Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

vaivéns de um poema

 
 

vaivéns de um poema

Crítica literária e célebre autora de livros infanto-juvenis, Ana Maria Machado publica seu primero livro de poesia, Sinais do Mar. É o que leio no “Estado” de hoje, que transcreve um dos poemas do livro, “Naus e Nós”. Aqui está:

 

 

Naus

saem de Sagres

e deixam infantes,

partem de portos

e deixam mortos,

sangram amores

e rumam ao longe.

 

Singram

águas salgadas

águas sargaças

a poucos nós.

 

Lonas e telas

pranchas e cascos

cordas e cabos

rangem e puxam,

fazem e desfazem

nós.

 

Velas sem vento

almas sem calma

encalham em sargaços

nas águas salgadas.

 

Algumas naufragam

soçobram em escolhos

só sobram,

sem escolha,

sem escolta,

poucas naus

--e nós.

 

 

Minha reação é dúbia diante desse poema. Vê-se muita habilidade da autora com as palavras; tudo foi pesado numa balança muito precisa, e os ingredientes selecionados de antemão. O jogo inteiro é feito em torno de paronomásias (singram/sangram, soçobram/ só sobram) e mesmo de um tipo de “associação oculta”, como por exemplo no uso da palavra “infantes” perto de “Sagres”. Infantes quer dizer “crianças”, mas remete ao Infante Dom Henrique, que fundou a escola de Sagres em Portugal.

 

De resto, as palavras são bonitas nelas mesmas: Sagres, sargaços, escolhos. O plural de todas elas traz algo de marítimo também.

 

A musicalidade e o ritmo dos versos são eficazes. Estranhei um pouco que, depois de “velas sem vento/almas sem calma” a métrica mudasse com “encalham em sargaços”, verso meio emperrado de ler. Mas é justamente a ideia de “encalhar” que se transmite nessa “redução de marcha”, por assim dizer, da versificação.

 

Apesar desses acertos, o poema não me deixa satisfeito. O problema, acho, está no fato de que o sentimento que se quer expressar é de melancolia, de partida, de abandono –mas o jogo verbal, até por ser tão exato e caprichado, tem um certo componente de frivolidade. Há um espírito de “pega-pega”, de “esconde-esconde”, ordenando a escolha das palavras, que a meu ver não combina com o espírito elegíaco pretendido pela autora. Mas é só um poema, num livro que pode trazer boas surpresas.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h45

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crise dos jornais americanos

Baixar preços e aumentar a circulação seria, em tese, a resposta mais eficiente para os problemas enfrentados nos grandes jornais americanos. Mas a estratégia oposta está sendo seguida pelo "New York Times", por exemplo. Aumentará o preço do exemplar a partir de junho. A ideia é tirar o máximo possível de dinheiro dos leitores mais fiéis, diminuir os custos de distribuição e de papel, para poder investir mais no meio eletrônico. A "morte do jornal impresso" tem um site bem completo na internet, que pode ser acessado aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h12

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moral e moralismo

 
 

moral e moralismo

         Já com 7 anos, meu filho mais velho toma aos poucos distância de mim, e do círculo familiar propriamente dito. Vejo-o sozinho às voltas com a lição; recolhe-se em silêncios enquanto o irmão menor trata de ocupar o espaço que lhe foi aberto.

         Começo a saber das atitudes do meu filho maior pelos relatos que me chegam de outras pessoas. Fico feliz com suas preocupações.

         Ele saiu outro dia com a cozinheira; foram à padaria. Perguntou a ela: “você é pobre?”

         Eis uma questão que começa a surgir na cabeça dele, e não sei se existem contos infantis sobre esse assunto –o da desigualdade de renda no Brasil.

         A cozinheira respondeu que sim. Meu filho insistiu: “Mas você não tem dinheiro?” Ela disse que não tinha. “Nada?” Ela tranquilizou-o um pouco. “Olha, agora não, mas logo chega o fim do mês, e seu pai vai me dar o salário”.

         De volta para casa, meu filho foi até o cofrinho e tirou 80 centavos. A soma tem algo de simbólico para ele, porque em outra ida à padaria ele contribuiu com a mesma quantia nas despesas do lanche. Deu as moedas para a cozinheira. “É para você”.

         Claro que ele não sabia o quanto de sacrifício, o quanto de bagatela, havia nas moedas que tirou de seu tesouro pessoal.

         Gostei, evidentemente, de sua preocupação com as finanças da cozinheira.

         Gostei também de outro episódio, que vai em sentido contrário.

         Ele ganhou recentemente um joguinho de batalha naval. Não é como os do meu tempo, que se resumiam a folhas de papel impresso nas quais desenhávamos a geometria caprichosa dos destróieres e encouraçados. Hoje tudo é de plástico, com pininhos para marcar os tiros dados e recebidos.

         O jogo se estendia para além da hora de dormir. Meu filho disse que estava com vontade de ir ao banheiro. Passou lentamente atrás dos meus ombros. Percebi que ele queria localizar os meus navios.

         Ele não se importou demais em disfarçar a própria astúcia. Foi e voltou, enrolou um pouco, até guardar na memória a localização do meu destróier.

         Dei risada, evidenciando perceber a artimanha. Ele riu também, e foi adiante, ganhando o jogo.

         Melhor assim. Sei como teria me comportado aos sete anos: por mais que desse importância à vitória, nunca teria tido essa malícia. Para mim, o certo era o certo, o errado era o errado. Roubar no jogo? Nunca.

         É levar as coisas com seriedade demais. Perdi amizades por causa disso.

         A ingenuidade de dar 80 centavos à cozinheira se combinou com a malícia de roubar na batalha naval. Eis a diferença, para mim difícil de graduar, entre moral e moralismo. Pelo que vejo, por enquanto, meu filho me ensina mais do que tenho a ensinar-lhe.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h57

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voltaire de souza (2)

Mais algumas crônicas recentes do "Agora".

A HORA DO QUENTÃO

 

Rigor. Ordem. Proibições. As autoridades capricham.

Primeiro, foi a lei contra o fumo em bares e restaurantes.

Quiseram também proibir a coxinha nas cantinas escolares.

A novidade chega agora para as quermesses e festas juninas.

Quentão e vinho quente, nunca mais.

O Padre Presutti estava revoltado.

--É molta proibizione.

Ele suspirava.

--Logo vanno me proibire il vino na comunione.

Estava tudo pronto para a grande quermesse de Santa Giolitta.

--Senza quentón, non tem quermesse nem festa giunina.

