Chato insistir, mas há ainda outra declaração de Fernando Gabeira, nestes últimos dias, que foi de doer. Lembrou o “fato” (?) de que já passou por muitos “pelotões de fuzilamento”, e que irá portanto sobreviver a este.
Bem, não cabe exagerar nem do ponto de vista dele nem do meu. Ter usado a cota de passagens aéreas para que suas filhas viajassem ao Exterior é um erro, e muito mais grave, a meu ver, quando parte de um Gabeira do que quando é protagonizado por um membro qualquer do baixo clero: este nunca prometeu ter o mesmo padrão ético de Gabeira.
Mas, enfim, o erro foi cometido, dentro de uma estrutura em que tudo isso era visto como “normal”, e Gabeira caiu em si, pediu desculpas em plenário. Pronto. Seria “só” isso, não viessem os excessos de retórica e o raciocínio confuso de que vimos exemplos no post anterior.
Só que a comparação com “pelotões de fuzilamento” é muito infeliz. Torna Gabeira um perseguido, uma vítima de ditaduras e patrulhamentos. Ele passou por isso –mas as críticas com relação às passagens aéreas não o tornam “vítima” de nada. É tão “vítima”, nesse ponto, quanto qualquer outro deputado pego em irregularidade.
O artigo de Fernando Gabeira, na “Folha” desta sexta-feira, é confuso e mal escrito. O deputado do PV-RJ, identificado como membro da “bancada ética” da Câmara, e que teve presença forte no caso Severino Cavalcanti, passa por maus momentos, depois de admitir o uso anti-ético de sua conta de passagens aéreas.
Eis o seu texto.
Na crista da crise mundial, sopram ventos de mudanças.
Um início otimista e genérico, para quem esperava a continuação de seu “mea culpa” feito na tribuna da Câmara.
No norte, banqueiros e executivos tornam-se vilões. Aqui, políticos sofrem um bombardeio.
Estranhíssima a aproximação. Banqueiros “tornam-se” vilões? Será que não o foram de fato? Estaria Gabeira dizendo que banqueiros honestos passaram a ser vistos como vilões depois da crise? E o que há de comum entre banqueiros “do Norte” e políticos “aqui”? Só uma coisa, no raciocínio de Gabeira: o fato de serem demonizados (“pela imprensa”?).
Logo no começo do artigo, Fernando Gabeira eleva a um ponto quase inacessível suas expectativas de convencer o leitor. Terá, em seguida, de inocentar não apenas os políticos brasileiros, como também os banqueiros do mundo desenvolvido. Não bastaria um réu apenas? Continuemos a leitura.
Pelos seus traços fortes, caricaturais, os Parlamentos são alvo predileto. É perigoso concentrar só neles. Às vezes, acho que o governo escapa, sobretudo porque é um grande anunciante.
Parem as rotativas. A crer em Gabeira, nenhum jornal até hoje criticou o governo Lula.
Mas, pensando melhor, não é esse ponto.
Qual era mesmo o ponto? Pelo primeiro parágrafo, tratava-se de identificar banqueiros americanos a deputados brasileiros, para inocentar ambos.
O caso dos cartões corporativos ganhou grande espaço. Tanto ele como o escândalo das passagens são de fácil entendimento. Licitações, editais, relações com ONGs são temas ásperos, que não se reduzem a falas de 30 segundos nem se traduzem na linguagem visual.
Concordo.
O que dizer da transparência no Judiciário, no Ministério Público? Não há demanda para saber como se comportam juízes e procuradores nem como é gasto o dinheiro com eles.
Isso não é verdade. Haveria imensa demanda em identificar, por exemplo, algum abuso pessoal de verbas no caso do ministro Gilmar Mendes, ou de outro membro do STF. Sem contar que membros do Judiciário e do Ministério Público não foram eleitos com o voto dos cidadãos, como no caso de deputados.
Gabeira age simplesmente como uma criança flagrada roubando um chiclete, defendendo-se com o dedo em riste: “Aquele ali roubou também!” Mas nem tem provas de sua acusação.
Em seguida, transforma o fato de deputados terem sido eleitos num fator que ameniza, e não agrava, sua culpa. Pois, ao contrário dos parlamentares, os juízes e procuradores...
Não são eleitos pelo voto popular. Independem dessa confiança básica, renovável.
Os olhares de Fernando Gabeira abandonam o concreto para se perderem num infinito histórico:
Com suas limitações, o processo que o avanço social e técnico deflagrou é a semente dos novos tempos. Na internet e entre os leitores, a sensação é a de que todos os políticos são iguais e deveriam desaparecer.
Estranha, novamente, essa ligação entre “semente dos novos tempos” e “sensação de que todos políticos deveriam desaparecer”. Quem lê a primeira parte do parágrafo pensa numa utopia, da qual Gabeira faria parte como sentinela avançada. Lendo a segunda, vemos Gabeira em posição defensiva, falando de assunto não necessariamente correlato.
É um equívoco. Depois de uma explosão nuclear, nem todos desaparecem: as baratas sobrevivem.
De modo que haverá, depois da internet, políticos sobreviventes. Serão como baratas. Gabeira se inclui na categoria? O texto muda de assunto.
Um Congresso fantasma ou um Congresso fechado não interessam à democracia.
Entendo agora. A proposta de que todos os políticos deveriam desaparecer é ruim, porque só sobrariam, então, as baratas, por definição algo que os políticos não são. Salvemos, portanto, o Congresso (contra o que a internet aponta de novos tempos, segundo o raciocínio de Gabeira, confundindo essa perspectiva com o ódio antiparlamentar veiculado na internet).
