Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

prótons e outras partículas

Há tempos escrevi um artigo reclamando do ensino de ciências nas escolas, e o quanto termina privilegiando mais o treino para a assimilação de conhecimentos e menos a criação de um real espírito científico e inquiridor.

 

Por exemplo, sempre nos ensinam que cargas negativas e positivas se atraem, e que duas cargas positivas se repelem. Nunca me lembrei, ao ver o modelo de um átomo, de perguntar por que, então, tantos prótons, de carga positiva, ficam grudados no núcleo sem se repelir.

 

Recebi e-mails explicando que a força eletromagnética não é a única que está em jogo nessa situação. O que mais me incomoda não é saber ou não da existência de outras forças, claro, mas nunca ter perguntado isso quando me ensinaram. O próprio professor poderia ter levantado essa dúvida, para depois resolvê-la.

 

A boa notícia é que foi transmitido um programa na TV Cultura sobre partículas, voltado ao público infantil. Pode ser acessado neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h20

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auto-anistia

auto-anistia

Não deve passar sem registro um episódio contado por Isabel Lustosa em Histórias de Presidentes, livro de que falei no artigo de quarta-feira passada. Como todos sabem, o brigadeiro Eduardo Gomes foi um grande prócer udenista, espécie de símbolo sacrossanto da legalidade pública contra os abusos da ditadura Vargas.

 

Não é que, duas décadas antes, ele tinha sido uma espécie de precursor dos terroristas que entram com carro-bomba nos edifícios que querem destruir? Eis o trecho.

 

Ainda em 1924, o jovem tenente [E.G.] teria partido de São Paulo pilotando um calhambeque abarrotado de panfletos e de bombas para se lançar com ele sobre o palácio presidencial. Tipo camicase. Não logrou êxito, pois a máquina precária caiu na divisa entre São Paulo e Rio. Salvo seu tripulante, foi imediatamente preso e mandado para a Ilha da Trindade.

Alguns anos depois, em 1946, ao ser apresentado ao então brigadeiro Eduardo Gomes, Artur Bernardes [presidente em 1924] indagou:

--Então, moço, o senhor queria bombardear o Catete?

Ao que o brigadeiro teria respondido:

--Coisas da mocidade, senhor presidente, coisas da mocidade...

 

eduardo gomes, na seção de fotos brasileiras da Life

Escrito por Marcelo Coelho às 19h14

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Gilvan Samico é um artista plástico que se inspira nas gravuras de cordel para fazer uma obra com toques de fantástico, mas sempre com admirável autocontrole e economia de meios. Quem o elogia sempre é Ariano Suassuna, e não é difícil perceber por quê. Recebi um e-mail avisando que uma instituição de apoio a crianças surdas de Pernambuco, a Suvag, está comercializando uma agenda com desenhos de Samico. É uma ajuda e pode ser um bom presente, para quem gosta de arte popular ou "armorial". Eis duas imagens.

Para comprar, é necessário fazer um depósito no Banco do Brasil, agência 1509-01, conta 6779-2, em nome da Suvag, e contatar pelos e-mails lilalong@yahoo.com.br ou suvag@suvag.org.br

Escrito por Marcelo Coelho às 18h13

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nova decoração natalina

Passeando pela cidade com meu filho menor, que se encanta ainda com as luzes de Natal, pensei que há muito tempo não inventam algo novo nessa área. As microlâmpadas japonesas, cujo sucesso inicial na cidade comentei já faz uns dez anos, ainda predominam. Mas descobri pela internet uma nova opção para celebrar a data. Como o produto é importado, não sei se dá tempo para encomendá-lo até dezembro, mas o link está aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h55

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solidariedade a Santa Catarina

Do Uol:

A Defesa Civil informou três contas bancárias para receber doações para compra de mantimentos. Os interessados em contribuir podem depositar qualquer quantia nas seguintes contas:

- Banco do Brasil - Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7;
- Besc - Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0;
- Bradesco Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1
O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ - 04.426.883/0001-57

foto James Tavares (Secom) via blog conexãobrasilia

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

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Natal com reciclagem

Eis o trecho de um release que recebi, divulgando uma simpática iniciativa do Shopping D:

A ONG TREVO recicla cerca de 250 toneladas de óleo usado por mês, recolhido em mais de 2 mil estabelecimentos cadastrados, entre restaurantes, empresas, hospitais, clubes e condomínios. Mas tem dificuldades em coletar de residências.

         Agora, basta a cada pessoa que não tem essa oportunidade depositar sua garrafa pet com óleo usado nos Eco Pontos do Shopping D. A ONG TREVO coletará todas as garrafas de óleo no Shopping D e transformará esse resíduo em produtos para a indústria química, que fabrica sabão e insumos usados na produção de biodiesel.
         A campanha vai ajudar a manter as 40 famílias empregadas pela ONG Trevo no processamento do óleo e ainda contribuir com as ações sociais do Lar Betânia,  já que parte da renda gerada pela venda dos produtos derivados será revertida em prol da entidade.
           Com  39 anos de  atividade, o Lar Betânia , de Ferraz de Vasconcelos, é uma  obra filantrópica e missionária de assistência social sem fins lucrativos, que abriga dezenas de crianças e adolescentes, de ambos os sexos. O lar Betânia mantém ainda um Centro de Formação Profissional para a Comunidade, com cursos de administração, eletricidade, telemarketing e informática, em parceria com o Senai.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h24

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crítica de arte ao vivo

Para os muitos que, como eu, acham crítica de arte contemporânea uma atividade das mais misteriosas, pode ser interessante assistir à conversa que vai acontecer neste sábado, 29 de novembro, das 16h às 18h, no espaço Eden 343, com entrada franca. A crítica e curadora Taís Rivitti fará uma “leitura aberta de portfólios”, ou seja, analisará com participação do público os trabalhos de artistas que quiserem apresentar algumas obras na ocasião. O Eden 343 fica na rua Lisboa, 285.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h16

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Outro livro sobre presidentes do passado, desta vez sem poesia, mas com muita graça e atenção ao detalhe pitoresco, foi o assunto principal do meu artigo de hoje na Ilustrada (assinantes lêem aqui). Trata-se de "Histórias de Presidentes", da cientista política Isabel Lustosa. Com base nos jornais da época, e nos depoimentos que colheu na função de historiadora no Palácio do Catete, a autora recupera o cotidiano, as esquisitices e diferenças de personalidades dos que ocuparam a antiga sede do governo federal. A leitura é leve, e se não substitui um relato político aprofundado das primeiras décadas da vida republicana, mostra que nem tudo era pasmaceira naqueles tempos do onça. Temos ainda o hábito de ver a História como uma seqüência de processos impessoais, o que tira, não a verdade dos fatos, mas sem dúvida o seu interesse, o seu componente de acaso -- e quem sabe, até, o seu componente de liberdade humana.  

