Algumas crônicas publicadas no "Agora" da semana passada.
FACHADA BRANCA
Fama. Dinheiro. Sucesso.
Por vezes, também os pobres alcançam a celebridade.
Pichadores e grafiteiros da periferia já conseguem êxito internacional.
Contratos. Viagens. Exposições.
Odilon sonhava em voz alta.
--Algum dia, eu vou ser convidado para um país europeu.
Ele se encaminhava para o ponto de ônibus.
--Tipo Japão. Tá ligado?
Sua ignorância em geografia era impressionante.
Impressionante, também, o seu talento com latinhas de spray.
Odilon planejava uma mega-grafitagem nos muros deteriorados do Jardim Lotrecchi.
Estava começando o seu trabalho poético quando foi abordado por policiais.
--Não viu? Aqui é a região da Fachada Branca.
Este era o nome de um projeto de recuperação urbana patrocinado pelo governo.
O candidato a vereador Rubinho Pé com Pano tinha verbas federais.
Odilon foi entregue a um grupo de traficantes do bairro.
Sua sepultura é de cimento branco. Mas já picharam.
Antes de chegar ao Japão, muita gente termina no centro da terra.
CHOQUE DE CULTURAS
Samba. Saquê. Futebol. Ikebana.
Cem anos de imigração japonesa.
Duas culturas se encontram.
O fotógrafo Ishiki Furada chegava de Tóquio com muita animação.
Câmeras. Lentes. Tripés.
Seu objetivo: registrar para a imprensa japonesa a realidade brasileira.
E a grandeza de um país sem preconceitos.
O táxi levou-o a uma agitada favela carioca.
O passeio do fotógrafo logo chamou a atenção das autoridades.
O tenente Garreta implicou com o volume de alguns equipamentos na mochila.
--O formato é de escopeta. E tem muito fuzil aí dentro também.
Começou a fazer a vistoria. Ishiki tentava explicar calmamente em japonês.
--Okara, sensakanagi. Waito manoku.
Garreta nada conhecia do idioma nipônico.
--Mas sei o que é desacato à autoridade.
Entregou Ishiki aos cuidados de um traficante local.
O cadáver do fotógrafo será repatriado para o Japão nos próximos dias.
Antigas civilizações, por vezes, podem pouco contra a barbárie.
NOITES DE BUSCAPÉ
Pipoca. Curau. Pé-de-moleque. Junho é mês de festa.
O americano Norton adorava o Brasil.
--Pey-ís meraviulioz.
Ele passeava pelo Rio de Janeiro.
Mas estava interessado na cultura caipira.
--Sáo Juáo. Sént Entóónyu.
Fogos de artifício iluminavam a noite carioca.
--Naquêuly morrínyu lá lóónj.
Norton quis acompanhar de perto o festejo junino.
--O sutááki caipýr eu jah tényu.
Um chapéu de vaqueiro. Camisa xadrez. E a simpatia texana.
--Oi, amíígs. Eu sou amííg de todush ush amíígs.
O traficante Estrelinha não gostou da conversa.
--Amigo dos amigos? Aqui é terra do Terceiro Comando.
Os disparos que atingiram Norton não foram de rojão.
Na UTI, ele prova canjica e curau. Bem devagarinho.
Favelas são como festas juninas.
Não basta querer entrar na quadrilha. É preciso rezar para o santo certo.
TROCA DE ENDEREÇO
Criatividade. Ousadia. Ferveção. É a São Paulo Fashion Week.
No centenário da imigração japonesa, estilistas fazem suas homenagens.
Quimonos. Cerejeiras. Sushis. O estilista Kuko Jimenez brigava com seu assistente.
--Élcio. Onde você guardou as perucas pretas?
Um look de gueixas seria essencial para o desfile.
O humilde serviçal tinha esquecido de providenciar o acessório.
A raiva de Kuko era controlada. Mas intensa.
--Você está precisando de um corretivo, Élcio.
Pelo celular, Kuko chamou um táxi.E deu a ordem para o motorista Vandir.
--Deixa ele na entrada do Parque Sayonara.
