Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

O supercão e a Casa Branca

 
 

O supercão e a Casa Branca

 

Nestes dias de feriado, fiquei bastante com as crianças, e meu padrão de atividade cultural se submete às exigências delas. Revi em DVD, com o prazer de sempre, "O Máskara", com Jim Carrey e uma Cameron Diaz estreante; depois, assisti no cinema a "Bolt- O Supercão", animação -e ponha animação nisso-dos estúdios Disney. (Veja o trailer aqui)

 

Os primeiros dez minutos de "Bolt" me deram um susto. Eu estava diante de um incrível e tenso filme de perseguições, capaz de estatelar qualquer criança na platéia. Esta é uma das várias surpresas que estavam preparadas para mim. Na verdade, o que estava sendo apresentado naqueles dez minutos não era o filme propriamente dito. E sim um trecho do seriado de televisão em que Bolt, o cachorrinho protagonista da história, é um bem-treinado ator.

 

Vamos aos poucos percebendo que o ator canino perdeu qualquer senso da realidade. Está tão bem treinado para o papel que desempenha no seriado televisivo, que acredita possuir de fato os superpoderes que os efeitos especiais da produção lhe atribuem.

 

As peripécias do filme são muitas, mas essa confusão na mente do cachorrinho constitui sozinha um ponto de partida genial. Sabemos bem que toda criança está sempre imaginando possuir poderes mágicos. "Imaginar", aqui, não é sinônimo de "acreditar". Pelo menos eu acho que as crianças sabem muito bem que são incapazes de voar ou de derreter o amiguinho com uma pistola de raio laser.

 

O "faz-de-conta", a meu ver, é uma compensação quase ritual, pelo que tem de retórico e religioso, para a experiência devastadora de impotência que qualquer criança, incapaz até de amarrar o próprio sapato, conhece no cotidiano.

 

Essa impotência passa a ser vivida, também, pelo cachorrinho Bolt, na medida em que se vê afastado do estúdio.

 

Do ponto de vista psicológico, "Bolt- O Supercão" traz no seu cerne os mesmos ensinamentos de "O Máskara". O cachorrinho aprende a se tornar cachorrinho de novo -conta para isso com uma improvável e excelente educadora, uma gata de rua cética e escolada, que se encarrega de fazê-lo "cair na real".  

 

Em "O Máskara", toda a panóplia de poderes posta à disposição do personagem vivido por Jim Carrey termina igualmente abandonada, quando este aos poucos vai aprendendo a ser homem de verdade; enquanto isso, Cameron Diaz rapidamente dispensa os superpoderes do Máskara, para entregar-se com paixão a um homem que se dedica apenas a ser autêntico.

 

Mas o interesse de "Bolt- O Supercão" vai além desse paradoxal elogio da verdade humana. Na história, o cachorrinho é expulso dos estúdios de Hollywood e vai parar na selva urbana de Nova York, onde encontra a gata malandra que será sua professora de vida. Toda a animação se desenvolve na luta tremenda de Bolt para voltar a Hollywood. O cachorro atravessa todo o território americano, e o espectador se deslumbra com paisagens incríveis: Omaha, Kansas, Iowa, não sei quantos Estados e lugarejos se desfraldam na tela do cinema.

 

Pensei com meus botões: é uma verdadeira campanha eleitoral. Para se descobrir como quem de fato é, o cachorrinho Bolt terá de impregnar-se de americanidade ao mesmo tempo em que percebe não ter os superpoderes que possuía.

 

Parece-me uma metáfora exata do poderio presidencial americano. Bush era o cachorro que se julgava capaz de tudo. Obama reencontra-se em raízes mais modestas, que o dissuadem da onipotência, mas não o impedem de ser herói. Pelo menos, é o que sugere o filme, pelas proezas de que é capaz o Bolt real, mesmo sem superpoderes. Nessa interpretação, bem que a gata malandra que o acompanha, novayorkina até a medula, passa razoavelmente por Hillary Clinton.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h45

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poema dos reis magos

Traduzo um poema de André Frenaud, escrito nos anos em que a França estava ocupada pelos nazistas. Chama-se "Os Reis Magos", e embora do Dia de Natal já tenha passado, esses versos ainda mantém sua força. Introduzi pontuação no texto original.

 

Avançaremos tão depressa quanto a estrela?

Não durou bastante a caminhada?

Conseguiremos despistar por fim

esse clarão em torno da lua e dos animais

que não se impacienta nunca?

 

A neve tinha teado as terras do retorno

com suas flores derretidas onde a memória não tem vez;

Novos companheiros se juntavam ao nosso grupo:

saíam das árvores como lenhadores.

O judeu errante padecia com seus ferimentos desprezados,

casacos de pele cobriam o rei negro agonizante.

O pastor da fome está conosco,

seus olhos azuis iluminam um manto composto de cascas

e um rebanho ruidoso de crianças conduzidas à prisão.

 

Nós íamos ver a Alegria: acreditávamos nisso,

Na alegria do mundo nascida numa casa perto daqui.

Foi no começo... Agora não falamos mais.

Íamos liberar um sepulcro radioso,

marcado com uma cruz feita de tochas na floresta.

 

O lugar é inseguro, e os castelos atrás de nós deslizam.

Nenhuma lareira acesa nos pontos de parada. As fronteiras

se movem de manhã a cada ataque repelido.

As palmas de nossas mãos, que romperam as tempestades de areia,

estão perfuradas de carbúnculos e eu tenho medo da noite.

 

Quem nos esperava ao vento da estrada

se cansou. O coro volta suas vozes contra nós.

Nas muralhas das cidades fechadas de manhã há terras que não gostam de nós;

avançamos misturados com todo mundo e separados

debaixo das pálpebras pesadas de esperança.

Teu medo ofegava como um cavalo exausto.

 

Chegaremos tarde demais, o massacre já começa.

Os inocentes estão deitados sobre a relva

e a cada dia balançamos nossos cantis pelos lugares ermos,

e se esvazia o rumor dos mortos que não pudemos socorrer,

que tiveram esperança em nossa pressa.

 

O incenso que tínhamos apodreceu nas caixas de marfim

e o ouro azedou nossos corações como se fosse leite.

A menina se entregou aos soldados,

ela, que guardávamos em nossa arca para ver o radioso

sorriso de um Rosto.

 

Estamos perdidos... Recebemos informações erradas

desde o começo da viagem.

Não existia estrada, não existe luz,

só existe uma espiga dourada que nasceu do sonho,

e que o peso de nossos tropeços não conseguiu fazer crescer,

 

E continuamos o caminho murmurando acusações,

nós três brigados entre nós com a violência

que uma pessoa pode ter quando briga

consigo mesma;

e as pessoas sonham ao longo de nosso caminho

na relva dos lugares sem nome

e confiam quando erramos de caminho,

 

perdidos no furta-cor dos tempos -duros meandros

que o sorriso do Menino ilumina-,

cavaleiros em busca do nascimento fugitivo

do futuro que nos guia como quem conduz uma boiada;

eu amaldiçôo a aventura, queria voltar atrás,

no rumo do plátano e da morada

para tomar água do meu poço que a lua não perturba

e me consumar nos meus terraços sempre iguais

no frescor imóvel da minha própria sombra...

 

Mas nada me cura desse insensato apelo.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h48

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Natal na Paulista

Vai um trecho do artigo que publiquei hoje na Ilustrada, sobre um passeio que fiz com os filhos na avenida Paulista.

 

Uma mulher, vendendo água e refrigerante, falava árabe e francês. Veio do Líbano, tivera uma banca de tapioca, odiosamente confiscada pelas autoridades. Tratava de reconstruir a vida com sua geladeirinha de isopor. Belo pacote, sem dúvida, ao pé de uma imensa instalação natalina organizada pelo Banco Tal e Tal.

         Encontrei no passeio um brinco prateado, oculto num canteiro sujo. Como logo ali ao lado um artesão expunha jóias e badulaques para vender, estimulei meu filho maior a perguntar-lhe se a peça não era sua. O artesão respondeu em portunhol.

         Outra conversa começou. O homem não era espanhol, era chileno. Falava castelhano, mas sua família era catalã. Os espanhóis, garantiu, era todos ladrões, exploradores, assassinos. Só os catalães prestavam.

         Uma espécie de trenzinho de Papai Noel estava sendo construído na fachada de outro banco. Meus filhos quiseram entrar nele; não estava pronto ainda. Desconfio que não fique pronto nunca.

