Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Férias na praia

Para falar com franqueza, não acho muita graça nos filmes de Jacques Tati. No artigo para a Ilustrada desta quarta-feira (assinantes do uol podem acessar aqui), referi-me a um de seus mais famosos longa-metragens, “As Férias de M. Hulot”.

 

É que saiu recentemente um pacote de DVDs que traz, além desse clássico de 1953, o mais clássico ainda “Mon Oncle”, além de “Playtime” e de uma seleção de curtas-metragens.

 

Nas “Férias de M. Hulot” há pelo menos uma cena realmente engraçada, apesar das reservas que tenho com relação ao humor de Jacques Tati. É o momento em que, num enterro, confunde-se uma câmara de ar de pneu com uma coroa fúnebre; a câmara é pendurada na lápide, e de repente se esvazia, emitindo sons de ar comprimido...

 

Mais uma vez, está em jogo nessa “gag” o conflito básico da obra de Tati, que é o do rídículo da modernidade quando tenta invadir o mundo tradicional francês.

 

O curioso é que todo o mérito de Tati como cineasta reside não no tradicionalismo, mas sim na modernidade de sua linguagem. Nenhuma relação entre as diversas cenas, nenhum senso de acúmulo no ritmo narrativo, nada de enredo; “Playtime”, nesse sentido, é uma obra impressionante de modernidade pelo esquematismo visual, pelo “construtivismo” da encenação –enquanto se volta, com máxima dureza, contra tudo o que a França dos anos 60 e 70 absorvia do estilo “clean” e tecnológico dos Estados Unidos.

 

Interessam-me menos essas contradições do que a capacidade de Jacques Tati em evocar, a cinquenta anos de distância, um certo tipo de férias de verão que ainda é o nosso: misto de coletividade e falta de vínculo, de homogeneidade e dispersão, que nasce do calor, do desconforto, da vida em família, da solidão, do turismo massificado e da procura, sempre frustrada, de uma experiência, fugaz que seja, de ser livre diante do mar.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h23

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Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha

Existe, como se sabe, uma burrice típica dos engenheiros, outra típica dos médicos, outra dos músicos... Mas a burrice dos arquitetos é menos comentada.

Com certeza, um clichê bastante antigo cerca a obra de Niemeyer: o grande arquiteto seria insuperável na criação de edifícios bonitos de se ver, e péssimos para morar.

Mesmo assim, ou talvez até por isso mesmo, Niemeyer tem sido um nome intocável: quem o critica está ligado a idéias antiquadas de conforto, e não merece morar nas obras feitas pelo gênio.

Qualquer um que critique os feitos de um arquiteto brasileiro se põe, assim, abaixo das alturas propostas pelo artista.

O problema é que, quando estamos diante de um quadro moderno, a atitude de “entender” ou “não entender” se esgota em si mesma; será um filisteu, um desinformado, quem “não entende”, ao passo que o privilegiado que “entende” nada sofrerá com isso; no máximo, terá gastado uma fortuna comprando o quadro estranho, a instalação esquisita, o vídeo incompreensível.

Na arquitetura, as coisas não se resumem, infelizmente, ao “entender” ou não. Uma casa, uma praça, uma cidade, são ao mesmo tempo coisas para ser “vistas”, “entendidas”, e “usadas”.

A autoridade da arquitetura moderna nasce de um paradoxo. No princípio, a ideia era subordinar tudo à funcionalidade, ao uso. Fez-se disso uma valor estético. Funcionalidade tornou-se despojamento e economia de materiais. Tornou-se “bonita” a parede lisa, sem ornamentos; a linha reta e cortante, nascida pura da prancheta. O risco inicial do arquiteto era sinal de sua pureza como artista.

Virou um fetiche de sua autoridade como criador; eis, em resumo, a história da modernidade, vista como liberação, e transformada em autoritarismo.

O desenho de Brasília já era, em seu nascimento, símbolo desta e de outras contradições. Aquela espécie de poema do espaço público democrático, concebida “genialmente” por Lucio Costa nos anos 50, adaptou-se perfeitamente à algidez tecnocrática e à desumanidade do regime militar na década de 70.

Eis que, aos 101 anos, Oscar Niemeyer concebe um adendo à Esplanada dos Ministérios. Quem viu o projeto se espanta: um trambolho gigantesco passará a vedar a perspectiva que se tinha da Esplanada.

É pelo menos saudável que a concepção de Niemeyer encontre, agora, resistências de toda parte. O “autor” de tantas obras belíssimas nem por isso dispõe de “autoridade” sobre a paisagem de Brasília.

Mas é como se um gênio da arquitetura tivesse o direito de romper, como tinha rompido há 50 anos, com o gosto da população.

Eis o arquiteto transformado em demiurgo, coisa que ele julgava ser desde sempre.

Estará sob suspeita de mesquinhez quem o contestar.

Niemeyer pode ser um gênio, mas não pode ter poder sobre uma cidade inteira.

