Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

TRE, "Veja", Maluf

Registro o que pode ter sido um efeito interessante das últimas investidas da Justiça Eleitoral sobre a liberdade de imprensa.

 

A revista “Veja São Paulo” andava colocando em suas capas o rosto de candidatos à prefeitura, na linha do “Por que quero ser prefeito de São Paulo”. Fez isso com Alckmin, Marta e Kassab.

 

Chegou a vez de Maluf nesta semana. Em circunstâncias normais, talvez a capa fosse para Maluf; uma revista como “Veja São Paulo”, a exemplo de “Folha” e “Estado”, estaria zelando por uma eqüidade de tratamento jornalístico.

 

Verdade que Maluf hoje em dia está bem mais atrás nas pesquisas; em todo caso, uma capa com ele não seria absurda, dado o fato de já ter sido prefeito, de contar com um número de seguidores fiéis, de ser, afinal, sempre notícia.

 

Mas “Veja”, assim como “Estado” e “Folha”, foi processada absurdamente por entrevistar candidatos antes do período determinado pelo TRE, em nome de uma teórica igualdade de chances para todos os concorrentes à prefeitura.

 

O processo é tão equivocado que terminou acentuando, digamos assim, o empenho de "Veja São Paulo" em se mostrar independente –e de tratar desigualmente, como é seu direito, os candidatos. Maluf não foi para a capa; um editorial contundente explica por que a revista, afinal, não considera Maluf uma boa opção para a prefeitura.

 

Querendo impor uma isenção jornalística por meio de decisões burocráticas e inconstitucionais, a Justiça Eleitoral terminou até diminuindo a isenção corriqueira, profissional, da revista, que expressou com muito mais força do que habitualmente a sua opinião sobre um dos candidatos.  

Escrito por Marcelo Coelho às 23h12

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Crianças deportadas

Li no Diário de Hélène Berr --já comentado num artigo—um trecho terrivelmente comovente.

 

Terça-feira, 9 de novembro de 1943

 

Levei esta manhã ao [hospital] Enfants-Malades uma garotinha de 2 anos e meio, ela parece uma arabezinha. Chorava o tempo todo no hospital chamando pela “mamãe” instintivamente, automaticamente. Mamãe, esse grito que surge nos lábios espontaneamente quando sofremos ou quando estamos tristes. Quando distingui essas duas sílabas em meio ao seu choro, estremeci.

         A mãe e o pai foram deportados [para Auschwitz], ela não passa de um bebê, e mesmo assim vieram prendê-la! Ficou um mês no campo de Poitiers.

         Policiais obedeceram à ordem de prender um bebê de 2 anos, de colo, para interná-lo. É a prova mais pungente do estado de embrutecimento, da perda total de consciência moral em que vivemos. Isso é o mais desesperador.

         Não é desesperador saber que eu, com minha reação de revolta, sou uma exceção, quando pessoas que conseguem fazer essas coisas é que deveriam as anormais?

         É de novo a mesma história do inspetor de polícia [francês] que respondeu à senhora Cohen, na noite de 10 de fevereiro, quando veio prender treze crianças no orfanato, a mais velha com 13 anos e a mais nova 5 (crianças cujos pais haviam sido deportados ou estavam desaparecidos, mas precisava-se delas para completar um comboio de mil no dia seguinte): “O que a senhora quer? Eu apenas cumpro o meu dever!”

         Que se chegue a considerar o dever como algo independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, é a prova da inanidade de nossa suposta civilização.

         No caso dos alemães, já faz uma geração que se trabalha para embrutecê-los novamente (trata-se de um retorno periódico). Neles, a inteligência é algo morto. Mas podia-se esperar que entre nós fosse diferente.

 

Isso foi em 1943, e coisas desse tipo não seriam feitas legalmente na Europa. Mas agora merece exame a nova lei de imigração aprovada pelo Parlamento Europeu que prevê detenção de crianças –mesmo desacompanhadas--, para deportá-las para outros países. Janio de Freitas escreveu sobre o tema num forte artigo para a Folha.

 

O texto integral da resolução é longo e complicado, fazendo referências a outros documentos (procure o link no final deste comunicado oficial).

 

Há quem lembre que a deportação nesse caso, visaria a coibir, por exemplo, o tráfico de menores para fins de exploração sexual. O que fazer com esses menores "traficados"? Mandá-los de volta? São detidos até que se encontrem suas famílias? Será que querem voltar? 

 

Naturalmente, prevê-se que as crianças serão mantidas (enquanto não as deportarem) em “instalações adequadas”, e que será levado em conta o “interesse superior da criança” no caso de repatriamento. Pelo que entendi, não se separam crianças de seus pais; a detenção e deportação de menores desacompanhados se dá para aquelas que já estão sem os pais. Como saber na prática? E os pais que se escondem para não ser deportados também? Seriam as crianças reféns nesse processo? Só tenho perguntas. A lei também considera a possibilidade de que surjam casos de imigração em massa, o que dificultaria um pouco a logística do processo e a "qualidade do atendimento" às crianças...

 

Na prática, imagino que logo aparecerão fotos, reportagens e documentários sobre a sorte dessas crianças que ninguém quer; e depois ninguém mais falará no assunto.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h47

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voltaire de souza

Algumas crônicas publicadas no "Agora" da semana passada.

 

FACHADA BRANCA

 

 

Fama. Dinheiro. Sucesso.

Por vezes, também os pobres alcançam a celebridade.

Pichadores e grafiteiros da periferia já conseguem êxito internacional.

Contratos. Viagens. Exposições.

Odilon sonhava em voz alta.

--Algum dia, eu vou ser convidado para um país europeu.

Ele se encaminhava para o ponto de ônibus.

--Tipo Japão. Tá ligado?

Sua ignorância em geografia era impressionante.

Impressionante, também, o seu talento com latinhas de spray.

Odilon planejava uma mega-grafitagem nos muros deteriorados do Jardim Lotrecchi.

Estava começando o seu trabalho poético quando foi abordado por policiais.

--Não viu? Aqui é a região da Fachada Branca.

Este era o nome de um projeto de recuperação urbana patrocinado pelo governo.

O candidato a vereador Rubinho Pé com Pano tinha verbas federais.

Odilon foi entregue a um grupo de traficantes do bairro.

Sua sepultura é de cimento branco. Mas já picharam.

Antes de chegar ao Japão, muita gente termina no centro da terra.

 

CHOQUE DE CULTURAS

 

Samba. Saquê. Futebol. Ikebana.

Cem anos de imigração japonesa.

Duas culturas se encontram.

O fotógrafo Ishiki Furada chegava de Tóquio com muita animação.

Câmeras. Lentes. Tripés.

Seu objetivo: registrar para a imprensa japonesa a realidade brasileira.

E a grandeza de um país sem preconceitos.

O táxi levou-o a uma agitada favela carioca.

O passeio do fotógrafo logo chamou a atenção das autoridades.

O tenente Garreta implicou com o volume de alguns equipamentos na mochila.

--O formato é de escopeta. E tem muito fuzil aí dentro também.

Começou a fazer a vistoria. Ishiki tentava explicar calmamente em japonês.

--Okara, sensakanagi. Waito manoku.

Garreta nada conhecia do idioma nipônico.

--Mas sei o que é desacato à autoridade.

Entregou Ishiki aos cuidados de um traficante local.

O cadáver do fotógrafo será repatriado para o Japão nos próximos dias.

Antigas civilizações, por vezes, podem pouco contra a barbárie.

 

 

NOITES DE BUSCAPÉ

 

Pipoca. Curau. Pé-de-moleque. Junho é mês de festa.

O americano Norton adorava o Brasil.

--Pey-ís meraviulioz.

Ele passeava pelo Rio de Janeiro.

Mas estava interessado na cultura caipira.

--Sáo Juáo. Sént Entóónyu.

Fogos de artifício iluminavam a noite carioca.

--Naquêuly morrínyu lá lóónj.

Norton quis acompanhar de perto o festejo junino.

--O sutááki caipýr eu jah tényu.

Um chapéu de vaqueiro. Camisa xadrez. E a simpatia texana.

--Oi, amíígs. Eu sou amííg de todush ush amíígs.

O traficante Estrelinha não gostou da conversa.

--Amigo dos amigos? Aqui é terra do Terceiro Comando.

Os disparos que atingiram Norton não foram de rojão.

Na UTI, ele prova canjica e curau. Bem devagarinho.

Favelas são como festas juninas.

Não basta querer entrar na quadrilha. É preciso rezar para o santo certo.

 

 

TROCA DE ENDEREÇO

 

Criatividade. Ousadia. Ferveção. É a São Paulo Fashion Week.

No centenário da imigração japonesa, estilistas fazem suas homenagens.

Quimonos. Cerejeiras. Sushis. O estilista Kuko Jimenez brigava com seu assistente.

--Élcio. Onde você guardou as perucas pretas?

Um look de gueixas seria essencial para o desfile.

O humilde serviçal tinha esquecido de providenciar o acessório.

A raiva de Kuko era controlada. Mas intensa.

--Você está precisando de um corretivo, Élcio.

Pelo celular, Kuko chamou um táxi.E deu a ordem para o motorista Vandir.

--Deixa ele na entrada do Parque Sayonara.

Élcio achou estranho. Quis discutir. Sempre tinha morado no Jardim Japão.

Os traficantes do Parque Sayonara receberam Élcio sem simpatia.

Uma peixeira bem nordestina. E a ordem para o haraquiri.

Kuko não lamenta a morte do assistente.

Diz que o mundo da moda é como um exército.

Precisa de disciplina, organização e competência.

--E para alguns brasileiros o único corretivo é a próxima encarnação.

Perucas não são carapuças. Mas fazem falta em muitas cabeças.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h00

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Lendas urbanas

Lendas urbanas

http://www.snopes.com/snopes.asp

e outras lorotas de internet são analisadas no site acima. Divertido e com todo tipo de classificação por assunto.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h30

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capitalismo do desastre

capitalismo do desastre

Começo a ler um livro-sensação para quem é de esquerda, A Doutrina do Choque: A ascensão do capitalismo de desastre, de Naomi Klein. Estou ainda na introdução, mas começo a desconfiar. Será “capitalismo de desastre” um novo rótulo, do tipo “capitalismo tardio”, “pós-modernidade” etc.? Parece ser esta a intenção da autora.

 

Ela enfoca a mal-disfarçada euforia de investidores e teóricos do liberalismo depois do furacão Katrina ter destruído Nova Orleans. Cita Milton Friedman, que aos 93 anos tinha energia para escrever no Wall Street Journal:

 

A maior parte das escolas de Nova Orleans está em ruínas, assim como os lares das crianças que estudavam ali. As crianças agora estão espalhadas por todo o país. Isso é uma tragédia. Mas é também uma oportunidade para reformar radicalmente todo o sistema educacional.

 

Logo privatizaram todo o sistema educacional da cidade. Naomi Klein argumenta que esse tipo de “oportunismo” não é exceção. No Iraque, depois da operação militar do “Choque e Pavor”, veio o choque econômico do liberalismo radical.

 

Muito bem. Aí Naomi Klein passa a reconhecer essa “coincidência” numa série de acontecimentos dos últimos 35 anos, de modo a caracterizar um padrão que denomina de “capitalismo de desastre”.

