Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Andy Williams

Temos a tendência mórbida de associar pessoas famosas à desgraça pessoal. Eu nunca tinha ouvido falar do cantor Andy Williams, e isso já me pareceu de mau agouro. Topei com uma interpretação dele no youtube, datada dos anos 60 –e como, dos anos 60 para cá, de Andy Williams não tive nenhuma notícia, logo pensei: o coitado se drogou até a morte, foi assassinado em circunstâncias suspeitas etc. O jeitão dele até que sugere isso: ouça o link para "Moon River".

 

Mas nada aconteceu de errado com Andy Williams. Segundo a Wikipedia, ele chega aos 80 anos coberto de glórias, e provando ser um sujeito decente. Sua primeira mulher, uma dançarina do “Follies Bergère”, separou-se dele, arranjou um namorado, e numa estação de esqui acabou matando o rapaz com tiros de carabina.

 

Andy Williams ficou ao lado da ex-mulher durante todo o julgamento, testemunhou a favor dela, foi, em suma, uma pessoa solidária e digna. Apoiou a candidatura de Bob Kennedy nos anos 60.  Não é bem o que a cara dele sugere, mas com certeza essas informações aumentam meu prazer de ouvi-lo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h07

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você sabia?

São realizados 31 bilhões de consultas no Google por mês. Em 2006, o número era 2,7 bilhões. Este e muitos outros dados espantosos podem ser acessados neste video do youtube. As mudanças no acesso à informação têm sido tão rápidas que mal estamos informados disso.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h48

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a bolsa perdida

 
 

a bolsa perdida

O livro “Contos Filosóficos do Mundo Inteiro”, de Jean-Claude Carrière, acaba de ser lançado pela Ediouro, e traz algumas histórias tão boas que não consigo deixar de reproduzir pelo menos uma.

 

Uma história judaica de grande sabedoria conta que um homem pobre encontrou uma bolsa contendo quinhentos rublos, o que era, então, uma soma considerável. Ao saber que o homem mais rico da vila havia perdido sua bolsa, e que tinha oferecido cinquenta rublos a quem a devolvesse, ele devolveu a bolsa.

 

O homem rico verificou o conteúdo da bolsa e assumiu um ar severo para dizer ao homem pobre:

 

--Vejo que você já pegou sua recompensa, porque minha bolsa continha quinhentos e cinquenta rublos, e não encontro aqui senão quinhentos. Então, não lhe devo nada.

 

Muito encolerizado, o homem pobre arrastou o rico até diante do rabino, a quem foi contar o incidente.

 

--Estou certo –disse o rabino ao homem rico—de que você diz a verdade. Um homem como você seria incapaz de mentir.

 

O homem rico começou a se alegrar, e o homem pobre, a se indignar, quando o rabino se virou para o pobre, estendendo-lhe a bolsa, dizendo:

 

--Você, por sua vez, não é desonesto. Porque, se fosse desonesto, teria guardado toda a bolsa para si mesmo.

 

Depois, virando-se para o homem rico, ele concluiu:

 

--Assim, não foi a sua bolsa que ele encontrou. Que ele a guarde, esperando que o verdadeiro proprietário a reclame.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h17

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o rosto do estuprador

Com o trânsito de São Paulo, a única saída é tentar se instruir um pouco. Tenho ouvido no carro uma incrível coleção de CDs, que para quem tiver razoável noção da língua francesa é imperdível.

 

Trata-se de uma “antologia sonora do pensamento francês”, que reúne trechos de conferências feitas no rádio, durante os últimos cinquenta anos, de pensadores como Foucault, Sartre, Althusser, Deleuze, Bachelard, etc. etc...

 

Todos têm, claro, um domínio incomparável da capacidade de persuadir, de parecerem lógicos e perfeitos mesmo quando não o são. O exemplo mais claro dessa técnica –no que resulta em fragilidade de pensamento—é Louis Althusser, tentando inutilmente vender um peixe que ele mesmo sabe não ser dos melhores.

 

Raymond Aron, explicando a fenomenologia de Husserl e tentando aplicá-la à sociologia, não está em boa forma tampouco.

 

Gaston Bachelard é mais um hedonista do pensamento, menos interessado em fazê-lo agudo do que em torná-lo mavioso, livre, bom de conviver.

 

Sartre aparece num de seus piores momentos, rancoroso e dogmático.

 

O maior talento da turma, pelo menos no que diz respeito à exposição oral, é Michel Foucault. Seu tema é nada mais, nada menos, do que o Corpo –o seu, o meu, o nosso. Foucault se alça a uma poesia verbal digna de Valéry, sem nunca parecer absurdo ou buscar apenas a originalidade pela originalidade.

 

Fixei-me, entretanto, nas considerações de Emmanuel Lévinas sobre “o Outro e o seu rosto”.

 

 

O olhar é sempre reconhecimento e percepção (...). O acesso a um rosto é imediatamente ético (...). Antes de tudo existe a exposição sem defesa de um rosto; é a pele mais nua e despojada. O melhor modo de ver alguém é ver a cor dos seus olhos. (...) Há no rosto uma retidão, uma pobreza... é isto o que surge quando alguém aborda o outro: algo se sente ameaçado, exposto a um ato de violência. O rosto é o que nos impede de matar alguém. É uma significação sem contexto: alguém pode ser vice-presidente do Conselho de Estado, professor na Sorbonne, mas o rosto foge a esse contexto, diz apenas “eu sou eu”. O rosto é aquilo que enuncia o ser de alguém, fora de todo contexto. Naturalmente, as pessoas matam umas às outras, mas nesse caso o rosto de cada uma não foi visto.

 

Foi pensando nisto (mas não tive espaço para ir tão longe) que escrevi, nesta quarta-feira, meu artigo sobre o monstro austríaco Josef Fritzl, que estuprava a própria filha, mantida em cativeiro por mais de vinte anos. Como entender seu rosto? Algumas imagens.

 

 

 

 

 

Trata-se de um monstro, é claro. Mas o que ele tem de monstruoso, se me repugna, não me interessa. Interessa saber o que há de humano nele, e foi isso o que procurei fazer no artigo. Assinantes do uol podem ler aqui --desculpem-me o tom propagandístico da coisa.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h40

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posters políticos

Depois dos posters de Shepard Fairey, premiado pela imagem de Obama, vale a pena ver algumas imagens de um grupo de Santos, que deliberadamente, com muita ironia e arte, refaz a arte da propaganda política dos anos 30. Dois exemplos.

 

Mais neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h50

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quermesse à italiana

Por falar em festas no interior da Itália, segue mais um poema sobre o assunto, agora de Corrado Govoni (1884-1965).

 

Eis o que resta

de toda a magia da quermesse:

esta cornetinha

de lata azul e verde

que uma menina sopra,

caminhando, descalça, pelo campo.

Mas naquela nota esforçada,

estão dentro os palhaços brancos e vermelhos,

a banda de ouro rumoroso,

o carrossel com seus cavalos, o realejo, as muitas luzes.

Assim no gotejar da calha

está todo o espanto da tempestade,

a beleza dos relâmpagos e do arco-íris,

e no humilde pavio de um pirilampo

que numa folha de arbusto se incinera

está toda a maravilha da primavera.

 

 

Acho especialmente feliz o detalhe de ser “azul e verde” a cornetinha. Nisso se intui a dissonância, o desafinado do som que ela produz. Será verde, depois, a luz do vagalume. O poema de Govoni, além disso, encadeia três metonímias (a cornetinha é parte da quermesse, os pingos são parte da tempestade, o pirilampo é parte da primavera) como se uma fosse metáfora da outra...

 

Portinari, "Flautista", óleo de 1934

Escrito por Marcelo Coelho às 01h45

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a lua e as fogueiras

 
 

a lua e as fogueiras

É muito difícil ser poético sem aparentar nenhum esforço, fazendo poesia como quem não quer nada.

 

Acabo de ler “A lua e as fogueiras”, romance de Cesare Pavese editado há tempos na grande coleção de literatura italiana da editora Berlendis e Vertecchia. Entrei nesse romance curto (182 págs.) ainda em função da coletânea de poemas “Trabalhar cansa”, de Pavese, recém-editada pela Cosacnaify, que andei comentando aqui.

 

Assim como no livro de poemas, o narrador é alguém que retorna à sua aldeia piemontesa, depois de conhecer o mundo. O contraste entre o campo e a cidade, entre a civilização e a vida rústica, encenam-se em “A lua e as fogueiras” numa forma narrativa mais clássica, em capítulos curtos. O romance foi publicado em 1950, e é o último escrito pelo autor.

 

Como em “Paesi Tuoi”, um romance de Pavese que li já faz muito tempo, a evocação dos cheiros, das cores, das estações do campo –e das mulheres pelas quais o narrador se encanta—constrói um clima de lirismo muito grande, para depois ser rompido numa eclosão de violência, de brutalidade incríveis, um pouco na linha do “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar.

 

A ideia de uma modernização acelerada da sociedade, que mais ou menos fincou pé no Brasil a partir dos anos 30, não parece nada garantida para Pavese, escrevendo no pós-guerra. Sem dúvida, já naqueles poemas da década de 30, em “Trabalhar Cansa”, vê-se o sujeito enriquecido que, retornando à terra natal, abre uma oficina de carros, um posto de gasolina... Mas esses sinais de progresso ficam na mera superfície, enquanto uma vida totalmente rude –e a influência da Igreja—mantêm a população num estado de embrutecimento profundo, que faz tristes os homens melhores, e piores ainda os que já são ruins.

 

A arte de Pavese está em esconder esse processo o máximo que pode, ao longo de páginas e páginas em que só a tristeza –não o enredo trágico—se intui. E tudo isso sem nenhuma “literatura”: as frases vão surgindo como se fossem as mais simples do mundo, numa conversa em que o narrador parece julgar que o leitor já sabe de tudo. Um exemplo, logo no segundo capítulo.

 

Neste verão fiquei no hotel Angelo, na praça do povoado, onde ninguém mais me conhecia, tão mudado estou. Nem eu conhecia ninguém; nos meus tempos a gente vinha poucas vezes para cá, vivia-se na estrada, pelos caminhos, pelos terreiros.

 

Acho lindo o tom vago desse “na estrada, pelos caminhos, pelos terreiros”. É como se o narrador apontasse vagamente, com um gesto, aquilo a que se refere.