O caso se aplica também a Paulo Mendes da Rocha, que embora tenha ganho o Prêmio Pritzker (espécie de Nobel da arquitetura), não é um gênio, nem tem de ser intocável pelo fato de dar seqüência à tradição purista da arquitetura brasileira.

O que Paulo Mendes da Rocha fez na Praça do Patriarca, em São Paulo, por exemplo, é um erro patente. Inventou uma espécie de plataforma curva coberta de branco, que para nada serve além de vedar a visão de conjunto da praça; trata-se de uma intrusão descomunal num espaço que deveria ser amigável e “urbano”, no sentido amplo do termo.

Mas os arquitetos exaltam suas próprias capacidades construtivas, seu próprio poder de interferência sobre o espaço. Seria preciso muita mobilização para reduzir Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha (já não falo de Lina Bo Bardi, velho desafeto) ao papel que deveriam ter. Não o de totens, dotados de poder de vida ou morte sobre os lugares em que atuam, mas o de pessoas de talento, capazes de colocar esse talento a serviço de uma cidade mais humana, mais amigável, mais bonita, mais urbana.

 

cobertura na Praça do Patriarca, por Mendes da Rocha

Escrito por Marcelo Coelho às 02h53

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Renato Consorte

Como José Lewgoy, por diferentes motivos, Renato Consorte era um daqueles atores que sempre me alegravam quando, de surpresa, apareciam diante de mim na tela da TV ou do cinema.

Não sei que capacidade Renato Consorte possuía de ser sempre ele mesmo, em qualquer personagem que encarnasse. Talvez fosse a voz, muito forte e sempre dotada de alguma ressonância cômica, a que o nariz meridional e o bigode davam uma espécie de atestado de realidade.

Renato Consorte era um desses atores “característicos”, prontos a fazer o papel de imigrante grego ou de dono de cantina. A simpatia inerente a esse tipo de personagem coadjuvante era, entretanto, absolutamente autêntica, mesmo quando ele fazia trabalhos de publicidade.

Um anúncio feito por Renato Consorte é difícil de esquecer, até porque enaltecia as qualidades de uma instituição financeira que iria falir algum tempo depois. Ele se punha diante de um telefone público, e dava para a telefonista um recado com a segurança cômica dos ingênuos: “Caderneta de Poupança Has-pa!”

Logo jorrava do aparelho uma chuva de moedas.

Em protesto contra a censura do governo militar, lembro-me que Renato Consorte interrompeu sua carreira por um período.

Lembro-me também de sua peculiar ternura ao conversar com crianças, num programa infantil de breve duração.

Haveria um capítulo inteiro na história da propaganda e da televisão brasileira a ser escrito, tratando do envolvimento de artistas de novela em instituições econômicas e candidaturas políticas sem dúvida fraudulentas. Creio que foi Tony Ramos [leitores corrigem: foi Antonio Fagundes] quem prestou sua imagem a uma empresa de investimento em boi gordo, que terminou indo para o brejo.

Acho que empreitadas assim não terão tido efeito nocivo sobre a imagem desses artistas. Um dos mais marcantes nos papéis característicos –sotaque forte, neologismos, certo aspecto exótico—é certamente Lima Duarte.

Pode ser mera implicância subjetiva, mas Lima Duarte sempre me parece afetado, falsamente popular, quando aparece nos anúncios de ciment-cola quartzolit, de tubos e conexões Tigre, ou seja lá o que for. Está, a meu ver, nos antípodas de Renato Consorte.

Talvez por que Renato Consorte conseguisse manter, coisa dificílima, um certo tom direto e corporal. típico do teatro, mesmo quando estava diante das câmeras de TV. A televisão normalmente exige certa estilização, certo cabotinismo (penso em Lima Duarte e em Paulo Gracindo) que Renato Consorte não tinha. Outros atores na mesma categoria (Ary Fontoura, acho) mantém essa tradição. É a do teatro, que mesmo na publicidade ou numa novela mostra de vez em quando sua vitalidade e sua força.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h39

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resposta a Reinaldo Azevedo (3)

 

É característica do extremismo uma certa perda de contato com o mundo real. Particularmente, não gosto do mundo real, gostaria que as coisas fossem diferentes do que são, e considero absurda muita coisa que vejo no dia-a-dia. Mas sei que as coisas são como são, e não como deveriam ser.

 

O extremista de esquerda nega a realidade, julgando-a pronta a submeter-se a seus desejos. Se as coisas são como são, isso não passa de um desvio mal-intencionado, que cabe eliminar violentamente no sentido de repor todas as coisas no lugar em que deveriam estar.

 

O extremista de direita celebra a realidade, exatamente no que tem de mais absurdo e violento, e, se alguém se insurge contra isso, deve ser eliminado: é um utopista, um estraga-prazeres. E se a realidade não é suficientemente violenta e radical, há algo de errado com ela também.

 

Reinaldo Azevedo se lança em invectivas e xingamentos fora de controle porque não se conforma em ver seus adversários como são; compraz-se em imaginá-los mais articulados, unânimes, conspiratórios do que poderiam ser, já que isso facilita e confirma sua própria visão do mundo.

