Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
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O destino do jornal (2)

O destino do jornal (2)

Um dado bem preocupante é o que aparece em outro livro sobre o futuro do jornalismo, Os Jornais Podem Desaparecer?, de Philip Meyer (editora Contexto). É uma estatística sobre as faixas etárias de quem lê jornal.

 

Entre os que nasceram antes de 1928, cerca de 75% eram leitores diários de jornal.

 

Dos que nasceram entre 1928 e 1945, a média ficou por volta de 70%.

 

Dos nascidos entre 1946 e 1964, menos de 50% lêem jornal todos os dias.

 

Os que nasceram depois de 1964 ficam abaixo de 30% nesse quesito.

 

Note-se que a pesquisa vem sendo feita desde 1985. E não adianta o sujeito envelhecer para que se torne mais interessado em ler jornal.

 

Em 1985, a faixa dos nascidos depois de 1964 tinha só uns 25% de leitores de jornal. Em 2002, a porcentagem é a mesma. Trata-se, segundo o autor, de um hábito geracional: majoritário entre os nascidos antes da guerra, minoritário depois.

 

Um blog interessante sobre o tema, o Greeleys Ghost, pode ser acessado aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h04

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O destino do jornal

O destino do jornal

Faço uma resenha, para sair sábado na Ilustrada, do livro O destino do jornal, de Lourival Sant’Anna (editora Record). Há dados e análises interessantes sobre a situação do jornalismo impresso no Brasil, embora seja cedo para arriscar muitas previsões a respeito de seu futuro.

 

Eis um raciocínio interessante, que nem sempre é a primeira coisa que vem à mente quando se pensa na lucratividade dos jornais:

 

Quanto mais longe o leitor morar, e quanto menos leitores houver na área onde ele mora, mais caro é levar o jornal até ele. Simplificando: levar um caminhão cheio de jornais para uma determinada região do interior de São Paulo pode valer a pena. Mas, se houver mais leitores potenciais na mesma região, que não encham um segundo caminhão, pode não ser lucrativo atendê-los. Os jornais consumidos em locais mais distantes têm um preço de venda avulsa e de assinatura mais alto do que na cidade –sede do jornal. Mas essa diferença não cobre o custo do aumento do transporte. Até porque, como assinalado anteriormente, o preço de venda do jornal –somando avulsa e assinatura—representa apenas cerca de 25% da receita do jornal. [outros 50% vêm de grandes anunciantes, e 25% de classificados]. ... Se o custo de levar o jornal para um ponto mais distante não trouxer um retorno publicitário condizente com o que a empresa considerar compensador, então a tendência será não atender à demanda do mercado naquele lugar.

 

Há, entretanto, que levar em conta o prestígio de ser um jornal de circulação nacional; o cálculo dos lucros e prejuízos na distribuição tem de ser ponderado com outro valor, de mais difícil aferição, que é o da importância e da credibilidade da marca. O que, naturalmente, atrai leitores mais qualificados (e anunciantes também). Mas, se os anunciantes mais qualificados passam a investir mais nesse jornal, o círculo vicioso se acentua: novamente as receitas publicitárias, sendo maiores, tornam ainda menos lucrativo o aumento da circulação em lugares distantes...

 

Outro círculo vicioso interessante é o das estatísticas sobre o tempo consumido na leitura dos jornais. Em 2001, segundo Sant’Anna, um leitor gastava 64 minutos diários para ler jornal. O dado deve ser um pouco exagerado, porque já em 2002 a média caiu para 51 minutos. Em 2006, a leitura nos dias de semana consome apenas 45,7 minutos.

 

Todos concluem, a partir daí, que o leitor tem menos tempo para ler jornal. O que não é incorreto, mas seria necessário saber no que ele gasta o tempo que deixa de dedicar à leitura. Pois também é um fato que, baseados na “falta de tempo” do leitor, os jornais procuraram tornar-se mais enxutos, fáceis de ler, cheios de gráficos e fotos. De modo que o problema inicial –cada vez se tem menos tempo—pode na verdade ser efeito da solução –faz-se um jornal que se lê em menos tempo...

 

O grande desafio, acho, não é fazer um jornal que se consiga ler em dez minutos, mas um jornal que não seja chato, que não nos dê vontade de largá-lo depois de dez minutos.

 

banco extensível do designer Charles Kaisin: "duro como madeira", diz.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21

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Oito vezes fotografia

Oito vezes fotografia

Esta fotografia de Walker Evans foi tirada em 1936, durante sua viagem ao Sul dos Estados Unidos.