Vale um esforço para ajustar sua conduta agora e renová-lo em 2010. Quem dá um passo à frente?
Como assim, dar um passo à frente? Ele pede de algum eleitor que se disponha a isso? Ou a algum pretenso candidato às eleições? Ou a ele mesmo?
A sociedade avançou, a política envelheceu.
Não acho isso. A sociedade pode ter aumentado sua renda, e ter tido mais acesso à educação. “A política” não existe nesse sentido. Há um sentido mais claro, “os políticos”. Esses podem ter envelhecido ou não, mas não é esse o seu maior pecado. Não é preciso ser velho nem ser moço para perceber que não é certo doar passagens para parentes viajarem ao Exterior. Não é uma questão de velhice, e sim de caráter.
Em outro sentido, a “política envelheceu” na medida em que “a prática política” segue velhos padrões de clientelismo e parentela no mundo ágil e anônimo da internet. Em todo caso, a constatação de Gabeira choca pelo cinismo, ao avaliar do alto de um Everest um problema que o atingiu de fato.
É uma crise de crescimento da democracia.
Não era uma crise de envelhecimento? Gabeira, de longe, vê tudo como um eterno adolescente.
Jamais alcançaremos a perfeição. Mas vai melhorar.
Ninguém pediu perfeição. Pediu autocrítica. O sujeito oculto apenas promete, de um telescópio histórico: “vai melhorar”. Ou seja, não vou melhorar, não vamos melhorar: vai melhorar.
E os que estão por vir, como no poema de Brecht, serão compreensivos com os tempos sombrios que vivemos.
Nossos tempos não são sombrios. Brecht escrevia em pleno apogeu do nazismo. Em nossos tempos, dizia Gabeira no começo do artigo, “sopram ventos de mudanças”. Um clichê anula o outro, e tudo é pura enrolação.
Resta trabalhar para que a energia dos escândalos não esgote a busca de soluções. Devem andar juntas, como luz e sombra.
Ou seja, os escândalos protagonizados por Gabeira devem andar juntos com as soluções propostas por Gabeira.Tudo, evidentemente, expresso de modo a eliminar o sujeito da ação –Gabeira—de tão abstrato raciocínio.
No artigo desta quarta-feira sobre a TV Cultura (assinantes do uol leem aqui, tive de omitir, por razões de espaço, uma série de lembranças antigas que tenho da emissora. Uma, em especial, é importante: a apresentadora Aizita Nascimento, que há uns trinta anos aparecia no programa “Panorama”, o ancestral do “Metrópolis”. Posso estar enganado, mas creio que foi a primeira apresentadora mulata na televisão brasileira.
Este é um dos inúmeros exemplos em que uma TV pública pode ser inovadora. Não se trata de fazer apenas programas que “não tenham audiência”. Estar livre das pressões do Ibope não é tudo.
É possível, como eu escrevi no artigo, fugir do Ibope sem modificar coisa nenhuma. Uma apresentação dos alunos de violino do Conservatório Professor Pintassilgo foge do Ibope, pode ser “educativa”, pode ser típica de uma TV “pública”, mas não leva a nada.
Na Cultura havia um programa de música clássica, nos anos 80, apresentado pelo maestro Walter Lourenção. No começo, era ótimo: concertos comentados, entrevistas com compositores, tudo bem.
Atendia, não nego, a um público restrito. Mas nunca se sabe o quanto “criou” um público um pouquinho maior para a música clássica. Volto em seguida ao assunto. Mas meu ponto agora é outro.
Com o passar do tempo, o programa do maestro Lourenção foi perdendo em qualidade. Imagino que, para obedecer a pressões externas, terminaram sendo convidados para o programa os alunos de um conservatório de Piracicaba, as alunas de uma escola de balê em Moema... E aí o espaço reservado à música clássica terminou abrigando horrores de caipirice e falta de talento.
Esta a minha desconfiança sempre que ouço falar em “TV pública”. Certamente, é DE interesse público que se divulgue, por exemplo, a orquestra sinfônica dos menores de rua de Arujá, feita com imenso esforço. Mas não é DO interesse DO público.
O noticiário de uma TV pública, por exemplo. Em que deve diferir do noticiário de uma TV como a Globo? Pode haver momentos (o da campanha das diretas, por exemplo), em que a Globo fez um noticiário evidentemente distorcido, a serviço de seus interesses no poder, e não a serviço da lógica, da racionalidade jornalística.
Mas o mundo das boas intenções, do “interesse público”, pode muito bem criar um noticiário puramente a serviço “do bem”, destacando ongs e mais ongs em seguida, que igualmente agridem o sentido do jornalismo e o interesse DO público.
Nesse sentido, a função da TV Cultura é, ao meu ver, experimental e prudentemente transgressora. Trata-se de “criar um público”, melhor do que o atualmente existente. Na medida em que “experimentou”, nos anos 70, ter uma apresentadora mulata, a TV Cultura assumiu um risco que a tv comercial não podia, ou não queria, assumir.
O Ibope, para a TV cultura, foi nesse sentido um instrumento científico, não uma espécie de semáforo (verde/amarelo/vermelho) para o que se pode transmitir. Ou seja, não se trata de fazer uma TV pública alheia ao Ibope. Trata-se de fazer uma TV que, sendo pública, pode deixar de ser escrava da audiência, para modificá-la.
Peço desculpas pelos dias de ausência. Andei escrevendo prefácios, posfácios, resenhas... e ainda não terminei de dar conta do recado. Atualizo o blog com posts rápidos.