 

Visão na qual ele tem de ser a vítima, para poder ser tão violento contra seus adversários quanto quer -e quanto seus leitores querem. Sua atitude de violência, sua propensão à invectiva absurda, reiteram a realidade tal como é: um mundo em que ninguém pode ser bonzinho, em que a dureza e a hostilidade são a regra, salvo os casos de hipocrisia. Se alguém discordar dessa visão, será um "fofucho" de esquerda, como eu.

 

Mas vamos aos textos. Reinaldo Azevedo encontrou, no último parágrafo de meu artigo na "Ilustrada", motivos para me chamar de liberticida, inquisidor, etc. Eis o que escrevi.

 

Todo o poder aos poderosos, toda realidade aos realistas, e todas as bombas para quem ficar no meio do caminho. Eis o resumo da atitude dos "durões". Mas quem precisa de articulistas num mundo desses? Os militares dão conta do recado...

 

Reinaldo Azevedo deduz desse parágrafo que eu advogo a censura a Reinaldo Azevedo e aos outros "durões" que eu criticava no artigo.

 

Aqui mesmo no blog, tratei de desfazer essa impressão.

 

Vejo dois problemas no artigo que escrevi para a Ilustrada desta quarta-feira. Foram, entretanto, voluntariamente produzidos. O primeiro é que há óbvias diferenças entre as figuras que citei (...) O segundo problema é que, nos parágrafos finais do meu artigo, parece existir a intenção de silenciar esses meus adversários. Pensei bastante nisso. Eis o que escrevi. [repito o trecho acima].

 

De um certo ponto de vista, é como se eu dissesse que os artigos dessa turma devessem ser banidos da face da terra. Não acho isso. O fato de serem supérfluos não os torna, para mim, indesejáveis.

 

Achei que o ponto estava suficientemente claro. Quando um articulista sustenta que, diante do Hamas, não há saída a não ser bombas sobre criancinhas, e quando afirma que, diante do terrorismo, podem ser ingênuos os que criticam a tortura, suas opiniões me parecem supérfluas, porque qualquer comunicado militar é capaz de dizer o mesmo; e, se não disser, pouco importa, porque presos continuarão a ser torturados e criancinhas continuarão a ser vítimas de mísseis.

 

Ou seja, num mundo desses -num mundo com o qual assentem os articulistas que critico-artigos de jornal são supérfluos.

 

Eis como Reinaldo Azevedo interpreta o que escrevi:

 

Coelho, acredite num especialista: nem todo mundo deve escrever de madrugada (...) Algumas pessoas, nesse período, estão com as ideias turvas e contraditórias. Volte ao início. Você diz ter criado "voluntariamente" os problemas. Agora escreve: "De um certo ponto de vista, é como se eu dissesse que os artigos dessa turma devessem ser banidos da face da terra. Não acho isso". QUER DIZER QUE QUE, VOLUNTARIAMENTE, VOCÊ ESCREVEU O QUE NÃO QUERIA ESCREVER? De resto, não há "ponto de vista". Você escreveu o que lá está.

 

Um dos procedimentos típicos de Reinaldo Azevedo é o de ir comentando, parágrafo a parágrafo, os textos de que discorda. Raros são os polemistas capazes desse trabalho, que no jargão do blog de Reinaldo Azevedo recebe algum nome, acho que "vermelho e azul". Os textos do criticado em vermelho, as respostas de Reinaldo Azevedo em azul. O blog dele ganha em profundidade e minúcia. Mas sem dúvida abre caminho a um procedimento puramente inquisitorial.

 

Sinto-me -eu, que fui chamado de Grande Inquisidor da Esquerda-diante de um inquisidor quando leio, em letras maiúsculas, a pergunta terrível: QUER DIZER QUE, VOLUNTARIAMENTE, VOCÊ ESCREVEU O QUE NÃO QUERIA ESCREVER?

 

Tenho agora de mobilizar toda minha bonomia para responder a Reinaldo Azevedo. Puxa vida, tomei o cuidado de dizer que o que escrevi poderia ser interpretado, DE UM CERTO PONTO DE VISTA, como um convite a que meus adversários fossem banidos da face da terra. Foi esse ponto de vista que Reinaldo Azevedo adotou como sendo o meu. DE OUTRO PONTO DE VISTA, o que ele e seus congêneres escrevem é supérfluo, porque simplesmente reafirmam a necessidade de violência num mundo violento, de brutalidade num mundo bruto.

 

Podem escrever à vontade, não tenho o menor impulso de querer que desapareçam. Acho apenas lamentável que um intelectual desperdice seu talento reafirmando a legitimidade e a importância da força bruta: inspirei-me na Traição dos Intelectuais, de Julien Benda.

 

Continuei meu post, que Reinaldo Azevedo chamou de "mea culpa", do seguinte modo:

 

Um artigo radical de Reinaldo Azevedo tem a utilidade de um norte numa bússola. No momento em que "até ele" defender a opinião X, por exemplo, a opinião pública terá um indicativo suficiente da gravidade dos fatos e da emergência de determinada situação.