Escrito por Marcelo Coelho às 19h23

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máquina de aplausos

Já conhecia a "máquina de risadas", comum nos seriados cômicos para sinalizar para o espectador o ritmo das piadas. O desginer-artista Martin Smith inventou, entretanto, uma máquina de aplausos, que facilita não só o trabalho de críticos e de platéia, mas pode servir também para qualquer pessoa que precise de algum apoio quando lhe faltam admiradores. O produto pode ser avaliado e comprado neste site.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h19

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Arquivo de fotos da LIFE

Milhões de fotos da revista Life estão agora disponíveis pelo google, e a pesquisa pode ser feita aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h01

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Todos os presidentes

Todos os presidentes

Valério Oliveira lançou pela editora Hedra um livro de poemas misterioso e muito interessante, chamado Todos os presidentes. Cada poema se refere no título a um presidente do Brasil, começando com Deodoro e chegando até Lula. O curioso é que os poemas não são sobre os presidentes, mas giram em torno de possíveis estabelecimentos comerciais, lugares e instituições que levam o nome dos presidentes. Assim, há a “Avenida Deodoro da Fonseca”, a “Praça Floriano Peixoto”, a “Casa de Repouso Wenceslau Brás para Super-Heróis”, a “Clínica Psiquiátrica Delfim Moreira”, e o “Estúdio Getúlio de Dublagem”. Este último, que cito a seguir, é de interpretação mais fácil:

 

Ela ouvia vozes, ela gostava de ouvir vozes,

às vezes ela gostava apenas de ouvir as vozes,

raramente no cinema, quase sempre em casa,

no conforto do sofá de quatro lugares.

 

Ela era apaixonada pela voz pacífica e segura

de Leonardo Camillo,

ela não era apaixonada por Leonardo Camillo,

ela nem sequer conhecia o homem, ela nem sequer

sabia se ele era baixinho ou careca,

ela era apaixonada apenas pela sua voz.

 

Ela era apaixonada pela voz triste e decidida

de Juraciara Diácovo,

ela não era apaixonada por Juraciara Diácovo,

ela nem sequer conhecia essa mulher, ela nem sequer

sabia se ela era gorda ou vesga,

ela era apaixonada apenas pela sua voz.

 

Richard Gere, Nicholas Cage, Bruce Willis

e outros galãs tão necessários nesses tempos sem afeto,

eles eram dublados por Leonardo Camillo.

 

Geena Davis, Gillian Anderson, Diane Keaton

e outras estrelas tão necessárias nesses tempos sem honra,

elas eram dubladas por Juraciara Diácovo.

 

Ela não amava esses galãs nem essas estrelas,

ela não amava Leonardo Camillo e Juraciara Diácovo,

ela amava a soma, ela amava a voz brasileira

na figura americana, na bidimensional figura americana.

 

Suas amigas detestavam a versão dublada dos filmes americanos.

Mesmo não entendendo inglês, suas amigas preferiam

ler as legendas a escutar a voz

de Leonardo Camillo ou Juraciara Diácovo

ou de quem quer que fosse.

 

Talvez porque as legendas e quem as compõe

jamais despertem paixão e desejo.

 

Posso pensar em substituição de importações, nacionalismo, meios de comunicação de massa, e ver nesse poema alguma relação com o governo de Vargas. Mas não sei como entender a “política” presente neste outro ótimo poema.

 

BALÉ CARLOS LUZ

 

 

Você pode cantar. É claro que pode.

Você pode cantar e dançar, pode sim.

 

Seus olhos de raios-x podem devassar

meu corpo, meus pensamentos, você sabe disso.

 

Se tentarem cortar tua língua, grite.

 

Se tentarem cortar tuas pernas, corra.

 

Se tentarem arrancar teus olhos

--eles tentarão, pode apostar nisso—,

grite, corra, derrube sobre os inquisidores

as paredes de sua casa.

 

As paredes feitas de som, luz e movimento.

 

Você pode falar. É claro que pode.

Com ou sem microfone você pode falar.

E todos ouvirão, você sabe disso.

 

Você pode pensar e falar

melhor do que eles, que pensam e falam

com os anjos e os demônios,

mas falam mesmo é com pessoas.

 

É. Com as pessoas.

 

Que são mesmo anjos e demônios,

ah, são sim, mas ninguém sabe disso.

 

Quem conhece a fundo o azul e o vermelho:

duas forças da natureza humana?

Ninguém.

 

As pessoas são anjos ou demônios de bolso,

em miniatura, sem os efeitos especiais.

Sem os raios e os trovões.

 

Eles são como você e eu.

 

A diferença é que nós dois sabemos.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h44

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fotos de Araquém Alcântara

fotos de Araquém Alcântara

No meio de dezembro que vem, chegam às livrarias três livros do fotógrafo Araquém Alcântara, especializado em retratar a natureza brasileira. "Cabeça do Cachorro" traz imagens do noroeste do Amazonas, na fronteira com a Venezuela e a Colômbia, com texto de Drauzio Varella. "Mata Atlântica" e "Bichos do Brasil" (prefácio de Paulo Vanzolini) completam o lote, publicado pela editora Terra Brasil. Cada livro está em torno de 140 reais. Algumas imagens:

Escrito por Marcelo Coelho às 23h03

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"Fatal", de Isabel Coixet

"Fatal", de Isabel Coixet

É provavelmente uma sorte não ter lido “The Dying Animal”, de Philip Roth, porque com isso acabei me impressionando muito com  “Fatal”, o filme baseado no romance. Veja o trailer aqui. As críticas não foram favoráveis, pelo que vi, mas pode ser que se baseiem na comparação com a obra de Roth.

 

O filme de Isabel Coixet tem a qualidade rara, hoje em dia, de ser um drama adulto; “Vicky Cristina Barcelona”, perto dele, parece ter uns trinta ou quarenta anos a menos de idade mental.

 

Ben Kingsley, no papel de um irritante e egoísta intelectual de barbichinha, e Penélope Cruz, bonita mas psicologicamente desinteressante aluna do mesmo intelectual, formam no começo um casal que poderia ser bastante tedioso.

 

Mas o filme tem aquela qualidade moral dos grandes romances (penso em George Eliot), que é o de mostrar como o sofrimento pode fazer as pessoas não simplesmente infelizes, mas melhores do que são.

 

Isso, naturalmente, poderia resultar em ensinamento edificante, mas aqui as coisas ganham em qualidade: pois o risco do moralismo está, na verdade, na forma com que se entende a palavra “melhor”. Ninguém se torna “bonzinho”; cresce em humanidade, o que é diferente.