O grande sucesso na internet, e entre os colunistas da “Folha”, tem sido Susan Boyle, a campeã do show de calouros inglês “Britain’s Got Talent”. Sua simplicidade e seu poder vocal são irresistíveis. Veja no link, com legendas.
É impossível não compartilhar de sua alegria no triunfo.
Mas quem andou vendo este blog nos últimos tempos deve ter topado com um vídeo do youtube, postado há tempos, mostrando outro número do mesmo show de calouros.
Nesse caso, o calouro se chama Paul Potts, e sua vitória pode ser acessada aqui.
Como Susan Boyle, ele é feio, desperta a incredulidade da plateia e do júri, e termina em consagração.
Impossível não ver a semelhança entre os dois casos. Mais do que isso, para ser pedante, a semelhança de “sintaxe” entre os dois programas. As mesmas carinhas de surpresa no júri, o súbito convencimento do público, as emoções que, de contidas, desabrem-se em aplauso.
Os cantores são autênticos, o espetáculo bem menos.
P. S. -Leia mais no bom comentário de Daniel Piza no seu blog.
Morador do Rio de Janeiro, Hermano Taruma me envia algumas fotos que tirou do paulistaníssimo Largo do Arouche. Quem mora em São Paulo não repara sempre no sabor de alguns prédios art-deco, ainda mais quando contrastados com um azul belíssimo no céu.
Queria antes disso dar notícia de um livro que recebi. Chama-se “Por trás dos muros da escola”.
As autoras, Alba Ayrosa Galvão e Iracy Garcia Rossi, narram despretensiosamente algumas experiências como educadoras em escolas de São Paulo.
Uma história merece ser reproduzida aqui.
Trata-se de uma espécie de milagre. Um acontecimento tão pleno que é capaz de dar sentido a toda uma vida.
Se você não acredita, leia então.
Nunca consegui entender bem o que aconteceu com Robson.
Filho de pais separados, aprendera a conviver com a situação. A nova esposa do pai tinha por ele um respeito singular e conseguira cativá-lo. A mãe vivera um tempo internada, mas agora estava bem e Robson já passava com ela alguns fins de semana.
(...) Na escola tudo corria bem. Ele fazia parte do grupo do período integral. Estudava de manhã, almoçava, praticava esportes e outras atividades lúdicas, e só no fim da tarde o motorista vinha pegá-lo. Era alegre, divertido, falava bastante, comia bem. Aquele aluno que toda professora pede a Deus.
Numa segunda-feira Robson não veio. Na terça, idem. Na quarta, Maíra, a segunda esposa do pai de Robson, apareceu. Contou que, no sábado, ela e o marido haviam sido chamados às pressas a um hospital. A mãe de Robson fora internada de novo. Outra crise. Talvez tão forte quanto a primeira que tivera. E o pior de tudo é que Robson estava passando o fim de semana com ela e assistira a tudo. Na aflição de socorrer a mulher, ninguém notara o menininho de cinco anos, olhos estatelados, acompanhando tudo, sem falar, sem chorar...
Somente no dia seguinte à internação da mãe de Robson foi que Maíra e Roberto, o pai do garoto, perceberam o estado em que ele se encontrava e levaram-no imediatamente ao pediatra. Graças a Deus, tudo parecia normal. Ele estava falando menos, não queria comer, mas isso era esperado em virtude do susto.
Como as ondas do mar, as semanas iam, as semanas voltavam, e Robson falava cada vez menos. Comer, então, se tornara impossível. Sobrevivia por causa do soro, da água.
Na escola, fui orientada a tratá-lo normalmente e, toda vez que fosse almoçar, deveria proceder como se ele também fosse. Eu sempre comentava sobre o cheirinho da comida, o sabor, mostrava que sabia o que ele apreciava... Muitas vezes ele nem sequer olhava para o prato. Com muito custo, ingeria um pouco de água. Eu não sabia mais o que fazer. Embora já conformada, eu continuava a fazer meus comentários, passar a mão em seus cabelos, segurá-lo no meu colo com carinho. Todos da escola acompanhavam consternados esses acontecimentos.
O tempo passava. Dois meses. Três. Sete. Sim, foi no sétimo mês. As coisas na minha casa não iam bem. Briguei com o namorado. Minha amiga Beth me azucrinava dizendo que eu é que não tinha jeito mesmo. A chateação tomou conta de mim. Não sabia bem que rumo tomar. Eu ruminava meus medos, meus sonhos, e estava achando tudo uma droga. Meu Deus! Que vontade de chorar! Era hora do almoço. Lá fui eu com Robson, de mãos dadas, para a mesa. Coloquei-o no meu colo. Falei-lhe da comida, uma fala automática. Tentei comer.
Parecia-me ter engolido o mundo e nada mais caberia. Comecei então a mexer na comida com o garfo, como quem vai ciscar um cantinho, desiste, vai para outro... Sem dúvida, a comida não desceria. A garganta estava presa, o coração apertado, os olhos querendo chover... Foi então que Robson colocou a mão no meu rosto e disse: “A comidinha está cheirosa, gostosa... coma um pouquinho! Vai fazer bem pra você!”. E ele começou a comer naturalmente.
Todos os presentes ficaram absolutamente imóveis. Eu não me mexia, parecia uma estátua. Tinha medo de quebrar o encanto, perder o momento.
Quem visse a cena a distância [ouviria] o ritmo daqueles corações que, a essa altura, transformaram-se num grande surdo, tamanha era a força com que batiam.
Robson voltava à vida.
