Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

escolhendo a nova escola (3)

escolhendo a nova escola (3)

Continuo a falar das “escolas de elite”. Apesar de ter grandes professores no colegial, o Santa Cruz (onde estudei de 1971 a 1976) era muito falho numa área em que, teoricamente, deveria ser ótimo. Refiro-me ao curso de Filosofia.

 

Embora eu fosse bom aluno, o fato é que cheguei à faculdade ignorando tudo o que de fato é relevante nessa matéria. Isso se deve à orientação religiosa do colégio, que fez do curso de Filosofia uma espécie de “trajeto” que saía da angústia existencialista para chegar à fé de Teilhard de Chardin. Jogavam-se nas mãos dos alunos livros de Kafka e de Sartre, alimentando o ego pretensioso dos que se julgavam “elite”, para depois impor uma suposta “solução”, que ninguém nunca entendeu direito, em torno das concepções católico-científicas de Teilhard de Chardin.

 

Isso podia ser apenas idiossincrasia do “filósofo” de plantão, o Padre Charbonneau, que de vez em quando aparecia para dar conferências a que todos assistiam boquiabertos. Duvido que entendessem alguma coisa; eu pelo menos, que era dos mais cdfs, nunca retive daquelas ocasiões mais do que a imagem de um rosto que se avermelhava, avermelhava, chamando Sartre de “raposa velha”. Como se aqueles padres não o fossem.

 

Mas o problema não é a idiossincrasia, é a ambiguidade de um colégio que se dizia liberal mas não era, e que era de padres mas não era. Tínhamos, assim, aulas de religião todos os anos do ginásio, só que sob o nome de “Animação Espiritual”. Tínhamos um sistema rígido de avaliações, só que se usava conceitos em vez de notas numéricas. Líamos, supostamente cultos, Sartre e Kafka, para depois escrever em cima das coxas trabalhos criticando os dois autores a partir de uma obscura filosofia cristã.

 

Tínhamos a propaganda de que o colégio era liberal, enquanto professores bons ou ruins impunham terror na classe, e um professor de ginástica era adepto de castigos fisicos para quem chegasse atrasado ou com a blusa para fora da calça.

 

Uma vez, os alunos se revoltaram contra o famoso “corredor polonês” que iniciava toda aula de Educação Física. Recusaram-se a bater nos colegas. O efeito foram cinquenta minutos de abdominais, flexões e polichinelos, o que dissuadiu para sempre a classe de qualquer resistência ao sistema anterior.

 

No colegial, isso terminou; supostamente mais “adultos”, os meus colegas se dedicavam a intimidar os alunos menores. Certa vez, promoveram uma festa do ovo, na qual um menino de sete anos mais ou menos foi atingido sistematicamente. Nessas ocasiôes, ninguém mais do que eu aprovaria uma reação das mais autoritárias e terroristas contra esse tipo de molecagem. Houve um sermãozinho espantosamente compreensivo e só.

 

Talvez fosse esse mesmo o objetivo: é com essa hipocrisia que se aprende a ser elite, no Brasil ou em qualquer outro lugar.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h27

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pais e filhos | PermalinkPermalink #

leilão dos orléans e bragança

As duas mocinhas deste retrato são a Princesa Isabel e sua irmã Leopoldina. O quadrinho tem valor estimado em menos de 150 dólares, num leilão a ser realizado dia 14 de outubro pela Christie's, em Paris. Trata-se de uma série de lotes que pertenceram ao Conde e à Condessa de Paris. O conde de Paris é o herdeiro presumido do trono francês. A condessa era brasileira, neta ou bisneta de Pedro 2o, não me peçam para esclarecer a genealogia. Um retrato dela, feito por Portinari, também vai a leilão, com estimativa em torno de 50 mil dólares:

Mas o principal do leilão são louças, móveis, quinquilharias diversas, até bengalas. Ah, e existe um quadro também, bizarramente atribuído pela Christie's a um pintor chamado "Gilberto Molduras":

O império brasileiro, para não falar dos reis da França, já teve melhores momentos.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h35

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

endividados e tranqüilos

Depois dos últimos sobressaltos financeiros, o mínimo que o cidadão pode fazer é desconfiar dos comentaristas econômicos. Especialmente quando eles repetem a mesma coisa.

 

Não há dia em que eu não escute um desses gurus na televisão dizendo que a crise ainda não atingiu o Brasil, e quando atingir será com menos força. O matiz das previsões varia, mas a mensagem é sempre tranquilizadora.

 

Muitos confiam no dinamismo do mercado interno de países como China e Índia. Ora bolas, a China vive das exportações. Na hora em que tudo apertar de verdade nos Estados Unidos, duvido muito que algum país se segure.

 

Hoje saiu na “Folha Online” uma notícia sobre o alto grau de endividamento dos brasileiros.  A população deve R$ 1,1 trilhão em crediários, cartões de crédito, etc. Eram 24% do PIB em 2003 e agora são 38% do PIB. Até o fim do ano, a dívida chegará a 40% do PIB.

 

Isso, com os juros mais altos do mundo.

 

Nada preocupante, diz o Banco Central. As pessoas não estão deixando de pagar o que devem, e muita prestação de crediário agora já está atrelada diretamente à folha de pagamentos.

 

Nada como um dia depois do outro para ver alguma coisa que “não preocupa” começar a ficar “muito preocupante”. Os empréstimos serão pagos enquanto todo mundo tiver emprego.

 

Mesmo com emprego, o que vejo à minha volta é muita gente enforcada com cheque especial e com as contas do cartão de crédito.

 

Se foi “irresponsável” a concessão de crédito imobiliário nos Estados Unidos, e a papelada gerada em torno disso, salta aos olhos de qualquer leigo que está havendo irresponsabilidade na concessão de cartões de crédito aqui no Brasil.

 

Vejo trabalhadores domésticos e pessoas humildes usando cartões de crédito como se fossem um baralho num jogo de pifepafe ou de buraco: são nove ou onze em cada mão.

 

Os apelos para o consumo imediato são imensos; o comércio vende loucamente; a distinção entre o supérfluo e o necessário nunca foi tão nebulosa como hoje.

 

Mas os consultores econômicos repetem: não há razões para preocupação.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h48

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

escolhendo a nova escola (2)

escolhendo a nova escola (2)

Estudei no Colégio Santa Cruz de 1971 a 1976, e imagino que, naqueles anos, alguma espécie de compromisso político tenha sido feito de modo a acomodar professores de esquerda dentro do corpo docente, abrindo concessões a direitistas em diversas disciplinas.

 

O resultado é que o ginásio, de modo geral, tendia para o apoio ao regime militar, e o colegial “abria a cabeça” dos alunos.

 

Na sétima e na oitava série, o professor de Geografia entregava-se a rasgados elogios ao presidente Médici. No colegial, os professores de Geografia nos ensinavam materialismo histórico, com esquemas sobre forças produtivas, relações de produção, etc., ou então passavam textos do jornal “Movimento”.

 

Um arranjo desse tipo é plenamente compreensível. Mas o preço, no que diz respeito à qualidade do ensino, tornou-se muito alto. No ginásio, os professores eram de modo geral fracos, inseguros ou corocos. Os que faziam mais sucesso, salvo duas honrosas exceções, em Ciências e História, eram autoritários, terroristas e covardes.

 

Covardia é o termo mais exato, na minha opinião, para a atitude de qualquer professor que pegue um menino de onze, doze ou treze anos, e pela violência verbal o faça chorar. Naturalmente, não são os tipos mais delinqüenciais que são submetidos a esse tipo de tratamento. Nem os bons alunos. Pega-se aquele tipo médio, meio obscuro, que por acaso se meteu em alguma enrascada ou que fez uma piada fora de hora. Havia exemplos disso mais ou menos uma vez por mês no Santa Cruz.

 

Fruto de um misto de ambigüidade e arrogância que faz parte, acho, do DNA daquele colégio.

 

O tempo todo os professores faziam propaganda da própria escola. “Estamos formando as elites do país”, “vocês são a elite”, é um privilégio estudar aqui, esse tipo de coisa se ouvia o tempo todo. Não é a mensagem mais saudável que se possa dar à quantidade de filhos de banqueiros, industriais, comerciantes, grandes advogados, etc., que estavam ouvindo tudo aquilo.

 

Não havia só ricaços. Mas estes, de modo geral, deixavam bem clara para os demais a sua condição. Cartas de cobrança de mensalidade atrasada eram entregues aos alunos do ginásio em plena sala de aula. Claro, ninguém dizia, mas todos sabiam, que era disso que se tratava.

 

Certa vez, o vice-diretor do ginásio entrou em classe com uma cartinha dessas. Todos os alunos se puseram a escarnecer do menino que a recebeu. No meio da confusão geral, um daqueles garotos obscuros, em quem ninguém prestava atenção, criou coragem e gritou “caloteiro”!

