Acabo de receber um livro que é misto de álbum de desenhos, coleção de poemas, fotos e letras de música. Vem com um CD junto. Seu autor é Bê Sant’Anna, pós-graduando em comunicação na PUC de Minas. Um dos primeiros textos me cativou de imediato, não só pelo humor, mas pelo que tem de visionário, sem perder nunca o tom coloquial, brasileiríssimo. Aqui vai:
Már-more
Pausa naquilo que chamo de mármore. Quem tem um mármore em casa sabe do que eu estou falando. Os mármores se uniram para calçar a dor. Foi um movimento silencioso que começou há mais de cinco mil anos. Tenho certeza de que já existia o sindicato do mármore. Eles já traziam em seu DNA de mármore o desejo interno de esfriar os pés descalços dos que sofrem de desespero ao acordar à noite depois de um sonho maldito e ir tentar pegar água na cozinha. “—É isso!”, eles pensaram, “vamos pegá-los quando estão mais indefesos: sonolentos, descalços, com bafo e cabelos desgrenhados!” Só pode ter sido um mármore que um dia iria se tornar um mármore de alguma sede de movimento comunista, ou algo do gênero. Sempre desconfiei dos mármores das sedes dos movimentos comunistas e esses mármores do gênero... Eles são terríveis. E não se enganem. Estão por toda parte. E com a difusão, com a chamada pseudo-pulverização do mármore na construção civil nos dias de hoje, sem dúvida, nossos dias estão contados. Vai chegar o dia em que eu vou entrar na internet e voilà: a tela do meu personal computer vai ser de mármore. Eu sei que tem gente nesse mundo que ainda nem pensou nisso. Acho até que muita gente. Mas pare e pense um pouquinho...: mármore... már-... mo-... re. Sacou? Ãhn? Bem, vou dar uma dica pros menos perspicazes. Afinal, eu demorei quase uns muitos anos para ver que estava logo ali, na minha cara e eu nem sequer notava: “mármore” começa com “mar”. “Comemore” termina com “more”, “morte” começa com “m” e termina com “e”, “amor” –bem, essa é mais complexa... você viu que essa palavra está no meio de mármore? “M á r mor e”. Sacou? E tirando o “amor” de “mármore” o que fica? Hein?!? M de “caMisa”, R de “enRedo” e E de “intenção”. Sacou agora? É. Isso deveria ter sido revelado antes. Mas não vou ser eu o profeta o final dos tempos. Só tem uma coisa que está entalada na minha goela e que eu faço questão absoluta de colocar para fora: (péra um pouco, na verdade, duas coisas) vão os dois pontos de novo: Primeira delas. Você sabe inglês? Már – “more”. Sacou? É como se fosse uma palavra secreta na própria palavra. E outra: tire a primeira letra “m” e as letras “r” de mármore. E coloque um “l”. Que tal?!? Não, burrinho, “lamoe” não faz sentido. Coloque o “l” entre o “o” e o “e”. Viu? “Amole”. Com essa, vou te deixar pensar por um bom tempo.
Uma lei apresentada na França procura diminuir o alcoolismo entre adolescentes. É sabido que nessa categoria de idade se organizam festas em que a cerveja é “na faixa”: você paga a entrada, e pode embebedar-se como quiser. A ministra da Saúde francesa, Roselyne Bachelot, propõe que esse sistema “na faixa” seja ilegal.
Quem quiser beber, que pague conforme a dose. É razoável.
Na Itália, está em curso uma reforma no sistema educacional. Desistiram de avaliar os alunos na base de “conceitos” –bom, satisfatório, aceitável, insuficiente—para voltar ao velho esquema de zero a dez.
“É mais claro”, diz uma professora. Sobretudo, na minha opinião, expressa que o professor deixa de ter medo diante das reações do aluno. O tal “insuficiente” pode, na prática, signifcar tanto quanto um três, um dois e meio, um quatro. Mas é sinal, acima de tudo, da timidez de uma autoridade encarregada apenas, sem nenhum abuso de poder, de dizer se o aluno vai bem ou vai mal.
O eufemismo que se revela na substituição da nota pelo “conceito” não tem outra conotação, a meu ver, do que esta: o fato de que o professor está intimidado diante do mau desempenho do aluno.
Ele sabe (e o aluno também) que os resultados daquele trimestre foram péssimos. Em vez de dar nota 2, ele dá “insuficiente”. Com isso, o professor se culpabiliza e se debruça sobre o aluno, a quem seria o caso de dar mais atenção. Não sou contra que se dê mais atenção a esse aluno. Mas a nota 2 terá, sobre esse aluno, o efeito de uma chamada às suas próprias responsabilidades que o “insuficiente” anula, pela mágica do paternalismo.
Mais importante do que isso, voltou na Itália a nota de comportamento. Subjetiva, inibidora, castradora, se quisermos, do “espírito crítico”. Mas indispensável, a meu ver, numa situação escolar em que alunos ameaçam os professores de violência física, e em que a mera ameaça de suspensão não traz nenhum efeito.
Seria uma medida simples a ser adotada em qualquer colégio público ou particular de São Paulo: sem boa média de comportamento, o aluno repete de ano.
É evidente que, hoje em dia, o problema dos educadores com os alunos não se concentra no fato de haver lições mal-feitas ou de se ir mal numa prova qualquer. O problema é que é fácil passar de ano, e que nenhum professor consegue elevar sua classe do plano da barbárie ao plano da civilização; este é o principal objetivo de toda escola, e fracassa quando tudo é frouxo e complacente demais.