 

Na China, em 1989, foram o choque do massacre da Praça Tiananmen e as prisões subseqüentes de milhares de manifestantes que facilitaram ao Partido Comunista a conversão de amplas partes do país em uma grande zona de exportação, suprida com uma força de trabalho excessivamente aterrorizada para reivindicar os seus direitos.

 

Não será exagero? Se os manifestantes da Praça Tiananmen tivessem vencido a batalha, é bem provável que a liberalização econômica total viesse ainda com mais rapidez.

 

Na Rússia, em 1993, foi a decisão de Boris Yeltsin de enviar os tanques para bombardear o Parlamento e prender os líderes da oposição que abriu o caminho para a escalada de privatizações e criou os notórios oligarcas do país.

 

Sempre pensei que o que tinha iniciado a desestatização russa foram a glasnost e a perestroika... Mas parece que Naomi Klein tem sempre de atribuir uma coisa de que ela não gosta –o liberalismo econômico—a outra coisa de que ela não gosta –algum massacre ou tornado. De novo, falta dialética nessa criticice toda.

 

O ataque da OTAN a Belgrado em 1999 criou as condições para as privatizações na antiga Iugoslávia –um objetivo que antecedeu a guerra.

 

O que criou toda a onda de privatizações do Leste Europeu, me parece, foi outra coisa: o colapso do socialismo soviético.

 

Psicanaliticamente, eu diria que Naomi Klein está apontando para uma série de desastres e bombardeios para não reconhecer que a privatização nasceu de outro desastre, que ela não pode admitir como tal. O desastre, para ela, foi a Queda do Muro...

 

Mas vamos ver como o livro prossegue.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h09

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Crítica da teoria crítica (2)

Reproduzo, para quem tiver paciência de ler textos mais longos em telas de computador, um trecho de palestra que fiz no MIS, no ano do centenário de Theodor Adorno, e que depois foi reelaborada no livro “Civilização e Barbárie”, organizado por Adauto Novaes.

Meu propósito era mostrar o quanto hoje em dia se confunde a crítica de esquerda, baseada na Escola de Frankfurt, com o velho pessimismo conservador de Oswald Spengler. Acho que o próprio Adorno, condenando e elogiando certas idéias de Spengler, foi responsável pelo começo da confusão. Eu mudaria algumas coisas do texto, em especial a menção a “alternativas” que pus no final; é um dos termos que critiquei no artigo de quarta-feira para a Ilustrada.

 

A atitude de pessimismo cultural protagonizada por Spengler disseminou-se a tal ponto que, hoje, não é correto dizer que as teses de Spengler foram esquecidas. Ao contrário, são lembradas, repetidas, vulgarizadas e aplicadas a qualquer circunstância, mas com um detalhe irônico: são atribuídas a Adorno.

(...) Adorno cita aprovativamente a visão spengleriana a respeito do habitante das metrópoles mundiais:

 

A imagem do morador das cidades modernas como um segundo nômade merece ser ressaltada. Ela não apenas expressa a angústia e a alienação, mas também a a-historicidade crepuscular de uma situação na qual os homens ainda se sentem como objetos de processos intransparentes, não sendo mais capazes, entre um choque repentino e um brusco esquecimento, de uma experiência contínua. Spengler percebe a conexão entre atomização e tipo humano regressivo, que se revelaria inteiramente apenas com o advento do totalitarismo: “cada uma dessas metrópoles suntuosas abriga uma miséria horrível, um embrutecimento de todos os hábitos de vida, que já está gerando, entre portais e mansardas, sótãos e quintais, um novo homem primitivo.

Esta regressão torna-se evidente nos “acampamentos” de todos os tipos, que não conhecem mais a noção de “casa.”

 

O que é verdadeiro como crítica à vida das massas urbanas, e era dolorosamente vívido na experiência do intelectual alemão exilado nos Estados Unidos da década de 1940, traz provavelmente embutido, entretanto, uma idealização da vida aldeã, que em Spengler, como vimos, era explícita, mas que aqui, na citação de Adorno, ainda assim pode ser detectada na frase final. Aquele “não conhece mais a noção de ‘casa’” sem dúvida projeta um passado em que essa noção foi, de algum modo, conhecida. O regime temporal do “não mais”, do “não é mais assim” é recorrente no texto adorniano. Só no trecho citado, vemos que os novos nômades “não são mais capazes (...) de uma experiência contínua”, e “não conhecem mais a noção de casa”. Para um sem-teto urbano, o problema não é bem esse, a meu ver... que tipo de casa eles conheciam?

Por certo, é comum vermos um segundo movimento nas argumentações de Adorno, o qual trata de eliminar qualquer vestígio nostálgico nesse tipo de evocação. Adorno pode lamentar, por exemplo, o decréscimo da liberdade individual no século XX, em comparação com o período de ascensão da burguesia; logo em seguida terá de lembrar que, mesmo então, essa liberdade individual era suspeita[ii]. Que sirva como exemplo dessa reviravolta fraseológica, como que numa contorção súbita daquilo que se ia concluir, o seguinte trecho de Minima Moralia:

 

O que já foi bom e decente no modo de vida burguês, independência, perseverança, previdência, cautela, está corrompido até o mais íntimo. Pois, ao mesmo tempo em que se conservaram as formas burguesas de existência, seu pressuposto econômico desapareceu. O privado passou totalmente a ser o privativo, coisa que secretamente sempre foi.

 

Do mesmo ponto de vista, a velha autoridade paterna, antes detestável, torna-se comparativamente amena. Pois, segundo Adorno, o colapso da instituição familiar desfez “não somente a mais eficaz instituição burguesa, mas a resistência, que decerto reprimia o indivíduo, mas também  o reforçava, se é que não o produzia pura e simplesmente.” Salta aos olhos o aspecto retorcido, sem dúvida proposital, da seqüência de autocorreções na frase adorniana.  Estamos sempre diante da idéia de que o bebê foi jogado fora junto com a água do banho, para lembrar a frase que dá título a outro fragmento de Minima Moralia. Naturalmente, não faz sentido ter nostalgia da água –nem tampouco esperar que algum bebê nasça do ralo... Pois aquilo que a diacronia negou (antigas virtudes burguesas, por exemplo) já era negado sincronicamente no passado (nunca foram virtudes de fato); de modo que o presente vem apenas desvelar, tirar a máscara, daquilo que no passado já se percebia ser mentira.

(...) Adorno reprova em Spengler, não a descrição dos acontecimentos, mas a certeza quase militar com que se decreta como inútil toda tentativa de resistir a eles.  Seria de esperar, então, que Adorno propusesse uma interpretação segundo a qual a resistência a esses acontecimentos é possível. A surpresa, para o leitor, decorre da idéia de que essa interpretação pareceria a Adorno otimista demais, conivente com a barbárie instituída. O que resta, então? A esperança numa espécie de inominável, de não-dado.

(...) A saída, para Adorno, está naquilo que foi ignorado por Spengler: “as forças que foram liberadas na queda”. Quais forças? A identificação dessas forças é deixada propositalmente em suspenso, mesmo porque nomeá-las seria , no fundo, dizer que “nem tudo está perdido”, que há alguma confiança em algum processo empiricamente identificável. “O que se opõe ao declínio do Ocidente não é a cultura ressurrecta, mas a utopia contida, em um questionamento sem palavras, na imagem da que sucumbe.”

Torna-se difícil entender qual o ponto “arquimediano” em que a pálida esperança, ainda presente nessa frase, pode coexistir com um diagnóstico tão fechado como o que citamos em seguida, de um ensaio de 1949:

 

A tenebrosa sociedade unitária não tolera mais sequer aqueles momentos relativamente autônomos e distanciados,, aos quais outrora se referia a teoria da dependência causal entre superestrutura e infra-estrutura. Nessa prisão ao ar livre em que o mundo está se transformando, já nem importa mais o que depende do quê, pois tudo se tornou uno. Todos os fenômenos enrijecem-se em insígnias da dominação absoluta do que existe. (...) Neutralizada e prefabricada, a totalidade da cultura tradicional acaba sendo hoje aniquilada: através de um processo inexorável, a sua herança (...) tornou-se dispensável e supérflua em larga escala, um refugo para o qual os mercadores da cultura de massas podem, então, novamente apontar com um sorriso irônico, já que eles a tratam exatamente dessa forma [como um refugo]. Mesmo a mais extremada consciência do perigo corre o risco de degenerar em conversa fiada. A crítica cultural encontra-se diante do último estágio da dialética entre cultura e barbárie: escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que hoje se tornou impossível escrever poemas.

 

Diante desse parágrafo célebre, seria o caso de indagar se suas teses não são passíveis das mesmas críticas que Adorno dirigia a Spengler; decretar a inexorabilidade do processo, o enrijecimento de todos os fenômenos, a superfluidade da herança cultural, pode ter um efeito retórico, mas é exatamente aquilo que tornava o pensamento de Spengler incapaz de apontar uma alternativa para a barbárie.

 

UOL Busca Theodor Adorno

 

UOL Busca Oswald Spengler

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h39

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Esquerda e direita

Creio que se impõe um esclarecimento sobre o que Reinaldo Azevedo escreveu em seu blog, a respeito do meu artigo de quarta-feira na Ilustrada. Cito um parágrafo de seu comentário:


Noto que, no texto de Coelho, esquerda é chamada de “esquerda”, e direita de “extrema direita católica”. O esquerdismo, mesmo tolinho, parece ser uma condição natural, neutra, não deformada pelo sectarismo — embora precise de renovação, como ele deixa claro na conclusão do artigo. Já o direitismo é “extremo” e necessariamente confessional, com a sugestão óbvia de que se distancia do aparato racional. É inequívoco que Coelho é um esquerdista — o que é um direito seu, embora procure falar, como evidencia o título do artigo, como um “crítico da teoria crítica”. Huuummm. Ele também lembra no artigo que “tanto esquerdistas quanto ultraconservadores sempre foram focos de resistência à mentalidade capitalista liberal.” Notável! Vejam que conservadores têm de ser, necessariamente, “ultra”. Aprende-se, lendo Coelho, que o “capitalismo liberal”, não sendo de esquerda, é certo, também não é de direita. Eis aí, sem dúvida, uma inovação crítica.

 

Talvez ele tenha exagerado o meu esquerdismo. Porque ao falar de “extrema direita católica” ou de “ultraconservadores” eu estava justamente dando uma colher de chá para a direita. Ou seja, estava dizendo que existe uma direita que não é extrema, nem católica, nem ultraconservadora.

 

É exatamente a direita que acredita em pesquisas sobre transgênicos e células tronco, por exemplo. Ou a direita que acredita no mercado como meio de dinamização da sociedade, de quebra de tabus sexuais e preconceitos religiosos... Sei que existe, ao contrário do que diz Reinaldo Azevedo a meu respeito, um "capitalismo liberal" que é "de direita" sim. E por isso mesmo não usei o termo “direita” genericamente, fazendo questão de qualificar: extrema direita católica, ultraconservadora...

 

E ao falar de “esquerda” em geral, em vez de usar termos como “esquerda romântica”, “esquerda ingênua”,”esquerda burra”, fui até severo com a esquerda em geral, identificando-a por inteiro ao objeto de minha crítica. Se qualificasse a esquerda –“esquerda romântica”—eu estaria dizendo que existe uma esquerda que não é romântica. Existe, aliás, mas tenho sentido falta dela –e é isso o que eu apontava no artigo.