Élcio achou estranho. Quis discutir. Sempre tinha morado no Jardim Japão.
Os traficantes do Parque Sayonara receberam Élcio sem simpatia.
Uma peixeira bem nordestina. E a ordem para o haraquiri.
Kuko não lamenta a morte do assistente.
Diz que o mundo da moda é como um exército.
Precisa de disciplina, organização e competência.
--E para alguns brasileiros o único corretivo é a próxima encarnação.
Perucas não são carapuças. Mas fazem falta em muitas cabeças.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h00
Lendas urbanas
http://www.snopes.com/snopes.asp
e outras lorotas de internet são analisadas no site acima. Divertido e com todo tipo de classificação por assunto.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h30
capitalismo do desastre
Começo a ler um livro-sensação para quem é de esquerda, A Doutrina do Choque: A ascensão do capitalismo de desastre, de Naomi Klein. Estou ainda na introdução, mas começo a desconfiar. Será “capitalismo de desastre” um novo rótulo, do tipo “capitalismo tardio”, “pós-modernidade” etc.? Parece ser esta a intenção da autora.
Ela enfoca a mal-disfarçada euforia de investidores e teóricos do liberalismo depois do furacão Katrina ter destruído Nova Orleans. Cita Milton Friedman, que aos 93 anos tinha energia para escrever no Wall Street Journal:
A maior parte das escolas de Nova Orleans está em ruínas, assim como os lares das crianças que estudavam ali. As crianças agora estão espalhadas por todo o país. Isso é uma tragédia. Mas é também uma oportunidade para reformar radicalmente todo o sistema educacional.
Logo privatizaram todo o sistema educacional da cidade. Naomi Klein argumenta que esse tipo de “oportunismo” não é exceção. No Iraque, depois da operação militar do “Choque e Pavor”, veio o choque econômico do liberalismo radical.
Muito bem. Aí Naomi Klein passa a reconhecer essa “coincidência” numa série de acontecimentos dos últimos 35 anos, de modo a caracterizar um padrão que denomina de “capitalismo de desastre”.
Na China, em 1989, foram o choque do massacre da Praça Tiananmen e as prisões subseqüentes de milhares de manifestantes que facilitaram ao Partido Comunista a conversão de amplas partes do país em uma grande zona de exportação, suprida com uma força de trabalho excessivamente aterrorizada para reivindicar os seus direitos.
Não será exagero? Se os manifestantes da Praça Tiananmen tivessem vencido a batalha, é bem provável que a liberalização econômica total viesse ainda com mais rapidez.
Na Rússia, em 1993, foi a decisão de Boris Yeltsin de enviar os tanques para bombardear o Parlamento e prender os líderes da oposição que abriu o caminho para a escalada de privatizações e criou os notórios oligarcas do país.
Sempre pensei que o que tinha iniciado a desestatização russa foram a glasnost e a perestroika... Mas parece que Naomi Klein tem sempre de atribuir uma coisa de que ela não gosta –o liberalismo econômico—a outra coisa de que ela não gosta –algum massacre ou tornado. De novo, falta dialética nessa criticice toda.
O ataque da OTAN a Belgrado em 1999 criou as condições para as privatizações na antiga Iugoslávia –um objetivo que antecedeu a guerra.
O que criou toda a onda de privatizações do Leste Europeu, me parece, foi outra coisa: o colapso do socialismo soviético.
Psicanaliticamente, eu diria que Naomi Klein está apontando para uma série de desastres e bombardeios para não reconhecer que a privatização nasceu de outro desastre, que ela não pode admitir como tal. O desastre, para ela, foi a Queda do Muro...
Mas vamos ver como o livro prossegue.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h09
Reproduzo, para quem tiver paciência de ler textos mais longos em telas de computador, um trecho de palestra que fiz no MIS, no ano do centenário de Theodor Adorno, e que depois foi reelaborada no livro “Civilização e Barbárie”, organizado por Adauto Novaes.
