Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

jornais do mundo

As primeiras páginas de centenas de jornais do mundo podem ser acessadas diariamente neste site, que tem a versão em mapa e a versão em "galeria de imagens". De Ancara a Bauru, de Medellin a Roterdã, de Santiago a Anchorage, eis a imprensa mundial. Curioso como acabam predominando os jornais locais: para cada edição que noticia o surgimento da candidata a vice de Mc Cain, há pelos dez ou vinte falando de crimes, de esportes e problemas da cidade. Veja no link.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h15

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A Flip deles

No site da New York Public Library, há montanhas de debates entre escritores, em vídeo e em audio, para ver, ouvir e aprender. Na série deste ano Robert Hughes fala de Picasso, Samantha Powers de Sérgio Vieira de Melo, Nicholson Baker da Segunda Guerra Mundial, sem contar Salman Rushdie, Luc Sante, Cees Notebohm, etc. etc...

Escrito por Marcelo Coelho às 16h51

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livro proibido

Recebo e-mail da Geração Editorial, fazendo saber a todos os livreiros, e ao público em geral, que está proibida judicialmente a venda de um livro que eles publicam.

 

Trata-se de A Usina da Injustiça, de Ricardo Tiezzi.

 

Fernanda Emediato, da editora, mandou-me um e-mail contando o que aconteceu.

 

O livro foi proibido em razão de decisão judicial em processo movido contra a editora pelo presidente da Cia Siderúrgica Nacional, o empresário Benjamin Steinbruch. Ele pediu a proibição do livro e uma indenização por danos morais, por ter a editora usado uma foto dele na capa do livro.

O assunto do livro foi tema de reportagens de página inteira no Estado de S. Paulo, O Globo e até The New York Times, jornais contra os quais o sr. Benjamin Steinbruch não moveu nenhuma ação.

Ele já ganhou em primeira instância indenização por dano moral no valor de 300 salários mínimos (...), mas a editora está recorrendo. Está recorrendo também dessa decisão de proibir o livro.

 

Não conheço o livro, nem sei se a foto de Benjamin Steinbruch na capa é uma coisa que atinge a sua imagem pessoal.

 

Mas proibir a circulação de um livro não dá. Se tudo o que está escrito ali é errado, calúnia, o que quisermos, pode ser aplicada uma multa pesada ao autor. Delitos de opinião podem perfeitamente ser punidos. A punição pode fazer o sujeito retirar o que disse, pensar melhor da próxima vez em que publicar um texto, escrever outro se desculpando, etc. etc. Mas o que não pode ser punido é o direito à expressão e a liberdade de informação.

 

Suponha que alguém já tenha comprado esse livro. Estaria proibido de emprestá-lo, por exemplo? Ou só vender é que não pode?

Escrito por Marcelo Coelho às 16h36

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Obama fala grosso

Eis então que Obama fez o seu discurso. A primeira impressão que tenho é de uma fala de grande agressividade: é uma oratória de oposição, muito acerba, contra Bush e Mc Cain.

 

Pensava que viria uma fala mais genérica sobre valores e sonhos. Teve disso, em grande quantidade, com o inteligente movimento de deixar só para o final a lembrança de Martin Luther King (cujo discurso “I have a dream” comemora aniversário hoje).

 

Mas é como se cada frase fosse um ataque duríssimo contra a propaganda republicana: as acusações de que ele é uma “celebridade” do tipo Paris Hilton, de que ele “não sabe” governar, que é “menos patriótico” que seu adversário, tudo isso foi rejeitado por Obama com enorme força retórica, com extrema firmeza de voz.

 

Se se trata de “falar grosso”, e ao mesmo tempo com muita elevação, Obama mostrou a que veio.

 

É o principal, sem dúvida, num ambiente em que parece que ser progressista é ser bonzinho, e ser republicano é ser durão. “Somos o partido de Roosevelt e de John Kennedy”, disse Obama; não nos venham dizer que não sabemos defender o nosso país.

 

Valores como solidariedade social e ajuda do governo foram apresentados, digamos, com “macheza”, e não como assistencialismo de coração mole. Povo “choramingas”, teria dito um assessor econômico de Mc Cain; Obama pegou o mote para dizer que não são choramingas as pessoas que enfrentam a perda de seus filhos numa guerra sem sentido.

 

E daí por diante, impiedosamente, se podemos dizer assim, contra a insensibilidade social da direita.  

 

Sem dúvida, o candidato democrata fez promessas, falou de planos –ambiciosos a valer--, mas o principal, o mais eficaz, de sua fala, é transmitir uma idéia de “Basta!”, varrendo toda a tralha bushista, e ao mesmo tempo insistindo –aí vem a virada do seu discurso— na união de todos os americanos. "Podemos discordar sobre aborto e controle de armas, mas concordamos nisto e naquilo..." "Discordo de Mc Cain, mas não questiono o seu patriotismo" (de modo que ele não pode questionar o meu), etc.

 

A quantidade de slogans e palavras memoráveis é muito grande no seu discurso: “mudança, nestes tempos, não vem de Washington, mas vai para Washington”, e outras “punch-lines” que certamente serão registradas nos jornais dos próximos dias. Falta, acho, um nome para o discurso; não fica uma coisa única na memória, como o “I have a dream” de Martin Luther King, dada a quantidade de ataques específicos e pontos que um discurso de candidato tem de ter. Mas se nem com um discurso desses a eleição de Obama ficar certa, é para desistir de uma vez da capacidade dos americanos de melhorar, um pouco que seja, seu papel na história contemporânea.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h23

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a convenção democrata

Escrevo isto enquanto espero, pela CNN, o discurso de Obama na convenção do Partido Democrata. Ontem fiquei grudado na TV: é um belo espetáculo.

No começo, eu tinha medo de entender mal o inglês. Quem já assistiu os programas políticos da CNN sabe do que estou falando: uns quatro ou cinco comentaristas políticos falando a toda velocidade, de modo que tudo vira um terrível milk-shake de shiftmakings rightorwrongissues that wrhrgh uwoor.

 

Mas os discursos dos políticos são muito mais fáceis de entender. O de Clinton, ontem, foi muito elogiado e cheio de dados objetivos sobre os desmazelos do governo Bush, mas confesso que esperava mais em termos de retórica e de emoção.

 

Tudo tem, naturalmente, um forte contingente de artificialidade. O público democrata aplaudia muito Clinton, enquanto ele, sorridente, dizia “Thank you”, “Thank you”, como se fosse para interromper os aplausos e começar o discurso. Mas ficava claro que se tratava de um truque: ele começou a se mostrar apressado  com seus “Thanks yous” antes mesmo que a efusão da platéia parecesse abusiva e longa demais.

 

Mais bonito e lógico me pareceu o discurso de John Kerry: uma voz bem mais possante e grave que a de Clinton pronunciava, com boa retórica, perguntas que alternavam a sabedoria de Obama e os erros de Mc Cain. No fundo, retórica política é a arte da antítese: vocês querem Isto? Ou preferem Aquilo? Ao mesmo tempo, o Isto de Obama e o Aquilo de Mc Cain pareciam embasados em fatos e decisões reais, que ambos tomaram em diversas ocasiões.