 

Notam-se desde logo algumas ironias nessa imagem. A notícia, não singularmente importante, de que o general Lafayette fez um discurso naquele lugar no ano de 1824 tem sua pretensão histórica contrastada com o prosaísmo dos serviços oferecidos mais de um século depois. Note-se que o anúncio de um estenógrafo público, quase na mesma altura e com dimensões semelhantes à placa comemorativa do discurso, acrescenta-lhe ainda um outro comentário: logo pensamos que não havia ninguém para estenografar o discurso de Lafayette em 1824... como se o avanço técnico tivesse chegado, no caso, tarde demais, com as palavras do famoso general definitivamente perdidas. Da esquerda para a direita, de qualquer modo, os dois cartazes fazem o percurso do passado histórico para um presente “técnico”, marcado pela pressa, em que pronunciamentos supostamente menos relevantes que os de Lafayette devam, ainda assim, ser registrados com exatidão.

 

No eixo vertical, de baixo para cima, a foto se divide em três níveis. O inferior é ocupado pelos dois cartazes de gêneros alimentícios; o nível intermediário, a que correspondem as placas “passado/presente”, do discurso e do estenógrafo, representaria o mundo da política, do trabalho, dos negócios, das atividades comerciais; no terceiro plano, o mais elevado, e abrindo-se de ponta a ponta da varanda, aparece o cartaz da escola de arte, simplesmente pairando acima tanto das necessidades materiais quanto dos afazeres públicos e privados da cidade. Certamente uma pretensão que o caráter modesto do conjunto novamente relativiza: sem contar que, em mais uma ironia, a representação das uvas, do abacaxi ou do repolho na placa FRUTAS-VERDURAS não depõe muito em benefício da escola de arte que –será?—instruiu o autor do cartaz.

 

Este é um trecho do artigo que escrevi sobre a foto de Walker Evans (e mais a questão dos cartazes populares), para um livro que acaba de sair pela Companhia das Letras, Oito vezes fotografia, que reúne ensaios de Alberto Tassinari, Antonio Cicero, Rodrigo Naves, Eugênio Bucci, Sylvia Caiuby Novaes, José de Souza Martins e Cristiano Mascaro. Cartier-Bresson, André Kertész e Sebastião Salgado são alguns dos fotógrafos analisados. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h19

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Patrocinando Beethoven

Patrocinando Beethoven

Ótima notícia na Ilustrada de hoje: reproduz-se, no Rio, o esquema francês das "folles journées" de Nantes, com programação extensíssima em vários pontos da cidade, muitos intérpretes internacionais, tudo para homenagear Beethoven.

Não deixa de ser interessante acrescentar uma informação. O evento das "loucas jornadas" tem o patrocínio da Alstom, conforme release abaixo.

Pelo segundo ano consecutivo, a Alstom, líder mundial em energia e transporte, patrocina a Rio Folle Journée, o maior evento de música erudita organizado no Brasil, que acontece no Rio de Janeiro entre os dias 4 e 8 de junho. Em 2007, o tema das apresentações foi Harmonia dos Povos, dedicado às origens, estilos e escolas de diversos países. Este ano, na programação da Folle Journeé, que significa “jornada maluca”, serão apresentadas composições da obra de Beethoven. No total estão previstos 48 concertos em oito locais diferentes da capital fluminense: Theatro Municipal, Anexo do Municipal, Sala Cecília Meireles, Auditório Guiomar Novaes, Auditório de Furnas e do BNDES, Centro Cultural Justiça Federal e Igreja N.S. do Carmo da Lapa (confira programação completa abaixo). Os ingressos vão custar de R$ 1 a R$ 5 e poderão ser comprados nas bilheterias dos locais das apresentações, com exceção das apresentações na igreja N.S. do Carmo da Lapa, que devem ser adquiridos nas bilheterias da Sala Cecília Meireles. A previsão de público é de 35 mil pessoas. O evento foi criado em Nantes, em 1995, pelo francês René Martin e está na sua segunda edição no Brasil. Informações: http://www.riofollejournee.com/ 

Sobre a ALSTOM

A ALSTOM, líder mundial em infra-estrutura de geração de energia e transporte ferroviário, é também referência por suas tecnologias inovadoras e que respeitam o meio ambiente. O Grupo fabrica os trens mais rápidos e os metrôs automatizados que oferecem a maior capacidade do mundo. Fornece também, usinas integradas turnkey e serviços associados para diferentes fontes de energia, entre as quais, a hidreletricidade, a energia nuclear, o gás, o carvão e o vento. O grupo emprega mais de 76.000 pessoas em 70 países, com uma carteira de pedidos na ordem de € 23,5 bilhões em 2007/08.