 

Vim para descansar uns quinze dias e cheguei no dia da festa de agosto de Nossa Senhora. Melhor assim, o vaivém das pessoas de fora, a confusão e o barulho da praça fariam até um negro passar despercebido. Ouvi gritar, cantar, jogar bola; quando escureceu, fogos de artifício e foguetes; beberam, zombaram, fizeram a procissão; a noite inteira, por três noites, dançou-se na praça e se ouviam os carros, as cornetas, o estalido dos fuzis pneumáticos. Os mesmos ruídos, o mesmo vinho, os mesmos rostos de então. Os moleques que corriam entre as pernas eram os mesmos; os enormes lenços, as parelhas de bois, o perfume, o suor, as meias das mulheres nas pernas escuras eram os mesmos. E as alegrias, as tragédias, as promessas às margens do Belbo.

 

Nenhum adjetivo; um ar de como se já soubéssemos; um cansaço, uma tristeza, um encantamento apesar de tudo, que faz valer com que a história toda seja afinal contada.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h06

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prêmio para o poster de Obama

UOL Busca Shepard Fairey é o autor do famoso poster “Hope”/”Progress” da campanha de Obama.

 

O cartaz lhe valeu agora o prêmio britânico de “design do ano”. Fairey ao mesmo tempo está com sua primeira mostra retrospectiva no Instituto de Arte Contemporânea de Boston, que rememora vinte anos de sua carreira como grafiteiro/artista gráfico/ativista político. Há um mês, aliás, na mesma cidade, Shepard Fairey foi preso, em função de grafites que andou fazendo por lá.

Seus cartazes e capas de livro se inspiram –e parece que não com muita ironia— em imagens maoístas e no clássico retrato de Che Guevara; vermelho e preto são o forte de sua paleta, e o poster de Obama lembra, pela inclinação do rosto, a imagem guevarista, mas em cores norte-americanas. Alguns exemplos de sua produção.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h05

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os mares do sul (3)

 
 

os mares do sul (3)

Usei a expressão “cochilo do tradutor” para apontar o que me pareceu um problema na tradução de “Os Mares do Sul”, primeiro poema do livro Trabalhar Cansa, de Cesare Pavese (ver post abaixo). Maurício Santana Dias, autor da tradução, manda-me um e-mail esclarecendo que teria sido “cochilo” se fosse inadvertida a sua opção por usar o plural “eles” no último verso do poema. Mas o assunto, conta Maurício, havia sido discutido na própria editora, e ele considerou que era melhor deixar assim mesmo: o contexto dos versos anteriores, a seu ver, elimina o ruído que notei entre falar de “um homem de sorte”, no singular, e logo em seguida usar “eles”, no plural. Fica o registro; registre-se também que ele reclama, não sem razão, que “cochilo do tradutor” é um clichê e tanto.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h30

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simploriedade de Debussy

 
 

simploriedade de Debussy

Talvez o segredo de interpretar Debussy esteja na arte de anular qualquer virtuosismo. Há passagens rapidíssimas em “Voiles”, o segundo prelúdio do primeiro caderno, que um pianista qualquer gostaria de destacar como se fossem foguetes confeccionados na fábrica de Liszt.

 

No terceiro prelúdio, “Le Vent dans la Plaine”, a coisa é pior ainda. Tudo leva a entender a peça como um moto perpétuo, dado o enxame de notinhas em sesquiálteras que infernizam o teclado.

 

Vem depois o “truque” debussysta por excelência, já presente no primeiro prelúdio (“Danseuses de Delphes”): interromper a agitação por meio de uma sequência estática de terças descendentes, como se isso significasse algum apaziguamento oriental de bonzo em movimento contrário à eletricidade parisiense.

 

Digo isso, e talvez me arrependa um dia, para destacar o que há de barato na música de Debussy.

 

Acontece que isso ficou mais ou menos oculto, dada a modernidade do compositor: sua capacidade de inovação e de desprezo se impuseram, por mais de um século, ao ouvinte.

 

O problema do intérprete atual de Debussy está no seguinte: como descrer de sua modernidade, hoje ultrapassada, sem cair no meramente frívolo? É como se Debussy pudesse, conforme a interpretação, ser um gênio como Cézanne ou um pintor “nabis” como Valloton.

 

Comparo três interpretações dos “Prelúdios, Primeiro Caderno”, de Debussy. A primeira, de Arturo Benedetti Michelangeli, feita há cerca de trinta anos, investe no que Debussy tem em comum com Liszt: cada voo da mão direita surge agressivo, e o pianista não tem medo de notas “feias”; exagera-as, até.

 

Nelson Freire, no CD que acaba de lançar, faz o contrário. Como sempre, ele é o virtuoso que não chama a atenção para a própria virtuosidade, suavizando magicamente as passagens mais difíceis da partitura. Eis um Debussy que ginga, arredondado, superior aos ângulos cortantes de Michelangeli.

 

Há muitas formas de se fazer uma “interpretação histórica” de determinada peça musical. A História, com H maiúsculo, mudou dos anos 70 para cá. O que ainda existia de desafio para Michelangeli hoje é apenas prazer para Nelson Freire.

 

Seu maior rival, em matéria de Debussy, é Jean-Efflam Bavouzet, que entra na partitura com uma naturalidade digna de Rubinstein: vai tocando, sem se preocupar com os efeitos que provoca. Para quem está acostumado a ver névoas e sombras em Debussy, essa interpretação é como água mineral.

 

Tudo fica, assim, fluente e gracioso no segundo prelúdio, “Voiles”, e maravilhosamente leve no terceiro, “Le vent dans la plaine”. Bavouzet é uma delícia. Mas Nelson Freire aprofunda mais a coisa: o que era movimento animado no terceiro prelúdio se transforma em obsessão.

 

Mas em tudo há uma espécie de neurose controlada, ao contrário do fio desencapado de Michelangeli. Nelson Freire detém o segredo de fazer bonito qualquer som que ele toque. Bavouzet nem precisa tocar som nenhum: passa como um anjo sobre as notas. Mas será que não estamos perdendo o lado mais lisztiano, mais agressivo, mais diabólico de Debussy, tal como ainda destacado por Michelangeli?

 

Nesse caso, hesito em dizer o que se perde e o que se ganha. Um Debussy suave, tão inteligível quanto Dussek, tão doce como Massenet. Ou um Debussy arisco, tão velho como Liszt.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h50

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calouros na Inglaterra

Mas se você quiser emoção de verdade, veja estes dois excertos de um mesmo concurso de calouros na Inglaterra:

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 04h52

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mulheres como frutas

Seguindo a linha do post anterior, não há maior contraste entre a felicidade subjetiva de Audrey Hepburn, em "My Fair Lady", e o aspecto fungível, e portanto limitado dramaticamente, de Claudia Cardinale no "Leopardo" de Visconti. Dois bailes, duas valsas, duas concepções opostas da beleza feminina. Uma latina, outra liberal. 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h46

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feminismo em hollywood?

Que diferença enorme, na verdade, entre essa visão da “muher-fruta”, assombrando Pavese com seus prazeres prometidos, e a visão de uma mulher pronta, enquanto sujeito, à realização de seu próprio prazer! Há machismo nas duas visões, certamente. Mas não é nenhuma mulher-objeto, embora seja ingênua e sonhadora ao extremo, a Audrey Hepburn que emerge feliz do baile, neste trecho do youtube.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h31

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dois poemas sobre o verão

Não sei se Cesare Pavese, no poema abaixo (escrito em 1934), estava influenciado pelo poema de Rilke (ver penúltimo post), escrito uns trinta anos antes. A segunda estrofe de Pavese sugere que sim. A ideia é de “maturação”, de “plenitude”: o fim do verão deposita sobre os frutos todo o peso de uma doçura a ser consumida.

 

No poema de Rilke o interlocutor é Deus. Este não existe mais, nem no plano poético, para Pavese. O amadurecimento das frutas é um acontecimento natural, não depende da concessão divina. Mas Rilke não está escrevendo apenas um poema religioso. Para ele, o fim do verão simboliza o fato de que Deus se retira do mundo.

 

“Quem não construiu sua casa, não a construirá mais”, diz Rilke. Para Pavese, ao contrário, a casa continua a mesma, firme e forte: “distante, nas ruas,/ cada casa matura ao mormaço do céu”.

 

O diálogo de Rilke com Deus é aristocrático; passado o verão, resta ao poeta ficar sozinho, a esmo, escrevendo e lendo.

 

Pavese não dialoga com Deus; procura uma linguagem comum aos homens, ao sexo masculino, vendo na maturação dos frutos uma metáfora das mulheres que passam pela rua, prontas para ser colhidas.

 

A linguagem mais despojada, “demótica”, de Pavese traz paradoxalmente uma conotação mais individualista e pessoal. É o sujeito do poema que sofre de uma frustração subjetiva: malditas mulheres, que se comunicam carnalmente com o verão, enquanto eu só tenho, por vingança, o tabaco e a grapa como mecanismos de desfrute.

 

De um ponto de vista muito mais aristocrático, Rilke é menos subjetivo. Sabe que, individualmente, seu destino é tão desgraçado como o de Pavese: a solidão, a falta de amor conjugal (nenhuma casa será construída, por exemplo). Sua linguagem abole, entretanto, o desejo óbvio da mulher, fruta a ser colhida. Elas existem: mas o tempo de colhê-las já passou, obedece a uma lógica religiosa e cósmica diante da qual o poeta se inclina.

 

No caso de Pavese, essa lógica não existe, e o inconformismo do poeta surge com mais clareza, e até com certo ar de vingança. Enquanto as mulheres comungam com o sol, o poeta encontra compensação no que a grapa e o tabaco lhe oferecem.

 

Pavese é mais realista, mais autobiográfico, mais sincero. Rilke é mais impessoal, mais trapaceiro –e mais poeta também.  

frutos maduros: pintura de Aldo Bonadei, na dan galeria

Escrito por Marcelo Coelho às 02h35

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mais um poema de verão

Mais um poema sobre o verão, ou melhor sobre o fim (espero) do verão. É de Cesare Pavese, cujo principal livro de poemas, “Trabalhar Cansa”, foi traduzido agora no Brasil, tendo sido objeto de comentários anteriores aqui no blog.

 

GRAPA EM SETEMBRO

 

As manhãs se consomem desertas e claras

sobre as margens do rio que na aurora se encobre

e ensombrece seu verde à espera do sol.