 

Parece impossível, e aí está um mérito do roteiro, dos atores e da diretora, dar conta tão bem, no tempo curto de um filme, da complexidade de relacionamentos entre cinco personagens. Há o intelectual, seu filho, seu amigo íntimo, sua amante ocasional, e a jovem por quem se apaixona. Todos se transformam ao longo da história, com admiráveis naturalidade e economia nos diálogos e na narração.  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h32

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bem vindo à direita burra

Com Bush e, em seguida, Sarah Palin, uma coisa é certa: a direita recuperou sua vocação para a burrice. Quem ainda acha que ser conservador agrega algum charme intelectual à própria imagem pode ler aqui

um artigo publicado em revista insuspeita, a The Economist.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h33

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chineses no Masp

chineses no Masp

Estive hoje na Paulista para ver a nova exposição do Masp, com artistas chineses contemporâneos. No álbum de fotos do Uol, dá para ter boa idéia da mostra.

 

Gostei mesmo foi só de um artista, Ma Jiawei, cujas telas misturam cimento, tinta e aquele tipo de rede plástica usada para cercar prédios em construção. Os quadros expressam bem essa coisa tipicamente paulista, e naturalmente chinesa, de uma cidade em completa transformação, sempre em obras, feia, mas em cuja paisagem parece esconder-se uma espécie de nostalgia cinzenta, de anseio feito de pedra britada, areia e blocos de concreto.

 

A vantagem desse tipo de pintura é que o espectro das cores se restringe, e nos quadros de Ma Jiawei se pode notar uma dignidade, um balanço, que justamente a maioria dos outros artistas chineses do Masp quer evitar a todo custo. É como se todos estivessem berrando, com distorções de um aparato pop, sua vontade de se afirmar no mundo; alguns funcionariam bem como grafiteiros, numa avenida movimentada, mas no museu tudo parece sensacionalista e derivativo. 

 

 

dois quadros de UOL Busca Ma Jiawei  (chinablue gallery)

Escrito por Marcelo Coelho às 23h18

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o dia da consciência negra

Posso estar sendo injusto, mas se em alguma cidade dos Estados Unidos houver um feriado parecido com o “Dia da Consciência Negra”, nada mais provável do que ver apenas negros participando das manifestações.

 

Hoje passei à tarde pela avenida Paulista, e uma passeata relativamente pequena (5 mil pessoas?) comemorava o dia da Consciência Negra. Foi pena ver tão pouca gente, mas foi bonito ver que havia gente de todas as cores ali. Negros com roupas africanas confraternizavam-se com militantes do MST, estudantes negros e mulatos estavam com seus amigos brancos, uma bateria de escola de samba reunia pessoas dos mais diversos grupos étnicos, e se a maioria dos manifestantes era afrodescendente, havia lugar para todo mundo.

 

Não era para esperar,de qualquer modo, uma multidão do tipo da que reúne com a Parada Gay. O feriado da Consciência Negra é recente, ainda não faz parte do “calendário festivo” da cidade. Mas quem sabe? Mais organização, senso de espetáculo, grandes delegações...

 

A delegação que faltava ali –e isso já não constitui surpresa para mim—era a do PT. Há vinte anos, o Partido dos Trabalhadores certamente estaria presente. Agora, havia o PSOL, o PSTU, o MST, entidades negras, mas nada de petismo.

 

É muito ruim, não pelo PT, mas porque todos os partidos deveriam estar presentes. Isso, a meu ver, é o que faz a diferença entre, digamos, uma política de estilo americano e uma política de estilo europeu.

 

Nos Estados Unidos, a organização de base tende a ser independente da política partidária, o que tem evidentes vantagens, mas acaba resultando num problema grave. Criam-se grupos de pressão particularistas, lobbies e políticas de “identidade” (racial, sexual, etc.) que dificilmente se universalizam num ideal válido para todo mundo em qualquer lugar. A presença de partidos, numa passeata como esta, é uma porta de entrada para quem não é negro, por exemplo, solidarizar-se com as bandeiras desse setor da sociedade.

 

Isso me parece especialmente necessário, para que a discussão sobre cotas raciais, por exemplo, não seja uma questão entre “negros” e “brancos”, mas sim entre diferentes visões de política educacional e de inclusão, opondo, por exemplo, negros ou brancos tucanos a negros ou brancos do PSOL. Nada pior do que identificar posições nesse debate com a cor da pele de quem as professa...

 

Passei por perto de um branco racista andando de bicicleta. Falou bem alto que esperava o dia em que fosse comemorada a consciência branca.

 

Acho que mobilizações de negros assustam mais esse tipo de gente do que mobilizações de gays.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h48

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Mania de se frustrar

No artigo desta quarta-feira para a Ilustrada (assinantes lêem aqui), falo de um certo espírito-de-porco vigente entre analistas politicos. Eles prevêem decepções depois da vitória de Obama. Acho, naturalmente, que ele pode se dar mal, como todo mundo. Mas digo também que mudanças não apenas são possíveis, como também existiram. Basta lembrar as políticas de integração racial feitas por Kennedy e Lyndon Johnson. É irrealista, na verdade, achar que tudo sempre fica igual.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h47

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origens de obama

O discurso que lançou Barack Obama no cenário político americano foi pronunciado na convenção democrata de 2004, em favor de John Kerry. Ali, Obama reconfigurava uma noção do que é o "gênio" e o "poder" dos Estados Unidos. Nada que se baseie em poder econômico ou militar, mas sim na idéia simples de que todos os homens são iguais. Veja no link.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h42

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compositores de alto risco

compositores de alto risco

         Retomando uma velha série sobre os autores “tarja preta” da música clássica (aqueles que só os amantes do risco procuram conhecer), falo um pouco mais sobre Charles Koechlin (1867-1950). Foi aluno de Fauré no conservatório de Paris, tendo Ravel, Enesco, Reynaldo Hahn e Florent Schmitt como colegas. Foi professor de Camargo Guarnieri nos fins da década de 30.

        

         Quem gosta de obras como “Shérazade”, de Ravel, ou mesmo do “Poème de L’Amour et de La Mer”, de Chausson, não vai se arrepender de comprar o CD duplo das obras vocais com orquestra de Koechlin, editado pela Hänssler em 2005. 

 

Algumas dessas obras nunca haviam sido apresentadas em público.

 

         Desde as primeiras faixas, dedicadas aos “Quatro Poemas de Edmond  Haraucourt”, op. 7, somos jogados num ambiente de intensidade e fervor que combina mal com a discrição do lugar ocupado por Koechlin na história da música.

 

         Esse compositor não tem medo do fortíssimo, e mesmo caixas de som calejadas em Wagner podem ter dificuldades em agüentar o baque. Edmond Haraucourt é um poeta parnasiano de quem eu nunca tinha ouvido falar. Tem os defeitos de sua escola –a artificialidade, a indelicadeza, a convicção da forma— mas seus versos são imaginosos e surpreendentes.