Merci beaucoup.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h32

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revistas européias

revistas européias

http://www.eurozine.com/

Link para artigos de importantes revistas culturais européias, da "Esprit" francesa à "Merkur" alemã, com direito a croatas, romenas e gregas.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h49

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O STF e a democracia

No artigo de hoje para a Ilustrada, tratei de um assunto "institucional", o destaque público e o poder político que o Supremo Tribunal Federal tem alcançado ultimamente.

 Não há como ser contrário à transmissão ao vivo dos julgamentos do STF. Aprende-se muitíssimo e discute-se mais ainda graças a esse sistema. Mas o princípio da publicidade --isto é, o de que os atos políticos ganham estatuto ético na medida mesma em que podem vir a público-- não deixa de trazer uma conseqüência, a da politização.

Pode-se argumentar que todo julgamento do STF sempre foi político. Mas uma coisa é ser político dentro de seu próprio âmbito de atividades, dentro de sua própria esfera de atribuições, e outro é ser político no sentido mais geral do termo. Quando os juízes do STF saem de seu gabinete e da leitura dos autos para interagir com a sociedade diretamente --dando declarações antes de votar a matéria, por exemplo--, estão se comportando mais como agentes políticos, como líderes de correntes de opinião, como representantes desta ou daquela aspiração da sociedade, do que como juízes. É como se buscassem o voto dos eleitores; contentam-se com o aplauso, o prestígio.

Juízes sempre brigaram e bateram boca em decisões colegiadas. Meu pai foi desembargador e contava alguns arranca-rabos incríveis que presenciou. Bater boca é normal, e é educativo, até, ver os acalorados e personalíssimos debates no STF. Ocorreram, entretanto, debates curiosos na decisão do STF sobre células-tronco. Os votos tinham tantos adendos e considerações --não se limitando apenas a julgar a constitucionalidade da lei da biossegurança-- que o ministro Cézar Peluso chegou a ter de esclarecer o conteúdo final do que tinha decidido; pouca gente tinha certeza de qual o placar da votação.

Seria estranhíssimo, para não dizer terrível, um processo de "eleição" dos juízes do Supremo. Mas no mínimo as sabatinas do Senado para aprovar ou rejeitar as indicações presidenciais teriam de ser muito mais politizadas e ideológicas do que são. Não faz muito sentido, dado o extremo poder de que estão imbuídos os ministros, que juristas sejam guindados ao posto sem que se saiba se suas opiniões encontram real representatividade no conjunto da sociedade. Por outro lado, é também bom que exista pluralismo no STF. que não se encontre ali apenas a voz da maioria. Não sei como solucionar essa questão; sei que tende a agravar-se, na medida em que existe uma desproporção entre a publicidade do debate em que se envolvem e a representatividade real de suas opiniões.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h42

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três releases

Alguns releases que recebi, para coisas que podem ser interessantes.

O primeiro é sobre um programa que estréia na sexta-feira, dia 13 de junho, às 20h30, na TV Cultura, só sobre cultura latino-americana. Acho que nunca tinha havido uma iniciativa dessas no Brasil. O apresentador é um cubano, mestiço de japonês, radicado por aqui. Segue um trecho do release.

Com uma hora de duração, o programa de estréia trará três documentários. O primeiro é o argentino “Peluquería LaEpoca”, que conta a história de uma barbearia que se transformou em um espaço cultural. Na seqüência, o curta-metragem “Cinema Alcazar”, da Nicarágua, que fala de uma mulher que foi morar em uma sala de cinema destruída por um terremoto. E por fim, o telespectador confere “Panamá Gay”, sobre um músico panamenho que faz o papel de repórter e sai em busca da identidade gay num país onde a homossexualidade é tabu.

 


 

O segundo release é sobre um dia de discussões a respeito da obra do poeta Bruno Tolentino, falecido há pouco tempo. Tolentino foi sem dúvida uma das mais polêmicas e odiadas figuras da literatura recente, dada a sua extrema agressividade (com relação aos concretos em especial). O interessante do seminário é que reunirá alguns de seus críticos –não chego a dizer desafetos, mas talvez pudesse--, como Nelson Ascher.