 

Foi a deixa para o vice-diretor dar a sua liçãozinha de moral. Investiu contra o garoto xingador, sob o silêncio aterrorizado da classe. “Mesmo que ele fosse caloteiro, coisa que ele não é, ele seria melhor do que você está sendo agora!”

O menino, que simplesmente seguira a onda da classe inteira, tornou-se bode expiatório da mesma classe que pensava exatamente como ele.

 

Gostaria de ter levantado a mão e dito: “por que não entregam a carta no endereço dele, em vez de fazer isso em público?” E por que dar uma lição importante de moral usando o terror, de modo a responsabilizar apenas uma pessoa por uma canalhice coletiva?

 

Não era eu o caloteiro, nem fui eu quem o xingou. Eu ficava em silêncio nesse tipo de manifestações coletivas. Fiquei demais em silêncio naquele colégio. Gostaria de ter estudado num lugar que não premiasse a covardia moral; desta, tínhamos exemplos quase diários no Santa Cruz, dados por professores e alunos. Continuo depois; quem sabe escrever sobre isso tudo me tire um pouco do rancor, do qual peço desculpas a quem me leu até aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h39

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pais e filhos | PermalinkPermalink #

escolhendo a nova escola

escolhendo a nova escola

         Não fujo ao bom senso dizendo que escola tem de ser perto de casa; e que, por menos “elitista” que seja a nossa ideologia, na hora de escolher uma escola para os filhos seria tolo não procurar as mais conceituadas.

         Meu filho de seis anos, depois de experiências ambíguas na sua educação pré-escolar, chega na idade de entrar no que antigamente se chamava primeiro ano do primário, e agora atende pelo nome de segundo ano do fundamental.

         Deve entrar numa escola na qual ficará até o colegial, ou talvez até a faculdade.

         Na minha região, e na minha faixa de renda, várias escolas poderiam, em tese, acolhê-lo. Há, por exemplo, o Vera Cruz, o Santa Cruz, o São Domingos e o Carlitos.

         Analiso brevemente alguns dos fatores em jogo.

         Devo dizer, a título preliminar, que odeio todas as escolas. Sei o quanto há de burrice e violência em todas elas. Sofri muito com a opressão que a maioria dos alunos exerce sobre a minoria dos que querem acertar, dos que levam a sério as responsabilidades do estudo, dos que procuram se interessar pela matéria.

         Fiz o quarto do ano do primário no Vera Cruz. Naquela época, o Vera Cruz não prolongava o ensino até o ginásio e o colegial.

         Saído de uma escola fascista, o Dante Alighieri, surpreendi-me favoravelmente com o grau de liberdade que era concedido aos alunos do Vera Cruz.

         Era uma vida mansa de funcionário público. Toda segunda-feira, havia uma série de liçõezinhas mimeografadas que a gente podia escolher numa espécie de escaninho ao lado da lousa.

         Você fazia as lições, entregava, e estava com a vida feita. Aconteceu-me de terminar todas as lições numa manhã de quarta-feira. O resultado é que, nos dias seguintes, eu ganhava um recreio adiantado: duas horas e meia de lazer até ser chamado de novo para alguma prática de grupo –onde teria de tolerar, coisa que fazia mal, o atraso de meus coleguinhas.

         A vantagem de um esquema liberal desse tipo é que você sente menos a opressão dos adultos. A desvantagem é que, quanto menos assustadores os adultos, mais violentos e invejosos se tornam os meninos de sua idade.

         O Vera Cruz foi, em todo caso, um motivo de lembranças razoavelmente amenas para mim.

         Decepciona-me, agora, o fato de que o sistema de apostilas se tornou cristalizado até a oitava série. Ou seja, antes do colegial, pelo que me informaram, nenhum livro didático é adotado na escola.

         Como assim? Não existe coisa mais confiável e prazerosa do que um livro didático. Por mais que tenha falhas, e seja superficial, confere uma segurança ao aluno. Qualquer coisa mal-explicada pelo professor pode ser conferida ali. Se eu quiser me adiantar ao conteúdo das aulas, o livro me traz as informações de que necessito.

         Um livro é sólido, objetual, encadernado. Apostilas se espandongam no meu fichário. Transmitem-me uma idéia de confusão, e de dependência perante o professor. Não, isso foi decisivo para que eu rejeitasse o Vera Cruz como escola de meu filho.

         Continuo depois.

 

PS- Não gosto de usar o termo "fascista" a torto e a direito, só para caracterizar sistemas de pensamento que não aprovo. Como o Dante Alighieri tinha muitos italianos, acho que houve também um certo preconceito nessa adjetivação. Eraum colégio autoritário, massificante e atrasado, mas retiro o "fascista".

Escrito por Marcelo Coelho às 02h01

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pais e filhos | PermalinkPermalink #

Obama foi melhor

Assisti ao debate entre os candidatos americanos ontem na TV. O leitor deste blog não se surpreenderá com a minha avaliação.

 

Escrevi um comentário para a edição de domingo da “Folha”, e não vou me repetir aqui. Acrescento algumas coisas, preventivamente, ao que será publicado amanhã.

 

McCain encostou Obama na parede algumas vezes: sobre o sucesso do aumento de tropas no Iraque, por exemplo. Cada vez que McCain falava da melhora da situação  por lá, e da necessidade de continuar “até a vitória”, Obama voltava ao ponto inicial, de que não deveria ter ocorrido invasão nenhuma. Tudo bem, ele estava correto ao se opor à invasão, mas quanto ao futuro, às condições em que deve ser feita a retirada das tropas, Obama foi insuficiente.

 

Quanto à crise econômica, certamente os candidatos americanos teriam algo a aprender com os políticos brasileiros. O âncora insistia: vocês são a favor do pacote de Bush? Ou são contra? Estranhamente, nenhum dos dois quis responder a pergunta com clareza.

 

Mas Obama poderia ter dito: “Nós venceremos esta crise. Esta crise será vencida sem o sacrifício do povo. Esta crise nasceu da política econômica de Bush e do Partido Republicano. A crise criada pelos republicanos será superada por nós. Nós, os democratas, somos o partido de Roosevelt. Nós fizemos o New Deal e tiramos o país da recessão. Etc. etc.”

 

As coisas são mais objetivas e menos retóricas por lá. Obama falou em quatro ou cinco precondições para que o pacote seja aprovado, e eles têm números e dólares na ponta da língua. Acredito que o eleitorado norte-americano também seja melhor de cálculo do que a gente por aqui.

 

O principal, entretanto, não me parece ser quem perdeu tais ou tais oportunidades ou pontos específicos de conteúdo. Tentei avaliar o debate de um ponto de vista mais emocional e, no fundo, mais “realista”: quem tem cara de presidente? Quem parece líder? Quem é que inspira confiança?

 

Não consigo concordar com Nelson de Sá quando ele diz que McCain pareceu melhor no jogo de cena. Ele é um velhinho tímido e simpático, longe de representar aquilo que os conservadores querem (Sarah Palin é quem deu pontos para ele nas pesquisas), e insuficiente para representar uma mudança de rumos face ao fracasso de Bush.

 

O cientista político Tom Holbrook escreveu artigo interessante sobre o peso dos debates nas eleições americanas. Faz uma série de cálculos e diz que, em média, os debates são capazes de alterar cerca de um ponto porcentual apenas no resultado das eleições. Houve alguns casos que fugiram à regra. Se este não for um deles, “como o meu chapéu”, como dizem os americanos.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h56

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Literatura da pobreza

Literatura da pobreza

Ainda sobre a “estética da pobreza”, fiz estas anotações sintéticas a respeito da literatura “marginal”-“periférica”-“violenta” em voga hoje em dia, para responder a uma enquete que acabou não rolando. Parte do que vai abaixo é um pouco chover no molhado, a esta altura, mas o texto é pelo menos uma tentativa de sistematização e síntese.

 

 

- Nessa literatura, o aspecto testemunhal é mais valorizado do que o aspecto estético.

 

- O autor é mais “representante” da realidade do que “representador” da realidade.

 

- O autor perde, com isso, a distância que deveria ter diante daquilo que representa.

 

- Oscila, assim, entre uma atitude “crítica” e uma atitude “identitária”. Precisa mostrar, por exemplo, que na periferia se mata e se morre por uma ninharia, mas tende a considerar preconceituosa a opinião do burguês que tem medo de passear por essas regiões. A periferia é enaltecida e detestada ao mesmo tempo.

 

- O autor surge para o público não-periférico como uma espécie de informante, mas é saudado como artista. Por vezes, o informante se vê a si mesmo como artista, e esta situação é a responsável, a meu ver, pelas extremas oscilações de registro e intenção que vemos num livro como “Cidade de Deus”, de Paulo Lins.