 

O espírito geral é mostrar que Obama, embora sem experiência administrativa, decide mais corretamente do que políticos muito experientes, como Mc Cain, que só fizeram endossar os desastres de Bush. Identificar Mc Cain e Bush é a tarefa número 1; mostrar todos, de Hillary a Al Gore, unidos em torno de Obama é o objetivo número 2, mas nem chega a ser uma tarefa: obviamente, que mais os democratas podem fazer?

 

O auge da emoção de ontem foi com o discurso de Beau Biden, filho do candidato a vice de Obama: um tipo de garoto americano à la Kennedy, orgulhando-se das origens (pobres) de seu pai, e do seu espírito de luta (levantar-se depois de levar porrada na rua, esse gênero de coisa). O tom de Joe Biden é um pouco esse: simpático e forte ao evocar os homens do povo, e o sonho americano das oportunidades iguais para todos. Foi especialmente eficaz, a meu ver, sua crítica ao “abuso de poder” que caracteriza a administração Bush. Mas a cara dele me traz alguma desconfiança: há um olhar frio e um sorriso mecânico nesse que, vice de Obama, pode ser uma espécie de Lyndon Johnson se a história, tão kennedyana, do candidato negro acabar mal.

 

 

 

Da noite de ontem, com esses oradores, fica a imagem de um espetáculo político muito mais “entertaining” do que a festa do Oscar. Emoções, valores, críticas, clichês, tudo ganha um senso do teatro e da convicção que dificilmente pode deixar uma platéia, mesmo que sem grande interesse pela política, desinteressada. Com direito a closes da mãe de Biden e do tio-avô (um velhinho branquíssimo) de Obama.

 

Nesta quinta-feira, Al Gore, um pouco antipático e com um discurso muito decorado (quase como se estivesse lendo rapidamente um teleprompter), lembrou a independência de Obama frente aos lobbies de Washington (Beau Biden também insistiu em dizer que o pai sempre voltava para casa, longe da capital, todos os dias). Mas, sobretudo, foi enfático ao falar nos abusos à Constituição americana, e na prática de torturas, que marcaram o governo Bush.

 

Depois, foi a neta do republicano Eisenhower quem falou, “não como republicana, não como democrata, mas como cidadã americana”, em favor de Obama. Quando se vê uma coisa dessas, parece que Mc Cain terá apenas 5% dos votos; que todo o país é democrata. As pesquisas estão longe de mostrar isso, mas só se pode apostar que o ímpeto desta convenção levará Obama a um patamar mais alto, e que os republicanos não são capazes de fazer, na sua convenção, um evento tão esmagador. Mas isso é o que falam os comentaristas e convidados da CNN, que nesta noite, pelo menos, estão mais “galvanizados” do que ninguém; nosso Galvão Bueno, com efeito, não estaria menos despreocupado do que eles em mostrar problemas e “outros lados” num evento de megatorcida como este. 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h00

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vícios de linguagem

Falei de vários vícios de linguagem no artigo de hoje para a “Ilustrada” (link disponível para assinantes do uol).

 

Talvez valesse sistematizar melhor a ligação entre dois tipos de fala que me irritam. De um lado, a tentativa de tornar tudo mais burocrático e impessoal –“padrão de referência em ensino universitário”, por exemplo. De outro, a tentativa de tornar tudo mais íntimo e “afetivo” –“Dona Gilda” (Gilda de Mello e Souza), “Doutor Gilberto” (Gilberto Freyre), etc.

 

O que isso significa? Provavelmente, o fato de que, nos círculos intelectuais tradicionais, mais refinados e uspianos, cai a ficha de que tudo se baseava numa espécie de ensino individualizado, girando em torno de privilégios de formação e de berço.

 

Um intelectual bastante radical em suas idéias políticas, Paulo Arantes, reclamou por escrito numa de suas obras a respeito das “Macabéias” para quem tinha de dar aula na sacrossanta USP. Claro, tudo começou a piorar quando todos saíram da Maria Antônia. Dona Maria Antônia, aliás.

 

Compreensível o desespero. Daí que, numa visão nostálgica, determinados professores passem a ser vistos um pouco como o amigo culto da Tia Cotinha, ou a prima estudiosa do Vovô Joaquinzinho: “dona Gilda”, “doutor Sérgio”. Todos éramos da mesma família.

 

No mundo da “pós-graduação lato sensu”, tudo muda, é claro, para “padrões de excelência”, “referência internacional em gestão de recursos humanos”, etc., sem nome nem sobrenome.

 

Mas um leitor notou pelo menos uma deslizada no meu artigo. Escrevi: “presume-se um tipo de relacionamento que não passa pela idéias...”  Reclamou, com razão, desse “passa”, que hoje aparece em tudo.

 

Outros leitores deram mais sugestões para a “lista negra” das expressões em voga.

 

“Diferenciado”, por exemplo. “Ensino diferenciado em inglês comercial.”

 

“Colocar” em vez de “pôr”.

 

Para quem reclama do uso de “tipo”, no gênero “tipo dez horas”, “um lanche tipo sanduíche”, etc., também deve ser lembrado, na linguagem coloquial, o uso de “essa coisa” (caio muito nesse vício): “essa coisa de cultura”, “essa coisa de eleição americana, sabe...”

 

Mas a lista é interminável, claro, e o risco é que a gente simplesmente entre em paranóia. Melhor não exagerar.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h35

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Iluminismo vulgar

Iluminismo vulgar

A editora Martins Fontes, que já vinha realizando há tempos o projeto de uma grande edição das obras de Voltaire, inaugura uma nova coleção de filosofia, intitulada “Tópicos”. Recebo dois volumes: A Filosofia do Direito, de Michel Troper, e Filosofia Clandestina—cinco tratados franceses do século XVIII, com seleção, apresentação e tradução de Regina Schöpke e Mauro Baladi.

 

Neste último livro, há um curto trabalho de Voltaire, intitulado “Das conspirações contra os povos, ou Das proscrições”. Na verdade (o termo não era corrente na época), trata-se de uma curta história dos genocídios. Menção especial é feita à morte de 12 milhões de índios na Conquista espanhola, mas exemplos da história bíblica (com as habituais acusações voltairianas aos judeus) e dos crimes cometidos pela região católica não faltam aqui.

 

É um texto do século XVIII, com certo otimismo característico, e mais espírito de vivacidade do que profundidade “sociológica” para entender as causas daquilo que condena.

 

Os marxistas passaram décadas lutando contra as distorções e simplificações do “marxismo vulgar”. Meu medo é que esteja entrando em moda uma espécie de “iluminismo vulgar”, totalmente fora de sintonia com o século 21. Não me refiro ao ateísmo militante de Dawkins, embora o tom panfletário de seu livro seja, sem dúvida, um defeito.

 

Exemplo impressionante desse “iluminismo vulgar” está na apresentação de Filosofia Clandestina. Regina Schöpke é doutora em filosofia e medievalista, diz a orelha do livro. Mauro Baladi é jornalista e graduado em filosofia. Leia-se um trecho do que escreveram.

 

Os dez séculos que se seguiram às invasões bárbaras e à queda de Roma expressam bem a escuridão em que foram mergulhados os homens dessa época.

         É bem verdade que muitos estudiosos consideram tal afirmação exagerada, dadas a beleza e a riqueza de muitas das produções medievais. Mas, ainda que se possa falar de uma arte sacra ou de uma filosofia cristã, ou seja, ainda que se possa alegar que a produção artístico-intelectual não foi interrompida nesse período, não é possível dizer que exista verdadeiramente arte ou pensamento onde não há liberdade de crítica e de expressão.