Há um componente milagroso nessa cena. Sem dúvida, o que Robson recuperou, ou encontrou, foi a capacidade de cuidar da mãe doente. Numa situação menos traumática, pode retribuir o ensinamento da professora, que de nada lhe servira até então, porque seu problema não era o de ser protegido e cuidado, e sim o de ser capaz de proteger e cuidar de alguém. O coração humano, mesmo aos cinco anos de idade, tem potencialidades para o sofrimento que só se curam, acho eu, pela doação.
Fez enorme sucesso no Rio, e ao que tudo indica haverá de repeti-lo em São Paulo, na sala Eva Herz da Livraria Cultura, o monólogo “A Alma Imoral”, com a atriz Clarice Niskier interpretando trechos do livro homônimo do rabino Nilton Bonder.
Clarice Niskier estabelece de imediato um clima de cumplicidade, apresentando seu monólogo para o público enquanto as luzes ainda não se fecharam sobre o cenário.
O texto de Nilton Bonder é inteligente, na medida em que poderia ser apenas autoajuda e, ao contrário, faz pensar, contestando ideias preconcebidas.
Explora, por exemplo, a tese de que não há “fidelidade” no casamento. O homem que se mantém à mulher, apenas porque deve ser fiel, está traindo a própria alma. O homem que trai a mulher, apenas porque se entrega a um desejo ocasional, é um traidor de sua alma também. O homem que se apaixona por outra, abandonando sua mulher de sempre, talvez seja também um traidor: trai a alma em função dos imperativos, sempre verdadeiros, da biologia. Todos traem, portanto.
E há, segundo Nilton Bonder, um sentido na traição, na transgressão, assim como há sentido na obediência, na tradição. O ser humano que quiser sempre obedecer à Lei está, no fundo, negando sua humanidade.
Adão e Eva no Paraíso, diz o monólogo numa síntese espantosa, “não eram mais do que macacos”. O pecado de comer do fruto da sabedoria foi o ato pelo qual se constituíram em seres humanos.
Muito bonito, tudo isso, e de resto sempre foi aquilo em que eu próprio acreditei.
Ao mesmo tempo, esse elogio da “alma imoral”, encenado com sucesso agora, parece corresponder a um contexto dos mais ambíguos.
Em primeiro lugar, a polêmica de Nilton Bonder tem um objetivo mais circunscrito do que se pode crer à primeira vista. Trata-se das opiniões de um rabino moderno contra o rigor dos judeus ortodoxos, para os quais a obediência à lei se faz rigidamente, mais numa atenção ao que é “correto” do que ao que é “bom”.
Em segundo lugar, fora das polêmicas internas do judaísmo, os ensinamentos de Nilton Bonder podem ter tanto um sentido liberador, do ponto de vista individual, quanto um sentido de frouxidão, pensando-se no tipo de público, bem situado socialmente, que acorre à peça. Minha impressão é que a maioria dos que assistem ao monólogo sai dali mais satisfeito do que angustiado diante do modo com que leva a vida.
Talvez, no que se refere ao desejo sexual, à paixão, muitos reconsiderem sua vida conjugal. Quanto ao que diz respeito à vida em sociedade, aos impulsos de consumo, à busca de bens materiais, toda aquela reflexão religiosa carece, a meu ver, de um pouco mais de ênfase crítica.
Seja como for, é um monólogo que faz pensar, e que não recua diante das dificuldades que alguns paradoxos e piadas (excelentes, de resto, mas não posso contá-las) podem impor a uma plateia desatenta.
Dito isso, o que basta para recomendar a peça, é preciso também dizer que não se trata de uma peça.
Funciona mais como uma palestra, estimulante e densa, proferida por Clarice Niskier em torno de um texto de Nilton Bonder que pode ser lido com proveito. A atriz conquista empatia com o público, mas não “atua”, não “representa”, a rigor, nenhum papel.
Encarrega-se de tirar e retirar um véu negro que cobre e descobre sua nudez, arriscando-se em coreografias e rodopios conforme a inspiração que lhe tragam os parágrafos que enuncia em cena. Teatralmente, o espetáculo está sempre a um passo da cafonice. Salva-se a inteligência dos raciocínios--- que só atingem sua força máxima, entretanto, para quem não conhece direito o pensamento de Freud, capaz de superar as heterodoxias de Nilton Bonder antes mesmo que comecem. Mesmo quem conhece Freud, entretanto, pode agradecer ao impulso libertário e prático da peça; com bonitas interpretações do texto bíblico, Nilton Bonder nos lembra que ser religioso não é necessariamente ser obediente e fariseu.
A propósito de meu comentário sobre o filme de Laurent Cantet, "Entre os Muros da Escola", Eric Heneault, que é francês, faz críticas interessantes e judiciosas (mas acho que não discordamos demais, afinal), em seu blog.
Foi exibido no Festival de Documentários de São Paulo, e passa hoje às 22h30 na TV Cultura, o filme “A Chave da Casa”, de Paschoal Samora.
O cineasta, que elogiei faz um tempo pelo seu curta-metragem “Mar de Dentro”, trata com incrível discrição de um tema difícil.
“A Chave da Casa” acompanha alguns personagens que são vítimas de um duplo exílio. Trata-se de palestinos que viveram durante anos no Iraque; com a chegada dos americanos, passaram a ser hostilizados pelos xiitas, que odeiam os sunitas de Saddam Hussein. Tiveram portanto de fugir de casa mais uma vez.
Depois de muito tempo amargando um campo de refugiados no deserto, alguns desses palestinos são conduzidos ao Brasil.
É emocionante ver esses estrangeiros aprendendo o português, com enormes dificuldades de pronúncia. Ao mesmo tempo, dá uma certa impaciência vê-los em lugares afinal razoáveis, como Florianópolis ou Mogi das Cruzes, ansiando por uma Palestina que, na maioria, nunca chegaram a conhecer.