Idéias italianas, e, portanto, idéias de Berlusconi. Quanto ao potencial fascismo dessa proposta, diga-se que a maioria dos professores italianos são favoráveis a ela, embora protestem violentamente contra outros aspectos da reforma, que prevê violentos cortes de mão de obra.
“Só conseguimos “viver” o belo artístico quando a sugestão que ele nos provoca se ajusta à nossa realidade sensível, isto é, àquilo que já conhecemos, que já sentimos sem poder comunicar ou exprimir e nos obriga à exclamação –“é isto mesmo!”—que é julgamento, experiência, e, portanto crítica” ( Rosário Fusco, Amiel, SEP, 1940).
“É isto mesmo!” – estranha exclamação diante de uma obra de arte; lembra aquilo que Drummond falou sobre o poder extremo que a poesia tem de “extrair de alguém seu mais secreto espinho”. E, certamente, o principal reparo que um crítico tem a fazer diante de uma obra talvez seja o de que “não é bem assim”...
Em tese, uma teoria “realista” da obra de arte: vejo um quadro retratando o porto de Santos, e digo “é isto mesmo!” Mas não há porque restringir a teoria ao parâmetro da realidade exterior. Basta mudar o complemento: “é isto mesmo... o que eu gostaria de ter visto; o que eu imaginei ter visto; o que eu senti ao ver.”
Com efeito, Rosário Fusco identifica essa “vivência” do belo artístico a uma idéia de expressão. “Você disse exatamente o que eu gostaria de ter dito”: às vezes, um leitor reage assim ao artigo que acabei de publicar. Isso me frustra em parte, porque gostaria de ter escrito alguma coisa que ninguém tinha pensado antes. Mas aí está, quem sabe, a diferença entre o “formador de opinião” e o cronista. Não se trata de mudar as idéias de ninguém, com novos argumentos e informações, mas de expressar convicções anteriores.
Nem sempre, nem sempre. Um artigo pode expressar idéias feitas, mas também simplesmente deixá-las em suspenso. De resto, há uma diferença entre a arte, que nessa teoria corresponderia a uma expressão da realidade sensível, e o artigo, que corresponderia à expressão de uma opinião. Talvez o que eu faça, quando acerto, é traduzir “opinião” em “realidade sensível”: expressar convicções através de metáforas, aproximações, associações. Mas isso é o que se chamava, antigamente, de retórica. Para fugir disso, diluo as convicções: mais vale uma metáfora verdadeira do que uma tese irrefutável.
Música dos Beatles não é comigo, mas meu filho maior, de seis anos, pegou gosto pela coisa. No carro, ele ouve “Imagine”, com a mãe fazendo a tradução simultânea. A letra fala de um mundo de paz e amor, e conclama o ouvinte: se você também quer isso, junte-se a nós.
O pequeno beatlemaníaco entra em desespero: “mas como eu vou fazer isso? Ele não deu o telefone... nem o endereço!”
Gostaria, como todo mundo, de ter o endereço.
Na falta, dou um link para o “médicos sem fronteiras”, que anda em campanha para ter doadores aqui no Brasil. www.msf.org.br. Tem o telefone também: (0xx21) 2215 8688.
Transcrevo alguns trechos do relatório das atividades de 2007, que recebi agora.
Em Darfur, onde temos uma forte presença, nós lutamos para chegar a certas áreas, nossos comboios são atacados e nossas instalações são saqueadas, inclusive nossos estoques de medicamentos.
Na Etiópia, tentamos em vão intervir na região de Ogaden, onde operações contra a insurreição antigovernamental levaram ao deslocamento da população local. Nosso acesso a essa região foi sistematicamente negado.
Nós ampliamos a presença de nossas equipes na Somália, especialmente em Mogadíscio e arredores, onde um terço da população fugiu da mais recente onda de violência. Contudo... nosso trabalho não é respeitado e deliberadamente atacado. Os recentes assassinatos de nossos colegas nos levaram a retirar nossa equipe internacional.
Eles têm 2386 profissionais na República do Congo, 1437 no Chade, 3147 no Sudão, incluindo Darfur, onde o número de deslocados é de 2,5 milhões de pessoas.
No Brasil, eles atuam no Complexo do Alemão, onde abriram um pronto-socorro.
foto tirada em Huddur, na Somália, pela enfermeira brasileira Kelly Cavalete
David Levine é caricaturista da “New York Review of Books” há mais de quarenta anos, e alguns leitores, entre os quais me incluo, tendem naturalmente a se cansar do mesmo tipo de traço, repetido edição após edição da revista, por mais talentoso que seja o artista. Uma galeria de Nova York, a Forum,
está com uma exposição dedicada aos retratos de presidentes e políticos americanos feitos por Levine; editou-se um livro também. Quando se vê o trabalho de décadas organizado num único eixo temático, o resultado é dos mais expressivos. A notícia recente é que Levine está ficando cego. Tiro do site da galeria alguns exemplos de suas caricaturas.
Se eu tivesse de apontar uma contribuição de Marta Suplicy ao progresso deste país, não hesitaria em destacar seu papel como sexóloga num antigo programa da Rede Globo, e tudo o que se seguiu, em sua carreira pública, no que diz respeito à luta pela liberdade sexual, pelos direitos da mulher e contra a discriminação dos gays.