Assinantes do uol podem ler mais aqui.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h17

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voltaire de souza

Algumas crônicas publicadas recentemente no jornal "Agora":

 

 

 

 

FORÇA DE UM ÍDOLO

 

Rock. Energia. Animação. É Madonna no Brasil.

Alcides idolatrava a cantora americana.

Na fila do ingresso, ele dava suas explicações.

--Ela tem uma coisa muito física, sabia?

Alcides viera de longe. Dos cafundós de Minas.

Quatro dias de acampamento na frente do estádio.

--E eu nem consigo dormir. De tanta excitação.

Pouco a pouco, entretanto, o cansaço venceu o rapaz.

Ele fechou os olhos. Uma visão surgiu em sua mente exausta.

Uma mulher esbelta. De maiô preto. Um chicotinho.

--Madonna... veio me ver?

Mas o rosto não correspondia ao da superstar.

--Vovó Marieta? É a senhora?

A respeitável anciã mineira tinha morido em 1981.

--Alcides, meu netinho... menos gandaia e mais religião...

Foi grande o impacto da frase. O rapaz saiu da fila. E procura ingressos para o próximo show do Padre Marcelo.

Ídolos diversos, por vezes, convivem no espírito de um homem.

 

 

CHOQUE DAS CULTURAS

 

 

Natal. Tempo de paz. De confraternização.

Nestes dias, entretanto, o terrorismo internacional prepara atos de impacto.

Malcolm era um agente do serviço secreto britânico.

Nervosismo. Stress. Descontrole emocional.

Seus superiores consideraram que ele precisava de férias.

O Nordeste brasileiro. Suas praias. Sua hospitalidade.

Malcolm passeava num dos melhores shoppings de Maceió.

Numa loja de artesanato, um Papai Noel chamou sua atenção.

Magro. Olhos fundos. A barba comprida, nem branca nem preta.

Ele cantava canções tradicionais com um estranho fervor místico.

--Hosana, Hosana nas alturas...

--Osama? Osama Bin Laden?

A árvore de Natal ali em frente agravou as suspeitas de Malcolm.

Feita com pinhas, umbus e cabaças escuras.

Aos olhos de Malcolm, aquilo era um conjunto de bombas. O agente britânico partiu para cima do Papai Noel com sua pistola automática.

Um golpe de peixeira decepou seu braço em pleno vôo.

Provando que, no choque das culturas, as armas mais modernas nem sempre são as mais eficazes.

 

 

QUANDO FALTA O CORAÇÃO

 

 

Natal. É tempo de amor. Tempo de ver a família.

A mãe de Antônio Carlos morava em Minas Gerais.

--Caramba. Faz tempo que eu não ligo para ela.

No telefone, a voz da anciã atendeu com amargura.

--Desnaturado. Você não tem coração, Tonico.

A resposta de Antônio Carlos tinha todo o mau humor e o stress do fim de ano.

--Você só enche. Velha ranheta.

Dias depois, o remorso. O arrependimento. A dor.

--Vou levar um presente para ela. Pessoalmente.

O Monza de Antonio Carlos pegou a Fernão Dias.

No meio do caminho, ele viu que tinha esquecido o presente.

Ao chegar na casa da mãe, silêncio. Noite avançada em Divinópolis.

--Será que eu cheguei muito tarde?

A vozinha veio do andar de cima.

--Chegou na hora certa. Para o transplante.

A mãe precisava de um rim. Antonio Carlos doou um dos seus.

No saguão do hospital, bolas vermelhas parecem celebrar o sucesso da cirurgia.

Filhos podem não ter coração. Mas um rim também serve.

 

 

AÇÃO NATALINA

 

Negociatas. Maracutaias. Transações.

O banqueiro Romeuzinho do Vale era esperto e imaginativo.

Chega o Natal. Época de amor. E de exames de consciência.

--Nestes anos todos, o que eu mais fiz foi roubar.

Um pouco de caridade sempre ajuda.

Romeuzinho adquiriu uma bela roupa de papai Noel.

A barba branca era de última geração.

Seu Nissan blindado estacionou perto da Favela Deus Dará.

No porta-malas, brinquedos. Patinetes. Guloseimas.

Nuvens escuras se acumulavam na direção do Piqueri.

Os primeiros pingos da chuva coincidiram com as primeiras doações.

Em poucos minutos, a roupa vermelha estava ensopada.

Os fios de plastireno branco da barba começaram a se desfazer.

O garoto Devaílson tinha quatro anos. Começou a chorar.

--Não é o Papai Noel?

Quem esclareceu tudo foi o agente Carlos, da Polícia Federal.

--Acabou o disfarce, Romeuzinho. Você está preso. Operação Djingobel.

A caridade é como a justiça. Por vezes, chega tarde demais.

 

FORÇA DE UM MITO

 

 

Trânsito. Chuvas. Confusão.

O Natal é a festa das crianças.

Para muitos pais, entretanto, é um verdadeiro inferno.

O Volvo de Denise estava parado no Itaim.

Destino: um shopping de altíssimo luxo no Morumbi.

No banco de trás, quatro crianças mostravam péssimo comportamento.

Berros. Manhas. Mordidas.

O belo rosto de Denise tentou inspirar terror.

--Se vocês não pararem, Papai Noel não traz presente.

A advertência foi ignorada pelos pequenos capetas.

Denise ia tomar medidas radicais quando um vulto se aproximou.

Roupa vermelha. Barbas brancas. Um gorro. As crianças ficaram quietas.

--Papai Noel? É você?

Não exatamente. Era o Caçula. Perigoso assaltante em atividade na região.

Na mira do 38, Denise entregou a bolsa, as jóias e a chave do carro.

Denise e os filhos voltaram de ônibus para casa. O maiorzinho já promete.

--Ano que vem a gente se comporta melhor, mamãe. Eu juro.

Mito e realidade, por vezes, são como os adultos. Adotam estranhos disfarces.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h55

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cinco lugares da fúria (2)

 
 

cinco lugares da fúria (2)

Republico um poema do livro de Pádua Fernandes, transcrito em post anterior com alguns errinhos que o poeta fez bem em me apontar.

 

Do único senhor dos senhorios, glebas, ofícios, céus, casas e frutos:

 

 

 

sou o cu-

pim, ani-

mal meta-

físico,

abro o

nada na ma-

téria;

meu

gosto

é o

sólido,

minha voca-

ção

é o va-

zio;

quero o oco, po-

rém man-

tenho fe-

chado o que arru-

íno;

sopro, ilu-

são e

fera

sou no labi-

rinto;

cai i-

nerme o

pó,

deixo em

pé o va-

zio, a-

té que a

porta em-

fim

plena do

oco (a verda-

deira

casa)

abra-se definitiva-

mente para o

nada; e a

porta con-

verta-se em um

híbrido entre a

rua e a

casa; e

nada fal-

te para que

toda a ma-

téria se re-

vele

tão

útero (o

útero

nu,

sem mu-

lher al-

guma)

quanto o es-

paço;

pois

sei

ver e fa-

zer o a-

bismo in-

teiro em

cada

muro,

sei do

oco que pal-

pita para liber-

tar-se de

todo

crânio,

sei que a

carne

é o

verme do

corpo e

deve

ser ex-

pulsa para que

venha o

nunca-

nascido e os

membros li-

bertos da

carne

corram

livres pela ci-

dade e in-

vadam os

prédios e os in-

fectem de

não-

ter-

mais-en-

tranhas e o ci-

mento substi-

tua-se pela tempes-

tade e os

cacos

chovam

dentro das pa-

redes e o

lixo a-

corde do pesa-

delo de

ter

sido hu-

mano;

isso

eu

faço, cons-

truo nos

prédios o ca-

minho para a liber-

dade esca-

vando o labi-

rinto; em

todo

muro a

queda

é o

meu

vício e

quando

nada

mais res-

tar em

pé se-

não o

fumo e a

pele e a

carne

só se encon-

trarem no

vento redi-

vivos

com os

meus

ovos

postos no

íntimo, a ci-

dade

não divisa-

mais entre

ruas e

rios, o

pó acolhe-

todos em seu

reino co-

mum e

quando aspi-

rarem a

terra em

vez da

brisa, sabe-

rão que es-

tão co-

migo,

não entre minhas

patas

(outros

prêmios guar-

dar pre-

firo em

minhas es-

tradas), mas em

minha

língua

que pro-

va e cons-

trói o va-

zio que

todo o

tempo

já es-

tava

a

por-

tas

fe-

cha-

das

.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h52

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Aumento dos vereadores: quem apoiou

Enviam-me gentilmente do "Painel" da Folha a lista dos senadores que votaram a emenda que aumenta a composição das Câmaras Municipais em todo o país. Só cinco senadores votaram contra, e é um grupo heterogêneo: Tião Viana, do PT, Kátia Abreu, do DEM, Cristóvam Buarque, do PDT... Na lista dos que aprovaram, alguns destaques: os oposicionistas Arthur Virgílio, do PSDB, e Demóstenes Torres, do DEM; Eduardo Suplicy e Pedro Simon. Sem esquecer de Aloizio Mercadante. "Ncom" é "não compareceu".