 

Reinaldo Azevedo responde, com certo deboche:

 

Ô Coelho, que é isso? Também não precisa me elogiar assim. Nunca ninguém me disse que tenho "a utilidade de um norte numa bússola". Se é assim, saltei da superfluidade para a essencialidade, né? Afinal, uma bússola sem norte não serve pra nada...

 

Eis um mero jogo de palavras. O norte que Reinaldo Azevedo representa na bússola é de fato importante e valioso. Mas ninguém leva no bolso uma bússola enquanto caminha pela avenida Paulista, porque se trata de um instrumento totalmente supérfluo no cotidiano.

 

Mas talvez eu esteja errado. Reinaldo Azevedo não é supérfluo. Aliás, do seu ponto de vista, sua cruzada é insubstituível, uma vez que a realidade e o poder estão nas mãos de "petralhas".

 

São os "petralhas" os donos do poder, são eles que atravancam o progresso, são eles que promovem a ignorância.

 

Simplesmente não acredito nisso. Acho, como Raymundo Faoro, que os "donos do poder" têm origens mais antigas, e que o PT, inicialmente organizado como uma força capaz de contestá-los, aliou-se a eles. É uma visão de esquerda do processo político brasileiro.

 

Será que é mais razoável a visão de direita? A de achar que o petismo estragou um programa que andava de modo excelente nas mãos de Fernando Henrique? Demonizar o PT e, pior que isso, santificar o PSDB, parece ser o propósito essencial de Reinaldo Azevedo.

 

Não sou radical (nem "petralha") quando contesto esse ponto de vista. Não vejo, realisticamente, nenhuma razão para Reinaldo Azevedo ser radical ao defender o seu.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h35

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resposta a Reinaldo Azevedo (2)

 

 

 

Falei, no post anterior, das "reações desproporcionais" de Reinaldo Azevedo. Além do prazer, facilmente perceptível, que ele sente ao invectivar seus adversários, há um mecanismo imaginário, menos fácil de entender, que faz com que ele se coloque como "outsider".

 

Parece voluntariamente escolher esse papel, rompendo com regras de civilidade que decerto o fariam um articulista respeitado no "mainstream", de direita ou de esquerda, não importa no caso, da imprensa.

 

É como se, por medo de ser rejeitado por algum outro motivo, Reinaldo Azevedo criasse ele próprio os motivos para ser praticamente impublicável fora de seu blog. (Mesmo na revista "Veja", a mais extremada praticante da liberdade de imprensa para quem é de direita, acho que ele não repetiria seus "coelhinho se eu fosse como tu...")

 

Mas seu prazer no xingamento precisa encontrar motivos menos tortuosos para se exercer.

 

Surge aí, como em todo mundo que é acusado de "reações desproporcionais" (veja abaixo o post em que discuto esse termo em relação aos ataques de Israel), outro argumento.

 

Reinaldo Azevedo reagiu com esse destempero todo porque é uma vítima. Só chamou Marcelo Coelho de Robespierre porque Marcelo Coelho pediu sua cabeça. Marcelo Coelho é um assassino e Reinaldo Azevedo é um perseguido.

 

Bem, se alguém acredita nisso, não serei eu quem vai ser capaz de provar o contrário. Mas reproduzo um dos posts de Reinaldo Azevedo.

 

Ah, então era uma operação para tirar o coelhinho do buraco?  Vejam que coisa. No Painel do Leitor de hoje, um evento irrelevante como a posse de Barack Obama mereceu DUAS CARTAS. Já a "polêmica" inventada por Marcelo Coelho ficou com TRÊS: duas elogiam o felpudo, e uma ataca Luiz Felipe Pondé.

 

Logo, há uma conspiração da "velha guarda" da "Folha" contra os novos articulistas, Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho, que recentemente passaram a escrever no jornal a partir de uma perspectiva não-esquerdista.

 

Mas a teoria conspiratória de Reinaldo Azevedo não funciona, a não ser para amplificar o que eu escrevi contra ele, e justificar sua "jihad" contra mim.

 

Com alguma frequência (não tanto quanto eu gostaria) trechos de meus artigos vão para a primeira página do jornal. Quando isso não acontece, aparecem ocasionalmente na seção "Folha Corrida", na última página do caderno Cotidiano, onde se chama a atenção do leitor para destaques da edição que ele possa não ter lido.

 

De minha parte, tinha a (i)modesta expectativa de que meu artigo sobre os "doutores do pessimismo" terminasse aparecendo num ou noutro lugar. Isso não aconteceu. Se por "velha-guarda" da Folha entendemos a Diretoria de Redação, a Secretaria de Redação, os editores da Primeira Página, essa velha guarda não deu nenhum destaque ao que escrevi naquela quarta-feira.

 

Se havia alguma "operação", de parte da "Folha", para destruir Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho, esta se resumiu ao que apareceu no "Painel do Leitor".

