Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Brahms, Mendelssohn, futuro e passado

 
 

Brahms, Mendelssohn, futuro e passado

Num post já antigo, comentei a nova interpretação da Sinfonia no. 1 de Brahms, com John Eliot Gardiner dirigindo a “Orchestre Révolutionnaire et Romantique”. Uma faixa com o primeiro movimento da sinfonia constava do CD que acompanha mensalmente a revista inglesa “The Gramophone”, e o que me impressionou ali foi a incrível transparência obtida pelo regente, ao optar por uma leitura “histórica” da obra.

 

Posso agora ouvir o CD integralmente, disponível na Naxos Music Library, em troca de uma anuidade que vale a pena (uns 200 dólares por ano, para acesso ilimitado a milhares de discos-- quase trinta mil, mais quinhentos acrescentados mensalmente). E devo concordar com meu amigo Carlos Pinheiro Jr, que por ocasião daquele meu post inicial afirmou que a interpretação de Gardiner não o convencia.

 

O que se ganha em transparência no primeiro movimento daquela sinfonia se perde em volume, em dramaticidade, em “pathos”, nos dois movimentos finais. O tempo parece insuficientemente enfarruscado antes da triunfal aparição da luz do sol, no fim da sinfonia: faltou mais suspense e dramaticidade. O andamento excessivamente seco da orquestra não transmite, a meu ver, o senso de pressão e liberação emocionais que Brahms colocou na partitura.

 

Uma vantagem do CD, entretanto, é que traz, além da sinfonia, e precedendo-a, duas outras peças de Brahms e uma de Mendelssohn, todas para coro e orquestra, que de certo modo parecem ser o “making of” da grande obra da maturidade de Brahms.

 

“Begrabnis Gesang”, op. 13, é uma austera composição luterana que irá preparar o ouvinte para as grandiosas cenas de “descortinamento de horizontes” nas trompas lá pelo final da “Sinfonia no. 1”, treinando também sua atenção para o cerrado movimento inverso nas vozes no primeiro movimento. É lindamente interpretada pelo coro Monteverdi, num equilíbrio perfeito entre o vigor e a suavidade.

 

Talvez, no caso de Brahms, valesse dizer: entre violência e ternura. Tenho do compositor a imagem do solteirão intratável, mas ainda assim dotado de um coração quase infantil, ao mesmo tempo imaturo emocionalmente e, do ponto de vista intelectual, adulto como poucos... Um traço a mais de semelhança, aliás, entre ele e Beethoven.

 

Nada mais diferente do menino-prodígio, ou, melhor dizendo, adolescente-prodígio, que foi Mendelssohn, compositor isento de amargura, mas que comparece no CD com uma obra coral, de estilo religioso, bastante próxima da que acabo de comentar. O mesmo empenho afirmativo no contraponto, e uma linha melódica que tende para as profundezas brahmsianas, fazem que a “Kirchenmusik no.3” não destoe nesta gravação.

 

Mas com a terceira faixa do CD, o “Schicksalslied” (“Canto do Destino”), op. 54, de Brahms, entramos em outra ordem de grandeza musical. O ritmo dos tímpanos, logo no começo da música, já permite identificações com o início da Primeira Sinfonia, op. 68, que o ouvinte terá em seguida. A vantagem da inclusão da curta peça de Mendelssohn se esclarece só agora: percebemos mais de um toque “mendelssohniano” na escrita coral de Brahms.

 

O efeito de todo o CD é colocar-nos a léguas de Liszt e Wagner, contemporâneos “progressistas” de Brahms e Mendelssohn. Eliot Gardiner, célebre pelo cuidado histórico com que trata a música barroca, estaria assim “puxando brasa para sua sardinha” nesta gravação; historiciza Brahms, não apenas do ponto de vista da textura orquestral, mas também ao afastá-lo da chamada “música do futuro” pretendida por Wagner. Como esta parece “inculta”, sem contradições, e óbvia do ponto de vista emocional, a cada vez que escuto Brahms...! Verdade que não escuto Wagner quase nunca.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h52

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"ditabranda"

Acho que “ditabranda” é com certeza um termo infeliz. Não há ditadura branda na ótica de um prisioneiro torturado, como o foram muitos no Brasil.

 

O termo, empregado num editorial da “Folha”, não deveria ter sido utilizado. Será que eu, no posto de diretor de redação, teria vetado o termo no texto? Talvez sim. Mas poderia ter dado pouca importância à palavra, uma vez que se inscrevia numa linha concreta de raciocínio.

 

O texto completo do editorial se dedicava a condenar a perpetuidade no poder de Hugo Chávez. Comparava os processos pelos quais de uma aparente democracia se passa a uma ditadura, como na Venezuela, com processos pelos quais a conquista de poder por meio de golpe militar terminou resultando em regimes não tão concentradores de poder como seria de supor.

 

O jogo entre “ditabranda” e sua contrapartida oculta, a “democradura”, estava implícito no editorial: com tudo para ser uma ditadura militar absoluta, o regime de 64 manteve as aparências de um espaço para o PMDB. Com tudo para ser um normalíssimo sistema democrático, o regime de Chávez reduz a oposição a menos do que uma aparência, afirmando-se orgulhosamente como uma democracia, enquanto acelera o personalismo providencial de uma figura tosca.

 

Eis que surgem mil protestos contra o uso do termo “ditabranda” no editorial. Foi um erro, não nego. Mas não há verdade nenhuma quando se diz que o editorial pretendia fazer a revisão histórica do regime de 64.

 

Há pelo menos 30 anos, a “Folha” reprova o autoritarismo. Teve, se não me falha a memória, papel importante na luta contra o regime militar. Se quisesse reabilitar aquele período, teria feito isso explicitamente. Obviamente, não teria nenhum interesse em fazê-lo, e não teria nenhuma razão se o fizesse.

 

O que me parece errado nos protestos contra o uso de “ditabranda” pela “Folha” é que se tomou um erro do editorialista como se fosse sinal de coisa que não existe.

 

Não existe vontade nem interesse da “Folha” em reabilitar a ditadura. Existe, por outro lado, muito interesse de parte dos críticos em defender Hugo Chávez.

 

Mais do que isso, os protestos contra a “ditabranda” expressam uma queixa mais antiga da esquerda: “A Folha ficou de direita!” A mera presença de César Maia entre os articulistas já pareceu, a parcela dos leitores, sinal de que a “Folha” cultiva cada vez mais os Coutinhos e Pondés. O grito de protesto da esquerda estava engasgado há tempos, e o apoio que obtive ao criticá-los, há algumas semanas, foi sinal disso.

 

Acontece que, se fizermos a conta, João Pereira Coutinho e Luiz Felipe Pondé estão cercados de Clóvis Rossi, Fernando Barros e Silva, Eliane Cantanhede, Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Marcos Nobre, Fernando Gabeira, Janio de        Freitas e este que vos fala, grupo insuspeito de afinidades com a direita. Há Oderbrecht e Delfim, além de Sarney, pesando no outro lado da balança. Será que desequilibrou em favor da direita? Culpa em parte minha, então. Trato de me regenerar nos próximos artigos.

 

Veio então a carta de Fábio Konder Comparato, dedo em riste contra a pessoa do diretor de Redação, Otavio Frias Filho, chamando-o ao pelourinho em praça pública. O diretor de Redação reagiu chamando de cínica essa conclamação prosecutória. Konder Comparato excedeu-se, num gênero jacobino que contrasta com toda a retórica democrática em torno da liberdade de expressão.  Tratava-se de defender Chávez, mais do que acreditar na tese de que a “Folha” teria passado a apoiar a ditadura. A resposta de Otavio a Comparato quis denunciar essa hipocrisia, essa indignação postiça, chamando-a de cínica.

 

O resultado, para a “Folha”, foi ruim em termos de imagem e de relações públicas. É óbvio que a “Folha” não passou a gostar das ditaduras ou das ditabrandas. É óbvio que não quer romper com a esquerda. A esquerda, entretanto, há tempos quer romper com a Folha, por bons ou maus motivos. Não sei o que ganha com isso. Sei o que quer preservar nessa atitude: sua adesão a Chávez, a Fidel Castro, ao MST.

 

Não sei qual ditadura, dentre as três, prefiro: com certeza, eis regimes diante dos quais haverá alternativas bem mais “brandas”. Não que 1964 esteja entre elas. Mas gostaria de saber por que razão, entre a Folha e a esquerda, existem tantos atritos em torno do termo “ditadura”. Será que não estamos de acordo quanto ao que significa “democracia”?

Escrito por Marcelo Coelho às 05h02

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lançamentos em inglês

 
 

lançamentos em inglês

Aproveitei o feriado para pôr em dia minhas leituras do “Times Literary Supplement” e da “New York Review of Books”, que se acumulavam sobre a mesa, e estão cheios de notícias sobre lançamentos de livros em inglês que parecem ser muito interessantes. Faço uma pequena seleção.