O tabaco que vendem na última casa

ainda úmida, à beira dos prados, tem cor

quase negra e um sabor suculento: vapora azulado.

E além disso há uma grapa tão clara quanto água.

 

É chegado o momento em que tudo se firma

e matura. Distantes as plantas descansam

e já estão mais escuras. Escondem os frutos

que a um tranco cairiam. As nuvens esparsas

trazem polpas maduras. Distantes, nas ruas,

cada casa matura ao mormaço do céu.

 

A esta hora só passam mulheres. Mulheres não fumam

e não bebem, só sabem ficar sob o sol,

recebendo-o tépido, em cima, à maneira das frutas.

O ar cru, de neblina, é bebido a goladas

como a grapa, e de tudo se exala um sabor.

Até a água do rio engoliu as ribeiras

e as macera ao fundo, no céu. As estradas

são iguais às mulheres, maturam paradas.

 

Esta é a hora em que todos deviam parar

nas estradas e ver como tudo matura.

Vem até uma aragem que não move as nuvens,

mas que chega a agitar a fumaça azulada

sem romper seus anéis: sabor novo que passa.

E o tabaco se embebe de grapa. Portanto não só

as mulheres terão o prazer da manhã.

 

[sobre o último verso: em italiano, “non saronno le sole a godere il mattino”: “não serão as únicas a desfrutar da manhã”.]

Escrito por Marcelo Coelho às 02h11

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um poema de Rilke

Com esse calor todo, vale invocar o poema intitulado "Um Dia de Outono", de UOL Busca Rainer-Maria Rilke, que depois de algumas tentativas antigas e frustrados acho que traduzi decentemente, ou pelo menos com rimas e versos de sílabas iguais (dez no original, doze aqui):

É tempo, Senhor. Foi vasto e forte o verão.

Nos relógios de sol derrama a tua sombra

E desprende à larga os ventos sobre o chão.

 

Ordena a plenitude às frutas derradeiras,

Dois dias de calor lhes dá ainda, e deita

Teu derradeiro mel no sumo das videiras.

 

Quem hoje não tem casa, nunca mais terá.

Quem hoje ficou só, irá assim viver,

Nas noites sem dormir, a ler, a escrever

Longas cartas, e a pisar, de cá para lá,

No parque, as folhas que acabam de morrer.

Vai a vaidade de reproduzir em alemão, para quem quiser conferir:

Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr gross./Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,/ Und auf die Fluren lass die Winde los.

 Befiehl den letzten Früchten voll zu sein;/Gib ihnen noch zwei südlichere Tage,/Dränge sie zur Vollendung hin und jage/ Die letzte Süsse in den scwheren Wein.

Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr./Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,/Wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben,/Und wird in den Alleen hin und her/ Unruhig wandern, wenn die Blättern treiben.

No youtube, eis uma declamação que tende para o coloquial, para o íntimo --mas afinal o poeta se dirige a Deus...

Escrito por Marcelo Coelho às 01h45

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estação ciência: uma tristeza

 
 

estação ciência: uma tristeza

Meus filhos (5 e 7 anos) até que gostaram de conhecer a “Estação Ciência”, domingo passado. Fica na rua Guaicurus, na Lapa, num ponto da cidade em que subitamente o mundo imediato dos shoppings (Bourbon, West Plaza) cede lugar a edificações fabris do passado paulistano, meio abandonadas, como no Brás.

 

O lugar é uma antiga estação de trens (alguns trilhos sobrevivem), transformada em museu “interativo” de ciências, administrado pela USP. As crianças dispõem de espaço para correr e xeretar, podendo manipular algumas geringonças: uma manivela que, girada bem depressa, produz luz elétrica; um sistema de roldanas e polias (puxando-me da memória as estéreis aulas de Física do colegial) se mostra capaz de ajudar a criança de cinco anos a suspender um assento no qual seu pai se equilibra.

 

O lugar fica bem movimentado no domingo. Há um mini-planetário e um pequeno “simulador de terremoto”. Você entra numa saleta cujo chão obedece a um dispositivo de vibração. Menos do que uma montanha-russa, a experiência é de ficar em cima de um grande besouro zumbidor.

 

Os monitores são muitos e simpáticos, mas agem só quando solicitados. As máquinas, quebra-cabeças matemáticos, explicações de topologia e estatística, estão jogadas umas ao lado das outras, com cartazes que explicam pouquíssimo.

 

A impressão,acima de tudo, é de uma tremenda falta de recursos. Parece que juntaram material didático obsoleto dos laboratórios da USP. Tudo está descascado, velho. Há coisas que não funcionam, há peças que faltam, há maquetes amadoras de vulcões e sistemas hidrográficos que poderiam ter sido feitas para uma feira de ciências de um colégio em 1960. O mini-planetário parece necessitar de urgente troca das lentes do projetor.

 

A USP, o governo, se quiserem de fato motivar o espírito científico e a curiosidade da população, deveriam dar uma boa injeção de dinheiro na “Estação Ciência”. Poderia haver patrocínio da indústria elétrica, das empresas de aviação, das farmacêuticas...

 

Saí do lugar com a experiência de que, a cada mistério científico apresentado na exposição, o mais fácil é ficar sem entender nada de uma vez. Teoria dos nós: parece que é uma coisa interessante em matemática. As cordinhas deixadas em cima de um bancada não significavam coisa nenhuma.

 

Senti-me num país atrasado, provinciano, descuidado; bem diferente daquele da Pinacoteca, por exemplo, que estamos acostumados a frequentar. 

 

imagem do site www.brinquedosraros.com.br

Escrito por Marcelo Coelho às 15h16

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os mares do sul (2)

 
 

os mares do sul (2)

Em “Os Mares do Sul” (ver post abaixo), primeiro poema de seu livro “Trabalhar Cansa”, Cesare Pavese se afasta decididamente do que era a melhor poesia italiana do seu tempo, a de Ungaretti e Montale, identificada com a escola do “hermetismo”. Em vez de privilegiar imagens concentradas em poemas curtos, Pavese escreve textos narrativos, longos, que aliás vão se integrando no conjunto do livro, como se este fosse uma espécie de “romance” –mas o termo é exagerado: o que retorna, de forma não muito explícita, são lugares, personagens, situações, sem que cada poema perca sua independência. O tipo de poema de Pavese me lembra um bocado UOL Busca Robert Frost, americano que mais ou menos nessa época também se diferenciava da concisão imagística de um UOL Busca William Carlos Williams e à intelectualidade assombrosa de UOL Busca Wallace Stevens.

 

Lendo “Os Mares do Sul”, identifico um jogo de dualidades que vai se adensando, se acumulando, a cada estrofe. Há o narrador e seu primo. Há a paisagem rural e a visão distante de Turim. Há a terra natal e os países exóticos que o primo visitou. Há os cavalos e os automóveis. E os dois personagens convergem num mesmo retorno ao lugarejo no campo. O narrador, que mora em Turim, visita a terra dos familiares; é lá que encontra o primo, também habituado ao estrangeiro. Ambos, de certa forma, aceitam a imutabilidade da região rural, e “engolem”, digamos, uma espécie de frustração. Ambos sabem que “só se vive fora de casa”.

 

Ao mesmo tempo, viver fora de casa traz a ameaça, o presságio da morte. Os parentes acreditam que o primo tinha morrido. Quando ele volta, apostam que morrerá em breve depois de torrar todo o dinheiro acumulado. Abrir uma oficina de carros, uma garage, parece ser a maneira que ele encontra de prometer a todos os aldeões uma saída, uma fuga dali. Mas a confiança numa modernização do lugar, que poderia ser tratada de forma cômica, no estilo Policarpo Quaresma, ou de “Pantaleão e as Visitadoras”, de Vargas Llosa (para citar dois exemplos a esmo que me ocorrem), ganha aqui um tom completamente diverso: a esperança não é frustrada depois de peripécias engraçadas, mas está morta de antemão. Para os afortunados, diz o final do poema, “quando o sol vinha a manhã já era velha para eles”.

 

“Cheguei tarde demais a um mundo já velho”, dizia o romântico UOL Busca Alfred de Musset num poema célebre. A melancolia que cerca a imagem das manhãs radiosas nos trópicos, a evocação feita pelo narrador de suas brincadeiras de pirata quando pequeno (num trecho que não copiei) parecem confirmar essa tese, e anular até mesmo a exaltação “in extremis” de um poeta posterior, ninguém menos que o Rimbaud do “Bateau Ivre”. O andamento inteiro do poema é bem fúnebre, e a frase dos familiares sobre o primo viajante (“todos concluíram que, se ainda não morrera, morreria”) traz essa positividade terra-a-terra contra a qual parece ser inútil reagir. O próprio título do livro, “Trabalhar cansa”, tem essa mesma obviedade de constatação.

 

Sempre pensei, antes de ler o livro, que o título mimetizava a voz de um trabalhador agrícola: só ele sabe o quanto cansa trabalhar. Na verdade, há outro sentido, ou melhor, um outro enunciador da frase: é o poeta, que não trabalha, não se “mexe”, porque isso cansa. Os versos se alinham penosamente, vagarosamente, como os sulcos de uma terra arada. Mas a colheita não virá.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h29

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xenofobia al sugo

Quando se fala em racismo e xenofobia, o que mais se evoca são casos de preconceito contra pessoas; mas existe agora o preconceito –mais que isso, a perseguição—contra comida também.

 

A xenofobia cresce muito na Itália de Berlusconi; o culto à comida nacional faz evidentemente parte da vida italiana. Junte uma coisa e outra, e uma mistura indigesta pode aparecer.

 

É o que acontece em Lucca, antiga cidade toscana que foi o berço de Giacomo Puccini. Resolveram proibir, no centro histórico da cidade, a abertura de lachonetes e restaurantes que ofereçam “comida estrangeira”. Só comida regional. Até pratos sicilianos são considerados “étnicos”. Sobrevivem, porque anteriores à proibição, quatro botequins vendendo kebab (o nosso “churrasco grego”). Hamburger, nem pensar.

 

Claro que em qualquer lugar histórico fazem sentido normas regulando os cartazes de Mc Donald’s e coisas do gênero. Mas proibir a comida?! Há razões de protecionismo econômico também: um quibe ou coisa parecida sai baratíssimo.

No “International Herald Tribune” de hoje, o secretário de Comércio de Lucca, Filippo Candelise, fala em “identidade cultural”. “Um turista americano quer encontrar aqui uma ‘osteria’ típica, não um restaurante chinês”.