 

Teríamos, então, de esquecer a arte de Dante, de Chaucer e Rabelais. E eu gostaria de saber se, em lugares absolutamente sem liberdade de expressão, como a Espanha da Contra-Reforma, o que fizeram El Greco, Velázquez e Cervantes, se não foi arte e pensamento.   

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h06

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viagem à Brasilândia

Os netos do zelador são amigos dos meus filhos, e neste domingo passaram o dia em casa. Por um imprevisto, seus pais não puderam buscá-los, e lá fui eu, com os dois meninos, até a Vila Brasilândia, deixá-los em casa.

 

Sem trânsito, e descontados os meus erros de trajeto, não demorou tanto assim.

 

Alguns trechos eram mal-iluminados, mas no geral não se tinha a sensação de estar “fora de São Paulo”. Eram avenidas intermináveis, asfaltadas e com os faróis no lugar certo. Aí eu tive de entrar numa ruinha, avançando pelo morro; tudo asfaltado ainda, mas as casas, de dois ou três andares, pareciam debruçar-se sobre o asfalto, numa quase completa ausência de calçadas.

 

O que mais espantava, naquele lugar, às 8 da noite, era o clima de festa. O som altíssimo de vários barzinhos competia com o das igrejas evangélicas, das crianças, das motos e das TVs.

 

Havia mais gente passeando na rua do que em qualquer região dos Jardins; fora um ou outro carro que passava em máxima velocidade, não se sentia a menor sombra de medo. Mais adiante, a rua se alargava um pouco, e um carro de som servia para animar uma festa de rua. Moças altíssimas e magrelas tomavam coca-cola; todos pareciam esbanjar saúde, esperando apenas que um técnico de vôlei ou um caçador de modelos passasse por ali.

 

Dizem que uma coisa impressionante em Cuba é o jeito festeiro do povo. Talvez aqui seja igual; mas nos lugares por onde passamos não há povo. Imagino, claro, que a barra pese em outras horas da noite. E, claro, a Vila Brasilândia tem muitos morros, sub-regiões, “Vilas” e “Jardins” que desconheço. Mas a impressão que tive dessa rápida passagem pela povolândia foi de muita vitalidade, sem ninguém acuado, nem esmagado pela pobreza que, no tipo das casas, dos carros e das roupas, evidentemente se podia constatar.

 

Na saída, peguei outra avenida gigantesca e deserta, com algum tipo de córrego canalizado separando as duas mãos do tráfego. Tudo vazio, desabitado, exceto por dois cavalos brancos, que fantasmagoricamente pareciam esperar a hora de atravessar a rua.

 

O deus da Guerra, Marte, tinha dois cavalos em sua biga: Fobos e Deimos, “Medo” e “Pânico”. Naquela avenida periférica, pareciam desatrelados, sem muito o que fazer.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h21

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Justiça e Anistia

Pode ser arriscado rever a Lei da Anistia, mas de uma coisa tenho certeza: se eu tivesse sido torturado, não perdoaria ninguém. E que dizer de quem teve os filhos, os irmãos, os pais assassinados dentro de uma cela, nas mãos dos carrascos do regime?

 

A menos que, envolvido em ações terroristas, eu agora me arrependesse de algum crime, acho que não descansaria antes de ver os torturadores pagarem pelo que fizeram.

 

Esta seria minha atitude pessoal, que tem pouco a ver com as imposições da realidade política, ou com a lógica dos custos e dos riscos de minha vingança. Falo “vingança” mesmo; a palavra não me atemoriza.

 

Posso, portanto, compreender perfeitamente que do ponto de vista político, da estabilidade institucional, etc., não se deva atiçar irresponsavelmente as reações de grupos militares. Do ponto de vista jurídico, Tércio Sampaio Ferraz Jr. escreveu na “Folha” um artigo esclarecedor sobre o que significou a anistia, e aponta, sem ser nenhum defensor dos militares, o equívoco que há nas intenções de punir os torturadores agora.

 

Fora do âmbito da lei e da política, estariam entretanto os meus sentimentos –de indignação, de nojo e de rancor. São os que movem alguém disposto a fazer justiça com as próprias mãos, correndo assim o risco de ser preso e julgado por suas atitudes. Imagino-me, a despeito de toda minha prudência e espírito conciliador, enfrentando esse risco, disposto a pagar com nova prisão pelo meus atos de vingança. Por sorte, não estou nessa situação, e meu horror aos torturadores se aplaca em mero desprezo.

 

Mas é só ver a cara daqueles homens, reunidos no Clube Militar, berrando contra o “revanchismo”, para sentir o sangue ferver nas veias. Escrevo isto depois de ler um editorial de Albert Camus, escrito no seu jornal “Combat” em agosto de 1944. Aqui vai o que ele diz sobre a tortura.

 

Trinta e quatro franceses torturados, depois assassinados em Vincennes, eis algumas palavras que não dizem nada se a imaginação não as complementa. E o que vê a imaginação? Dois homens face a face, dos quais um se empenha em arrancar as unhas do outro que o encara.

 

Não é a primeira vez que estas imagens insuportáveis nos são apresentadas. Em 1933, começou uma época que um dos maiores dentre nós chamou justamente de tempo do desprezo. E durante dez anos, a cada notícia de que seres humanos nus e desarmados tinham sido pacientemente mutilados por homens cujo rosto é feito como o nosso, sentíamos vertigem e nos perguntávamos como isso era possível.

 

Mas era possível. Durante dez anos, foi possível e agora, como para nos avisar que a vitória das armas não triunfa sobre tudo, eis ainda camaradas com as vísceras arrancadas, os membros estraçalhados, e os olhos que ficaram cegos a golpes de coturno. E os que fizeram tudo isso sabiam dar lugar aos mais velhos no metrô, do mesmo modo que Himmler, que fez da tortura uma ciência e um ofício, voltava para casa de noite pela porta dos fundos, para não despertar seu canário favorito.

 

  Sim, isso era possível, sabíamos até bem demais. Mas tantas coisas são possíveis; por que escolher fazer essa e não outra qualquer? É que se tratava de matar o espírito e humilhar as almas. Quando se acredita na força, conhece-se bem o inimigo. Mil fuzis apontados não impedirão um homem de acreditar em si mesmo ou na justiça de uma causa. E, se ele morrer, outros justos dirão “não” até que a força se canse. Matar o justo não é portanto suficiente; é preciso matar seu espírito para que o exemplo de um justo renunciando à sua própria dignidade desencoraje todos os justos juntos e a própria justiça.

 

Nos últimos dez anos, um povo aplicou-se a essa destruição das almas. Estava suficientemente seguro de sua força para acreditar que a alma passara a ser seu único obstáculo e que era preciso ocupar-se dela. Ocuparam-se, e para sua desgraça tiveram êxito algumas vezes. Sabiam que existe sempre uma hora do dia ou da noite em que o mais corajoso dos homens se sente covarde.

 

Souberam sempre esperar essa hora. Nessa hora, procuraram a alma através das feridas do corpo, tornaram-na desorientada e louca, e, por vezes, mentirosa e traidora.