O documentário de Paschoal Samora visualiza com neutralidade um drama individual que ao mesmo tempo desperta nossa solidariedade e nosso estranhamento.
Mas o que há de mais notável no filme –que se escusa de fazer qualquer contextualização política dos destinos que acompanha—é a extrema beleza, feita de tato e poesia, das imagens registradas.
Assim como em “Mar de Dentro”, Paschoal Samora se mostra mais um poeta visual do que um militante político. O rosto recurvo de um palestino à contraluz, fumaça azul saindo do cigarro; detalhes de uma pele escarvada como um solo estéril de deserto; horizontes de mar brasileiro e cinza trazendo, em ondas mansas, a dor de um exilado; mãos que guardam numa mala tecidos e retratos: cada enquadramento desse filme tem a delicadeza, o amor, de que a vida desses exilados carece brutalmente.
O filme termina, de algum modo, sem terminar. Não sabemos o que terá sido feito da vida de cada um daqueles palestinos no Brasil. Sabemos, o que não é pouco, da nossa capacidade de acolhimento, feita até de ignorância e lassidão. Não sabemos o quanto o país poderá, entretanto, representar para eles uma pátria nova, onde esqueçam os conflitos insolúveis de que são vítimas.
Grande viajante e poliglota, Valery Larbaud inventou uma espécie de heterônimo, o milionário americano A. O. Barnabooth, a quem atribuiu alguns de seus melhores poemas. Aqui vai um deles.
A MORTE DE ATAHUALPA
Pues el Atabalipa llorava e decía que no le matasen
Oviedo.
Ah, quantas vezes pensei naquelas lágrimas,
Nas lágrimas do supremo inca do império ignorado
Por tanto tempo, nos altiplanos, nas bordas remotas
Do Pacífico –aquelas lágrimas, aquelas pobres lágrimas
Dos grandes olhos vermelhos implorando a Pizarro e Almagro.
Próximo dos 7, o meu filho maior, e com 5 anos completos, o menor, celebro em ambos o fim de uma época de barbárie. Passou felizmente o tempo que tinha de dar conta de suas reações extremadas e impulsivas. O plano de transgressão em que passaram a agir é mais inteligível—e mesmo admirável.
Meu filho menor, por exemplo, encarrega-se de distribuir o baralho num joguinho em que o vencedor é quem acumula a maior quantidade de cartas agraciadas com certa pontuação favorável. Deixo que roube nas cartas que me dá. Isso lhe exige engenho e premeditação.
Enquanto isso, meu filho maior descobre os ganhos da mentira. Havia alguma atividade de que não queria participar na escola. Divulgou em casa a versão de que, no dia fatídico, as aulas seriam suspensas. Foi tão sincero que chegamos a acreditar por algum tempo. Assim que tratamos de verificar a veracidade da informação, ele terminou confessando a mentira.
Grande progresso. Antes, qualquer descontentamento era motivo para cenas horrorosas: a criança que se joga no chão e esperneia.
Nada mais se exterioriza desse modo. Palavrões se sussurram em revolta sibilina. Mentiras se contam com ar de inocência. Ciúmes de irmão se expressam em cotoveladas discretas.
Luta armada contra um opressor odioso é sempre um ato admirável, se encarado a partir de uma ótica puramente individual e abstrata.
A distância pessoal que tomei, retrospectivamente, de coisas como a guerrilha do Araguaia no Brasil, durante a ditadura, levou alguns leitores deste blog a perguntar o que eu teria feito se fosse um francês durante a ocupação nazista.
Sem dúvida, nessa situação algum tipo de luta armada era não só necessário, mas estava dado pela própria realidade: americanos e ingleses estavam já em guerra com os alemães. A luta armada não era uma invenção ideológica; tomava conta do mundo inteiro.
Os que quiseram conciliar com o nazismo, no regime de Vichy, tiveram um fim inglório, e eram de um direitismo atroz.
Pensar “no que eu faria” é evidentemente um exercício de ficção, porque eu teria de pressupor uma identidade, uma personalidade, que seria ao mesmo tempo a minha, de hoje, esquerdista razoável, não-machista etc., e a de uma pessoa imaginária, francês, escritor, machista... vai saber.
Sei que não seria direitista a ponto de aderir a Vichy. Sei que não seria corajoso a ponto de ser depositário da confiança de companheiros a quem, com muita probabilidade, seria capaz de denunciar depois de algumas sessões de tortura. Esse é o máximo de certeza que posso ter hoje em dia.
Mas acabo de ler o longo livro de Julian Jackson, France: the Dark Years- 1940-1944, um extenso e detalhado relato dos conflitos políticos durante a ocupação alemã da França. A todo momento, o autor se mostra um virtuose do julgamento equilibrado, sem inocentar ninguém, mas nunca precipitando suas condenações.
São bastante instrutivas suas informações sobre a atitude da Resistência francesa –das inúmeras e contraditórias correntes da Resistência— frente à invasão alemã, e dos conflitos e desentendimentos que existiam entre De Gaulle, exilado em Londres, e os movimentos que surgiam no território francês. Escolho algumas citações, que nem de longe dão conta das complexidades e ironias de todo o quadro.
É na segunda metade de 1942 que se podem notar os primeiros sinais de que a Resistência estava tendo algum impacto na população. Houve uma resposta impressionante aos apelos conjuntos dos movimentos de Resistência do sul da França, no sentido de que a população se manifestasse usando as cores da bandeira francesa no dia 14 de julho. Sessenta e seis atos públicos ocorreram nesse dia, dois terços dos quais no sul (zona do país que os alemães não tinham ocupado diretamente).