 

- Na medida em que a crítica se interessa pela “realidade representada”, e não pelo modo com que isso foi feito, cada livro se torna expressivo e complexo independentemente das intenções, da autoconsciência, do grau de controle de que o autor está imbuído.

 

- Embora o escritor tenha, em maior ou menor grau, determinada cultura literária, sua principal referência estética é o cinema ou a televisão. Determinados livros rendem ótimos roteiros de cinema (penso em Marçal Aquino, por exemplo), a despeito de inabilidades sintáticas, vocabulares, construtivas bastante evidentes.

 

- Trata-se de uma literatura que pretende sobretudo causar impacto emocional no leitor. Em vez dos romances sentimentais, que provocavam lágrimas e compaixão, importa suscitar culpa, medo e repulsa. O convite mais profundo à intelecção e à crítica diminui de importância. Rubem Fonseca é o exemplo maior dessa tendência.

 

- Mais do que autores, surgem “casos”: o caso Ferréz, o caso Paulo Lins.

 

- Dirigindo-se a um público supostamente distante das realidades representadas, o autor-informante precisa ostentar a todo momento sua condição de “quem sabe das coisas”. Desde João Antonio, o abuso da gíria e o pressuposto de que o leitor é “otário” traz consigo o risco de um autoritarismo da escrita, que se fortalece quanto mais, supostamente, é uma “vítima do sistema” quem toma a palavra.

 

Estes pontos que levanto são mais “perigos”, “tendências”, do que fruto de um balanço completo de toda a literatura “da violência” escrita a partir dos anos 90. Devo bastante dessas impressões aos diálogos que tive com a jornalista e crítica Luciana Araújo, ela própria moradora da periferia, que desenvolve trabalho sobre o tema.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h09

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

cenas de Nova York

Navegando pelo flickr, topei com um fotógrafo nova-iorquino que faz retratos lindos da vida de sua cidade; no site, atende apenas pelo nome de artcphoto . As cenas não poderiam ser mais corriqueiras, mas algo nas cores e na luz faz com que pareçam pequenos brinquedos de criança, como se as ruas da cidade fizessem todas parte de um cenário de ferromodelismo. Três exemplos.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h08

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Analistas e jornalistas

Brincadeiras à parte, acho importante que se comece a repensar o papel das agências de risco e dos consultores de mercado. Cansei-me de ver gurus da Merryl Lynch ou coisa parecida entrevistados nos canais de notícia da TV a cabo, repetindo todos a mesma coisa. O comportamento de rebanho dos investidores não é nada perto do comportamento de rebanho de tantos economistas que ignoravam, ou fingiam ignorar, a ruína das próprias instituições em que trabalhavam.

 

Sabemos que é assim mesmo, e que daqui a pouco estarão todos de volta. Poucos são os ministros da Fazenda que, depois de estrondosos fracassos, não se tornaram bem-sucedidos analistas, cheios de conselhos a dar e soluções a propor.

 

Do ponto de vista dos jornais, seria provavelmente necessário conferir a esses homens do “mercado” o mesmo tratamento que recebem políticos com cargos no governo ou candidatos em plena campanha. Interessa ao leitor conhecer-lhes a opinião, mas não acho que devam ser contemplados com a chancela institucional de uma coluna fixa.

 

Como saber se um sujeito com “posições” de investimento no mercado está sendo sincero ao prever, por exemplo, que o dólar vai ficar estável até o final do ano? Acredita mesmo nisso ou quer que acreditem nele para apostar na eventualidade oposta?

 

Por certo, nenhum colunista sozinho influi no comportamento de outros “players” (hum) de modo tão decisivo. Em todo caso, não dispomos, ao que eu saiba, de uma estatística de erros e acertos de cada um desses gurus.

 

Uma agência poderia atribuir a tantos analistas financeiros uma nota de credibilidade, tipo AAA, AA-, BB+, etc., conforme a relevância das opiniões que publicaram. Pode-se argumentar que o próprio mercado já faz isso, expulsando dos cargos de chefia e de análise os perdedores compulsivos. Mas o raciocínio não vale grande coisa depois de tantos anos de grande expansão dos lucros no sistema financeiro.

 

De qualquer modo, a análise jornalística é diferente da análise dos riscos e tendências do mercado. Trata-se de entender melhor as contradições do sistema, seus impasses, suas particularidades históricas, as novidades que apresenta com relação ao que já aconteceu no passado. E não especular com relação ao que vai acontecer no futuro, baseando-se no pressuposto, sempre duvidoso, de que tudo continuará mais ou menos do jeito que está.

 

Ilustração: UOL Busca M.C. Escher

Escrito por Marcelo Coelho às 00h15

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Chimpanzés e analistas financeiros

Chimpanzés e analistas financeiros

Como prever o comportamento das ações no mercado financeiro? Eis aqui uma curiosa experiência, levada a cabo pelo psicólogo Richard Wilberforce. É ele quem narra.

 

...em 2001 [...] descobri um artigo de jornal que descrevia a última novidade em matéria de previsão [...]: a astrologia financeira. De acordo com o artigo, alguns adivinhos afirmavam que o futuro desempenho financeiro de uma empresa podia ser afetado por sua data de criação.

 

[...] O experimento contou com três participante –uma astróloga financeira, um experiente analista financeiro e uma criança. No início do teste, demos a cada um deles o valor nominal de cinco mil libras e pedimos que investissem o dinheiro no mercado de ações, como achassem melhor.

 

Deram-lhes a opção entre as cem principais empresas no mercado de ações britânico.

 

[...] Nossa astróloga financeira examinou cuidadosamente a data de criação das empresas e prontamente investiu numa variedade de setores, incluindo ações das áreas de comunicação e tecnologia (Vodafone, Emap, Baltimore Tech e Pearson). O investidor fez valerem seus sete anos de experiência e decidiu investir principalmente na indústria de comunicações (Vodafone, Marconi, Cable & Wireless e Prudential). Queríamos que as escolhas [da criança] fossem completamente aleatórias [...]

 

Fizeram então com que Tia (este o nome da menina) escolhesse quatro entre cem papeizinhos contendo os nomes das empresas, que haviam sido jogados para o alto. A menina investiu, assim,

 

em um banco comercial (Bank of Scotland), um conhecido consórcio de bebidas (Diageo), um grupo de serviços financeiros (Old Mutual) e uma cadeia líder de supermercados (Saintsbury).

 

[...] Para ser justos, deixamos que os participantes mudassem seus investimentos alguns dias depois do início de nossa experiência de uma semana. A astróloga financeira mais uma vez consultou os astros e modificou três de suas opções [...] Nosso especialista em investimentos preferiu manter a seleção original. Uma segunda rodada de lançamento de papéis deixou Tia com as empresas Amvescap, Bass, Bank of Scotland e Halifax.

 

No final da semana, todos verificam que o mercado passava por uma fase especialmente turbulenta. A astróloga perdeu 10,1 % do seu investimento. O analista perdeu 7,1%. A criança saiu-se melhor, perdendo apenas 4,6%. Normal. O engraçado é o comentário de Wiseman.

 

Nosso investidor [...] declarou aos jornalistas ter seguramente esperado ficar em último lugar e ter sempre achado que Tia ganharia. A astróloga [...] observou que, se soubesse antecipadamente que Tia era canceriana, não teria competido com ela.

 

O experimento prosseguiu ao longo de um ano. O mercado global sofreu, nesses doze meses, queda de 16%. Nesse período, o analista perdeu 46,2% do investimento original. A astróloga perdeu 6,2%. A menina lucrou 5.8%.

 

Naturalmente, o valor científico dessa experiência é nulo. Seria preciso convocar algumas centenas de analistas, de astrólogos e crianças para eliminar fatores como a possível incompetência do investidor escolhido. Mas não custa tentar. Wiseman disse que testes semelhantes foram feitos entre analistas e um chimpanzé, que lançava dardos num alvo. O Wall Street Journal gostou da idéia e tem uma “carteira de dardos” cujos resultados, segundo Wiseman –mas aí sua formulação é um pouco escorregadia—“com freqüência” são melhores que os de um time de especialistas.

 

A descrição de toda a experiência está nas páginas de Esquisitologia – A estranha psicologia da vida cotidiana, livro de Richard Wiseman que acaba de sair em tradução brasileira pela editora BestSeller.

 

  link da ilustração: http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=33650607 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h34

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

Linha de passe

Linha de passe

Sem ser um grande acontecimento cinematográfico, o fato é que “Linha de Passe”, de Walter Moreira Salles e Daniela Thomas, vai despertando suas polêmicas. Escrevi a favor do filme, na “Ilustrada” desta quarta-feira (assinantes podem ler aqui).

 

No domingo, Marcos Augusto Gonçalves tinha um artigo com opinião bem diferente, que li antes de escrever o meu e que terminei sem citar. É que eu entraria em outra discussão, que só mencionei de passagem. Acho que de fato todo mundo está cansado de ver pobreza no cinema nacional, e Marcos Augusto tem razão em manifestar sua impaciência diante de filmes que, afinal, não acrescentam muito ao que ele já sabe a esse respeito.