 

         O primeiro poema conta nada menos do que a história da Lua. No começo, a Terra dava urros de lava, em plena incandescência. De seus flancos ígneos nasceu a Lua.

         É assim que, na segunda estrofe desse poema, a Terra irá contemplar, girando no céu, um novo astro-infante, cheio de fogo como um sol adolescente.

        

         Chega então a idade dourada e tépida dos ventos: a Lua se povoa de murmúrios vivos, de oceanos, de inumeráveis rios; de rebanhos e cidades.

        

         Mais tarde, tudo se enregela e enrijece. A Lua entra num reino sombrio. A Terra, “que envelhece”, procura ainda seu rebento na imensidão. Nada mais vive ali. Mas, de noite, um globo efêmero passa pelo céu, e alguém diria, “ao ver sua forma errar em silêncio”, que se trata “da alma de uma criança morta, voltando, durante a noite, para contemplar sua mãe que dorme”.

        

         É ruim mas é bonito ao mesmo tempo. Para Charles Koechlin, esse texto serve de origem não para uma canção acompanhada de orquestra, mas para um verdadeiro poema sinfônico cantado, em que a explosão terrível da estrofe inicial se substitui à giração e à embriaguez de um balé celeste; segue-se a menção ao período “morno” da lua, madeiras e harpas em que floresce todo tipo de acordes até resultar em grandiosas afirmações de trompa e tímpanos.

        

         Melhor quando a música “escurece” e “esfria” em modulações surpreendentes, marcando-se de ritmos fúnebres. Quando surge a metáfora final, do fantasma de uma criança morta, desaparecem quaisquer vôos melódicos, e a cantora (de quem se exigiu muitíssimo em toda peça), escande em notas repetidas um hino de cansaço e resignação.

        

         É difícil ver uma orquestra tão poderosa, tão rica, tão cheia de “espaço”, como nessa música de Koechlin. A comparação teria de ser, sem dúvida, com o Ravel de “Shérazade”, mas aqui o peso de Wagner esmaga toda ironia possível. O resultado nem por isso tem menos sofisticação e poder de envolvimento.   

 

"Clair de Lune", do americano Dennis Sheehan (1950-)

Escrito por Marcelo Coelho às 01h34

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São Paulo, No Logo

 

 

 

 

 

A Lei da Cidade Limpa, na visão do fotógrafo Tony de Marco.
Em exposição na Livraria Pop, rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 297, Pinheiros.
De segunda a sábado, das 11 às 20h, até 6 de dezembro.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h32

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Vicky Cristina Barcelona

Vicky Cristina Barcelona

Fazia tempo que eu não ia ver um filme de Woody Allen. “Vicky Cristina Barcelona” é um prazer do início ao fim, mais intenso a meu ver quando Penelope Cruz entra em cena. Como é bom ver uma atriz totalmente desenfreada, capaz de nos fazer rir quanto mais desesperada está. Fala a maior parte do tempo em espanhol, desvelando a essência de loucura e tragicidade do idioma –enquanto os demais personagens, entregues ao inglês, são seres de dúvida e de razão.

 

Em segundo lugar no meu “ranking” de atores nesse filme está Javier Barden. É uma maravilha vê-lo em ação, no papel de um artista plástico de má fama, com aquele tipo de feiúra que as mulheres acham bonito; a cantada inicial que ele dirige simultaneamente a Vicky e Cristina, numa mesa de restaurante, é uma obra-prima  de serenidade, lógica e empáfia.

 

Trata-se, afinal, da única personagem que sabe o que quer e que raciocina com clareza sobre os fatos. Pobres mulheres! Atraídas pela desgraça ou imobilizadas pela dúvida, esperam do amor o que ele não pode dar. E dão em dobro o amor que não recebem.

 

Há algo dos filmes de Eric Rohmer em “Vicky Cristina Barcelona”: a mesma falação incansável, os quiproquós quase matemáticos entre casais, o cuidado de não colocar de propósito mais mistério no comportamento humano do que aquele que já se manifesta por sua própria conta. E tudo é infinitamente mais divertido e curioso do que nos filmes de Rohmer.

 

Ao mesmo tempo, fica uma sensação de superficialidade; o meu raciocínio pode ser injusto, mas me parece estranho que alguém passe dos 70 anos, como Woody Allen, mantendo uma visão a bem dizer restrita dos problemas humanos, sem sair do âmbito das relações e desencontros típicos dos amores de verão. Quando ele se preocupava com Deus e a psicanálise, entretanto, parecia pretensioso; as piadas o salvavam de uma filosofia meio enlatada. Desistiu, aparentemente, disso, para dedicar-se ao prazer de uma boa história. Em matéria de confusões e excessos de sentimento, Almodóvar vai mais longe: o espanholismo deste é filtrado, aqui, pelo bom senso americano.

 

O filme não vai me ensinar, é claro, a ser como Javier Barden. Mas aprendo que camisas Lacoste devem ficar definitivamente fora do guarda-roupa de qualquer homem que se preze. Sempre gostei de usar camisas pólo, e as Lacoste são um presente que recebo com prazer. No filme, são usadas pelos babacas de plantão: aquele tipo de carinha bem-comportado que, segundo uma personagem, é o “noivo feito em série”, fabricado nas escolas de elite.

 

 

Já andava meio implicante com essas camisas porque sempre que entrevistam algum ministro em fins-de-semana lá está ele com o jacarezinho. Nelson Jobim, por exemplo. Calça clara, mocassim marrom. Não, não dá certo. Mas também que alternativa ele tem? Em vez da camisa pólo e do jacaré, resolveram fotografá-lo em traje de campanha militar, com uma cobra real nos braços. Foi criticadíssimo por isso. Que fique com o jacaré.  

Escrito por Marcelo Coelho às 16h23

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a crise bem explicada

Dois humoristas ingleses estão absolutamente perfeitos nesta falsa entrevista em que o problema das "subprimes" é apresentado com didatismo. O pequeno vídeo (com legendas em espanhol) parece que faz parte de uma série. A arte dos comediantes está em aparentar, quase o tempo todo, que a entrevista é um programa jornalístico sério.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h01

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um ônibus no raio-x

Dica de uma leitora: as fotos de Nick Veasey, para quem "a beleza está no interior". No seu site, flores, plumas, objetos também aparecem em raio-x.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h51

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sinais da crise

Trecho final da coluna de Celso Ming, no “Estado” de hoje:

 

O nível de incerteza é imenso, e isso não vale apenas para o longo prazo. Está complicando a vida também no curto e no curtíssimo prazo. Quem viaja ao exterior não sabe o quanto gastará em reais. E o mesmo ocorre com quem compra um vinho importado ou uma lata de azeite espanhol.