 

Quem ousaria falar aqui de perdão? Uma vez que o espírito compreendeu finalmente que só poderia vencer a espada pela espada, uma vez que ele tomou das armas e conseguiu a vitória, quem desejaria pedir-lhe que esqueça? Não é o ódio que tomará a palavra amanhã, é a própria justiça, fundada na memória. E trata-se da justiça mais eterna e sagrada: não a de perdoar em nome de todos aqueles dentre nós que morreram sem falar, com a paz superior de um coração que não traiu jamais, mas sim a de golpear terrivelmente em nome dos mais corajosos dentre nós que foram levados a se tornar covardes na medida em que lhes foi degradada a alma, e que morreram desesperados, encerrando num coração devastado para sempre o seu ódio aos outros e o desprezo por si mesmos.

 

Eis a fala de um jornalista que se engajou na resistência ao nazismo, e que vivia no momento em que os nazistas eram derrotados militarmente pelos Aliados.

 

A diferença, no Brasil, é que “a espada” não foi vencida “pela espada”; a democracia nasceu de um compromisso político, o que custou menos sangue, mas teve o preço de incutir nos diferentes participantes do processo um pouco do “desprezo por si mesmos” de que fala Camus.

 

Como superá-lo, entretanto, através de um mero processo jurídico, desenvolvido em meio a polêmicas, sem dúvida, mas em relativa segurança? Como querer justiça depois de tantos anos em que todos se “conformaram” politicamente com a “solução” apresentada?

 

Fosse eu uma vítima direta da tortura, meu desejo de vingança estaria intacto, como eu disse; mas talvez eu considerasse oportunista uma tranquila revisão judicial do caso. E, se me faltassem ânimo, meios ou determinação para me colocar fora da Lei, ocorre-me agora uma solução mais pacífica e civilizada.

 

Poderia ajudar, com todas as forças, na denúncia e na perseguição de todos aqueles que, em plena democracia, continuam a torturar seus semelhantes nas delegacias e prisões do Brasil. Há muita justiça a ser feita, e muito horror a ser evitado, agora mesmo.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h51

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voltaire olímpico

As crônicas de Voltaire de Souza para o jornal "Agora" tiveram como tema, em sua maioria, os Jogos de Pequim. Leia algumas.

 ISSO É QUE É PREFEITURA

 

 

Promessas. Programas. Candidatos.

Começa o horário eleitoral. Caio afundou-se no sofá.

Da sacada de seu apartamento, o rapaz via as luzes da cidade.

--Olha lá aquele morro... favela pura.

Mais perto do prédio, buzinas. Xingamentos.

--Trânsito desgraçado... e os políticos só roubando.

O pessimismo crescia em sua alma.

A vontade de mais uma cerveja se impunha ao jovem eleitor.

Falações decoradas. Sorrisos plastificados. Imagens computadorizadas.

Caio sentiu sono. Mas logo em seguida um programa chamou sua atenção.

--Nossa. Esse CEU é fantástico.

Ginásios. Piscinas. Quadras de esporte.

--Maravilha. Não sabia que a prefeitura tinha feito isso...

Ciclovias. Polícia. Organização. Jovens saudáveis. Crianças felizes.

--Vou votar nesse candidato.

Mas não era mais programa eleitoral. Era o boletim das Olimpíadas de Pequim.

Caio desligou a TV. E já alugou um monte de DVDs para as próximas semanas.

Na corrida eleitoral, quem leva o ouro não deve ser candidato.

 

 

 

ÁGUAS PROFUNDAS

 

Esforço. Treinamento. Limites.

O mundo olímpico tem grandes crueldades.

Por vezes, um atleta capacitado se esborracha.

Tiago era um brasileiro com muita vontade de vencer.

Câmeras. Locutores. Jornalistas.

--Como você se sente, Tiago, aqui na final em Pequim?

O jovem nadador gaguejava.

--O...oo... impp... importante é comp... comp...

O locutor completava com voz triunfal.

--É trazeeer o ourooo para o Brasiiiiilll!!

Silêncio no estádio olímpico.

Tiago ajustou os óculos de natação. Preparou-se para o mergulho.

As águas verdes da piscina moviam-se num balanço preguiçoso.

Imagens nacionais e místicas surgiram aos olhos do nadador.

Iemanjá sorria para o rapaz. O fantasma de Dorival Caymmi apareceu.

--É doce morrer no maaar...

Um tropeção. Um engasgo emocionado. Tiago ficou em último.

É doce morrer no mar. Mas é muito chato morrer na praia.

  

 

NOVAS REGRAS

 

Abusos. Violências. Xeretagens.

Para muitas pessoas, a ação da Polícia Federal precisa de mais controle.

Luiz Wagner era investigador da PF.

--Sem algemas... como é que pode ser?

Ele estava revoltado.

--Tudo quanto é safado vai rir de mim.

Era um sábado de manhã.

Luiz Wagner tentava se acostumar com a notícia.

--Daqui a pouco vão querer que eu ande desarmado.

O rapaz guardou as algemas com estrépito numa gavetinha do closet.

A namorada dele se chamava Janine.

--Ai meu bem... não faz tanto barulho que eu quero dormir.

--Não vê que estou falando coisa séria, Janine?

--Você nunca vai andar desarmado, Luiz Wagner. Sossega.

Luiz Wagner não sossegou. Tirou as algemas da gaveta.

Os pulsos de Janine deixaram-se suavemente prender pelas argolas metálicas.

--E agora vamos verificar o calibre da escopeta.

Regras, leis e normas podem mudar. Mas a safadeza humana sempre dá um jeito.

 

  

OURO DE PEQUIM

 

 

Esportes. Desafios. Limites.

Herbert era vidrado em Olimpíadas.

O maior espetáculo da Terra exige um televisor de alta qualidade.

O sonho de consumo do rapaz era um só.

--Plasma. Quarenta polegadas. Alta definição.

A conta no banco não favorecia esses vôos do desejo.

--Recorde negativo.

Para Herbert, a solução era o contrabando. A ilegalidade.

No Pei-Chin Shopping os preços eram inacreditavelmente baratos.

O comerciante Sen Fish Kao tinha ofertas irrecusáveis.

--Home Theatli. Tlezentos dóla.

O embrulho já estava nas mãos de Herbert quando veio a blitz.

A Polícia Federal entrava em cena com a Operação Ouro de Pequim.

Herbert lembrou-se do espírito olímpico. Ousadia. Rapidez.

Saiu correndo pela porta de emergência. O delegado Mattoso foi o obstáculo.

Graças a um diploma universitário, Herbert foi para uma prisão especial.

Assiste as Olimpíadas de graça. Na TV de plasma de um banqueiro que anda por lá.