Quando sua propaganda política pergunta, “inocentemente”, se Kassab é casado e se tem filhos, qualquer um percebe que a intenção é levantar dúvidas sobre a sexualidade do atual prefeito.
No desespero, a campanha de Marta procura obter votos graças ao possível preconceito que um prefeito gay despertaria nas parcelas mais obscurantistas do eleitorado.
É a negação brutal e sórdida de uma biografia que, acima das opções partidárias, fazia ainda de Marta Suplicy referência importante no campo das liberdades civis.
A baixaria levou a melhor. Marta pode continuar defendendo o casamento gay, e posando de progressista; dentro do armário está uma daquelas senhoras de Santana, apostando na velada “denúncia” de que o comportamento sexual de Kassab não é dos mais católicos.
Se não é, ninguém tem nada a ver com isso. A “denúncia” só teria sentido se Kassab alguma vez tivesse tomado medidas antigay na prefeitura. E mesmo assim seria questionável eticamente.
Desde que um representante do clã dos Tatto, forte em Santo Amaro, declarou que Alckmin não pisaria naquela região para fazer campanha (foi na última eleição presidencial, pelo que me lembro), obscurantismo, vileza e ameaça vão marcando a atuação política do “martismo” em São Paulo. Se já estava ruim para Marta a situação, cobre-se agora de uma vergonhosa traição ao papel que a candidata já representou na história deste país.
Quando soube que estava em cartaz (no Teatro Aliança Francesa) uma montagem para crianças do “Sonho de Uma Noite de Verão”, pensei que se tratasse de um espetáculo vagamente baseado na obra de Shakespeare, sem grande compromisso com o texto original.
Engano: a adaptação de Marília Toledo acompanha sem superficialidade nenhuma os passos da comédia shakespeariana, com todos os quiproquós e trocas de identidades exigidos pelo enredo.
Fato raro em teatro infantil, há uma dezena de atores no palco, e as brigas entre Titânia e Oberon, os comentários do povo das fadas, as desastradas preparações cênicas de Bottom, saem diretamente do texto de Shakespeare semexcessiva simplificação para um público cuja idade mínima, segundo a produção do espetáculo, é de 6 anos.
Sem dúvida, foi preciso cortar e adaptar bastante do texto: a peça dura cerca de uma hora e quinze minutos, que é tudo o que platéias infantis e adultas costumam agüentar hoje em dia.
Levei meus dois filhos, um de seis e outro de quatro anos. O menor logo quis sair, não só porque não estava entendendo nada, mas também porque se assustou com a corte de Titânia, vestida de farrapos verdes, menos grupo aéreo e fantástico de fadas que agremiação xamânica de forças irrefreáveis da floresta.
Não adiantou dizer que eram uma espécie de sacis; meu filho menor identificou-os rapidamente ao Mal.
Pior: entendeu que, daqueles poderes maléficos, vem o poder de criar os sonhos –menos devaneios de verão do que pesadelos, que ele temia antecipadamente.
Meu filho maior, dado o uso contemporâneo de se deixar a trilha sonora no último volume, assistiu boa parte da peça tapando os ouvidos. Já sei que isso é também sinal de medo.
Os figurinos, e a atitude dos atores (volto a abordar este ponto) tampouco o deixaram à vontade.
Foi uma surpresa, então, perceber no final do espetáculo que ele tinha absolutamente adorado toda a história. Adoraria mais, com certeza, se fosse alguns anos mais velho.
O medo que crianças menores podem ter dos personagens nessa montagem equivale ao medo generalizado que os adultos têm de Shakespeare, em qualquer encenação. Na Aliança Francesa, o puro prazer teatral é capaz de conquistar pais e crianças maiores.
Principalmente porque é difícil encontrar atores tão imersos, tão confortáveis, tão desinibidos nos seus papéis. Quem sabe Shakespeare sempre devesse ser representado assim: como se tudo fosse teatro infantil.
Os atores gritam, saltam, estão sempre mascarados, são “teatrais” como fantoches. É a artificialidade burlesca da atuação que deixa, na verdade, a poesia do texto aflorar como uma espécie de subproduto, enquanto na superfície o entretenimento mais direto se expõe sem medo no palco.
Talvez o teatro de Shakespeare tenha o mesmo poder daquele suco de flores que Puck respinga nos olhos adormecidos de Titânia: a rainha das fadas se apaixona por um camponês com cabeça de burro, do mesmo modo que o espectador se encanta, involuntariamente, com o que pode haver de absurdo, desconjuntado e grosseiro no texto.
A montagem em cartaz na Aliança Francesa radiosamente opera essa mágica difícil.
No artigo desta quarta-feira, escrevo um pouco sobre a crise americana e alguns textos de Brecht. Aqui vai o começo:
Barracudas são tubarões pequenos. Quando foi divulgado que Sarah Palin, a candidata a vice na chapa republicana de John Mc Cain, tinha o apelido de barracuda, lembrei-me de um texto de Brecht.
“Se os tubarões fossem humanos”, Brecht fez uma menina perguntar ao seu pai, “seriam mais gentis com os peixes pequenos?”
O pai da menina responde: “Certamente. Cuidariam para que as armadilhas para pegar peixinhos fossem construídas com todo o conforto... Nas horas vagas, dariam para eles aulas de arte e de moral.”