 

Preocupante. E ele esqueceu de falar no item mais grave de todos: o custo da garrafa de água mineral San Pellegrino. Quanto aos vinhos, não é o caso de tanto alarme. Qualquer um sabe que vinhos são investimento de longo prazo. Comprar vinhos para consumo de curto prazo é coisa de pobre.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h37

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artistas ingleses

Um leilão na Sotheby's, instituição que vem sofrendo com a crise no mercado especulativo mundial, coloca à disposição dos interessados uma série de obras realizadas por artistas britânicos do século 20. Fico espantado com minha ignorância a respeito. São excelentes, mas sem dúvida estavam fora do centro artístico da época em que viveram, a saber, Paris. No fundo, são tão periféricos quanto qualquer pintor brasileiro. Mas são lindíssimos também. Alguns exemplos. O primeiro, uma paisagem de Christopher Wood.

Depois, um quadro de  Walter Sickert:

(este quadro é de Winston Churchill). Em seguida, o realismo inquietante, pelo que tem de frio e sexual, de William Nicholson:

 

(Quanto desafio, e quanta contenção, nessas pernas estendidas!)

Em seguida, surgem

as luzes quase italianas (e reminiscentes de Rebolo, em ligação direta com Cézanne) de outra tela de Christopher Wood; outro é o clima, que já nos leva à carnalidade de Lucian Freud, desta paisagem de John Piper:

(Aqui, a encantadora ingenuidade de Lawrence Lowry, um dos mais valorizados do leilão)

(Esta paisagem de Paul Feiler, retratando o porto de St. Ives, está a um passo das grandes pinturas de  Nicolas de Staël.)

Os mineiros de Keith Vaughan nos fazem retornar ao realismo:

Que concluir de tantas pinturas excelentes? Uma lição, pelo menos, de anticolonialismo. Temos a tendência de achar que nossos talentos nacionais (Portinari, di Cavalcanti, etc.) só não são suficientemente conhecidos porque o Brasil está na periferia do mundo. Mas a Inglaterra nunca esteve na periferia. Ao mesmo tempo, pintores como os mostrados acima nunca obtiveram reconhecimento internacional. Não acho que seja culpa deles. São tão bons como os nossos. Talvez, até, um pouquinho mais.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h55

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voltaire de souza

Quatro textos recentes do cronista do "Agora":

 

 

 

HORA DA MUDANÇA

 

Crise. Desemprego. Recessão.

Para o sr. Reinaldo, era tempo de más notícias.

O aviso chegou pelo correio. Ação de despejo. Falta de pagamento.

Ele morava num simpático sobrado no Parque Lincoln.

--Justo agora... que os pichadores tinham dado um tempo...

A casa estava pintadinha de branco. Reinaldo prometera aos donos do imóvel que ia mexer agora na parte elétrica. Mas as negociações chegaram ao impasse.

--Ou sai daí ou chamamos a polícia.

A noite caía com promessas de chuva. Reinaldo adormeceu sem idéias para o dia seguinte. No meio do sono, uma visão. Um senhor de terno. Com sotaque texano.

--Good bye, Reinóóld... Vámush imbór da Cása Bránc.

Era o presidente George Bush. Que logo vai ser despejado também.

--Máish nón vámosh nos rendér sem lúút.

O líder texano tinha uma metralhadora na mão.

Reinaldo aderiu tirando o 38 da gaveta. Quatro tiros para o alto atingiram o transformador da Eletropaulo. Fogo e destruição levaram Reinaldo a um novo endereço. A UTI do Hospital Santa Ismênia.

Em tempo de transformações, sempre surge um curto-circuito.

 

 

 

BELEZA PURA

 

 

O mundo se transforma. Nos Estados Unidos, um negro foi eleito presidente.

No Brasil, o mundo da moda entra em ferveção.

O estilista Kuko Jimenez dava os últimos retoques no seu desfile de moda masculina. Ele ainda não estava satisfeito.

--Tudo tão banal. Sem criatividade.

O estalo, finalmente, chegou.

--O Obama. Minha coleção tem de ser a cara do Obama.

O olhar de Kuko perdeu-se no horizonte.

--Moderno. Sofisticado. Erudito. Mas com um toque tribal.

Seu namorado e principal modelo se chamava Johann.

Um adolescente loiro. Beleza pura. Importado diretamente da Suíça.

--Brriliánte, Kukko... a tesfile fai ser um sutsetso. Radikál.

O bofetão deixou roxa a pálida bochecha do rapaz.

--Cala a boca. Está despedido. Branquelo agora não tem vez.

Johann voltou para Zurique. E Kuko já tem um novo amigo.

O Ezequias. Um anjo moreno encontrado numa academia do Parque Oklahoma.

Mensagens de tolerância, por vezes, são como desfiles de moda.

Só entende quem quer. 

 

DE CABEÇA ERGUIDA

 

Guerras. Crise econômica.. Terrorismo.

Mesmo assim, o clima é de esperança no país de Mickey Mouse.

Barack Obama foi eleito presidente.

A herança racista dos Estados Unidos vai sendo superada

O americano Norton estava feliz. Ele admirava muito o Brasil.

--Pôuv mestííç... Ligááád na páish e no amówr.

Agora ele tinha motivos para se orgulhar.

--Nóss preysidééntchi vai sérl muláát tahnbéym.

Norton passeava de cabeça erguida na orla de Copacabana.

O sol era forte. Mas ele não usava filtro solar.

--Quérwo ficáár béyn brwonziáád.

Um jovem musculoso passou à sua frente. Na camiseta, o rosto de Obama.

O impulso de Norton foi de entusiasmo e simpatia.

--Ói mânu... córrwi aqui prwo abrááç...

Não houve solidariedade, entretanto, da parte de Zequinha.

O trombadão cortou o pescoço de Norton com um estile made in China.

No pronto-socorro, o americano está mais pálido do que nunca.

Andar de cabeça erguida é importante. Mas o perigo é expor demais o pescoço.

 

 

SONHO DE MUDANÇA

 

 

Tempos de otimismo. Tempos de Obama.

A manhã nascia bonita nos lados da Vila Madalena. Sílvia Mara estava feliz.

--Será um mundo melhor para o meu bebê.

A cesária estava marcada para dali a uma semana.

A decisão veio de repente na cabeça da universitária.

--Meu filho vai se chamar Barack.

Faltava saber a opinião do pai da criança.

Róger vendia artesanato numa praia perto de Maceió.

E não se lembrava muito daquele amor de verão.

Silvia Mara acionou o interurbano.

--Róger... Róger... preciso falar com você...

A voz estremunhada do rapaz anunciava muita má vontade.

--Você não disse que ia fazer aborto?

--Não, Róger... sempre fui contra... e ele vai se chamar Barack.

Uma inesperada onda de amor inundou o coração de Róger.

Fechou os olhos. Sonhou com um inédito futuro conjugal.