O enigma Bruno Tolentino

Sábado, dia 21 de junho

das 9h30 às 18 hs.

Instituto Internacional de Ciências Sociais- Rua Maestro Cardim, 370 (Metrô São Joaquim)- Bela Vista - São Paulo  Fone [11] 3251 5377

ENTRADA FRANCA

Programação:

9h30 – 11h: “Uma visão geral da obra de Bruno Tolentino”

Palestrante: Érico Nogueira, poeta, mestre e doutorando em letras clássicas pela USP.

Debatedores: Carlos Felipe Moisés, poeta e crítico literário, autor de “Poesia e Utopia” e “Poesia e Realidade”.

José Rodrigo Rodriguez, poeta e escritor

Mediador: Manuel da Costa Pinto, jornalista, coordenador editorial do Instituto Moreira Salles e colunista da Folha de São Paulo.

11h10 – 12h30: “O mundo como Idéia, ou: o ‘livro-arena’ de Bruno Tolentino”

Palestrante: Juliana Perez, doutora pela USP, professora de língua e literatura alemã na UFRJ.

Debatedores: Antônio Fernando Borges, escritor e jornalista, autor de “B rás, Quincas & Cia” e “Memorial de Buenos Aires”.

José Rodrigo Rodriguez, poeta e escritor

Mediador: Martim Vasques da Cunha, jornalista e coordenador do departamento de Humanidades do IICS.

12h30 – 14h30: Almoço

14h30 – 16h: “Bruno Tolentino e a literatura brasileira”

Palestrante: Jessé de Almeida Primo, crítico literário e autor do livro “A Linguagem da Poesia”.

Debatedores: José Jeremias de Oliveira Filho, poeta e professor doutor da Universidade de São Paulo.

Marcelo Consentino, mestre em filosofia pela Universidade Santa Croce, em Roma, e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP.

Mediador: Martim Vasques da Cunha, jornalista e coordenador do departamento de Humanidades do IICS.

16h15 – 18h: “Bruno Tolentino e a literatura ocidental”

Palestrante: Pedro Sette Câmara, poeta, tradutor e professor de Educação Clássica do Instituto Internacional de Ciências Sociais.

Debatedores: Nelson Ascher, poeta e tradutor, autor de “Poesia Alheia” e “Parte Alguma”.

Marcelo Consentino, mestre em filosofia pela Universidade Santa Croce, em Roma, e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP.

Mediador: Manuel da Costa Pinto, jornalista, coordenador editorial do Instituto Moreira Salles e colunista da Folha de São Paulo.

Clique aqui para mais informações.


 

Ainda sobre poesia e literatura, os interessados na cultura russa têm muito o que ver neste evento:

5 de Junho - 5ªfeira
12:00 horas
Lançamento do Caderno de Literatura e Cultura Russa n.2- Dossiê Dostoiévski - Curso de Russo- DLO/FFLCH/USP - Ateliê Editorial

14:00 horas
Mesa Redonda
Sérgio Alcides (USP):
“ Mandelstam e sua conversa sobre Dante”
Marcelo Tápia (USP) : “Poesia russa em português: paradigma da relação entre som e sentido”
Mário Ramos Francisco Júnior (USP) : “Khlébnikov e a poesia zaum: questões de tradução”
Irineu Franco Perpétuo (escritor e jornalista): “A poética da tradução: as tragédias de Púchkin”

6 de Junho - 6ª.feira
10:00 horas
Conferência: “Conversa sobre tradução de poesia russa”
Boris Schnaiderman (Professor emérito da Universidade de São Paulo)

14:00 horas
Mesa Redonda – “A poesia russa e o contexto mundial”
Rolando Sanchez Mejias (Escola de Humanidades de Barcelona)
Aurora Fornoni Bernardini (USP)
Regis Bonvicino (poeta)

16:00 horas
Projeção do filme “A paixão segundo Marina Tsvetáieva” do diretor russo: Andrei Óssipov

LOCAL DO CURSO: Prédio de Letras, FFLCH-USP (Av. Prof. Luciano Gualberto, 403).

Inscrições gratuitas aqui 

(Observo que esse negócio de inscrição é para quem quiser ganhar o certificado; não creio, conhecendo a USP, que irão barrar os interessados que quiserem simplesmente assistir às palestras; mas é bom confirmar: tel. 3091 46 45).