 

 

John Laughland escreve uma “História dos Julgamentos Políticos”, de Carlos I a Saddam Hussein, criticando a correção jurídica das condenações em tribunais internacionais; até que ponto as acusações a célebres criminosos políticos, como Pinochet e Milosevic, sustentam-se a partir de uma ótica legal rigorosa? O livro naturalmente suscitará protestos, mas uma coisa é protestar, outra é contra-argumentar no campo argumentativo que o autor propõe.

 

Na direção oposta, parece ser dos mais impactantes o livro de Philippe Sands  sobre os argumentos que embasaram a legalização da tortura sob o governo Bush, e as autoridades que os formularam. A vantagem de Sands, diz o resenhista da NYRB, é que sendo britânico, “e não identificável com nenhum dos lados da polêmica dentro do cenário americano”, parece ter contado com especial boa vontade por parte daqueles a quem entrevistou –do comandante de Guantánamo aos conselheiros legais que, sim, admitem seu total pragmatismo, sua desconsideração de princípios básicos (e mesmo de raciocínios quanto à eficiência dos métodos utilizados) na “guerra contra o Terror”.

 

David Runciman, professor de Teoria Política em Cambridge, escreve um pequeno tratado sobre “A Hipocrisia Política”, distinguindo, por exemplo, os casos em que o político “não diz toda a verdade” apenas para enganar os outros, e aqueles em que o próprio político termina plenamente convencido, ele próprio, do que conta para os outros. Runciman já tinha publicado, há alguns anos, uma acerba análise teórica dos argumentos de Tony Blair a respeito de seu engajamento na Guerra do Iraque (“The Politics of Good Intentions”). 

Romantismo depois de Auschwitz”  é o título de um estudo de Sara Guyer, no qual alguns clássicos testemunhos sobre a sobrevivência nos campos de concentração, como os livros de Primo Levi, são relacionados com o famoso poema de Coleridge, “The Ryme of the Ancient Mariner”, e com as teorias de Shelley a respeito da diferença que existe entre “ir vivendo”, puro prolongar-se pelos dias,  e a “apreensão da vida” em sua totalidade.

 

Histeria masculina? Parece ser uma constante nos consultórios de analistas (ouvi isso também aqui no Brasil), e o livro de Mark S. Micale, com 366 páginas, dedica-se a estudar o fenômeno. Pelo que diz o autor, Freud e Fliess chegaram a tecer considerações sobre o tema em sua correspondência, mas posteriormente Freud teria suprimido suas observações na formalização de sua teoria; achaques nervosos ficaram a cargo apenas das mulheres.

 

Os interessados na literatura sobre futebol gostarão de saber que algumas crônicas de Nelson Rodrigues, traduzidas para o inglês, fazem parte de “The Global Game”,   antologia multi-étnica de escritos sobre o esporte, editada em Nebraska.

 

O filósofo Mark Rowlands resolveu adotar um filhote de lobo como mascote, e de suas experiências com o bicho tirou conclusões estranhas neste livro . O lobinho, diz ele, tem uma “inteligência mecânica”, vivendo num mundo mecânico, no qual os problemas se resolvem, digamos, fisicamente. Um cachorro, por seu lado, teria uma “inteligência mágica”: se quer abrir uma porta, olha para ela longamente, esperando que seu dono a abra. Como filósofo, diz a resenha do TLS, Rowlands se preocupa com o tema das conexões entre pensamento e mundo exterior; de que maneira uma relação não-verbal com o mundo pode situar-se num plano tão “verdadeiro” quanto a dos humanos? Especulações desse tipo se mesclam a trechos autobiográficos, em que Rowlands fala de seus fracassos como ser humano... “Talvez se torne um clássico cult da filosofia”, especula o autor da resenha,  Mark Vernon.

 

Outras curiosidades, que vou aprendendo em resenhas esparsas, merecem registro. A origem da palavra “ciao”, o nosso “tchau”, localiza-se em Veneza; segundo “A Linguistic History of Venice”, de Ronnie Ferguson, trata-se de uma corruptela de “vostro schiavo”. Marzipã, quarentena, gueto, gazeta, também são termos que vêm antes do veneziano do que do italiano florentino.

 

Tive também um choque ao saber que a histórias de Ali Babá, de Aladim e de Sinbá nunca pertenceram ao original das “Mil e Uma Noites”. Claro que “original”, aqui, é modo de dizer, porque a primeira versão de uma série de histórias contadas por Xerazade surgiu por volta do século 10, mas não foi preservada. O fato é que foi o primeiro tradutor francês, Antoine Galland, no século 18, quem inseriu no texto os personagens acima citados; não há nenhum texto em árabe anterior a Galland que cite Ali Babá ou Aladim. É o que diz Geert van Gelder, professor de árabe em Oxford, na resenha que li no TLS a respeito de nova tradução do clássico.

 

Na mesma linha curiosa, vale noticiar o livro de Susie Boylt, filha do pintor Lucian Freud, aliás neto daquele citado acima. A moça escreve quase trezentas páginas a respeito de sua fixação por Judy Garland. A célebre cantora-adolescente de “O Mágico de Oz” terminou sendo um símbolo de amargura e sofrimento pessoal, despertando identificações e idolatrias como as de que Susie Boylt dá testemunho.

Deve-se convir que Judy Garland tinha insights realmente profundos a propósito de sua própria arte, de sua própria magia: “tenho uma voz que fere as pessoas”, dizia, “exatamente no lugar que elas pensam que querem ser feridas”.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h37

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meninos e meninas

 
 

meninos e meninas

Perto de completar seus cinco anos, meu filho menor está na fase de receber visitas de amiguinhos. Domingo, tivemos uma menina em casa. Nesta quarta-feira, um garoto.

 

A diferença de comportamento dos dois é fenomenal. Lembrei outro dia a frase de Simone de Beauvoir: ninguém nasce mulher; torna-se mulher.

 

O espantoso é que isso comece tão cedo.

 

A amiguinha de meu filho organizou para ele uma refeição completa. Vi-o sentadinho, com sua roupa de Batman, sendo servido, numa mesa minúscula, com uma refeição de mentirinha. A menina pergunta se ele já acabou de comer. Ele responde, laconicamente, que sim.

 

“Então vamos namorar”, diz ela, e cerra a porta do quarto de brinquedos, que não serei indiscreto de abrir.

 

Em outro momento, surpreendo-os dançando de rosto colado, “cheek to cheek”. Evidentemente, meu filho pequeno cedia a fantasias femininas que não eram suas.

 

Pois quando chega em casa o amiguinho masculino, muda o foco das brincadeiras. Tudo se resume a matar e destruir.

 

Homens medem seus respectivos poderes. Mulheres os fazem fracos e submissos.

Seria cômico e pueril, não tivesse consequências trágicas no mundo adulto.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h19

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O demônio da estatística

 
 

O demônio da estatística

É natural comparar a presente crise financeira com a de 1929. Talvez seja animador, contudo, notar algumas diferenças. No livro “Uma Senhora Toma Chá...”, de David Salsburg, que já comentei algumas vezes neste blog, lemos o seguinte:

 

[O começo da década de 1930] era uma época instigante para participar do governo: a nação jazia em queda, e o novo governo em Washington procurava ideias para retomar o vigor. [que tradução!] Primeiro, era preciso saber quão mal andavam as coisas por todo o país. Começou-se a fazer levantamentos de emprego e atividade econômica. Pela primeira vez na história da nação tentava-se determinar exatamente o que estava acontecendo no país—uma oportunidade para levantamentos por amostragem.

 

... entusiasmados jovens profissionais tiveram de vencer, inicialmente, as objeções daqueles que não entendiam de matemática. Quando uma das primeiras estatísticas do Departamento do Trabalho indicou que 10% da população detinha quase 40% da renda, ela foi denunciada pela Câmara do Comércio dos Estados Unidos. Como isso podia ser verdade? A pesquisa entrara em contato com menos de 0,5% da população, e essas pessoas eram escolhidas por métodos aleatórios! A Câmara de Comércio tinha suas próprias pesquisas, tiradas das opiniões de seus próprios integrantes, sobre o que estava acontecendo. A nova pesquisa foi rejeitada pela Câmara, por ser inexata, pois era apenas uma coleta aleatória de dados.

 

Vê-se que, naqueles tempos, estatística era coisa de comunistas... Não admira que a cegueira ideológica da direita sempre esteja a cavar sua própria sepultura; o “estatista” Roosevelt, odiado pelos ultraliberais, terminou salvando o capitalismo.

 

Eis uma ironia que Marx ignorou. Ao contrário do que parece, confiou mais na ideologia, no sistema de pensamento de seus adversários, do que no pragmatismo e no bom-senso de quem tinha de tocar os negócios no dia-a-dia. Se fosse pelos seus ideólogos, o capitalismo já teria ido para a cucuia, como previa Marx. Acontece que os governantes acusados de “estatismo” e de “esquerdismo” são, na verdade, mais eficientes para “o sistema” (que muda e se aprimora) do que os puros e duros sonhados pela direita.