 

Mas Reinaldo Azevedo está tão convicto a respeito das minhas convicções, e tão defensivo quanto às suas, que não acompanhou meu argumento com a mesma atenção com que notou os diversos erros de português que prejudicaram meu post sobre Ruth Cardoso. Já os corrigi, mas sou grato a quem os apontou.   

Escrito por Marcelo Coelho às 01h06

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Obrigado, desculpas, etc.

Não pude agradecer um a um, como seria bom, os comentários simpáticos que recebi acerca do post sobre Ruth Cardoso. Devo pedir desculpas pelos erros de concordância do texto, escrito um bocado às pressas. Foram-me apontados, nem sempre com simpatia, mas em todo caso eu os corrigi. Vejo que tenho um resquício de desprezo, talvez, pelas postagens em internet: é como se tudo devesse ser feito rápido, sem maior cuidado de revisão. Fico achando que, se houver algum erro, depois corrijo. Mas o melhor é caprichar um pouco mais.

 

Apesar do tom suave do comentário sobre Ruth Cardoso, sobraram algumas considerações menos comovidas sobre Fernando Henrique, o que me fez inclusive mudar o post depois de sua publicação. Não gostaria de insistir nos defeitos que sempre vi nele e em sua atuação política, num momento em que a maior solidariedade possível deve dirigir-se a ele. Mas o elogio a Ruth, pelo menos do meu ponto de vista, não podia deixar de ressaltar o que houve de companheirismo e discrição (palavra de que não gosto quando aplicada a primeiras-damas) ao longo de um casamento que, como todos, dá motivos a rusgas e impaciências. Minha própria impaciência com FHC talvez tenha sido projetada no caso...

 

Mas não adianta continuar, porque nada conserta um texto que, com a elegância de que fui capaz, traduziu os meus sentimentos naquela hora. E sempre servirá de munição a quem não gosta do que escrevo...

 

Apaguei as mensagens extremamente ofensivas (umas dez, mais ou menos) que recebi. Curioso como em geral acham importante colocar em questão a minha sexualidade. Não sei se é por causa da foto, do que escrevo às vezes (acho Obama bonito, por exemplo), ou se é pelo meu jeitinho mesmo... rs. Mas esse tipo de coisa costuma dizer mais sobre a intimidade de quem escreve do que sobre a minha.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h45

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Crítica da teoria crítica

Critiquei o pensamento de esquerda atual por certa falta de “dialética”, no artigo desta quarta-feira para a Ilustrada. É que não adianta apenas ver no mundo contemporâneo o horror e a barbárie de um “hipercapitalismo”, e ficar lamentando a sua existência.

 

Tampouco as iniciativas para transformá-lo, a partir da idéia de que “um outro mundo é possível”, me parecem suficientes. A rigor, sempre cabe a idéia de que “outro mundo é possível”: pode-se retornar, se quisermos, à Idade da Pedra ou à Idade Média, se acharmos que naquela época a mercantilização do mundo e a ganância empresarial eram menores.

 

Parece-me que a esquerda marxista tinha, nos seus bons tempos, outro foco de intervenção. Não o de dizer que “outro mundo é possível”, mas sim o de dizer que “este mundo é inviável”.

 

Ou seja, que as contradições internas do capitalismo tornavam-no insustentável, a partir do aprofundamento das próprias premissas em que se baseava. Isso pode ser ou não verdade, mas era assim que a crítica se pretendia dialética e objetiva, em vez de moralista e romântica.

 

O que não coloquei no artigo é a outra possibilidade: sim, talvez o capitalismo seja plenamente viável, e não há dialética nenhuma que nos garanta o prognóstico a respeito de sua insustentabilidade.

 

Se for assim, impõe-se adotar uma perspectiva bem diferente daquela usualmente empregada pela teoria crítica em geral. Trata-se de ver em cada problema específico –as drogas, a violência, o desmatamento, a miséria etc.—não o sintoma de um quadro mais amplo, que deveria ser modificado de cabo a rabo, mas um conjunto de questões distintas (embora interrelacionadas) que necessitam de soluções pontuais, de “esquerda” ou de “direita”, certamente, mas que devem ser analisadas pelo seu valor e eficácia intrínsecas.

 

Seria de fato um reformismo “técnico”, ainda que naturalmente pendendo para um ou outro tipo de interesse de classe—mas no qual nenhum diagnóstico genérico da sociedade teria muito lugar.

 

São duas alternativas, portanto (uma radical e dialética, outra reformista e pontual) para o pensamento de esquerda. Hesito entre ambas; mas, com certeza, não me satisfaz o simples moralismo acusatório contra a globalização, o mercantilismo, a pós-modernidade, etc., que tantas vezes toma o lugar da crítica de esquerda hoje em dia.

 

Enfim, esse é um assunto para se discutir em torno de exemplos concretos... fico por aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h17

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Os olhos de Ruth Cardoso

Soube com tristeza, pela televisão, da morte de Ruth Cardoso. Ela sempre transmitiu uma grande distinção e serenidade em suas aparições públicas, e quem a conheceu pessoalmente creio que também tinha a mesma impressão.

 

Os comentaristas acentuam o seu papel na criação do Comunidade Solidária, assunto que nunca acompanhei direito. De qualquer modo, ela foi muito mais do que uma “primeira-dama” (termo que detestava) ao lado do presidente, mas parecia ao mesmo tempo estar constantemente ao lado de Fernando Henrique e no seu espaço próprio, independente.

 

Para levar este post a um extremo de subjetividade, acho que havia algo muito próprio no olhar de Ruth Cardoso, e no seu tom de voz: ela parecia encarar os entrevistadores, as câmeras, não sei se com bondade, mas certamente com compreensão; não uma compreensão intelectual, ou política, mas compreensão humana mesmo. Atrás dos óculos grandes, os olhos escuros diminuíam um pouco, mas tinham algo de doce, sem ser sedutor: eu sentia certo conforto ao vê-los, mesmo na TV. Tinham, sei que a palavra é estranha, uma grande maciez.

 

Talvez eu imagine o quanto de compreensão, de perdão mesmo, ela teve de ter com Fernando Henrique ao longo da vida. Mas quantas mulheres não acabam desenvolvendo esse traço de caráter? Acostumam-se, quando não brigam de vez, a encarar o marido como uma espécie de menino crescido, que de vez em quando chega arranhado das brigas de rua, e se entrega fanaticamente à sua coleção de bolinhas de gude...

 

Mas é claro que, sendo intelectual, professora, e tendo vivido durante o nascimento e o apogeu do feminismo, ela soube viver a própria vida, sem a passividade das antigas esposas de presidentes, de homens de negócios etc.

 

Foi um fator muito importante para que ela não fosse uma deslumbrada com o poder. Imagino também que sabia, desde moça, que Fernando Henrique haveria de ser presidente (dizem que ele tinha certeza disso já na juventude). Sem deslumbramento nem arrogância, Ruth Cardoso mostrou, sobretudo, que na simplicidade está o segredo da distinção. 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h40

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O colecionador de sons

O colecionador de sons

O publicitário Tony Schwarz  nasceu em 1923, e morreu na semana passada. Mais importante do que os seus anúncios foi a carreira de “documentarista sonoro” que ele seguiu durante mais de 50 anos. Gravava os sons do cotidiano, e tudo o que viesse.

 

Certa vez, ele gravou o clarinetista de jazz Jimmy Giuffre (que também morreu este ano) improvisando numa espécie de solo com “acompanhamentos” de som ambiente. Primeiro, uma torneira que goteja, depois, os passos de pessoas num grande hall de edifício comercial. Parece inconcebível a poesia, feita de acaso e ritmo preciso, que se cria a partir daí; é como se a música da clarineta fosse a nossa própria consciência, nossos próprios sentidos e percepções, vivendo o mundo à nossa volta; confira aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h05

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No rumo da vitória

Interessante a entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornal "Valor" desta sexta-feira. Transcrevo esta pérola.

Valor- Se a eleição fosse hoje, qual seria a bandeira do PSDB?

FHC- Nós fazemos melhor e com menos corrupção.

É de se prever uma enxurrada de votos.

Bom, pode-se acrescentar que ele não fala "menas corrupção".

Muito boa também a entrevista de Maluf na Folha. A repórter Cátia Seabra merece um prêmio pela melhor mensagem em três letras apenas. Veja o trecho.

Maluf- Minha biografia foi feita pelas obras que fiz. Minha biografia não é a Folha que vai fazer. São meus 41 anos de trabalho. Depois que eu morrer, a Folha vai dizer que sou bonzinho, que vou fazer muita falta. Washington Luís foi prefeito, governador, presidente, foi preso e deportado. Getúlio Vargas, se não tivesse se suicidado, seria preso. Juscelino foi preso, deportado, exilado. Jânio Quadros foi preso 90 dias em Mato Grosso. Quem mais foi preso?

Folha- O sr.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h57

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Cadela de vison

Cadela de vison

Sempre dá para dizer que é tudo ficção, que é tudo teatro. Mas quem assiste “Cadela de Vison”, peça de Renato Borghi com ele mesmo no papel principal, não perde nunca a impressão de que é tudo autobiográfico.

 

Autobiográfico é uma palavra meio chata. Renato Borghi se expõe ao público, como raras vezes um ator terá feito na vida. Ao completar cinquenta anos de carreira, é homenageado com uma exposição de fotos e críticas de jornal no saguão de entrada do teatro Sesc Santana.

 

No palco, há mais fotos dele, muito jovem, com um ar de sedutor latino mais ou menos característico dos retratos de artistas daquele tempo. Nenhum narcisismo, entretanto: as fotos estão dispostas em bancos semicirculares, que lembram o antigo Teatro de Arena. Mas, no meio da escuridão, esses bancos pretos também estão cobertos de flores, como num velório.

 

Surge o fantasma de uma antiga cantora do rádio, por quem o jovem Renato Borghi teria ficado apaixonado antes de se tornar ator de teatro. Foi essa mulher quem o levou a procurar a carreira artística. Mas quem é ela? Aos poucos, numa auto-análise de impressionante coragem, Borghi sugere que essa mulher é ele mesmo; os bancos concêntricos do cenário parecem então evocar um verdadeiro labirinto, onde o amor de um homem por uma mulher pode tornar-se o amor de alguém que, castrando-se, quer ser mulher para ter um relacionamento lésbico com outra, que na verdade não passa de ele mesmo...

 

O aspecto mais cerebral dessa inquirição sobre a própria sexualidade é disfarçado pelo desbocamento total dos personagens, que leva o público a rir com certo espanto. Não se trata daquela exploração da baixaria humorística tão comum no teatro comercial: a fala “escandalosa” é um exorcismo, e mesmo uma recuperação, na linguagem, da masculinidade que o protagonista quer abandonar.

 

Falei em autobiografia, mas um aspecto tira tudo o que a peça tenha de confessional. Quanto mais se expõe, Borghi mais se “descola”, digamos, de si mesmo. Seu modo de andar no palco é muito característico: as pernas, um tanto curtas, sempre lampeiras, se movem como se ele tivesse acabado de fazer alguma travessura. A violência, por vezes, com que se dilacera parece ser sobretudo um ato de liberdade, uma brincadeira; a recuperação impossível do passado, a saudade da juventude, é sem dúvida o foco sentimental mais dolorido da peça; mas Renato Borghi vive aquilo tudo com a alegria de uma criança. Com a pureza também.  

