A poesia em 1950
Com direção geral de Edla van Steen, a editora Global lançou uma coleção muito bem-cuidada de antologias da poesia brasileira. Cada volume corresponde a um período da nossa história literária (arcadismo, romantismo, parnasianismo etc.).
A novidade está nos volumes que sucedem ao modernismo: optou-se por dividi-los em décadas, o que ajuda o leitor a ver as coisas mais de perto, e tira dos organizadores a camisa-de-força das escolhas inevitáveis, “antológicas”.
Assim, os anos 30 ficaram a cargo de Ivan Junqueira, os anos 40 com Luciano Rosa, os anos 50 com André Seffrin, e isso até os anos 2000, com poetas escolhidos por Marco Lucchesi.
Peguei para ler a antologia dos anos 50. Alguns nomes de peso, como Ferreira Gullar, Hilda Hilst e Mário Faustino acabam sendo, na verdade, raríssimas exceções. Na linha de uns posts mais antigos, a que chamei de “anti-antologia” poética, seleciono alguns traços comuns a vários autores presentes na seleção de André Seffrin, e que podem ilustrar os clichês de uma época. Talvez com isso fiquemos mais conscientes dos nossos.
Opala – Os poetas que começaram a publicar nos anos 50 estavam querendo recuperar o prestígio de um vocabulário “poético” que caíra em desuso a partir de 22. Sinal inequívoco de que estamos em 1950 e poucos é o surgimento de uma palavra como “opala”.
Uma visão da terra além da opala,
cambiando nesses olhos consumidos.
Em tristeza lunar adormecidos
tantos clarões da aurora de tua fala.
(“Cassandra”, de Maria Lúcia Alvim)
A labareda ávida a consumir-lhe
estava ali Em lâmina e opala
a ferrugem e o eco retorcidos
(Ao rubro pendão do açoite
erguia-se um búfalo)
(“A labareda ávida”, de Max Martins)
Que amargura turba a tua luz?
Que perigo assedia teu perfume?
Que lâmina de aço ameaça teu espaço
de pétalas e sépalas de rubi e opala?
(“Meditação sobre uma rosa”, de Fernando Mendes Vianna)
O pássaro – Não há presença mais insistente, nestes poemas, que a do pássaro, ou melhor, o Pássaro, com P maiúsculo, que já aparecera num poema de Drummond, mais ou menos da mesma época, em que ele dizia não ter amado bastante o seu semelhante, salvo, talvez, “aquele pássaro –vinha azul e doido—que se esfacelou nas asas do avião.” Não, o pássaro continuou incólume.
Um pássaro pousa no pasto.
Meu relincho o levanta.
(“Cantares”, in O centauro e a lua, de José Santiago Naud)
Pássaro! A expressão alada inventa o vôo
e sugere a intranqüila imagem: pássaro.
(“A forma e o vazio”, de Celina Ferreira)
Distingue-se do vento por ter asas
e cores impossíveis para o vento:
Voando pelo ar, vem livre e lento
unir-se à solidão de nossas casas.
Mas vento é,como disfarce e vôo,
o bojo de canções arremessado
em plumas pelo céu, equilibrado,
que a vida de ser leve transformou-o.
(“O Pássaro”, de Audálio Alves)
Paira no abismo o pássaro da crença
e o céu é tão ali que ouso tocá-lo.
Que notícia de aurora se condensa
toda, no canto estrídulo de um galo?
(“Canto 4”, de José Chagas)
O vôo do pássaro
é seu risco de angústia
no espaço
(“Pássaro do sono”, de Sanderson Negreiros)
No deserto da noite
modula-se a canção.
Um pássaro que foge
de sombria prisão.
(“Soneto em lá menor”, de Cláudio Murilo Leal)
Em outro registro, mais experimental, vem Haroldo de Campos:
(...) silêncio e som
dispássaros pássaros dispersos
onde
se traça a bico
de pena esta
canora partitura
(“Birdsong: alba”)
A idéia, naturalmente, é identificar a poesia com o canto; ou melhor, o Canto.