...Agora que a Resistência tinha uma audiência, seus líderes teriam de decidir que tipo de ação esperavam dessa audiência. A sua propaganda inicial tinha prevenido a população contra riscos excessivos. Em outubro de 1940, um panfleto no norte aconselhava:
“Seja altivo nos seus contatos com os alemães, mostrando um mínimo de polidez... Ignore-os... Procrastine quando for instado a seguir suas ordens... Sobretudo, nenhuma ação isolada: o momento não chegou ainda. Nada de destruição de cabos elétricos... Nenhuma sabotagem de material militar”
[Algumas forças do partido comunista adotaram táticas terroristas em 1941] Essa estratégia foi condenada por De Gaulle e criticada pela Resistência, e também causou problemas para os próprios comunistas. Atos terroristas isolados eram estranhos ao pensamento comunista e tinham sido condenados por Lênin. Em setembro de 1941, os líderes comunistas franceses em Moscou acreditavam que a ação armada era prematura. Os primeiros ataques terroristas na França foram possivelmente iniciativa de indivíduos isolados. A imprensa comunista nada publicou sobre esses ataques, e [os comunistas] classificaram-nos como provocações dos alemães. Só em fevereiro de 1942 o partido comunista começou a reivindicar a autoria de ataques desse tipo. Mesmo nessa época havia vozes discordantes, inclusive a do veterano de guerra Marcel Cachin, que fez uma declaração opondo-se a atacar alemães individualmente. O partido fez com que ele não voltasse a se manifestar.
Em junho de 1944,
A mensagem de De Gaulle na BBC no Dia-D desaconselhava “insurreições prematuras”. [Havia, ao mesmo tempo, uma série de operações secretas, cifradas num código de cores, para os setores mais organizados da Resistência, no sentido de explodir pontes específicas, etc.]
Em agosto, a situação era diferente.
A contribuição militar da Resistência nesse estágio da Liberação foi mais importante [...] Na Bretanha, os aliados tinham preparado a intervenção dos “maquis” enquanto os americanos atravessavam a Normandia. O campo foi preparado em julho [...] Substanciais entregas de armas [por meio de pára-quedas] foram feitas, e por volta do fim do mês havia 30 mil combatentes prontos para o combate. Sua contribuição foi tão eficaz que quando os americanos marcharam rumo a Oeste, para as bases navais de Lorient, Brest, e Saint-Nazaire, eles encontraram pouca oposição dos alemães.
Que concluir desses excertos, infelizmente breves? Uma coisa que qualquer pessoa com um mínimo de lucidez e responsabilidade histórica deve sempre ter em conta: uma besteira em 1941 pode ser um acerto em 1944... Desde que exista suficiente organização, chances de sucesso, forças reais por trás de cada ato. Cada ato, em si –um assalto a banco, um seqüestro em 1971—deve ser avaliado por sua eficácia. Piorou ou ajudou a luta contra a ditadura? Fácil dizer agora que piorou. Mas é também verdadeiro dizer que piorou.
Matar um torturador. Boilesen, digamos. Foi um “justiçamento”. Não acho que a ideia de justiça deva ser descartada num assassinato desses. Não se matou um inocente, creio eu. Mas matar uma pessoa... Valeu a pena? Impor a seus familiares –inocentes— tanta dor? Fosse para liberar um povo inteiro, talvez. Mas foi inútil. Quantos não morreram, inocentes, para pagar a morte de Boliesen, naquela situação? Minha tendência para cair no sentimentalismo (não matarás!) só se corrige porque estou convicto da irracionalidade daquela atitude.
Na França dos anos 1940, havia irracionais e racionais lutando contra Hitler. Só posso dizer que não torceria pelos primeiros.
Tomei algum contato com a música popular francesa não por meio de Edith Piaf ou de Charles Aznavour, mas porque meus pais tinham, em meio a uns poucos LPs, dois discos de Jacqueline François, uma cantora de sucesso no tempo do onça, capaz de dar alguma fumaça de cigarro gutural a canções agradáveis e poéticas como “Demoiselle de Paris”, “La mer”, e outras daquelas coisas que, segundo me lembro, gravei numa fita cassete para ouvir no primeiro carro que tive, um Fusca branco, no ano de 1979. Fazia frio naquele mês. não sei se de junho ou de agosto, e foi ouvindo Jacqueline François que me dirigi, com máximo cuidado, ao Largo 13, em Santo Amaro, para assistir numa noite de inverno ao primeiro comício do PT.
Registro a morte de Jacqueline François, em março deste ano, não sem dar alguns links para suas interpretações.
Se você é culturalmente colonizado como eu, e se embanana na hora de pronunciar alguns nomes próprios como Isaiah Berlin, Hugh Mc Diarmid (daiarmid? dirmid? djrmd?), ou John Betjeman (bétjman? betjêimn? bêitjmn?), há um site para isso. Você digita e ouve um sujeito (ou vários) pronunciando a palavra desejada, e você pode até escolher o sotaque que quiser. Não ajuda apenas os que querem falar inglês. Voluntários de todos os países participam do projeto, de modo que você nunca errará em urdu, mandarim ou húngaro tampouco. Este o link: http://www.forvo.com/
Num curto artigo para o Cotidiano desta quarta-feira (link para assinantes aqui), critiquei o exagero da legislação antitabagista aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Acho que sempre que se elege um inimigo público a ser vasculhado em todo canto (o fumante, no caso), há o risco de se entrar num processo de caça às bruxas, de Terror. Os que aderem ao Terror são, a meu ver, as pessoas mais aterrorizadas. Assim foi quando se caçavam bruxas de verdade, ou quando fanáticos viam em toda parte comunistas querendo comer criancinhas. O espírito de patrulha, o espírito policialesco, no fundo atendem à necessidade de se procurar em carne e osso, em formas visíveis e reais, aquilo que nos apavora mais, o desconhecido da morte. Em matéria de terror e tabagismo, acho que tudo está sintetizado simbolicamente neste anúncio americano, bastante bom do ponto de vista técnico, contra o hábito de fumar na presença de crianças. Confira aqui.
