Pode ser que eu tenha andado de mau humor ultimamente com essa questão de Olimpíadas. Mas nada que se compare ao estado de espírito de Albert Camus quando passou pelo Brasil. Estava lendo agora seu “Diário de Viagem” (ed. Record), e o homem estava realmente numa fase terrível.
Detestou o Rio de Janeiro, o clima, o trânsito, as paisagens, as pessoas que encontrava... (com raras exceções: Manuel Bandeira, “pequeno homem extremamente fino”, Murilo Mendes. “um dos dois ou três que realmente me chamaram a atenção aqui”, e “Kaïmi” [Dorival Caymmi], “um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta”.
Camus deu-se um pouco melhor na Bahia, mas mesmo assim... Também, em todas as etapas de sua viagem pelo país inventavam para ele programas duros de agüentar, ainda mais com a gripe terrível que ele pegou. Não apenas diversas sessões de macumba para turista, mas também uma procissão em Iguape, vai lá saber por quê, a que ele chegou depois de quase doze horas de estrada de terra, em companhia de Oswald de Andrade. Devia ser um projeto qualquer de antropofagia do brasileiro.
Em todo caso, Camus manifestou curiosidade sobre um antigo costume de Minas Gerais, sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar. Quem sabe algum leitor esclarece esse ponto. Aqui vai o trecho de Camus:
[Anibal?] Machado me conta a história dos adjutórios de Minas. Em certos casos, quando a agonia dura demais, convocam-se esses senhores, que são licenciados [enfermeiros?]. Chegam, vestidos com solenidade, cumprimentam, retiram as luvas e vão até o moribundo. Pedem-lhe que diga “Maria-Jesus” sem parar, colocam-lhe um joelho sobre o estômago e as mãos sobre a boca e empurram com força, até que o agonizante estrebuche. Retiram-se, tornam a calçar as luvas, recebem cinqüenta cruzeiros e partem, cercados pela gratidão e pela consideração gerais.
Em matéria de desempenho em debates de televisão, creio que o do candidato do PT do B à prefeitura de Curitiba ficará para a história como o mais constrangedor e desastroso desde a redemocratização. Uma seleção dos “melhores momentos” está no youtube, e anda circulando por e-mail.
Na verdade, não sou dos que se divertem com esparrelas desse tipo. Tive uma pena enorme do nervosismo do candidato, e acho que me identifico com ele. Muitas vezes me embananei em ocasiões públicas, sentindo que meu pensamento ia para um lado e a frase ia para o outro, até me esquecer de ambos...
Felizmente, não me sinto mais nervoso em palestras ou aparições de TV; a coisa acaba sendo rápida e procuro sempre estar com um papel na minha frente. Mas mesmo ficando calmo o embananamento pode acontecer quando eu menos espero. No tempo em que eu dava aulas, até por uma questão de freqüência estatística, tinha sempre um dia em que eu tropeçava como esse candidato do PTB... Não lhe daria meu voto, mas com certeza um abraço de solidariedade.
Hospedei-me no Hotel Glória pela primeira vez há cerca de dez anos, e desde então de vez em quando fico lá quando vou ao Rio: ciclos de palestras e eventos em geral costumam ter convênio com o velho estabelecimento. Tudo quanto é presidente da República, desde Epitácio Pessoa, já se hospedou no Glória, e existe um painel com fotos autografadas de todos eles.
Fazia tempo que não modernizavam o hotel. Acho que é um dos raros de sua categoria que ainda têm o sistema milenar da chave e da fechadura de ferro em cada quarto; agora, fechado para reforma, provavelmente vão instalar aqueles cartões magnéticos que a gente sempre perde em algum bolso ou dentro do quarto mesmo.
Gosto de voltar aos mesmos lugares, e embora o hotel todo me pareça um pouco triste, havia uma coisa que sempre me deixava feliz quando eu ia lá.
Era o porteiro. Reparei nele desde a primeira vez. Julguei estar vendo um sósia perfeito do príncipe Charles: o mesmo tipo de cabelo branco, de sorriso mais largo do que a testa, de sobrancelhas e de rugas. Como estava sempre vestido numa espécie de dólmã branco com alamares, e como usava um quépi azul-escuro, de perfeito oficial da Marinha britânica, a impressão que causava só podia mesmo ser a de um parente distante da casa de Windsor.
Leio no jornal que, em função da reforma do hotel, que durará mais de um ano, todos os funcionários do Glória foram demitidos.
Era gente que trabalhava lá há coisa de trinta, quarenta, cinquenta anos.
Imagino que logo vão contratar uma turma de jovens formados em faculdades de Turismo, ou funcionários trazidos de outros países (hotéis de redes internacionais fazem isso, como o Sofitel por exemplo, que tem concierges indianos, portugueses, russos...). E aquele arzão tradicional do centro carioca, com funcionários tão velhos que, mesmo brasileiros, ainda parecem meio portugueses, desaparece mais um pouco.
Hotéis têm alma; mas pelas fechaduras eletrônicas de cartãozinho nem mesmo os fantasmas conseguem passar.
Muita coisa poderia dar errado na montagem feita pelo grupo Tapa de “O Ensaio” ("La Répétition, ou L'Amour Puni"), peça de Jean Anouilh (1910-1987), em cartaz no Teatro Imprensa.