Meu propósito era mostrar o quanto hoje em dia se confunde a crítica de esquerda, baseada na Escola de Frankfurt, com o velho pessimismo conservador de Oswald Spengler. Acho que o próprio Adorno, condenando e elogiando certas idéias de Spengler, foi responsável pelo começo da confusão. Eu mudaria algumas coisas do texto, em especial a menção a “alternativas” que pus no final; é um dos termos que critiquei no artigo de quarta-feira para a Ilustrada.
A atitude de pessimismo cultural protagonizada por Spengler disseminou-se a tal ponto que, hoje, não é correto dizer que as teses de Spengler foram esquecidas. Ao contrário, são lembradas, repetidas, vulgarizadas e aplicadas a qualquer circunstância, mas com um detalhe irônico: são atribuídas a Adorno.
(...) Adorno cita aprovativamente a visão spengleriana a respeito do habitante das metrópoles mundiais:
A imagem do morador das cidades modernas como um segundo nômade merece ser ressaltada. Ela não apenas expressa a angústia e a alienação, mas também a a-historicidade crepuscular de uma situação na qual os homens ainda se sentem como objetos de processos intransparentes, não sendo mais capazes, entre um choque repentino e um brusco esquecimento, de uma experiência contínua. Spengler percebe a conexão entre atomização e tipo humano regressivo, que se revelaria inteiramente apenas com o advento do totalitarismo: “cada uma dessas metrópoles suntuosas abriga uma miséria horrível, um embrutecimento de todos os hábitos de vida, que já está gerando, entre portais e mansardas, sótãos e quintais, um novo homem primitivo.”
Esta regressão torna-se evidente nos “acampamentos” de todos os tipos, que não conhecem mais a noção de “casa.”
O que é verdadeiro como crítica à vida das massas urbanas, e era dolorosamente vívido na experiência do intelectual alemão exilado nos Estados Unidos da década de 1940, traz provavelmente embutido, entretanto, uma idealização da vida aldeã, que em Spengler, como vimos, era explícita, mas que aqui, na citação de Adorno, ainda assim pode ser detectada na frase final. Aquele “não conhece mais a noção de ‘casa’” sem dúvida projeta um passado em que essa noção foi, de algum modo, conhecida. O regime temporal do “não mais”, do “não é mais assim” é recorrente no texto adorniano. Só no trecho citado, vemos que os novos nômades “não são mais capazes (...) de uma experiência contínua”, e “não conhecem mais a noção de casa”. Para um sem-teto urbano, o problema não é bem esse, a meu ver... que tipo de casa eles conheciam?
Por certo, é comum vermos um segundo movimento nas argumentações de Adorno, o qual trata de eliminar qualquer vestígio nostálgico nesse tipo de evocação. Adorno pode lamentar, por exemplo, o decréscimo da liberdade individual no século XX, em comparação com o período de ascensão da burguesia; logo em seguida terá de lembrar que, mesmo então, essa liberdade individual era suspeita[ii]. Que sirva como exemplo dessa reviravolta fraseológica, como que numa contorção súbita daquilo que se ia concluir, o seguinte trecho de Minima Moralia:
O que já foi bom e decente no modo de vida burguês, independência, perseverança, previdência, cautela, está corrompido até o mais íntimo. Pois, ao mesmo tempo em que se conservaram as formas burguesas de existência, seu pressuposto econômico desapareceu. O privado passou totalmente a ser o privativo, coisa que secretamente sempre foi.
Do mesmo ponto de vista, a velha autoridade paterna, antes detestável, torna-se comparativamente amena. Pois, segundo Adorno, o colapso da instituição familiar desfez “não somente a mais eficaz instituição burguesa, mas a resistência, que decerto reprimia o indivíduo, mas também o reforçava, se é que não o produzia pura e simplesmente.” Salta aos olhos o aspecto retorcido, sem dúvida proposital, da seqüência de autocorreções na frase adorniana. Estamos sempre diante da idéia de que o bebê foi jogado fora junto com a água do banho, para lembrar a frase que dá título a outro fragmento de Minima Moralia. Naturalmente, não faz sentido ter nostalgia da água –nem tampouco esperar que algum bebê nasça do ralo... Pois aquilo que a diacronia negou (antigas virtudes burguesas, por exemplo) já era negado sincronicamente no passado (nunca foram virtudes de fato); de modo que o presente vem apenas desvelar, tirar a máscara, daquilo que no passado já se percebia ser mentira.