 

E como faria sentido uma "operação" dessa ordem, se a própria "Folha" tinha convidado os dois para escreverem no jornal? Mais coerente com a lógica da "Folha" é justamente achar ótimo que exista alguma polêmica entre seus colunistas; não são incomuns os casos em que, quanto mais irritante o articulista se mostra para os leitores, mais a "Folha" o prestigia.

 

Mas tudo serve para Reinaldo Azevedo se constituir em "outsider", em injustiçado, em vítima -condição que lhe dá uma licença imaginária para seu "desejo de matar"; não sei se era esse o nome do filme de Charles Bronson, mas é alguma coisa por aí. Continuo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h34

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resposta a reinaldo azevedo(1)

 

Como era de prever, Reinaldo Azevedo escreveu bastante no seu blog a respeito do artigo que publiquei na Ilustrada desta quarta-feira.

         Enumero algumas das expressões que ele usa para me atacar:

        

         Montaigne da Grampolândia

         candidato a Igor Ligatchov da Barão da Limeira, o sujeito que tentou liderar a resistência a Gorbatchov

         Flora Coelho

         Coelho bobo e irrelevante

         O Santo Inquisidor da Esquerda

         Milosevitch [Milosevic?] da Barão de Limeira

         tolo atolado em clichês

         Coelho gostaria de ser o Robespierre ou o Marat do Terror iluminista

         fofucho humanista

         felpudo

 

 

 

Sem contar uns versinhos que ele sempre gosta de lembrar: "co-e-lhinho, se eu fosse como tu..." [tirava a mão do bolso e enfiava a mão no ...etc].

 

Claro que essa linguagem torna o texto de Reinaldo Azevedo chamativo e relativamente engraçado. Não fiquei apoplético lendo esse tipo de coisa a meu respeito. Surpreendo-me agradavelmente ao notar que não sinto vontade de revidar da mesma forma.

 

Acho só que esse estilo revela algumas características da mentalidade de Reinaldo Azevedo; como sou bom conselheiro, espero que as considerações a seguir o ajudem a aperfeiçoar-se como articulista.

 

Vejo que ele variou bastante nas invectivas; "Montaigne da Grampolândia" provém de uma crítica anterior a um texto meu, e foge do campo conceitual da maioria das demais. Mas Igor Ligatchov, Milosevich, Marat, Robespierre... não é muita gente de uma só vez?

 

Seria mais eficiente fixar-se num só nome, para não dar impressão de hesitação. Mais do que isso, o procedimento se reveste de um ar de arbitrariedade: Igor Ligatchov? Quem é? O próprio Reinaldo Azevedo tem de explicar. Poderiam ser outros duzentos nomes -Vishinsky, Jdanov, Stalin, Jaruselski, Pol Pot, Saint-Just... o golpe sai meio a esmo, perde em exatidão.

 

De resto, que comparações Reinaldo Azevedo reservará a adversários mais "durões" do que eu? Quando for atacar, sei lá, Zé Dirceu ou Franklin Martins, ou quem quer que ele considere um arquiinimigo "petralha" da liberdade de expressão, o arsenal teria de ser mais pesado? Ou todos seus adversários de esquerda se equivalem, porque todos, em sua ótica, são igualmente stalinistas?

 

A violência retórica termina tendo um efeito colateral -embora dê ao texto um tom convicto. É que alguns leitores podem achar que Reinaldo Azevedo está simplesmente delirando.

 

Alguém disposto a concordar com Reinaldo Azevedo pode pensar: "Marcelo Coelho é tolo e  fofucho, claro, mas compará-lo a um genocida como Milosevic, ainda que só "da Barão de Limeira", será que não é exagero?"

 

Sem dúvida, Reinaldo Azevedo sabe que muitos outros leitores vão vibrar e cumprimentá-lo, não por ter identificado semelhanças entre Milosevic e mim, mas pela violência dos termos empregados. "É isso, porrada nele". Mísseis no Coelho. Pouco importa se o ataque é "desproporcional". Pouco importa se o adversário não é assassino nem genocida. Só assim essa corja aprende.

 

Mas se a tática faz Reinaldo Azevedo ganhar aplausos de seus fãs, não contribui para torná-lo respeitado entre leitores menos sedentos de sangue. É uma escolha dele; será que não lhe traz um pouquinho de frustração?

 

Não sei; mas a eventual frustração se compensa, acho, quando Reinaldo Azevedo cria para si próprio a auto-imagem de "outsider", de livre-atirador, de justiceiro. Como os protagonistas daqueles filmes de Charles Bronson, o articulista não seguirá formalidades ou procedimentos "politicamente corretos". Reitera seu próprio personagem, para quem gosta desse tipo de filmes.  

 

Não se trata apenas de uma questão de tom, portanto. Um tom moderado, uma crítica mais civilizada do que entoar "coelhinho,se eu fosse como tu..." não são apenas questão de educação, mas de uma relação menos delirante com a realidade, que fizesse Reinaldo Azevedo distinguir entre a minha pessoa, por exemplo, e Torquemada.

