Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

O colecionador de sons

O colecionador de sons

O publicitário Tony Schwarz  nasceu em 1923, e morreu na semana passada. Mais importante do que os seus anúncios foi a carreira de “documentarista sonoro” que ele seguiu durante mais de 50 anos. Gravava os sons do cotidiano, e tudo o que viesse.

 

Certa vez, ele gravou o clarinetista de jazz Jimmy Giuffre (que também morreu este ano) improvisando numa espécie de solo com “acompanhamentos” de som ambiente. Primeiro, uma torneira que goteja, depois, os passos de pessoas num grande hall de edifício comercial. Parece inconcebível a poesia, feita de acaso e ritmo preciso, que se cria a partir daí; é como se a música da clarineta fosse a nossa própria consciência, nossos próprios sentidos e percepções, vivendo o mundo à nossa volta; confira aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h05

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No rumo da vitória

Interessante a entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornal "Valor" desta sexta-feira. Transcrevo esta pérola.

Valor- Se a eleição fosse hoje, qual seria a bandeira do PSDB?

FHC- Nós fazemos melhor e com menos corrupção.

É de se prever uma enxurrada de votos.

Bom, pode-se acrescentar que ele não fala "menas corrupção".

Muito boa também a entrevista de Maluf na Folha. A repórter Cátia Seabra merece um prêmio pela melhor mensagem em três letras apenas. Veja o trecho.

Maluf- Minha biografia foi feita pelas obras que fiz. Minha biografia não é a Folha que vai fazer. São meus 41 anos de trabalho. Depois que eu morrer, a Folha vai dizer que sou bonzinho, que vou fazer muita falta. Washington Luís foi prefeito, governador, presidente, foi preso e deportado. Getúlio Vargas, se não tivesse se suicidado, seria preso. Juscelino foi preso, deportado, exilado. Jânio Quadros foi preso 90 dias em Mato Grosso. Quem mais foi preso?

Folha- O sr.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h57

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Cadela de vison

Cadela de vison

Sempre dá para dizer que é tudo ficção, que é tudo teatro. Mas quem assiste “Cadela de Vison”, peça de Renato Borghi com ele mesmo no papel principal, não perde nunca a impressão de que é tudo autobiográfico.

 

Autobiográfico é uma palavra meio chata. Renato Borghi se expõe ao público, como raras vezes um ator terá feito na vida. Ao completar cinquenta anos de carreira, é homenageado com uma exposição de fotos e críticas de jornal no saguão de entrada do teatro Sesc Santana.

 

No palco, há mais fotos dele, muito jovem, com um ar de sedutor latino mais ou menos característico dos retratos de artistas daquele tempo. Nenhum narcisismo, entretanto: as fotos estão dispostas em bancos semicirculares, que lembram o antigo Teatro de Arena. Mas, no meio da escuridão, esses bancos pretos também estão cobertos de flores, como num velório.

 

Surge o fantasma de uma antiga cantora do rádio, por quem o jovem Renato Borghi teria ficado apaixonado antes de se tornar ator de teatro. Foi essa mulher quem o levou a procurar a carreira artística. Mas quem é ela? Aos poucos, numa auto-análise de impressionante coragem, Borghi sugere que essa mulher é ele mesmo; os bancos concêntricos do cenário parecem então evocar um verdadeiro labirinto, onde o amor de um homem por uma mulher pode tornar-se o amor de alguém que, castrando-se, quer ser mulher para ter um relacionamento lésbico com outra, que na verdade não passa de ele mesmo...

 

O aspecto mais cerebral dessa inquirição sobre a própria sexualidade é disfarçado pelo desbocamento total dos personagens, que leva o público a rir com certo espanto. Não se trata daquela exploração da baixaria humorística tão comum no teatro comercial: a fala “escandalosa” é um exorcismo, e mesmo uma recuperação, na linguagem, da masculinidade que o protagonista quer abandonar.

 

Falei em autobiografia, mas um aspecto tira tudo o que a peça tenha de confessional. Quanto mais se expõe, Borghi mais se “descola”, digamos, de si mesmo. Seu modo de andar no palco é muito característico: as pernas, um tanto curtas, sempre lampeiras, se movem como se ele tivesse acabado de fazer alguma travessura. A violência, por vezes, com que se dilacera parece ser sobretudo um ato de liberdade, uma brincadeira; a recuperação impossível do passado, a saudade da juventude, é sem dúvida o foco sentimental mais dolorido da peça; mas Renato Borghi vive aquilo tudo com a alegria de uma criança. Com a pureza também.  