(...) Adorno reprova em Spengler, não a descrição dos acontecimentos, mas a certeza quase militar com que se decreta como inútil toda tentativa de resistir a eles. Seria de esperar, então, que Adorno propusesse uma interpretação segundo a qual a resistência a esses acontecimentos é possível. A surpresa, para o leitor, decorre da idéia de que essa interpretação pareceria a Adorno otimista demais, conivente com a barbárie instituída. O que resta, então? A esperança numa espécie de inominável, de não-dado.
(...) A saída, para Adorno, está naquilo que foi ignorado por Spengler: “as forças que foram liberadas na queda”. Quais forças? A identificação dessas forças é deixada propositalmente em suspenso, mesmo porque nomeá-las seria , no fundo, dizer que “nem tudo está perdido”, que há alguma confiança em algum processo empiricamente identificável. “O que se opõe ao declínio do Ocidente não é a cultura ressurrecta, mas a utopia contida, em um questionamento sem palavras, na imagem da que sucumbe.”
Torna-se difícil entender qual o ponto “arquimediano” em que a pálida esperança, ainda presente nessa frase, pode coexistir com um diagnóstico tão fechado como o que citamos em seguida, de um ensaio de 1949:
A tenebrosa sociedade unitária não tolera mais sequer aqueles momentos relativamente autônomos e distanciados,, aos quais outrora se referia a teoria da dependência causal entre superestrutura e infra-estrutura. Nessa prisão ao ar livre em que o mundo está se transformando, já nem importa mais o que depende do quê, pois tudo se tornou uno. Todos os fenômenos enrijecem-se em insígnias da dominação absoluta do que existe. (...) Neutralizada e prefabricada, a totalidade da cultura tradicional acaba sendo hoje aniquilada: através de um processo inexorável, a sua herança (...) tornou-se dispensável e supérflua em larga escala, um refugo para o qual os mercadores da cultura de massas podem, então, novamente apontar com um sorriso irônico, já que eles a tratam exatamente dessa forma [como um refugo]. Mesmo a mais extremada consciência do perigo corre o risco de degenerar em conversa fiada. A crítica cultural encontra-se diante do último estágio da dialética entre cultura e barbárie: escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que hoje se tornou impossível escrever poemas.
Diante desse parágrafo célebre, seria o caso de indagar se suas teses não são passíveis das mesmas críticas que Adorno dirigia a Spengler; decretar a inexorabilidade do processo, o enrijecimento de todos os fenômenos, a superfluidade da herança cultural, pode ter um efeito retórico, mas é exatamente aquilo que tornava o pensamento de Spengler incapaz de apontar uma alternativa para a barbárie.

Theodor Adorno

Oswald Spengler
Escrito por Marcelo Coelho às 01h39
Creio que se impõe um esclarecimento sobre o que Reinaldo Azevedo escreveu em seu blog, a respeito do meu artigo de quarta-feira na Ilustrada. Cito um parágrafo de seu comentário:
Noto que, no texto de Coelho, esquerda é chamada de “esquerda”, e direita de “extrema direita católica”. O esquerdismo, mesmo tolinho, parece ser uma condição natural, neutra, não deformada pelo sectarismo — embora precise de renovação, como ele deixa claro na conclusão do artigo. Já o direitismo é “extremo” e necessariamente confessional, com a sugestão óbvia de que se distancia do aparato racional. É inequívoco que Coelho é um esquerdista — o que é um direito seu, embora procure falar, como evidencia o título do artigo, como um “crítico da teoria crítica”. Huuummm. Ele também lembra no artigo que “tanto esquerdistas quanto ultraconservadores sempre foram focos de resistência à mentalidade capitalista liberal.” Notável! Vejam que conservadores têm de ser, necessariamente, “ultra”. Aprende-se, lendo Coelho, que o “capitalismo liberal”, não sendo de esquerda, é certo, também não é de direita. Eis aí, sem dúvida, uma inovação crítica.