Prisões são como esportes olímpicos. Têm categoria ouro, prata e bronze.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h54

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por falar em MPB

por falar em MPB

http://www.arthurnestrovski.com/

Arrisquei um artigo sobre Caymmi (ver abaixo), mas com certeza música popular brasileira não é a minha praia. Sou muito aferrado à música clássica, e muitas coisas de MPB me deixam indiferente. A culpa é totalmente minha, porque como amigo do Arthur Nestrovski, não me falta um mestre que me oriente nesse campo. Quem assistiu a suas aulas-show, em parceria com outro intelectual/músico de primeiro time, José Miguel Wisnik, sabe de que modo ele consegue reunir musicalidade, informação e comentário refinado sem sombra de pedantismo, usando de uma jovialidade que só se encontra nas pessoas que gostam muitíssimo do que fazem. Arthur Nestrovski possui, sobretudo, o senso exato do que é apropriado para o momento e para o contexto –-uma das qualidades fundamentais, sem dúvida, dos intérpretes verdadeiramente bons. Ele agora está inaugurando um site, com vídeos de algumas de suas apresentações, além de notícias sobre suas atividades de editor, compositor e crítico. Vale visitar.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h50

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Caymmi, o mar, il mare

Ainda sobre Dorival Caymmi, sobre quem escrevi no artigo desta quarta (assinantes do uol podem ler aqui ), vale citar o lindo poema de Giacomo Leopardi, “O Infinito”, onde o tema do “é doce morrer no mar” encontra uma versão um pouco mais “metafísica”:

 

Sempre cara me foi esta colina erma

e esta sebe, que de extensa parte

dos confins do horizonte o olhar me oculta.

Mas, se me sento a olhar –intermináveis

espaços para além, e sobre-humanos

silêncios e quietudes profundíssimas,

na mente vou sonhando –e de tal forma

que quase o coração me aflige. E, ouvindo

o vento sussurrar por entre as plantas,

o silêncio infinito à sua voz

comparo: é quando me visita o eterno

e as estações já mortas e a presente

e viva com seus cantos. Assim, nessa

imensidão se afoga o pensamento

e doce é naufragar-me nesses mares.

 

Esta que acabo de transcrever é a tradução de Ivo Barroso (O Torso e o Gato, ed. Record). Alvaro A. Antunes, para a editora Interior, de Além Paraíba, Minas Gerais, fez assim:

 

Sempre amei este morro tão deserto

E esta sebe que por todo lado

Do último horizonte o olhar me veda.

Mas sentando e mirando, intermináveis

Ares lá além daquela, e sobre-humanos

Silêncios, profundíssima quietude,

Eu no pensar me finjo; onde por pouco

Meu peito não se assusta. E como o vento

Entre estas plantas ouço arfar, aquele

Infinito silêncio a esta fala

Vou comparando: e me revém o eterno,

E estações que morreram, e a presente

E viva, e o seu rumor. E assim eu nesta

Imensidade afogo o pensamento:

E neste mar é doce o meu naufrágio.

 

Alvaro Antunes põe uma nota de rodapé, explicando o “finjo” do sétimo verso: significa “imagino”. Seria bom lembrar que “estações”, aqui, parece significar mais “eras”, “idades”, do que estações do ano; pelo menos é o que diz uma edição italiana dos “Cantos” de Leopardi, explicando a palavra “stagioni”. Aqui vai o original italiano:

 

Sempre caro mi fu questo ermo colle

e queste siepe, che da tanta parte

dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.

Ma sedendo e mirando, interminati

spazi di là da quella, e sovrumani

silenzi, e profondissime quiete

io nel pensier mi fingo; ove per poco

il cor non si spaura. E come il vento

odo stormir fra queste piante, io quello

infinito silenzio a questa voce

vo comparando; e mi sovvien l’ eterno

e le morte stagioni e la presente

e viva, e il suon di lei. Così tra questa

immensità s’annega il pensier mio;

e il naufragar m’ é dolce in questo mare.

 

E declamado por Carmelo Bene no youtube.

 

Sem dúvida, a beleza deste último verso não se reproduz muito bem nas duas traduções brasileiras que citei acima:

 

“E neste mar é doce o meu naufrágio” (Alvaro Antunes)

 

 e doce é naufragar-me nesses mares”

 

(Ivo Barroso, pior com esse hiato do doCE É, com o plural que não se justifica, e com o “nesses” em vez de “neste”, que esconde o fato de o mar do poeta ser o interior, de seu próprio pensamento negando-se no infinito).

Ficaria melhor invertendo o verso de Alvaro Antunes:

 

“É doce o meu naufrágio neste mar”.

 

Pois, sem dúvida, a chave do poema está em terminar com a palavra certa; só assim temos essa sensação de calma e aniquilamento que sucede a todo o esquema ansioso dos versos anteriores, onde vírgulas, conjunções repetidas, “enjambements” e voltas no vocabulário justamente trazem a impressão de alguém respirando com dificuldade:

 

... e mi sovvien l’eterno []

e le morte stagione [] e la presente []

e viva, []  e il suon di lei

 

Poderíamos também homenagear Caymmi, num gosto mais concretista de misturar épocas e fazer citações, traduzindo assim:

 

È doce, para mim, morrer no mar.

 

Perde-se o “neste”, mas vale a lembrança de que, também para Caymmi, segundo os críticos que citei no artigo, está presente sempre essa anulação da individualidade, que faz suas canções parecerem não ter sido feitas por pessoa humana.

 

A colina de Giacomo Leopardi, perto de Recanati.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h26

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Vaughan Williams

Vaughan Williams

Há cinqüenta anos morria um dos mais importantes compositores ingleses modernos, sir Ralph Vaughan Williams.

 

Esse era dos tais que, até não muito tempo, me faziam desligar a rádio Cultura assim que seu nome era anunciado. Não que, como tantos compositores do século 20, fosse dissonante e barulhento: para mim, Vaughan Williams era a combinação inconcebível do máximo tédio com profunda vulgaridade.

 

Acho que já disse minha atual inclinação pela música chata, isto é, nebulosa, ambígua, parada. Atualmente estou gostando de muitas coisas de Vaughan Williams, e talvez o meu “percurso” (outra palavra besta) rumo a esse autor possa servir como experiência, ensinamento e ilustração.

 

O problema é que todo mundo conhece Vaughan Williams através de duas composições muito xaroposas: a “Fantasia sobre Greensleeves”, cujo tema é naturalmente bonito o suficiente para ninguém prestar atenção no resto, e uma peça de cerca de 15 minutos para violino e orquestra, “The Lark Ascending” (a cotovia alçando vôo), que em geral serve para preencher o espaço faltante nos discos. Com essas duas obras, está mais ou menos encerrada a vida de VW fora da Inglaterra, e suficientemente celebrada a sua presença naquele país.

 

Há mais de trinta anos, seduzido pela capa do disco, comprei sua sinfonia no. 1 (ele tem nove, como tantos outros), intitulada “A Sea Symphony”. O maestro era André Previn, e o coro jubilava desde os primeiros compassos, em fortíssimo, um poema de Walt Whitman, com efeitos mais próximos da literatura de Emilio Salgari e outros romances baratos de pirataria do que dos vastos horizontes acinzentados do Atlântico Norte. Foi um caso de desamor à primeira audição: nunca mais ouvi o disco de novo.

 

Um melhor caminho para chegar a Vaughan Williams começaria, a meu ver, numa linda canção chamada “Linden Lea” (primeira peça do compositor a ser publicada, baseada no folclore que ele pesquisou a vida toda), que na voz batatosa de alguma grande cantora inglesa, como Janet Baker, para não falar de um tenor como Ian Bostridge ou do barítono Geoffrey Parsons, é um milagre de espontaneidade, refinamento e contenção.

 

“Silent Noon”, canção que faz parte de um ciclo baseado em poemas de Dante Gabriel Rossetti, é inesquecível: “Your hands lie open in the long fresh grass...”