 

A confiança absoluta no mercado levaria, no limite, a recusar qualquer dado estatístico. Estatística já seria equivalente a estatismo, na medida em que se confia na intuição de cada agente individual do mercado, mais rápida, sem dúvida, do que o lento, sempre atrasado, processo de levantamento e sistematização de dados empreendido pelas agências estatais.

 

É como se uma defesa absoluta da liberdade individual terminasse numa defesa da cegueira e da ignorância: eis o ponto em que liberalismo e conservadorismo convergem. Pois, quanto mais ignorante o agente social, mais livre ele será.

Liberdade e esclarecimento já fizeram parte do mesmo time. Basta ver uma Sarah Palin, ou qualquer radical republicano, para perceber o grau da divisão em curso.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h52

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cabelos e bigodes

Não quis incidir em considerações pessoais no meu artigo desta quarta-feira para a “Ilustrada” (assinantes leem aqui), mas estava pensando, ao escrevê-lo, na capa da revista “Carta Capital” sobre a eleição de José Sarney e Michel Temer para as presidências, respectivamente, do Senado e da Câmara.

 

“Volta ao Passado”, dizia a revista. Será mesmo? De certo ponto de vista, Sarney abandona o lugar relativamente discreto que tinha na política depois de sua passagem no Executivo, e volta ao centro das atenções no parlamento.

 

De outro ponto de vista, esse passado nunca terminou, e dificilmente consideraríamos a eleição de Tião Viana, rival de Sarney na disputa do Senado, um marco histórico de renovação.

 

Por isso, a “volta ao passado” deveria ser traduzida em “permanência do passado”, e esta era a chave simbólica para a insistência dos políticos no uso da tintura de cabelo. Mas aí seria apontar excessivamente o dedo para os bigodes de Sarney.

 

O blog é coisa mais pessoal que o jornal impresso. E também pode ser visto, às vezes, como um simples “making of”. Questiono, e adiciono a, o que já escrevi. É como se a tela da internet fosse mais “apagável” do que a página de um jornal. Por isso mesmo, aliás, escrevem-se barbaridades no meio virtual, que não sobreviveriam no meio impresso.

 

Como dessa vez não houve torcida nas eleições para as Mesas do Senado e da Câmara, fica estranho qualquer movimento de indignação com a vitória dessas duas raposas.

 

Não desgosto de Temer nem de Sarney, embora esteja longe de admirá-los. Daí ter escrito um último parágrafo mais ameno, depois de tantas críticas aos cabelos e bigodes (Temer parou de pintar os primeiros, embora continue draculesco, e discordo de quem colocou aspas nesse termo, na edição impressa do jornal).

 

Serão as raposas peças essenciais no jogo político? Penso na capacidade que elas têm de abafar incêndios institucionais. Isso não significa dar carta branca para negociatas e fisiologismos.

 

Ando lendo bastante sobre a França nos tempos da ocupação nazista. Um dos bordões do regime fantoche de Vichy, instituído depois da derrota militar da França diante da Alemanha, era a corrupção e a ineficiência dos políticos da 3ª. República francesa. A maioria de corruptos e raposas naquele Legislativo era imensa. Soluções autoritárias, como a de Vichy –e, num quadro ainda mais grave, a de Hitler na República de Weimar— propagandeavam varrer do mapa esse estilo de política.

 

Sarney sustentou o regime militar o quanto pôde. Sustentou-se a si mesmo, com mais intensidade ainda. Não deixou de ser um dos formuladores mais importantes da transição do país para a democracia.

 

Não que eu sinta sua falta. Não que ele seja confiável se, por desgraça, o autoritarismo militar voltar à cena. Mas seu papel, hoje, talvez seja equivalente àqueles parlamentares dos tempos de Dutra e Juscelino, que seguravam a onda. Antes de ser um horroroso ministro da Justiça sob Geisel, Armando Falcão servia bem o governo democrático de Juscelino Kubitschek, contra o golpismo da oposição.

 

Sei também que chamar de “golpista” a oposição a Lula é apenas um jogo retórico, bastante suspeito. Nem só na direita se pintam os cabelos e os bigodes.  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h15

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um Debussy pós-moderno

 
 

um Debussy pós-moderno

Não por acaso, o folheto que acompanha o novo CD do pianista Jean-Efflam Bavouzet, quarto volume de sua gravação completa das obras de Debussy, apresenta em detalhe todas as indicações de andamento escritas pelo compositor.

 

Até agora, os discos davam apenas o título de cada composição. Por exemplo, na segunda série de “Images”, bastava ao ouvinte saber que Debussy havia intitulado a primeira peça de “Cloches à travers les feuilles’ (sinos através das folhas).

 

No CD de Bavouzet, a indicação de cada faixa vem seguida de outras informações.

“Lento. Um pouco mais animado e claro. Tempo I. Mais lento até o final.”

 

O pormenor chega ao exagero nos “Estudos, livro 1”, onde vemos, por exemplo: “Para as quartas. Andantino con moto. Stretto. In tempo I. Risoluto un poco stretto.  L’ istesso tempo. Bailabile e grazioso (poco animato). Stretto. In tempo I (poco animando). Sempre animando. In tempo I. Tempo I. Calmato. Più lento e perdendosi.”

 

Poderia ser tudo um preciosismo do editor, ou do compositor, numa coisa muito francesa de reparar em cada detalhe, como se fosse erro de pronúncia.

 

Mas dessa quantidade de informações, nesse pontilhismo de recomendações ao intérprete, acho que há algo a concluir da música de Debussy, e da excelente interpretação que Bavouzet oferece nesse CD.

 

Talvez o segredo de interpretar bem a música de Debussy esteja, com efeito, no comando do andamento. Mais do que nas sutilezas da dinâmica (a diferença entre tocar um “piano” e um “pianíssimo”), ou na arte inconfundível do ataque e do timbre (o modo de se ferir cada tecla e de apertar cada pedal no piano), é importante em Debussy acertar as velocidades, os acelerandos e ritardandos de cada peça.

 

Há uma explicação racional para isso. Revolucionando toda a tradição da música clássica, Debussy não seguia os encadeamentos harmônicos prescritos pelos mestres. Os acordes de acompanhamento surgem isolados, mais atentos ao “clima” pretendido pela música do que às suas relações mútuas.

 

Essas relações eram muito claras na música clássica antes de Debussy. Resumiam-se, na verdade, a certas atitudes básicas do ouvinte: inquietação, segurança, dúvida, transição, intensificação da dúvida... uma sétima de dominante impunha certo grau de tensão, uma sétima de diminuta a exacerbava, um acorde de mediante deixa no espírito uma calma irresolvida, a transição de menor para maior impõe certo artificial afrouxamento... e assim por diante.

 

Com Debussy, cada acorde tende a desligar-se do outro, evitando essa retórica quase hollywoodiana de suspense e alívio. Muito estético, sem dúvida: cabe ao ouvinte fruir do prazer sonoro de cada momento, olimpicamente alheio aos melodramas de um Beethoven.

 

Esse esteticismo não deixa de ser uma redução diante da arte de Beethoven, que continha o melodrama mas a superava grandiosamente. De certo modo, diminuir o sentimentalismo, como fez Debussy, era uma obrigação de artista mas ao mesmo tempo uma confissão de que não era possível ser tão grande artista quanto Beethoven.

 

Voltando ao CD de Bavouzet. Numa época pós-moderna, ele está consciente de que cansou o efeito de estranhamento, de deslocamento, de desagregação intentado por Debussy com seus acordes e harmonias “ilógicas”, e portanto “anti-sentimentais”, não imediatamente reconhecíveis pela psicologia humana (drama-descanso-humor-tensão-reconciliação).

 

Seu segredo, como intérprete, é o de revelar, por trás dessa casca de modernidade debussista, o que persiste nas obras do autor de tensão, de alívio, de “melodrama”, se quisermos.

 

Como os acordes de Debussy aparentam uma espécie de “soltura”, de independência, a solução de Bavouzet é apostar no tempo. Se tocar mais depressa que o usual o “Lento” de “Cloches à travers les feuilles”, por exemplo, a sensação de vazio, de espaço vago, que sentimos entre as harmonias desaparece. A música fica menos moderna, mais “bonita”: aproxima-se de Brahms.

 

Não é pouca proeza para um intérprete ser capaz disso. O disco de Bavouzet inova ( e envelhece) Debussy. Que é bonito, é.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h54

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trote e impunidade

Eu frequentava a piscina do CAOC (Centro Acadêmico Oswaldo Cruz) no verão de 1999, quando ali morreu afogado, vítima de um trote bárbaro, o estudante Edson Tsung Chi Huseh. A notícia de sua morte, em 23 de fevereiro de 1999, chocou toda a opinião pública. Naquele verão quente, entretanto, as atividades da piscina continuaram normais. Lamento não ter feito qualquer gesto –uma vela acesa, um vaso de flores, por exemplo—que lembrasse a tragédia.