Talvez ele tenha exagerado o meu esquerdismo. Porque ao falar de “extrema direita católica” ou de “ultraconservadores” eu estava justamente dando uma colher de chá para a direita. Ou seja, estava dizendo que existe uma direita que não é extrema, nem católica, nem ultraconservadora.
É exatamente a direita que acredita em pesquisas sobre transgênicos e células tronco, por exemplo. Ou a direita que acredita no mercado como meio de dinamização da sociedade, de quebra de tabus sexuais e preconceitos religiosos... Sei que existe, ao contrário do que diz Reinaldo Azevedo a meu respeito, um "capitalismo liberal" que é "de direita" sim. E por isso mesmo não usei o termo “direita” genericamente, fazendo questão de qualificar: extrema direita católica, ultraconservadora...
E ao falar de “esquerda” em geral, em vez de usar termos como “esquerda romântica”, “esquerda ingênua”,”esquerda burra”, fui até severo com a esquerda em geral, identificando-a por inteiro ao objeto de minha crítica. Se qualificasse a esquerda –“esquerda romântica”—eu estaria dizendo que existe uma esquerda que não é romântica. Existe, aliás, mas tenho sentido falta dela –e é isso o que eu apontava no artigo.
Mas Reinaldo Azevedo está tão convicto a respeito das minhas convicções, e tão defensivo quanto às suas, que não acompanhou meu argumento com a mesma atenção com que notou os diversos erros de português que prejudicaram meu post sobre Ruth Cardoso. Já os corrigi, mas sou grato a quem os apontou.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h06
Não pude agradecer um a um, como seria bom, os comentários simpáticos que recebi acerca do post sobre Ruth Cardoso. Devo pedir desculpas pelos erros de concordância do texto, escrito um bocado às pressas. Foram-me apontados, nem sempre com simpatia, mas em todo caso eu os corrigi. Vejo que tenho um resquício de desprezo, talvez, pelas postagens em internet: é como se tudo devesse ser feito rápido, sem maior cuidado de revisão. Fico achando que, se houver algum erro, depois corrijo. Mas o melhor é caprichar um pouco mais.
Apesar do tom suave do comentário sobre Ruth Cardoso, sobraram algumas considerações menos comovidas sobre Fernando Henrique, o que me fez inclusive mudar o post depois de sua publicação. Não gostaria de insistir nos defeitos que sempre vi nele e em sua atuação política, num momento em que a maior solidariedade possível deve dirigir-se a ele. Mas o elogio a Ruth, pelo menos do meu ponto de vista, não podia deixar de ressaltar o que houve de companheirismo e discrição (palavra de que não gosto quando aplicada a primeiras-damas) ao longo de um casamento que, como todos, dá motivos a rusgas e impaciências. Minha própria impaciência com FHC talvez tenha sido projetada no caso...
Mas não adianta continuar, porque nada conserta um texto que, com a elegância de que fui capaz, traduziu os meus sentimentos naquela hora. E sempre servirá de munição a quem não gosta do que escrevo...
Apaguei as mensagens extremamente ofensivas (umas dez, mais ou menos) que recebi. Curioso como em geral acham importante colocar em questão a minha sexualidade. Não sei se é por causa da foto, do que escrevo às vezes (acho Obama bonito, por exemplo), ou se é pelo meu jeitinho mesmo... rs. Mas esse tipo de coisa costuma dizer mais sobre a intimidade de quem escreve do que sobre a minha.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h45
Critiquei o pensamento de esquerda atual por certa falta de “dialética”, no artigo desta quarta-feira para a Ilustrada. É que não adianta apenas ver no mundo contemporâneo o horror e a barbárie de um “hipercapitalismo”, e ficar lamentando a sua existência.
Tampouco as iniciativas para transformá-lo, a partir da idéia de que “um outro mundo é possível”, me parecem suficientes. A rigor, sempre cabe a idéia de que “outro mundo é possível”: pode-se retornar, se quisermos, à Idade da Pedra ou à Idade Média, se acharmos que naquela época a mercantilização do mundo e a ganância empresarial eram menores.