Padre Presutti convocou uma romaria de protesto.

--E estó avizzando: vai ter distribuzione di vino até pras criancinha.

Foi quando apareceu o delegado Romildo. Da Polícia Federal.

Operação Marcelino Pão e Vinho. Pedofilia nas sacristias católicas.

Padre Presutti já convocou seus advogados. E diz que é perseguição.

Escândalos são como rojões nas festas juninas.

Quando se acendem os pavios, sempre alguém sai chamuscado.

26/5/2009

 

 

O ASFALTO É UMA LIXA

 

Trânsito. Insegurança. Confusão.

A cidade grande exige muito de seus habitantes.

E agora, o desemprego.

Cesário ia começar seu trabalho de motoboy.

A raiva era grande em seu coração.

--Eu... que já fui gerente de vendas... cair nessa vida.

As notícias sobre a economia são pouco animadoras.

--E tem deputado dizendo que se lixa para tudo isso.

A moto de Cesário avançava rapidamente pela Anhaia Melo.

--O povo ralando... e o deputado se lixando.

O celular tocou. Era um cliente reclamando da demora.

--E daí? Estou me lixando também.

Só de raiva, Cesário acelerou a motoca. Foi um erro.

Um Corsa preto mudou de faixa na hora errada.

A dona do Corsa se chamava Patrícia e foi socorrer o motoqueiro.

--Não foi nada, não... só me ralei um pouquinho.

Houve mais ralação no Motel A Cúpula.

Quando as autoridades se lixam, uma esfoladinha é o de menos.

14/5/2009

 

BRINQUEDO CLÁSSICO

 

 

Negócios. Acordos. O presidente Lula foi até a China.

Elpídio preferia ficar em casa. Tomando seu habitual conhaque.

--Grande coisa... um acordo com a China.

O velho sindicalista tinha saudades do passado.

--Quando aquilo lá era comunista de verdade.

Seu olhar transmitia forte desprezo aos atuais líderes de Pequim.

--Todos de terninho e gravatinha... ora essa.

Naquele momento, o sobrinho de Elpídio entrou na sala.

O garoto tinha em mãos um carrinho de controle remoto.

--Olha, tio, o que eu ganhei.

Elpídio examinou a procedência do brinquedo.

--Made in China... é por isso que eu estou desempregado.

As mãos de Elpídio iam destruir o carrinho. Mas ele ouviu uma voz.

--Nón alebenta blinquedo. Ploduto dos companhelos opelálios.

Era o retratinho de Mao Tsé Tung. Pendurado na parede.

--Desculpa, comandante. Obedeço às suas diretrizes.

Ideologias, às vezes, são como brinquedos.

Mesmo sem funcionar, encontram comprador.

 

 

 

OLHA O GOL

 

Famílias grandes podem ser alegres e ruidosas.

Por vezes, contudo, são o palco de constantes humilhações.

Alfredo tinha cinco irmãos. Aos 25 anos, ele mantinha seu perfil de menino quietinho. Nas reuniões de família, era praticamente ignorado.

Discussões. Brincadeiras. Torcidas de futebol.

--Hahn... sabe, eu acho que...

--Olha o gol, olha o gol!

Alfredo suspirava.

--Filho do meio... espremido no meio de tanta gente.

Domingo. Dias das Mães. Alfredo apareceu com uma máscara cirúrgica.

--Pessoal. Estou muito resfriado. E como estive no México...

Todos os olhares convergiram para o rapaz. Um momento de glória.

--Gripe suína. Alfredo! Isso pega...

Chamaram um tio que era médico. Exames rápidos levaram a uma conclusão banal.

--Gripe comum. Nada de suíno em você, Alfredo.

O rapaz ainda quis protestar. Dizer alguma coisa. Mas não deu.

--Olha o gol! Olha o gol!

Na vida, alguns nascem para a glória dos craques. Outros, para o lugar do gandula.

12/5/2009

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h37

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voltaire de souza

Alguns textos recentes do cronista do "Agora".

NETOS DE CAPONE

 

Indisciplina. Violência. Nossos adolescentes, por vezes, metem medo.

No Instituto Pintassilgo, era dia de reunião.

O professor de Geografia apareceu com um recorte de jornal.

--Viram isso?

Sério quebra-quebra numa escola da Mooca.

A diretora do Instituto resolveu tomar uma atitude.

--Vamos colar esse recorte aqui no mural do colégio.

--Imagine. Não vamos dar ideia para essa cambada.

A diretora se abespinhou com a professora de Matemática.

--Dona Solange, não chame nossos alunos de cambada.

--Chamo sim. Maloqueiros. Netos de Al Capone.

O professor de Geografia era namorado dela e se animou.

--Netos de Al Capone. E grandes filhos da...

Uma mão feminina tentou tapar a boca dele antes de sair o palavrão.

O gesto foi descontrolado. Parecia tapa. A briga foi feia.

Lousas, carteiras, fêmures e omoplatas foram quebrados.

Os alunos curtem numa boa a suspensão das aulas.

Discordâncias são como problemas de Matemática. Para resolver, só com muita calma.

 

 

PELES EM CONVULSÃO

 

Gripe suína. A contaminação avança.

Erasmo era dono de uma agência de turismo.

A Premavtur. Previsibilidade e Maximização em Viagens Turísticas.

Era grande o seu estado de preocupação.

--Primeiro, a crise. Agora, a gripe.

Erasmo tinha comprado uma grande quantia de pacotes para Cancún.

--Já baixei o preço. Ninguém quer ir.

O telefone da agência ficava silencioso.

Erasmo resolveu dar uma volta pela avenida Paulista.

Na primeira esquina, encontrou uma morena espetacular.

Olhos verdes. Cabelos tipo samambaia. Corpinho exportação.

Seu nome era Gilvanka.

--Gostaria de viajar para Cancún?

A bela jovem deu um risinho.

--Pegar gripe suína? Está achando que eu sou burra?

No Motel Belisko, Erasmo e Gilvanka não pensam em QI.

O mosquito da dengue picou aquelas peles em convulsão.

Não faz mal. O melhor turismo é o turismo interno.

 

 

 

HORA DE PARAR

 

Farras. Abusos. Passeios. Para muitos, a farra tem de parar.

O deputado Esperandir Taviano discordava.

--Família, para mim, é sagrado.

Era dia das Mães. O poderoso político nordestino tinha avisado a família.

--A comemoração vai ser em Paris.