P. S. Depois da publicação do artigo, a Folha noticiou que, na verdade, a lei não impunha nenhuma restrição ao que acontece nos quartos de hotel e de motel. Um dos maiores exageros criticados por mim cai por terra desse modo.
Fotografias das bibliotecas mais bonitas do mundo podem ser vistas neste site. Uma amostra:
esta é a Biblioteca Nacional Austríaca, em Viena.
aqui, a de Coimbra.
Na seleção, aparece também o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, que o organizador considera "provavelmente a mais bonita de todas". Mas as fotos não fazem jus ao lugar, que merece ser visto por quem estiver passeando pelo centro da cidade --até pela surpresa de topar com um monumento daqueles em pleno Brasil.
Foi inaugurado há poucos dias o site artbabble, que traz filmes, videos, conferências, sobre museus e artistas os mais variados. Está no começo, mas já é possível encontrar explicações e exemplos das obras de artistas tão diferentes quanto Vuillard e De Chirico, o calígrafo Hirokazu Kosaka ou a vanguardista Jenny Holzer.
ideogramas de "árvore" e "floresta", por H. Kozaka.
Realismo é o que não falta a “Entre os Muros da Escola”, filme de Laurent Cantet que comentei no artigo de hoje para a Ilustrada (assinantes do UOL podem ler aqui ).
Assistimos ao filme como se fosse um documentário, tal a ausência de dispositivos ficcionais, de digressões narrativas, de flashbacks, de “subjetivações” na narrativa.
Surpreendi-me ao saber das opiniões de um professor brasileiro, com décadas de prática no ensino médio, a respeito do comportamento do protagonista da história. “Certo, o professor daquela escola francesa é humano, erra muito... mas no geral ele agiu corretamente!” Pois, dizia o professor brasileiro, ele não era paternalista, forçava seus alunos a agirem como sujeitos independentes.
Mas um adolescente de catorze anos, conforme o caso, precisaria de muito mais ajuda do que o professor do filme estava disposto a oferecer.
Quase o tempo todo,ele é de uma prepotência enorme, embora disfarçada. Basta dizer que ele nem sequer se apresenta aos alunos no primeiro dia de aula. Quer que todos os alunos ponham um papelzinho na frente da carteira, com o próprio nome escrito, para poder memorizar melhor. Mas não se lembra de dizer como ele mesmo se chama.
Uma aluna levanta a mão e diz que ele deve fazer isso. O professor cede, e escreve seu nome na lousa. Mas o fato de ceder não desarma os espíritos. Ao contrário, desde o primeiro dia de aula está em jogo uma situação em que todos nada mais fazem além de inscrever pontos a favor e contra num placar imaginário: professores contra alunos, e cada aluno individualmente contra os seus colegas.
Reconheço que o professor se preocupa com o futuro de seus alunos, e até mesmo torce para que eles se saiam bem nas tarefas que devem desempenhar. Mas naquela escola francesa sente-se a falta de um psicólogo, e de um antropólogo também, capaz de orientar professores a lidar com alunos de culturas muito diferentes.
Mais do que isso, sente-se a frieza, a indiferença, dominar a própria relação entre os professores. Um deles, desesperado, entra na sala dos professores quase chorando, depois de uma aula difícil. Durante penosos minutos, ninguém se solidariza com ele, ninguém tem a iniciativa de abraçá-lo.
Imagine-se então a disposição de um professor para acolher um aluno em dificuldades. Dificuldades sobretudo emocionais. Um ato de grandeza, um pedido de desculpas, partindo de um professor que evidentemente exagerou na dose repressiva contra um aluno não de todo “perdido”, teria sem dúvida modificado a vida de todos os personagens, e também o desfecho do filme.
Mas aí se nota a diferença entre um filme americano e um filme francês. O cinema americano tradicional parece sempre estar mostrando, digamos, uma larva que enfrenta dificuldades, quase é atingida pela tempestade, etc, até que no final, magicamente, a larva se transforma em borboleta.
No filme francês vemos a larva, as tempestades, etc., e no fim uma mão invisível retira a larva de cena, sem mais nenhuma explicação.
Os dados do problema estão aí, parece dizer o diretor Laurent Cantet. Qualquer desfecho redentor seria irrealista. A vantagem de “Entre os Muros da Escola” é que tudo é filmado de modo tão convincente, tão tenso, tão interessante pelos erros e acertos que se cometem a cada minuto, que mesmo sem um final triunfante o filme não decepciona ninguém.
Não tenho ido muito a cinema ultimamente. Quando vi “Quem quer ser um milionário?”, Oscar de melhor filme este ano, pensei em escrever um post, mas desisti. É um daqueles casos em que seria preciso contar um bocado da história para fundamentar a crítica. Agora, em todo caso, quando muita gente já viu o filme e talvez até já tenha se esquecido um pouco, dá pelo menos para desabafar.