Parece-me que a esquerda marxista tinha, nos seus bons tempos, outro foco de intervenção. Não o de dizer que “outro mundo é possível”, mas sim o de dizer que “este mundo é inviável”.
Ou seja, que as contradições internas do capitalismo tornavam-no insustentável, a partir do aprofundamento das próprias premissas em que se baseava. Isso pode ser ou não verdade, mas era assim que a crítica se pretendia dialética e objetiva, em vez de moralista e romântica.
O que não coloquei no artigo é a outra possibilidade: sim, talvez o capitalismo seja plenamente viável, e não há dialética nenhuma que nos garanta o prognóstico a respeito de sua insustentabilidade.
Se for assim, impõe-se adotar uma perspectiva bem diferente daquela usualmente empregada pela teoria crítica em geral. Trata-se de ver em cada problema específico –as drogas, a violência, o desmatamento, a miséria etc.—não o sintoma de um quadro mais amplo, que deveria ser modificado de cabo a rabo, mas um conjunto de questões distintas (embora interrelacionadas) que necessitam de soluções pontuais, de “esquerda” ou de “direita”, certamente, mas que devem ser analisadas pelo seu valor e eficácia intrínsecas.
Seria de fato um reformismo “técnico”, ainda que naturalmente pendendo para um ou outro tipo de interesse de classe—mas no qual nenhum diagnóstico genérico da sociedade teria muito lugar.
São duas alternativas, portanto (uma radical e dialética, outra reformista e pontual) para o pensamento de esquerda. Hesito entre ambas; mas, com certeza, não me satisfaz o simples moralismo acusatório contra a globalização, o mercantilismo, a pós-modernidade, etc., que tantas vezes toma o lugar da crítica de esquerda hoje em dia.
Enfim, esse é um assunto para se discutir em torno de exemplos concretos... fico por aqui.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h17
Soube com tristeza, pela televisão, da morte de Ruth Cardoso. Ela sempre transmitiu uma grande distinção e serenidade em suas aparições públicas, e quem a conheceu pessoalmente creio que também tinha a mesma impressão.
Os comentaristas acentuam o seu papel na criação do Comunidade Solidária, assunto que nunca acompanhei direito. De qualquer modo, ela foi muito mais do que uma “primeira-dama” (termo que detestava) ao lado do presidente, mas parecia ao mesmo tempo estar constantemente ao lado de Fernando Henrique e no seu espaço próprio, independente.
Para levar este post a um extremo de subjetividade, acho que havia algo muito próprio no olhar de Ruth Cardoso, e no seu tom de voz: ela parecia encarar os entrevistadores, as câmeras, não sei se com bondade, mas certamente com compreensão; não uma compreensão intelectual, ou política, mas compreensão humana mesmo. Atrás dos óculos grandes, os olhos escuros diminuíam um pouco, mas tinham algo de doce, sem ser sedutor: eu sentia certo conforto ao vê-los, mesmo na TV. Tinham, sei que a palavra é estranha, uma grande maciez.
Talvez eu imagine o quanto de compreensão, de perdão mesmo, ela teve de ter com Fernando Henrique ao longo da vida. Mas quantas mulheres não acabam desenvolvendo esse traço de caráter? Acostumam-se, quando não brigam de vez, a encarar o marido como uma espécie de menino crescido, que de vez em quando chega arranhado das brigas de rua, e se entrega fanaticamente à sua coleção de bolinhas de gude...
Mas é claro que, sendo intelectual, professora, e tendo vivido durante o nascimento e o apogeu do feminismo, ela soube viver a própria vida, sem a passividade das antigas esposas de presidentes, de homens de negócios etc.
Foi um fator muito importante para que ela não fosse uma deslumbrada com o poder. Imagino também que sabia, desde moça, que Fernando Henrique haveria de ser presidente (dizem que ele tinha certeza disso já na juventude). Sem deslumbramento nem arrogância, Ruth Cardoso mostrou, sobretudo, que na simplicidade está o segredo da distinção.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h40
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