A bala perdida do traficante Raspadinha interrompeu seu sonho e a ligação.

Sonhar é preciso. Mas sempre se pode morrer na praia.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h25

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Anistia, tortura, política

Existem argumentos sérios para rever e para não rever a Lei da Anistia. Mas no “Estado” de segunda-feira o filósofo Denis Rosenfield resolveu partir para o lirismo, a poesia, a comoção.

 

Começou com uma referência a Hannah Arendt para lembrar a importância política do “perdão”. E foi adiante.

 

Quantas vezes presenciamos, em nossa vida familiar e amorosa, a importância do perdão, para que desde simples mal-entendidos até ofensas possam ser vistos sob uma outra perspectiva moral, constituindo-se em novas oportunidades de vida. Quantas vezes relações de amizade são preservadas pelo uso do perdão, revelando uma genuína preocupação com o outro, tomado como amigo e parceiro a ser valorizado.

 

Dessa perspectiva, os judeus poderiam ter perdoado os carrascos nazistas, por exemplo. Não é bem o que Hannah Arendt diria. Quando Adolf Eichmann foi condenado ao enforcamento por um tribunal israelense, eis o que a filósofa escreveu, dirigindo-se hipoteticamente ao próprio condenado:

 

Assim como você apoiou e desenvolveu uma política de não compartilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de várias outras nações –como se você e seus superiores tivessem qualquer direito de determinar quem pode e quem não pode habitar o mundo—, consideramos que a ninguém, isto é, a nenhum membro da raça humana, está dada a expectativa de querer compartilhar a Terra com você [no member of the human race can be expected to want to share the earth with you]. Esta é a razão, a única razão, para que você deva ser enforcado.

 

Discordo profundamente dessa argumentação. No fundo, ela se resume a uma vingança. “Se Eichmann se considerava capaz de seguir decisões sobre quem vive e quem não vive, podemos então aplicar nele o seu próprio remédio”.

 

Não, não podemos. Isso é o que nos distingue de Eichmann.

 

Mas isso não significa que devemos perdoá-lo.

 

Citei o exemplo apenas para mostrar que, se Hannah Arendt escreveu sobre o perdão, ela era mais “revanchista” do que qualquer um daqueles criticados por Denis Rosenfield.

 

Não acho que o “perdão” tenha algo a ver com anistia. O “perdão” serve à política quando Lula se encontra com Collor, quando Cláudio Lembo e Marco Maciel, para não falar de Sarney, aderem ao sistema democrático.

 

Minhas reservas quanto à revisão da Lei da Anistia são de outra ordem, menos sentimental.

 

Dizem respeito a um pacto, não a uma atitude pessoal. Quando a lei foi aprovada, há cerca de 30 anos, creio que os militares engoliram mais sapos do que a esquerda. Naquele momento, a esquerda mais radical condenava a anistia “dos militares”, que não era irrestrita. Mesmo assim, não me esqueço de suas consequências reais. Almino Affonso e Leonel Brizola, por exemplo, puderam voltar ao país. Ninguém pensava em punir torturadores naquela época.

 

Nós, isto é, a esquerda, pagamos o preço de ver líderes afinal moderados voltando ao país, engolindo a impunidade dos canalhas mais truculentos da ditadura.

 

Parece-me trair esse pacto político, agora, lutar pela punição dos torturadores. Claro que eu gostaria de vê-los na prisão. Claro que em outros países da América Latina isso já acontece. Se uma corte internacional, como a de Haia, ou um juiz espanhol, como Baltazar Garzón, quiser punir torturadores brasileiros, sem dúvida eu veria nisso um ato de justiça.

 

Posso não ser nada pragmático, e até ingênuo, ao dizer que pactos devem ser respeitados. A História está repleta de pactos que se dissolvem à medida que se altera a constelação de forças no poder.

 

É, entretanto, eticamente questionável a atitude de mostrar uma indignação moral  

intensa só quando a constelação de forças está a nosso favor.

 

Será que está? Quais seriam as consequências de prender um Carlos Alberto Brilhante Ustra?

 

Para ser mais contraditório ainda (mas não acho que esteja sendo contraditório), acho que seriam pequenas. Os militares arreganham os dentes diante dessa eventualidade, mas na prática não teriam como reagir.

 

Lamentável, a esse respeito, o artigo, também publicado no “Estado”, de um militar da reserva ameaçando de golpe qualquer tentativa de tocar nos sacrossantos torturadores. Sem dúvida, não é exatamente isso o que diz Luiz Eduardo Rocha Paiva. Vamos ao texto.

 

Os militares têm fortes laços de camaradagem, lealdade, reconhecimento e gratidão com aqueles companheiros [que lutaram contra os “terroristas”] e o compromisso moral de apoiá-los com firmeza contra a injustiça constatada na parcialidade da revisão da abrangência da Lei de Anistia.

A liderança civil nacional tenha visão e seja proativa para bloquear, a tempo, a tentativa de colocar o Exército e sua liderança numa encruzilhada, pois, seja qual for a posição a ser tomada pela instituição[...], as conseqüências são imprevisíveis, mas sempre em prejuízo da coesão e da disciplina.

 

É ou não é uma ameaça?

 

O general reformado prossegue:

 

Por outro lado, não considero, em hipótese alguma, a quebra de normas constitucionais pela instituição, mas radicalização e revanchismo geram reação e instabilidade.

 

Não é ameaça, mas é ameaça.

 

Não acredito nessa ameaça. Acho que há uma tradição de apenas “falar grosso”, e duvido que entre a grande maioria dos oficiais do Exército exista, hoje, tanta solidariedade assim diante de alguns (poucos) colegas que, há mais de trinta anos, fizeram barbaridades em salas de tortura.

 

Já disse em post anterior que, se eu tivesse sido torturado, se tivesse tido meus próprios filhos de cinco anos ameaçados de tortura ou levados a me ver numa cena de suplício, não perdoaria nunca quem tivesse feito. Buscaria a vingança. Mas meu ato seria individual, não político.

 

Política não combina com vingança. Não combina, tampouco, com blefe e ameaça. Ou melhor, pode combinar, mas todo estadista, todo agente político maduro, sabe distinguir entre perigo real e blefe.

 

Um articulista, entretanto, não é agente político real. Sua função não é a de ser pragmático, e sim a de julgar em termos de valores. Dois valores estão em jogo aqui: o dos direitos humanos e os da aceitação de um pacto político.

 

Só vejo uma maneira de conciliá-los: é a de que alguém, alheio ao pacto consagrado entre esquerda e direita com a Lei da Anistia, intervenha em função de uma lei universal, a dos crimes contra a humanidade. Ou seja, internamente, no Brasil, o pacto deve ser respeitado. Em Haia, ou Madri, torço pela punição dos torturadores.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h08

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Martha Argerich, o filme

Sou dos poucos que não gostaram de “Nelson Freire”, documentário de João Moreira Salles sobre o célebre pianista. Desse modo, peço ao leitor o devido desconto para o que vou escrever em seguida.