Os assassinos, na bem-vinda matéria do suplemento “Aliás” do “Estado de S. Paulo” deste domingo, continuam impunes. Devem estar clinicando por aí.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h30

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voltaire de souza

Alguns textos recentemente publicados pelo cronista do jornal "Agora SP":

 

 

A HORA BOVINA

 

 

Vacas. Touros. Vida rural. O mundo dos peões está de volta às novelas brasileiras.

Evânio morava em Santa Cecília.

Espigões cinzentos formavam a paisagem de seu apartamento.

Uma onda de nostalgia tomou conta do gerente de vendas.

--A roça... as pescarias... o mugido das vacas de noitinha...

A infância de Evânio se perdia nos confins de Minas Gerais.

Ele ligou a TV. Galãs de chapéu. Beldades de botinhas.

--Hum, hum.

Pastos. Açudes. Plantações. As velhas histórias de amor.

--Huuum. Huuum.

Tédio. Vazio. Mesmice. Evânio foi até a sacada do apartamento.

A tarde caía sobre a selva de pedra. Lágrimas caíam sobre o rosto de Evânio.

Do fundo de sua alma, saiu um potente mugido.

--Huuuuuummmm...

A vizinha de baixo se chamava Gaya. Assustou-se com o berro. Mas agora curte.

--Faz de novo, meu tourinho...

TV demais emburrece.

Mas sempre se sai renovado de um encontro com a natureza.

 

MANDANDO BRASA

 

 

Movimentos. Protestos. Reivindicações.

É o Fórum Social Mundial. Muita gente em Belém do Pará.

Contra o capitalismo. Contra a exploração. Por um mundo melhor.

Mas como mudar o mundo sem mudar a alma do homem?

É preciso de muita espiritualidade nessa hora.

Um famoso pai-de-santo dava consultas a preço módico.

Seu nome era Futaba. O sacerdote estava em Belém.

--Mandando burasa. Padurón interunacionaro.

O americano Norton adorava o Brasil.

--Amzóón. Os póvs da flowréést.

Caía a noite. Com seus mistérios tropicais.

A tenda de Pai Futaba expelia fortes rolos de fumaça. Norton se assustou.

--Incééndyu. Estáun queimánd a flowrést.

Era fumo do bom. Futaba sorri.

--Cáruma, Nóruto. Urelaxa. Coniéce a Giruvanka?

A bela morena Gilvanka aninhou-se nos braços do americano.

Provando que onde tem fumaça, aí é que a coisa esquenta de verdade.

 

 

JUNTO DO POVO

 

A crise econômica atinge o mundo inteiro.

Para Quinzinho, o problema era sério.

--Sem patrocínio, nossa escola não desfila...

O Carnaval se aproxima. O galpão da Calcanhares de Prata era só desânimo.

Quinzinho chamou a passista Gilvanka para uma conversa.

--Aquele seu ex-namorado... Não era milionário?

De fato, a espetacular morena circulava nas altas rodas.

O apelo de Quinzinho foi patético.

--Volta para ele. Só até o Carnaval... Tira toda a grana que puder.

Gilvanka telefonou para o poderoso banqueiro.

--Oi, J. P... Que saudade...

O encontro foi num barzinho interessante da Vila Madalena.

O milionário chegou tarde. Acompanhado por um forte cheiro de cachaça.

Transmitiu as notícias de forma confusa.

--A subprime... os fundos de hedge. Inadimplência do spread.

Tradução: falência total. Gilvanka beijou o banqueiro com ternura.

--Gosto mais de você assim, J. P. Na simplicidade. Bem povão.

A vida é como um desfile. Para chegar à apoteose, é preciso estar perto do chão.

 

 

 

 

HÁBITOS VAMPIROS

 

 

 

Verão. Calor. É tempo de filtros solares.

Adriano estava de mau humor.

--Férias na praia... nada a ver.

A família tinha alugado casa em Mongaguá.

Aos dezesseis anos, Adriano tinha outras prioridades.

Baladas. Música sinistra. Hábitos vampiros.

--Sou dark, pô. Radical.

A mãe de Adriano implicava.

--Tira pelo menos o coturno e o sobretudo, meu filho.

O rapaz não queria saber de ficar bronzeado.

--Pele branca, cara. Conde Drácula. Sacou?

O luar cobria de prata o oceano tropical. Adriano levantou-se lentamente da cama.

--Hora de um passeio... Cadê o protetor solar?

Já tinha acabado. Perto de um canal de esgoto, Adriano acendeu um baseado.

Voltou para casa de madrugada. Já com febre. Manchas vermelhas no corpo.

No hospital, o diagnóstico preocupante. Dengue hemorrágica.

O charme dos vampiros atrai a adolescência.

Mas, em matéria de chupar sangue, o mosquito sempre leva vantagem.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h06

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Um pintor "realista"

O pintor Howard Kanovitz morreu aos 79 anos, segunda-feira passada, em Nova York. Foi um dos pioneiros do hiper-realismo, fazendo quadros a partir de fotografias, como se as imitasse com perfeição. Achei bem impressionantes dois trabalhos dos anos 60, que copio do site do pintor.

 

"Cleo's view", 1968

 

 

 

"People", 1968

 

Ainda que seja grande o virtuosismo técnico dessas reproduções “perfeitas” do real, o que mais chama a atenção é o clima, muito surrealista, que pesa sobre tudo. Pensamos não estar exatamente diante de um quadro que é “como uma fotografia”, mas sim diante de um quadro que “transforma em fotografia” as intenções de outro pintor, René Magritte.

 

No caso de “People”, vemos as pessoas de costas, como se justamente estivessem vendo um quadro, sem notar o espelho que estaria teoricamente atrás delas. De certo modo, Kanovitz reconstrói o famoso quadro de Magritte, em que uma pessoa, de costas para o pintor, aparece refletida num espelho... também de costas.

 

 

No caso de “Cleo’s view”, é mais a falsa profundidade do espaço que parece inspirada nas ficções pictóricas de Magritte, como se o que há de “fotográfico” no quadro de Kanovitz viesse a ser “emoldurado”, não por uma estrutura rígida de porta-retrato, mas por uma espécie de cenário teatral, um jogo de perspectivas que intuímos ser puramente ilusório.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h15

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Ambiguidades da crítica

 
 

Ambiguidades da crítica

Está disponível para os interessados todo o arquivo de resenhas de discos de música clássica publicadas pela revista Gramophon desde os anos 20. É interessante ver de que modo o talento do brasileiro  Nelson Freire era analisado nos idos de 1978, antes que o pianista ascendesse ao Olimpo dos cinco ou dez grandes intérpretes do tempo atual.

 

Não é que o crítico da revista, em 1978, se recusasse a perceber suas qualidades. Mas confere a essas qualidades quase um ar de defeito. O que mais surpreende em Nelson Freire, na verdade, é como tudo parece fácil quando ele toca. Um virtuose diabólico, no gênero de Vladimir Horowitz, sempre nos leva a pensar no que há de praticamente impossível nos feitos técnicos que ele realiza. Sem tocar peças pianísticas do tipo “montanha-russa”, Nelson Freire sempre sabe ocultar as dificuldades digitais que ele enfrenta.

 

Pois bem, essa impressão de facilidade pode ser descrita de várias formas pela crítica. O autor da resenha pode maravilhar-se com a fluência e a musicalidade do pianista, ou criticá-lo por certa indiferença e superficialidade. Os dois pólos da avaliação crítica podem ser vistos aqui , num momento em que Nelson Freire ainda não era, aos olhos da crítica internacional, o Nelson Freire que agora é.

 

Aliás, acaba de sair o novo CD de Nelson Freire, dedicado a Debussy; ouço elogios a respeito no ótimo programa da BBC com críticas dos lançamentos musicais da semana, que pode ser acessado aqui  . O grande rival de Nelson Freire em Debussy, entretanto, é o francês  Jean-Efflam Bavouzet, cuja recente gravação dos “Estudos” confere-lhes um valor melódico e uma sutileza que, para mim, acostumado a gravações bem chatas dessa obra, surgiram (não ouvi o disco inteiro) como uma espantosa revelação.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h22

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Uma senhora toma chá... (2)

 
 

Uma senhora toma chá... (2)

Eis uma passagem maravilhosa do livro que andei resenhando, “Uma senhora toma chá...”, de David Salsburg (editora Zahar). Ele fala de uma grande gênia (por que não se usa o feminino nesse termo?) da estatística, Florence David.

 

Em 1939, ela trabalhava no ministério de Segurança Interna da Inglaterra, fazendo estudos estatísticos sobre os prováveis ataques de bombas alemãs sobre Londres. Estimava o número de vítimas, a possibilidade de bombas atingirem centrais elétricas, etc., ajudando a orientar as medidas preventivas do governo. Em 1962, pediram-lhe que resolvesse outro problema. Florence David é quem conta.