 

Minha surpresa, entretanto, foi outra: pensava que teria pela frente mais um exemplo do cinema emotivo de Waltinho, e o que vi foi um filme duro, seco, difícil de assistir. Claro que isso, por si só, não constitui mérito. Mas continuo achando que, ao contrário de outros filmes de pobre, o que incomoda em “Linha de Passe” é mais a realidade, ela mesma, do que a obra.

 

Marcos Augusto critica a “estetização” operada por Walter Salles e Daniela Thomas:

 

Como qualquer outro, também o filme de Daniela e Waltinho "estetiza" seu objeto. No caso, uma estetização na qual a parafernália cinematográfica é mobilizada para se ocultar, criando uma ilusão documental de neutralidade, uma aparência despojada, que nos mostraria "a vida como ela é". Mais do que isso, o tratamento ascético envolve a família da periferia num véu de respeito e pudor puritanos, que nos dissuade de formar um juízo crítico sobre seus integrantes.

Bom, ai é questão de opinião, mas para mim nenhum dos personagens do filme ficou a salvo de juízo crítico. O rapaz que, já meio fora da idade, ainda sonha em ser jogador de futebol não me inspira ondas de compaixão. Quando ele é mostrado vendo pencas de ofertas de emprego, meu juízo sobre ele oscila: talvez devesse desistir de ser um craque, talvez não. Pude ver suas atitudes criticamente, e também entender seu ponto de vista. A subjetividade do personagem está diante de mim –coisa que desaparece quando o cinema trata os pobres simplesmente como vítimas.

 

Na verdade, o filme de Daniela e Waltinho tem de interessante justamente o fato de que “o Sistema” ficou muito em segundo plano, coisa que não se pode dizer nem mesmo de “Cidade de Deus”, um filme que ainda assim achei melhor. Os pobres não são idealizados, nem envoltos de ridículo e grotesco, como tantas vezes acontece. E discordo muito das opiniões de que os ricos, no filme, são apresentados como piores do que os pobres. Daniel Piza escreveu isso no “Estadão” de domingo, e Marcos Augusto também:

 

Diferentemente dos representantes da elite, malvados, drogados ou pusilânimes, os pobres são sempre vítimas, e devemos desculpá-los, mesmo que se comportem de maneira irritante, como a pateta mãe corintiana, já crescida e experiente o bastante para arrumar e manter uma gravidez àquela altura do campeonato (sem trocadilho).

 

Talvez eu esteja errado de novo, mas o filme justamente nos induz a considerar que aquela mãe é meio pateta mesmo! Poderiam mostrá-la como apaixonada, como cega diante da inutilidade de seus filhos, como uma otimista comovente... Mas o roteiro trata-a com frieza. E não sei de figurinha menos simpática do que aquele pré-adolescente xingador, cuja pobreza não me faz minimamente compreensivo diante da teimosa estupidez de seu comportamento.

 

Agora, concordo com o que Marcos Augusto diz no final do artigo:

 

... acho difícil que estejamos diante de uma obra, como declarou o diretor à Folha, capaz de, "20 anos depois", nos dizer de "onde viemos, quem somos e para onde estamos indo". "Terra Estrangeira" atingiu essa dimensão, mas "Linha de Passe" parece ter chegado atrasado no "momentum" do Brasil de Lula e do pré-pré-Sal.
Sem dúvida, "Cidade de Deus" é o filme que, nesta década, melhor terá cumprido o papel de fixar um ponto de referência na linha do tempo da memória nacional (e, por favor, basta com essa conversa de "cosmética da fome”).

 

Talvez seja este o ponto. “Linha de Passe” chega mesmo atrasado no Brasil de Lula. A pobreza diminui, o emprego aumenta, eu me sinto menos culpado de não dar esmola ao primeiro que aparece, e quem sabe os filmes de pobres estejam mesmo com os dias contados. Termino do jeito que terminei o artigo de quarta: que assim seja.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h56

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Em cartaz | PermalinkPermalink #

"Sensemayá", de Nicolas Guillén

"Sensemayá", de Nicolas Guillén

Para continuar com o CD “Fiesta!”, vai aqui, sem tradução, o poema “Sensemayá”, do cubano Nicolás Guillén, “canto para matar uma serpente”, que inspirou a música de UOL Busca Silvestre Revueltas.

 

Mayombe-bombe-mayombé!

Mayombe-bombe-mayombé!

Mayombe-bombe-mayombé!

 

La culebra tiene los ojos de vidrio;

la culebra viene, y se enreda en un palo;

con sus ojos de vidrio en un palo,

con sus ojos de vidrio.

La culebra camina sin patas;

la culebra se esconde en la yerba;

caminando se esconde en la yerba,

caminando sin patas!

 

Mayombe-bombe-mayombé!

Mayombe-bombe-mayombé!

Mayombe-bombe-mayombé!

 

Tu le das con la hacha, y se muere:

dale ya!

No le des con el pie, que te muerde,

no le des con el pie, que se va!

 

Sensemayá, la culebra,

sensemayá.

Sensemayá, con sus ojos,

sensemayá.

Sensemayá, con su lengua,

sensemayá.

Sensemayá con su boca,

sensemayá!

 

La culebra muerta no puede comer;

la culebra muerta no puede silbar:

no puede caminar,

no puede correr!

La culebra muerta no puede mirar;

la culebra muerta no puede beber,

no puede respirar,

no puede morder!

 

Mayombe-bombe-mayombé!

Sensemayá, la culebra...

Mayombe-bombe-mayombé!

Sensemayá, no se mueve...

Mayombe-bombe-mayombé!

Sensemayá, la culebra...

Mayombe-bombe-mayombé!

Sensemayá, se murió!

 

 

                                         Pode parecer “primitivo” demais este poema, com tantas repetições. Mas está na linha do “Tyger” de William Blake, ou das histórias de Kipling no “Livro da Jângal”.

 

Sobretudo, acho que Guillén joga com um contraste entre duas coisas: primeiro, a confiança no poder mágico das palavras, em seu poder de exercer algum tipo de encanto maligno sobre o inimigo.

 

 Segundo, a figuração da impotência (a cobra morta não pode beber, não pode respirar, não pode correr, etc.) que, atribuída ao inimigo, não deixa de ser, na verdade, a do próprio enunciador do sortilégio. Sabendo-se amedrontado e impotente, canta imaginando a impotência do seu algoz. Muy latinoamericano. Continente em que, muitas vezes, a cobra morde o próprio rabo.

 

Seja qual for a interpretação, o fato é que ouvindo de novo a música de Silvestre Revueltas, as palavras “mayombe-bombe-mayombé”, respondidas por “sensemayá”, encaixam bem no motivo inicial da percussão e na interjeição aguda dos metais que termina a peça.

 

Nicolás Guillén, em foto de geminipoet (flickr) 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h15

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | música | PermalinkPermalink #

Gustavo Dudamel

Gustavo Dudamel

Algumas novidades na área dos CDs de música clássica.

 

A revista The Gramophone de outubro coloca novamente entre os destaques do mês uma gravação da Osesp, com John Neschling regendo os Choros 1, 4, 6 e 9 de Villa-Lobos, pelo selo BIS. Já não é a primeira vez que eles se encantam com as Bachianas e os Choros na versão da Osesp, e um trecho está selecionado no disquinho que acompanha a revista.

 

Antonio Meneses e Menahem Pressler, com a integral das obras para violoncelo e piano de Beethoven, recebem “cinco estrelas” da revista francesa Diapason de setembro, mas os elogios recaem principalmente sobre Pressler. O violoncelista brasileiro é acusado de uma “relative impersonnalité”, já notada na sua gravação das suítes de Bach, e de uma sonoridade “um pouco tolhida”.

 

Mas o grande destaque de outubro, voltando à The Gramophone, é o novo projeto de John Eliot Gardiner, conhecido maestro da linha “historicamente informada”, responsável por uma série ainda em andamento das cantatas completas de Bach. Gardiner resolveu gravar as sinfonias de Brahms, e o trecho do último movimento da Sinfonia no.1, que consta do CD-brinde da edição, mostra que não houve exagero em classificar sua interpretação de “revolucionária”.

 

Sumiu o peso e a pasta da orquestra brahmsiana; ocorre como naqueles quadros de velhos mestres, que um belo dia alguém resolve limpar, e o colorido renasce inteiramente. Gardiner tirou, por assim dizer, o “pedal” da orquestra; o resultado poderia ser apenas seco, mas não é. Menos Wagner, mais Bach e Mozart, que afinal estavam muito mais próximos de Brahms do que nos acostumamos a pensar.