Passagens gratuitas. Pagas pelo Congresso.

--É isso, minha gente. Cartão fidelidade.

Ele estava casado com dona Marluíce há muitos anos.

Filhos. Netos. Todos prontos. O avião decolou pontualmente.

Esperandir apontava pela janelinha.

--Vejam... já estamos atravessando o Oceano Atlântico.

Águas imensas encheram a vista da família.

Não era o mar. Era o Estado do Pará. Alagado pelas chuvas.

O piloto Wilson tinha tomado a iniciativa.

--Deputado... o senhor certamente apreciará uma visita às bases.

A tempestade colheu todos em pleno voo.

A queda conduziu o deputado para perto de suas raízes locais.

Para quem vai para Paris, é chato parar no Pará.

 

 

VOO CEGO

 

 

Dias das Mães. Momento de carinho.

Eduardino tivera uma infância humilde.

Ao longo dos anos, uma trajetória de sucesso.

Empresas. Negócios. Ele era agora parlamentar.

--Ah, se minha mãe me visse...

Ele passeava numa das mais elegantes butiques do Piauí.

--Eu poderia dar jóias para ela... vestidos de grife...

A boa senhora tinha morrido em 1974.

Eduardino dirigia para outras mulheres seus impulsos de consumo.

--Vou comprar essa bolsa para a Juju... essa outra para a Suélen...

Chuvas terríveis castigam o nordeste brasileiro.

Um trovão. Queda de energia. Escuridão na butique. Uma vozinha.

--Eduardino... meu filho... seu desgraçado...

O parlamentar acreditou estar sendo agredido pela bolsa de jacaré.

--Me leva para Miami... me tira deste cemitério...

Quando a luz voltou, Eduardino estava inconsciente.

Uma bolsa na mão. Um enfarte no miocárdio. Encontrou a mãe no domingo mesmo.

Não é preciso passagem aérea para chegar no Além.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h31

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O Louvre e seus visitantes

 
 

O Louvre e seus visitantes

No artigo de hoje para a Ilustrada, comento uma exposição de fotos de Alécio Andrade, em cartaz no Instituto Moreira Salles. Reproduzo o começo do texto.

A maior parte das pessoas vai a um museu de arte para ver, claro, os quadros e as esculturas.

         Digo “a maior parte” porque há também os que não têm grande interesse no assunto, e simplesmente acompanham, puxados pelo braço, quem os levou até lá.        Digo “ver” os quadros e esculturas, mas isso também é exagero. A gente passa por eles, toma conhecimento de que existem, mas nem sempre é fácil “ver” aquilo que está num museu.

         Às vezes o embolo é tamanho, que em pouco tempo nosso único desejo é sair dali, e “ticar” aquele item da nossa congestionada agenda de turista.

         O fotógrafo brasileiro Alécio de Andrade (1938-2003) pertencia a uma categoria mais rara de visitantes. Durante 39 anos, frequentou o Museu do Louvre. Não para ver as obras, mas para fotografar quem as via.

         É uma fauna e tanto. Uma das poucas vantagens desses lugares de grande aglomeração turística é poder apreciar a variedade de rostos, de tipos, de atitudes e de idades reunidas em torno de um grande quadro –que surge então não apenas pelo que tem de bonito em si, mas pelo que traz de síntese de toda a humanidade.

         “O Louvre e Seus Visitantes”, em cartaz até 21 de junho no Instituto Moreira Salles de São Paulo, reúne várias das fotos tiradas por Alécio Andrade nessa espécie de pesquisa antropológica, muitas vezes irônica, e de vez em quando tomada de lirismo.

(assinantes podem ler o resto aqui)

 

As duas pequenas imagens das fotos da exposição que tenho para mostrar enfatizam esse lado irônico de Alécio Andrade, mas o que a exposição tem de mais bonito, de mais "contemplativo na contemplação", só indo no IMS para ver, ou comprando o catálogo...

 

 

 

        

Escrito por Marcelo Coelho às 19h53

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Foucault, o corpo, a utopia

Vou participar de um café filosófico em Campinas, no dia 19 de junho, dentro de um ciclo dedicado à crise das utopias. Meu tema será a utopia do corpo perfeito. Vou aos poucos me preparando para tratar do assunto; o que encontrei agora é uma conferência de Michel Foucault, transmitida pelo rádio em 1966. Foi recolhida numa série de CDs intitulada “Antologia Sonora do Pensamento Francês”.

 

Não a achei transcrita nos dois volumes dos “Dits et Écrits” do filósofo, de modo que fui traduzindo às pressas o básico do que ele diz. O que vai abaixo não dá muita ideia da extrema exuberância verbal de Foucault. Seus argumentos são bem claros e maravilhosamente formulados. Aqui vai.

 

Basta eu acordar, diz Foucault, que não posso escapar deste lugar, o meu corpo.

Posso me mexer, andar por aí, mas não posso me deslocar sem ele. Posso ir até o fim do mundo, posso me encolher debaixo das cobertas, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente: não está nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia. Todos os dias, continua Foucault, eu me vejo no espelho: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, nenhum cabelo mais... Verdadeiramente, nada bonito. Meu corpo é uma jaula desagradável. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. É o lugar a que estou condenado sem recurso.

 

É possível que contra esse corpo tenham nascido todas as utopias, dele nasce a utopia original --a de um corpo incorporal: o país das fadas, dos elfos, dos gênios, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde podemos ficar invisíveis.

 

Há outra utopia dedicada a desfazer o corpo é o país dos mortos. A múmia é o corpo utópico que desafia o tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos, que prolongam uma juventude que nunca vai passar, que será eterna. Meu corpo se torna sólido como uma coisa, e eterno como um deus.

 

A outra, a maior utopia criada contra o corpo é o grande mito da alma, que funciona maravilhosamente dentro do meu corpo, mas escapa dele. É bela, pura, branca, ao contrário do meu corpo. Durará para sempre. É meu corpo luminoso, purificado.

 

Assim, pela mágica dessas utopias, meu corpo pesado e feio desaparece magicamente. Recebo-o de volta fulgurante e perpétuo.

 

Mas meu corpo, nele mesmo, seus recursos próprios de fantástico. Tem lugares sem-lugar. Tem seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça é uma estranha caverna, com duas aberturas, meus olhos. E, se as coisas entram na minha cabeça, ficam ao mesmo tempo fora delas.