 

Eu tive aulas de grego quando jovem... Fiquei interessada em arqueologia quando um colega arqueólogo estava explorando um dos desertos [?] , eu acho. De todo modo, ele se aproximou e disse: “caminhei pelo deserto e mapeei onde estavam esses fragmentos. Diga-me onde cavar para encontrar os artefatos de cozinha”. Os arqueólogos não se preocupam com ouro e prata, só querem saber de potes e panelas. Assim que peguei seu mapa, analisei-o e pensei que era exatamente como o problema das bombas V. Aqui você tem Londres, e aqui estão as bombas caindo, e você quer saber de onde elas vêm para que possa presumir uma superfície normal bivariada e prever os principais eixos. Foi isso o que fiz com o mapa dos fragmentos. É curioso haver uma espécie de unidade entre os problemas, você não acha? Existe apenas meia dúzia deles que são realmente diferentes.

 

 

Ainda bem, fico pensando, porque em caso contrário a própria matemática talvez fosse inútil. Mas não desprezo o significado metafísico dessa “unidade dos problemas”. Podemos pensar, por exemplo, que tudo se resume a uma aplicação da velha “navalha de Occam”: a natureza economiza seus recursos, de modo que entre duas explicações prováveis, o mais provável é que a mais simples seja a mais verdadeira.

 

Como adivinhar, entretanto, os casos daquela “meia dúzia”, que são realmente diferentes? Um outro capítulo fascinante do livro de Salsburg se dedica à discussão do que seria um “espaço probabilístico”. Todos sabemos que jogar dados seguidamente tem algo a ver com o cálculo de probabilidades. Mas como aplicar esse modelo –o acaso repetido em condições praticamente idênticas—ao mundo real? Há gênios e gênios, nesse livro, discutindo esse problema.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h06

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Trens e vagalumes

 
 

Trens e vagalumes

Contam-me que o artista plástico Antonio Lizárraga, tendo sofrido um derrame que o paralisou, recorreu ao expediente de “ditar” para auxiliares o formato e a disposição que ocupa cada figura em seus trabalhos, que jogam com imagens abstratas e geométricas.

 

Lizárraga acaba de lançar, pela Ateliê Editorial, um livro de poemas, “Comunicados Lacônicos”. Não há nada de abstrato nas suas imagens, fortíssimas e concisas. Creio que muitos de seus versos se relacionam com o acidente que o acometeu.

 

Veja-se, por exemplo, o primeiro poema do livro.

 

dentro da chuva aprisiono palavras

que uso para alimentar janelas

 

Há uma imagem implícita aqui –a da chuva criando como que grades de água diante da vista—que se inverte na ideia de que as palavras podem permitir ao poeta alçar voo, como um pássaro, para além de sua condição de imobilidade.

 

A mesma experiência de imobilidade se traduz em versos de abrangência maior, logo a seguir:

 

quando criança usava o tempo desenhando galáxias

amontoava universos numa lata de bolinhas de gude

 

 

 

sabia de cor a cor das locomotivas

 

Quem nunca comparou, quando criança, aquelas antigas bolinhas de gude a planetas de bolso? Havia os Saturnos circundados de anéis brancos como leite; havia Netunos e Uranos nas suas escuridões verdes e azuis, salpicadas, de quando em quando, de bolhas como colônias de ar.

 

Também a sensação de prisão e de infinito, simultânea na infância de qualquer pessoa, é simbolizada magistralmente aqui:

 

(...)

meu pai costumava ficar horas esperando o trem cargueiro

quando este passava acendia um cigarro e ficava silencioso

ouvindo o traquejar das rodas esticando distâncias

eu me divertia equilibrando-me sobre os trilhos

aprendendo a partir

 

Cinco versos, apenas, que concentram um mundo imenso de sentimentos. Como é bonito e generoso, por exemplo, atribuir a si mesmo uma iminência de partida, que qualquer outra pessoa jogaria sobre as costas do destino do próprio pai! Mais fácil pensar no pai que parte do que em nossa própria tendência para abandoná-lo.

 

Nem tudo funciona nos “Comunicados Lacônicos” de Lizárraga. Não consigo acompanhar a impressão de que

 

mulheres com sabor de caramelo

defumam a tarde do elevador principiante

 

Defumam? Algo a ver com incenso? O verbo sugere mais haddock e peito de frango do que sabor de caramelo; seria melhor falar “depuram”? Fico na incerteza.

Nada mais claro e poeticamente eficaz, entretanto, do que isto:

 

à minha frente fica a terra de ninguém

 

Eis um poema, feito de um só verso, que se Lizárraga não tivesse escrito alguém teria de ter inventado.

 

Talvez o que há de grande nesse livro seja o fato de que tudo poderia ser apenas uma “trouvaille”, um feito engenhoso de linguagem, um poema-piada, um trocadilho. O que Lizárraga consegue em poucas linhas, entretanto, é bem mais que isso. Não é a inspiração súbita de uma frasezinha genial, que em tese poderia ocorrer a qualquer um. É o resultado, a cristalização, de uma vida inteira, que se reduz a um mínimo de memória, a um concentrado, “nem alegre nem triste”, de experiência.

 

Seria injusto, por exemplo, classificar como “trouvaille”, como fácil jogo de palavras, como poema leminskiano e pop um verso como este:

 

o vaga-lume pulou de pára-quedas

 

Há algo de mais estranho e permanente nessa imagem do que faz crer a mera paranomásia. Há algo de mágico, como merecem os vagalumes, sem hífen ou com hífen, tanto-faz.

 

 

obra, sem dúvida "concisa", de Antonio Lizárraga

Escrito por Marcelo Coelho às 04h50

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Fumar "causa" câncer?

 
 

Fumar "causa" câncer?

Na resenha de “Uma Senhora Toma Chá...”, livro sobre a história da estatística que resenhei para a Ilustrada, há uma frase meio injusta. Disse no texto que os maiores gênios não estão isentos de falhas de lógica e de caráter, o que evidentemente é verdade, mas talvez não se aplique às críticas do grande matemático Ronald Fisher à ideia de que o fumo causa câncer –esse o exemplo de “falhas” que citei.

 

Na verdade, Fisher reagia a concepções excessivamente simplistas de causalidade. Para uma mente treinada em estatística, “causalidade” já é um termo duvidoso em si mesmo. Cito um trecho do livro.

 

Suponhamos, refletiu [Fisher] que houvesse alguma determinação genética que levasse algumas pessoas a fumar, e outras não. Suponhamos, além disso, que essa mesma disposição genética envolvesse a ocorrência de câncer de pulmão. Era bem conhecido o fato de que muitos cânceres tinham componente familiar. Suponhamos, propôs então, que essa relação entre fumo e câncer se devesse ao mesmo evento, à mesmo evento, à mesma disposição genética. Para provar seu caso, ele reuniu dados de gêmeos idênticos e mostrou que havia forte tendência familiar para que ambos os gêmeos se tornassem fumantes ou não-fumantes. E desafiou os outros a mostrar que o câncer de pulmão não era também geneticamente influenciado.

 

Não se trata, certamente, de falha de lógica nem de caráter. Mas de sensatez, acho eu. Afinal, se as estatísticas servem para alguma coisa, é para mostrar que a incidência de câncer entre fumantes é esmagadoramente maior do que entre não-fumantes. Não sabemos se esse dado se deve a uma causa exterior (predisposições genéticas coincidentes, na argumentação de Fisher) ou intrínsecas (o hábito de fumar). Na dúvida, quem seria louco a ponto de não agir, ou pelo menos de não tentar agir, sobre a variável controlável do problema (fumar ou não), em vez de confiar na hipótese de que agir não adianta nada?

 

Talvez nisso se esconda o desejo de onipotência do estatístico. Ele está tão feliz de saber mais do que o conjunto dos cidadãos, tão feliz de notar invariâncias naquilo que todo ser humano considera pertencer à sua esfera pessoal de liberdade, que reage negativamente quando atitudes individuais (deixar de fumar, por exemplo), ameaçam suas conclusões.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h38

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prêmios literários

 
 

prêmios literários

 

Houve um tempo em que conceder prêmios oficiais a produções artísticas era uma espécie de sacrilégio –ou, no mínimo, algo tão antiquado como dar medalhinhas de ouro, prata e bronze aos melhores alunos da classe.

 

De resto, os júris que concediam prêmios desse tipo eram acusados, não sem razão, de academicismo; grandes artistas, por definição, eram iconoclastas e todo prêmio só podia negar-lhes essa condição.

 

Felizmente, esse tempo vai passando, e começa-se a entender que um prêmio vale o que vale, isto é, celebridade momentânea e dinheiro para quem ganhar, sem nada dizer de concreto sobre o que pensarão as gerações futuras. Por isso mesmo, é sempre um estímulo para que novos artistas apareçam, e sobrevivam.

 

O “sistema das artes” , na verdade, é tudo o que uma política pública (ou privada) pode incentivar; quanto aos gênios, surgirão de modo independente e inesperado –desde que o sistema esteja de fato funcionando.