Ele continua. “Se os tubarões fossem humanos, naturalmente teriam guerras contra tubarões estrangeiros. E fariam seus próprios filhotes guerrear por eles.”
Sarah Palin, no seu triunfal discurso na convenção republicana, apontou para o rosto do próprio filho, que partiria no dia seguinte para a guerra do Iraque.
Não conheço muita coisa de Brecht, e lamento que tenha havido tão poucas peças dele em cartaz por aqui. Vi um “Galileu” com Renato Borghi, o “Ensaio sobre o Latão”, que encenava memoravelmente alguns textos teóricos do autor, mais uma ou outra coisa, e agora assisti em DVD ao filme baseado na sua “Ópera dos Três Vinténs”, que comento um pouco no artigo.
O filme, feito por Pabst em 1930, vem numa caixa com muitos extras, que ainda não consegui ver. Há a versão francesa da mesma produção, e explicações importantes sobre a briga entre Brecht e Pabst a respeito da adaptação.
É uma chance de ouvir as famosas músicas que Kurt Weill compôs para a peça, e de conhecer a figura de Lotte Lenya, a atriz brechtiana número 1, feinha que dói, cantora sem grandes recursos, mas perfeita para os papéis “distanciados” que o texto exigia.
Saiu também em DVD uma coletânea com entrevistas e cenas de Lotte Lenya, cantando (várias vezes) seus principais sucessos. Na segunda parte desse DVD, outra estrela do teatro brechtiano canta, atua e é entrevistada.
Trata-se de Gisela May, que, na TV pelo menos, surge com uma garra e uma violência maiores do que as da mitológica Lotte Lenya.
Em todo caso, é difícil não simpatizar com Lenya, depois de assistir ao monólogo que meu velho colega da “Folha”, Amir Labaki, escreveu para Mônica Guimarães. A peça está em cartaz no SESC Paulista, até dia 2 de novembro.
O espectador fica conhecendo bastante sobre a carreira e a personalidade da atriz. Filha de uma lavadeira, Lotte Lenya olhava pela janela os artistas de circo que ficavam acampados nos jardins do palácio imperial de Viena. Aos cinco anos, começou a apresentar-se no picadeiro.
Conheceu depois as maiores figuras do teatro de vanguarda em língua alemã. Sua descrição das estréias de algumas grandes peças de Brecht é fascinante, e bem valorizada no monólogo.
Apesar de toda a sua importância, Lotte Lenya surge como uma pessoa modesta, capaz de ficar dez anos só cuidando do marido, e de ver com lucidez, mas sem azedume, o caráter abrasivo de Brecht e as obsessões de Kurt Weill. A simplicidade de Mônica Guimarães no palco, sua ausência de estrelismo, corresponde bem a esse traço da personagem.
Lotte Lenya terminou sua carreira como vilã num filme de 007. Não via nisso nenhuma humilhação: contracenar com Sean Connery, para essa mulher feiosa mas muito sexual, valia a pena. Teve quatro ou cinco maridos: mas sentimos, nas indicações do texto de Labaki, sua essencial solidão –a de todo ser humano, afinal. Mas ela tinha o teatro. Uma das coisas mais pungentes da peça é sua narração das aparições do pai, bêbado, na sua cama de criança. O pai olhava para ela, e se lamentava. Anos antes, sua primeira filha tinha morrido ainda bebê. Chamava-se Lotte também. Não se conformava com essa perda. Deu o mesmo nome de Lotte à menina que nasceu depois, essa que conhecemos. Mas não perdia a ocasião para se mostrar insatisfeito com a nova Lotte.
“Passei a vida”, diz Mônica Guimarães, “representando papéis”; Labaki faz Lenya observar, lindamente, que o primeiro papel foi o de assumir um nome que não era o seu, para um pai que lhe foi o mais incontentável espectador. Abaixo, Gisela May, e depois Lotte Lenya.
Mais um debate entre Obama e McCain. Acompanho-o com muito menos interesse. Os dois repetem os mesmos pontos, acusando-se mutuamente em aspectos que já deram o que tinha de dar, como por exemplo a famosa idéia de que Obama estaria disposto a conversar “sem precondições” com o líder iraniano Ahmadinejad.
Na primeira parte do debate, evidentemente dedicada à crise econômica, nada de novo. Os dois candidatos repetem propostas do seu programa de governo, elaboradas antes do tsunami de Wall Street.
Pessoalmente, acho incrível que o debate se concentre na discussão entre o que um e outro fizeram no Senado, e não se levante com mais ênfase o imenso fracasso de George Bush em todos os campos. Se eu fosse Obama, vincularia mais a candidatura republicana ao governo Bush, no mínimo. Isso quanto aos ataques. Quanto às propostas, Obama me parece muito vago, falando no corte de impostos para 95% dos americanos, enquanto Mc Cain defende cortes para 100%...
Noto aliás um fenômeno curioso, que vem do debate entre os vices alguns dias atrás. Nos Estados Unidos, falar em “redistribuição de renda” é palavrão. Joe Biden, o democrata, teve de dizer que a proposta de manter taxação sobre ricos e diminuir a de pobres “não era redistribuição de renda”, e sim uma questão de “justiça”.
Outra coisa angustiante nos debates da CNN é o gráfico que fica rolando por baixo dos candidatos: mostra as reações (positivas ou negativas) de um grupo de eleitores independentes, que movem um aparelhinho a cada frase de cada debatedor.