 

Renato e Luciana Borghi

Escrito por Marcelo Coelho às 01h20

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artes do Japão

artes do Japão

Em tese, é um livro para crianças mais velhas ou pré-adolescentes, bastante simples. Mas me ajudou a conhecer um pouco a respeito de artes tradicionais japonesas. Chama-se “Papel e Tinta”, foi escrito por Nereide Schilaro Santa Rosa, com apoio da Aliança Cultural Brasil-Japão.

 

Num bom formato e com muitas ilustrações, o livro fala de várias modalidades de trabalhos com papel e tecido que vão muito além do tradicional origami. Só conhecer o vocabulário desses gêneros artísticos já é um avanço, neste centenário da imigração japonesa. Aqui vão alguns dos capítulos principais. As obras apresentadas no livro são, em sua maioria, de artistas japoneses radicados no Brasil.

 

O Sumi-ê é aquela pintura em preto e branco, que cumpre executar rapidamente, jogando apenas com tons claros, escuros e médios, para criar a ilusão de bambus (símbolo do verão), ameixeiras (outono), crisântemos (inverno), e orquídeas (primavera):

 

 

 

 

O Chigiri-ê é uma colagem de papéis coloridos, finíssimos, superpostos e desfiados, que acabam criando um efeito semelhante ao de aquarela:

 

trabalho de Mary Lou Miller 

 

trabalho de Joan M. Matsui

 

Interessante ver que alguns pintores nipo-brasileiros, como Tadashi Kaminagai, parecem imitar o chigiri-ê no uso da tinta a óleo:

 

"Dia de outono", em exposição no Palácio dos Bandeirantes

 

O Kiri-ê é feito com papel recortado, e às vezes fica parecendo uma xilogravura.

 

trabalho de Allan Avidano: papel recortado.

 

Takô é a arte de fazer papagaios.

 

centopéia, do site de pipamodelismo do engenheiro Ken Yamazato

Escrito por Marcelo Coelho às 19h44

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massacre com sarcasmo

Escrevi o artigo desta quarta-feira, sobre o Diário de Hélène Berr, sem saber do que tinha acontecido com os três jovens assassinados no morro da Mineira, no Rio. Sem dúvida, é exagerado comparar o massacre sistemático de milhões de judeus pelos nazistas e o caso abominável do tenente brasileiro que, desrespeitando ordens superiores, entregou os rapazes a um bando de traficantes para “um corretivo”, na verdade um massacre.

 

Mas, assim como o pai de Hélène Berr foi preso pelos nazistas porque não estava com a estrela amarela costurada no paletó –e sim presa por alfinetes de segurança--, foi também um motivo absolutamente fútil o que originou a barbárie no Rio de Janeiro. Um dos rapazes trazia o celular no bolso; os militares acharam que era uma arma, começaram a revista, e depois de nada encontrar sentiram-se desacatados. Um celular, uma autoridade ensandecida, um indivíduo “do povo inimigo”, é o que basta para desenfrear a violência..

 

Outra coincidência, ou pelo menos, outro ‘eco’ sinistro, surge com a foto publicada hoje na “Folha”, na pág. C-4. Vemos um militar de costas, como uma espécie de Darth Vader, enquanto à sua frente há um grande painel, com os dizeres: “Morro da Providência: No caminho dos direitos humanos”. Foi lá que os militares detiveram os três jovens.

 

Esse tipo de cartaz, talvez sem o humorismo demoníaco dos nazistas, não deixa de me lembrar a inscrição que se punha na entrada do campo de extermínio de Auschwitz, “O trabalho liberta”. Não duvido das boas intenções de quem colocou o painel sobre direitos humanos na favela carioca. Mas convenhamos que a realidade faz com que, diariamente, desse gênero de frases surja como um sarcasmo hediondo.    

Escrito por Marcelo Coelho às 19h14

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censura até nos blogs

Não apenas um juiz decide que entrevistas com candidatos à prefeitura, num jornal, devem ser proibidas. Os blogs também correm esse risco: veja no mapa da censura eleitoral, organizado por Marcelo Soares. Leia mais sobre o assunto no blog "todamídia", de Nelson de Sá.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h12

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planetas de sabão

Usando uma máquina de última geração, o fotógrafo Jason Tozer tira fotos como esta:

É uma bolha de sabão. Mais no site da flickr

Escrito por Marcelo Coelho às 01h17

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A poesia em 1950

A poesia em 1950

Com direção geral de Edla van Steen, a editora Global lançou uma coleção muito bem-cuidada de antologias da poesia brasileira. Cada volume corresponde a um período da nossa história literária (arcadismo, romantismo, parnasianismo etc.).

 

A novidade está nos volumes que sucedem ao modernismo: optou-se por dividi-los em décadas, o que ajuda o leitor a ver as coisas mais de perto, e tira dos organizadores a camisa-de-força das escolhas inevitáveis, “antológicas”.