 

Acho ótimo que prêmios literários como o Portugal Telecom ou o Jabuti existam, apesar de possíveis distorções e erros na escolha dos vencedores. Pelo menos o Portugal Telecom adotou critérios de seleção os mais amplos possíveis, enviando, na sua primeira fase, listas de votação pela internet para milhares de jornalistas, escritores e críticos.

 

Recebo release de mais um prêmio para mobilizar os interessados. Eis aqui:

 

Secretaria de Estado da Cultura lança o

Prêmio São Paulo de Literatura 2009

O Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, lança nesta sexta, 13 de fevereiro, o concurso Prêmio São Paulo de Literatura 2009, o prêmio literário mais bem pago do Brasil. Serão R$ 400 mil para o Melhor Livro do Ano e Melhor Livro do Ano ? Autor Estreante publicados em 2008, sendo R$ 200 mil para cada um.

As inscrições podem ser feitas até o dia 30 de março e os interessados poderão acessar o regulamento no portal www.cultura.sp.gov.br. Podem concorrer livros de ficção no gênero romance lançados no ano de 2008. A entrega dos documentos deverá ser efetuada por Via Postal ou no Núcleo de Protocolo e Expedição da Secretaria de Estado da Cultura (na Rua Mauá nº 51, Bairro Luz, São Paulo - SP, CEP 01028-900)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h35

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Uma senhora toma chá...

 
 

Uma senhora toma chá...

Acabo de fazer, para a “Ilustrada” de sábado, a resenha de um livro bem interessante. É “Uma Senhora Toma Chá... –como a estatística revolucionou a ciência do século XX”, de David Salsburg.

 

Algumas coisas do livro são difíceis de entender, muitas são fascinantes, mas me restrinjo aqui no blog a este caso, o do “Paradoxo da Loteria”, formulado por Seymour Kyberg, da Universidade Wesleyana do Connecticut.

 

Suponhamos que aceitemos as ideias de testes de hipótese ou de significância. Concordamos que podemos decidir rejeitar uma hipótese sobre a realidade se a probabilidade associada a essa hipótese for muita pequena. Para sermos específicos, estabeleçamos 0, 00001 como probabilidade muito pequena. Organizemos agora uma rifa com 10 mil bilhetes numerados. Consideremos a hipótese de que o número 1 ganhará a loteria. A probabilidade disso é 0, 00001.

Rejeitamos essa hipótese. Consideremos que o bilhete número 2 ganhará a loteria. Também podemos rejeitar essa hipótese. Podemos rejeitar hipóteses similares para qualquer bilhete numerado específico. Pelas leis da lógica, se A não é verdadeiro, e B não é verdadeiro, e C não é verdadeiro, então (A ou B ou C) não é verdadeiro. Isto é, pelas leis da lógica, se cada bilhete não específico não deverá ganhar a loteria, então nenhum bilhete o fará.

 

Não deixa de ser inquietante que matemáticos e estatísticos tenham de se debater com pressupostos básicos de sua atividade.

 

A mim, que sou leigo, parece claro que uma hipótese científica é muito diferente de um palpite lotérico. Se alguém aplica a uma hipótese científica os testes de um palpite lotérico, só crescem as garantias de que a hipótese científica estava certa. Pois a hipótese científica se baseia em observações mais completas do que as disponíveis para um comprador de bilhete de loteria.

 

Além disso, rejeitar uma hipótese não é o equivalente a declarar que a hipótese não é verdadeira. Rejeito a “hipótese” de que o número 0001 será ganhador na loteria: há pouca chance de isso acontecer. Mas não direi, se o número 0001 ganhar na loteria, que houve uma fraude, uma mágica na apuração.

 

Termino sem saber se esses matemáticos altamente especializados não estariam simplesmente brincando, para com isso apontar a exigência de melhor definição dos termos correntes em suas especialidades. Ou se não é o livro de David Salsburg que simplifica indevidamente os termos da discussão.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h04

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Os pais-motoristas

 
 

Os pais-motoristas

Com a volta às aulas, meu cotidiano se quebra numa série de idas e vindas: na medida em que os filhos crescem, pais se transformam, como é notório, em choferes de crianças. Há a escola, o ai-ki-dô, o curso de teatro de um, a escolinha de esportes de outro...

 

Antes de ter filhos, eu costumava criticar o excesso de atividades que se põem nas costas das crianças –há casos de agendas infantis mais carregadas que as dos próprios pais.

 

Vejo agora que não há muita saída a não ser inscrever os filhos em todo esse tipo de coisas. Eles aproveitam muitíssimo, divertem-se, e veem resolvido, provisoriamente, um problema básico do ser humano: o que fazer do tempo livre? Ou melhor, o que fazer da própria existência?

 

Manter-se ocupado é sempre a melhor terapia, já dizia Voltaire. No caso das crianças, o fato é que morar em apartamento, numa cidade como São Paulo, condena-as à televisão e ao videogame, formas em geral improdutivas de burlar o tédio.

 

Analiso um pouco a forte resistência das pessoas a atulhar de “atividades” a vida dos filhos.

 

É que vivemos uma espécie de transição, em cidades como São Paulo. Há trinta anos, muitas pessoas moravam em casas com quintal, e não era impensável que as crianças brincassem na rua.

 

Nada mais natural, numa situação dessas, que depois de quatro horas na escola as crianças fossem entregues aos seus próprios lazeres.

 

Em sociedades mais desenvolvidas, o horário escolar há muito está cristalizado em seis ou oito horas diárias. Tudo –da escolinha de teatro à oficina de artes e esportes— integra-se na escola.

 

Como ainda não temos essa prática (embora o curso primário do meu filho maior já tenha dois dias de período semi-integral), os pais de classe média e alta matriculam os filhos numa espécie de segunda jornada escolar, que complete o que a escola não oferece.

 

É um pouco o mesmo mecanismo que faz com que paguemos vigias e seguranças particulares, dada a notória deficiência do Estado nesse serviço básico. Reclama-se de pagar impostos, mas paga-se toda sorte de imposto “privado” –em planos de saúde, escolas particulares, segurança, clube... O que termina consumindo o grosso do orçamento familiar.

 

Imagine quanto custaria uma escola em período integral... Mas pense no que se gasta pelo fato de não haver período integral nas escolas brasileiras. Acho que a proposta esbarra numa resistência cultural: deixar os filhos na escola o dia inteiro? Que barbaridade! Choferamos as crianças em vez disso.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h17

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formas de dizer não

 
 

formas de dizer não

Dizer “NÃO!” faz parte da experiência educacional de todo pai, de toda mãe. Considero difícil –e mesmo falso—evitar a todo custo o uso da palavra (ver post abaixo).

Acho, em todo caso, que há tipos diferentes de “não” na mentalidade dos pais que pronunciam a palavra. Surgem daí péssimos desentendimentos.

Há, por exemplo, o “não” que gritamos, como uma pura interjeição, quando a criança inventa de tocar numa panela de água fervendo.

Há também o “não”, menos forte, que pronunciamos quando a criança põe o dedo no nariz.

Há ainda o “não” que a criança sabe, no fundo, ser um sim.

Imagine-se a mãe que tem de sair de casa: pode estar apressada porque o banco vai fechar, porque marcou de tomar um café com uma amiga, ou porque tem uma hora no dentista.

Em qualquer dessas situações, ela tem de sair de casa. O filho reclama, faz birra.

A mãe sente culpa. Sabe, secretamente, que seus compromissos não são tão importantes assim.

Diz então para o filho: “Não!” Vou sair, não ficarei com você. A criaça intui perfeitamente que são frágeis os motivos da mãe.

É que o seu “Não!” está carregado de culpa. A mãe sabe perfeitamente que poderia não sair de casa, cancelar a reunião, cancelar a conversa com as amigas.

Tem o direito, claro, de sair de casa, fazer reuniões, conversar com as amigas.

Confronta-se, todavia, com a criança—cujo único objetivo na vida é negar quaisquer direitos da mãe que tem.

Tudo bem: a mãe não se sente confortável quando diz seu “Não” numa situação próxima da chantagem sentimental.

O problema é que existem situações absolutamente “não-sentimentais” em que a palavra da mãe entra em crise.

O menino quer enfiar a cabeça na privada. A mãe diz: “não faça isso!” Mas o menino já se acostumou: o grito da mãe não deve ser levado a sério. A mãe pronunciou-o mil vezes, com o mesmo tom de voz. Saiu para tomar um café, o menino queria ir junto. Ouve-se uma desculpa esfarrapada: “não vai dar, daqui a pouco estou de volta”. O menino insiste. A mãe cede, cancela o compromisso, fica em casa com o filho.

Que valor tem o “Não” de uma pessoa tão culpada, tão prestes a ceder? Desencadeou-se, na verdade, o mecanismo da autoridade culpada, que tanto atrapalha a educação contemporânea.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h29

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chatice dos jornais

Uma das piores coisas da crise econômica é que aumenta muito a chatice do noticiário. Tudo se torna manchete: vinte mil demissões na Coreia, meio ponto de queda no índice Nasdaq.