 

Ada Mello

Sim

 

Adelmir Santana

Sim

 

Almeida Lima

NCom

 

Aloizio Mercadante

Sim

 

Alvaro Dias

NCom

 

Antonio Carlos Júnior

Sim

 

Antonio Carlos Valadares

Sim

 

Arthur Virgílio

Sim

 

Augusto Botelho

Sim

 

César Borges

Sim

 

Cícero Lucena

Sim

 

Cristovam Buarque

Não

 

Delcídio Amaral

Sim

 

Demóstenes Torres

Sim

 

Eduardo Azeredo

Sim

 

Eduardo Suplicy

Sim

 

Efraim Morais

NCom

 

Eliseu Resende

NCom

 

 

Epitácio Cafeteira

NCom

 

Expedito Júnior

Sim

 

Fátima Cleide

Sim

 

Flávio Arns

Sim

 

Flexa Ribeiro

Sim

 

Francisco Dornelles

Sim

 

Garibaldi Alves Filho

Presidente (art. 51 RISF)

 

Geraldo Mesquita Júnior

NCom

 

Gerson Camata

Sim

 

Gilberto Goellner

Sim

 

Gilvam Borges

Abstenção

 

Gim Argello

Sim

 

Heráclito Fortes

Sim

 

Ideli Salvatti

Sim

 

Inácio Arruda

Sim

 

Jarbas Vasconcelos

NCom

 

Jayme Campos

Sim

 

Jefferson Praia

Sim

 

João Durval

NCom

 

João Pedro

Não

 

João Ribeiro

Sim

 

João Tenório

NCom

 

João Vicente Claudino

Sim

 

 José Agripino

Sim

 

 José Maranhão

NCom

 

 José Nery

Sim

 

 José Sarney

NCom

 

 Kátia Abreu

Não

 

 Leomar Quintanilha

Sim

 

 Lobão Filho

NCom

 

 Lúcia Vânia

Sim

 

 Magno Malta

Sim

 

 Mão Santa

Sim

 

 Marcelo Crivella

Sim

 

 Marco Maciel

Sim

 

 Marconi Perillo

Sim

 

 Marina Silva

NCom

 

 Mário Couto

NCom

 

 Marisa Serrano

NCom

 

 Mozarildo Cavalcanti

Sim

 

 Neuto De Conto

Sim

 

 Osmar Dias

Sim

 

 Papaléo Paes

Sim

 

 Patrícia Saboya

Sim

 

 Paulo Duque

Sim

 

 Paulo Paim

Sim

 

 Pedro Simon

Sim

 

 Raimundo Colombo

Não

 

 Renan Calheiros

Sim

 

 Renato Casagrande

Sim

 

 Romero Jucá

Sim

 

 Romeu Tuma

NCom

 

 Rosalba Ciarlini

Sim

 

 Roseana Sarney

Sim

 

 Sérgio Guerra

Sim

 

 Sérgio Zambiasi

Sim

 

 Serys Slhessarenko

Sim

 

 Tasso Jereissati

Sim

 

 Tião Viana

Não

 

 Valdir Raupp

Sim

 

 Valter Pereira

Sim

 

 Virginio de Carvalho

Sim

 

 Wellington Salgado de Oliveira

Sim

 

 

 

 

           

 

  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h16

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Limites paternos

 
 

Limites paternos

 

Estou com os filhos no Guarujá, que antes do Natal, e nos dias de semana, fica até razoavelmente tranquilo e habitável. Aproveitei para um passeio nostálgico até a praia do Guaíuba, aonde costumavam me levar na infância, para passear à tarde.

 

É uma praia pequena, de mar manso, lembrando mais o litoral Norte do que o resto do Guarujá. Surpreendi-me de ver as casas ainda intocadas pela febre imobiliária. Talvez por sempre ter sido um lugar de excursões populares, o aspecto modesto da arquitetura faz o Guaíuba praticamente igual ao que era quarenta anos atrás.

 

Meu filho de seis anos, em geral nada propenso à audácia e à aventura, descobriu o prazer de escalar as pedras da ponta da praia, e mesmo de embrenhar-se um pouco pela mata a que dão acesso.

 

Tenho trauma antigo desse tipo de exploração com pés descalços. Meu filho, evidentemente, ignorava os perigos de escorregão, entorse, sangramentos, queda na rebentação... Claro que eu exagero, mas minha função era detê-lo, e confesso que meu desejo pessoal ia no mesmo sentido.

 

Ele surpreendeu em mim um medo que não sentia nele mesmo. Não tive problema em confessá-lo; disse-lhe que "era ruim nessa coisa de andar em pedras". Acrescentei: "conheço meus limites".

 

A resposta dele: "seus limites, papai, são ficar sentado numa poltrona lendo jornal".

 

Ele está certíssimo. E, por mais que falemos na necessidade de "impor limites" às crianças, que coisa melhor existe do que vê-las superando os nossos?

Escrito por Marcelo Coelho às 11h25

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Poesia e chocolate

 
 

Poesia e chocolate

 

O mais recente livro de Renata Pallottini se chama "Chocolate Amargo", o que motivou a estranha iniciativa de fazer com que os poemas sejam impressos em tinta marrom-escura e... com cheiro de chocolate! De modo que, na cabeceira, o livro pode motivar terríveis crises de abstinência durante a madrugada.

 

Os poemas de Renata Pallottini possuem, entretanto, mais interioridade -e amargura-- do que faz supor o toque aromático que se agregou à edição. Interioridade, no caso, não quer dizer hermetismo: a autora registra experiências do cotidiano com muita sensibilidade, e uma espécie de dor que não a larga nunca. Um exemplo:

 

A moça no debate

 

Entra na sala e traz o filho ao colo

Ansiosa por ouvir, como todos os outros

Mas a criança chora

As pessoas se agitam

Nossa calma se turba.

 

Há um conflito entre seu cérebro e seu ventre

A mãe que existe e a pessoa possível.

 

E ela abandona a sala aquietando o menino.

E todos ficam em paz

Menos o seu espírito.

 

E ninguém para saber onde ela vai.

 

(Não esquecer que o filho teve um pai.)

 

 

Algumas coisas, aqui, me parecem inexatas: não diria que "todos", num debate, estão "ansiosos por ouvir"; nem que a "calma" combine com essa ansiedade, nem ainda que o "nossa", de calma, seja adequado -pelo menos, nem sempre os debatedores estão calmos quando se preparam para falar. Mesmo assim, é maravilhosa a idéia de transformar num poema essa situação, tão comum, da mãe que não é propriamente solteira, mas "está" solteira a maior parte do tempo, e tenta conciliar isso com a nova vida de mãe.

 

A falta que faz um pai é retomada, em tons autobiográficos, num poema sobre o Zepelim:

 

A passagem do zepelim em 1936

 

Vocês podem não crer

Mas eu tinha cinco anos

Menos um pai

Mais imensas perguntas.

 

Não se sabe por que

Eu amava a vizinha

Talvez esse tremendo orifício na alma

Talvez essas bonecas

Que metiam medo.

 

Não entendia nada

Tinha um pé de alecrim

E a garganta apertada

 

Quando passou lá em casa o zepelim.

O alemão me deu esse presente.

Até hoje sou grata, o pássaro prateado

Principalmente quieto

Totalmente sem bulha.

Bulha. Palavra estranha

Como um zepelim.

 

 

Curioso que o primeiro poema está a falar de um menino, no debate, que chora e a mãe o acalma, enquanto aqui temos uma menina, sem pai, maravilhada pela passagem silenciosa do dirigível. Algo, sempre, deve silenciar: sem dúvida, é o próprio sentimento de uma falta, que a passagem do poema, em sua plenitude, vem aplacar por um rápido momento.