Escrito por Marcelo Coelho às 14h44

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Cleópatra, de Júlio Bressane

Cleópatra, de Júlio Bressane

A atriz Alessandra Negrini seria passável no papel de uma normalista do Méier, mas imaginá-la como Cleópatra, como fez Júlio Bressane em seu mais recente filme, é no mínimo uma ousadia, e provavelmente um ato transgressivo. Só não é mais ousado e transgressivo do que colocar Miguel Falabella no papel de Júlio César.

 

Mas quando, entre os dois ou três senadores humilhados pelo conquistador da Gália, o espectador distingue um velho conhecido dos programas de Chico Anísio e Jô Soares –trata-se do excelente comediante Lúcio Mauro, coberto de toga, rímel e batom— está mais do que dado o sinal de que o filme “Cleópatra” repete o velho slogan da ditadura militar: ame-o ou deixe-o.

 

Não o amei, nem deixei de vê-lo. Sem dúvida, tudo no filme traz a aparência da paródia mais selvagem. Os palácios de Alexandria têm banheiras claramente inspiradas nos motéis da Barra da Tijuca. Alguns mármores sugerem a decoração do Palácio do Catete, e as palmeiras do Egito não gorjeiam como as de cá. Armam-se tendas e divãs entre as pedras da avenida Niemeyer, e tronos, piras, coxins, sofás e tapetes vieram com certeza de um saldão de móveis –só faltava aos cenógrafos terem levado o Brasilino de presente.

 

Dito assim, tudo poderia ser uma paródia das produções épicas de Cecil B. de Mille. Mas acontece que, se a aparência é paródica, o filme de Bressane não se apresenta como tal. Não há nenhum momento em que “pisque o olho” para o espectador, instando-o a não levar nada daquilo a sério. Tudo se desenrola com máxima seriedade.

 

Que concluir desse mistério? Vale a pena prestar atenção nos diálogos, soleníssimos, do filme, onde se misturam citações de Drummond, João Cabral, e não sei quantos poetas parnasianos.

 

Cleópatra foi acusada de “enfeitiçar” Marco Antônio (sei disso assistindo a série “Roma”), e sua história encena uma espécie de choque cultural. O conquistador romano é seduzido pelos prazeres e delírios de uma corte estranha, animalesca, refinada, irracional.

 

Não seria um caso de “antropofagia”, ou, se quisermos, de absorção do colonizador pelo colonizado? E, se se trata disso na interpretação que Bressane dá aos fatos da história romana, o seu filme dá um passo a mais nesse processo: toda a pretensão hollywoodiana de criar um Egito e uma Roma “reais” eram, no fundo, absurdos. E o absurdo de Miguel Falabella como César não é menor que o de Richard Burton no mesmo papel. Fazendo saltar aos olhos a brasileirice desses romanos e egípcios, Bressane não nos ridiculariza; ridiculariza, com solenidade ritual e egípcia, a nova Roma de George Bush.

 

Tudo isso não basta para recomendar o filme aos desavisados. Mas bastou para que eu não saísse uivando da sala nos primeiros minutos de projeção.

 

Um bom complemento para “Cleópatra” seria “Roma” , de Fellini, que finalmente saiu em DVD. Mas é assunto para depois.  

 

Cleópatra: ame-o ou deixe-o

Escrito por Marcelo Coelho às 02h54

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perfil à americana

perfil à americana

http://chronicle.com/free/v54/i39/39b00601.htm

A "Chronicle of Higher Education" apresenta um favorável e intrigado perfil do professor Mangabeira e suas atividades em Brasília.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h29

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revistas européias

revistas européias

http://

Escrito por Marcelo Coelho às 02h07

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Adote um embrião

Por falar em mágica, o mundo jurídico tem coisas fabulosas. Estava lendo agora o voto do ministro Eros Grau, do STF, a respeito das pesquisas com embriões. Ele se manifestou contra; acha que o direito à vida deve ser preservado, mesmo no caso de um conjunto de células que provavelmente jamais será ou poderá ser implantado num útero materno.

 

Eis um trecho de sua argumentação:

 

Diz Pontes de Miranda:

“No intervalo entre a concepção e o nascimento, os direitos, que se constituíram, têm sujeito, apenas não se sabe qual seja”.

Os nascituros podem receber doações [art. 542 do Código Civil], figurar em disposições testamentárias [art.1.799 do Código Civil] e mesmo ser adotados [art. 1.621 do Código Civil].