 

Em todo caso, mesmo para quem não gosta de música clássica, o grande “hit” dos últimos meses é o CD “Fiesta!” da Deutsche Grammophon, que traz o prodígio venezuelano Gustavo Dudamel, numa gravação ao vivo à frente da Orquestra Jovem Simón Bolivar, com peças sinfônicas latino-americanas.

 

É coisa para se botar no carro no máximo volume, ignorar o trânsito e dispensar o uso da buzina. A música buzina sozinha, e maravilhosamente. Nem todas as obras têm grande qualidade como composição.

 

As “Variações Sinfônicas (Margariteña) do venezuelano Inocente Carreño (1919-) estão no meio do caminho entre Heckel Tavares e Francisco Mignone, com aqueles efeitos cinematográficos de aurora no altiplano que, embora agradáveis de ouvir, logo enjoam pelo que trazem de apelativo. “Fuga com Pajarillo”, do também venezuelano Aldemaro Romero (1928-1977) é uma bachiana villalobística mais frouxa que o original.

 

Mas o CD abre com “Sensemayá”, uma forte e importante obra do mexicano Silvestre Revueltas (1899-1940), que com todo o atrativo rítmico da “latinidad” não dispensa um pathos realmente trágico, quase sangrento, numa espécie de ritual hipnótico noturno a que Dudamel contribui com toneladas de pura energia. Conhecia outras três gravações desse grande clássico da música mexicana, mas nada se compara ao que ouvi neste CD. É como se a Orquestra Simón Bolivar fosse um enorme bicho, que recua e renasce, que silencia e ruge, nas mãos de Dudamel; a construção do clímax, a “narrativa musical” de “Sensemayá” ganha um sentido e complexidade que vão muito além dos esforços de acumulação buzinante de outros intérpretes.

 

Dudamel tem sido a sensação entre os jovens maestros aparecidos nos últimos anos, mas ultimamente anda recebendo algumas críticas menos favoráveis; lançou um disco de Mahler e deu concertos que alguns reprovaram, vendo nele certa imaturidade. Não sei. Nas outras peças de “Fiesta!” mais significativas musicalmente, como a suíte do balé “Estancia”, de Ginastera, o resultado deslumbra, do controle da linha na “Dança do Trigo” ao eletrizante “Malambo” final. Impossível ficar indiferente diante dessa explosão de sons, da alegria que cada instrumentista parece transmitir ao tocar a música, magnificamente gravada pela DDG.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h38

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | música | PermalinkPermalink #

voltaire de souza

Andei sumido nestes dias, escrevendo outras coisas de que depois dou notícia. Enquanto isso, nas crônicas do "Agora" do mês de setembro, assuntos como grampos e a proibição do fumo são abordadas por Voltaire de Souza.

 

 

CAUTELAS DE CAMPANHA

 

 

Grampos. Escutas telefônicas. Operações policiais.

Entre alguns políticos, o clima é de paranóia.

Curvelo era candidato a vereador numa importante cidade paulista.

Reuniu os assessores.

--Pessoal. As finanças da campanha...

Cruzou dois dedos em cima da boca.

--Entenderam?

Os assessores concordaram com a cabeça.

--Tem mais. Qualquer encontro com o Vocês-Sabem-Quem...

Curvelo olhou para os lados.

--Sigam estritamente o que está neste livrinho.

Cópias de uma publicação foram distribuídas aos presentes.

Manual da Linguagem dos Surdos-Mudos.

Na página de trás, uma foto do candidato.

“Curvelo. Este defende os interesses do deficiente auditivo.”

--E vamos em frente. Que esta campanha está no papo.

As palavras de um político podem ser muito enganosas.

Mas o silêncio, muitas vezes, é a maior mentira.

 

UM FUTURO MELHOR

 

 

Candidatos. Promessas. É o horário eleitoral.

Adílio tinha no rosto um sorriso amargo.

--Como é que alguém pode ficar vendo essa porcariada?

A política nada dizia para o rapaz.

--Tudo a mesma coisa. Nem vale a pena.

A televisão ficava ligada enquanto ele cortava as unhas do pé.

--Construiremos muito mais hospitais...

--Ah, tá bom. Claro.

--Com honestidade e competência.

A ladainha começou a dar sono em Adílio.

Ele foi jogar as lascas de unha na área de serviço. Na volta, uma cerveja.

Adílio fechou os olhos escutando a conversa sobre merenda escolar.

Acordou com um grande susto.

--Os paralíticos vão andar. Câncer e outras doenças serão curadas. Aqui mesmo.

--Caramba. Esse candidato está exagerando mesmo.

Não era mais o horário político. Era um programa religioso da madrugada.

É que a alma humana é como as escolas da prefeitura.

Precisa sempre de muita merenda para ser feliz.

 

 

 

 

 

FUTURO AMARGO

 

O Brasil avança no rumo de uma nova era.

Petróleo às pampas. Na camada do pré-sal.

O doutor Laurino dava um sorriso triste.

--Não vou viver para conhecer essa maravilha toda.

Aos setenta anos, ele sofria de problemas de pressão.

--Eu estou na fase do pós-sal.

De fato, o médico tinha sido bem claro.

--Corte o sal. A pimenta. Café. Azeitona. E álcool.

A família tinha de agüentar o mau-humor de Laurino.

--Não me dão café? Quero então um copo de gasolina.

Pela TV, apareciam anúncios da Petrobrás.

--Tomo um brinde pela saúde de vocês. Gasolina. Morro e pronto.

Veio uma dor do lado esquerdo. Laurino fechou os olhos.

Na tela da TV, apareceu a imagem de Getúlio Vargas.

--Laurino... para sair da vida, é preciso entrar na História.

Laurino não morreu. Na UTI, sondas diversas fazem prospecções esperançosas em seu organismo. A enfermeira Jeilza deixa ele comer umas azeitonas escondido.

A esperança é como o sal. Cortá-la totalmente tira o gosto de viver.

 

OUVIDOS ATENTOS

 

 

Combater os crimes de colarinho branco é uma necessidade.

Ranulfo era agente federal. Ele acabara de receber um equipamento de última geração.

--Com esse brinquedinho aqui, ninguém me segura.

A pasta era do tipo 007. Contendo um poderoso aparelho de escuta telefônica.

Ranulfo estacionou a van perto da mansão de um conhecido empresário.

--Vamos ouvir um pouco o que o J. P. do Prado anda aprontando.

A conversa tinha detalhes comprometedores.

--Cuidado para não vazar... Faz o seguinte.

Do outro lado da linha, uma voz feminina respondia ansiosamente.

--Fala mais alto, J. P., que eu não estou ouvindo.

--Vai ter de molhar a mão... claro. Diminuir as resistências.

--Xi, J. P.... Sujou tudo.

--Não faz mal. A lavagem a gente faz depois. Agora, me diga...

--Ainh... ainh... ai... ai... isso é bom demais.

--Vai que eu vou também... Eu te amo, Michelly.

Não era crime financeiro. Era tele-sexo. Ranulfo espera ter mais sorte da próxima vez.

É que a safadeza humana é como um aparelho celular.

Tem muitas teclas. E só se usa uma de cada vez.

 

TUDO PERMITIDO

 

 

O cerco contra os fumantes cresce a cada dia.

Nas Empresas Reunidas J. P. do Prado, era tempo de mudanças.

--Vamos proibir o fumo. Em todos os locais.

Cuidar da saúde dos funcionários é dever de toda empresa moderna.

J. P. do Prado em pessoa fez questão de assinar a medida.

--Cigarro eu não permito. Mas charuto é comigo mesmo.

Acendeu um caríssimo Patanegra Duplo trazido de Cuba.

--Vamos aos próximos assuntos.

A secretária Norma Sílvia começou a falar baixo.

--Há suspeita de que o senhor foi grampeado.

--Não pode ser. Fiz a varredura na semana passada.

J. P. apagou o charuto nervosamente na borda do aquário de peixes tropicais.

Incinerando na hora a minúscula câmera instalada ali.

Um cheiro de queimado. Curto-circuito. Apagão.

O empresário raciocinou com rapidez.

--Vamos aproveitar, Norma Sílvia. Que ninguém está filmando.

Somente os peixes silenciosos assistiram à tórrida cena de sexo.

O amor é como a arapongagem. Quando se quer, tudo é permitido.

 

ARES DO PASSADO

 

 

Fumar ou não fumar? A decisão é de cada um.

Mas o governo resolveu dar uma ajuda. Bares e restaurantes terão de banir o cigarro. O sr. Pierre era proprietário de um simpático bistrô.

--Prrroibirr o cigárr. Isse é absurrrd.

Parece que andaram fazendo o mesmo em Paris.

--Non é mais o meu vélhe Parri.

Uma onda de saudade tomou conta de Pierre.

--Minha Fráánç... e Marriluu... minhontiig namorráád...