 

Falta mais absoluta, contudo, está sendo evocada em outro poema sobre passagens:

 

O trem de alzheimer

 

Você se vai no trem dos desmemoriados

Seu trem se vai crescendo em força devagar

Leva consigo qualquer coisa que você tenha pensado

Ou quisesse dizer      qualquer coisa que você

Acaso tenha desejado ao longo de sua vida

Ou quiçá no fundo de sua vida     antes do trem

 

...

 

 

Como é silencioso esse trem      nem fumaças

Nem os apitos    densos    nem o sussurro elétrico

Como é insidioso esse trem    ele te leva

Devagar e constante e negro e sem remédio

 

 

...

 

Ninguém responde às perguntas inúteis

No trem dos desmemoriados      Ninguém sabe

Qual seria afinal o teor das palavras

 

Houve alguma palavra? Disse algo? Falava?

Por que o aceno ao longe     das últimas janelas?

 

 

O trem dos desmemoriados se estende como um bicho

Porque ninguém jamais soube da sorte que lhe cabia

Essa desordem murcha que atinge os desmemoriados

E os desorienta     essa fadiga das lembranças

Esse medo ao passado não vivido

 

 

Será essa afinal a causa da viagem

Razão de você ter comprado esse bilhete

De ter     por seu prazer    renunciado à consciência

Por sua escolha ter desistido da vida?

Você quis    por acaso    essa viagem incurável?

Escrito por Marcelo Coelho às 11h22

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a arte do release

 

Para os interessados nas novidades da mídia alternativa, eis um release que recebo por e-mail:

 

 

A Impressão em papel higiênico é um mundo a ser explorado de forma muito inteligente. Chega de ler rótulos e coisas desnecessárias no banheiro principalmente durante momentos pessoais e  de oportunidades para uma boa e breve leitura . Em tempos em que cada minuto é precioso e que relaxamento associado a informação é importante para o sucesso de modo geral, aproveitar momentos  de tamanha intimidade para descontração e informação, aliada muitas vezes ao bem estar é uma poderosa ferramenta pessoal  e estratégica .

 

Gosto especialmente do "muitas vezes" e da idéia do papel higiênico impresso como uma "ferramenta pessoal".

O pior é o nome do produto, que traz um trocadilho que custei a perceber: Seucuca.

 

Na mesma linha de textos, recebo informações engraçadas a respeito de uma exposição que começou no dia 10 de dezembro, na estação Vila Madalena do metrô. Assim como existem aquelas camisetas da campanha de prevenção ao câncer de mama, resolveram criar cuecas contra o câncer de próstata. A campanha é meritória, mas leia-se isto:

 

A cueca é uma peça do fundamental do  vestuário masculino. A sua função primordial é cobrir e proteger os órgãos sexuais do homem (sua costura é especialmente modelada para fornecer apoio a estes órgãos). Em algumas regiões, também é chamada de sunga.

 

A proposta da exposição A Cueca é mostrar que, através da arte, podemos falar de assuntos e problemas que ainda são tabus, principalmente entre os homens. Não somente a arte decorativa, mas com uma função social abordando assuntos de relevância. Os artistas convidados da ABAPC desenvolverão seus trabalhos sobre a cueca dentro de um padrão artístico peculiar, ou seja, serão feitas cuecas de diferentes materiais, como ferro, metal, tecido, resina e outros, aproveitando para contar um pouco da evolução desta peça.

 Uma pequena história da cueca

 

O exemplo mais antigo da roupa íntima masculina data da era dos homens das cavernas. São descritas por estudiosos com um longo pedaço de linho moldado como um triângulo com tiras nas pontas. Eram amarrados ao redor dos quadris e laçados por entre as pernas; depois, com as tiras, eram amarrados novamente nos quadris.

 

No século XII, com o desenvolvimento das armaduras de platina, as faixas de linho que eram usadas como proteção contra o metal áspero começaram a ser usadas pelos cavaleiros. Desde então, estes tecidos são considerados os reais antecedentes da roupa íntima masculina. Mais tarde, as cuecas, freqüentemente amarradas abaixo dos joelhos com fitas ou alfinetes, encurtaram e foram costuradas.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h17

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planejando o ano novo

 

Dificuldades para cumprir as metas que você mesmo traça para o Ano Novo? Há consultores que podem ajudá-lo nisso. Eis alguns itens de um e-mail que recebi por estes dias.

 

  • Revise o que é importante para você - Ano que vem precisará de foco e não de perda de tempo à toa. Para isso, você deve ter clareza e responder as seguintes questões: Que atividades eu devo focar em 2009 e quais eu devo abortar? Faça uma lista de "FOCO" e outra de "STOPs". Depois de concluída, faça uma lista de prioridades por ordem de importância. Olhe para os cinco primeiros itens e detalhe um plano de ação na sua agenda;
  • Crie pontos de controle - A cada bimestre, agende uma reunião de uma hora com você mesmo para revisar seus planos, suas metas, seus "FOCOs" e "STOPs". Isso evita que a promessa caia em desuso ao longo da execução (...)

 

Uma reunião comigo mesmo a cada bimestre? Agendada? Seria muito bom, mas não sei se o meu psiquiatra iria autorizar.

Quem precisar de mais conselhos pode visitar o site http://www.triadedotempo.com.br/

Escrito por Marcelo Coelho às 16h42

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"queime depois de ler"

No artigo desta quarta-feira para a Ilustrada, comento o filme dos irmãos Coen. Um trecho do texto:

 

Na sessão em que eu estava, o público demorou para sair da sala; de algum modo, ficamos sem saber o que concluir da engraçada, improbabilíssima e genial aventura imaginada pela dupla de diretores e roteiristas.

         "Queime depois de ler": o título sem dúvida se aplica às próprias sensações de quem acaba de ver o filme.

         Como costuma acontecer nas histórias dos Coen, alguns personagens nada inteligentes resolvem dar um grande golpe. Tudo dá errado, terminando em violência e morticínio. A história, assim, fecha-se em si mesma, parecendo engolir seus participantes num abismo de escuridão, anonimato e sangue.

         Visto desse modo, em linhas gerais, o enredo pode sugerir um paralelo com o que aconteceu durante os oito anos do governo Bush. Planos supostamente geniais, levados adiante por um grupo de palermas, resultam numa sucessão de crimes e atos de violência sem sentido.

         Ocorre que, em "Queime depois de ler", os funcionários mais qualificados da espionagem americana são a única reserva de bom senso em toda a história. A estupidez e o ridículo vêm do cidadão comum.

        A íntegra pode ser lida pelos assinantes do uol neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h28

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debate no Masp

Para quem quiser dar uma olhada, vai aqui o vídeo do debate sobre "Cultura e Jornalismo" de que participei na quarta-feira, no Masp.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h22

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chucrutes e abobrinhas

 

Sou informado, na coluna de Vera Guimarães Martins que a Folha publicou hoje, que "cultura de esquerda/direita", "indústria cultural" e "arte para as massas" não constituem, hoje em dia, nada mais do que "chucrutes" servidos segundo a "receita original" pelo "fã-clube de Adorno & seus Horkheimers".

 

Hoje em dia, segundo a autora, não faz mais sentido falar em ditadura da indústria cultural, uma vez que os jovens "têm acesso praticamente irrestrito a música de todos os quadrantes sem pagar um tostão para a tal indústria".

 

Ela cita, no final do texto, um exemplo dado por Cacá Diegues:

 

O cineasta contou ter ficado angustiado ao ser chamado para dar uma aula inaugural de cinema a jovens de uma favela carioca: o que falar a uma moçada carente até de educação formal recente? Descobriu ao se apresentar à turma: dos cerca de 140 (140!), um número entre 20 ou 30 já havia feito seus próprios filmes. Foram eles o tema.

 

Não sei o que essa história pode significar para a argumentação da autora. Imagine-se, por exemplo, o maestro Villa-Lobos, em 1930, ou Tom Jobim, em 1960, encarregados de dar uma aula inaugural de música a jovens de uma favela carioca. Descobririam, sem dúvida, que mais de 30 jovens fazem música com seus próprios meios. E daí? Isso significa que acabou a indústria cultural?