 

Renato e Luciana Borghi

Escrito por Marcelo Coelho às 01h20

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artes do Japão

artes do Japão

Em tese, é um livro para crianças mais velhas ou pré-adolescentes, bastante simples. Mas me ajudou a conhecer um pouco a respeito de artes tradicionais japonesas. Chama-se “Papel e Tinta”, foi escrito por Nereide Schilaro Santa Rosa, com apoio da Aliança Cultural Brasil-Japão.

 

Num bom formato e com muitas ilustrações, o livro fala de várias modalidades de trabalhos com papel e tecido que vão muito além do tradicional origami. Só conhecer o vocabulário desses gêneros artísticos já é um avanço, neste centenário da imigração japonesa. Aqui vão alguns dos capítulos principais. As obras apresentadas no livro são, em sua maioria, de artistas japoneses radicados no Brasil.

 

O Sumi-ê é aquela pintura em preto e branco, que cumpre executar rapidamente, jogando apenas com tons claros, escuros e médios, para criar a ilusão de bambus (símbolo do verão), ameixeiras (outono), crisântemos (inverno), e orquídeas (primavera):

 

 

 

 

O Chigiri-ê é uma colagem de papéis coloridos, finíssimos, superpostos e desfiados, que acabam criando um efeito semelhante ao de aquarela:

 

trabalho de Mary Lou Miller 

 

trabalho de Joan M. Matsui

 

Interessante ver que alguns pintores nipo-brasileiros, como Tadashi Kaminagai, parecem imitar o chigiri-ê no uso da tinta a óleo:

 

"Dia de outono", em exposição no Palácio dos Bandeirantes

 

O Kiri-ê é feito com papel recortado, e às vezes fica parecendo uma xilogravura.

 

trabalho de Allan Avidano: papel recortado.

 

Takô é a arte de fazer papagaios.

 

centopéia, do site de pipamodelismo do engenheiro Ken Yamazato

Escrito por Marcelo Coelho às 19h44

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massacre com sarcasmo

Escrevi o artigo desta quarta-feira, sobre o Diário de Hélène Berr, sem saber do que tinha acontecido com os três jovens assassinados no morro da Mineira, no Rio. Sem dúvida, é exagerado comparar o massacre sistemático de milhões de judeus pelos nazistas e o caso abominável do tenente brasileiro que, desrespeitando ordens superiores, entregou os rapazes a um bando de traficantes para “um corretivo”, na verdade um massacre.

 

Mas, assim como o pai de Hélène Berr foi preso pelos nazistas porque não estava com a estrela amarela costurada no paletó –e sim presa por alfinetes de segurança--, foi também um motivo absolutamente fútil o que originou a barbárie no Rio de Janeiro. Um dos rapazes trazia o celular no bolso; os militares acharam que era uma arma, começaram a revista, e depois de nada encontrar sentiram-se desacatados. Um celular, uma autoridade ensandecida, um indivíduo “do povo inimigo”, é o que basta para desenfrear a violência..

 

Outra coincidência, ou pelo menos, outro ‘eco’ sinistro, surge com a foto publicada hoje na “Folha”, na pág. C-4. Vemos um militar de costas, como uma espécie de Darth Vader, enquanto à sua frente há um grande painel, com os dizeres: “Morro da Providência: No caminho dos direitos humanos”. Foi lá que os militares detiveram os três jovens.

 

Esse tipo de cartaz, talvez sem o humorismo demoníaco dos nazistas, não deixa de me lembrar a inscrição que se punha na entrada do campo de extermínio de Auschwitz, “O trabalho liberta”. Não duvido das boas intenções de quem colocou o painel sobre direitos humanos na favela carioca. Mas convenhamos que a realidade faz com que, diariamente, desse gênero de frases surja como um sarcasmo hediondo.    

Escrito por Marcelo Coelho às 19h14

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censura até nos blogs

Não apenas um juiz decide que entrevistas com candidatos à prefeitura, num jornal, devem ser proibidas. Os blogs também correm esse risco: veja no mapa da censura eleitoral, organizado por Marcelo Soares. Leia mais sobre o assunto no blog "todamídia", de Nelson de Sá.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h12

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planetas de sabão

Usando uma máquina de última geração, o fotógrafo Jason Tozer tira fotos como esta:

É uma bolha de sabão. Mais no site da flickr

Escrito por Marcelo Coelho às 01h17

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A poesia em 1950

A poesia em 1950

Com direção geral de Edla van Steen, a editora Global lançou uma coleção muito bem-cuidada de antologias da poesia brasileira. Cada volume corresponde a um período da nossa história literária (arcadismo, romantismo, parnasianismo etc.).

 

A novidade está nos volumes que sucedem ao modernismo: optou-se por dividi-los em décadas, o que ajuda o leitor a ver as coisas mais de perto, e tira dos organizadores a camisa-de-força das escolhas inevitáveis, “antológicas”.

 

Assim, os anos 30 ficaram a cargo de Ivan Junqueira, os anos 40 com Luciano Rosa, os anos 50 com André Seffrin, e isso até os anos 2000, com poetas escolhidos por Marco Lucchesi.

 

Peguei para ler a antologia dos anos 50. Alguns nomes de peso, como Ferreira Gullar, Hilda Hilst e Mário Faustino acabam sendo, na verdade, raríssimas exceções. Na linha de uns posts mais antigos, a que chamei de “anti-antologia” poética, seleciono alguns traços comuns a vários autores presentes na seleção de André Seffrin, e que podem ilustrar os clichês de uma época. Talvez com isso fiquemos mais conscientes dos nossos.

 

Opala – Os poetas que começaram a publicar nos anos 50 estavam querendo recuperar o prestígio de um vocabulário “poético” que caíra em desuso a partir de 22. Sinal inequívoco de que estamos em 1950 e poucos é o surgimento de uma palavra como “opala”.

 

Uma visão da terra além da opala,

cambiando nesses olhos consumidos.

Em tristeza lunar adormecidos

tantos clarões da aurora de tua fala.

 

(“Cassandra”, de Maria Lúcia Alvim)

 

A labareda ávida a consumir-lhe

estava ali   Em lâmina e opala

a ferrugem e o eco retorcidos

 

(Ao rubro pendão do açoite

erguia-se um búfalo)

 

(“A labareda ávida”, de Max Martins)

 

 

Que amargura turba a tua luz?

Que perigo assedia teu perfume?

Que lâmina de aço ameaça teu espaço

de pétalas e sépalas de rubi e opala?

 

(“Meditação sobre uma rosa”, de Fernando Mendes Vianna)

 

 

O pássaro – Não há presença mais insistente, nestes poemas, que a do pássaro, ou melhor, o Pássaro, com P maiúsculo, que já aparecera num poema de Drummond, mais ou menos da mesma época, em que ele dizia não ter amado bastante o seu semelhante, salvo, talvez, “aquele pássaro –vinha azul e doido—que se esfacelou nas asas do avião.”   Não, o pássaro continuou incólume.

 

Um pássaro pousa no pasto.

Meu relincho o levanta.

 

(“Cantares”, in O centauro e a lua, de José Santiago Naud)

 

Pássaro! A expressão alada inventa o vôo

e sugere a intranqüila imagem: pássaro.

 

(“A forma e o vazio”, de Celina Ferreira)

 

Distingue-se do vento por ter asas

e cores impossíveis para o vento:

Voando pelo ar, vem livre e lento

unir-se à solidão de nossas casas.

 

Mas vento é,como disfarce e vôo,

o bojo de canções arremessado

em plumas pelo céu, equilibrado,

que a vida de ser leve transformou-o.

 

(“O Pássaro”, de Audálio Alves)

  

Paira no abismo o pássaro da crença

e o céu é tão ali que ouso tocá-lo.

Que notícia de aurora se condensa

toda, no canto estrídulo de um galo?

 

(“Canto 4”, de José Chagas)

 

O vôo do pássaro

é seu risco de angústia

no espaço

 

(“Pássaro do sono”, de Sanderson Negreiros)

 

No deserto da noite

modula-se a canção.

Um pássaro que foge

de sombria prisão.

 

(“Soneto em lá menor”, de Cláudio Murilo Leal)

 

Em outro registro, mais experimental, vem Haroldo de Campos:

 

(...) silêncio e som

dispássaros   pássaros  dispersos

                                      onde

 

se traça a bico

de pena esta

canora    partitura

 

(“Birdsong: alba”)

 

A idéia, naturalmente, é identificar a poesia com o canto; ou melhor, o Canto.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h32

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ofertas do México

ofertas do México

Quem estudava ciências humanas há coisa de vinte anos ou mais simplesmente não podia passar sem as traduções do Fundo de Cultura Econômica, editora mexicana que trazia “Economia e Sociedade”, de Max Weber, “Fenomenologia do Espírito”, de Hegel, “Paideia”, de Werner Jaeger, em traduções para o espanhol, muito antes de alguém se dispor a passar tais livros para o português.

 

O título da editora sempre foi inadequado –havia menos economia do que filosofia, história da arte e sociologia nas suas publicações. Contaram-me, uma vez, a razão do mistério. O nome da editora era para ser “Fundo de Cultura Ecumênica”, mas um erro de impressão nos primeiros livros da casa determinou a confusão já no batismo. Se é verdade, não sei.

 

Ponho este post para avisar que nos dias 20 e 21 de junho, na Livraria Azteca, da rua Bartira, ao lado da PUC, vai haver uma feira de ofertas dos livros do FCE, com ofertas até mesmo de R$ 2. Confira no site.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h33

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Astúcia e preconceito

Por falar em racismo, já surgiu um site na internet que vende bonecos de pelúcia com Barack Obama em forma de macaquinho:

 

 

Os criadores do produto não dão bandeira nenhuma de suas intenções: falam que é uma coisinha carinhosa, e já fizeram declarações explicando a consumidores ultrajados que sua intenção é a melhor possível.

 

Acho que a melhor coisa a fazer, numa situação dessas, seria tomar a provocação pelo valor de face. Os partidários de Obama poderiam adotar oficialmente o boneco, neutralizando um dos possíveis efeitos pretendidos –a saber, o de que assumirem a ofensa e reagirem com o discurso do insultado. Este discurso equivaleria, sem dúvida, a cair na armadilha de que Obama quer fugir a todo custo.

 

Ele não quer se colocar como um “líder negro” no estilo dos ativistas históricos do movimento. Todo ativismo racial, aliás, pode ser capturado por argumentos falsamente inocentes: “se você acha que associei negritude a qualquer pose simiesca, isso é o seu preconceito interiorizado. Você é quem fez a associação, eu nem estava pensando nisso...”

 

Artistas cubistas, impressionistas, decadentistas, fauvistas, em situação mais ou menos parecida, deram a resposta que considero mais astuciosa. Esses termos, inicialmente pejorativos, foram apropriados pelos próprios movimentos, que os utilizaram para se autodesignar e com isso dissolveram as intenções de quem os havia criado. Chamei isso de “efeito Baju”, no meu livro “Crítica Cultural, Teoria e Prática”, para homenagear um escritor e jornalista que resolveu “assumir” para sua escola literária o título de “decadente” com que quiseram estigmatizá-la.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h40

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Crítica do heterossexualismo

Crítica do heterossexualismo

A gente se escandaliza ao saber que, há algumas décadas, negros e brancos tinham bebedouros diferentes no sul dos Estados Unidos; que não podiam se misturar em escolas nem nos ônibus.

 

Em qualquer loja de brinquedos de shopping center, encontro uma segregação parecida entre meninos e meninas. Um corredor está entupido de bonecas, panelinhas, fogõezinhos e fantasias de princesa. Outro corredor oferece monstros, carrinhos, espadas e fuzis.