 

Mas o macarrão não veio da China, segundo uma teoria bastante conhecida? Para não ir tão longe, o que seria da comida italiana sem a batata e o tomate, produtos da América pré-colombiana? Lucca é a única cidade toscana com prefeitura tradicionalmente direitista, diz o jornal. A direita nunca decepciona, essa que é a verdade.

 

cena de tradicional ópera italiana composta por um nativo de Lucca.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h19

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pechinchas em espanhol

 
 

pechinchas em espanhol

Dura até amanhã, dia 14, a feira de livros da Livraria Azteca, representante da editora mexicana Fondo de Cultura Económica. Os descontos são de no mínimo 50%. Fica ao lado da PUC, na rua Bartira. Mais informações neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h54

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"os mares do sul"

 
 

"os mares do sul"

Eis o primeiro poema de Trabalhar cansa, livro publicado por Cesare Pavese em

1943, reunindo poemas escritos durante a década de 1930. Está sendo lançado em português numa bela edição da coleção “Ás de Colete” (ed. Cosacnaify), com ótimos prefácio e tradução de Maurício Santana Dias. Como é bastante longo, fiz uns cortes; comento depois.

 

OS MARES DO SUL

 

Caminhamos à tarde na encosta de um monte,

em silêncio. Na sombra do lento crepúsculo

o meu primo é um gigante vestido de branco,

que se move tranquilo, queimado no rosto,

taciturno. Calar é a virtude da gente.

Algum velho ancestral se sentiu com certeza bem só

--ave rara entre tolos ou pobre maluco—

para ensinar aos seus tanto silêncio.

 

Nesta noite meu primo falou. Perguntou-me

se eu iria com ele: do pico se vê

nessas noites serenas brilhar o farol

distante de Turim. “Tu, que vives em Turim...”,

disse ele, “...tens razão. A vida só é vivida

distante de sua casa: se aproveita e se goza

e aí, quando se volta, aos quarenta como eu,

está tudo renovado. [...]

 

Vinte anos [ele] circulou por esse mundo

Foi embora quando eu ainda menino, no colo das moças,

e o deram por morto. [...]

Num inverno chegou a meu pai, que já havia morrido,

um postal com um selo em cor verde, de barcos num porto

e desejos de boa vindima. Foi enorme o espanto,

e menino crescido explicou num rompante

que o cartão procedia de uma ilha chamada Tasmânia

rodeada de um mar todo azul, com crués tubarões,

no Pacífico, ao sul da Austrália. E adiantou que decerto

seu primo pescava pérolas. E arrancou o selo.

Todos deram o seu parecer, concluindo

que, se ainda não morrera, morreria.

Muito tempo passou e esqueceram-no todos.

 

[...]

A cidade ensinou-me infinitos temores:

multidões, uma rua me sobressaltaram,

uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.

Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira

dos milhares de postes nas grandes calçadas.

 

O meu primo voltou, terminada a guerra,

um gigante entre poucos. E tinha dinheiro.

Os parentes diziam baixinho: “Em um ano, se tanto,

já torrou tudo e retorna as viagens.

É assim que morrem os desesperados.”

Ele tem uma cara obstinada. Comprou um terreno

na aldeia e ergueu uma sólida garagem

que ostentava, brilhante, uma bomba para a gasolina

e na ponte, bem grande, na curva, um cartaz chamativo.

[...] saía sozinho. Vestido de branco,

com as mãos para trás e queimado no rosto,

de manhã percorria as tais feiras com ar displicente

e comprava cavalos. Depois me explicou,

falidos os projetos, que o seu plano

consistia em varrer deste vale animais de transporte

e fazer com que a gente comprasse motores.

“Mas a besta”, dizia, “a mais besta de todas

fui eu mesmo a pensar. Devia saber

que aqui bois e pessoas são todos iguais”.

 

[...]

Um perfume de terra e de vento nos cobre no escuro,

umas luzes ao longe: currais, automóveis

cujo som mal se escuta; e eu penso na força

que me trouxe este homem, arrancando-o ao mar,

às distâncias da terra, ao silêncio que dura.

O meu primo não fala de viagens já feitas.

Diz a seco que esteve em tal ponto e tal outro

e volta a seus motores. [...]

 

[...] Mas, quando lhe digo

que ele é um homem de sorte, que viu as auroras

sobre as ilhas mais belas que há na Terra,

ele ri na lembrança e responde que quando

o sol vinha a manhã já era velha para eles.

 

 

Só uma observação, aqui. Há um cochilo de tradução no último verso, porque o leitor não sabe quem é esse “eles”. No original, o pronome se refere “aos afortunados”, no plural. Para os afortunados, que viram as auroras, é que quando o sol vinha a manhã já lhes parecia velha. Na tradução sumiu o plural. Em vez de dizer que o primo estava “entre os afortunados”, preferiu-se dizer que ele era “um homem de sorte”. Mas não se estragou em nada o andamento sereno, doloroso e simples de todo esse belo poema.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h32

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download grátis

 
 

download grátis

Comemorando os 80 anos do maestro Bernard Haitink, três sinfonias regidas por ele (a de Bizet, a "Eroica" de Beethoven e a "Primavera" de Schumann) podem ser baixadas de graça neste site da Radio Nederlands

Escrito por Marcelo Coelho às 23h57

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imagens de Obama

 
 

imagens de Obama

Na linha das pinturas e cartazes populares desta seção do blog, pego do blog de Andrew Sullivan uma pequena série de retratos realmente ruins de Barack Obama:

 

Há maneiras de ser ruim em todos os estilos... mas gosto da gravata desta última pintura. Seria curioso saber a nacionalidade, a raça e o sexo de cada pintor...

Escrito por Marcelo Coelho às 00h53

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chefs e designers contra a pobreza

Que tal algumas propostas do Bem, de vez em quando? Com tanta gente tirando o revólver cada vez que se fala em “politicamente correto”, acho interessante distinguir entre a caricatura inquisitorial do “politicamente correto” (com suas atenções bobas a questões de nomenclatura e vocabulário), de um lado, e, de outro, coisas que são políticas e são corretas, ao menos no que diz respeito a melhorar um pouquinho as coisas para as populações desgraçadas do planeta. Claro que tudo se presta à gozação ou à ironia. Mas não sei o que as populações desgraçadas teriam a criticar em coisas como estas.

 

Uma eu vi no site de arquitetura e design “dezeen”. Dada a absoluta inflação de design chique, bizarro e por vezes inutilizável para os super-ricos, um designer chamado   Doung Anwar Jahangeer ganhou prêmio numa feira na Cidade do Cabo com uma proposta, não digo confortável, mas prática, para camelôs, vendedores de cocada e—quem sabe—os perigosíssimos traficantes de DVDs piratas, que tanto dinheiro roubam da Fox, da Disney e dos criadores de videogames.

 

 

O dispositivo é dobrável, permitindo seu rápido deslocamento em caso de chuva ou de qualquer outra perturbação na atividade do pequeno comerciante.

 

Há, depois, os chefes de cozinha. Já que empregam tanta criatividade no uso (moderado) de trufas brancas, pó de ouro e caviar beluga, a ONU faz uma convocatória a todos os mestres-cucas da América Latina e do Caribe, para receitas que empreguem ingredientes ao alcance das famílias miseráveis do continente. O concurso faz parte do projeto “chefs contra a fome”, que já publicou um livro com receitas de batata. Este ano é o do feijão.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h20

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aborto e excomunhão

O caso do arcebispo que excomungou a mãe de uma menina estuprada, grávida de gêmeos, e os médicos que fizeram o aborto, é um exemplo de dureza dogmática que comento um pouco no artigo desta quarta-feira. O interessante, enquanto isso, é ler a nota da CNBB sobre o episódio. Aqui vai.

 

A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, reunida em Roma nestes dias, acompanha perplexa, como toda a sociedade brasileira, a notícia da menina de nove anos que, em Pernambuco, há três anos vinha sofrendo violência sexual por parte de seu padrasto, tendo sido por ele estuprada, do que resultou uma gravidez de gêmeos. Repudiamos veementemente este ato insano e defendemos a rigorosa apuração dos fatos, e que o culpado seja devidamente punido, de acordo com a Justiça.

Lamentamos que este não seja um caso isolado. Preocupa-nos o crescente número de atentados à vida de crianças, vítimas de abuso sexual. Neste contexto, a Igreja se faz solidária com esta e com todas as crianças vítimas de tamanha brutalidade, bem como com suas famílias.

A Igreja, em fidelidade ao Evangelho, se coloca sempre a favor da vida, numa condenação inequívoca de toda violência que fere a dignidade da pessoa humana.

Os bispos do Regional Nordeste 2 da CNBB acabam de se manifestar sobre esse doloroso acontecimento. Assumimos seu pronunciamento e com eles reafirmamos: "diante da complexidade do caso, lamentamos que não tenha sido enfrentado com a serenidade, tranquilidade e o tempo necessário que a situação exigia. Além disso, não concordamos com o desfecho final de eliminar a vida de seres humanos indefesos.

 

É claro que a CNBB não aprova o aborto. Mas há uma diferença entre tratar o caso com um mínimo de humanidade, como faz a CNBB, e partir para a condenação automática, como fez o arcebispo de Olinda e Recife.

Muita gente vê o conservadorismo de Ratzinger e João Paulo 2º. como uma coisa natural. “Ah, o que é que você queria? O papa está aí para defender os dogmas da Igreja...”

Não só isso, não o tempo todo, e não algumas coisas em detrimento de outras. A campanha contra a camisinha parece ser mais importante para a Igreja do que a campanha contra o abuso do álcool, por exemplo. Se o Vaticano parece tantas vezes obcecado com o assunto do sexo, isso me parece muito mais um problema do Vaticano do que uma exigência do dogma e do ensinamento evangélico, que teriam inúmeros outros temas a iluminar ou obscurecer.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h43

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Mariannita Luzzati

 
 

Mariannita Luzzati

Três imagens de quadros de Mariannita Luzzati,  cuja exposição na Galeria Baró Cruz estará aberta ao público de 11 de março a 11 de abril.

São pinturas derivadas de fotografias tiradas no Porto de Vitória, onde navios cargueiros esperam para embarcar matérias-primas de Minas Gerais. A galeria fica na rua Clodomiro Amazonas, 528, Itaim Bibi. Ficou legal o choque do azul depois da ferrugem das duas primeiras imagens.