 

Imagine-se, também, na década de 30 ou 40, se alguém dissesse ao professor Adorno que suas críticas ao cinema hollywoodiano estão totalmente ultrapassadas, porque agora, com o novo invento da televisão, todo mundo pode ter acesso a filmes sem pagar nada por isso.

 

Na década de 20, poderiam dizer também que, graças à novidade do rádio, os ouvintes podem ter acesso "até mesmo" à música clássica, sem pagar fortunas para ir a um concerto... O professor Adorno e seus Horkheimers coçariam suas carecas enrugadas e diriam: "é mesmo, esse papo de indústria cultural é uma big de uma besteira"... Morou?

 

Enquanto isso, com internet e tudo o mais, pop-stars como Madonna, revistas como a "Caras" e os filmes de Batman fazem a cuca da moçada. Mas indústria cultural não tem nada a ver com isso. .

Escrito por Marcelo Coelho às 19h56

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cultura e jornalismo

Na comemoração dos 50 anos da "Ilustrada", participei nesta quarta-feira de uma mesa-redonda com Marcos Augusto Gonçalves, Matinas Suzuki Jr. e Ruy Castro. Tudo teve um ar mais de bate-papo, de modo que não li o que tinha preparado a respeito, e que vai aqui transcrito.

 

 

Como estamos aqui comemorando os 50 anos da Ilustrada, e com a presença de pessoas que tiveram importância enorme na construção desse caderno, queria centrar um pouco minha fala numa pergunta que volta e meia me fazem, "o que é que aconteceu com a Ilustrada?"

 

Bom, em primeiro lugar essa pergunta já me faziam em 1985, em 1990, em 1995... de modo que, se alguma coisa "aconteceu" com a Ilustrada, e imagino que tenha sido algo de ruim, "aconteceu" já faz tempo.

 

Eu me lembro, por exemplo, de um texto do José Miguel Wisnik, escrito já faz um vinte anos, numa coletânea intitulada "Ética", em que ele comentava "As Ilusões Perdidas", romance de Balzac a respeito da falta de caráter de um jornalista cultural, na Paris de 1830. E o Wisnik terminava esse artigo fazendo referência ao "incêndio", a uma espécie de política de terra arrasada, que a Ilustrada empreendia naquela época. Incêndio do qual só se salvavam, na opinião do Wisnik, as colunas do Arnaldo Jabor.

 

Bons tempos, como se vê. Minha impressão sempre é a de que quem reclama do tempo presente muitas vezes tem falta de memória.

 

Mas,sem dúvida, eu não posso ignorar as grandes diferenças entre o jornalismo cultural dos anos 80 e as de hoje. Acho que a diferença básica está no próprio lugar, no papel que o jornalismo cultural tinha naquela época e o papel que tem hoje.

 

A Ilustrada dos anos 80 não fazia apenas jornalismo cultural, no sentido mais corriqueiro de dar notícia sobre os espetáculos, fazer indicações, dar matérias de serviço sobre a agenda cultural da semana. Era também um agente cultural. Havia, por assim dizer, uma "cultura da Ilustrada" como há hoje "cultura da periferia" ou "cultura da Globo".

 

Havia, principalmente, um papel de intervenção muito grande: os editores, os jornalistas e críticos da Ilustrada tinham um espécie de poder, de arrogância mesmo, de decretar não só o que era bom e ruim nas artes e na cultura, mas principalmente aquilo que está IN e o que está OUT- o que vale a pena ser considerado e o que merece ser esquecido.

 

Ou seja, eram principalmente árbitros do gosto. "Um" gosto, que podia mudar dali a seis meses, mas que era "o" gosto da Ilustrada. Tenho impressão de que o critério do gosto foi dando lugar ao critério da notícia. E isso é mais jornalístico, embora menos interessante, e, na verdade, muito mais difícil de fazer, e de tornar atraente para o leitor.

 

Mas eu vou detalhar um pouco as causas dessa mudança. Acho que são muitas.

Em primeiro lugar, um aspecto técnico. Nos anos 80, a capa da Ilustrada reinava soberana, e era escolha muito pessoal do editor o "assunto" (não a notícia, veja bem) que ia ser posto na capa. Hoje, a capa foi ocupada por um anúncio de moda; ultimamente até disciplinaram isso melhor, deixando um pouco mais de espaço para as matérias. Mas isso diminui tecnicamente o "poder de decreto" que o caderno tem.

 

Em segundo lugar, minha impressão é que havia menos "notícias" para dar nos anos 80. A quantidade de shows, peças, exposições e filmes em cartaz era menor. Hoje é muito mais difícil selecionar. E o espaço para cobrir minimamente a agenda da semana diminuiu.

Em terceiro lugar, o Brasil se abria às importações, depois de muita restrição comercial. Era um processo, nos anos 80, ainda incipiente, mas que permitia aos mais "antenados" saberem de coisas importantes em Nova York ou em Milão, antes da maioria dos leitores. Figuras como Paulo Francis e Pepe Escobar tinham, assim, um poder de intervenção que hoje,com todo mundo já plugado na internet, com tv a cabo e dvd, já não é monopólio dos jornalistas.

 

Em quarto lugar, e mais importante do que isso, minha impressão é que os anos 80 foram de fato um momento de transição muito importante, de revolução mesmo, em termos de critério de gosto.

 

Da década de 70 para a década de 80, inúmeras coisas saíram violentamente de moda. Sumiram a latinidade de Mercedes Sosa, o mundo "poncho e conga", como dizia Telmo Martino (um dos nomes mais importantes nesse processo), a mentalidade revolucionária de esquerda. Não só o mundo inteiro ficava mais de direita, com Reagan, Thatcher e João Paulo 2º, como também se começava a apreciar uma estética mais elegante, menos "cabeluda",mais yuppie, por assim dizer.

 

Foi também um momento em que, dentro da voga pós-moderna, que privilegiava o pastiche, a imitação, o retrô, o "revival", toda aquela crispação revolucionária do tropicalismo, da música de protesto, tendia a ser superada. E também, junto com ela, superava-se -no plano do consumo cultural-muitos preconceitos e divisões que, na minha adolescência, ainda eram plenamente aceitos. Por exemplo: quando eu era adolescente, Hitchcock ainda era "entretenimento de boa qualidade", enquanto arte séria, em cinema, só Bergman fazia. "Casablanca" era considerado "o melhor filme ruim de todos os tempos", em vez de ser o clássico que é hoje. Nesse ponto, o Ruy Castro aliás teve uma intervenção que me abriu os olhos, já faz tempo. Era uma daquelas listas célebres de dez melhores filmes de todos os tempos, e todo crítico sempre colocava "Cidadão Kane" em primeiro lugar. Ruy Castro resolveu, e acho que com excelentes motivos, pôr Casablanca na frente.

 

Essa recuperação da cultura popular americana, elevando-a ao plano da qualidade dos eruditos, considerando Cole Porter e Tom Jobim, por exemplo, lado a lado de Stravinsky, no plano do consumo da pessoa culta, da elite, foi uma transformação cultural que, a meu ver, a crítica e o jornalismo conseguiram realizar.

 

Hoje, os grandes debates culturais não faltam -envolvem vários filmes brasileiros, por exemplo, ou a literatura da violência dos anos 90-e são corretamente destacados pelo jornalismo. Mas, de algum modo, vieram "de fora" do nosso círculo social; não somos parte do mundo do Ferréz, por exemplo, como éramos parte do mundo da Paula Toller ou do Gerald Thomas. Tornamo-nos menos agentes, e mais espectadores, mais repórteres, espero; mais críticos? Gostaria que sim, mas falta espaço, aqui e no jornal, para fazer o "estrago" que a Ilustrada fez em outros tempos. Não sei se precisa, aliás.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h06

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Burrices na revista "Veja"

 

A edição de "Veja" desta semana tem algumas matérias interessantes, como por exemplo a que fala da briga entre o Vaticano e o clero de Medjugori, que continua a explorar as supostas aparições da Virgem Maria. Ou então a que aponta a onda de hostilidades de paraguaios contra brasileiros no país vizinho.

 

Mas não resisto a apontar algumas pérolas da mentalidade vigente na revista.

 

Veja-se este extrato da seção "Blogosfera":

 

ESPELHO MEU- Lucia Mandel

 

Botox traz felicidade?

 

Como a toxina impede o movimento exagerado dos músculos que originam expressões de raiva, tristeza ou medo, acredita-se ser possível que a aplicação faça a pessoa se sentir melhor. Impedido de franzir a testa ou aproximar as sobrancelhas, o paciente fica menos agressivo e até mais confiante.