 

O mais grave não é que ele me desrespeite; é que ele perde o respeito que poderia perfeitamente obter junto a um universo de leitores desinteressados em espetáculos de truculência. Reinaldo Azevedo compensa essa fragilidade sua redobrando a própria violência: os que o criticam por ser destemperado simplesmente são ingênuos, cegos, ou, pior, mancomunados com o inimigo. Depois continuo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h31

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ainda os doutores da malvadeza

 

Vejo dois problemas no artigo que escrevi para a Ilustrada desta quarta-feira (ver o post anterior). Foram, entretanto, voluntariamente produzidos.

 

O primeiro é que há óbvias diferenças entre as figuras que citei. Luiz Felipe Pondé não é Reinaldo Azevedo, e Demétrio Magnolli não é Pereira Coutinho. Meu respeito pessoal difere conforme o caso, assim como minha segurança no tipo de argumentação que defendo contra um ou outro.

 

Não quis, entretanto, eleger um adversário em especial numa polêmica que, a meu ver, se dirige contra uma tendência generalizada do articulismo, e que poderia incluir, por exemplo, Denis Rosenfield ou Diogo Mainardi.

 

O segundo problema é que, nos parágrafos finais do meu artigo, parece existir a intenção de silenciar esses meus adversários. Pensei bastante sobre isso. Eis o que escrevi.

 

Todo o poder aos poderosos, toda realidade aos realistas, e todas as bombas para quem ficar no meio do caminho. Eis o resumo da atitude dos "durões". Mas quem precisa de articulistas num mundo desses? Os militares dão conta do recado.

 

De um certo ponto de vista, é como se eu dissesse que os artigos dessa turma devessem ser banidos da face da terra. Não acho isso. O fato de serem supérfluos não os torna, para mim, indesejáveis.

 

Um artigo radical de Reinaldo Azevedo tem a utilidade de um norte numa bússola. No momento em que "até ele" defender a opinião X, por exemplo, a opinião pública terá um indicativo suficiente da gravidade dos fatos e da emergência de determinada situação.

 

Um Brasil sem Reinaldo Azevedo seria mais pobre. Infelizmente, ele acha que um Brasil sem meus artigos seria mais inteligente e menos hipócrita. Desconfio que, em situações extremas, eu o defenderia mais do que ele a mim.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h29

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os doutores da malvadeza

 

Transcrevo alguns trechos do artigo publicado quarta-feira, na Ilustrada. A íntegra pode ser lida aqui pelos assinantes do uol.

 

 

 

Não é preciso ser um grande gênio para constatar que vivemos num mundo bárbaro. Que o ser humano é capaz das maiores atrocidades. Que a vida é feita de competição, inveja, egoísmo e crueldade.

         Ninguém precisa ter vivido num campo de prisioneiros na Sibéria, nem ter sido moleque de rua no Capão Redondo, para saber disso.

         Mas virou moda entre muitos intelectuais e jornalistas anunciar uma espécie de "visão trágica" do mundo como se se tratasse da mais surpreendente novidade.

         Com certeza, há nisso uma reação saudável contra o excesso de otimismo. Durante o século 20, grande parte da esquerda não quis ver as barbaridades cometidas por Stálin e Mao porque, em última instância, "tudo iria dar certo".     Belas esperanças tornaram-se pretexto para atos de horror. Nada mais correto do que denunciar o horror.

         O que me parece estranho é que, mais do que denunciar o horror, esses pensadores trágicos e jornalistas sombrios gostam de destruir as esperanças.

         O reconhecimento do Mal, a crítica à violência da esquerda, a percepção de que ninguém é "bonzinho", que a realidade é uma coisa dura e feia, vão-se transformando em algo próximo do fascínio.

         E, com diferentes níveis de elaboração e de cortesia pessoal, esses autores tendem a fazer do fascínio uma estratégia de choque.

(...)

         Há diferenças notáveis de atitude e de opinião entre pessoas como Luiz Felipe Pondé, João Pereira Coutinho, Demétrio Magnolli ou Reinaldo Azevedo. Mas é um time e tanto, e minha experiência pessoal com a violência do ser humano, adquirida nos pátios de recreio do ginásio, é suficiente para não querer polemizar com alguns deles.

         Não vou, portanto, individualizar as minhas críticas. Mas de modo geral os "durões" do mundo opinativo parecem correr um mesmo risco. A crítica às utopias do século 20 faz sentido, com certeza, mas termina funcionando para justificar muitos erros e abusos do presente -desde que sejam suficientemente "não-utópicos". Será chamado de ingênuo ou nostálico todo aquele que quiser algo melhor do que o mundo em que se vive.

(...)

         Você está esperançoso com a vitória de Obama? Ouço um risinho: que otário. Mas fico feliz de nunca ter sido otário a respeito de Bush.

         Você se choca com as crianças mortas em Gaza? Ouço um risinho: os militares israelenses entendem mais do problema que você.

         Você quer que se preservem as reservas indígenas da Amazônia? Mais um risinho: os militares brasileiros entendem mais do problema que você, que pensa ser bonzinho mas é tão malvado como todos nós.

         Pois o ser humano é mau, desgraçado e infeliz, desde que foi expulso do Paraíso. Você não sabe disso?