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h28

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um poeta, pais e filhos

 
 

um poeta, pais e filhos

Algumas frases do poeta UOL Busca Cesare Pavese, cujo diário “O ofício de viver” tenho lido nestes dias.

 

Quando um menino de três anos pensa, preocupado, enquanto o vestem, em como é que ele, que não sabe nada, há de fazer para se vestir depois de crescido, será que então já está claro todo o seu destino?

(16 de novembro de 1937)

 

A única alegria no mundo é a de começar. É bom viver porque viver é começar, sempre, a cada instante. Quando falta esse sentido –prisão, doença, costume, embotamento--, a gente gostaria de morrer.

(23 de novembro de 1937)

 

Os enganos são sempre iniciais.

(8 de janeiro de 1937)

 

Como entender essas três frases em conjunto? Parecem contraditórias.

 

Também eu, quando era criança, aterrorizava-me diante da ideia de que meus pais haveriam de morrer um dia. Lembro-me de ter chorado muito, pensando nisso, exatamente no momento em que minha mãe tirava minha roupa e punha meu pijama.

 

Provavelmente, o medo em curso não era literal: menos do que me aterrorizar com meu desamparo e minha orfandade futura, eu chorava diante daquela orfandade cotidiana, que atinge toda criança: a obrigação de ir dormir sozinho na própria cama, enquanto seus pais dormem juntos no quarto ao lado.

 

Mas também existia o simples medo de que meus pais morressem. Acho que chorei, naquele instante, tudo o que tinha a chorar nessa ocasião. Quando veio a ocasião real para chorar, meus olhos estavam secos. Desse medo pelo menos –o da orfandade—eu estava curado.

 

Será que existe, na morte dos pais, uma “alegria de começar”, como diz Pavese? Será que só quando estamos sozinhos no mundo essa “alegria de começar” ganha um significado mais completo? É, sobretudo, a solidão de começar.

 

Para mim, tudo coincidiu com a experiência de ter filhos: pude perceber, neles e em mim, o significado, alegre ou trágico, da palavra “começar”. Um poeta como Pavese entende, a cada luz da manhã, a ambígua mensagem da novidade e da repetição.

 

Mas um pai, ao ver as reações de um filho pequeno, sabe que nesse “começar” existe algo além de uma ambiguidade verbal. Nâo se trata apenas da oposição entre novidade e repetição, mas de algo que o empolga existencialmente: continuidade e anulamento, conquista e perda, se confundem nessa experiência.

 

De modo mais geral, entre o sujeito e o objeto da experiência, entre o “self” e a “vida”, uma nova relação se estabeleceu. Não é de exterioridade nem de intimidade: pai e filho são íntimos e estranhos ao mesmo tempo. E, de modo diferente do que ocorre em qualquer outra relação de amor humano, intimidade e estranheza se completam. Um homem e uma mulher podem sofrer desse jogo entre distância e proximidade. Um pai e um filho só ganham nesse jogo.

 

Volto à primeira frase de Pavese. O menino não sabe se vestir; como fará para se vestir depois de crescido? Eis a pergunta do poeta. Será que já não está claro todo o seu destino a partir dessa experiência?

Não sei o que Pavese queria dizer. Sentia, sem dúvida, um desamparo. Mas será justo chamar de “destino” qualquer experiência de desamparo? Será justo considerar fatalidade o que não passa de uma coincidência mais ou menos infeliz de circunstâncias abatidas sobre cada um de nós? Talvez nessa confusão –achar destino o que é acidente—esteja a raiz de toda infantilidade.

 

Meu filho de cinco anos aprendeu recentemente uma frase que agora emprega a torto e a direito: “Tudo acontece comigo!!” O sorvete cai na toalha, o controle-remoto pifa na hora do filme, ninguém acha a sua sandália na hora de ir para a escolinha de ginástica: “tudo acontece comigo!”

 

O sentimento trágico da existência tem algo de infantil, convenhamos. Depende de uma boa dose de credulidade. Vista sob o prisma da infelicidade e não sob o prisma da felicidade. Mas, nessa ordem de crença, tudo dá no mesmo. Qualquer religião oferece ao mesmo tempo sua felicidade e sua infelicidade. Melhor (?) manter-se adulto nesse campo.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h27

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revisão da ditadura?

         Eis então que o historiador Marco Antônio Villa, a propósito de uma pisada de bola desta “Folha”, dedica-se a fazer o que o malfadado editorial da “ditabranda” não tinha o propósito de tentar: uma “revisão” da ditadura!

         Embora seja patente, pelos arquivos, que o jornal demorou muito para se colocar em franca oposição ao regime, é também patente que a “Folha” teve papel fundamental na luta pela democracia.

         Foi a primeira a abrigar textos de Fernando Henrique Cardoso, numa época em que o hoje “direitista” era considerado subversivo pelos militares.

         Foi o jornal que lutou pelas eleições diretas, até um ponto de maníaca exaustão, quando só o PT fazia o mesmo.

         Foi o jornal que gritou pelo impeachment de Collor, num momento em que eu, se é o caso de fazer menção a isso, achava arriscado e maluco qualquer propósito de derrubar um governante legitimamente eleito.

         Não sei qual a intenção do historiador Marco Antonio Villa ao publicar, na seção “Tendências/Debates” da Folha, sua “revisão” do período militar.

         Sei que não é essa a intenção da “Folha”. Mas não falo em nome do jornal. Digo, em meu nome, que nada altero do que escrevi em 1994, por ocasião dos trinta anos do golpe.

         Os militares podem ter feito grandes coisas pela modernização do país, mas “aquilo foi uma porcaria sangrenta”, nada mais que isso. Escrevi isso em 1994, e ninguém na “Folha”, que eu saiba, discordou dessa opinião.

         Contudo, Marco Antônio Villa diz que, “enquanto a ditadura argentina fechou cursos universitários, no Brasil ocorreu justamente o contrário”. É ignorar as pressões da demografia, e ver em Jarbas Passarinho um iluminador da juventude –algo que nem mesmo o “direitista” Fernando Henrique, cassado pelo regime, estaria disposto a conceder.

         Marco Antônio Villa elogia a criação da Funarte, em 1975. Diz que a imprensa alternativa circulava no Brasil, e que nos regimes de Pinochet e Videla não há notícia disso. Que delícia de ditadura!

         O historiador da Universidade de São Carlos terá ocasião de prosseguir em suas ponderações exatas e fatuais. Mas há uma diferença entre ressaltar fatos isolados e identificar o sentido de um processo histórico.

         A ditadura foi obviamente um retrocesso histórico para o Brasil. Nosso relógio –só começou a se acertar com o mundo vários anos depois do governo Figueiredo. Se quisermos ser “de direita”, podemos mesmo dizer que a ditadura atrasou a própria esquerda brasileira, que se tocou devagar demais da inatualidade de um modelo estatista, “geiseliano”, para o desenvolvimento do país.

         Se a ditadura brasileira não foi tão violenta e obscurantista quanto as que se impuseram no Chile e na Argentina, isto não é mérito de pessoas como Emílio Médici, Armando Falcão, Gama e Silva, Delfim Netto, Erasmo Dias, Sérgio Paranhos Fleury, Didi Pedalada, Marco Maciel, José Sarney, Cláudio Lembo, Fernando Collor de Mello, Edison Lobão e quem mais quisermos recordar.

         Imagino dois fatores capazes de ter “diminuído” o grau repressivo da ditadura brasileira em comparação com outras ditaduras do Cone Sul. Ponho o “diminuído” entre aspas, porque não me disponho a medir a voltagem dos choques elétricos sofridos pelas vítimas da repressão.

         Acho que o Brasil tende a ser uma sociedade mais dinâmica, e portanto mais desorganizada, do que o Chile ou o Uruguai. Nesse sentido, coisas mais contraditórias ocorrem por aqui do que nos países vizinhos. A própria cultura política brasileira, nascendo de uma urbanização mais tumultuada e recente do que a de Buenos Aires, Santiago ou Montevidéu, tende a ser menos partidária, o que dificultou tanto as tarefas da esquerda revolucionária quanto as da direita repressiva.

         Há, em suma, diferenças entre Brasil, Argentina, Chile e Uruguai. Entender essas diferenças é uma coisa. Usá-las para relativizar a ditadura brasileira é outra. Marco Antonio Villa, como historiador, errou, porque procurou “desentender” o contexto histórico que queria comentar. 

         OK, um historiador pode ser neutro, pode ser parcial, pode ser isento, pode ser errado. Mas não precisa ser o advogado de uma ditadura que tem seus defensores –Jarbas Passarinho, por exemplo—que dão conta do recado sem aparentar isenção universitária.

         Enquanto isso, lulistas e esquerdistas de diversos matizes engolem felizes a absolvição de Renan Calheiros. Sorriem diante de Fernando Collor, elevado à presidência da Comissão de Infra-Estrutura do Senado. Empapam-se, Lula e o PT, de uma realpolitik na qual Sarney é o menor dos males.

         Só me cabe perguntar, nessas circunstâncias: quem é que está fazendo a sua revisão histórica? Essa esquerda que segue de rastos o pragmatismo de seu líder, ou a “Folha”, que se mantém de pé, contra tantos indignados que se fazem de vítimas?

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h48

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patópolis (2)

Mais um trecho do livro que ando escrevendo.

 

Suponha-se que Pateta, Mickey, Patinhas, sejam na verdade simples seres humanos, sobre os quais o desenhista simplesmente carregou um pouco suas opiniões pessoais (tal banqueiro humano, conhecido pelo uso das polainas e do pince-nez, possui de fato algo de amarelado nos dentes, certa brancura de penas nas suíças, uma boca larga e quadrada como um bico de sapato velho, a voz rachada nos sobressaltos da fortuna, certo andar instável de pato rente ao chão). Nesse caso, como entender o fato de que, por vezes, nas histórias da Disney irrompam seres humanos reais, contracenando com aves e mamíferos?

         Verdade que costumam habitar a periferia de Patópolis. O eremita Urtigão, bacamarte em punho, barba branca de décadas, não corresponde a animal nenhum; o nariz arredondado não é, com toda certeza, bico nem focinho. O mesmo nariz está presente em Madame Min, que foi trazida de uma lenda puramente humana –Merlin, o jovem rei Arthur— para aliar-se a uma pata feiticeira na destruição da fortuna de Patinhas.