 

COMENTÁRIO DO LEITOR: Concordo totalmente. Uso Botox e cada vez mais me sinto feliz comigo e com todos ao meu redor. Ele nos ajuda a sorrir para a vida.

 

 

Pessoalmente, minha reação seria rir às gargalhadas diante desse tipo de informação. Mas o Botox que apliquei recentemente me impede movimentos faciais exagerados.

 

Por falar em felicidade, veja-se (e leia-se) o que diz Alice Schroeder, autora de uma biografia do mega-especulador Warren Buffett, entrevistada na página 101 da revista.

 

[Buffett] me ensinou que eu não deveria pensar em ser feliz apenas aos 70 anos [...] Na verdade, tenho de ser feliz hoje, aos 50. Foi isso que ele me ensinou. Se você tem de fazer algo realmente decisivo, tem de ser agora. Eu acabei me divorciando. Percebi que meu casamento não era feliz. Tanto eu quanto meu marido estamos mais felizes hoje. Graças a Buffett.

 

 

"Buffett" pode dar idéia de "Bufê", mas eis um trecho das indicações de "Veja" para a Ceia de Natal.

 

Com a crise, o jantar da noite de Natal ficou cerca de 10% mais caro em relação ao ano passado. No entanto, reunir a família em casa ainda é a opção mais econômica. Especialistas apontam os prós e os contras das principais alternativas para o dia 24.

 

IR A UM RESTAURANTE

 

Preço por pessoa: 200 reais

Vantagens: degustar pratos sofisticados e não ter o trabalho de arrumar a casa, comprar ingredientes, cozinhar e servir

Desvantagens: além de ser a opção mais cara, a festa fica menos íntima  --o Natal é celebrado ao lado de muitos estranhos.

 

Ah, estou mais esclarecido. Pensava que o leitor de "Veja" tinha empregadas que lhe poupassem o trabalho de "cozinhar e servir" na noite de Natal. Mas a democracia progride, é verdade.

 

Curioso que não exista quase nenhuma menção, nas páginas da revista, ao recorde de popularidade obtido pelo presidente Lula na última pesquisa Datafolha.

 

Nada tenho a celebrar com os 70% de aprovação; fui crítico do governo a maior parte do tempo, continuo sendo, e estou ao lado dos adversários do PT neste momento de enfiar a viola no saco. Não deixa de ser uma violência jornalística, entretanto, o fato de "Veja" limitar a notícia do grande triunfo de Lula ao meio de uma notinha na seção "Radar":

 

Nos próximos quinze dias serão divulgadas duas pesquisas medindo a popularidade de Lula -a CNI/Ibope e a CNT/Sensus. Devem repetir o recorde de aprovação revelado pelo Datafolha, na sexta-feira. Será que a crise nunca atingirá o presidente? [...]

 

É provável que sim. Mas minha pergunta é outra. Será que a burrice nunca abandonará a revista "Veja"?

Escrito por Marcelo Coelho às 01h16

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Madagascar 2, depois de Freud

 
 

Madagascar 2, depois de Freud

 

"Madagascar 2" é tão bom quanto o primeiro desenho animado da série (imagino que logo venha a continuação). Em filmes normais, isso não é a regra: costuma-se repetir os títulos de sucesso em seqüelas mais baratas e apressadas, contando com o público cativo. Talvez nos desenhos animados a máquina produtiva seja tão azeitada, as fórmulas para agradar tão quimicamente perfeitas, que seja menor o risco de uma piora no segundo filme. Seja como for, tanto no cinema quanto no desenho animado, o que mais se faz é uma troca, uma espécie de combinatória, entre uma série de ingredientes já conhecidos.

 

"Madagascar 2" repete não apenas as simpáticas personalidades do leão, da zebra, do hipopótamo e da girafa do desenho anterior, como combina-as ao drama de "Rei Leão", imaginando por exemplo uma nova versão de Scar, o vilão daquele sucesso da Disney. É como uma grande cozinha (ou melhor, uma grande ratatouille) em que os mesmos ingredientes são reaproveitados e reinventados. Nada a opor: afinal, os mitos e contos de fadas também são feitos nessa base, a da bricolagem, como dizia Lévi-Strauss.

 

Em meio aos ótimos números musicais, às filmagens paisagísticas de perder o fôlego, às graças da gangue dos pingüins (meus personagens favoritos) e a certo abuso na presença da velhinha agressiva (que, no primeiro Madagascar, atacava o leão na estação central de Nova York) vejo entretanto um tema clássico do cinema americano (e não só americano), cuja repetição chega às raias da verdadeira neurose. É o mesmo da obra-prima do gênero, "Procurando Nemo", a saber, o reencontro entre pai e filho.

 

No começo, pensei que "Madagascar 2" seria a insuportável repetição desse drama: o leãozinho é raptado, o pai leão se desespera, terá de procurá-lo. Por sorte, essa odisséia ao inverso não toma muito tempo do filme. Mas, qualquer que seja a produção hollywoodiana, sempre esbarramos com ela.

 

Acho que atinei com a razão principal de tanta insistência. Não é tão mítica quanto eu pensava, nem se baseia simplesmente na idéia, frequentemente repetida, de que a figura paterna anda em falta nestes tempos de permissividade e "falta de limites".

 

Provavelmente, tudo tem uma explicação mais prosaica, que não exclui as anteriores. Autores, roteiristas e público adulto certamente pertencem a uma geração em que é comum ter assistido ao divórcio dos próprios pais. A criança acaba morando com a mãe; reatar os laços com o pai é coisa para muitos anos e muita psicanálise.

 

O caçador submarino que afasta Nemo de seu pai, o vendedor de animais selvagens que rapta o pequeno Alex e o leva a um zoológico, são provavelmente metáforas dessa ameaça desconhecida, que pode ser o amante da mãe, a amante do pai, ou o próprio Divórcio.

 

Antes, o menino entrava em sua crise edípica amando a mãe e querendo a morte do pai. Hoje, o pai dá o fora de casa; a criança talvez pense que o matou inconscientemente. Reencontrá-lo é um longo percurso para perdoar-se a si mesma. O perdão, a aceitação, é transferido para a figura do pai, que irá finalmente, no fim do filme, "aceitar o filho" como ele é.

 

Ao mesmo tempo, o enredo de histórias como "Madagascar 2" e "Procurando Nemo" atribuem objetivamente uma grande parcela de culpa ao pai, que descuidou de proteger o filho, entregando-o a um adversário poderoso. O espectador, o roteirista, identificam-se evidentemente com o personagem infantil, e não perdoam o pai por ter desaparecido de suas vistas.

 

O pai de Nemo é punido por isso e terá de fazer imenso esforço para reencontrá-lo. Em Madagascar 2, o esforço cabe a Alex, que terá de conquistar as graças de seu pai novamente. A vida real é uma mistura das duas coisas.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h18

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presentes possíveis e impossíveis

No site dezeen, dedicado a arquitetura e design, vejo notícias de uma exposição de coisas feitas com papel. Destaque para a luminária "A-4", de Naoto Fukuzawa:

Mas comprar um objeto desses não é para qualquer um. Estará à venda num leilão beneficente em Miami.

Não consola muito saber que há outra luminária no gênero, à venda num site holandês:

Faz melhor efeito se colocada entre os livros de uma estante.

Ainda num mundo próximo aos do escritório e da papelaria, que tal um colar-grampo?

Está à venda na nova loja de design do MAM-Rio de Janeiro.

 Para crianças, na linha do presentinho barato, que você pode comprar de última hora, acho inigualáveis os livros-brinquedo da Catapulta Editores. Trazem kits, alguns com coisas difíceis, como arte em arame colorido. Outros são muito simples, como o que ensina a fazer inúmeros desenhos usando apenas os dedos como carimbo (duas almofadinhas e tinta vêm junto). Um dos melhores ensina a pintar pedras. Vem com uma pedrinha redonda comum, das que se podem achar por aí, um conjunto de tintas guache, e muitas páginas de idéias surpreendentes de como dar forma e ilusão a um objeto tão pouco promissor. Um exemplo apenas:

 

 

Triste é que meus filhos, de seis e quatro anos e meio, ainda não aprenderam a copiar direito as coisas de um modelo: querem fazer tudo por contra própria e o resultado é uma borração total.