É uma espécie de “Grande Irmão” eleitoral, tolhendo virtualmente (ainda que os candidatos não vejam o gráfico) qualquer liberdade de expressão. Nada se pode falar que represente algum prejuízo nesse “opinionômetro”.
Parece-me claro que, mais do que nunca, há um descompasso entre o discurso eleitoral e a profundidade dos problemas em jogo. Seria tolo esperar frases “antipopulares” dos candidatos, mas era legítimo esperar mais calor e intensidade no que eles falaram, dada a situação com que o próximo presidente terá de enfrentar.
No geral, o fato de ambos circularem pelo palco enfatiza ainda mais a fraqueza física, o cansaço de Mc Cain.
Ouço muita gente apostando no engajamento do presidente Lula no segundo turno das eleições. Tenho minhas dúvidas; pego o caso de São Paulo. É muito provável, somando-se os votos de alckmistas aos dos kassabistas, que Marta venha a perder no segundo turno.
Do ponto de vista de Lula, acho que seria muito risco engajar-se na campanha de Marta para depois se ver derrotado. Se ela ganhar, a vitória fica com o lulo-petismo de qualquer jeito. Por que haveria interesse, da parte de Lula, em obter uma “derrota grátis” no caso oposto? E em que medida Lula seria capaz de virar o resultado?
Eis um teste gostoso de fazer e bonito de ver. Trata-se de averiguar qual a sua acuidade visual na percepção de matizes e cores. Você tem de arranjar os quadradinhos conforme tendam mais, por exemplo, no rumo do azul ou do verde. Não é indicado para polemistas e blogueiros radicais. Tente aqui.
Sei que não vale dizer "eu tinha pensado nisso", mas encontrei um texto especulando sobre algo que eu gostaria de ter escrito... Se a crise econômica for mesmo uma debacle profunda do capitalismo americano, vale pelo menos como crítica dizer que tudo começou quando Bin Laden explodiu as Torres Gêmeas. Bush concentrou um poder enorme, gastou trilhões em guerras, desregulamentou a economia, etc., e finalmente o terror chega a Wall Street. Leia aqui.
Doralice Araújo, que visita com freqüência este blog, tem também o seu: mais do que simples dicas de redação, o leitor interessado encontra ali um verdadeiro curso prático de como escrever. Para vestibulandos, é uma ajuda imperdível.
Ouço na rádio CBN as notícias assustadoras do mercado financeiro. E também o comentário de um experimentado operador do ramo.
Ele declara que uma queda desse tamanho nas ações é evidentemente um movimento de pânico, fundado em julgamentos apressados. Afinal, diz ele, é irreal imaginar que uma ação da Petrobras, ou seja lá o que for, perca o seu valor em 20% no intervalo de uns poucos dias...
Não entendo de economia, mas o raciocínio, ainda mais quando exposto por um guru da área, choca pelo simplismo.
Quem disse que o preço anterior da ação, antes da queda, era “realista”? Por que não imaginar justamente que tudo estava “irrealmente” alto e que agora cai ao patamar que deveria ter?
Na mesma linha, espanta-me quando dizem que a crise nas bolsas de todo o mundo determinou já a perda de, sei lá, 500 trilhões de dólares. E que o mundo ficou 500 trilhões “mais pobre” desde o mês passado.
Esses 500 trilhões nunca existiram; trata-se de um número imaginário. Se todos os acionistas quisessem “realizar”, como se diz, os 500 trilhões ao mesmo tempo, a corrida levaria o valor das ações a praticamente zero. Penso da lógica do investidor: se Fulano comprou ações por X, e vendeu por X + 1, ele enriqueceu 1, não importando o que aconteceu entre uma coisa e outra; se a ação estava a X, passou a valer X+1000, e caiu para X+1, é ilusão achar que o investidor está 999 mais pobre do que na véspera; está 1 mais rico do que quando comprou.
Não sei, pelo menos é o meu raciocínio. Estranho como no mundo financeiro se fala de “realidade” a esse propósito.
Chamei o colégio Dante Alighieri de “fascista”, e depois me corrigi. O termo é usado de forma muito liberal hoje em dia... Maysa Blay, ex-aluna do colégio me mandou contudo estas recordações, que vale a pena ler.
1975. Outubro.
Colégio Dante Alighieri. Cursava meu último ano de “científico”.
Numa manhã, antes que Marino tocasse o sino, estávamos em sala. Nós, alunas do 3° A, e o professor Anadir, da abjeta cadeira de Moral e Cívica – obrigatória então. Conversávamos. Ele lia um jornal.
Ríamos relaxadas. Uma colega disse-nos, então, que, na noite anterior, enquanto lia a matéria no livro de Moral e Cívica, com sono, lera que o “Brasil é o poleiro do mundo” e não “celeiro”, como constava do texto.
Eu, com minha juba “nova-baiana” loura de então, que ria e falava alto, que tentara discutir em sala o fim da guerra do Vietnã, que ocorrera em abril - projeto sumariamente abortado pelo professor - eu, que “inocentemente” lhe perguntara por que o Dante não tinha alunos negros e não oferecia bolsas de estudo a jovens carentes… eu, que vinha cutucando aquela fera com vara curtíssima... repeti, agora, em voz alta o que a colega dissera: “Brasil é o poleiro do mundo”.