         O que sei é algumas pessoas foram expulsas do Paraíso para morar numa mansão em Beverly Hills, e outras para morar em Darfur.

         Todo o poder aos poderosos, toda realidade aos realistas, e todas as bombas para quem ficar no meio do caminho. Eis o resumo da atitude dos "durões". Mas quem precisa de articulistas num mundo desses? Os militares dão conta do recado.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h11

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"reações desproporcionais"

 

Meu artigo criticando os bombardeios em Gaza (assinantes do uol podem ler aqui) suscitou, como sempre acontece nesses casos, alguns apoios e muitas críticas. Hesito em abordar o assunto no blog, porque no fundo acho que existem dois tipos de discussão: aquelas em que terminamos mais enraivecidos e convictos do que quando começamos, e aquelas em que terminamos partilhando dúvidas, numa busca coletiva de algo próximo da verdade. Certamente, o assunto Israel tende mais a produzir discussões do primeiro tipo, e saímos piores do que entramos da controvérsia.

 

Acho que o tom emocional do meu artigo (agora que estou lendo a biografia de Raymond Aron) serviu para quem concorda comigo, mas tende a criar algumas questões que eu poderia ter evitado.

 

Por exemplo, a idéia básica de que "me sinto judeu": temos, nós que não somos judeus, o direito de imaginar uma identidade judaica qualquer? Eu deveria ter dito que me sinto judeu, solidarizo-me com os judeus, cada vez que vejo algum documentário ou leio alguma coisa sobre o genocídio promovido pelos nazistas.

 

Mas não é correto dar a entender, como eu fiz no artigo, que sofro discriminações e preconceitos. Não em medida minimamente proporcional ao sofrido por qualquer judeu ou negro. Houve nisso algo de demagógico, embora meu horror ao antissemitismo tenha em sua raiz uma identificação profunda com suas vítimas.

 

Isso não quer dizer, acho que fui claro, mas houve quem reclamasse, que eu espere que os judeus se contentem com o papel de vítimas de preconceito, ou das bombas dos fanáticos muçulmanos. A questão, muito simples, é que é fácil ver nas crianças mortas de Gaza o fato de serem vítimas de uma reação indiscriminada das forças de Israel.

 

Discordo, aliás, da idéia de que a reação israelense é "desproporcional". O termo caberia se, com menor intensidade dos ataques, o Hamas parasse de lançar mísseis. Se não parou, é que ainda acha pouco o que leva em troca. Não uso "desproporcional", portanto, mas "indiscriminada", porque as bombas israelenses não atingem apenas o Hamas, mas crianças e civis inocentes.

Em todo caso, é bom lembrar o número de organizações israelenses que protestam contra os ataques à Faixa de Gaza, pelo que diz o site http://www.btselem.org/ . Será apócrifo??

Adalah - The Legal Center For Arab Minority Rights In Israel, Amnesty International Israel Section, Bimkom - Planners For Planning Rights, B'Tselem - The Israeli Information Center For Human Rights In The Occupied Territories, Gisha - Legal Center For Freedom Of Movement, Hamoked - Center For Defence Of The Individual, Physicians For Human Rights - Israel Public Committee Against Torture In Israel, Yesh Din - Volunteers For Human Rights.

Isso para não falar dos escritórios da ONU e das agências de notícias, bombardeados também.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h23

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enquanto isso, na Terra...

eis uma foto de lua cheia tirada por Braid, no flicker:

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h18

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paisagem de Marte

Não poderia ser mais banal a imagem que o site da Nasa manda hoje. Esse horizonte desinteressante e desértico, entretanto, é o do planeta Marte. Que feito chegarmos até lá! E quanto nos falta ainda...

Escrito por Marcelo Coelho às 16h12

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aprendendo aos 50

 

 

Passei sem sentir pelo aniversário dos 30 anos, para mim uma data como outra qualquer, e com bastante alegria pelo aniversário dos 40, que me fez concordar com o velho adágio: minha vida, de fato, começava em 1999, pelo menos no que diz respeito às conquistas feitas sobre mim mesmo.

 

Acho que os 40 anos me deram uma segurança muito grande sobre quem eu era e sobre o que eu queria da vida, dos outros, de mim e das coisas em geral. Perdia muitos medos e inseguranças, sentia-me centrado, perpendicular como um meio-dia no horizonte da minha vida.

 

Fazer 50 anos não é tão fácil. Vejo pela primeira vez um tempo mais limitado, olho em torno da minha biblioteca já sabendo dos livros que não vou ler nunca, trato de apressar o passo.

 

Já não é sem tempo, pensando bem. Sempre julguei ter todo o tempo do mundo, sentindo-me capaz um dia, por exemplo, de conhecer bastante da obra de Husserl (umas duas mil páginas de livros comprados) ou da música de Mozart (ponha umas quatro mil páginas a respeito).

 

Faço mentalmente, o que não deixa de ser um alívio, a lista das coisas que nunca quero conhecer e não mais pretendo ler. Teorias sobre big bang e astrofísica. Os Grundrisse de Karl Marx. Jacques Lacan. A "Lógica" de Hegel.