 

Direito de ser adotado? Será que não se está falando, aqui, de outro direito, o direito de quem adota, o direito de que fez disposições testamentárias, o direito de quem fez uma doação?

 

Sem dúvida, se alguém tivesse feito uma doação, um testamento, contemplando todos os embriões congelados que gerou, não se poderia destiná-los à pesquisa. Mas o direito não é do embrião, é do doador... O “sujeito” do direito não é o “objeto” da decisão... e quanto ao “direito de ser adotado”, ele só pode existir em oposição à hipótese de “não ser adotado”.

 

Uma sugestão, portanto, para os pais e mães de embriões que, sendo católicos, não querem que eles terminem utilizados em pesquisas: promovam um contrato pelo qual alguém, o ministro Eros Grau por exemplo, seja seu pai adotivo.

 

em tempo: continuo a ler o voto de Eros Grau, e ele em seguida argumenta que "embrião", tal como está na lei da biossegurança, não é a mesma coisa que se entende habitualmente. Na lei, "embrião" não passa de "óvulo fecundado congelado", isto é, sem vida humana. De modo que, segundo esse raciocínio, ele apoiaria a constitucionalidade da lei de biossegurança. Entretanto, ele acha que a lei atinge "o bloco de constitucionalidade" geral, permitindo coisas como manipulação genética e sua conseqüente "reificação da vida". Daí que sugere modificações na lei, sem as quais vota contra.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h48

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Pérolas do jornalismo

Não é muito bonito falar mal da concorrência, mas a chamada de capa do suplemento feminino do "Estado" deste domingo não pode passar sem registro. É a seguinte:

O poder da água

Fonte de saúde e prazer, o líqüido mais nobre da humanidade tem múltiplos benefícios e aplicações.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h49

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A magia do Japão

A magia do Japão

Numa região de fronteira, num país distante, um funcionário de alfândega intrigava-se com as idas e vindas de um comerciante montado num camelo. Todos os dias, o comerciante transportava um grande baú para o país vizinho. O funcionário da alfândega, todos os dias, examinava o baú. Nunca encontrava nada; o baú estava sempre vazio.

 

Os anos se passaram, e o funcionário finalmente se aposentou. Mudou-se para longe. Um dia, encontrou o velho comerciante. “Agora, que já não trabalho mais, e não posso prendê-lo, peço que me conte o que você fazia. Sei que era contrabandista. Mas seu baú estava sempre vazio. Qual o seu truque?” A resposta do comerciante: “eu contrabandeava camelos”.

 

A história é contada por Célio Amito, mágico profissional e bacharel em Física, para explicar o significado dos truques de magia.

 

Ele está com um show no teatro Alfa Real, que funciona tanto para adultos como para crianças com um pouco mais de cinco anos. “Show” não é a palavra certa, porque corresponderia apenas a uma seqüência de números de magia. Célio Amito faz mais do que isso, intercalando os números com belos comentários sobre a filosofia budista.

 

Claro, dizer que a mágica é um mistério, mas que o maior mistério é a vida, pode soar uma banalidade. Outra coisa é confrontar os dois mistérios em cena, fazendo o espectador ver a mágica onde não está, e ver na inexistência de um truque um momento de surpresa e encantamento.

 

Além de mágica e budismo, Célio Amito junta outros dois componentes opostos: a seriedade oriental e uma malícia brasileiríssima no improviso. Ri-se muito do espetáculo, a começar pelo modo extrema respeitoso, quase de monge budista, com que ele interage com os espectadores convidados a subir no palco.

 

“Há duas espécies de espectadores”, diz ele com pausas de mestre zen. “Os que querem ajudar o mágico, e os que querem atrapalhá-lo”.

 

A famosa “impenetrabilidade” do rosto oriental pode ser um estereótipo do Ocidente a respeito de japoneses ou chineses. Mas combina bem com a atividade de um mágico, e se mistura deliciosamente com a “cara de pau” de outro estereótipo, o da malandragem brasileira.

 

Neste link para uma curta reportagem da Globo, você pode ver alguns truques, mas não o perfeito humor e o “timing” desse espetáculo, que tem além disso a beleza teatral de “amarrar as pontas” entre seus truques. Isto é, um número apresentado no começo “reaparece”, “desaparece” e volta triunfalmente nos momentos finais, como se uma carta de baralho fosse, ela própria, uma personagem em cena. É teatro; a mágica do teatro.  

Escrito por Marcelo Coelho às 09h39

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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