O devaneio era intenso. Mas novos fregueses exigiam atenção.

Em meio à fumaça dos cigarros, Pierre julgou ver um rosto conhecido.

--Os ólhos néégrrrs... o furrrinh no quêix... o cabél currtinh...

Os olhos de Pierre encheram-se de lágrimas.

--Marriluu... mon amour. É você?

Não era a antiga paixão. Era o DJ Jimmy Boy. Rapaz de traços delicados e grande sucesso no avançado mundo das baladas paulistanas.

Com Jimmy, Pierre agora descobre os prazeres da goiabada com queijo e da comidinha simples do interior.

A sexualidade é como o cigarro. Tudo é uma questão de opção.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h12

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O blog de Saramago

O blog de Saramago

http://caderno.josesaramago.org/

Começou neste setembro, com ataques a Berlusconi, Bush e José Maria Aznar... Para os fãs.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h59

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Link | PermalinkPermalink #

ignorâncias, parte 2

Ainda sobre o assunto do post anterior, alguns leitores fizeram coro às minhas queixas contra o livro de Stephen Hawking, desastre em matéria de didatismo. Foi-me sugerida a leitura de um livro de Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo. Do autor, eu conhecia Crônicas de Um País Bem Grande, sobre os Estados Unidos, verdadeira delícia de inteligência e observação jornalística. Acho que é uma ótica dica.

O mesmo leitor que sugeriu Bill Bryson fez ele próprio um site com perguntas sobre nutrição, que pode ser acessado aqui. Exemplo de questão a que ele responde: "O que é o malte"? Boa pergunta. Só recentemente aprendi o que é o glúten, que até pouco tempo atrás vivia para mim num limbo entre os glúons e os glúteos. Tudo isso, como o nome indica, deve estar ligado de alguma forma.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h19

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Prótons e olhos castanhos

Nesta quarta, comentei um pouco na Ilustrada a inauguração (é este o termo?) de um gigantesco acelerador de partículas na Suíça, e aproveitei para reclamar do ensino de ciências na escola. Segue-se um trecho do artigo. Assinantes podem ler a íntegra neste link.

 

...ocorrem-me algumas perguntas que qualquer aluno de sétima série deveria fazer; e me parece grave que não surjam com freqüência na sala de aula.

         Não me refiro à clássica questão, esta sempre repetida, do “para que serve essa joça?”  Passo por cima disso, e vou a alguns casos concretos. Por exemplo. Todos nós aprendemos as leis de Mendel, e o famoso exemplo das ervilhas de casca rugosa e lisa, logo em seguida transposto para a genética humana: olhos azuis são recessivos, olhos negros são dominantes.

         Todo mundo entendeu? Então, dá-lhe lição de casa. O que me espanta é que ninguém pergunte ao professor, numa hora dessas, como fica o caso dos que têm olhos castanhos, ou de um verde amarronzado... Deve haver explicação para isso; envergonho-me de nunca tê-la solicitado.

         Aprender o modelo torna-se mais importante do que qualquer questionamento. Duas coisas morrem nessa sala de aula: o espírito de inquirição científica e o respeito aos fatos da vida real.

         Outro exemplo. A gente aprende na escola que a carga positiva atrai a negativa, e até nos dão uns ímãs para provar que é impossível juntar seus pólos positivos. Na aula seguinte, estamos aprendendo sobre átomos, e no célebre núcleo encontramos um grupo de prótons grudadinhos um no outro.

         Novamente, ninguém levanta a mão e pergunta por que, dentro do núcleo, o positivo está grudado com outro positivo.

 

 

Um leitor me mandou e-mail ajudando a entender a questão dos prótons. Eis o que ele escreveu.

 

No seu artigo de hoje você acabou tropeçando no mecanismo da bomba atômica! Os prótons do núcleo estão de fato se repelindo tremendamente e louquinhos para sair dali. A idéia da bomba é basicamente dar uma pancadinha no núcleo para permitir que eles escapem. Quando saem um para cada lado eles colidem com outros núcleos permitindo a liberação de mais energia, numa reação em cadeia.

A
energia liberada na explosão da bomba é justamente é energia de repulsão entre prótons, que estava armazenada no núcleo.

Por que os prótons ficam presos no núcleo? Porque a regra de que cargas iguais se repelem só vale para a força eletromagnética. Dentro do núcleo, devido ao fato dos prótons estarem extremamente próximos, uma outra força chamada força forte entra em ação. Ela é muito mais forte que a eletromagnética e é apenas atrativa.

Infelizmente, não duvido que muitos dos professores de colégio não saibam disso.

Donald em dúvida diante de uma bomba atômica.

 




Escrito por Marcelo Coelho às 11h47

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ionesco para crianças

Ionesco para crianças

Não apostaria nada nos contos de UOL Busca Ionesco para crianças, livro que a editora Martins acaba de lançar. Mas a gente se engana.

 

  Folheei o livro antes de lê-lo para meus filhos. São duas histórias, baseadas num truque verbal básico. Na primeira história, um mesmo nome próprio –Jacqueline—se aplica a dezenas de pessoas, criando estruturas repetitivas: “a senhora Jacqueline tinha três filhas, Jacqueline, Jacqueline e Jacqueline”... etc. Na segunda história, os substantivos comuns trocam de lugar: “cadeira” passa a significar “janela”, “torrada” passa a significar “abajur”, e assim por diante.

 

Achei que meus filhos não haveriam de se interessar demais pelo livro. Mas ambos –seis e quatro anos—adoraram. Provavelmente é o primeiro livro que os dois  puderam curtir ao mesmo tempo; em geral o que é bom para o menor já se tornou infantil demais para o outro. Ajudados pelo sono, não pararam de gargalhar e de fazer, por conta própria, as brincadeiras verbais sugeridas por Ionesco.

 

As ilustrações de Etienne Delessert são bonitas, ainda que um pouco bizarras, na linha de uma cultura popular centro-européia de cores muito fortes e figuras rubicundas, sem perspectiva tradicional. Mas que importa a opinião de um articulista? Meus filhos certamente recomendam.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h24

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pais e filhos | PermalinkPermalink #

Obama, Mc Cain? Vote aqui

Repasso o link para um site no qual cidadãos de todo o mundo podem brincar de votar para presidente dos EUA. Adivinhe quem está ganhando.

http://www.iftheworldcouldvote.com/ 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h46

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

dupla nostalgia

dupla nostalgia

Os ligados no mundo "fashion" já devem ter ouvido falar do estilista Paul Smith; eu não. Vi apenas que ele tem uma loja em Londres, que nestes dias está pondo à venda os trabalhos artesanais de Boku Matsumoto. São incrivelmente graciosos e delicados. Matsumoto "traduz" em madeira coisas que nunca foram feitas com esse material. Lâmpadas, pregos, máquinas de costura, fornos de microondas... Tiro do site de design e arquitetura dezeen esta foto de uma máquina de escrever. O objeto em si já está relegado aos museus; construído em madeira, renova-se como numa espécie de sonho de brinquedo antigo.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h49

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pizzas e cia. | PermalinkPermalink #

fotografia paulistana

fotografia paulistana

Algumas imagens bem bonitas de São Paulo fazem parte do circuito de fotografia contemporânea que está em cartaz no Shopping Iguatemi. Claudio Edinger brinca com uma espécie de foco "lambe-lambe" nesta imagem do Parque Trianon, em que a realidade registrada no plano médio se torna quase que uma moldura ficcional, de cenário, no primeiro plano, e a figura do homenzinho andando no meio do caminho parece magicamente diminuir.

Nesta outra foto, também a falta de foco parece ter o efeito de redimensionar os objetos e o cenário urbano, tornando-o quase uma maquete, um brinquedo irreal:

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h08

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Em cartaz | PermalinkPermalink #

Grampolândia e terror de Estado

         Falo das inquietações em torno da "grampolândia", no artigo de hoje para a Ilustrada. Assinantes podem ler aqui. Seguem-se mais alguns parágrafos sobre o tema, que acabei não aproveitando na versão impressa.

 

Desconfio, em primeiro lugar, do termo utilizado nos últimos tempos para caracterizar o quadro vigente. Fala-se em “Grampolândia”. O termo serve para indicar um regime de terror policialesco; mas suas conotações, as associações imaginárias que suscita, são de outra natureza.

         Em tese, “Grampolândia” equivale a um estado de festa, onde qualquer pessoa está sujeito a ter suas conversas íntimas pelo telefone reveladas aos quatro ventos.

         No sufixo “lândia” há certamente a conotação de divertimento associada à Disneylândia; ou seja, trata-se de um reino de prazeres impunes, espécie de bufê infantil próprio a grande lambuzeira de denúncias, na qual se esbaldam legiões de paparazzi auditivos.

         Não há nada de especificamente assustador no termo: tampouco a atividade dos paparazzi, embora sem dúvida baixa e imoral, representa algum tipo de ameaça sinistra contra os direitos do cidadão.