 

Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Absolutamente visível --porque sei o que é ser visto e ver os outros. Mas esse corpo é também tomado por uma certa invisibilidade: minha nuca, por exemplo. Minhas costas: conheço seus movimentos, sua posição, mas não as vejo. Corpo que é um fantasma, que só posso ver pelo truque, pela miragem de um espelho.

 

Esse corpo não é uma coisa: anda, mexe, quer, se deixa atravessar sem resistências por minhas intenções. Só quando estou doente –dor de estômago, febre--  ele se torna coisa, opaca, independente de mim.

 

Não, o corpo não precisa de fadas e almas para ser utópico, visível e invisível, transparente e concreto. Para que eu seja utopia, preciso apenas ser... um corpo. As utopias não apagam o corpo: nasceram dele, para só depois, talvez, voltarem-se contra ele.

 

Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. O sonho de um corpo imenso, o mito dos gigantes, de Prometeu, é uma utopia. O sonho de voar também.

 

O corpo é também ator utópico quando se pensa nas máscaras, na tatuagem, na maquiagem. Não se trata, aqui, propriamente, de adquirir um outro corpo, mais bonito ou reconhecível.

 

Trata-se de fazer o corpo entrar em comunicação com poderes secretos, forças invisíveis. Uma linguagem enigmática e sagrada se deposita sobre o corpo, chamando sobre ele o poder de um deus, a força surda do sagrado, a vivacidade do desejo. Fazem do corpo o fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo dos outros, dos deuses, das pessoas que queremos seduzir.

 

O corpo é arrancado de seu espaço próprio e arremessado a um outro espaço. As vestimentas religiosas, por exemplo, fazem o indivíduo entrar no espaço cercado do sagrado, ou na comunhão da sociedade. Tudo o que toca no corpo, uniformes, diademas, faz florescerem as utopias internas do corpo.

 

E a carne nela mesma pode ser também utópica. Faz o corpo voltar-se contra si: o outro mundo, o contra-mundo, penetra nesse corpo, que se torna produto de seus fantasmas: o corpo de um dançarino, por exemplo, é um corpo dilatado pelo espaço –espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo. O corpo do mártir acolhe a dor e a salvação. O corpo de um drogado, de um possuído, de um estigmatizado, recebe em si o que lhe é exterior.

 

Bobagem dizer portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar. Meu corpo está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e está num outro lugar que é o além do mundo. É em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um embaixo e um em cima.

 

O corpo está no centro do mundo, nódulo utópico a partir do qual penso, sonho, me comunico. O corpo, como a Cidade de Deus, não tem lugar, e é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis.  

 

Apenas o espelho e o cadáver selam e calam essa voragem utópica. Os dois estão num outro lugar impenetrável, mas nesse momento já não sou eu mesmo. Para que eu seja eu mesmo, no meu corpo, sem utopia, é preciso uma situação bem definida. Só o ato amoroso, quando nos entregamos a ele, acalma a utopia do nosso corpo: por isso é tão próximo, no imaginário, ao espelho e à morte. É porque só no amor o meu corpo está AQUI.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h27

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As árvores de Rubens Matuck

 
 

As árvores de Rubens Matuck

         Rubens Matuck é um artista plástico muito comprometido com a causa ecológica; não tenho confirmação, mas me contaram que um belo dia, incomodado com o mato que invadia uma praça da Vila Madalena, resolveu plantar árvores raras lá, por sua própria conta.

         Não sei como andam essas árvores hoje em dia, mas aqui vão algumas outras, pintadas por ele, e que podem ser vistas até dia 10 de julho no Espaço Cultural Citi (Av. Paulista, 1111), de segunda a sexta-feira, das 9 às 19 horas; e aos sábados, domingos e feriados, das 10 às 17 horas. Acesso a portadores de deficiência física pela Alameda Santos, 1146. A entrada é gratuita.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21

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Um pesadelo para Machado de Assis

 
 

Um pesadelo para Machado de Assis

Recebi (e terminei recusando) um convite simpático para colaborar no “Livro do Ano” da Barsa/Planeta, que agora tenho em mãos. Eu nem sabia que esse gênero de volumes continuava a ser publicado –atualizações anuais de enciclopédias terminam sendo difíceis de consultar, e nem preciso falar do impacto da internet sobre esse tipo de coisa.

 

Em todo caso, folhear um livrão assim me traz bastante prazer. Seções como “Quem foi notícia” constituem um conjunto de pequenos tesouros, muitas vezes escritos com grande espírito de síntese e precisão. Demétrio Magnolli faz o perfil de Barack Obama, o verbete anônimo sobre Carla Bruni e Sarkozy é muito gracioso, e há páginas compreensíveis sobre os ganhadores dos prêmios Nobel de Química e Física. Dois pontos altos: uma excelente e rápida apresentação das teorias de Lévi-Strauss, por ocasião do centésimo aniversário do antropólogo, escrita por José Carlos Rodrigues, do Museu Nacional, e Rogério de Freitas Mourão falando sobre Arthur C. Clarke.

 

Agora, quem dá mesmo uma aula é a romancista Nélida Piñon, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, num texto sobre Machado de Assis.

 

Infelizmente, é uma aula de como escrever mal. Vamos lá.

 

Rastreio a obra de Machado de Assis e indago mais uma vez quem foi este mestiço, filho de mulher branca e homem negro, pobre, de físico miúdo, epilético, tartamudo, que nasceu no morro do Livramento, em meio aos escombros urbanos, à cidade maltratada, entregue a toda sorte de malefícios.

 

É um começo retórico, algo estranho, por que a formulação da pergunta parece  mais uma resposta do que uma pergunta... mas tudo bem. “Entregue a toda sorte de malefícios” é esquisito. Quais? Tráfico de drogas, por exemplo? A autora continua.

 

E que, confrontado com o caos e as adversidades diárias, fez da própria vida pretexto para a construção de uma linguagem cujos alicerces alteraram os cânones estéticos do Brasil.

 

Que junção: “caos”, o que não é pouco, e “adversidades diárias”, o que é normal na vida de qualquer pessoa... O resto da frase desmorona no quase ininteligível. A vida dele foi “pretexto” para a “construção de uma linguagem”. Por que pretexto? Se ele tivesse escrito uma autobiografia... Ou será que a vida é o “pré-texto”? Muito bem, Machado de Assis construiu uma linguagem. Imagine-se um edifício. Está lá, construído, e em seguida serve como modelo para uma nova estética na literatura. Razoável. Mas Nélida Piñon elabora um raciocínio mais sofisticado. Machado de Assim construiu um edifício, mas só os seus “alicerces” foram capazes, não de fundar, mas de “alterar” os “cânones estéticos”, não da literatura, mas “do Brasil”.