 

Mas o DVD “Conversa Noturna”, documentário sobre Martha Argerich, pianista argentina da mesma geração de Nelson Freire, e amicíssima sua, é ainda pior.

Saiu agora no Brasil, e tem sido saudado como um dos melhores filmes sobre música clássica dos últimos tempos.

 

Martha Argerich não gosta de ser filmada nem de dar muita entrevista, e por isso o filme de Georges Gachot é uma espécie de proeza.

 

O problema é que a pianista, apesar de simpaticíssima, é ainda mais reticente do que Nelson Freire ao falar de sua própria arte. A frase mais freqüente do filme é: “não sei explicar...”

 

Claro, é até normal que alguém tão bom numa linguagem tenha dificuldades em traduzir seu pensamento, suas concepções, em outra linguagem. O verbal e o musical podem ser antípodas.

 

Mas que saudades dos pianistas-literatos, como Cortot, cujas aulas entremeiam exemplos concretos de interpretação pianística com preleções onde a capacidade do artista para a linguagem figurada, para a metáfora, para a evocação, revela-se admirável em si mesma. Tudo bem, imagine-se que Martha Argerich tenha dificuldades para “descrever” verbalmente o que ela sente ou quer transmitir em música. Poderia, pelo menos, “mostrar”. Nada impediria que um documentarista apresentasse a ela diferentes interpretações de uma mesma peça musical, para pedir sua opinião. Ou que mostrasse, como os diversos filmes sobre Glenn Gould feitos por Bruno Montsaingeon, as diferentes abordagens que o próprio pianista faz de uma mesma partitura...

 

Mesmo assim, ficam de “Conversa Noturna” imagens inesquecíveis. Martha Argerich, mocinha, era muito bonita –mais bonita ao piano do que longe dele—e há trechos (só trechos) maravilhosos de suas interpretações (o concerto de Ravel, o de Schumann...).

 

Fazem falta clamorosa, neste DVD, os extras que dão ao “Nelson Freire” de João Moreira Salles um valor especial.

 

E nada explica que o começo de “Conversa Noturna” gaste tanto tempo com um violinista adolescente, bem desafinadinho às vezes, a quem Martha Argerich acompanha com maternal dedicação.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h22

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O escritor e suas intenções

Recebi um e-mail de Cristovão Tezza, autor de O Filho Eterno (ed. Record). Tinha escrito um artigo sobre o romance, na Ilustrada de quarta-feira (assinantes lêem aqui). Eu dizia no texto que li e reli algumas vezes o começo do livro, e achava tão bom que não conseguia continuar.

 

O fato é que, lendo várias vezes os mesmos capítulos, comecei a “ver” coisas que não apareciam na primeira leitura. O início de O Filho Eterno conta de que modo o personagem, um tipo meio hippie e desligado, defronta-se com a revelação chocante de que seu primogênito é portador da Síndrome de Down.

 

Nas primeiras páginas, ele está tranqüilo, achando graça de sua própria expectativa na maternidade, enquanto a mulher entra em trabalho de parto. Lembra-se de ligar para a família, vê do lado de fora uma fileira de telefones públicos. O texto registra que um desses telefones está depredado, sem o fone, com o fio pendendo para fora.

 

Para quem lê pela primeira vez o livro, o detalhe é apenas um toque “realista”. Sempre existe um telefone público fora de uso ao lado de outros funcionando.

 

Quando li pela terceira vez, relacionei essa imagem do telefone vandalizado, ao lado de outros em perfeita ordem, iguaizinhos, com outra cena do livro. O protagonista, ainda inconsciente do problema do filho, procura identificá-lo através da janela do berçário. Mas todos os bebês são iguais...

 

Certamente, aquele telefone quebrado ao lado dos outros passou a ser, na minha leitura, um símbolo da criança deficiente.

 

Cristovão Tezza me escreveu, dizendo que nunca tinha pensado nisso. E que para ele, ao escrever o livro, o telefone quebrado estava simplesmente ali, como uma lembrança daquela situação (o livro é autobiográfico).

 

Melhor ainda, então! Seria terrível se houvesse intenção simbólica naquele detalhe. Um escritor age mal quando tenta planejar tudo, e “plantar” charadas para que seus leitores decifrem depois.

 

O que acontece, a meu ver, é que daquela experiência pessoal extremamente intensa, tudo se fixou na memória do autor com especial intensidade. Inconscientemente, o telefone quebrado ganhou sentido –mesmo que o autor não o tenha decodificado. A força do sentimento pessoal magnetizou, por assim dizer, os pormenores rememorados.

 

O livro ganhou assim uma coerência orgânica, criou uma rede de relações internas entre suas diversas partes e o todo, sem que fosse preciso o trabalho de engenharia intencional que tantas vezes tira o valor estético de uma escrita.

 

A obra, quando é boa, tem uma intencionalidade própria –o que não quer dizer que o autor tenha de ser inconsciente do que faz; tem de saber o que está fazendo, mas, sobretudo, ter sentido o que sentiu.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h00

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fotos de um incêndio

Desde o começo do mês, o fogo devasta grandes áreas da Chapada Diamantina, o que apesar de rotineiro em épocas de seca, parece ter atingido proporções inéditas neste ano, segundo informam no site da cidade de Lençóis. Hoje, o Folha Online informa que a catástrofe atinge 50% da reserva ecológica. Merecem ser vistas as fotos que Edu Zappia tirou durante o desastre, e que me foram enviadas por e-mail.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h33

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edições históricas

Num site, todas as capas de jornais do dia 5 de novembro, registrando a vitória de Barack Obama; veja aqui

Escrito por Marcelo Coelho às 08h28

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Change in the air

"I feel change in the air", bradou triunfalmente o senador Edward Kennedy quando anunciou seu apoio a Obama, meses atrás. Leio nestes dias alguns comentários tentando esfriar o oba-oba em torno de Obama, que vão no mesmo sentido do que apontei no post anterior. Claro que manter a cabeça fria é bom, e foi difícil, para a maioria dos articulistas e para as pessoas em geral, manter algum espírito crítico diante de toda a campanha democrata.

 

Mas não me convencem os raciocínios tipo “hum, hum”, que de vez em quando aparecem na imprensa. Do tipo: sim, Obama promete mudanças, mas não sabemos exatamente quais, seu programa é vago, as dificuldades são enormes, vamos tratar de diminuir as expectativas, porque senão, já sabe, as frustrações serão...hum, hum...