 

Com o tempo, fui desenvolvendo o hábito de ler principalmente aquilo que pode render para mim algum texto, artigo, ensaio, livro, etc. Como eu funciono conforme os pedidos que aparecem, não posso garantir quais os temas a que irei me dedicar nos próximos meses.

 

Enquanto isso, tive veleidades: uma análise de poemas modernistas sobre a História do Brasil, algo sobre o século 18, talvez em torno de Diderot, um estudo sobre literatura da pobreza nas últimas décadas...

 

Ao mesmo tempo,o que me tem apaixonado nos últimos anos é a chamada "literatura do engajamento"  e da "responsabilidade": os anos 40 na França, por exemplo, com as opções fatais que se fizeram entre colaborar com o nazismo e resistir até a morte, foram uma época fascinante para quem quer saber o quanto se confundem a coragem e a lucidez, o intelecto e o caráter. Também as diferentes atitudes dos intelectuais diante do caso Dreyfus, cinquenta anos antes, fazem-me acelerar o coração; o que eu faria naquela época? Que coragem sou capaz de ter?

 

Isso me leva mais à leitura de biografias e de relatos históricos do que a me debruçar sobre filosofia e teoria social. Eis uma mudança importante com relação ao que eu lia aos 20 ou 30 anos: inquietações epistemológicas, teóricas e filosóficas diminuem diante do interesse em ver os dilemas práticos e políticos da vida real.

 

Depois de ler "Investigações Filosóficas", de Wittgenstein, já não sei quanto tempo faz, acho que absorvi plenamente a lição terapêutica desejada pelo autor: há problemas que só se resolvem quando aprendemos a ignorá-los. Não matei em mim mesmo a curiosidade por filósofos como Hume, ou Ryle, que acho capazes de fortalecer essa mesma convicção.

 

Fiquei mais "britânico" do que "francês" nos últimos vinte anos, em matéria de estilo de pensamento, o que para mim foi uma revolução e tanto. Desprezei longamente o sóbrio bom senso dos ingleses, em favor da originalidade luminosa dos franceses; aprendi a distinguir melhor, nestes últimos, o que é puro truque.

 

Para o ano que vem, quero ler mais a respeito desse encontro dos franceses com o drama real da ocupação nazista. "The Unfree French", de Richard Vinen, é o livro que acabo de ler, e talvez comente por aqui. Passo a uma biografia de Raymond Aron, o mais britânico dos franceses. Sem deixar de incluir na lista algumas leituras de Mauriac e de Gide, duas personalidades de grande coragem no século 20.

 

Coragem: talvez a isto se resuma o meu aprendizado nos últimos anos. Falta um bocado, ainda.   

Escrito por Marcelo Coelho às 02h13

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intervalo

Fico fora de São Paulo nesta semana, e provavelmente não terei tempo de postar grande coisa por aqui. Até a volta!

Escrito por Marcelo Coelho às 12h13

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o rei está nu?

 

O poeta Affonso Romano de Sant' Anna tem toda razão quando denuncia as muitas picaretagens da arte contemporânea, em seu livro "O enigma vazio" (editora Rocco), que resenhei para a "Ilustrada" neste sábado.

Infelizmente, seu livro é menos eficiente e astucioso do que seria necessário. A íntegra da resenha, para assinantes do uol, está aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h47

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sem meio termo

Uma frase do poeta W. B. Yeats: "A pior coisa de algumas pessoas é que quando não estão bêbadas, estão sóbrias".

Escrito por Marcelo Coelho às 00h31

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violência do tango

Vai aqui um trecho do artigo que publiquei ontem na Ilustrada, sobre o filme "Café dos Maestros", de Miguel Kohan.

 

Felizmente, "Café dos Maestros" não tem nada de lamurioso e melancólico. O filme de Miguel Kohan nos faz conhecer personagens bem-humorados, às vésperas de um concerto triunfal no teatro Colón de Buenos Aires. Musicalmente, estão todos em ótima forma, e na trabalheira dos ensaios não têm muito tempo para chorar os anos que não voltam mais.

         É certo que muitos desses astros do tango estão velhíssimos. O filme é um festival de cabelos tingidos, dentaduras descomunais, bigodinhos improváveis e mesmo, triste notar, alguns aparelhos de surdez.

         Não importa: ponha-se esse clube da quarta idade à frente de um microfone, ou debaixo da luz de um teatro, e eis que todos se arremessam como tigres sobre a música, numa espécie de festim carnívoro, arrancando de golpe as vísceras e o coração da partitura.

         Talvez exista no próprio espírito do tango essa disposição súbita para a violência. Qualquer floreio sonhador logo se vê rasgado por aquele ritmo imperativo, frontal e repentino, e, mais do que em outros gêneros musicais, é como se o intérprete, em vez de tocar as notas, fosse "tocado" por elas, arrastado por sua linguagem impulsiva e fatal.

E aqui o trailer do filme.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h11

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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