         Um terceiro personagem, bem mais raro, atende pelo nome de doutor Penaforte, sendo uma espécie de neurocientista, bigodes brancos debaixo do nariz normal, cabeça pigmeia e calva, empenhado em transformar Pateta num (será possível?) “novo homem”. Mede-lhe, inicialmente, o potencial craniano através de um dispositivo simples, no estilo de uma balança, de um termômetro: o resultado, próximo de zero, não o inibe. Logo veremos Pateta metido num terno azul bastante elegante, chapéu combinando, novas responsabilidades a seu encargo.

         Também o ginasiano terá o dia de vestir seu primeiro paletó, acompanhar o pai numa visita ao escritório no centro da cidade, cortar o cabelo no barbeiro que há décadas está a serviço dos mais velhos da família; um drinque, talvez, quando chega a “happy-hour”: ei-lo que já é um homenzinho.

         Quantos homenzinhos, de repente, ele não reconhece como seus iguais, transitando pela calçada, passos lépidos, felpas longínquas de preocupação e sonho, vistas do alto do Anhangabaú, da vidraça do prédio, das janelas do táxi.

Um congestionamento enorme se arma na hora em que pai e filho voltam para casa. Um motorista perde a paciência; sai do carro para ver o que acontece. Nessa hora a fila de carros avança um pouco; os que estão atrás do cidadão desesperado buzinam com insistência; sentindo-se culpado, o homem investe aos palavrões contra a platéia, como se fosse um calouro inconformado ao ser expulso do palco; chacrinhas irrompem suas buzinas em todos os tons; a tarde cai sobre Patópolis numa algazarra de honks, fuóóns, rrheeeus, kwaks, bonks, catzos, cacetas, orras e roares: não há dúvida, estamos em Patópolis; em Bedrock na melhor das hipóteses.

         Olho para o meu pai. Sentado, como eu, no banco de trás do táxi, ele ignora os fatos rotineiros. Seu olhar nada me diz. Ei-lo cercado de uma aura de silêncio, como todo pai. Patópolis grita em volta de mim. Impregna-me a certeza de que a cidade dos patos é mais inteligível do que esta que partilho com ele.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h17

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Mudanças na Folha (2)

O “Herald Tribune” é um jornal fininho, com quase nada de anúncios, letras pequenas e umas poucas fotos em preto-e-branco. Seu maior lance de marketing até hoje, acredito, está num dos primeiros filmes de Godard, em que a atriz Jean Seberg fazia o papel de uma jornaleira chique nas ruas de Paris.

Trata-se de uma versão globalizada do New York Times, útil para americanos que estejam viajando em qualquer parte do mundo. Está agora disponível para assinantes em São Paulo, que o recebem no mesmo dia da impressão.

Junto com o suplemento semanal de textos do “NYT” que vem encartado na “Folha” toda segunda-feira, o “Herald Tribune” vale por uma aula diária de jornalismo.

Pego um exemplo, publicado nos últimos dias. O tema não poderia ser mais chato: a queda na disponibilidade dos bancos para realizarem financiamentos em operações de exportação.

O hábito brasileiro seria jogar essa matéria para a seção de economia, acompanhando-a do máximo de gráficos explicativos que fosse possível. O texto repetiria os gráficos, esmiuçando detalhes numéricos: “em comparação com dezembro de 2008, a queda foi de 21,2%... em comparação com o mês passado, a queda foi de 13,4%”. Viria, em seguida, a opinião de algum especialista do ramo, afirmando menos o que há para fazer do que qual o seu prognóstico para a próxima “quadrissemana”.

O “International Herald Tribune” deu a notícia, com um mínimo de números, e centralizou a reportagem na história de um empresário qualquer, que fechara um negócio de exportação, e agora estava como louco em busca de financiamento para sua operação.

Observo, aliás, que eu não sabia que para exportar um produto você precisa de crédito: não é só mandar a mercadoria e esperar o dinheiro de volta? O jornal não explica como isso funciona.

Em todo caso, a moral dessa reportagem é muito simples. O leitor de um jornal não pode ser obrigado a ler números. Números, aliás, não foram feitos para serem lidos. O leitor precisa de histórias. Precisa de acontecimentos que tenham começo, meio e fim. Em qualquer área, da economia à cultura. Sem isso, não há reportagem: há relatório.

O problema é que, atualmente, governos e instituições produzem muito mais números do que faziam há vinte ou trinta anos. Nas áreas de segurança pública ou de educação, por exemplo, o Brasil tem muito mais estatísticas do que tinha antigamente.

Números ajudam um projeto como o da “Folha”, que quer menos opinião e mais objetividade na descrição dos fatos. Mas acho que o risco é tomar a mera divulgação de uma estatística como o “fato” a ser noticiado. Ao contrário, e nisso a língua inglesa tem uma sabedoria própria, o jornalismo não lida só com fatos: lida com acontecimentos, e produz histórias, “stories”, mais do que “reports”.

Aliás, confesso uma ignorância: como se diz “reportagem” em inglês? “Newsstory”? “Report”? “Feature”? Sei que, para um jornal ser lido, não importa se no papel ou no computador, ele tem de ser legível. Números não ajudam nesse caso.  

Escrito por Marcelo Coelho às 01h38

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a estreia de Tortelier e a TV Cultura

 
 

a estreia de Tortelier e a TV Cultura

Quase nunca vejo televisão, mas esta semana liguei um pouco a TV Cultura: todos os dias, aí pelas onze da noite, têm aparecido programas de música clássica, culminando nesta quinta-feira com a estreia de Yan-Paul Tortelier à frente da Osesp, substituindo John Neschling.

 

Estava curioso com a figura e o desempenho de Tortelier, e ele se revelou uma simpatia na entrevista que precedeu o concerto, levada num francês muito bom pela repórter da Cultura.

 

Mas a surpresa veio com a própria TV Cultura. Pouco antes do concerto da Osesp, peguei um rabicho de um programa que deve ter sido muito bom, com o amigo Manuel da Costa Pinto entrevistando ao mesmo tempo Nuno Ramos e Carlos Heitor Cony. Nuno Ramos, ao contrário do que se possa pensar de artistas plásticos (mas ele é também escritor) é uma pessoa de fala articuladíssima, ágil, aguda. Cony, como sempre, é um mestre da “sprezzatura”, aquela arte aristocrática de afetar certo desajambramento, certo descapricho, certa ausência de rigor quando se sabe que aparentar rigor e perfeição é coisa apenas para neófitos, garotos interessados em tirar nota 10 no boletim.

 

Além disso, a TV Cultura se mostra utilíssima, porque a cada intervalo aparece o professor Pasquale explicando, em pílulas, a nova reforma ortográfica. Imagino que até as TVs comerciais ganhariam em audiência se nos ajudassem nessa lição de casa.

 

Veio então Yan-Pascal Tortelier. A entrevistadora perguntou-lhe o quanto conhecia da música brasileira. Ele deu uma resposta muito gentil. “Essa é a pergunta que eu temia!” Acrescentou logo que ia reger, no concerto desta quinta, o Hino Nacional. E comentou, com um riso nada forçado: “estou começando do começo...!”  Interpretou o Hino Nacional com velocidade excessiva, e meteu mais ênfase nos metais do que precisava. Coitado do homem! Talvez lhe falte saber que, no Brasil, alguma “sprezzatura” em matérias pátrias nunca vai mal.

 

Tortelier teve depois a seu encargo duas obras que tinham ainda a cara do repertório de Neschling: as “Variações Enigma”, de Elgar, e uma sinfonia de Rachmaninov. Neschling sempre teve preferência pela música “pesada”: Richard Strauss, Mahler (inesquecível estreia da Osesp com a número 2 do compositor), Bruckner... Nada muito afim à cultura orquestral francesa. Mas talvez tenha sido sábio escolher Tortelier depois de Neschling: a Osesp já tinha familiaridade com o alemão, vai se acostumar um pouco mais com o francês agora.

 

Quanto às “Variações Enigma”, o que dizer? É um bom número para a orquestra mostrar suas possibilidades, é uma peça bonita, explora diferentes combinações de instrumentos. Acho (mas não sou especialista) que Tortelier apostou em tratá-la como um todo em vez de apresentar um série de miniaturas, fechadas em si mesmas, coisa que a meu ver faria mais sentido.

 

Elgar é sem dúvida um belo compositor, e se não me engano ouvi muito o seu concerto para violoncelo interpretado pelo pai do maestro, o violoncelista Pascal Tortelier. Um amigo que entende do assunto gostou mais da versão da Tortelier do que da versão clássica de Jacqueline du Pré para o mesmo concerto. Mas talvez a memória esteja me traindo.

 

Sei que o violoncelo solista da Osesp, nessas variações Enigma, deu uma vacilada... Em todo caso, fica para mim a ideia de uma certa desimportância nessa música de Elgar. O novo maestro da Osesp não me convenceu do contrário, mas isso não é defeito seu, nem, talvez, da orquestra.

 

Quanto à sinfonia no. 2 de Rachmaninov, não será insensato o melômano que fizer o sinal-da-cruz antes de imergir naquela escura e espessa geleia de sons tardo-românticos. Diga-se em favor de Tortelier que ele sobreviveu a um programa de estreia que tinha muito de inauspicioso quanto à recepção do público. Diga-se em favor da Osesp que a orquestra respondeu com admirável técnica, graça e precisão aos desafios de uma das mais pastosas sinfonias do repertório clássico. Saem todos contentes, portanto, dessa primeira aparição do maestro Tortelier –gestos objetivos, senso das proporções, maravilhoso entendimento do que há a ser destacado na maçaroca musical que lhe foi imposta— à frente da Osesp. Quanto a uma grande noitada artística, o público, acho, ainda terá de esperar um pouco.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h41

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um quinteto de sopros

 
 

um quinteto de sopros

Talvez não seja grande injustiça dizer que os instrumentos de sopro são mais “burros” que os instrumentos de cordas. Um violinista, olhos fechados, narinas sensíveis, pescoço inclinado sobre o instrumento, está dotado de uma espiritualidade maior do que o homem dedicado a soprar o seu trombone.