         De modo que, à primeira vista, “Grampolândia” parece uma palavra vagamente fabulosa, mais associada a um gozo proibido e indiscreto do que à violência do Estado contra o cidadão.

         Houve horror, entretanto,  diante do grampeamento de uma conversa entre o presidente do STF e um senador do DEM. Falou-se em “Grampolândia” como se fosse algo entre Abu Ghraib, o Gulag e Buchenwald.

         Gozo e horror nem sempre são coisas distintas na psicologia humana, e a ficção orwelliana de um Grande Irmão atento a tudo parece, hoje em dia, ao mesmo tempo assustadora e divertida; é uma ameaça genérica e um entretenimento concreto,transmitido em horários marcados de TV.

         Neste quadro, tenho algumas distinções conceituais a propor.

         Uma coisa é o Estado Totalitário, onde a espionagem e a delação se constituem num sistema contra o cidadão comum, capaz de movimentos incômodos de dissidência.

         Em situações desse gênero, bem caracterizadas num filme como “A Vida dos Outros”, por exemplo, surgia um aparato como a “Stasilândia”, onde o Partido Comunista sabia de qualquer movimento encetado pela oposição.

         A “Grampolândia” brasileira nada tem a ver com esse totalitarismo da “Stasilândia” comunista. Acredito, aliás, que esta última não é mais possível na sociedade contemporânea.

         Em primeiro lugar, os grampeados não são os dissidentes, os intelectuais de oposição. Os indivíduos que têm de tomar cuidado com as próprias conversas ao telefone são ministros, juízes, empresários. O grampo se dá contra os de cima, não contra os de baixo.

         Em segundo lugar, há uma diferença enorme entre uma época em que apenas a polícia estatal tinha acesso à tecnologia de espionagem, e uma época em que essa tecnologia está à disposição de qualquer pessoa que circule pela rua Santa Ifigênia.

         O sacro império do mercado, nesse sentido, mostra seu poder contra o potencial intimidador do Estado. Se o Exército ou a Abins são capazes de comprar maletas especialmente eficazes na escuta de conversas pelo telefone de um suspeito, este mesmo suspeito pode comprar, na mesma esquina, a maleta que comprovará o nome de quem o bisbilhotou ilegalmente.

         De modo que a tecnologia e o mercado asseguram, sobre o domínio totalizante do Estado, suas vacinas de equilíbrio e contra-informação.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h13

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

poesia do encontro

poesia do encontro

Ainda sobre o assunto dos medos de criança de noite (ver post anterior), descubro em A Poesia do Encontro, livro-diálogo entre Rubem Alves e Elisa Lucinda, uma bela frase de criança.

 

Juliano, filho de Elisa Lucinda, aos quatro anos, lhe diz: ”Mãe, sabe por que eu gosto de você ser negra? É porque combina com a escuridão. Então, mã, quando é de noite, eu nem tenho medo, tudo é mãe, tudo é escuridão”.

 

O livro, fruto de um encontro informal entre o filósofo e a escritora, é uma entusiasmada defesa do ensino e da divulgação da poesia.

 

Elisa Lucinda faz vários recitais, aulas e palestras para estudantes e profissionais de todas as áreas, e narra as surpresas e transformações que os poemas declamados por ela podem trazer para as pessoas. Rubem Alves, leitor de Alberto Caeiro e da própria Elisa Lucinda, contribui com a originalidade e a clareza de suas reflexões sobre a educação e a experiência humana.

 

Não se trata de livro de teoria literária, mas de um convite a professores e pessoas da área para que confiem na sensibilidade dos seus alunos e no poder da imagem poética.   

Um trecho do diálogo pode ser visto aqui

Escrito por Marcelo Coelho às 01h30

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

Inseguranças noturnas

Inseguranças noturnas

         No começo, eram os pesadelos. Meu filho de seis anos acordava em pânico, no meio da noite; impossível não socorrê-lo. Talvez tenham sido estes os momentos de maior sofrimento pelos quais ele passou até agora. Ia dormir como quem vai ao matadouro.

        

Há uma espécie de competição entre os meninos da idade dele: trata-se de saber quem já viu os filmes mais aterrorizantes. Um colega do meu filho já tinha visto os Batmans mais sinistros, os Harry Potters mais lúgubres, aos quatro anos. Parece que dorme como um anjo. Para meu filho, tornou-se um desafio acompanhar os colegas no mundo do Além, isto é, o Além-Flintstones, o Além-Mickey.

 

         Os terrores noturnos terminaram exigindo providências: censuras, horários marcados. Diminuíram com isso os pesadelos, acho; mas o hábito de acordar de noite persistiu, e passou a ser seguido pelo meu filho menor.

 

         De modo que as noites terminavam mais movimentadas do que uma peça de Feydeau, com entradas súbitas no quarto do casal, desencontros e trocas de cama o tempo todo.

 

         Havia, sem dúvida, o desejo, de dormir junto com os pais. Escusado dizer que seria impraticável o “ménage à 4”. Quando os dois meninos começaram a acordar três, quatro vezes por noite, tendo de ser reconduzidos ao próprio quarto, enrolando ainda mais para dormir de novo, a situação ficou desesperadora.

 

         Quando tudo fica desesperador, em matéria de crianças, é sinal que a solução está próxima. Os limites de sobrevivência dos pais acabam ditando os limites para a vida dos filhos. Mas é muito difícil proibir uma criança, sozinha na semi-escuridão do quarto, de pedir socorro aos seus pais.

 

         Ocorreu-me uma hipótese, que no nosso caso se revelou correta. Nenhum dos dois meninos sabe ver as horas. O quarto deles não fica totalmente escuro; fazem questão de uma luzinha. Achei que, quando acordam no meio da noite, não sabem exatamente se já é dia ou não; pensam que já pode ser hora de acordar.

 

         Instalei um relógio digital, explicando que só poderiam nos procurar depois de aparecer o número 7 no visor. Antes das sete horas, teriam de esperar.

 

         Deu certo: salvo em casos de pesadelo extremo, eles não levantam mais. Parecem incrivelmente aliviados com a nova regra.

 

         Um amigo propôs a seguinte explicação: ainda que estejam angustiadas no meio da noite, as crianças sabem que isso tem um prazo para acabar. É possível que, antes da regra, vivessem numa incerteza gigantesca, sem saber sequer se seus pais ainda estão em casa, se desapareceram para sempre... Sabem, agora, que às 7 serão bem recebidos. “Bem recebidos” é exagero, mas vá lá.

 

         Depois de uma semana de vigência da nova regra, tiveram um prêmio: ganharam um aquário dentro do quarto.

 

         Símbolo, talvez, de barreiras e limites também. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h40

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pais e filhos | PermalinkPermalink #

Deslocamento

Deslocamento

 

Marge Piercy é poeta e romancista americana, nascida em 1936. De sua coletânea The Crooked Inheritance, traduzo um poema.

DESLOCAMENTO

Acontece num instante./Minha avó costumava dizer/tem alguém andando no seu túmulo.

É aquele momento em que sua vida/ fica de repente estranha para você/Como o casaco de alguma outra pessoa

que você levou de uma festa/ sem querer, e é muitísssimo/ mais largo ou mais estreito do que o seu número.

A sua vida parece desajeitada, não/ Serve direito. Você lembra por que razão /foi até a cozinha, mas

sente que não pertence ao lugar./Isso te amedronta de um jeito/remoto e surdo. Você tem medo que você

seja lá o que “você” quer dizer, esta mente,/esta entidade presa a um nome/ como mercúrio mergulhado na água—

perdeu a capacidade de entrar em si/mesma, uma chave que não funciona mais./ Talvez você vá ficar trancado/

para sempre do lado de fora, espreitando/ seu corpo, se esse si mesmo for mesmo/ O que você for. Se você ainda for.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h26

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

Ensaio de dança

Ensaio de dança

Hoje estréia em São Paulo o primeiro espetáculo da São Paulo Companhia de Dança, planejada para ser uma espécie de Osesp do balé no Estado.

 

Sou como o compositor Amilcare Ponchielli, que teve de escrever música para dança certa vez (era um intermezzo em sua ópera “La Gioconda”), e sofreu muito com a tarefa, dizendo “io non capisco niente di gambe”.

 

O fato é que fui convidado para assistir a um dos ensaios da nova companhia, que apresentará uma coreografia inédita baseada na “Oferenda Musical de Bach”. Depois, pediram-me para escrever um texto sobre a experiência, e é o que reproduzo aqui. 

 

fotos Gal Oppido

 

Uma das coisas bonitas de ir a concertos é o momento em que, antes de qualquer música, os músicos da orquestra entram e começam a afinar os instrumentos. Aquele vasto organismo de madeiras e metais não está formado ainda; procura-se a si mesmo, como uma dispersa nebulosa de corpos negros, lampejos castanhos e sóis dourados, flutuando num espaço invisível entre o silêncio e o som.