No jornal impresso, você tem ao menos a opção de virar a página. No rádio, é impossível. Ouço regularmente a CBN, mas nestes últimos dias tudo tem ficado insuportável.

Não basta dizerem que o índice de emprego caiu 13% se comparado a janeiro do ano passado. Todas as variáveis estatísticas –de dezembro a janeiro, de janeiro a janeiro, de 2003 a 2009, etc.— são explicadas ao ouvinte, que sem dúvida precisaria de uma lousa para acompanhar toda a informação.

Ocorre no rádio, em grau maior, o que se repete no jornal impresso. Acredita-se que a fidelidade aos fatos e a objetividade podem ser alcançadas na medida em que palavras forem substituidas por números.

Ocorre que, por definição, números são ilegíveis. Não consigo me interessar pelo que diz uma locutora, se ela apenas debulha as últimas estatísticas sobre a indústria capixaba. Não consigo entender as notícias sobre o PAC, se se resumem a uma planilha de investimentos, salpicada de ceticismo.

Creio que a procura da objetividade terminou prejudicando o jornalismo, na medida em que se confundiu com a fuga da narratividade. Muito fácil ser objetivo como uma tabela. Mais interessante, acho, é ser objetivo como um narrador de romance. O jornal deveria ter mais romances e menos tabelas.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h46

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teoria do escudo humano

Rio de Janeiro, 9 de outubro de 2013.

 

Prosseguem os atentados do Comando Vermelho Unificado (CVU) contra a população carioca. Anteontem, duas delegacias e um jardim de infância da Zona Sul foram atacados com explosivos provenientes do Morro do Salgado, matando uma criança e ferindo dois policiais.

O secretário da Segurança reafirmou a necessidade de responder com dureza a ataques terroristas desse tipo. Ontem mesmo, uma série de mísseis foi disparada sobre vários pontos do Morro do Salgado, onde a polícia acredita que estão localizados bases estratégicas da organização narcoterrorista.

Cerca de cinquenta pessoas, das quais 20 eram crianças, foram mortas pela ação antiterrorista.

O secretário lamenta o acontecido, mas considera que o CVU notoriamente usa crianças como escudos humanos. Obriga-as a se reunir em torno dos centros comunitários do Morro do Salgado. Nesses lugares concentra-se grande parte do arsenal do CVU.

O secretário da segurança mantém sua decisão de prosseguir nos bombardeios, e no isolamento do local. Desde dezembro do ano passado, o Morro está cercado por policiais e impedido de realizar qualquer transação comercial com os bairros circundantes.

Mais nove supostos terroristas do CVU foram presos pela polícia ontem. Organizações favoráveis aos direitos humanos reiteram sua preocupação com a possibilidade de que sejam torturados.

O secretário argumenta que, embora seja contra a tortura, a guerra contra o terrorismo dos traficantes coloca-o num dilema moral. “O terrorismo não seria o mal maior?”

Cerca de trezentos moradores do morro estão presos numa instituição especial desde agosto de 2009, sem que nenhuma acusação formal tenha sido apresentada aos órgãos judiciais.

A Lei Especial de 2010 autoriza a realização de interrogatórios “extremos” contra suspeitos de pertencer ao CVU.

Desde o início dos conflitos, 934 crianças, usadas como escudos humanos pelos traficantes da favela, foram mortas pelos bombardeios da PM fluminense.

Os ataques do CVU contra habitantes da Zona Sul totalizam 18 feridos e 9 mortos.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h55

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usos do não

 
 

usos do não

Há algum tempo, no “Fantástico”, uma neurolinguista explicou de modo fascinante por que o “não” tende a ser ineficaz com crianças pequenas.

 

A mãe diz: “Não chegue perto da janela!”, e o cérebro infantil projeta, muito mais do que a proibição, a ideia proibida. “Chegue perto da janela”.

 

O mesmo acontece, dizia a neurolinguista, com todos nós. Se alguém me diz: “Não pense num elefante amarelo”, eu primeiro penso num elefante amarelo, e depois me convenço de que não devo pensar no que pensei.

 

Conclui a neurolinguista que a mãe, em vez de dizer para a criança “não chegue perto da janela”, deve dizer: “venha para o sofá”. A ordem positiva é mais fácil de obedecer do que a ordem negativa.

 

Faz todo o sentido, desde que não se tome todo o raciocínio ao pé da letra.

 

Vejo que uma coisa funciona muito com meus filhos pequenos: nunca decretar o encerramento de uma atividade sem anunciar antes o que virá em seguida. Não digo “vamos desligar a televisão”, ou “vamos sair da piscina”, sem dizer que “daqui a pouco vamos almoçar” ou “quando acabar o filme vamos ouvir uma historinha”.

 

A velha metáfora da cenoura e do chicote só faz sentido, aliás, porque a cenoura está na frente do burrico, projeta-o para o futuro.

 

Por outro lado, há algumas coisas questionáveis no raciocínio da neurolinguista. Uma coisa é dizer “não pense num elefante amarelo”. Estamos nós dois, o interlocutor e eu, sentados num sofá, e o que está em jogo são as imagens mentais que um pode ter e o outro quer proibir.

 

Outra coisa é a criança que está se aproximando de uma janela aberta. O “Não chegue perto da janela” não exige da criança nenhuma projeção mental “positiva”. Ela já estava fazendo, já tinha confusamente imaginado e desejado fazer, aquilo que agora proibimos. Ou seja, a instância “positiva” que é evocada na frase “negativa” (“não pense no elefante amarelo”) fugiu do plano puramente mental, e está em pleno funcionamento. Absolutamente normal, nesse caso, dizer “não!”, e certamente há algo de importante no processo educativo de qualquer pessoa no fato de ouvir, simplesmente, a palavra “não”.

 

Claro que funciona mais evitar seu uso constante, e mostrar, por exemplo, uma barra de chocolate para a criança, fazendo-a desviar-se do rumo da janela. Mas uma educação predominantemente “positiva”, isto é, sem o interdito, é impossível.

É como se quiséssemos evitar o complexo de Édipo mostrando ao menino fotos de suas coleguinhas de pré-primário...

 

Mas volto depois ao assunto.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h26

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Kafka e "Seleções"

Na sala de espera do consultório do meu primeiro dentista, havia uma preciosidade: a coleção encadernada da revista Manchete, começando do seu primeiro número.

 

Antigas casas de praia, sedes de fazenda no interior, tinham coisas parecidas. Lembro-me das paredes de uma sala de chácara cobertas com os volumes da velha coleção Saraiva: juntavam-se ali romances policiais à moda antiga, como “O Mistério do Quarto Amarelo”, obras de Daphne du Maurier, com o “Dom Casmurro” e “A Moreninha”.

 

Eu adorava, na infância, os números, lidos e relidos, das “Seleções do Reader’s Digest”, cujas capas não eram como as de hoje, com fotos imitando uma espécie de revista “Nova” em miniatura. Tinham ilustrações, sempre diferentes, em torno de um tema quase abstrato: as antigas pipas em forma de águia, enormes, que se vendiam na praia de Copacabana, relógios de parede, templos japoneses.

 

Nostalgias à parte, fico feliz de saber que a revista “Seleções” anda sendo distribuída gratuitamente para uso em consultórios. Muito melhor do que os péssimos anúncios de “Seleções” que recebo pelo correio: anunciam que ganhei um prêmio milionário, trazem uma espécie de fechadura dourada, como se fossem uma arca de tesouro, à qual terei pleno acesso, naturalmente, se assinar a revista. É um mau começo para qualquer revista considerar idiota o seu possível assinante.

 

Mas, num consultório de dentista, “Seleções” é a melhor leitura possível. Melhor até que “Caras”. Peguei outro dia, na tradicional seção dedicada a anedotas do cotidiano, uma verdadeira obra-prima. Reproduzo-a de memória.

 

Uma leitora mineira é quem conta. Estava esperando o ônibus quando viu dois cegos tentando atravessar a rua de mãos dadas. Resolveu ajudá-los, conduzindo-os até a calçada oposta. Chegando lá, foi surpreendida por outra pessoa, que se propunha a ajudar o trio. Foi só nesse momento que ela se lembrou que estava, ela própria, usando óculos escuros também.

 

Não sei exatamente o que comentar a respeito dessa história; é como se fosse uma daquelas alegorias kafkianas, que se prestam a todo tipo de interpretação –teológica, ideológica, psicanalítica—sem nunca esgotar seu significado.

 

Outra história desse gênero, menos complexa, aparece em “France: The Dark Years”, de Julian Jackson, excelente e detalhado livro sobre a ocupação nazista na França e sobre o regime fantoche de Vichy.

 

Há um capítulo sobre a indústria cinematográfica francesa daqueles anos, que não foi muito atingida economicamente. Um dos melhores filmes da época foi “Os Visitantes da Noite”, de Marcel Carné. Passa-se na Idade Média, e há uma cena de banquete.