Outro livro que não compromete ninguém, podendo ser dado a quem gosta e a quem não gosta de ler, e a pessoas de qualquer idade, é o lindo volumezinho intitulado "O Gato Chinês", de Kwong Kuen Shan:

O livro alterna uma página de provérbios e uma com desenhos muito bonitos de gatos, feitos pela autora. O formato, o gosto das imagens, certa alegria geral de concepção fazem desse livro um objeto "desejável", superior à tranqueira que normalmente as livrarias deixam em cima do balcão do caixa para serem comprados no impulso. Verdade que provérbios chineses nem sempre são interessantes. Por exemplo:

"Um homem sábio raramente falha porque ele prevê problemas"-- Feng Meng Long.

Assim até eu.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h58

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noite e vento

nada mais difícil do que fotografar o vento, mas sem que os galhos das árvores se inclinem, podemos intuir que neste céu de inverno recortado entre as árvores uma agitação se prepara.

(do site vie en gris, especializado em preto-e-branco) 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h40

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cinco lugares da fúria

 
 

cinco lugares da fúria

 

Uma das novidades da poesia de Pádua Fernandes (ver o penúltimo post) está no fato de ele tratar da "questão urbana" com a mesma veemência com que, há cinquenta anos, a literatura brasileira tratava da questão agrária.

 

O poema que transcrevi no post abaixo, "Do único senhorio... etc." é na verdade o último de uma série, que compõe a terceira parte do livro, intitulada "Mapa Progressivo do Oco". O primeiro poema se intitula "De como o senhorio apresenta as suas vastas glebas e garbos aos inquilinos", e é feito de versos relativamente longos:

 

Eu só gosto do que é sólido.

Por isso invisto em imóveis,

me enriquece o desabrigo.

 

Admirável, diga-se de passagem, a autoridade desses versos.

 

À voz do proprietário urbano, segue-se no livro de Pádua Fernandes o discurso da legalização da propriedade. Só que sob a inflexão de uma tese universitária:

 

...Dedico toda esta presente tese a meus pais, minha esposa, meus colegas de Procuradoria (em especial ao Exmo. o Sr. Dr. Professor Orientador e aos Ilmos. Membros da Banca que já estão me aprovando com inegável urbanidade) e a todos que sabem que a democracia precisa ser reformada para que se pareça com ruínas e, assim, atraia mais turistas (e capital estrangeiro), que a visitarão em massa como fazem hodiernamente com o Coliseu.

 

O efeito de um parágrafo como esses é de um soco no estômago, porque há muito controle e ritmo do autor. Ele mantém as aparências formais e fictícias de uma dedicatória de tese enquanto desenfreia sua fúria. Mas que coisa difícil é controlar a própria ironia! "Inegável urbanidade" cai muito bem, num texto em que a injustiça urbana finalmente supera o problema da injustiça rural. Mas não havia necessidade nenhuma em dizer "(e capital estrangeiro)" no último trecho, porque o termo "turistas" já era suficiente, a meu ver, para marcar o sarcasmo de todo o raciocínio.

 

 

  

Escrito por Marcelo Coelho às 01h57

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o relógio do mundo

Parece banal, mas é absolutamente impressionante. Neste link vão aparecendo instantaneamente as estatísticas do planeta: quantas pessoas estão nascendo, quantos acidentes de trânsito, quantos casos de sífilis e malária (estes não param), quanto cresce o déficit americano, quantos spams estão sendo mandados pela internet... Quase que nos esmaga a pulsação monstruosa do planeta.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h16

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poema do cupim e da cidade

Mal cabe nos limites de um só post o extraordinário poema que leio em Cinco lugares de fúria, de Pádua Fernandes (editora Hedra). São versos curtíssimos, que percorrem várias páginas, como que escavando uma galeria ao longo do papel. Vale a pena:

Do único senhor dos senhorios, glebas, ofícios, céus, casas e frutos

 

 

sou o cu-

pim, ani-

mal meta-

físico,

abro o

nada na ma-

téria;

meu

gosto

é o

sólido,

minha voca-

ção

é o va-

zio;

quero o oco, po-

rém man-

tenho fe-

chado o que arru-

íno;

sopro, ilu-

são e

fera

sou no labi-

rinto;

cai i-

nerme o

pó,

deixo em

pé o va-

zio, a-

té que a

porta en-

fim

plena do

oco (a verda-

deira

casa)

abra-se definitiva-

mente para o

nada; e a

porta con-

verta-se em um

híbrido entre a

rua e a

casa; e

nada fal-

te para que

toda a ma-

téria se re-

vele

tão

útero (o

útero

nu,

sem mu-

lher al-

guma)

quanto o espaço;

pois

sei

ver e fa-

zer o a-

bismo in-

teiro em

cada

muro,

sei do

oco que pal-

pita para liber-

tar-se de

todo crânio,

sei que a

carne é o

verme do

corpo e

deve

ser ex-

pulsa para que

venha o

nunca-nascido e os

membros li-

bertos da

carne corram

livres pela ci-

dade e in-

vadam os

prédios e os in-

fectem de

não-

ter-

mais-en-

tranhas e o ci-

mento substi-

tua-se pela tempes-tade e os

cacos

chovam

dentro das pa-

redes e o

lixo a-

corde do pesa-

delo de

ter sido hu-

mano;

isso

eu

faço, cons-

truo no

prédios o ca-

minho para a liber-

dade esca-

vando o labi-

rinto; em

todo muro a

queda

é o

meu vício e

quando

nada

mais res-

tar em

pé se-

não o

fumo e a

pele e a

carne

só se encon-

trarem no

vento redi-

vivos

com os

meus

ovos

postos no

íntimo, a ci-

dade

não divisa-

mais entre

ruas e

rios, o

pó acolhe-

todos em seu

reino co-

mum e

quando aspi-

rarem a

terra em

vez da

brisa, sabe-

rão que es-

tão co-

migo,

não entre minhas

patas

(outros

prêmios guar-

dar pre-

firo em

minhas es-

tradas), mas em

minha

língua

que pro-

va e cons-

trói o va-

zio que

todo o

tempo

já es-

tava

a

por-

tas

fe-

cha-

das

Escrito por Marcelo Coelho às 02h13

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Allegro ma non troppo

Com a nomeação de Hillary Clinton para a secretaria de Estado no futuro governo Obama, estaremos sem dúvida livres da cara de poucos amigos de Condoleeza Rice. Eu já sabia que ela é uma pianista consumada, apesar da falta de jogo de cintura. Neste link, sua performance tocando um quinteto de Brahms junto com membros da Sinfônica de Londres, diante da rainha da Inglaterra, sai prejudicada pela má qualidade do som e, de resto, aparece apenas num registro de menos de um minuto. Em todo caso, melhor massacrar notas do que criancinhas.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h10

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eco-esferas

Por falar em consumismo e desastre ecológico, eis aqui uma sugestão de presente chiquérrimo, para quem puder trazer da França ou da Bélgica. São mini-aquários que funcionam como ecossistemas completos, não precisando de manutenção nenhuma --só exigem um pouco de sol. Parece que se transformam e evoluem ao longo de décadas e séculos. Mais detalhes (em francês) aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h54

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Lama e supermercados

 

 

         Eis o começo do artigo de hoje para a "Ilustrada".

 

 

Sexta-feira passada, dia de liqüidações gigantes nos Estados Unidos, um funcionário da Wal-Mart morreu pisoteado pela multidão torrencial que invadia a loja em busca de produtos com desconto.

         Tanta correria para as compras, em tempos de crise, até que se explica. Os descontos foram maiores do que de costume, uma vez que as empresas já temiam uma queda de faturamento. Os consumidores americanos, por outro lado, resolvem aproveitar o que podem, enquanto não chega o pior.

         No meio disso, não deixa de ser chocante o apelo que as autoridades lançam à população: gastem mais! A ordem é consumir. Só assim, acredita-se, a economia sairá da crise, eliminando-se as famosas "poças de liqüidez".

         (...)

         Passo para uma das fotos mais impressionantes da tragédia de Santa Catarina. Com água e lama até o peito, pessoas que perderam tudo pegavam o que podiam num supermercado: garrafas de cerveja e caixas de alimento boiavam ao alcance da mão.

         Ninguém agiria de modo diferente. A sobrevivência estava em jogo. Mas a foto não ilustra apenas uma reação de desespero na catástrofe.

