogo da direita. Se o defendessem menos, quem sabe a esquerda pudesse ter-se livrado dos fracassos em que se enredou.

 

Se Genivaldo mentiu ou não, não posso saber com certeza. Tendo a acreditar no que ele conta, e sem dúvida ele é melhor juiz dos seus próprios interesses como camponês do que eu. Tendo também a achar que ele (e o documentário) silenciam demais sobre suas ligações políticas posteriores à defecção do MST, e sobre “o tipo de gente com que ele se meteu” depois de ter-se metido com “o tipo de gente” do MST. Mas sem essas informações só posso, como o velho Montaigne, suspender meu julgamento.

 

O filme interessa pelas perguntas que deixa no ar; é também um pouco insatisfatório por essa mesma razão. Agora, sair atirando contra ele não é coisa de quem está na esquerda por ter uma alma generosa ou porque tem uma mentalidade crítica; é coisa de quem gosta de ser policial.   

Escrito por Marcelo Coelho às 01h49

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A cabeça dos italianos (2)

A cabeça dos italianos (2)

 

Muita coisa tipicamente italiana talvez não seja tão típica quanto Beppe Severgnini parece acreditar, em seu A cabeça do italiano (ver post anterior). Mas com certeza não é em qualquer shopping center do mundo que se pode ouvir uma mulher, no alto do terceiro andar, chamar pelo marido no térreo: “Maaaariooooooo...” O autor diz que isso acontece por lá.

 

Há nisso, certamente, um misto de domesticidade e ópera, que só se pode chamar de italiano. Uma informação interessante, que consta do livro, pode ter algo a ver com isso. É que, ao contrário do que acontece em muitos países, oito entre dez famílias italianas moram em casa própria.

 

Lembro de “A Família”, filme de Ettore Scola, em que várias gerações se sucediam no mesmo apartamento. Quem sabe essa sensação de “estar em casa”, de ser dono dos próprios domínios, e de encarar o pátio interno e a rua como extensões da própria moradia, ajude a explicar a sem-cerimônia italiana em lugares públicos.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h40

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A cabeça dos italianos

A cabeça dos italianos

Pode ser efeito da globalização. Mas o interesse pelas características nacionais parece ser mais intenso ultimamente. Não chega a ser contraditório. Todos os povos vão ficando mais parecidos do ponto de vista cultural, e justamente por isso as pequenas diferenças se tornam mais visíveis, mais conhecidas, mais intrigantes.

 

Estou acabando de ler A cabeça do italiano, do jornalista UOL Busca Beppe Severgnini (ed. Record). O texto é agradável, sorridente, tolerante, sem a paixão ou o desespero que teria um livro do mesmo gênero escrito por argentinos ou mexicanos.

 

Tudo tem um tom de crônica, levando-nos a uma viagem imaginária de dez dias pela Itália, de Milão até a Sardenha.

 

Quer dizer que vocês pretendem ficar dez dias? Vamos combinar o seguinte: a cada dia de viagem, examinamos três lugares. Há os clássicos, aqueles de que todos falam muito, talvez porque são pouco conhecidos. [será que a tradução está correta?]

Comecemos pelo aeroporto, já que estamos aqui.

 

Seguem-se anotações bem-humoradas sobre a mania dos italianos de gritarem no celular, o alívio que sentem ao passar ilesos pela alfândega, a teatralidade das desavenças conjugais em público.

 

OK, mas como sempre nesse gênero de textos sobre o “caráter nacional” desta ou daquela população, há muito impressionismo e falta de dados concretos. Seriam só os italianos que se sentem aliviados quando não são pegos pela polícia aduaneira? Ou será que o autor, italiano, sabe ler melhor as expressões faciais de seus compatriotas? Ou, ao contrário, quanto do que ele vê está sendo imaginado, servindo apenas para reforçar as próprias idéias preconcebidas que possui a respeito dos italianos?

 

Naturalmente, há coisas comuns na Itália (Severgnini fala especificamente de Nápoles) que valem para o Brasil do mesmo jeito: a fila dupla, o desrespeito às faixas de pedestres. E há coisas que Severgnini insiste em fazer parecer tipicamente italianas, mas são absolutamente comuns a qualquer parte do mundo: o silêncio contrangido entre vizinhos quando se encontram num elevador, ou a compra de bobagens de última hora, por impulso, quando estamos numa fila de supermercado.

 

O livro melhora quando surgem (raramente) algumas estatísticas significativas, que dão particularidade à Itália em relação a outros países europeus. Na Itália (mas também na Espanha) metade dos pais vive com filhos adultos. A proporção é incrivelmente menor entre os países, chegando a apenas 19% na Noruega. Daí a expressão “mammoni”, para os marmanjos que ainda moram com as mães.

 

Outra coisa curiosa: os italianos bebem, mas não caem de porre nas ruas como seus vizinhos mais ao Norte. Segundo o autor, os cartões de crédito não fazem o mesmo sucesso na Itália do que em outros países.

 

E há o caso Berlusconi. Um célebre aspecto de sua presença no poder é o fato de ele ser ao mesmo tempo dono de emissoras de televisão, e legislar como bem entende sobre o assunto. Não haveria aí uma incompatibilidade ética, ou um “conflito de interesses”, como diz Severgnini? Ele diz que isso passa batido os italianos, por vários motivos.

 

a incômoda posição de Berlusconi não será enfrentada enquanto os italianos não a considerarem um problema. É claro, os italianos não a considerarão um problema se a televisão não lhes disser que é, e aí está precisamente o xis da questão do conflito de interesses.

 

De resto, a sociedade italiana está permeada de situações desse tipo.

 

Os bancos oferecem aos poupadores seus próprios produtos financeiros. Jornalistas administram agências de mídia [assessorias de imprensa?] Arquitetos se elegem para comitês de planejamento urbano. Professores dão aulas particulares para seus próprios alunos em escolas públicas.

 

Como assim? Bancos deveriam ser impedidos de oferecer aos poupadores seus próprios produtos financeiros? Essa é nova para mim. Mas o autor, que colaborou para a The Economist por vários anos, deve saber do que está falando.   

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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