A fúria. Naquele instante, céu e mar fundiram-se. O professor Anadir de Moral e Cívica abaixou seu jornal. Enquanto o sino já tocava, fitou-me enrubescido. Paramos todas congeladas, alienadas ou engajadas. Ajeitamo-nos silenciosa e desconfortavelmente em nossas carteiras escolares. Ele se ergueu. Pareceu mais alto. Andou até mim. Com um gesto de dedo, expulsou-me de sala.
Caminhou comigo, em silêncio, o longo corredor até a sala do diretor da escola, professor Porta. Ele então me pediu que esperasse na ante-sala. Bateu à porta do escritório do diretor. Entrou. Por quinze minutos, confabularam. Anadir retirou-se. Eu permaneci, sentada no sofá de couro marrom da diretoria. Assim fiquei por longo tempo. Pareceu como se fora uma hora. Porta então saiu de seu escritório e me chamou.
Sua primeira pergunta. “Qual é a origem de seu sobrenome?” Como se ele não soubesse! “Sou judia”, respondi, “meu pai é romeno, naturalizado brasileiro”. Porta fez silêncio e perguntou, rindo, “mais brasileira ou mais judia?”.. Conversa de morcego velho, anti-semita. Éramos uma escola e uma sociedade paulistana de brasileiros e brasileiros italianos, judeus, sírios, armênios, e japoneses. 30 anos antes, cantava-se La Giovinezza antes das aulas. E avanti o popolo!
Disse ainda que estava estudando se meu caso não se enquadraria no decreto-lei 477, ato da ditadura, de 1969, pelo qual aluno considerado subversivo não poderia se matricular em qualquer instituição de ensino por três anos.
A sinistra conversa durou um pouco mais. Permaneci o resto da manha no sofá marrom. Ao soar do sino de saída, 12h15min, o diretor disse que eu podia ir-me.
Naquela noite, em casa, deu-se a janta que precede Yom Kipur. Um clima estranho, para mim. Não iria à escola no dia seguinte. Yom Kipur. Aguardava para ver o que seria de mim um dia depois. Mas, em torno de 11 da manhã do dia da festa judaica, o telefone tocou. Meu pai estava sendo chamado pela escola. Fui à CIP buscá-lo. Fiquei, e ele foi ao Dante.
Logo, o pequeno grande homem voltou. Contou-me o que havia dito a Porta: “Professor, a Maysa tem sido sempre uma excelente filha. Como pai, não tenho qualquer queixa dela. E, com vocês, tenho compartilhado nove anos de sua educação e vida. Confio que tomarão a decisão mais sábia. Bom dia, professor”.
Não fui expulsa. Não fui enquadrada no DL 477. Disseram que não se aplicava a alunos de secundário. Sei lá. Teria sido a importante fala de meu pai o que me manteve ali? Ou terá sido uma disputa de forças, dentro da escola, que resultou na minha permanência na instituição por mais um mês e meio, até me graduar?
Em novembro, o professor “moral e cívico” pediu-nos que escrevêssemos sobre “As relações externas do Brasil”. Eu usei o tema para fazer uma redação sobre o infame voto do Brasil na ONU concordando que “sionismo é racismo”, um tema levado a ONU pelos membros da OPEP, numa época em que estavam com a bola toda. Pensei que esta ousada redação fosse ser o meu fim. Tive vontade de vomitar quando a entreguei para Anadir. Mas ele me deu oito. Mistério. Que sentido fazia aquilo? Ele se tornou diretor uns anos depois. Talvez fosse este o sentido. Não polemizar com o staff. Guardo ainda a redação.
Numa festa, no final do ano, soube que o famoso professor César de biologia, (co-autor dos difundidos livros textos César e Sézar) foi quem fez minha defesa na escola. Nesta despedida ainda, numa pizzaria da Av. Brigadeiro, umas colegas, que não haviam entendido nada do episódio, armaram uma situação em que fiquei de cara com Anadir, rodeada por elas. Ele me disse que estava bonita com minha roupa hippie. Não acreditei. Deu-me a mão. Huuuugo!
Era 1975. Dia 29 de outubro Vlado foi assassinado no DOI-CODI. Minha amiga Lucia Merlino e eu fomos à missa Ecumênica, na Sé, escoltadas pelo incansável pequeno grande homem. Conhecemos a música de Mercedes Sosa e os versos de Violeta Parra nesta época. ”O mestre sala dos mares” se ouvia na rádio FM, na voz de Eliz Regina. Vi Catatau, de Leminski, na livraria. O rabino Sobel fez com que Herzog fosse enterrado no centro do cemitério, e não nas margens como se faz com suicidas. Fomos ao enterro. Brevíssimo.
Ano frio. Muito frio. Dizem que era aí o começo do fim da ditadura. Ainda durou anos. Veio a democracia, e nós brasileiros e nossos irmãos latinos “nos quedamos” com o rescaldo de tudo isso. Uma geração de gente que estudou mal, ou não estudou, que não falou de política e que hoje se constitui, ao menos no Brasil, numa imensa audiência da novela das 8hrs da Globo.