 

Grama, pasto e verdura úmida são, aliás, a especialidade de Vaughan Williams, e com isso vamos à sua sinfonia no. 3, a “Pastoral”, que se move entre harmonias chuvosas, com todos os tons possíveis de verde pardacento, e férteis combinações de instrumentos.

 

É preciso entrar no espírito da música, como quem acompanha um complexo e vagaroso movimento meteorológico. Mas é lindissima, cheia de melodias curtas aparentemente folclóricas e tristes, que ganham acompanhamentos muito maciços de acordes; uma característica da música de Vaughan Williams é combinar não apenas várias melodias ao mesmo tempo, em contraponto, mas combinar vários blocos de acompanhamentos um contra o outro, numa espécie de contraponto em “volumes”, não mais em “linhas” musicais. É como se, em vez de um fio de linha trançado com outro, tivéssemos várias tranças, ou cordas, sobrepostas simultaneamente. O efeito é congestionado, como se vários transatlânticos manobrassem no mesmo cais; mas também podemos pensar em várias camadas de nuvens deixando, aqui e ali, passar um raio de sol.

 

A “Sinfonia Pastoral” de Vaughan Williams não é tão bucólica quanto parece; foi composta na lembrança não dos campos ingleses, mas das planícies enlameadas da França e da Bélgica, durante a I Guerra Mundial, de que o compositor participou no serviço de ambulâncias. 

  

É possível em seguida experimentar outras sinfonias suas, como a violenta e dissonante no. 4, que talvez seja a mais fácil de comparar com a obra de outros compositores modernos. O resto ainda estou descobrindo.

 

O melhor site para conhecer o autor é o da Vaughan Williams Society, onde há curtos exemplos das suas obras; “Linden Lea”, infelizmente, está num arranjo coral que “hiperfolcloriza” a composição.  

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h07

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Realidades fugazes

Realidades fugazes

Gosto de fotografias nos extremos: aquelas que têm um foco que dói de tão preciso, e as que parecem "molhadas" de indistinção. A fotógrafa argentina Inés Ramseyer Dayer está com uma mostra no Instituto Cultural Cervantes (av. Paulista, 2439) que joga com essa "irreconhecibilidade" do líqüido e da luz.

Em outra mostra, aí de pinturas, esculturas e fotos, no MAC do Ibirapuera, o tema da natureza (e sua desfiguração) provoca nas lentes de Chris Meirelles um efeito parecido; aqui, é a velocidade que dilui os contornos, fazendo com que linhas de luz se transformem apenas em cor; mas é uma cor realista, muito interiorana, que ela revela nesta paisagem de Campos. 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h37

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Medalha de ouro em ginástica mental

Repasso (e agradeço) esta indicação do excelente blog catatau , que descobre esta proeza de entrevista no site terra.

 Autor de um livro sobre economia chinesa, professor na UFSC, e doutorando pela USP, Elias Jabbour bate um recorde olímpico de ginástica mental para provar que na China o Proletariado continua a ser Timoneiro da Revolução.

 Se diz que na China o poder está nas mãos dos trabalhadores, mas há milhares de empresários, capitalistas, filiados ao Partido Comunista. A filiação de empresários é algo já institucionalizado no partido. O que garante que os empresários, sob essa ótica marxista, não vão assumir a hegemonia do partido e reverter essa situação? Não é contraditório?

A contradição é em termos, vamos dizer assim. O Partido Comunista da China expressa os interesses de toda a nação, e os capitalistas são parte dessa nação. A questão é a seguinte: os capitalistas têm poder ou não na China? Não tem poder, porque hoje eles são 0,003% do partido. Esse é um dado, e tem o outro lado da questão: esses empresários são resultado de que tipo de política e de qual tipo de partido? São resultado do Partido Comunista e tem de estar de acordo com esse partido. Não existe, no plano imediato - não vou falar do futuro porque não sou profeta (risos) -, a menor tendência de reversão de quadro, dos capitalistas terem poder. Esse partido tem condições de manter os capitalistas e o povo satisfeitos. De certa forma, os interesses deles são os mesmos, porque os capitalistas têm capacidade de empreendimento, que gera emprego, etc. Foi uma sacada política genial ter colocado os capitalistas debaixo desse guarda-chuva do Partido Comunista.

Talvez um comunista ortodoxo devesse criticar, nesse texto, a idéia de que “os capitalistas têm capacidade de empreendimento, de gerar emprego”, porque esse tipo de linguagem é mais típico dos exploradores do Povo do que dos legítimos herdeiros de Mao. Contudo, a realidade é dialética, como sabemos. Tanto que “povo e capitalistas” podem ficar satisfeitos ao mesmo tempo.

O marxismo do professor Jabbour, ou do PC chinês, provavelmente conseguiu abolir a luta de classes. Por que, afinal, os capitalistas chineses haveriam de querer o poder? Mesmo sem ele, estão satisfeitos.

Logo chegaremos lá. Os empresários brasileiros detêm,digamos, uns 20% ou 30%  dos postos no Congresso Nacional. Banqueiros, deve haver uns quatro ou cinco entre deputados e senadores. São minoria. Logo, não têm poder. Por definição, o poder é da maioria... Longa vida ao socialismo, portanto.

Quem não vê nada disso é porque está com o horizonte um pouco obstruído pelo excesso de poluição em Pequim.

Tudo explicado. (trabalho em fotoshop de Wang Qing Song)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h02

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Voltaire de Souza

Algumas crônicas recentes do jornal "Agora".

MUITA QUILOMETRAGEM

 

Tempo de Olimpíadas. Roberto se interessava bastante.

--Pelas mulheres. O resto que se dane.

Jogadoras de vôlei. Nadadoras. Judocas.

--Em qualquer esporte, sempre tem uma que vale a pena.

Um vento fraco nos altos da Paulista acompanhava o cair da noite.

--Hora do nosso plantão olímpico...

A televisão mostrava um retrospecto do maior evento esportivo mundial.

--Maratona feminina. Vamos nessa.

As atletas eram excessivamente magras e angulosas.

--Hum... mas tem uma loirinha ali... vale a pena acompanhar.

A loirinha deu vontade de cerveja gelada. Roberto seguia a íntegra da corrida.

--Será que é alemã? Não. Sueca.

O sono de Roberto. O cansaço da sueca. Muita quilometragem.

O corpo e o rosto da maratonista começaram a sofrer sutil transformação.

Algumas rugas. Depois, pelancas. Uma mulher maquiada e de peruca terminou a última volta. Salto alto. Andar rebolado. Jóias no pescoço completavam a visão.

--Desliga essa joça, Roberto. Que eu sou a Dercy Gonçalves.

O rapaz acordou assustado. E promete torcer só pelo vôlei feminino.

Nossos sonhos são como maratonas. É preciso saber desistir na hora certa.

 

 

 

FRUTAS MADURAS

 

A televisão apela para a natureza.

Mulher-melancia. Mulher-melão. Mulher-samambaia.

Aos 60 anos, o sr. Venício não desgrudava da telinha.

A mulher dele se chamava Coraly. Entrou na sala com o avental.

--Pouca vergonha... na sua idade.

Venício não respondeu. Coraly voltou para a cozinha.

O colante preto destacava algumas camadas de celulite no corpo da sexagenária.

--Essa aí é a mulher-jaca...

Enquanto cortava o bife, Coraly resmungou.