 

As pegadas biográficas, porém, não esclarecem sua têmpera de criador e nem a modernidade de sua obra.

 

“Pegadas” capazes de “esclarecer” alguma coisa, em especial uma “têmpera”? Três metáforas de uma enfiada... Isso depois de o primeiro parágrafo dizer que ia “rastrear” a “obra”... Natural que quem rastreie a obra se confunda ao acompanhar as pegadas biográficas.

 

O percurso narrativo sobrepõe-se aos feitos do cotidiano.

 

O “percurso narrativo” não é, como se poderia pensar, o da biografia. A autora quer dizer: a obra de Machado de Assis. Mas como estava falando em “pegadas” da biografia, engatou a metáfora de um “percurso”. Entenda-se: a obra de Machado de Assis se “sobrepõe” aos feitos do cotidiano. “Feitos do cotidiano”? “Proezas do dia-a-dia”? Ou seja, a circunstância biográfica? Mas a vida dele não era “pretexto para a construção de uma linguagem”? Agora os livros de Machado se sobrepõem à biografia, de modo que a vida dele não foi exatamente pretexto para nada, a não ser que concordemos com o fato trivial, embora desmentido nas Memórias Póstumas, de que um autor precisa estar vivo para pegar da pena e do papel. Eis a conclusão do raciocínio de Nélida Piñon:

 

De forma que sua vida recôndita, que ele jamais extravasou, permaneceu encerrada no coração a sete chaves.

 

Seria estranho se uma vida “recôndita” tivesse sido “extravasada”, e não é nada estranho que uma vida “recôndita”, por outro lado, permaneça “encerrada” no coração “a sete chaves”.

 

E por aí vai.

 

Em semelhante ágora [o Rio de Janeiro], ele concentrara a mentira, a hipocrisia, as misérias diárias, o destino ficcional de seus personagens. Para tanto, auscultava-os sem se enganar com a falsa alegoria da urbe.

 

Em seguida, de “alegoria”, o Rio se torna a “metáfora do Brasil”.

 

Instala neste centro cósmico [por que cósmico? alegoria do Cosme Velho?] a memória brasileira [...] Arrola o drama narrativo com o qual antecipa a dimensão secreta do Brasil. Mas terá ele intuído, em seu aprendizado de tipógrafo, que o Rio de Janeiro seria a sua futura gesta?

 

Não, ele nunca terá intuído isso.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h18

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viciados no cartão

Um leitor reage ao meu artigo de quarta-feira para a Ilustrada (assinantes do uol podem acessar aqui), em que eu notava a dependência das pessoas de baixa renda ao crediário e ao cartão de crédito. Conheço tanta gente enforcada no cartão, aliás não só de classe baixa, que achei importante tocar no assunto, e mesmo especular sobre a eventualidade de estarmos numa espécie de “pirâmide” de endividamento no estilo americano... Claro que lá os juros estavam baixíssimos. Mas quando se pensa em baixar os juros ao consumidor, fica um certo medo: o endividamento pode aumentar mais ainda, se mesmo com juros malucos o pessoal se afunda nos carnês. Por outro lado, os juros ao consumidor podem mesmo ser mais altos do que se gostaria, não porque os bancos são gananciosos (eles são em qualquer parte do mundo) mas porque os riscos de inadimplência, aqui, devem ser levados em conta...

 

Mas reproduzo aqui a opinião do leitor, que também reflete seu lado de verdade.

 

Li seu artigo e me parece um tanto elitista. Consumir é para quem pode! Empregada doméstica não pode ter cartão de crédito? A pessoa não tem uma boa geladeira na casa. Pode pagar um X por mês e tê-la. Ou será que é melhor esperar 24 meses e pagar a vista? A idéia que você passa é mais ou menos a seguinte: Eu posso ter e não me endivido. A ralé ( como não conectar com a empregada doméstica?), se endivida e fica escrava. Devem ficar sem os bens e viver numa vida miserável para poderem fazer greve ( e “lutar pelos seus legítimos direitos”; ops, acho que já ouvi isto antes). A classe média está consumindo além da conta. O PROFESSOR ensina as pessoas como devem viver. A INTELLIGENTZIA sabe o que é melhor para o povo. Sabe até, do alto do Olimpo, que a economia americana esta enterrada. Acabou? Esta será a primeira crise da história????? Pelo amor de deus; tenha mais humildade e veja a vida real. Não que o endividamento não seja problema ou até mesmo os juros bancários, mas o enfoque...

Escrito por Marcelo Coelho às 14h03

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Espaço Catavento

 
 

Espaço Catavento

Escrevi há algum tempo sobre o estado de abandono em que encontrei o “Estação Ciência”, na Lapa. Fui com meus filhos conhecer o Catavento , outro e maior museu científico, estalando de novo no Palácio das Indústrias, antiga sede da prefeitura paulistana, em pleno Parque dom Pedro.

 

A maior sensação que o museu produz é de novidade: tudo limpo, tudo organizado, tudo funcionando. A própria descoberta daquele palácio, perdido no meio de um nó de viadutos (vá de táxi: impossível chegar de carro lá), tem algo de espantoso, como se tomássemos consciência de ter recebido uma herança milionária de um tio distante na Arábia Saudita.

 

Meus filhos (7 e 5 anos) adoraram. Justiça seja feita, também não desgostaram do Estação Ciência. Mas algumas experiências apresentadas pelo Catavento foram especiais.

 

Por exemplo, um dispositivo capaz de produzir bolhas de sabão gigantes. A criança, introduzida num aro de líquido ao rés do chão, puxa uma cordinha, que aciona uma roldana, que suspende um bambolê úmido ao redor de seu corpo, do qual se desgruda aos poucos uma película de bolha de sabão.

 

Meu filho menor adorou a brincadeira. Fiquei pensando, entretanto, qual a verdade científica que se queria demonstrar com esse negócio.

 

Fiquei pensando também, um pouco mais tristemente, que se alguém viesse me explicar o interesse científico da coisa... eu não me interessaria nem um pouco.

 

O mesmo acontece com o caso fotogênico de uma esfera de cobre, que quando tocada faz os seus cabelos se levantarem. Divertido. Dizem que isso tem a ver com eletricidade estática. Ninguém, essa a verdade, ficará mais ligado no problema da eletricidade estática depois de brincar com o aparelho.