 

Assim, os anos 30 ficaram a cargo de Ivan Junqueira, os anos 40 com Luciano Rosa, os anos 50 com André Seffrin, e isso até os anos 2000, com poetas escolhidos por Marco Lucchesi.

 

Peguei para ler a antologia dos anos 50. Alguns nomes de peso, como Ferreira Gullar, Hilda Hilst e Mário Faustino acabam sendo, na verdade, raríssimas exceções. Na linha de uns posts mais antigos, a que chamei de “anti-antologia” poética, seleciono alguns traços comuns a vários autores presentes na seleção de André Seffrin, e que podem ilustrar os clichês de uma época. Talvez com isso fiquemos mais conscientes dos nossos.

 

Opala – Os poetas que começaram a publicar nos anos 50 estavam querendo recuperar o prestígio de um vocabulário “poético” que caíra em desuso a partir de 22. Sinal inequívoco de que estamos em 1950 e poucos é o surgimento de uma palavra como “opala”.

 

Uma visão da terra além da opala,

cambiando nesses olhos consumidos.

Em tristeza lunar adormecidos

tantos clarões da aurora de tua fala.

 

(“Cassandra”, de Maria Lúcia Alvim)

 

A labareda ávida a consumir-lhe

estava ali   Em lâmina e opala

a ferrugem e o eco retorcidos

 

(Ao rubro pendão do açoite

erguia-se um búfalo)

 

(“A labareda ávida”, de Max Martins)

 

 

Que amargura turba a tua luz?

Que perigo assedia teu perfume?

Que lâmina de aço ameaça teu espaço

de pétalas e sépalas de rubi e opala?

 

(“Meditação sobre uma rosa”, de Fernando Mendes Vianna)

 

 

O pássaro – Não há presença mais insistente, nestes poemas, que a do pássaro, ou melhor, o Pássaro, com P maiúsculo, que já aparecera num poema de Drummond, mais ou menos da mesma época, em que ele dizia não ter amado bastante o seu semelhante, salvo, talvez, “aquele pássaro –vinha azul e doido—que se esfacelou nas asas do avião.”   Não, o pássaro continuou incólume.

 

Um pássaro pousa no pasto.

Meu relincho o levanta.

 

(“Cantares”, in O centauro e a lua, de José Santiago Naud)

 

Pássaro! A expressão alada inventa o vôo

e sugere a intranqüila imagem: pássaro.

 

(“A forma e o vazio”, de Celina Ferreira)

 

Distingue-se do vento por ter asas

e cores impossíveis para o vento:

Voando pelo ar, vem livre e lento

unir-se à solidão de nossas casas.

 

Mas vento é,como disfarce e vôo,

o bojo de canções arremessado

em plumas pelo céu, equilibrado,

que a vida de ser leve transformou-o.

 

(“O Pássaro”, de Audálio Alves)

  

Paira no abismo o pássaro da crença

e o céu é tão ali que ouso tocá-lo.

Que notícia de aurora se condensa

toda, no canto estrídulo de um galo?

 

(“Canto 4”, de José Chagas)

 

O vôo do pássaro

é seu risco de angústia

no espaço

 

(“Pássaro do sono”, de Sanderson Negreiros)

 

No deserto da noite

modula-se a canção.

Um pássaro que foge

de sombria prisão.

 

(“Soneto em lá menor”, de Cláudio Murilo Leal)

 

Em outro registro, mais experimental, vem Haroldo de Campos:

 

(...) silêncio e som

dispássaros   pássaros  dispersos

                                      onde

 

se traça a bico

de pena esta

canora    partitura

 

(“Birdsong: alba”)

 

A idéia, naturalmente, é identificar a poesia com o canto; ou melhor, o Canto.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h32

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ofertas do México

ofertas do México

Quem estudava ciências humanas há coisa de vinte anos ou mais simplesmente não podia passar sem as traduções do Fundo de Cultura Econômica, editora mexicana que trazia “Economia e Sociedade”, de Max Weber, “Fenomenologia do Espírito”, de Hegel, “Paideia”, de Werner Jaeger, em traduções para o espanhol, muito antes de alguém se dispor a passar tais livros para o português.

 

O título da editora sempre foi inadequado –havia menos economia do que filosofia, história da arte e sociologia nas suas publicações. Contaram-me, uma vez, a razão do mistério. O nome da editora era para ser “Fundo de Cultura Ecumênica”, mas um erro de impressão nos primeiros livros da casa determinou a confusão já no batismo. Se é verdade, não sei.

 

Ponho este post para avisar que nos dias 20 e 21 de junho, na Livraria Azteca, da rua Bartira, ao lado da PUC, vai haver uma feira de ofertas dos livros do FCE, com ofertas até mesmo de R$ 2. Confira no site.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h33

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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