 

O quadro não mudou (exceto pelos monstros) nos últimos cem ou duzentos anos, embora seja notória a revolução ocorrida nos papéis sexuais a partir de 1950 mais ou menos.

 

Com meus filhos pequenos, dois meninos, não fiz diferente do que qualquer pai faz. Encanto-me eu mesmo com carros e trenzinhos (que nunca tive em quantidade satisfatória), atendo a seus pedidos de comprar fantasias de super-herói, e não vi grande mal em que ganhassem espadas, pistolas d’ água, metralhadoras a laser e lançadores de meleca radioativa.

 

Afinal, pensei, isso faz parte da identidade masculina; todos os pais pensam o mesmo, todos os filhos também, e ai das exceções que surgirem no meio do caminho.

 

É assim que a tradição, por mais que pensemos estar livres dela, mantém seu domínio. Nada muda tão lentamente quanto as cantigas de roda, as adivinhas, as brincadeiras e o próprio vocabulário da infância: os adultos reproduzem o que conheceram há trinta anos, que por sua vez lhes foi transmitido da mesma forma pela geração anterior.

 

Seria preciso grande ousadia para fazer um menino brincar de boneca de vez em quando. Não chegarei a tanto. Mas um pensamento me veio de repente, ontem à noite, com certo alarme: enquanto meninos brincarem de espada, e meninas de boneca, continuaremos na idade da pedra.

 

"Espada do rancor" (1969), ikebana de Yukio Nagawa, de uma exposição de fotos em Nova York

Escrito por Marcelo Coelho às 23h26

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voltaire de souza

Quatro crônicas publicadas recentemente no "Agora".

 

ARQUEOLOGIA DO AMOR

 

Aventura. Emoção. Correrias.

O cinema ainda é o melhor divertimento.

Cláudio e Aninha estavam vivendo um grande amor.

Sexta-feira. Dia de estréias no circuito.

--Olha, Aninha... O novo filme do Indiana Jones.

O aventureiro do chicote está de volta às telas da cidade. Aninha pensou um pouco.

--Não sei não... acho que prefiro o Homem de Ferro.

O super-herói da armadura vermelha mostra do que é capaz diante das câmeras.

A fila no shopping não andava. Cláudio e Aninha se abraçavam demoradamente.

Sem discutir muito sobre qual o melhor programa.

A mão do rapaz escorregou pelas costas da bela adolescente.

À procura do tesouro da arca perdida.

Os dois entraram no cinema sem saber direito qual o filme que iam assistir.

Aninha sentiu um volume na virilha do namorado.

--Será o Homem de Ferro? Ou o cabo do chicote?

Cláudio nada respondeu. O filme não foi visto até o fim.

No Motel Lúksor, sucedem-se as doces escavações da arqueologia eterna do amor.

Alguns namoros são como os filmes de sucesso: pouca conversa e muita ação.

 

 

CONDIÇÕES DURÍSSIMAS

 

Preocupar-se com a segurança é dever de todos.

Assaltos. Seqüestros. Homicídios.

O famoso estilista Kuko Jimenez andava bem nervoso.

A convite de uma ONG, o guru fashion ia organizar um desfile numa das mais perigosas favelas da cidade.

Belas modelos e rapazes angulosos entraram na van. Kuko olhava em volta.

--Será que essa van é blindada?

Logo na entrada da favela, ouviu-se uma ordem dura. Ríspida. Inflexível.

O traficante Arnaldinho proibia todas as atividades daquela tarde.

Kuko achou melhor relaxar. O cinema era uma opção.

--Homem de Ferro. É isso. Muita fantasia. Imaginação.

Na semana seguinte, foi intensa a atividade em seu ateliê.

O desfile ocorreu na favela sem problemas algum tempo depois.

Moças e rapazes pisaram a passarela em modelitos blindados.

Puro ferro, cobre e titânio em tons quentes de outono.

Rajadas de metralhadora comprovaram o sucesso da concepção.

Kuko projeta agora modelos de prata, ouro e platina para sua butique de luxo.

Num mundo marcado pelo ferro e pelo chumbo, flexibilidade é essencial.

 

 

EM ALTO NÍVEL

 

Lucros. Prejuízos. Desavenças. É cheia de tensões a vida empresarial.

Milton e Antônio Carlos eram sócios numa firma de advocacia.

A suspeita e o veneno corroíam suas relações.

A secretária Jênifer acompanhava  as brigas com interesse.

Antônio Carlos entrou no escritório pisando firme.

--Onde se encontra aquele desqualificado moral?

Um arrepio percorreu o belo corpo da secretária.

--Ele está para chegar.

Milton apareceu com uma série de contas e duplicatas.

--Sua desídia, nobre colega, só se equipara à sua deficiência mental.

A linguagem elaborada fazia o coração de Jênifer bater aceleradamente.

--Não sei... acho tão chique... tão...

--Rábula. Sicofanta. Trapaceiro.

--Cavalgadura. Pigmeu forense.

Um grito rouco, abafado e longo da secretária interrompeu a discussão.

Discretos sinais de orgasmo estremeceram as fibras mais íntimas de Jênifer.

--Não sei qual dos dois é melhor quando quebra o pau.

A baixaria do rico será sempre o prazer do pobre.

 

VOCAÇÕES EM MARCHA

 

O homossexualismo é uma realidade no mundo atual.

Chuveiros. Músculos. Sovacos. Rafael queria ser soldado.

--Quem sabe um dia até eu viro sargento...

Ele deu um risinho.

--Mas gosto mesmo é de cabo.

O pai era pastor evangélico e pedia para Rafael pensar melhor.

--Já pensou, você, com uma arma na mão?

--Penso o tempo todo, papai.

O corpo franzino de Rafael não ajudava no seu projeto.

Na Academia Guarany, ele se esforçava.

--Hfnn... Hfnn... não tem jeito.

Os traços melancólicos de seu rosto chamaram a atenção do estilista Kuko Jimenez.

--Magricelo. Alto. Ótimo para um desfile.

A coleção de outono do estilista tinha um tema convidativo.

A guerra do Iraque e a ocupação da Amazônia.

Fardas. Coturnos. Bonezinhos.  Rafael desistiu de ser soldado.

Mas pisa a passarela mostrando firmeza e disciplina.

A vida é uma grande marcha. Só é preciso escolher o tipo do tambor.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h21

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os quadros mais caros do mundo

os quadros mais caros do mundo

http://www.artelista.com/los-cuadros-mas-caros-del-mundo.html

Procurando um link para as obras de Manolo Tejido (ver post abaixo), topei com uma lista dos 124 quadros mais caros do mundo, isto é, dos arremates mais caros em leilões de quadros. É interessante, porque a toda hora ouvimos falar de recordes quebrados e isso nunca me parece bem sistematizado.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h18

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espanhóis no Masp

espanhóis no Masp

Nada como um dia depois do outro. Choveram críticas ao Masp, inclusive por parte deste blogueiro, quando aconteceu o roubo de duas telas do museu. É certo que o declínio do Masp não começara com aquele acontecimento, mas em todo caso o roubo acentuou a percepção geral a respeito do museu.

 Agora, foram quatro os quadros roubados da Estação Pinacoteca --uma instituição muito mais dinâmica e, no cenário cultural de hoje na cidade, também mais importante do que o Masp. Verdade que o roubo foi a mão armada, e que no Masp o sistema de vigilância noturna deixou tudo muito mais fácil.

Em todo caso, o Masp começa a apresentar algumas exposições novas, como a de desenhistas espanhóis que abre nesta sexta e fica em cartaz até 27 de julho. Soma-se a outra mostra de dois artistas espanhóis, Luis Gordillo e Manolo Tejido, que fica no museu até 13 de julho. Dois exemplos das obras em cartaz.

Corrida de toros (1937), pastel de Celso Lagar

sem título, 27 (cine), 1998, de Manolo Quejido

Escrito por Marcelo Coelho às 21h50

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Mc Cain, Obama: os blogs oficiais

Comenta um jornalista da Newsweek que o blog oficial da campanha de Barack Obama é muito mais profissional e impessoal, enquanto o de Mc Cain é mais simpático e confuso. Segundo o comentarista, isto é prova de que vai mal a campanha de Mc Cain. Não se pode desprezar o imenso fator "torcida" a favor de Obama, que naturalmente é mais interessante como fato jornalístico para toda a imprensa, sejam quais forem as preferências partidárias de cada um. O que chama a minha atenção no blog de Obama é que ali se insiste na mobilização do eleitor, enquanto o de Mc Cain é menos "participativo" e mais "ideológico" no velho sentido da palavra. Confira aqui (Mc Cain) e aqui (Obama)

Escrito por Marcelo Coelho às 01h04

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Minimalismo, Mao, Kissinger

No artigo desta quarta-feira, comentei um diálogo entre Kissinger e Mao, quando da visita histórica de Nixon à China, em 1973. Foi reproduzido na revista Harper’s de maio, depois de ter tido sua divulgação autorizada pelo Departamento de Estado americano em fevereiro deste ano.

 

Por razões de espaço, não pude transcrever tudo o que foi publicado na Harper’s, o que diminui um pouco, acho, o impacto e o absurdo de toda a situação, em especial o estranho comportamento de Mao naquele momento. Vai aqui o texto completo, em tradução.

 

MAO: O comércio entre nossos dois países no momento é lamentável. O senhor sabe que a China é um país muito pobre. Não temos muita coisa. O que temos de sobra são mulheres. (risos)

 

KISSINGER: Não há cotas nem tarifas para elas.

 

MAO: Então, se vocês as quiserem, podemos dar algumas para vocês, umas dezenas de milhares. (risos)

 

ZHOU ENLAI: Naturalmente, numa base voluntária.

 

MAO: Deixemos elas irem para o seu país. Vão criar grandes desastres. Dessa maneira vocês diminuirão nossos sacrifícios. (risos)

 

KISSINGER: Nosso interesse em ter ligações com a China não é comercial. É estabelecer um relacionamento necessário para as relações políticas que ambos temos.

 

MAO: Nós não entendemos os seus procedimentos. Seus assuntos domésticos, nós não entendemos. Há muitas coisas em suas relações exteriores que não entendemos também.

 

KISSINGER: Vocês têm um modo de agir mais direto, talvez mais heróico, do que nós. Às vezes temos de usar métodos mais complicados devido a nossa situação doméstica. Mas nos nossos objetivos fundamentais iremos agir muito decididamente e sem consideração pela opinião pública. Assim, se um perigo real se apresenta ou se intenções hegemônicas se tornam ativas, iremos certamente resistir a elas onde for que apareçam. E como o nosso presidente disse ao senhor, em nosso próprio interesse, não como gentileza a quem quer que seja.

 

MAO: Vocês querem mulheres chinesas? Podemos dar dez milhões a vocês. (risos, especialmente entre as mulheres presentes)

 

KISSINGER: O presidente Mao está melhorando a sua oferta.

 

MAO: Podemos deixá-las inundar o seu país com desastres e assim prejudicar os seus interesses. Em nosso país temos mulheres demais, e elas têm um jeito de fazer isso. Elas dão à luz crianças, e temos crianças em demasia. (risos)

 

KISSINGER: É uma proposta tão nova, que teremos de analisá-la.