 

Rabugices minhas. Uma grande qualidade do Catavento é justamente a de apresentar explicações sobre tudo, em pequenos cartazes ao lado de cada item exposto, e de acrescentar, num outro cartaz, informações suplementares para quem quiser se aprofundar no assunto.

 

O terrível, por outro lado, é que as crianças de hoje estão lá menos para ver, experimentar e sentir, e sim para procurar coisas que se assemelhem minimamente a um videogame. Boas explicações sobre Darwin e sobre a classificação dos vertebrados adotam essa forma de jogo de computador. São um sucesso de público.

 

Que assim seja. Também, o que eu queria? Que um museu tirasse todo o meu trabalho de entender as coisas, e ao mesmo tempo estimulasse minha curiosidade? Seria pedir demais a um preguiçoso em matéria de ciência, como eu.

 

Penso, entretanto, que o Catavento ganhará muito se criar exposições temáticas –o Pólo Norte, o rio Tietê, os morcegos— que possam fortalecer um sentido de interdisciplinaridade e de conexão com o real, bem diferentes da divisão clássica (ótica, eletricidade, magnetismo etc.) que ainda orienta o espaço da exposição.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

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magia e mentira do cinema

Não há cena mais encantadora no cinema do que esta:

 

 

Mas vejam como foi gravada na realidade, sem Julie Andrews dublar Audrey Hepburn:

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h22

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killing me softly

 
 

killing me softly

Ando obcecado, não sem boas razões, com esta música. Pego no youtube uma versão que tem a vantagem de trazer a letra junto.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h46

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pensamento sinistro

De forma surpreendente, Barack Obama voltou atrás em alguns pontos de honra de sua campanha. Resolveu impedir a divulgação de fotos mostrando maus-tratos em suspeitos de terrorismo, não quer mais suspender os tribunais militares contra estes, e diante do que fazer com os prisioneiros de Guantánamo, deu mostras de sofrer as pressões dos democratas de diversos Estados que não querem saber de tê-los em seus presídios locais.

 

Os republicanos comemoram. Para Obama, é evidentemente uma derrota. Interpreta-se sua atitude como uma espécie de “recuo sensato” diante das opiniões de algumas de suas próprias bases.

 

Para mim, pareceu um recuo súbito demais para parecer sensato. Se eu quisesse recuar, e não sou nenhum gênio da política, daria corda para um assessor ultra-liberal falar o que pensa, alimentando ao mesmo tempo opiniões contrárias dentro do meu staff. Diante da divisão, eu surgiria algumas semanas depois como o árbitro, destituindo o ultra-liberal. Assim mostraria minha sensatez, sem aparentar recuo: minhas opiniões de campanha foram mal-entendidas, talvez, mas ganharia pelo menos os louros de ter me distanciado das opiniões do ultra-liberal.

 

Não; foi tudo muito rápido. O que me leva a especulações de outra ordem.

 

Vou ficando mais velho, e ao contrário do que seria de esperar, ando mais permeável a teorias conspiratórias do que na juventude.

 

Pensei –é só uma especulação, claro—no seguinte. Imagine que Obama tenha recebido indícios de algum novo ataque terrorista nos Estados Unidos. Não saberia quando, nem onde, nem como preveni-lo. Tudo pode se resumir a alguma mensagem cifrada, a alguma informação de espionagem, sei lá.

 

A pior coisa para Obama seria relacionarem o novo ataque às suas atitudes liberais com relação a Guantánamo e à divulgação das fotos. Ele seria responsabilizado diretamente por ter permitido a eclosão de um novo ataque. Melhor, nesse caso, não abrir esse flanco, endurecer rapidamente antes que o ataque aconteça.

 

De resto, qualquer organização terrorista islâmica não faz outra coisa senão sonhar com a destruição de todos os esforços de Obama no sentido de recuperar o prestígio dos Estados Unidos.

 

Tudo isso é especulação de minha parte, claro. Há um por cento de chance de isso ser verdadeiro. Mas a vantagem de um blog não deixa de ser essa. Registrei a possibilidade. Não passa de um pensamento sinistro, à espera de contestação.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h56

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fotos de Seul

Vagabundando pela web, topei com fotos bem bacanas de um fotógrafo coreano, identificado no Flicker como "Sleeping Cow". Aqui vão:

Das lanternas multicoloridas de uma festa budista, passamos a uma imagem de mercado, quase "monocromática":

e a uma outra foto vertical, agora em cores frias, com um bonito ponto de fuga:

Escrito por Marcelo Coelho às 23h14

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líderes mundiais

Depois falam mal das besteiras de Lula. Este vídeo, de 2008, mostra a falta de jogo de cintura do primeiro-ministro Gordon Brown, diante de uma Câmara dos Comuns que parece uma classe de ginasianos. Li que ele se deu pior ainda em 2009, mas não achei o vídeo correspondente.

Eis outro exemplo dos debates entre governo e oposição na Inglaterra.

 

Tudo parece um jogo de futebol. E depende, sem dúvida, da proximidade física entre os protagonistas; outra coisa, sem dúvida, que Brasília ajudou a exterminar, com sua ideologia arquitetural do espaço.

O principal, em todo caso, é que o chefe de governo, na Inglaterra, não passa de um deputado entre os outros, entregue à sanha de seus colegas. Não sou favorável ao parlamentarismo. Imagine ter Michel Temer, ou Renan Calheiros, ou Severino Cavalcanti como chefes do governo! Mas é mais democrático, sem dúvida, ver o primeiro ministro Gordon Brown obrigado a prestar contas diante da oposição, em vez de ver um presidente pairando soberano acima do Congresso. 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h52

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canções do paraíso

 
 

canções do paraíso

De forma um pouco leviana, porque nada entendo de Bíblia, escrevi no artigo desta quarta-feira (este o link para assinantes do uol) que, apesar de ter sido criada subalternamente, a partir de uma costela de Adão, Eva foi encarregada de uma das mais nobres missões que se possa imaginar, a de dar nome às coisas.

 

Na realidade, eu estava pensando nos poemas do simbolista Charles van Lerberghe, que Gabriel Fauré musicou maravilhosamente num ciclo de canções.

 

A primeira dessas canções, “Paraíso”, começa com uma sequência de acordes ascendentes, figurando “a primeira manhã do mundo” das palavras de van Lerberghe. Apesar de irem em direção ao céu, os sons dessa música não são nada triunfantes: estão carregados de interrogação e de dúvida. A coisa só se resolverá no segundo tema desta espécie de “sinfonia vocal”, como a chamou um crítico: notas muito cheias e próximas, no piano, celebram o “rumor imenso, que contudo é só silêncio”, do mundo que Eva contempla.