 

Sinto essa diferença ao ouvir um CD, aliás agradabilíssimo, do Quinteto de Sopros de Tóquio. Apresenta-se ali uma transcrição do quarteto op. 96 de Dvorak, o “Americano”. É uma música lindíssima, mas que transcrita para sopros revela muito de sua burrice oculta –nos compassos finais do primeiro movimento, por exemplo, conclusivos até dizer chega... e tudo o que pareça devaneio sonhador no segundo movimento, quando tocado nas cordas, parece bocejante e mecânico nos sopros.

 

O fato de que seja natural fazer um “legato” num instrumento de sopro, e de que seja muito resfolegante e física qualquer intenção de “staccato” nesse mesmo naipe, conduz sem dúvida a uma brutal redução do repertório disponível para uma formação como a do Quinteto de Tóquio. Ou tudo se torna fácil demais –derretido, melífluo—ou difícil demais –locomotiva cantando seu “chatanooga tchoo-tchoo”. Quando, para piorar as coisas, estamos diante de um compositor obviamente hábil e sedutor como Dvorak, o que pudesse haver de artístico na música é alegremente desperdiçado, como fumaças inodoras numa chaminé de rebocador.

 

Mas o CD continua com Darius Milhaud. Eis um compositor que sabe tirar todo o açúcar de Dvorak, eliminando da música qualquer lado confeiteiro austro-húngaro, para insistir numa dieta mediterrânea: tomates, azeite de oliva, alho e tomilho. Nos sopros, as dissonâncias de Milhaud se revestem de um suave acicate  em “La Cheminée du Roi Henri”, op. 205. Música matinal, boa para quem precisa levantar cedo e com boa disposição.  E não há preguiça que resista à última peça da suíte, um “madrigal” ao mesmo tempo acariciante e desperto, lindo em sua alternância entre instrumentos “quentes” e “frios” do quinteto.

 

Depois de Milhaud, não há como não perceber o penoso contraste oferecido pelas faixas seguintes do CD. Entra em cena Hindemith, certamente um compositor desinteressado da tarefa de seduzir os seus ouvintes. Não deixa de ser vivo e feliz, entretanto –diríamos jocoso—, o primeiro movimento de sua “Kleine Kammermusik”, op 24 no.2, que o Quinteto de Tóquio apresenta com meticulosa e alegre exatidão.

 

A música sempre tem um componente de superfluidade. O CD do Quinteto de Tóquio atende a essa vocação, sem fazer disso nenhum defeito.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h43

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Patópolis

 
 

Patópolis

Seguindo a "nova orientação" deste blog (ver post mais abaixo), transcrevo um trecho do livro que estou escrevendo. É sobre o Pato Donald, entre outras coisas.

Causa até embaraço, tal a obviedade de suas incoerências, o tema da alimentação em Patópolis. Emblema da mesa farta, o frango assado não inspira entre os patos nenhuma repugnância moral; ovos fritos se consomem no café-da-manhã do professor Ludovico, luminar do departamento ovíparo; bifes não acarretam desmaios na vaca Clarabela, sanduíches de patê podem ser encontrados na merenda de Gansolino; um ou outro porco ocasional não vê canibalismo nem genocídio nas salsichas.

         Num antigo desenho do Lobo Mau e dos Três Porquinhos, a feliz casa de tijolos em que os irmãos celebram a vitória traz nas paredes retratos dos familiares: “vovô” é representado por uma peça de presunto. Impossível, novamente, que Heitor, Cícero e Prático tivessem concordado em pendurar aquele quadro ali. O apetite do desenhista, que usou como pincel o seu próprio rabo de lobo, terá introduzido esse elemento na decoração, que evidentemente os três porquinhos não são capazes de ver. O quadro está ali “para nós”: mas que criança haverá de considerar, então, feliz o final daquele desenho? A menos que, sabendo do caminho que toma toda a carne, humana ou quase, os sábios porquinhos admitam, como final digno e memorável, sua transformação póstuma em mercadoria útil, coisa preferível à morte prematura e brutal entre os dentes de um lobo vulgar. Consagram o avô-presunto num cartaz, do mesmo modo que tantas famílias americanas, em casas de tijolinhos também, preservam sobre a lareira a foto do filho querido, imolado no Vietnã. Em tempos mais antigos, de resto, era comum tirar o retrato da criança já defunta, em seu caixãozinho cercado de rosas e coberto de um véu. É que, presumo, o hábito de tirar fotografias não estava tão plenamente consolidado, de modo que a menina nunca tivera ocasião de ser retratada em vida; fique da morta, portanto, uma única recordação.

         A imagem de um suíno sorridente enfeita o caminhão de uma distribuidora de pertences para feijoada. Vacas derramam olhares de ternura no rótulo de um leite que lhe roubaram. Espigas de milho festejam com sorrisos de todos os dentes sua transformação em pasta de pamonha. No frontispício das grades de Auschwitz, igual senso de humor inscreveu o lema em letras de ferro: “Arbeit macht frei”, “o trabalho liberta”. Na propaganda, todo massacre é feliz.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h40

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nos tempos do cinema mudo

 
 

nos tempos do cinema mudo

A referência feita a Kafka, no post abaixo, vem de um livro muito interessante que comprei há tempos: “O espectador noturno”. Trata-se de uma antologia de textos de grandes escritores das primeiras décadas do século 20, falando de como descobriram e experimentaram o prazer de ir ao cinema.  Foi organizada por Jerôme Prieur para uma editora francesa, em parceria com a revista “Cahiers du cinéma”. A tradução é um bocado precária, mas mesmo assim o livro merece ser lido.

 

Há surpresas encantadoras. Gorki descreve uma das primeiras sessões de cinema em Paris, em 1896:

 

vi o cinematógrafo de Lumière, as fotografias animadas... Quando as luzes se apagam, uma grande imagem cinza –a sombra de uma má gravura—aparece, de repente, na tela; é uma rua de Paris. Examinando-a, vêem-se automóveis, edifícios, pessoas, todos imóveis; pressupõe-se que esse espetáculo nada trará de novo: vista de Paris que já vimos várias vezes? E, de repente, um curioso clique parece se produzir na tela; a imagem nasce para a vida. Os automóveis, que estavam ao fundo da imagem, vêm direto sobre você. Em alguma parte longínqua pessoas aparecem, e, quanto mais se aproximam, mais crescem (...) E tudo isso é estranhamente silencioso. Tudo se desenvolve sem que ouçamos o ranger das rodas, o barulho dos passos ou qualquer palavra.

 

Em compensação, a plateia daqueles primeiros tempos era muito barulhenta.

 

UOL Busca Isroel Rabon conta as tentativas de um dono de cinema polonês para domesticar seu público de operários esquerdistas, que subitamente “toma o poder”: inspirados por um filme sobre a Revolução Francesa, os espectadores vaiam Luís 16, aplaudem Danton, não param quietos... e acabam subindo à sala de projeção, depois de o dono do cinema ter-se recusado a prosseguir a fita. Obrigam o projetista a continuar: “Mais depressa que isso, irmãozinho, vais tocar o teu realejo!”, ordena um proletário em fúria festiva. É que revoluções não se fazem apenas pelo pão, mas pelo circo também.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h41

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cinema em 3 D

 
 

cinema em 3 D

No artigo desta quarta-feira, comento “O Fundo do Mar”, documentário em 3-D que é um grande espetáculo visual. A íntegra para assinantes está neste link. Copio alguns trechos:

Dizem que as primeiras plateias de cinema, no final do século 19, assustavam-se com as imagens de uma locomotiva se aproximando da câmera. Tinham a impressão de que estavam na iminência de um atropelamento.

 

 

Não dá para ficar assustado com os tubarões, barracudas e polvos que aparecem na projeção em 3-D do documentário “O Fundo do Mar”, em cartaz no Espaço Unibanco Pompeia.

 

Mesmo assim, o espectador tem tudo para se sentir na pele daqueles seus tataravós estupefatos, nos primórdios do cinema mudo. A nova técnica de projeção, numa tela altíssima e bem curva, está quilômetros à frente daqueles velhos sistemas da década de 1950, com seus ridículos óculos de papelão e celofanes verdes e vermelhos.

 

Na entrada, você recebe uns óculos de “última geração”, escuríssimos, que não fariam má figura no rosto de um piloto de caça supersônico, bombardeando o Iraque na calada da noite.

(...)

 

O cinema, dizia Kafka, “força o olho a usar um uniforme, enquanto até agora ele estava nu”. O escritor reclamava, sem dúvida, daquela velocidade extrema, trêmula e entrecortada dos filmes mudos. “A rapidez dos movimentos e a sucessão precipitada das imagens condenam a uma visão superficial de maneira contínua. Não é o olhar que prende as imagens, são elas que prendem o olhar”.

 

(...)

 

À primeira vista, as imagens em 3-D tinham muito para desmentir as críticas de Kafka: tudo transcorre devagar, e não evoca aquela ideia de algo superficial e brilhante, que faz o cinema antigo parecer uma frágil lâmina de mercúrio derramada sobre a tela. O tempo de cada cena é calculado para permitir que penetremos, aos poucos, em cada uma das camadas dos cardumes e corais.

 

Logo aprendi, contudo, que era preciso me acostumar a uma nova forma de passividade, mais absoluta do que a mencionada por Kafka. Não adianta mover os olhos. É preciso esperar que o peixe venha até você. Tampouco a câmera se move muito: estamos em estado de pura recepção sensorial.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h55

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voltaire de souza (2)

outras crônicas publicadas nestes dias no "Agora":

SEM SATISFAÇÕES

 

 

 

A crise econômica preocupa em nível global.

Economistas. Autoridades. Reuniões.

E uma só pergunta.

--O que fazer?

O ministro das Finanças de um poderoso país desenvolvido ia se pronunciar.

Subiu com cuidado a escadinha até o lugar do microfone.

Suas mãos trêmulas agarraram o aparelho.

O inglês era enrolado. A voz também.

--Weconwnomy... gwroball cwrisis... wéw, wor...

Deu uma risidinha encabulada.

Olhou para o microfone. Lembrou-se da noitada anterior. Muito uísque e karaokê.

E começou a cantar. O bafo de bebida não danificou o microfone.

O sucesso dos Rolling Stones contaminou a plateia.

--No satisfááááction... no satisfáááction.

Garçons altamente qualificados trouxeram uísque, vodca e saquê.

A bebedeira varreu quaisquer preocupações com a saúde do sistema.

Em tempos de crise, ministros e economistas comportam-se como gênios.

Ficam sempre perto da garrafa.