Neste site de apostas esportivas, estão listados os favoritos para o prêmio Nobel deste ano. O italiano Claudio Magris, autor de "Danúbio" é o primeiro, o poeta sírio Adonis, que já andei citando por aqui, é o segundo; seguem-se Amos Oz, Joyce Carol Oates, Philip Roth e Don de Lillo. Vargas Llosa está em 16o, mas seria uma boa aposta pensando na politização do prêmio; minha torcida pessoal é pelo poeta sueco Thomas Transtrômer, que já "traduzi" (do inglês), e está bem no fim da vida. O vencedor do Nobel deste ano será anunciado no próximo dia 9, quinta-feira.
Continuando a busca pela escola nova de meu filho (começa o fundamental no ano que vem), estive numa reunião de pais para conhecer uma escola pequena, simpática, perto de casa, menos cara que Santas e Veras.
Digamos o nome de uma vez: é o São Domingos, de quem ouço falar bem. Minha primeira dúvida era quanto ao nome. Mas não tem a ver com padres. Exceto pela circunstância, muito indireta, de ter relações com a PUC. Contam-me que a gestão da escola é “comunitária”, envolvendo representantes de pais e funcionários. Ponto a favor. E, ao mesmo tempo, mais uma dúvida: haveria, com isso, muitas mudanças na direção, conflitos e vaivéns na orientação geral?
O diretor nos acolhe com grande simpatia e humanidade. Reconheço bons amigos entre os pais; sem dúvida, não estou numa escola tão elitizada financeiramente.
Gosto das instalações: lembram-me o Vera Cruz de 1969, um casarão na Frei Caneca, com seus mistérios, escadas, porões; antipatizo com a assepsia de “instituto educacional” que predomina em tantas escolas e faculdades.
O diretor, sem que eu perguntasse, explicou de modo bonito a concepção educacional expressa naquela arquitetura. Em volta do casarão, foram construídas novas dependências, como se em torno de uma base de ensino tradicional se quisesse agregar idéias mais modernas.
Que idéias são essas? Nesse ponto, a discussão será longa. Uma idéia excelente: alunos mais velhos apresentam seus trabalhos e pesquisas para as classes dos menores. Aprende-se muito com isso, não apenas porque falar em público é uma habilidade terrivelmente pouco desenvolvida no Brasil (pelo menos em São Paulo), mas também porque preparar uma exposição exige muito mais estudo do que simplesmente passar numa prova. Finalmente, o melhor motivo é que com isso se integram os menores e os maiores, contribuindo para eliminar o preconceito e o “bullying”, que eram fortes nas escolas que freqüentei, e hoje em dia maiores ainda, ao que tudo indica.
Outra idéia: pais de alunos, ex-alunos etc. promovem uma espécie de “feira”, de encontro, de modo a “compartilhar” seus conhecimentos com os alunos da escola. Não é o tipo de coisa que me entusiasma, mas reconheço seu mérito.
Mas na medida em que vai prosseguindo a exposição do diretor, vou ligando alguns sinais amarelos. Falei acima no “compartilhar” de “conhecimentos”. Não foi exatamente o termo utilizado. No São Domingos, fala-se em “saberes”, e, mais do que isso, em “fazeres” dos pais.
Na mesma linha, evita-se falar em “alfabetização”; a palavra correta é “letramento”. Não há notas de zero a dez, o que pode mesmo ser uma velharia, e sim conceitos como “satisfatório”, “plenamente satisfatório”, “insatisfatório”, etc.
Uma mãe pergunta: “Vocês são construtivistas”? O diretor responde que rejeita rótulos; usa conceitos de várias escolas pedagógicas, mas rejeita, em todo caso, aorientação “comportamentalista” (notas, desempenho, informação despejada sobre o aluno).
A seu ver,o “comportamentalismo” parte de pressupostos equivocados. Seriam os de que todo aluno é igual, sem particularidades, e de que há um conteúdo fixo a ser transmitido a toda a classe. Portanto, se o aluno não reteve esse conteúdo, deverá ser reprovado e julgado pela sua incapacidade de adaptar-se ao esquema preestabelecido.
Nesse raciocínio, prossegue o diretor, teremos a seguinte situação. Um aluno que sempre acerta as dez questões numa prova ganha dez, e outro aluno, que sempre acerta apenas quatro, mas um dia acerta sete, fica com sete. A nota, portanto, não reflete o que de fato aconteceu. Num caso, o sete do aluno fraco é uma vitória que merece um “plenamente satisfatório”, ou seja lá que nome tenha, enquanto que o dez do aluno que sempre tira dez seria, em tese, apenas “satisfatório”, na medida em que não mostra maior superação nesse campo.
Concluindo: o esquema “comportamentalista” não avalia o processo subjetivo de aprendizado do aluno; tende a objetivizar tudo numa escala numérica única.
Nas próprias aulas, trata-se menos de cumprir um programa preestabelecido mas deixar que o interesse do aluno, sua capacidade inovadora e crítica, ganhem mais importância no processo. Uma questão qualquer, surgida em classe, poderá levar, por exemplo, a que se explorem capítulos e textos antes não-previstos no programa original.
Acho tudo simpático, mas não acredito que funcione. Uma questão básica, que a meu ver a crítica ao “comportamentalismo” não responde, é a seguinte: e se a “subjetividade” do meu filho se der melhor, justamente, com um esquema mais “objetivo”?
Concordo plenamente com a idéia de que o conteúdo não deve ser despejado, e que as diferenças individuais, os distintos méritos de cada aluno no seu processo de aprendizado devam ser levadas em conta.