A peça é bastante comprida (foi bem cortada, mas ainda dura duas horas), e o enredo tem como um de seus pontos centrais a tentativa, feita por um conde frívolo e bon vivant, de montar em seu castelo um espetáculo de teatro amador. Ele próprio, a condessa, a amante dele e o amante da condessa –todos se relacionam muito civilizadamente— irão representar uma peça do, mais que civilizado, civilizadíssimo Marivaux.
Tudo está pronto, assim, para um brilhante jogo de sutilezas, em que o dramaturgo do século 20 entremeia subentendidos nas frases, por si mesmas delicadas e ambíguas, do dramaturgo do século 18.
Ao lado do virtuosismo muito francês da escrita teatral, haveria outro fator, na minha opinião, a dificultar a encenação de “O Ensaio”: é que apesar de tudo a peça de Anouilh tem uma série de “buracos” no enredo, de truques muito artificiais para fazer com que tudo vá adiante. Há um anel de esmeraldas roubado em pleno castelo do conde; há um bêbado que tem de beber muito para fazer o que é exigido na trama; é preciso que um telegrama implausível afaste o conde da cena, de modo a facilitar o desfecho...
Toda essa artificialidade, que me pareceu dura de engolir quando li a peça de Anouilh, desaparece magicamente, contudo, quando vemos a encenação no palco. Os truques e “muletas” do texto surgem, afinal, dentro de uma peça que não precisa ser assistida com exigências realistas: tudo é puro teatro.
O excesso de firulas culturais –condes, Marivaux, etc.--, tampouco traz o risco de tudo se tornar um espetáculo excessivamente elitista para os padrões brasileiros. Ao contrário, o público que estava no Teatro Imprensa, que não aparentava ser daquele tipo intelectual que se encontra por exemplo no Espaço Unibanco, prendia a respiração e acompanhava estarrecido as tramóias dos personagens.
É que, com ou sem anéis de esmeralda e telegramas, o que chama a atenção em “O Ensaio” é um tema atualíssimo, de grande ibope: o total cinismo das elites.
O conde, vivido de forma cativante por Zécarlos Machado, é uma fonte inesgotável de provocações à moralidade conjugal e à compostura burguesa. Trai a mulher com total liberdade; Clara Carvalho, no papel da condessa, joga perfeitamente entre a altivez de quem não esconde os próprios amantes, e um fundo de ressentimento que sua altivez de classe não permite revelar.
O escândalo está totalmente montado –para o espectador, não para os personagens. A condessa e sua rival, por exemplo, tramam juntas para manter o status quo, ameaçado pelo aparecimento de uma terceira mulher a atrair as atenções do conde. O conde admite sua atração pela nova personagem. Admite mais do que isso: está de fato amando Lucile (Anna Cecília Junqueira, ideal na limpidez e dignidade do papel).
Amar? Esse o verdadeiro escândalo. Todo tipo de casos e perfídias é permitido naquele meio, menos um amor real; nisso, ninguém exceto Lucile e o conde acreditam.
É muito difícil, encenando uma peça dessas, fazer os atores passarem do cinismo radical para a sinceridade sem que um e outro pareçam falsos, e sem que a passagem não soe brusca demais. Torna-se preciso manter, em tudo, a sensação de “teatro”, como uma delicada atmosfera de irrealidade banhando a cena. Só assim fica plausível que, em poucas horas, tantas aparências sociais se desfaçam, dando lugar à humanidade mais funda dos personagens. Essa montagem de Eduardo Tolentino foi capaz disso; e de entreter bastante o público, que vibra com um tipo de elites que não é fácil de encontrar hoje em dia.
No artigo para quarta-feira, falo mal das Olimpíadas de Pequim, e não disse nem a metade do que penso... Um artigo na “The Economist”dá mais detalhes sobre a destruição de áreas do centro medieval da cidade, para construir aqueles estádios, verdadeiras barbaridades arquitetônicas.
A ética dos arquitetos ocidentais nesse vasto empreendimento é discutida num artigo do Los Angeles Times.
Do 1,3 milhão de trabalhadores, na sua maioria migrantes, que foram recrutados para o “deita abaixo”, calcula-se que morreram em média 2,5 mil por ano em função de acidentes de trabalho.
A coisa é tão deslavada que o próprio Comitê de Relíquias Culturais da Cidade formou uma empreiteira para participar da demolição.
Um estudo estima em um milhão de pessoas os removidos de suas casas para dar lugar à vitrine olímpica; suas condições de barganha e de protesto, num regime como aquele, são pequenas, como mostra o caso da advogada espancada e presa por tê-los defendido, citada em meu artigo, e cuja história está registrada no site da Human Rights Watch.
O artista R. Carvalho nasceu em Luminosa, Minas Gerais, e se dedica a pintar paisagens sobre peças de casas em demolição. Uma exposição com suas obras começa nesta quinta-feira, 7 de agosto, às 19h30, e vai até dia 2 de setembro, no Espaço Cultural do CRC-SP (conselho regional de contabilistas). O endereço é rua Rosa e Silva, 60- Higienópolis. Aqui duas paisagens de Campos do Jordão e arredores.
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