 

TABIQUE PREMIADO

 

Barracos. Insegurança. Abandono. A periferia merece atenção.

O dr. Caio Graco era proprietário de uma grande fábrica de tintas.

A Fixicor S.A.

Vida regrada. Responsabilidade econômica. Compromisso com a comunidade.

Foi quando uma nova mulher apareceu em sua vida.

A encantadora morena Michelly morava num bairro carente.

--Você bem que poderia ajudar, Caio Graco.

O empresário logo teve a ideia.

--Vamos colocar mais cor no cinzento mundo periférico.

Tintas de parede foram doadas aos líderes da Vila Retirantes.

--É uma publicidade e tanta para nossa empresa.

A televisão foi convocada. O dr. Caio Graco sorria.

Atrás dele, uma parede de tabiques em péssimo estado.

--Daqui a pouco, tudo ganhará uma nova cor.

Não o avisaram de um conflito entre traficantes.

O tiro de escopeta atingiu o peito do industrial.

Tingindo de tons vermelhos o tabique premiado.

A realidade, muitas vezes, precisa de mais que uma demão de tinta.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h54

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voltaire de souza

Algumas crônicas recentes para o jornal "Agora":

 

BRUXAS À SOLTA

 

Incêndios. Mortes. Intoxicações.

As bruxas andam soltas nos navios de cruzeiro.

Um transatlântico cheio de turistas ficou à deriva no Uruguai.

Carlos Eduardo e Maria Laura iam fazer bodas de prata.

Tudo estava preparado para uma segunda lua-de-mel.

Um navio de luxo. Um cruzeiro pelo Caribe. Carlos Eduardo puxou o assunto.

--Não leve a mal, meu bem... mas, sabe aquela coisa da viagem?

--O que é que tem, Carlos Eduardo?

--Meio perigoso... esses navios, não sei não...

Maria Laura fechou o tempo. Mas não teve jeito.

O casal reservou um hotel no litoral paulista.

Malas prontas. O Astra 2007 pegou a avenida Cruzeiro do Sul.

Nuvens de chuva cobriam o céu paulistano.

--Sovina. Mão-de-vaca. É isso o que você é, Carlos Eduardo.

O marido ia responder. Trovões abafaram sua voz.

Veio a chuva. Inundação. O carro flutuou um pouco antes de desaparecer para sempre nas águas imundas do Tietê.

Provando que, quando a bruxa está solta, o melhor é reservar camarote de luxo.

 

 

 

ALEGORIA E APOTEOSE

 

O Carnaval já passou.

Mas ainda é grande a alegria entre os acadêmicos do Salgueiro.

Depois de longo inverno, a escola vermelha e branca sagrou-se campeã.

O coração de dona Amália se encheu de nostalgia.

--Meus tempos de mocinha... era outra coisa.

O samba exercia incontestáveis apelos naquela senhora de família rica e tradicional.

Veio o casamento. O adeus à folia.

O marido era um sólido agricultor paulista.

Veio a viuvez. A solidão.

Terras cobertas de cana se estendiam diante dos olhos da boa senhora.

Ela passava os dias na varanda da bela sede da Fazenda Bela Vista.

--Saudades do mar... saudades da minha juventude.

Foi de repente que ela viu, ao longe, imagens de um passado mágico.

Cantos. Tambores. A massa popular. Vestida de vermelho e branco.

--Será um desfile da Salgueiro?

Não era. A fazenda estava sendo invadida pelo MST. Carnaval vermelho.

O enfarte fulminou dona Amália. Sem lhe tirar o sorriso dos lábios.

A vida é um desfile. Alegorias e apoteoses têm hora certa para terminar.

 

 

NO RITMO DOS TEMPOS

 

Carnaval. Na festa, povo e elites se encontram.

Eliane era uma riquíssima fazendeira.

Saíra de Ribeirão Preto num jatinho particular.

Destino: a Marquês de Sapucaí.

Héberson era natural do Rio de Janeiro. Profissão: guardador de carros.

--Mas meu talento está no samba.

Seja como for, o rapaz barbarizava no asfalto.

Seu corpo atlético chamou a atenção de Eliane.

Os dois se uniram no ritmo do samba-enredo.

A milionária convidou Héberson para descansar.

Na suíte presidencial do Hotel Copacabana Towers.

Música suave. Um clima utópico no ar.

Eliane agarrou Héberson com fúrias canibais.

O vigoroso favelado se intimidou. Veio a disfunção erétil.

Ele fechou os olhos. O cansaço. Uma visão. Era o presidente Obama.

--Héberson... Héberson... Yes, we can... Sim, nós podemos...

O filho de Héberson e Eliane foi feito naquela mesma noite.

Sexo é como samba. Só depende de se acertar a sincronia.

 

 

REALISMO TOTAL

 

A tecnologia avança. É o progresso.

Em São Paulo, um novo cinema causa sensação.

Imagens em 3-D. Realismo total. Verônica estava animada.

--O fundo do mar, Reinaldo. Vamos ver?

O namorado tinha preguiça.

--É muito caro?

--Vale a pena, amor. Mais barato do que mergulhar em Fernando de Noronha.

Reinaldo tomou um banho.

O casal se dirigiu para as imediações da Barra Funda.

Tarde de calor na capital paulista.

Nuvens se acumulavam para o lado do poente.

Era grande o congestionamento. Verônica estava inquieta.

--O filme já deve estar começando. Vai, Reinaldo. Não bobeia.

A chuva começou a cair. Logo criando fortes correntezas.

O Escort de Reinaldo foi dos primeiros a flutuar.

Ao sair do veículo, o casal foi tragado pela enxurrada.

Verônica e Ronaldo foram ao fundo. Sem ver o filme em três dimensões.

A realidade, por vezes, não apresenta dimensão nenhuma.

 

 

 

AMOR DE VERÃO

 

 

Chuva. Calor. É o verão.

Para Donizete, isso era motivo de festa.

Minissaias. Blusinhas. Shorts bem cavados.

Do boteco, ele apreciava o movimento.

--Quando chove é melhor ainda.

Transparências. Roupas molhadas.

A bela morena Gilvanka estava sem guarda-chuva.

Uma marquise. Uma mesinha de metal. Um chope.

O sorriso de Gilvanka era como um raio de sol.

Mas de repente tudo ficou escuro no Bar e Lanches El Mukif.

Era um apagão. Donizete tocou de leve a nuca da morena.

O efeito foi de um relâmpago. Gilvanka e Donizete se abraçaram lentamente.

Foi como se o tempo tivesse parado. O casal não percebeu nada ao seu redor.

A enchente tornou inviável a permanência no local.

A correnteza separou Donizete de sua sereia urbana.

O corpo do rapaz só foi encontrado dois dias depois.

Ainda levando nos lábios o sorriso e a esperança de um beijo de amor.

O destino é como uma lâmpada. Na hora de energia mais intensa, é que vem o apagão.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h52

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Os brinquedos de Tiago

 
 

Os brinquedos de Tiago

Vai aqui, por exemplo, o começo de um conto infantil que pretendo publicar:

                            TIAGO E SEUS BRINQUEDOS

 

 

 

Os pais de Tiago eram bastante ricos, e viviam comprando presentes para ele. Não era só no aniversário. Um dia desses, eles tinham ido jantar no shopping. A loja de brinquedos ainda estava aberta.

--Mãe, eu quero entrar.

A mãe olhou para o pai. O pai olhou para o relógio. Passava das nove da noite. Não era tão tarde assim.

--Pode ir, filho.

Tiago saiu de lá com um quebra-cabeças do Homem-Aranha. Cento e cinquenta peças. A mãe do Tiago achou um pouco demais.

--Não é muito complicado? Ele tem só seis anos...

O pai explicou.

--Olha, o quebra-cabeças mais simples, mais sem graça... custava quase a mesma coisa. Melhor levar esse que é melhor.

Chegando em casa, Tiago quis abrir o presente.

A mãe do Tiago disse que não.

--Hora de dormir. Brinca amanhã, quando voltar da escola.

Tiago fez cara triste.

O pai do Tiago pensou um pouco.

--Ah, é injusto ele ganhar o brinquedo e não poder brincar pelo menos um pouquinho.

As peças se espalharam pelo chão do quarto de brinquedos.

--Me ajuda, papai.

O pai queria ver o noticiário das 10 na televisão.

O pé do Homem-Aranha não se encaixava em lugar nenhum.

--Será que ele está de cabeça para baixo?

As peças eram muito pequenas.

--Me ajuda, mamãe.

--Vem dormir, filho. Escovando o dentinho...

O quebra-cabeças ficou no chão.

No dia seguinte, a empregada guardou tudo. Quando Tiago voltou da escola, ele já não se lembrava direito do quebra-cabeças. Era hora de jogar videogame.

--Almoça primeiro, filho.

--Daqui a pouco, mamãe.

Era uma versão nova de um game do Indiana Jones. Tiago tentava passar de fase.

--Droga de videogame.

Indiana Jones ia e voltava para o mesmo lugar.

Tiago apertava os botões com raiva.

--Não vai. Não vai.

Jogou longe o controle do videogame. A raiva não passou. Ia socar a televisão quando o pai entrou em casa.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h36

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mudança de rumos

Peço desculpas por não escrever com mais frequência neste blog. Vejo que ele foi tomando uma dimensão própria, alheia às minhas pretensões de início. Pensava que um blog fosse apenas o espaço em que pudesse ir colocando, aos pedaços, os trechos do que escrevo e penso fora da coluna habitual na “Folha”.

 

Mas a blogosfera tem uma gravitação própria, exigindo textos e posts que funcionem dentro dela, enquanto minha vida intelectual fora do computador vai ficando excluída em nome do imediato jornalístico.

 

Nos últimos dias, tenho escrito algumas páginas de um livro que pretendo publicar no ano que vem, e um conto infantil que acho razoavelmente bom. Coisas como essas, que me deveriam aproximar do blog, afastam-me dele.

 

Nas leituras ocorre o mesmo. Os livros que leio parecem tão deslocados da iminência vigente na internet que desisto de comentá-los aqui. Melhor mudar de toada: ou o blog me serve, ou termino seu servidor.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h31

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mudanças na Folha

Texto originalmente publicado no site "Comunique-se", e agora no "Observatório da Imprensa", relata alguns projetos de modicação nos jornais do grupo Folha. Veja aqui o link; aos poucos farei alguns posts sobre de que modo vejo a situação.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h04

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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