Mas será que não deveriam ser levadas em conta “internamente” pelos professores, sem que isso se eleve à categoria de um método de ensino explicitado (com os tais conceitos etc.?) Não vejo por que o aluno que sempre tira 4 não veria o 7 como uma grande vitória. Mas imagino perfeitamente um aluno que sempre acerta todas as questões meio chateado por não ter esse mérito reconhecido com mais clareza.
Pessoalmente, isto é, na minha “subjetividade”, gostaria de ver uma programação mais clara com relação ao conteúdo do que irei aprender. Ficaria perdido se, conforme a “dinâmica” da classe, o percurso a ser seguido fosse abandonado.
Claro que tudo é questão de nuance e de bom-senso. Mas vejo uma grande falta de conteúdo e disciplina intelectual à minha volta –e em mim mesmo, para dizer a verdade. A escola mais solta no conteúdo não seria boa para mim; não sei será boa para meus filhos, pelo que conheço deles. Sei também que a escola rígida na disciplina não é boa para ninguém. Sei também que a falta de disciplina muitas vezes leva à incivilidade galopante da massa dos alunos. Quero que meu filho conheça melhor as opções à disposição. E os colegas que terá; enquanto isso, fico pensando no caso.
"Diferença de opinião", litogravura de Edith Farmiloe; mais aqui
Nostálgicos dos anos 1950 têm muito o que ver no "Boomer Café", site francês muito informativo e documentadíssimo. É de lá que eu tiro esses anúncios dos cigarros Marlboro, antes que a publicidade investisse no mito mais agreste da fronteira e dos cowboys americanos.
"Antes de me dar uma bronca, mamãe... acenda um Marlboro", diz o menininho. Claro, o cigarro "acalma os nervos". Mas mesmo nesses bons tempos deveria haver algum tipo de culpa relacionado ao tabagismo. A mãe, ao fumar, está provavelmente exercendo um ato transgressivo, a exemplo da travessura do filho. Melhor esse tipo de transgressão do que algum descontrole nos métodos educativos. Ao mesmo tempo, a mulher fumante deveria ser, naquela época, identificada com a mulher fatal. A idéia é "desfatalizá-la", mostrando que mães dedicadas farão bem em fumar.
Acabo de assistir ao debate entre os candidatos à vice-presidência dos Estados Unidos. Tinha visto alguns trechos de entrevistas com Sarah Palin no youtube, e impressionou-me a sua hesitação, além de uma mal-disfarçada ignorância.
No debate, isso não aconteceu. Sarah Palin foi eficiente, não escorregou, e foi simpática em diversos momentos. Piorou na discussão sobre Iraque, Afeganistão, etc., mas seu maior ponto fraco, a meu ver, foi o de sempre cair em generalidades, volta e meia falar na “necessidade de mudança”, no fato de John Mc Cain ser um “maverick” (como traduzir isso?), na importância de acabar com a “ganância e a corrupção de Wall Street”.
Biden foi mais específico e factual. Começou fraco no debate, sem olhar para as câmeras. Mas depois sua agressividade finalmente apareceu, trazendo pelo menos para mim uma imagem de mais confiabilidade. Quando criticou Mc Cain, dizendo, com rosto carregado, que “maverick he is not”, e quando falou das próprias dificuldades familiares, ganhou pontos.
Faltou emoção a Biden, e conteúdo a Sarah Palin; mas o debate não foi um desastre para a republicana. Não sei se um desastre poderia resolver de vez esta eleição. O fato é que a disputa continua, mesmo com alguma superioridade de Biden na argumentação.
Sir Ian Blair, aquele que considerou correta a ação policial no caso Jean Charles de Menezes, renunciou. Aparentemente aquele "equívoco profissional" não foi o único problema de sua polêmica passagem na chefia de polícia londrina, como se pode ler pela reportagem da BBC.
Hoje saiu no "Estado" um artigo de Demétrio Magnoli, contestando minhas opiniões sobre o caso dos grampos. Seria até uma boa ocasião para esclarecer, mas não acho isso necessário, meu ponto de vista. Ocorre que ele me acusa de "delinqüência intelectual", e com isso, pelos meus padrões, desqualifica-se como interlocutor. Certamente faz a provocação para ter uma resposta. Mas não discuto nesse nível.
No artigo de hoje para a Ilustrada (aqui para assinantes), referi-me a uma série de DVDs reunindo os programas de TV em que o maestro Leonard Bernstein explicava a música clássica para uma platéia de crianças e adolescentes. No youtube dá para ver alguns trechos, como aquele em que o maestro recebe no palco a figura simpática e eufórica do compositor Aaron Copland, que rege seu muito americano elogio ao "homem comum". Confira aqui.
Faltou recomendar também um outro DVD, em que Michael Tilson Thomas traça um perfil bastante completo da música de Aaron Copland. Há trechos de entrevistas com o compositor, algumas cenas do balé "Appalachian Spring", composto para Marta Graham, com ela própria dançando, e um excelente trabalho de montagem em todo o filme, de modo a alternar os exemplos dados por Tilson Thomas no piano com a versão da mesma música para a orquestra inteira. O DVD faz parte de uma série feita com a Sinfônica de São Francisco, intitulada "Keeping Score". Sem muito tecnicismo, esses documentários feitos originalmente para a TV são ótimos para quem quiser se aprofundar um pouco em obras como "A Sagração da Primavera" e a "Sinfonia Heróica".
Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.