         É também símbolo de um estado de desequilíbrio permanente entre consumo e preservação da natureza, entre o "salve-se quem puder" imediato e o "percam-se todos" a longo prazo, que caracteriza o nosso modo de vida.

         (a íntegra do artigo está disponível para assinantes aqui .

Escrito por Marcelo Coelho às 00h29

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voltaire de souza

Algumas crônicas publicadas recentemente no jornal "Agora"

O SANGUE E A ALMA

 

 

A ciência progride sem cessar.

Velhos mitos, contudo, povoam ainda a mente dos homens.

Dia da Consciência Negra. Uma dúvida tomou conta do sr. Morettini.

--Será que eu sou branco mesmo?

O velho comerciário resolveu fazer um teste de DNA.

Empresas especializadas calculam direitinho a nossa herança genética.

Na hora dos resultados, o coração de Morettini bateu mais forte.

--Hum. Hum. Vamos ver... proporção de herança africana...

O coeficiente era baixo. Forte presença de sangue europeu.

--Bravíssimo! Orídjene italiáána... come la pizza e la calabresa.

Era dia de nhoque em sua casa. Depois, o sono. O cochilo.

Imagens e sons variados ocuparam o seu cérebro. Morettini começou a murmurar.

--Afoxé, iley-ia ôô... Nhum, nhum... Arrém.

O neto veio ver o que estava acontecendo.

--Vem cá, pizidim... Vem falar cunho Pai Zusé...

 O transe foi prolongado. O espírito da entidade umbandista só largou Morettini na manhã seguinte. No terreiro de Pai Futaba, elogiam muito seus dotes mediúnicos.

Não importam o sangue e o DNA. O que vale é a alma de cada um.

 

 

 

FUGA DE CAPITAIS

 

Luxo. Glamur. Futilidade.

Para muitas pessoas, a crise econômica é conto da carochinha.

A socialite Magaly Pazzini deu as ordens para o motorista.

--Toca para a Gluglu.

Tratava-se de uma das mais exclusivas butiques da cidade.

Verdadeiro paraíso das peruas paulistanas.

Ela já estava experimentando os modelitos da semana quando tocou o celular.

Era o marido. Com más notícias.

--O dólar subiu. A bolsa caiu.

Falência iminente no Banco de Investimentos Konfidenz.

A fúria tomou conta de Magaly.

--Como é que você faz isso comigo, Nestor?

Ele resolveu avisar tudo de uma vez.

--Tem mais, Magaly. Estou tendo um caso com a babá do Júnior.

Nestor fugia com o resto do capital e com a belíssima morena Corália.

Choro. Desmaio. O vigia Devair consola Magaly como pode.

Num drive-in da avenida Bandeirantes, ela se adapta a novos padrões de consumo.

Quando a turbulência aumenta, o melhor é investir em segurança.

 

 

VISÃO VERMELHA

 

A cidade já se enfeita com as luzes do Natal. No bar, Elpídio dava um risinho.

--Essa festa vai logo acabar...

Crise. Desemprego. Dólar. Recessão.

--A classe média vai ver o que é bom para a tosse.

Na alma daquele velho militante de esquerda, o consumismo natalino não tinha vez.

Elpídio tomou mais um gole de conhaque.

--Bando de alienados.

Diante de um shopping, operários montavam uma grande árvore de Natal.

O álcool deu ânimo renovado ao ex-sindicalista.

--Trabalhadores! Companheiros! Chega de ilusões.

O discurso estava apenas começando quando apareceu a segurança.

Um sopapo arremessou Elpídio até o chão.

Um instante de inconsciência. Depois, uma visão vermelha. Elpídio abriu um sorriso.

--Fidel Castro... Chefe... que lhe parece la crisse econômica en el Brasil?

Mas o homem de barba não era o líder cubano. Era um papai Noel chamado Valdeir.

Enfermeiro aposentado. Fazendo bico para ajudar nas contas da família.

Ele ajudou Elpídio a voltar para casa. No mais puro espírito natalino.

A mente humana é como uma decoração natalina. Funciona na base do pisca-pisca.

 

 

É PRECISO MUDAR

 

Crise. Desemprego. Recessão. O mundo precisa mudar.

Silvestre assistia ao telejornal.

--Nunca pensei... um negro presidente.

Barack Obama traz esperança ao país de Mickey Mouse.

--Mudança. Mudança.

Silvestre ainda estava assistindo o noticiário quando sua esposa o chamou.

--Pagou a conta do cartão de crédito, amor?

--Como é que eu ia pagar, Regina?

Dívidas. Promissórias. Papagaios.

--E o aluguel, Silvestre? Vamos pendurar este mês também?

O rapaz desligou a TV. Voltou à realidade.

A insônia foi crescendo com o avanço da madrugada.

Eram sete da manhã quando Silvestre fechou os olhos.

Ao longe, a imagem de um negro alto. Com um papel na mão e uma frase nos lábios.

--Mudança. Hora da mudança.

Não era o Obama. Era um oficial de Justiça chamado Cristóvão.

--Falta de pagamento, sr. Silvestre. O despejo é agora mesmo.

Mudanças podem ser necessárias. Mas nem sempre são para melhor.

 

 

FASCÍNIO DA AUTORIDADE

 

 

Clima de mudanças. Um negro ocupará a Casa Branca.

Nivaldo acompanhava tudo pela TV.

--Legal. Mas para dizer a verdade...

Ele não estava muito contente com a eleição do Obama.

--Queria mesmo era ver a Sarah Palin.

A bela candidata a vice republicana foi derrotada. E volta para o Alasca.

Fantasias tórridas tomavam conta da mente do motoboy.

--Eu e ela... num iglu... até derreter o Pólo Norte.

O trânsito era intenso na região da Paulista.

--A Sarah de botinha... tirando os óculos... de cabelo solto.

Nivaldo deu um risinho.

--Segurando aqui na carabina.

O motoboy não reparou no sinal vermelho. A fiscalização apareceu.

Em forma de mulher. Demétria era guarda de trânsito. Tocou o apito ritual.

A moto de Nivaldo parou. Mas sua fantasia já estava sem breque.

O agarrão. O beijo. O fascínio da autoridade. No Motel Caribu, multas se esquecem. E se renovam as esperanças na conciliação, no diálogo e no amor.

Democracia é como o sexo: nomes mudam, mas a essência da coisa permanece.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h19

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Biblioteca do pó

 

 

Recebo de um leitor a recomendação para ver o trabalho do fotógrafo David Maisel, com o seguinte comentário pessoal:

 

 

...recentemente fiquei encantado com o trabalho de Nick Veasey que você postou, com fotos de situações corriqueiras reveladas em raios X. Fui sem demora buscar uma cópia do livro X-Ray para mim, e na livraria deparei-me com outro na mesma estante.

 

Era "Library of Dust", de David Maisel (veja o link). As fotos são de uma beleza eterea, a individualidade de padrões em cada uma e as idéias que elas evocam tornam-se irresistíveis ao ler-se sobre suas origens. Eu pareci sentir a temperatura na livraria cair uns 10 graus ao ler a introdução, como se estivesse sendo rodeado de espíritos.

 

Um hospital psiquiátrico no Oregon tinha em mãos um problema cada vez que um paciente indigente ou rejeitado pela família e amigos lá vinha a morrer; o que fazer com o corpo?

 

Munido de um crematório no basement, o hospital cremava os restos destes pacientes e depositava suas cinzas em latas de cobre (parecem latas de leite Ninho), enfileirando-as em prateleiras em uma sala adjacente. Mais de 1.500 latas foram lá acumuladas ao longo de quase um século, se não me engano.

 

Eventualmente o hospital foi desativado e ao longo de décadas, abandonado, sofreu enchentes repetidas no seu basement. A mistura de água com o cobre, e deste com o conteúdo de cada lata, desencadeou processos intensos de oxidação, cristalização e sei-la-o-quê, que esculpiram os padroes que agora se vêem em cada lata.
Ver e refletir sobre estas fotos pareceu-me uma forma impossível de bela de se pensar sobre a natureza das memórias e do legado que cada um deixa aqui.

 

As criaturas que sem suspeitar contribuiram com seu próprio corpo para este espetáculo eram as mais simples, esquecidas e alheias do mundo que se possa imaginar; e assim mesmo, aqui estão estas latas.

 

Especialmente bonito, sem dúvida, é que cada uma “recupere”, por assim dizer,a individualidade que tinha antes se transformar num indiferenciado e unânime pó:

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h39

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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