 

Surge então a voz de Deus –esse Deus “de quem ela acordou”, segundo van Lerberghe. É Ele quem ordena a Eva: “vai, filha humana, e dá a todos os seres que criei um som para que sejam conhecidos.” A música, nesse ponto, parece parar, e algumas notas repetidas e piedosas afirmam que “Eva se foi, obediente a seu Senhor.”

 

Mas o dia vai passando, chega o crepúsculo, a descoberta do mundo vai se cansando “no silêncio de um sonho azul”. A voz de Eva se calou, mas tudo ainda  escuta o seu canto.

 

Em palavras, o poema de van Lerberghe já é rico em sugestões. Mas na partitura de Fauré, é alguma coisa que não gostaríamos que acabasse nunca.

 

Acabou, como se sabe: Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Mas Fauré, ao que tudo indica, nunca acreditou nessa história.

 

O que consegui achar no youtube é esta gravação, meio precária do ponto de vista sonoro, e com um pianista que parece estar lendo a partitura pela primeira vez na vida.

 

 

De resto, é uma tristeza procurar no youtube gravações boas de Fauré. A maior parte dos arquivos se dedica à parte mais conhecida da obra do compositor. Fora o belíssimo e meio inevitável "Réquiem", aparecem velhos favoritos como "Après un Rêve", op. 7, uma das canções menos sofisticadas que ele compôs, e bobagens como "Siciliana", que sempre agradam quem gosta de pirulitos e de açúcar. Uma pena, por que Fauré é muito mais profundo do que isso.

Uma exceção no youtube é o video de Vlado Perelmutter tocando uma das últimas obras de Fauré, o noturno no. 13. Mas Perelmutter estava um bocado velho quando gravou isso, e engole algumas notas enquanto mastiga a dentadura:

 

Fico contente, todavia, sabendo que uma das obras mais bonitas e acessíveis de Fauré, seu "Cantique de Jean Racine", está entre os favoritos do youtube. Ponho um dos links aqui. Vale a pena ouvir.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h49

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ingênuos, mas não tanto

 
 

ingênuos, mas não tanto

Na série de cartazes populares e figurações rústicas, de que tenho descurado há algum tempo, podem-se encontrar verdadeiros tesouros no site da galeria Jacques Ardies, dedicada à arte “naïf”. Certamente, alguns pintores exageram na dose, forçando a nota idílica e pastoral.

 

Gosto mais dos que prentendem retratar a realidade urbana, transfigurando-a com olhos e cores de quem conhece as paisagens do interior. É o caso de Cristiano Sidoti, nascido em 1976, aqui em São Paulo mesmo.

Ele pinta a Barra Funda como se tudo fosse uma quermesse de prédios. Não é preciso abstrair bandeirinhas, como Volpi, para ser interiorano (e crítico) ao retratar a modernidade brasileira.

 

Também paulistana, a pintora Luciana Mariano é ainda mais crítica, e renova com inteligência perversa as tradições da arte “naïf”.

 

Todo pintor naïf, afinal, procura retratar o “humano” das coisas. Se a arte moderna foi, segundo Ortega y Gasset, “a desumanização da arte”, o “naïf” pode ser entendido como uma busca quase desesperada pelo reconhecível, pelo sentimental, pelo imediato na figuração. Pois bem, Luciana Mariano usa a linguagem do naïf para buscar o “desumano”, o “estranho”, na sua pintura.

 

 

Sem dúvida, Magritte apostou no realismo da linguagem para transmitir inquietações no espectador. Luciana Mariano faz um jogo parecido, e talvez, a meu ver, mais inteligente: usa a linguagem do naïf para transmitir uma ausência do sujeito “humano”, sem que lhe seja necessário recorrer aos truques visuais e imaginativos de Magritte.

 

A “humanidade” volta com tudo nos quadros de Zé Cordeiro, nascido em São Paulo em 1942, que expõe prostitutas de rua numa pintura direta e habilíssima. Em “As Meninas do Sodré” vemos três mulheres retratadas de frente, numa calçada.

 

É como se o pintor, mostrando-as assim, imitasse o próprio oferecimento delas ao freguês. Acentua o volume dos joelhos e das coxas; não estamos aqui diante de um pintor tão “naïf” a ponto de reduzir tudo a duas dimensões apenas. Mas a explicitude corporal das três figuras se cerca de sutilezas. O olhar de cada uma, por exemplo: só a aparentemente mais velha das três (vemos pelas olheiras) encara o espectador de frente. Enquanto isso, no fundo do quadro, outras coisas acontecem.

(O senso do “acontecimento”, aliás, é típico do “naïf”, a começar de Brueghel). Um homem está fazendo xixi, do lado esquerdo do quadro. O leão de chácara aparece, de pernas abertas, na entrada da boate.

 

E que ciência de cores vemos no quadro de Zé Cordeiro! Tudo é ao mesmo tempo descombinado e se combina. Na mulher da direita, roxo e verde, azul e branco, o amarelo do cabelo e o vermelho das rosas do estampado, funcionam maravilhosamente, apesar de sua tensão interna, que dirige o olhar do espectador à direita, onde uma figurinha de branco lhe propõe uma espécie de venal alívio. Um pintor como esse é “naïf” (ingênuo) só no nome.

 

Waldomiro Sant’ Anna, nascido em 1952 em Itápolis, e professor em instituições universitárias, joga um jogo mais arriscado. Possui a técnica dos volumes, das profundidades, das luzes –coisa que muitos artistas na galeria Jacques Ardies ignoram, voluntariamente ou não.

 

O espetáculo da prostituição de rua, que víamos tão explícito em Zé Cordeiro, adquire veladuras de boate em Waldomiro Sant’ Anna.

 

 

Como não admirar a graça da curvatura da figura de costas, na extrema direita do quadro? Repare, ao mesmo tempo, nas mãos da mulher de vermelho: uma espécie de agressiva inabilidade está em pauta nas atitudes do pintor. Inteligente a luz azul no canto superior esquerdo do quadro.

 

Seria Waldomiro Sant’Anna um pintor “naïf”? Aí intervém a importância dos rótulos. Se ele se apresentasse como um artista sério e informado, seus quadros seriam desprezíveis, talvez. Como “ingênuo”, ele se torna monumental. Sua geometria lembra Boccioni, sua rigidez lembra Baldus. Reparou no cachorrinho escondido debaixo de um canapé? Também o xadrez geral da pintura alude aos mestres holandeses.