--Que casou com um banana...

Venício pôs o copo de cerveja na mesinha.

--Que foi que você disse aí?

Coraly apareceu com a faca de carne na mão.

--Quer que eu repita?

Venício ficou em silêncio. A telinha mostrava imagens de grande sensualidade.

Princípio de enfarte. Venício já entrou na faca. Coraly cuida do marido.

--Você é meu pêssego, Venício. Tirando a parte amassada, dá para o gasto.

O casamento é como comida chinesa. Até os pepinos vêm com molho doce.

 

 

O PREÇO DE CADA UM

 

Escândalos. Escutas telefônicas. Investigações.

Mariano era um poderoso investidor.

Ele andava muito preocupado.

--Se a Carla contar tudo o que sabe...

Era a sua ex-mulher.

Ressentimento e mágoa inundavam a alma daquela bela morena.

Mariano tomou coragem. Pegou o celular.

--Carla... hã... você teria tempo para um drinque?

Combinaram-se de encontrar num restaurante dos velhos tempos.

Música suave. Ambiente discreto. Um vinho caro.

--E aí, Mariano. O que você quer de mim?

--Pensei em aumentar sua pensão... que acha de cinquenta mil por mês?

Carla compreendeu rapidamente o sentido da proposta.

--Por cem mil eu fico quieta. Topa?

Mariano concordou. Já iam se levantando quando Carla fez outra exigência.

--Aquela sua namorada nova... a modelo... Você divide também?

No Motel Seychelles, os três curtem numa boa o acordo em alto nível.

Almas se corrompem. Mas os corpos, em geral, mantêm clareza de propósitos.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h47

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os dez melhores hinos nacionais

Provavelmente sob fortíssimo ataque de tédio olímpico, um crítico do jornal inglês The Guardian resolveu escutar os hinos nacionais de todos os 205 participantes dos Jogos de Pequim. Achou todos muito parecidos, e notou ironicamente o aspecto operístico da maioria dos hinos latino-americanos (muito mais longos que a média, com interlúdios líricos variando o entorno eufórico). Deve ter deixado de fora o inglês, o francês, e o americano, para ele afinal difíceis de julgar. E o grande vencedor é o...

Uruguai! Uma das peças mais animadas de toda a música clássica, diz o crítico. Seguem-se: Bangladesh,Tadjiquistão, Mauritânia, Dominica (não é a República Dominicana), Ilhas Virgens, Senegal, Nigéria (usa instrumentos típicos), Nepal e Japão.

Felizmente temos boas chances no judô.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h35

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livros de arte

livros de arte

http://www.oldbookart.com/

Imagens de livros raros ilustrados podem ser vistas e reproduzidas aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h35

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o ninho some

Reclamei da feiúra do tal estádio olímpico de Pequim, mas me esqueci de levar em conta que a poluição por lá às vezes é tão grande que as pessoas mal conseguem vê-lo. Comparem-se estas duas fotos, publicadas no "Los Angeles Times"

Escrito por Marcelo Coelho às 02h26

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o blog de Orwell

o blog de Orwell

http://

Escrito por Marcelo Coelho às 01h57

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eutanásia à mineira

Pode ser que eu tenha andado de mau humor ultimamente com essa questão de Olimpíadas. Mas nada que se compare ao estado de espírito de Albert Camus quando passou pelo Brasil. Estava lendo agora seu “Diário de Viagem” (ed. Record), e o homem estava realmente numa fase terrível.

 

Detestou o Rio de Janeiro, o clima, o trânsito, as paisagens, as pessoas que encontrava... (com raras exceções: Manuel Bandeira, “pequeno homem extremamente fino”, Murilo Mendes. “um dos dois ou três que realmente me chamaram a atenção aqui”, e “Kaïmi” [Dorival Caymmi], “um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta”.

 

Camus deu-se um pouco melhor na Bahia, mas mesmo assim... Também, em todas as etapas de sua viagem pelo país inventavam para ele programas duros de agüentar, ainda mais com a gripe terrível que ele pegou. Não apenas diversas sessões de macumba para turista, mas também uma procissão em Iguape, vai lá saber por quê, a que ele chegou depois de quase doze horas de estrada de terra, em companhia de Oswald de Andrade. Devia ser um projeto qualquer de antropofagia do brasileiro.

 

Em todo caso, Camus manifestou curiosidade sobre um antigo costume de Minas Gerais, sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar. Quem sabe algum leitor esclarece esse ponto. Aqui vai o trecho de Camus:

 

[Anibal?] Machado me conta a história dos adjutórios de Minas. Em certos casos, quando a agonia dura demais, convocam-se esses senhores, que são licenciados [enfermeiros?]. Chegam, vestidos com solenidade, cumprimentam, retiram as luvas e vão até o moribundo. Pedem-lhe que diga “Maria-Jesus” sem parar, colocam-lhe um joelho sobre o estômago e as mãos sobre a boca e empurram com força, até que o agonizante estrebuche. Retiram-se, tornam a calçar as luvas, recebem cinqüenta cruzeiros e partem, cercados pela gratidão e pela consideração gerais.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h56

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O pior candidato

Em matéria de desempenho em debates de televisão, creio que o do candidato do PT do B à prefeitura de Curitiba ficará para a história como o mais constrangedor e desastroso desde a redemocratização. Uma seleção dos “melhores momentos” está no youtube, e anda circulando por e-mail.

 

Na verdade, não sou dos que se divertem com esparrelas desse tipo. Tive uma pena enorme do nervosismo do candidato, e acho que me identifico com ele. Muitas vezes me embananei em ocasiões públicas, sentindo que meu pensamento ia para um lado e a frase ia para o outro, até me esquecer de ambos...

 

Felizmente, não me sinto mais nervoso em palestras ou aparições de TV; a coisa acaba sendo rápida e procuro sempre estar com um papel na minha frente. Mas mesmo ficando calmo o embananamento pode acontecer quando eu menos espero. No tempo em que eu dava aulas, até por uma questão de freqüência estatística, tinha sempre um dia em que eu tropeçava como esse candidato do PTB... Não lhe daria meu voto, mas com certeza um abraço de solidariedade.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h25

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O porteiro do Hotel Glória

Hospedei-me no Hotel Glória pela primeira vez há cerca de dez anos, e desde então de vez em quando fico lá quando vou ao Rio: ciclos de palestras e eventos em geral costumam ter convênio com o velho estabelecimento. Tudo quanto é presidente da República, desde Epitácio Pessoa, já se hospedou no Glória, e existe um painel com fotos autografadas de todos eles.

 

Fazia tempo que não modernizavam o hotel. Acho que é um dos raros de sua categoria que ainda têm o sistema milenar da chave e da fechadura de ferro em cada quarto; agora, fechado para reforma, provavelmente vão instalar aqueles cartões magnéticos que a gente sempre perde em algum bolso ou dentro do quarto mesmo.

 

Gosto de voltar aos mesmos lugares, e embora o hotel todo me pareça um pouco triste, havia uma coisa que sempre me deixava feliz quando eu ia lá.

 

Era o porteiro. Reparei nele desde a primeira vez. Julguei estar vendo  um sósia perfeito do príncipe Charles: o mesmo tipo de cabelo branco, de sorriso mais largo do que a testa, de sobrancelhas e de rugas. Como estava sempre vestido numa espécie de dólmã branco com alamares, e como usava um quépi azul-escuro, de perfeito oficial da Marinha britânica, a impressão que causava só podia mesmo ser a de um parente distante da casa de Windsor.