 

         Vem de um instrumento o “lá” primordial; em torno dele, os demais haverão de gravitar. Ainda assim, uma força centrífuga se mantém ativa; cada instrumentista se desliga dos que o cercam, preocupa-se com determinada passagem mais difícil do concerto que virá, repete-a, brinca talvez com ela, exibe-se ou conversa consigo mesmo. O ouvinte reconhece, no caos que se refaz, um trecho ou outro da música já presente da memória: um arpejo que salta em arco rumo ao nada, um padrão rítmico que ensaia seus primeiros passos pelo palco, um trinado que foge bem depressa, um início de adágio que se espreguiça e logo depois desiste de continuar.

 

         Nunca tinha assistido a um ensaio de balé antes de ser convidado para conhecer os primeiros preparativos de “Polígono”, o espetáculo de estréia da São Paulo Companhia de Dança, com música de Bach e coreografia de Alessio Silvestrin. O próprio coreógrafo viera do Japão, onde trabalha, para instruir os bailarinos.

 

         Antes mesmo que o ensaio começasse, entretanto, pude ver numa sala contígua todo o corpo de baile em processo, digamos, de “afinação”. Os dançarinos se encontravam num desordenado ambiente de alongamentos, treinos, aquecimentos e conversas, entregues a si mesmos –aos próprios corpos--, ignorando em que instante seriam chamados a oferecê-los em dança e sacrifício.

 

         Temos o hábito de imaginar esse gênero de profissionais sempre em estado de prontidão para o espetáculo, para o encontro com o público. Ali, naquela sala de um prédio antigo no centro de São Paulo, estavam todos sós consigo mesmos,  desajambrados quase, pernas e braços soltos, desligados, meio sem música.

 

         Alienígena total nesse mundo do balé, minha reação foi a de pensar simplesmente que ali estava uma bela amostra de seres humanos. Para acrescentar em seguida: seres humanos do Brasil.

 

         Há bailarinos de outros países, soube depois; não importa, porque no Brasil há brasileiros nascidos em toda parte do mundo. Mas o predomínio de traços fisionômicos comuns –quero dizer, daqueles que encontramos pelas ruas da cidade—não deixava dúvida. Japonesa, loura, mulata, morena, pouco importa: uma longa fileira de havaianas em desordem, deixadas ao lado da entrada, assegurava que aquilo era uma companhia de dança brasileira.

 

         Se os instrumentos da orquestra, pensei em seguida, deixam-se afinar pelo “lá”, esses corpos se harmonizam pelo “aqui”.

 

         Todos iam logo se entregar à “Oferenda Musical” de Bach; mas já compunham, com seus tipos físicos, suas alturas, suas cores e caras diferentes, um contraponto próprio de tensões musculares e linhas elegantes; de pausas, de impulsos, de dúvidas, de vontades e de buscas.

 

         É o mesmo que acontece com São Paulo, e com o Brasil inteiro. Estamos, talvez, ensaiando todos, de forma mais dramática, por certo, mas também com difíceis “ricercares”, “cancrizans”, “inversiones”, “stretti” e “augmentationes”, uma obra que não tem prazo para terminar. A São Paulo Companhia de Dança estréia agora. Será bom se pudermos acompanhar seus passos.       

Escrito por Marcelo Coelho às 17h34

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Em cartaz | PermalinkPermalink #

Me grampeia que eu gosto

Está certo, é perigosíssimo saber que agentes do Estado detêm os meios para ouvir qualquer conversa telefônica. As preocupações em torno dos poderes da Abin são corretíssimas, mas tenho alguns pontos a discutir.

 

Em primeiro lugar, se eu fosse presidente do Supremo Tribunal Federal, minha atitude tenderia a ser oposta à do ministro Gilmar Mendes. Faria até questão de ser grampeado.

 

Afinal de contas, não haveria melhor maneira de dirimir as dúvidas a respeito de minha suposta proteção a Daniel Dantas, do que divulgar amplamente todos os meus contatos telefônicos. Se eu sou uma autoridade pública, e estou tratando de assuntos públicos, no meu gabinete público, a minha conversa telefônica é assunto público também.

 

A conversa entre Gilmar Mendes e Demóstenes Torres, a respeito de dificuldades com a CPI da Pedofilia, era ou não “privada”? As gestões do senador junto ao presidente do STF, divulgadas pela revista Veja, ou são absolutamente normais, e poderiam ser feitas pelas vias protocolares (ofícios, requerimentos, etc.), ou denotam um tipo de procedimento não-oficial, envolvendo pressões, usos de influência, etc., que não me parecem republicanos.

 

Em segundo lugar, por mais que se denuncie corretamente o descontrole dos arapongas, é praticamente impossível evitar escutas desse tipo. A “Folha” mostrou na edição de hoje que os equipamentos mais recentes dispensam qualquer gestão junto a empresas de telefonia, ordens judiciais e coisas do tipo. Simplesmente um carro estaciona nas proximidades do grampeado e consegue ouvir toda a sua conversa. Isso pode ser feito pelo governo, pela oposição, pela concorrência, e vazado à imprensa sem que nunca se saibam os responsáveis.

 

A única forma de reprimir esse tipo de coisa seria coibir, não a escuta, mas o vazamento público: ou seja, controlando a imprensa. Seria muito pior do que liberar a arapongagem.

 

Não vejo muita saída para esse dilema. O fato é que a imprensa, na medida mesma em que quer publicar aquilo que as autoridades querem esconder, está “objetivamente” do lado de quem faz a escuta, não do lado de quem pretende controlá-la. E, quanto mais as autoridades quiserem esconder coisas do conhecimento público, pior para o público.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h44

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

teatro submerso

teatro submerso

teatro submerso

No artigo desta quarta-feira, escrevi sobre dois livros de fotografia. Um, Paisagem Submersa, foi publicado pela Cosacnaify e mostra retratos tirados em comunidades do Vale do Jequitinhonha, que seriam inundadas para a construção de uma barragem.

 

Há um site belíssimo, e cheio de um sentimento silencioso de luto, com muitas fotos dos autores, João Castilho, Pedro David e Pedro Motta.

 

O outro livro foi lançado pelas editoras do Senac e do Sesc-SP, e traz 25 anos da carreira da fotógrafa Lenise Pinheiro. Lenise é uma pessoa muito querida no meio teatral, e alguns depoimentos que constam do livro, feitos por Bete Coelho, Ney Latorraca e Zé Celso Martinez Corrêa, atestam o carinho que sua figura benfazeja sempre inspira.

 

São fotos lindíssimas, e o grande formato do livro dá uma, digamos, “dramaticidade” maior do que a existente no blog “Cacilda”, meu vizinho aqui da Folha Online, que Lenise mantém junto com o crítico Nelson de Sá.

 

Zé Celso, em Os Sertões. Foto de Lenise Pinheiro

Juntei os dois livros porque ambos me trazem, na verdade, bastante angústia. Por mais que as cores, gestos e espetáculos das fotos de Lenise tragam a sensação de que o teatro é um grande ritual festivo, minha reação é sempre a de notar, antes de tudo, a fugacidade de tudo aquilo; acredito ter visto uns 10% dos espetáculos que ela fotografou, e ainda que tenha havido boas coisas nesses vinte e cinco anos, em especial, acho, Os Sertões de Zé Celso, sinto naquelas páginas do livro sobretudo certa agitação exagerada, como se o silêncio das fotos denunciasse o que houve de frágil naqueles esforços todos.

 

As velhas fotos de Freddi Kleeman, mostrando em preto-e-branco os atores dos tempos do TBC, ganham com o passar do tempo, pelo que havia ainda de glamur, de “classe”, naquelas poses e figuras. Atrizes e atores belíssimos aparecem, agora, vistos de perto por Lenise, mais maravilhosos até do que a memória dos últimos 25 anos deixava supor; uma Camila Pitanga que lembra Yoná Magalhães ou Cleide Yaconis, umas irmãs Falabella que parecem um quadro vivo, Bete Coelho estonteante, tudo isso está no livro.

 

Mas como, neste ano de 2008, não pertencem ainda ao passado completo, parecem ter, todos esses rostos, fugido de cena uma vez terminado o espetáculo, sem ainda ganhar o lugar definitivo da moldura e da recordação.

 

Sinto o livro como uma espécie de turbilhão, de redemoinho de imagens, umas recentíssimas, outras de ontem apenas, todas reveladoras da grande sensibilidade artística de Lenise, mas sobretudo de uma violenta ventania, que as aproxima, sem dúvida, de várias fotos de “Paisagem Submersa”, onde aquelas comunidades se deslocam, se desfazem, se dispersam, são expulsas de onde viviam.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h42

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.

free stats