 

Frutas reais foram postas sobre a mesa para ser filmadas. O diretor tomou a precaução de injetar as frutas com ácido carbólico, de modo que a equipe de filmagem, faminta naqueles tempos de racionamento e pilhagem, não as comesse antes que as câmeras começassem a rodar. A “arte pela arte” teve um de seus dias gloriosos.  

Escrito por Marcelo Coelho às 02h18

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O Carnaval de Zizek

Como filósofo marxista-lacaniano e crítico cultural, Slavoj Zizek sempre tem coisas interessantes a dizer, que ultrapassam de longe os clichês habituais da antiglobalização. Acontece que ele é tão surpreendente nas associações, e gosta tanto de paradoxos, que seus textos são mais exuberantes (e engraçados) do que sistemáticos.

 

Sua entrevista ao Roda-Viva, exibida na segunda-feira, não fugiu a esse estilo. Para cada uma das poucas perguntas, ele dava respostas de 15 a 20 minutos, num estado de constante agitação mental.

 

Já no fim do programa, perguntaram-lhe sobre o Brasil. Fiel à memória de todos os anos que passou atrás da cortina de ferro, o filósofo esloveno logo informou que detesta o Carnaval. Gosta mais de desfiles militares, com os participantes seguindo em passo ordenado o seu rumo. “Ordem, eu gosto de ordem”, disse ele, não se sabe com que dose de ironia.

 

O curioso é que, na mesma entrevista, seus paradoxos e saltos dialéticos se aproximaram bastante de um processo de “carnavalização”. Assim como no Carnaval se segue a ideia de um mundo invertido, onde o pobre é rei, a elite é popular, etc., na entrevista de Zizek foi possível ouvir considerações espantosas, como a de que, por exemplo, Mahatma Gandhi “no fundo” foi mais violento do que Stálin. Já não me lembro qual o raciocínio que embasou essa provocação zizekiana; talvez nem mesmo o próprio filósofo saiba ainda qual foi.

 

Eis uma longa palestra de Zizek em inglês (mas seu sotaque ajuda a entender) sobre polidez e ideologia, em torno de seu livro sobre violência, publicado no ano passado.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h56

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O Mendelssohn desconhecido

O artigo desta quarta-feira é dedicado ao bicentenário de Mendelssohn; não encontrei espaço para “descrever” em palavras algumas de suas composições, ou pelo menos algumas das experiências que tenho ao ouvi-las. Fixei-me principalmente na estranha mistura de “fracasso” e de “sucesso”, de genialidade e convenção, que configuraram a imagem do compositor ao longo do tempo.

 

Bem interessante é saber que existem ainda 270 obras inéditas de Mendelssohn. Leia (e ouça uma entrevista sobre o tema) aqui .

Mendelssohn achava que teria tempo para rever muitas de suas composições e, sendo rico, não tinha pressa em publicar tudo; sua morte foi repentina. Mesmo a “Sinfonia Italiana”, uma de suas composições mais célebres, foi editada num grande mal-entendido. O compositor estava insatisfeito com a sinfonia, reescreveu vários trechos. Depois de sua morte, a viúva entregou para o editor a cópia errada... e é esta versão, imperfeita aos olhos de Mendelssohn, que se tornou um grande sucesso.

 

No trecho de entrevista linkado acima, fala-se do “assassinato póstumo” de que Mendelssohn foi vítima. Em vida, era o compositor mais apreciado do público. Richard Wagner, por antissemitismo, moveu uma campanha devastadora contra sua música. Um wagneriano como Bernard Shaw encarregou-se, mais tarde, de pôr lenha numa fogueira que ainda arde, pelo menos no que diz respeito à obra sacra de Mendelssohn. Tudo indica que seus oratórios foram tocados à exaustão na Inglaterra, e tornou-se sinal de mau gosto admirá-los demais. A Osesp vai experimentar, neste ano, o oratório “Paulus”; pelo menos, o bicentenário é ocasião para se conhecer muita coisa de Mendelssohn além do repertório habitual por aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h46

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as viagens de Sartre e Simone

         No artigo da semana passada, citei no começo Simone de Beauvoir, que em suas memórias compara, de um lado, a liberdade que sentia ao viajar ao lado de Sartre e, de outro, o atulhamento e a tensão das viagens em família, durante sua infância.

         Disse no artigo que esse trecho estava em Memórias de Uma Moça Bem-Comportada. Errado: pertence à segunda parte das memórias de Beauvoir, A Força da Idade. Aqui vai um pouco.

 

Sartre converteu em pesetas os últimos restos de sua herança; não era grande coisa [...] Não tinha importância: o luxo não existia para mim, nem mesmo na imaginação; para atravessar a Catalunha, eu preferia os ônibus de aldeia aos pullmans turísticos. Sartre me encarregava de consultar os horários, de combinar os itinerários; eu organizava o tempo e o espaço como bem entendia: aproveitei com ardor essa nova espécie de liberdade. Eu me lembrava da minha infância: que novela, para ir de Paris a Uzèche! A gente se extenuava fazendo as malas, transportando-as, registrando-as, vigiando-as; minha mãe saía do sério com os funcionários da estação, meu pai insultava os passageiros que partilhavam nosso vagão, e os dois se desentendiam; havia sempre longas esperas enlouquecidas, muito barulho, muito aborrecimento. Ah, eu prometera a mim mesma que minha vida seria diferente! Nossas malas não pesavam muito, nós a fazíamos e desfazíamos numa virada de mão; como era divertido chegar a uma cidade desconhecida e procurar um hotel qualquer! Eu tinha definitivamente varrido todo aborrecimento, toda preocupação.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h20

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polemistas

Levando em conta as últimas refregas, eis uma ilustração de Salvador Dalí (para as memórias de Benvenuto Cellini) que é capaz de trazer algum colorido a este blog.

 

Tirei do site Bibliodissey,  um tesouro no gênero.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h42

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Ajuda para a Globo e a Record?

Ajuda do governo para emissoras de TV? A notícia me deixa bastante espantado, mas é o que saiu na “Ilustrada” da última sexta-feira.

Trata-se, em teoria, de um mecanismo de incentivo fiscal aos canais de TV aberta que se disponham a comprar documentários e minisséries produzidos de forma independente.

Funcionaria sempre que a Globo, a Record ou a Bandeirantes gastarem dinheiro com programas feitos no Exterior. O governo abateria o imposto cobrado na importação (por exemplo, quando a emissora compra o direito de transmitir as Olimpíadas), desde que seja feita uma parceria com produtoras independentes brasileiras.

Diz a reportagem: “Isso quer dizer, por exemplo, que a próxima minissérie da Globo, ‘Som e Fúria’, dirigida por Fernando Meirelles e feita por sua produtora, a O2, poderia ser bancada por esse recurso”.

Mas será que isso não quer dizer, também, que um documentário sobre a vida do pastor Edir Macedo poderá ser bancado com dinheiro do contribuinte quando a Record importar um enlatado qualquer?

Pela lei, a Ancine terá de aprovar qualquer projeto que se candidate à isenção fiscal.

Será difícil argumentar, acho, contra determinada “produção independente” no pressuposto de que não terá mínima qualidade cultural e informativa.

Se a Globo pode ostentar um ou outro Fernando Meirelles, qual a garantia de interesse cultural do que vier a ser feito pela Record ou pelo SBT?

E como reagir a possíveis críticas de que só a Globo está sendo favorecida?

Isenções fiscais para a Globo?

Tudo o que o projeto tem de criticável parece melhor do que a proposta alternativa, que é a de obrigar as emissoras a apresentar uma cota fixa de programas feitos por produtoras independentes.

Sabe-se aonde termina isso: a exigência de curtas-metragens nacionais nas salas de cinema ajudou principalmente à indústria de Primo Carbonari, autor de falsos e ridículos filmetos noticiosos, que o público sempre vaiava no começo de cada exibição.

O problema, a meu ver, é mais profundo e provavelmente imutável na atual configuração do poder político.

Resume-se a saber se as concessões de TV devem ficar nas mãos de quem estão.

Teoricamente, um canal de televisão deveria prover entretenimento “de qualidade” e de “interesse educativo e cultural” ao público.

Quando muitas emissoras sublocam seu espaço a igrejas, ou são elas mesmas propriedade destas últimas, o “interesse educativo e cultural” da televisão se torna uma espécie de proselitismo com o beneplácito do Estado.

Mexer nisso? Não sei que governo teria condições de retirar dos seus donos um espaço que, em tese, é simples concessão estatal.

Prefiro apostar no desenvolvimento tecnológico; a internet, com seus youtubes, e a TV a cabo, com seus limites, haverão de promover entretenimento e produção independente cada vez mais amplos no futuro –e, se for o caso de financiar alguma coisa, melhor dar câmeras digitais e computadores a escolas e entidades do que isentar de impostos uma emissora de TV.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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