 

Leio no jornal que, em função da reforma do hotel, que durará mais de um ano, todos os funcionários do Glória foram demitidos.

 

Era gente que trabalhava lá há coisa de trinta, quarenta, cinquenta anos.

 

Imagino que logo vão contratar uma turma de jovens formados em faculdades de Turismo, ou funcionários trazidos de outros países (hotéis de redes internacionais fazem isso, como o Sofitel por exemplo, que tem concierges indianos, portugueses, russos...). E aquele arzão tradicional do centro carioca, com funcionários tão velhos que, mesmo brasileiros, ainda parecem meio portugueses, desaparece mais um pouco.

 

Hotéis têm alma; mas pelas fechaduras eletrônicas de cartãozinho nem mesmo os fantasmas conseguem passar.

 

 

 

 

 

  

O Hotel Glória de Pequim, mais moderno, claro.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h51

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O amor punido

O amor punido

         Muita coisa poderia dar errado na montagem feita pelo grupo Tapa de “O Ensaio” ("La Répétition, ou L'Amour Puni"), peça de Jean Anouilh (1910-1987), em cartaz no Teatro Imprensa.

 

         A peça é bastante comprida (foi bem cortada, mas ainda dura duas horas), e o enredo tem como um de seus pontos centrais a tentativa, feita por um conde frívolo e bon vivant, de montar em seu castelo um espetáculo de teatro amador. Ele próprio, a condessa, a amante dele e o amante da condessa –todos se relacionam muito civilizadamente— irão representar uma peça do, mais que civilizado, civilizadíssimo Marivaux.

 

         Tudo está pronto, assim, para um brilhante jogo de sutilezas, em que o dramaturgo do século 20 entremeia subentendidos nas frases, por si mesmas delicadas e ambíguas, do dramaturgo do século 18.

 

         Ao lado do virtuosismo muito francês da escrita teatral, haveria outro fator, na minha opinião, a dificultar a encenação de “O Ensaio”: é que apesar de tudo a peça de Anouilh tem uma série de “buracos” no enredo, de truques muito artificiais para fazer com que tudo vá adiante. Há um anel de esmeraldas roubado em pleno castelo do conde; há um bêbado que tem de beber muito para fazer o que é exigido na trama; é preciso que um telegrama implausível afaste o conde da cena, de modo a facilitar o desfecho...

 

         Toda essa artificialidade, que me pareceu dura de engolir quando li a peça de Anouilh, desaparece magicamente, contudo, quando vemos a encenação no palco. Os truques e “muletas” do texto surgem, afinal, dentro de uma peça que não precisa ser assistida com exigências realistas: tudo é puro teatro.

 

         O excesso de firulas culturais –condes, Marivaux, etc.--, tampouco traz o risco de tudo se tornar um espetáculo excessivamente elitista para os padrões brasileiros. Ao contrário, o público que estava no Teatro Imprensa, que não aparentava ser daquele tipo intelectual que se encontra por exemplo no Espaço Unibanco, prendia a respiração e acompanhava estarrecido as tramóias dos personagens.

 

         É que, com ou sem anéis de esmeralda e telegramas, o que chama a atenção em “O Ensaio” é um tema atualíssimo, de grande ibope: o total cinismo das elites.

 

         O conde, vivido de forma cativante por Zécarlos Machado, é uma fonte inesgotável de provocações à moralidade conjugal e à compostura burguesa. Trai a mulher com total liberdade; Clara Carvalho, no papel da condessa, joga perfeitamente entre a altivez de quem não esconde os próprios amantes, e um fundo de ressentimento que sua altivez de classe não permite revelar.

 

         O escândalo está totalmente montado –para o espectador, não para os personagens. A condessa e sua rival, por exemplo, tramam juntas para manter o status quo, ameaçado pelo aparecimento de uma terceira mulher a atrair as atenções do conde. O conde admite sua atração pela nova personagem. Admite mais do que isso: está de fato amando Lucile (Anna Cecília Junqueira, ideal na limpidez e dignidade do papel).

 

         Amar? Esse o verdadeiro escândalo. Todo tipo de casos e perfídias é permitido naquele meio, menos um amor real; nisso, ninguém exceto Lucile e o conde acreditam.

 

         É muito difícil, encenando uma peça dessas, fazer os atores passarem do cinismo radical para a sinceridade sem que um e outro pareçam falsos, e sem que a passagem não soe brusca demais. Torna-se preciso manter, em tudo, a sensação de “teatro”, como uma delicada atmosfera de irrealidade banhando a cena. Só assim fica plausível que, em poucas horas, tantas aparências sociais se desfaçam, dando lugar à humanidade mais funda dos personagens. Essa montagem de Eduardo Tolentino foi capaz disso; e de entreter bastante o público, que vibra com um tipo de elites que não é fácil de encontrar hoje em dia.  

 

Uma cena no youtube pode ser acessada aqui

Crítica de Mariângela Alves Lima, no Estado, aqui

ingressos com desconto pela apetesp

 

Lucile e o conde ensaiam Marivaux.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h38

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blogs de literatura em inglês

blogs de literatura em inglês

http://www.complete-review.com/links/bloglink.htm#1source

No link, uma lista de blogs em que crítica e resenhas são a preocupação central.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h37

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Olimpíadas do horror

No artigo para quarta-feira, falo mal das Olimpíadas de Pequim, e não disse nem a metade do que penso... Um artigo na “The Economist dá mais detalhes sobre a destruição de áreas do centro medieval da cidade, para construir aqueles estádios, verdadeiras barbaridades arquitetônicas.

 

A ética dos arquitetos ocidentais nesse vasto empreendimento é discutida num artigo do Los Angeles Times

 

Do 1,3 milhão de trabalhadores, na sua maioria migrantes, que foram recrutados para o “deita abaixo”, calcula-se que morreram em média 2,5 mil por ano em função de acidentes de trabalho.

 

A coisa é tão deslavada que o próprio Comitê de Relíquias Culturais da Cidade formou uma empreiteira para participar da demolição.

 

Um estudo estima em um milhão de pessoas os removidos de suas casas para dar lugar à vitrine olímpica; suas condições de barganha e de protesto, num regime como aquele, são pequenas, como mostra o caso da advogada espancada e presa por tê-los defendido, citada em meu artigo, e cuja história está registrada no site da Human Rights Watch.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h40

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pintura e demolição

pintura e demolição

O artista R. Carvalho nasceu em Luminosa, Minas Gerais, e se dedica a pintar paisagens sobre peças de casas em demolição. Uma exposição com suas obras começa nesta quinta-feira, 7 de agosto, às 19h30, e vai até dia 2 de setembro, no Espaço Cultural do CRC-SP (conselho regional de contabilistas). O endereço é rua Rosa e Silva, 60- Higienópolis. Aqui duas paisagens de Campos do Jordão e arredores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h11

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o site dos erros

o site dos erros

http://www.regrettheerror.com/newspapers/paper-misspells-its-name-on-front-page

Ombudsmans e leitores de jornal terão prazer em dar uma olhada neste site, que mostra, por exemplo, um jornal americano que errou o próprio nome na primeira página.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h44

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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