 

Minha impressão particular é que Obama foi o primeiro a refrear bastante o que poderia haver de patologicamente emocional em sua campanha. Acho, mas isso é subjetivo, que ele diminuiu muito o teor esquerdista de suas idéias, porque sabia ser impossível eleger-se com uma plataforma progressista num país onde “redistribuição de renda” é palavrão. Joe Biden, seu vice, declarou num debate com Sarah Palin que a questão não era redistribuir renda, mas simplesmente um problema de justiça. O tempo todo Obama teve de se desviar de acusações desse tipo: não apenas as paranóicas, de que ele era “terrorista” ou “muçulmano”, mas também as de que ele tinha alguma coisa a ver com a social-democracia européia.

 

Com os poderes de oratória que tem, poderia ter traçado uma versão totalmente messiânica de sua candidatura. Diminuiu o quanto pôde esse caráter, sabendo que não precisa bater nessa tecla para se cercar, por si mesmo, de uma aura de esperança. Intelectual e frio, Obama parece plenamente consciente de que há um risco de frustração de expectativas nos primeiros anos de seu mandato.

 

Acontece que sua eleição não traz apenas “promessas de mudança”. Sua eleição já é uma mudança. Um negro virar presidente dos Estados Unidos é uma alteração imensa no cenário contemporâneo e na própria história do país. Muda a maneira com que a própria população americana vê a sua sociedade. Imagine se Mc Cain tivesse ganho: o efeito “moral” disso sobre a população dos grandes centros urbanos dos Estados Unidos seria, a meu ver, devastador.

 

Um pequeno sinal de que as coisas já mudaram. Quando terminou o debate entre Biden e Sarah Palin, os comentadores da CNN mal continham sua surpresa diante do desempenho da candidata republicana à vice-presidência. E já começavam a especular sobre suas chances nas eleições de 2012.

 

Posso estar enganado, mas a vitória de Obama já reconfigura completamente o quadro político, que naquele momento do debate estava ainda sendo analisado conforme os pressupostos da era Bush. É extremamente provável que Palin volte para o Alasca sem outra perspectiva de aventura além de caçar alces e bisões.

 

O espírito do tempo, o Zeitgeist, já é outro, e mesmo se os republicanos tiverem chance na próxima eleição, imagino que devam inventar outra toada –do mesmo modo que os democratas conseguiram fazer, agora, com Obama.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

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O símbolo importa muito

Para meu espanto, ouvi outro dia, na rádio CBN, um bem-articulado comunicólogo brasileiro relativizando a importância da vitória de Barack Obama.

 

Uma das pérolas foi a de que uma quantidade significativa de brasileiros estava mais interessada na eleição americana do que no recente pleito municipal. O raciocínio seguia mais ou menos assim: como é que alguém liga para Obama, quando não liga a mínima para uma decisão que o afeta diretamente, e na qual pode influenciar?

 

Isso é realmente de um paroquialismo e de uma arrogância fora do comum. Não é a proximidade de uma esfera administrativa o que vai definir meu interesse, e sim o conteúdo da decisão em jogo. Se entre dois candidatos a prefeito as diferenças são pouco substantivas, por que eu haveria de me mobilizar? É a mesma coisa que dizer que a queda de um telhado na padaria da esquina deveria me interessar mais do que os atentados de 11 de setembro.

 

Mas o principal, nos críticos da mídia, é apontar a todo custo o componente “ilusório”, típico da “sociedade de espetáculo”, de qualquer coisa que mobilize realmente as atenções mundiais. A massa basbaque acompanha um evento qualquer, e lá está o risinho superior de quem não se ilude...

 

Pode haver espetáculo nos discursos de Obama, mas a eleição dele não se resume a um mero espetáculo de entretenimento. Que haja balões coloridos numa convenção política e numa abertura de jogos olímpicos não faz que a importância relativa dos dois eventos seja semelhante. E o fato de que a eleição de um negro como presidente dos Estados Unidos seja carregada de simbologia não significa que seja apenas um mero “símbolo”, destituído de peso real.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h03

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cabeça de torcedor

Bem que eu quis escrever aqui sobre um assunto no domingo, mas depois me arrependi, pelas razões que logo explico.

 

Eu ia me congratular pelo fato de não ter torcido pelo Felipe Massa no GP Brasil. Quase que eu caía de novo no oba-oba verde e amarelo. Imagine se eu tivesse acompanhado a corrida, e visse o título mundial escapar na última volta das mãos do brasileiro... Quando comecei a me interessar pelo assunto, felizmente era tarde demais e soube só pela internet de mais uma frustrante jornada do automobilismo brasileiro.

 

Isso não impediu que minha rabugice levasse a uma conclusão, que quase postei aqui. Queria falar da inutilidade que existe em “torcer”. Por que transformar-se, um belo dia, em “torcedor”? Qual o significado real dessa atitude? Coisa de manipulados...

 

Logo caí na real, entretanto: eu estava torcendo como um louco pela vitória do Obama...! Todos os dias eu acompanhava os sites de pesquisas eleitorais. Não podia ser contra a atitude do torcedor.

 

Mas não resisto a um último raciocínio. A verdadeira causa da vitória de Obama não foi a crise financeira, nem o fracasso do governo Bush. O fator decisivo foi outro: é que Galvão Bueno, diferentemente de 90% da população e da imprensa mundial, não torceu pelo candidato democrata. Se ele tivesse se engajado na candidatura Obama, estaríamos agora vendo Mc Cain e Palin festejando a vitória.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h47

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de volta

Acabam-se as férias, e bem que eu poderia ter postado nos últimos tempos, sem recorrer ao pretexto –mas andei bem cansado mesmo, e com algumas atividades enquanto isso: por exemplo, um texto que me pediram sobre Cyro dos Anjos, autor que eu nunca tinha lido, e de quem gostei bastante.

 

Contrariando os meus hábitos, não publiquei aqui nenhum excerto do que escrevi, porque isso ainda depende de aprovação dos possíveis editores. Mas é um texto curto, de qualquer modo.

 

Tenho agora, no domingo, uma participação em mesa-redonda sobre um livro organizado por psicanalistas a respeito do 11 de setembro. Escrevi há tempos o prefácio desse livro, mas preciso refrescar a memória...

 

O fato é que houve muita enrolação. Lembro-me de um antigo livro, intitulado “A Lei de Parkinson”, segundo o qual quanto mais tempo você tem a seu dispor, menos coisas você faz. O autor dá o exemplo de uma velhinha que tem de escrever uma carta para o seu neto. Primeiro ela procura os óculos, depois se senta à mesa, depois acha melhor procurar o envelope, fica pensando se aquele envelope é o melhor ou se não haveria outro, de outra cor... E passa bem umas quatro horas fazendo o que qualquer sujeito muito ocupado faria em dez minutos.

 

Enfim, sempre se pode recuperar um pouco do tempo gasto à toa.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h06

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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