O filme de Danny Boyle tem traços de extremo realismo, quase insuportáveis de ver, dentro de uma trama absolutamente implausível, e por cima disso vem uma calda de caramelo capaz de envergonhar qualquer novela mexicana. Implausível todo o interrogatório a que é submetido o personagem principal, por exemplo, na véspera de sua aparição decisiva num programa de perguntas e respostas da TV. Se quisessem tirar-lhe o prêmio, haveria maneiras mais fáceis do que tentar extrair dele uma confissão sob tortura numa delegacia de Bombaim.
Mais bizarro é o epílogo triunfal do filme, que imagino obedecer a alguma convenção de Bollywood: mocinho e mocinha, numa estação de trem, dançando uma espécie de “disco music” no estilo John Travolta; como conciliar isso com as realidades miseráveis, dramáticas, seríssimas, apresentadas no início? Será que, como nos programas de auditório, no fundo nada é para valer?
A implausibilidade de tudo tem, quem sabe, até um fundo religioso. Os mais inacreditáveis lances de sorte e de azar do filme no fim terminam explicados, no canto da tela, pela reprodução de uma frase várias vezes repetida pelo personagem: “era esse o meu destino”; algo como “estava escrito”, “maktub”. Ora bolas. Estava escrito, sim, mas por um roteirista de terceira categoria.
O site em homenagem ao compositor Camargo Guarnieri, que acaba de ser lançado pelo Centro Cultural São Paulo, é exemplar. Tem tudo o que eu gostaria de encontrar num site dedicado a um compositor.
Não do ponto de vista quantitativo, porque seu grande destaque, por enquanto, é o DVD que será lançado dia 22 deste mês, às 20h30, no CCSP, trazendo os dois concertos para violino (praticamente desconhecidos do público) e seu “choro”para violino e orquestra.
Digo exemplar porque ali você encontra não apenas os habituais comentários de apresentação da obra, tão vagos em geral, e a biografia do compositor, mas um verdadeiro roteiro para que o leigo possa apreciar melhor o que irá ouvir no DVD.
Em diversos blocos, podemos ver trechos do vídeo, selecionados conforme o que se quer chamar a atenção. Por exemplo, o uso que Guarnieri faz das “terças caipiras” (três trechos dos concertos mostram essa particularidade de sua linguagem). Ou algumas belezas de sua orquestração (um trecho, por exemplo, mostra um belo momento em que violino e trompa tocam juntos). Outro bloco dá exemplos dos momentos de calmaria na música. Outro bloco reproduz as cadências do concerto, mostrando além do mais a segurança, a graça e a maturidade do jovem solista Luiz Filipe.
E não é só isso. Temos acesso às partituras das composições do DVD, que podem ser baixadas ou impressas em PDF; entrevistas com o regente Lutero Rodrigues; e, para ouvir no computador, gravações históricas de canções de Guarnieri, na interpretação de Cristina Maristany e do próprio compositor ao piano.
Mais ainda: gravações das músicas folclóricas brasileiras da Missão Mário de Andrade, num atraente mapa interativo.
Morreu Maurice Jarre, compositor de trilhas sonoras que ficou célebre pelo “Tema de Lara”, de “Doutor Jivago”; a música foi composta em 1965, e pode ser conferida num pot-pourri regido pelo próprio Jarre, neste video do youtube, ou ainda aqui, com uma bela seleção de fotos do filme.
Seja feita justiça, entretanto, ao mexicano Juventino Rosas, cuja valsa “Sobre as Ondas” , de 1884, bem que pode ter inspirado (?) o compositor francês. Confira as semelhanças.
Se eu estiver chovendo no molhado, peço desculpas.
Mas vale até colocar este site como página inicial do computador: é o www.archive.org, que dá livre acesso a qualquer coisa que não tenha direito autoral, desde livros e imagens até programas de rádio americanos do tempo do onça.
Só na seção de audiolivros, você encontra, numa única parada da ordem alfabética, os “selected poems” de William Carlos Williams, “selected short stories” de Scott Fitzgerald, “selected letters” de Beethoven.
Em música, está lá grátis um “concerto para a mão esquerda” de Ravel, por Alfred Cortot.
Um livro de 1922, explicando a carta de Pero Vaz de Caminha, pode ser baixado ou folheado, no prático sistema de digitalização do google.
Até programas da Globonews, como uma entrevista com Christopher Hitchens, aparecem por lá.
A velha edição da nrf de “À la recherche du temps perdu” está inteira, e de quebra surge até um livro do pai de Proust, o higienista Adrien Proust.
Resolvi dificultar as coisas e procurar obras de Henri de Régnier, que Carlos Heitor Cony sempre lembra ter sido o autor, antes de Vinicius de Moraes, do tal “que seja infinito enquanto dure”. Há uma pilha de mais de trinta livros desse poeta francês.
No artigo desta quarta-feira, confundi Lamarca com Marighella, o que terminou corrigido num “Erramos” da mesma edição do jornal.
É não consigo disfarçar meu desinteresse por esses protagonistas da luta armada. Volta e meia surgem reportagens sobre os segredos da guerrilha do Araguaia, por exemplo. Acho tudo isso de uma inutilidade gigantesca.
Repugna-me, é claro, a violência das forças da repressão. Mas acho aquela estratégia de resistência tão errada, tão louca, que não consigo me solidarizar com suas vítimas.
Lamarca, Marighella, eram aventureiros que na melhor das hipóteses estavam inebriados numa incursão totalitária. O arranhão histórico que empreenderam na ditadura militar foi inútil e, a meu ver, contraproducente. Contribuíram mais para o retrocesso do que para a democracia.
Daí, sem dúvida, meu desinteresse pela suposta saga, e pelo heroísmo real, de suas vidas.
Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.