 

MAO: Vocês podem organizar uma comissão para analisar o assunto. É o modo pelo qual a visita de vocês à China estará solucionando a questão populacional. (risos)

 

KISSINGER: Iremos estudar a utilização e a logística.

 

MAO: Se você pedir a elas para irem, creio que desejarão ir.

 

KISSINGER: Certamente desejamos recebê-las.

 

MAO: Hoje andei dizendo alguns absurdos pelos quais terei de pedir perdão às mulheres chinesas.

 

KISSINGER: Soaram muito atraentes para os americanos presentes. (Mao e as mulheres riem)

 

WANG HAI-JUNG: Se as atas desta conversa fossem tornadas públicas, acarretariam raiva em metade da população.

 

MAO: Quer dizer, metade da população da China.

 

ZHOU ENLAI: Antes de tudo, as atas não irão transpor os gabinetes do Ministério das Relações Exteriores.

 

MAO: Podemos chamar isto de uma reunião secreta. Deveria ser tornada pública, ou mantida em segredo?

 

KISSINGER: O senhor decide. Estou disposto a torná-la pública se o senhor quiser.

 

MAO: Então as palavras que dissemos sobre as mulheres deverão ser tornadas inexistentes. (risos)

 

KISSINGER: Serão eliminadas das transcrições (risos). Começaremos a analisar a proposta quando eu voltar.

 

MAO: Sabe, os chineses têm um plano para prejudicar os Estados Unidos, que é mandar dez milhões de mulheres para os Estados Unidos e prejudicar os seus interesses aumentando a sua população.

 

KISSINGER: O presidente Mao fixou a idéia tão fortemente em meu cérebro que irei certamente utilizá-la em meu próximo encontro com a imprensa. (risos)

 

MAO: Para mim não há problema. Não tenho medo de nada.

 

Corrigi algumas coisas da tradução que fiz para o artigo da Ilustrada. Mas é isso; uma estranha e obsessiva insistência num assunto inexistente, sabe-se lá com que intenções, ou simplesmente um sinal da senilidade de Mao.

 

Falei também, no artigo, da ópera de John Adams, Nixon in China. No Youtube dá para ouvir uns bons excertos.

 

Mao (2006) pelos irmãos Luo

Escrito por Marcelo Coelho às 00h40

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Obama é barbada

Sou muito ruim de previsões, mas acho que a vitória de Barack Obama nas eleições é praticamente certa. É muito difícil para Mc Cain desvincular-se o suficiente de um dos mais impopulares presidentes da história americana. Obama é mais do que um candidato, virou um ícone pop como Che Guevara, Madonna ou Kennedy. Até agora, ele estava às voltas com Hillary, e esta era o foco das comparações dos eleitores. Agora as pessoas vão comparar Obama com Mc Cain, e é difícil encontrar tamanha diferença de carisma.

O fato de Obama ter vencido a renhida disputa com Hillary também favorece a idéia de que ele é "um vencedor". Há, naturalmente, o raciocínio de que, no fundo, o racismo e o conservadorismo americanos são fortes demais e que, no recôndito da cabine eleitoral, a pessoa acaba cravando Mc Cain. Mas não tenho certeza. É preciso que a pessoa "se sinta melhor" depois de um voto. O eleitor de Bush sentia que estava fazendo a coisa certa. Não sei se sentiria o mesmo votando contra Obama. Ele teria de despertar algum tipo de ódio ou sensação de perigo.

Fora alguns setores mais radicais, não é esse o seu perfil. Sua mágica é a de representar muita gente que se sente injustiçada e excluída, sem despertar ao mesmo tempo retóricas de vingança, ressentimento ou reparação.

Em todo caso, os torcedores podem acompanhar pesquisas diárias, com análises a perder de vista, no site Rasmussen Reports.  

Escrito por Marcelo Coelho às 12h24

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O destino do jornal (3)

Talvez isso seja discutido em faculdades de jornalismo, mas de minha parte eu nunca tinha ouvido falar no dr. Rudolf Flesch. Ele inventou, em 1938, uma fórmula matemática para medir o quanto determinados textos são fáceis de ler ou não. É assim:

 

Índice de facilidade de leitura = 206, 835 – 1,015 (PF) – 0,846 (NS).

 

PF representa o número de palavras por frase e NS é o número de sílabas por cem palavras. De modo que, quanto mais longas as frases, e mais polissílabos tiverem, menor será a chance que o leitor as leia até o fim.

 

Mais tarde, o dr. Peter Kincaid, psicólogo, adaptou esse padrão para os diferentes níveis de escolaridade, calculando assim o mínimo de anos de escola necessários para entender satisfatoriamente um texto qualquer.

 

No livro que venho comentando aqui, Os jornais podem desaparecer?, Philip Meyer testou vários jornais conforme as fórmulas de Flesch-Kincaid. O mais fácil de ler, dentre os pesquisados, foi o Grand Forks Herald, com escolaridade requerida de 5,04 anos. O mais difícil foi o Houston Chronicle, com 10, 38 anos de escolaridade.

 

Para exemplificar, ele cita reportagens dos dois jornais. Claro que a tradução atrapalha muito a contagem das sílabas. No caso da reportagem mais fácil, trata-se de um problema com colheitadeiras, que atolaram em determinadas regiões de Minnesota por causa do excesso de chuvas. “Combines” é colheitadeiras.

 

A few combines were rolling in Walsh County fields this week, but it is though going, said Craig Askim, Walsh County extension agent. [em português isso quer dizer que ele ensina técnicas agrícolas na região.]

“They’re not getting it all; they’re just getting the spots they can”, he said Tuesday. “I saw combines stuck in the field yesterday”.

Across the Red River in Minnesota, 78 percent of the spring wheat was harvested as of Sunday, compared with 93 percent last year and the five-year average of 86 percent, according to the Minnesota Agricultural Statistics Service.

etc.etc.

 

O texto do Houston Chronicle pode ser transcrito em português mesmo, dado que seu suposto problema é o excesso de palavras com muitas sílabas.

 

A via expressa cronicamente congestionada agora tem uma faixa reversível para veículos com alta ocupação, três faixas regulares em cada direção e duas marginais de duas faixas, totalizando 11 faixas, além das faixas de entradas e saída nas interseções.

A ampliação planejada de West Loop até Texas 6 exigirá duas faixas pedagiadas em cada direção, além de quatro ou cinco faixas expressas e três marginais, totalizando entre 18 e 20 faixas, além das entradas e saídas.

De Texas 6 até o limite do condado na cidade de Katy, a via expressa será expandida para 4 faixas em cada direção, mais 3 marginais. Serão mantidos os atuais corredores para ônibus e veículos com mais de um ocupante, afirmou a porta-voz do departamento de transportes, Janelle Gbur.

etc. etc.

 

Bem, o comentário a fazer aqui é que com certeza a questão da legibilidade de um texto tem muito menos a ver com a fórmula Flesch-Kincaid do que com uma coisa muito mais óbvia. É simplesmente impossível se interessar pelo sistema de faixas de West Loop até Texas. Mesmo seus usuários recuariam diante desse texto, porque a realidade que se pretende retratar não se presta a uma organização discursiva. Um gráfico comparativo simplesmente eliminaria toda leitura, e é a única maneira de fazer uma reportagem dessas aparecer decentemente num jornal.

 

O texto “mais fácil”, sobre as colheitadeiras, trata de um problema, envolve uma pessoa comum falando dele, passa para o foco das estatísticas e prossegue com exemplos de clara visualização pelo leitor (que não citei aqui).

 

Nada poderia corresponder mais ao critério de legibilidade do dr. Flesch do que uma lista de supermercado ou uma planilha. Precisamente, há textos-planilha demais no jornal hoje em dia. E vale lembrar uma frase corrente no Miami Herald dos anos 60, que Philip Meyer cita no final de seu livro: “Não há desculpa para um jornal que seja maçante”. Ou melhor, chato.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h55

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cinema alternativo

cinema alternativo

http://reframecollection.com/index.jsp

O Tribeca film institute, em parceria com a Amazon, lançou um site com todo tipo de filme de vanguarda, não-comercial, alternativo etc. Há documentários e cinebiografias também, como alguns que até já passaram por aqui: Crumb, Basquiat, por exemplo. Devem ser difíceis de arranjar em DVD.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h03

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O destino do jornal (2)

O destino do jornal (2)

Um dado bem preocupante é o que aparece em outro livro sobre o futuro do jornalismo, Os Jornais Podem Desaparecer?, de Philip Meyer (editora Contexto). É uma estatística sobre as faixas etárias de quem lê jornal.

 

Entre os que nasceram antes de 1928, cerca de 75% eram leitores diários de jornal.

 

Dos que nasceram entre 1928 e 1945, a média ficou por volta de 70%.

 

Dos nascidos entre 1946 e 1964, menos de 50% lêem jornal todos os dias.

 

Os que nasceram depois de 1964 ficam abaixo de 30% nesse quesito.

 

Note-se que a pesquisa vem sendo feita desde 1985. E não adianta o sujeito envelhecer para que se torne mais interessado em ler jornal.

 

Em 1985, a faixa dos nascidos depois de 1964 tinha só uns 25% de leitores de jornal. Em 2002, a porcentagem é a mesma. Trata-se, segundo o autor, de um hábito geracional: majoritário entre os nascidos antes da guerra, minoritário depois.

 

Um blog interessante sobre o tema, o Greeleys Ghost, pode ser acessado aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h04

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O destino do jornal

O destino do jornal

Faço uma resenha, para sair sábado na Ilustrada, do livro O destino do jornal, de Lourival Sant’Anna (editora Record). Há dados e análises interessantes sobre a situação do jornalismo impresso no Brasil, embora seja cedo para arriscar muitas previsões a respeito de seu futuro.

 

Eis um raciocínio interessante, que nem sempre é a primeira coisa que vem à mente quando se pensa na lucratividade dos jornais:

 

Quanto mais longe o leitor morar, e quanto menos leitores houver na área onde ele mora, mais caro é levar o jornal até ele. Simplificando: levar um caminhão cheio de jornais para uma determinada região do interior de São Paulo pode valer a pena. Mas, se houver mais leitores potenciais na mesma região, que não encham um segundo caminhão, pode não ser lucrativo atendê-los. Os jornais consumidos em locais mais distantes têm um preço de venda avulsa e de assinatura mais alto do que na cidade –sede do jornal. Mas essa diferença não cobre o custo do aumento do transporte. Até porque, como assinalado anteriormente, o preço de venda do jornal –somando avulsa e assinatura—representa apenas cerca de 25% da receita do jornal. [outros 50% vêm de grandes anunciantes, e 25% de classificados]. ... Se o custo de levar o jornal para um ponto mais distante não trouxer um retorno publicitário condizente com o que a empresa considerar compensador, então a tendência será não atender à demanda do mercado naquele lugar.

 

Há, entretanto, que levar em conta o prestígio de ser um jornal de circulação nacional; o cálculo dos lucros e prejuízos na distribuição tem de ser ponderado com outro valor, de mais difícil aferição, que é o da importância e da credibilidade da marca. O que, naturalmente, atrai leitores mais qualificados (e anunciantes também). Mas, se os anunciantes mais qualificados passam a investir mais nesse jornal, o círculo vicioso se acentua: novamente as receitas publicitárias, sendo maiores, tornam ainda menos lucrativo o aumento da circulação em lugares distantes...

 

Outro círculo vicioso interessante é o das estatísticas sobre o tempo consumido na leitura dos jornais. Em 2001, segundo Sant’Anna, um leitor gastava 64 minutos diários para ler jornal. O dado deve ser um pouco exagerado, porque já em 2002 a média caiu para 51 minutos. Em 2006, a leitura nos dias de semana consome apenas 45,7 minutos.

 

Todos concluem, a partir daí, que o leitor tem menos tempo para ler jornal. O que não é incorreto, mas seria necessário saber no que ele gasta o tempo que deixa de dedicar à leitura. Pois também é um fato que, baseados na “falta de tempo” do leitor, os jornais procuraram tornar-se mais enxutos, fáceis de ler, cheios de gráficos e fotos. De modo que o problema inicial –cada vez se tem menos tempo—pode na verdade ser efeito da solução –faz-se um jornal que se lê em menos tempo...

 

O grande desafio, acho, não é fazer um jornal que se consiga ler em dez minutos, mas um jornal que não seja chato, que não nos dê vontade de largá-lo depois de dez minutos.

 

banco extensível do designer Charles Kaisin: "duro como madeira", diz.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21

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Oito vezes fotografia

Oito vezes fotografia

Esta fotografia de Walker Evans foi tirada em 1936, durante sua viagem ao Sul dos Estados Unidos.

 

Notam-se desde logo algumas ironias nessa imagem. A notícia, não singularmente importante, de que o general Lafayette fez um discurso naquele lugar no ano de 1824 tem sua pretensão histórica contrastada com o prosaísmo dos serviços oferecidos mais de um século depois. Note-se que o anúncio de um estenógrafo público, quase na mesma altura e com dimensões semelhantes à placa comemorativa do discurso, acrescenta-lhe ainda um outro comentário: logo pensamos que não havia ninguém para estenografar o discurso de Lafayette em 1824... como se o avanço técnico tivesse chegado, no caso, tarde demais, com as palavras do famoso general definitivamente perdidas. Da esquerda para a direita, de qualquer modo, os dois cartazes fazem o percurso do passado histórico para um presente “técnico”, marcado pela pressa, em que pronunciamentos supostamente menos relevantes que os de Lafayette devam, ainda assim, ser registrados com exatidão.

 

No eixo vertical, de baixo para cima, a foto se divide em três níveis. O inferior é ocupado pelos dois cartazes de gêneros alimentícios; o nível intermediário, a que correspondem as placas “passado/presente”, do discurso e do estenógrafo, representaria o mundo da política, do trabalho, dos negócios, das atividades comerciais; no terceiro plano, o mais elevado, e abrindo-se de ponta a ponta da varanda, aparece o cartaz da escola de arte, simplesmente pairando acima tanto das necessidades materiais quanto dos afazeres públicos e privados da cidade. Certamente uma pretensão que o caráter modesto do conjunto novamente relativiza: sem contar que, em mais uma ironia, a representação das uvas, do abacaxi ou do repolho na placa FRUTAS-VERDURAS não depõe muito em benefício da escola de arte que –será?—instruiu o autor do cartaz.

 

Este é um trecho do artigo que escrevi sobre a foto de Walker Evans (e mais a questão dos cartazes populares), para um livro que acaba de sair pela Companhia das Letras, Oito vezes fotografia, que reúne ensaios de Alberto Tassinari, Antonio Cicero, Rodrigo Naves, Eugênio Bucci, Sylvia Caiuby Novaes, José de Souza Martins e Cristiano Mascaro. Cartier-Bresson, André Kertész e Sebastião Salgado são alguns dos fotógrafos analisados. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h19

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Patrocinando Beethoven

Patrocinando Beethoven

Ótima notícia na Ilustrada de hoje: reproduz-se, no Rio, o esquema francês das "folles journées" de Nantes, com programação extensíssima em vários pontos da cidade, muitos intérpretes internacionais, tudo para homenagear Beethoven.

Não deixa de ser interessante acrescentar uma informação. O evento das "loucas jornadas" tem o patrocínio da Alstom, conforme release abaixo.

Pelo segundo ano consecutivo, a Alstom, líder mundial em energia e transporte, patrocina a Rio Folle Journée, o maior evento de música erudita organizado no Brasil, que acontece no Rio de Janeiro entre os dias 4 e 8 de junho. Em 2007, o tema das apresentações foi Harmonia dos Povos, dedicado às origens, estilos e escolas de diversos países. Este ano, na programação da Folle Journeé, que significa “jornada maluca”, serão apresentadas composições da obra de Beethoven. No total estão previstos 48 concertos em oito locais diferentes da capital fluminense: Theatro Municipal, Anexo do Municipal, Sala Cecília Meireles, Auditório Guiomar Novaes, Auditório de Furnas e do BNDES, Centro Cultural Justiça Federal e Igreja N.S. do Carmo da Lapa (confira programação completa abaixo). Os ingressos vão custar de R$ 1 a R$ 5 e poderão ser comprados nas bilheterias dos locais das apresentações, com exceção das apresentações na igreja N.S. do Carmo da Lapa, que devem ser adquiridos nas bilheterias da Sala Cecília Meireles. A previsão de público é de 35 mil pessoas. O evento foi criado em Nantes, em 1995, pelo francês René Martin e está na sua segunda edição no Brasil. Informações: http://www.riofollejournee.com/ 

Sobre a ALSTOM

A ALSTOM, líder mundial em infra-estrutura de geração de energia e transporte ferroviário, é também referência por suas tecnologias inovadoras e que respeitam o meio ambiente. O Grupo fabrica os trens mais rápidos e os metrôs automatizados que oferecem a maior capacidade do mundo. Fornece também, usinas integradas turnkey e serviços associados para diferentes fontes de energia, entre as quais, a hidreletricidade, a energia nuclear, o gás, o carvão e o vento. O grupo emprega mais de 76.000 pessoas em 70 países, com uma carteira de pedidos na ordem de € 23,5 bilhões em 2007/08.

Merci beaucoup.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h32

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revistas européias

revistas européias

http://www.eurozine.com/

Link para artigos de importantes revistas culturais européias, da "Esprit" francesa à "Merkur" alemã, com direito a croatas, romenas e gregas.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h49

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O STF e a democracia

No artigo de hoje para a Ilustrada, tratei de um assunto "institucional", o destaque público e o poder político que o Supremo Tribunal Federal tem alcançado ultimamente.

 Não há como ser contrário à transmissão ao vivo dos julgamentos do STF. Aprende-se muitíssimo e discute-se mais ainda graças a esse sistema. Mas o princípio da publicidade --isto é, o de que os atos políticos ganham estatuto ético na medida mesma em que podem vir a público-- não deixa de trazer uma conseqüência, a da politização.

Pode-se argumentar que todo julgamento do STF sempre foi político. Mas uma coisa é ser político dentro de seu próprio âmbito de atividades, dentro de sua própria esfera de atribuições, e outro é ser político no sentido mais geral do termo. Quando os juízes do STF saem de seu gabinete e da leitura dos autos para interagir com a sociedade diretamente --dando declarações antes de votar a matéria, por exemplo--, estão se comportando mais como agentes políticos, como líderes de correntes de opinião, como representantes desta ou daquela aspiração da sociedade, do que como juízes. É como se buscassem o voto dos eleitores; contentam-se com o aplauso, o prestígio.

Juízes sempre brigaram e bateram boca em decisões colegiadas. Meu pai foi desembargador e contava alguns arranca-rabos incríveis que presenciou. Bater boca é normal, e é educativo, até, ver os acalorados e personalíssimos debates no STF. Ocorreram, entretanto, debates curiosos na decisão do STF sobre células-tronco. Os votos tinham tantos adendos e considerações --não se limitando apenas a julgar a constitucionalidade da lei da biossegurança-- que o ministro Cézar Peluso chegou a ter de esclarecer o conteúdo final do que tinha decidido; pouca gente tinha certeza de qual o placar da votação.

Seria estranhíssimo, para não dizer terrível, um processo de "eleição" dos juízes do Supremo. Mas no mínimo as sabatinas do Senado para aprovar ou rejeitar as indicações presidenciais teriam de ser muito mais politizadas e ideológicas do que são. Não faz muito sentido, dado o extremo poder de que estão imbuídos os ministros, que juristas sejam guindados ao posto sem que se saiba se suas opiniões encontram real representatividade no conjunto da sociedade. Por outro lado, é também bom que exista pluralismo no STF. que não se encontre ali apenas a voz da maioria. Não sei como solucionar essa questão; sei que tende a agravar-se, na medida em que existe uma desproporção entre a publicidade do debate em que se envolvem e a representatividade real de suas opiniões.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h42

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três releases

Alguns releases que recebi, para coisas que podem ser interessantes.

O primeiro é sobre um programa que estréia na sexta-feira, dia 13 de junho, às 20h30, na TV Cultura, só sobre cultura latino-americana. Acho que nunca tinha havido uma iniciativa dessas no Brasil. O apresentador é um cubano, mestiço de japonês, radicado por aqui. Segue um trecho do release.

Com uma hora de duração, o programa de estréia trará três documentários. O primeiro é o argentino “Peluquería LaEpoca”, que conta a história de uma barbearia que se transformou em um espaço cultural. Na seqüência, o curta-metragem “Cinema Alcazar”, da Nicarágua, que fala de uma mulher que foi morar em uma sala de cinema destruída por um terremoto. E por fim, o telespectador confere “Panamá Gay”, sobre um músico panamenho que faz o papel de repórter e sai em busca da identidade gay num país onde a homossexualidade é tabu.

 


 

O segundo release é sobre um dia de discussões a respeito da obra do poeta Bruno Tolentino, falecido há pouco tempo. Tolentino foi sem dúvida uma das mais polêmicas e odiadas figuras da literatura recente, dada a sua extrema agressividade (com relação aos concretos em especial). O interessante do seminário é que reunirá alguns de seus críticos –não chego a dizer desafetos, mas talvez pudesse--, como Nelson Ascher.

O enigma Bruno Tolentino

Sábado, dia 21 de junho

das 9h30 às 18 hs.

Instituto Internacional de Ciências Sociais- Rua Maestro Cardim, 370 (Metrô São Joaquim)- Bela Vista - São Paulo  Fone [11] 3251 5377

ENTRADA FRANCA

Programação:

9h30 – 11h: “Uma visão geral da obra de Bruno Tolentino”

Palestrante: Érico Nogueira, poeta, mestre e doutorando em letras clássicas pela USP.

Debatedores: Carlos Felipe Moisés, poeta e crítico literário, autor de “Poesia e Utopia” e “Poesia e Realidade”.

José Rodrigo Rodriguez, poeta e escritor

Mediador: Manuel da Costa Pinto, jornalista, coordenador editorial do Instituto Moreira Salles e colunista da Folha de São Paulo.

11h10 – 12h30: “O mundo como Idéia, ou: o ‘livro-arena’ de Bruno Tolentino”

Palestrante: Juliana Perez, doutora pela USP, professora de língua e literatura alemã na UFRJ.

Debatedores: Antônio Fernando Borges, escritor e jornalista, autor de “B rás, Quincas & Cia” e “Memorial de Buenos Aires”.

José Rodrigo Rodriguez, poeta e escritor

Mediador: Martim Vasques da Cunha, jornalista e coordenador do departamento de Humanidades do IICS.

12h30 – 14h30: Almoço

14h30 – 16h: “Bruno Tolentino e a literatura brasileira”

Palestrante: Jessé de Almeida Primo, crítico literário e autor do livro “A Linguagem da Poesia”.

Debatedores: José Jeremias de Oliveira Filho, poeta e professor doutor da Universidade de São Paulo.

Marcelo Consentino, mestre em filosofia pela Universidade Santa Croce, em Roma, e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP.

Mediador: Martim Vasques da Cunha, jornalista e coordenador do departamento de Humanidades do IICS.

16h15 – 18h: “Bruno Tolentino e a literatura ocidental”

Palestrante: Pedro Sette Câmara, poeta, tradutor e professor de Educação Clássica do Instituto Internacional de Ciências Sociais.

Debatedores: Nelson Ascher, poeta e tradutor, autor de “Poesia Alheia” e “Parte Alguma”.

Marcelo Consentino, mestre em filosofia pela Universidade Santa Croce, em Roma, e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP.

Mediador: Manuel da Costa Pinto, jornalista, coordenador editorial do Instituto Moreira Salles e colunista da Folha de São Paulo.

Clique aqui para mais informações.


 

Ainda sobre poesia e literatura, os interessados na cultura russa têm muito o que ver neste evento:

5 de Junho - 5ªfeira
12:00 horas
Lançamento do Caderno de Literatura e Cultura Russa n.2- Dossiê Dostoiévski - Curso de Russo- DLO/FFLCH/USP - Ateliê Editorial

14:00 horas
Mesa Redonda
Sérgio Alcides (USP):
“ Mandelstam e sua conversa sobre Dante”
Marcelo Tápia (USP) : “Poesia russa em português: paradigma da relação entre som e sentido”
Mário Ramos Francisco Júnior (USP) : “Khlébnikov e a poesia zaum: questões de tradução”
Irineu Franco Perpétuo (escritor e jornalista): “A poética da tradução: as tragédias de Púchkin”

6 de Junho - 6ª.feira
10:00 horas
Conferência: “Conversa sobre tradução de poesia russa”
Boris Schnaiderman (Professor emérito da Universidade de São Paulo)

14:00 horas
Mesa Redonda – “A poesia russa e o contexto mundial”
Rolando Sanchez Mejias (Escola de Humanidades de Barcelona)
Aurora Fornoni Bernardini (USP)
Regis Bonvicino (poeta)

16:00 horas
Projeção do filme “A paixão segundo Marina Tsvetáieva” do diretor russo: Andrei Óssipov

LOCAL DO CURSO: Prédio de Letras, FFLCH-USP (Av. Prof. Luciano Gualberto, 403).

Inscrições gratuitas aqui 

(Observo que esse negócio de inscrição é para quem quiser ganhar o certificado; não creio, conhecendo a USP, que irão barrar os interessados que quiserem simplesmente assistir às palestras; mas é bom confirmar: tel. 3091 46 45).

Escrito por Marcelo Coelho às 14h44

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Cleópatra, de Júlio Bressane

Cleópatra, de Júlio Bressane

A atriz Alessandra Negrini seria passável no papel de uma normalista do Méier, mas imaginá-la como Cleópatra, como fez Júlio Bressane em seu mais recente filme, é no mínimo uma ousadia, e provavelmente um ato transgressivo. Só não é mais ousado e transgressivo do que colocar Miguel Falabella no papel de Júlio César.

 

Mas quando, entre os dois ou três senadores humilhados pelo conquistador da Gália, o espectador distingue um velho conhecido dos programas de Chico Anísio e Jô Soares –trata-se do excelente comediante Lúcio Mauro, coberto de toga, rímel e batom— está mais do que dado o sinal de que o filme “Cleópatra” repete o velho slogan da ditadura militar: ame-o ou deixe-o.

 

Não o amei, nem deixei de vê-lo. Sem dúvida, tudo no filme traz a aparência da paródia mais selvagem. Os palácios de Alexandria têm banheiras claramente inspiradas nos motéis da Barra da Tijuca. Alguns mármores sugerem a decoração do Palácio do Catete, e as palmeiras do Egito não gorjeiam como as de cá. Armam-se tendas e divãs entre as pedras da avenida Niemeyer, e tronos, piras, coxins, sofás e tapetes vieram com certeza de um saldão de móveis –só faltava aos cenógrafos terem levado o Brasilino de presente.

 

Dito assim, tudo poderia ser uma paródia das produções épicas de Cecil B. de Mille. Mas acontece que, se a aparência é paródica, o filme de Bressane não se apresenta como tal. Não há nenhum momento em que “pisque o olho” para o espectador, instando-o a não levar nada daquilo a sério. Tudo se desenrola com máxima seriedade.

 

Que concluir desse mistério? Vale a pena prestar atenção nos diálogos, soleníssimos, do filme, onde se misturam citações de Drummond, João Cabral, e não sei quantos poetas parnasianos.

 

Cleópatra foi acusada de “enfeitiçar” Marco Antônio (sei disso assistindo a série “Roma”), e sua história encena uma espécie de choque cultural. O conquistador romano é seduzido pelos prazeres e delírios de uma corte estranha, animalesca, refinada, irracional.

 

Não seria um caso de “antropofagia”, ou, se quisermos, de absorção do colonizador pelo colonizado? E, se se trata disso na interpretação que Bressane dá aos fatos da história romana, o seu filme dá um passo a mais nesse processo: toda a pretensão hollywoodiana de criar um Egito e uma Roma “reais” eram, no fundo, absurdos. E o absurdo de Miguel Falabella como César não é menor que o de Richard Burton no mesmo papel. Fazendo saltar aos olhos a brasileirice desses romanos e egípcios, Bressane não nos ridiculariza; ridiculariza, com solenidade ritual e egípcia, a nova Roma de George Bush.

 

Tudo isso não basta para recomendar o filme aos desavisados. Mas bastou para que eu não saísse uivando da sala nos primeiros minutos de projeção.

 

Um bom complemento para “Cleópatra” seria “Roma” , de Fellini, que finalmente saiu em DVD. Mas é assunto para depois.  

 

Cleópatra: ame-o ou deixe-o

Escrito por Marcelo Coelho às 02h54

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perfil à americana

perfil à americana

http://chronicle.com/free/v54/i39/39b00601.htm

A "Chronicle of Higher Education" apresenta um favorável e intrigado perfil do professor Mangabeira e suas atividades em Brasília.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h29

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revistas européias

revistas européias

http://

Escrito por Marcelo Coelho às 02h07

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Adote um embrião

Por falar em mágica, o mundo jurídico tem coisas fabulosas. Estava lendo agora o voto do ministro Eros Grau, do STF, a respeito das pesquisas com embriões. Ele se manifestou contra; acha que o direito à vida deve ser preservado, mesmo no caso de um conjunto de células que provavelmente jamais será ou poderá ser implantado num útero materno.

 

Eis um trecho de sua argumentação:

 

Diz Pontes de Miranda:

“No intervalo entre a concepção e o nascimento, os direitos, que se constituíram, têm sujeito, apenas não se sabe qual seja”.

Os nascituros podem receber doações [art. 542 do Código Civil], figurar em disposições testamentárias [art.1.799 do Código Civil] e mesmo ser adotados [art. 1.621 do Código Civil].

 

Direito de ser adotado? Será que não se está falando, aqui, de outro direito, o direito de quem adota, o direito de que fez disposições testamentárias, o direito de quem fez uma doação?

 

Sem dúvida, se alguém tivesse feito uma doação, um testamento, contemplando todos os embriões congelados que gerou, não se poderia destiná-los à pesquisa. Mas o direito não é do embrião, é do doador... O “sujeito” do direito não é o “objeto” da decisão... e quanto ao “direito de ser adotado”, ele só pode existir em oposição à hipótese de “não ser adotado”.

 

Uma sugestão, portanto, para os pais e mães de embriões que, sendo católicos, não querem que eles terminem utilizados em pesquisas: promovam um contrato pelo qual alguém, o ministro Eros Grau por exemplo, seja seu pai adotivo.

 

em tempo: continuo a ler o voto de Eros Grau, e ele em seguida argumenta que "embrião", tal como está na lei da biossegurança, não é a mesma coisa que se entende habitualmente. Na lei, "embrião" não passa de "óvulo fecundado congelado", isto é, sem vida humana. De modo que, segundo esse raciocínio, ele apoiaria a constitucionalidade da lei de biossegurança. Entretanto, ele acha que a lei atinge "o bloco de constitucionalidade" geral, permitindo coisas como manipulação genética e sua conseqüente "reificação da vida". Daí que sugere modificações na lei, sem as quais vota contra.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h48

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Pérolas do jornalismo

Não é muito bonito falar mal da concorrência, mas a chamada de capa do suplemento feminino do "Estado" deste domingo não pode passar sem registro. É a seguinte:

O poder da água

Fonte de saúde e prazer, o líqüido mais nobre da humanidade tem múltiplos benefícios e aplicações.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h49

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A magia do Japão

A magia do Japão

Numa região de fronteira, num país distante, um funcionário de alfândega intrigava-se com as idas e vindas de um comerciante montado num camelo. Todos os dias, o comerciante transportava um grande baú para o país vizinho. O funcionário da alfândega, todos os dias, examinava o baú. Nunca encontrava nada; o baú estava sempre vazio.

 

Os anos se passaram, e o funcionário finalmente se aposentou. Mudou-se para longe. Um dia, encontrou o velho comerciante. “Agora, que já não trabalho mais, e não posso prendê-lo, peço que me conte o que você fazia. Sei que era contrabandista. Mas seu baú estava sempre vazio. Qual o seu truque?” A resposta do comerciante: “eu contrabandeava camelos”.

 

A história é contada por Célio Amito, mágico profissional e bacharel em Física, para explicar o significado dos truques de magia.

 

Ele está com um show no teatro Alfa Real, que funciona tanto para adultos como para crianças com um pouco mais de cinco anos. “Show” não é a palavra certa, porque corresponderia apenas a uma seqüência de números de magia. Célio Amito faz mais do que isso, intercalando os números com belos comentários sobre a filosofia budista.

 

Claro, dizer que a mágica é um mistério, mas que o maior mistério é a vida, pode soar uma banalidade. Outra coisa é confrontar os dois mistérios em cena, fazendo o espectador ver a mágica onde não está, e ver na inexistência de um truque um momento de surpresa e encantamento.

 

Além de mágica e budismo, Célio Amito junta outros dois componentes opostos: a seriedade oriental e uma malícia brasileiríssima no improviso. Ri-se muito do espetáculo, a começar pelo modo extrema respeitoso, quase de monge budista, com que ele interage com os espectadores convidados a subir no palco.

 

“Há duas espécies de espectadores”, diz ele com pausas de mestre zen. “Os que querem ajudar o mágico, e os que querem atrapalhá-lo”.

 

A famosa “impenetrabilidade” do rosto oriental pode ser um estereótipo do Ocidente a respeito de japoneses ou chineses. Mas combina bem com a atividade de um mágico, e se mistura deliciosamente com a “cara de pau” de outro estereótipo, o da malandragem brasileira.

 

Neste link para uma curta reportagem da Globo, você pode ver alguns truques, mas não o perfeito humor e o “timing” desse espetáculo, que tem além disso a beleza teatral de “amarrar as pontas” entre seus truques. Isto é, um número apresentado no começo “reaparece”, “desaparece” e volta triunfalmente nos momentos finais, como se uma carta de baralho fosse, ela própria, uma personagem em cena. É teatro; a mágica do teatro.  

Escrito por Marcelo Coelho às 09h39

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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