 

Ingênuo, naïf, é a mãe. Esses artistas são de uma inteligência fora do comum.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h25

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praga dos e-mails

Ando cansado de receber os mesmos spams me avisando de uma gorda herança na Nigéria, sem contar as habituais “prestações de contas” (nunca se mencionam gastos) de vereadores, deputados etc, de quem nunca ouvi falar. Há também aquelas mensagens que começam com “Dear Friend”, e seguem num inglês macarrônico, do tipo: “We a famous industry in Taiwan about computers and many eletric discount goods very interested selling products...” A todo momento, também,  me incluem em “grupos de discussão” supostamente do meu interesse (os que esbravejam sobre política cultural e lei rouanet são dos mais ativos).

 

De modo que recebi esperançoso um e-mail, cujo teor reproduzo aqui.

 

 

Participe de um Mail-Grupo diferente

Convidamos você a participar gratuitamente do Grupo CANAL 49 - AÇÃO MENTAL INTERPLANETÁRIA, que recebe, pesquisa e estuda Mensagens e Ensinamentos Científicos e relacionados com os poderes da Mente Humana, transmitidos por Seres Espaciais em missão na Terra, cuja base de pouso e decolagens se situa na Cordilheira dos Andes (Peru).

Dispomos de um vasto acervo acumulado durante mais de 30 anos por um brasileiro que com eles conviveu por seis meses, tudo o que viu, ouviu e recebeu, e assumiu o compromisso de divulgar a todos os terrestres o que lhe foi confiado; são revelações e ensinamentos de seu interesse e de toda a humanidade

Nos responda SIM no campo ASSUNTO deste mesmo e-mail e nos envie de volta. Este ainda é um pré-cadastro pois dentro de alguns dias você receberá o formulário apropriado para confirmar seu cadastro e  se integrar ao grupo.

O funcionamento é semelhante ao dos diversos grupos existentes na Internet , é totalmente gratuito, e você pode se retirar do mesmo quando quiser.

Carlos - Moderador do Grupo

 (caso não queira receber mais nossos e-mails, responda REMOVER no campo ASSUNTO)

 

(Gostei do “gratuitamente” da frase inicial).

Não removo do campo ASSUNTO não, podem mandar bala.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h04

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desenho e escrita

É muito estranho, pensando bem, que existam tão poucas formas de escrita baseadas em desenhos reconhecíveis. Só conhecia, na verdade, os hieróglifos do Egito. Mas se alguém fosse inventar, na aurora dos tempos, uma forma de escrever, parece-me natural que sua primeira ideia fosse recorrer a pequenos desenhos esquemáticos; inventar signos que correspondam a sons me parece um lance genial, e um feito de abstração que só deveria ter surgido na mente de alguém depois de muitas tentativas com desenhos... Os homens do passado, entretanto, não eram tão ingênuos como gostamos de pensar.

 

Em todo caso, topei na internet com outro tipo de “hieroglifos”, de uma antiga etnia chinesa –e com sua tradução para os caracteres chineses, numa espécie de pedra da Roseta manuscrita, datada do século 10. É bonito de ver. e narra um mito da criação do mundo:

 

mais explicações em http://bibliodyssey.blogspot.com/

Escrito por Marcelo Coelho às 23h47

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"Modernismo", de Peter Gay

 
 

"Modernismo", de Peter Gay

         No “Mais!” deste domingo (aqui o link para assinantes), escrevo uma resenha bastante negativa de “Modernismo”, livrão de Peter Gay com tantos defeitos de organização, tantas omissões, tanta preguiça teórica, que só apontar o que havia de errado ocupou todo o espaço previsto para a resenha.

         Vale notar, aqui, uma das teses principais do livro, que não deu para mencionar no “Mais!”

         Muito da argumentação de Peter Gay se dedica a demolir o mito, especificamente modernista, de que existia uma vanguarda em confronto com a burguesia de seu tempo, sofrendo terrivelmente, portanto, o preço da miséria e do escândalo.

         Gay considera que os burgueses de 1910-1920 não eram tão maus assim, e que todos os artistas inovadores, a começar de Monet décadas antes, tiveram grandes mecenas e compradores. Cita um punhado deles.

         Certamente, depois de uma juventude difícil, os artistas modernos muitas vezes ficaram milionários. Numa abordagem meio a olho, pode-se dizer que Peter Gay tem razão, mas cada vez mais sou cientificista nesse gênero de considerações. Ou se faz uma estatística bem abrangente das quantias, dos compradores, do gênero de obras compradas, dos artistas que enriqueceram ou que morreram na miséria etc., ou tudo fica entregue a um jogo de nuances que o historiador X pode carregar mais ou menos do que o historiador Y.

         Em todo caso, há um exemplo em “Modernismo” que compromete bastante a tese de Peter Gay. Ele quer mostrar que, ao contrário do que dizem, a música de Stravinsky não produzia o escândalo a que até hoje está associado o nome do compositor.

         Claro, houve a grande gritaria do público na estreia de “A Sagração da Primavera”, em 1913. Mas Peter Gay lembra o caso de um balé, também composto por Stravinsky, ainda mais esquisito e dissonante, que teve sucesso consagrador logo na estreia –fato espantoso, diz o historiador.

         Trata-se do balé “Agon”. Mas estreou em 1957!! Espantoso seria se criasse o mesmo escândalo ocorrido com a “Sagração” em 1913... Em 1957, Stravinsky já era um velhinho cercado de respeito e santidade, e qualquer coisa que estreasse ganharia o aplauso do público, por ser do grande Stravinsky...

         Eis um historiador que não diferencia as circunstâncias de 1913 das de 1957... boa chave, aliás, para entender seu absoluto desinteresse pelo fenômeno do pós-moderno. O livro “Modernismo” depõe muito contra a fama de Peter Gay.

"Agon" (só a música) no youtube.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h00

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Arthur Honegger

 
 

Arthur Honegger

O século 20 não ajudou muito os compositores cujo nome começa com H. Hindemith, Honegger, Hans-Werner Henze foram considerados grandes durante certo tempo, mas terminam com fama de pesadões, meio acadêmicos na ênfase do contraponto: espessos e chatos, enfim.

 

Arthur Honegger é sempre lembrado como um dos membros do “Grupo dos 6”, junto com seu amigo Milhaud, além de Poulenc, Auric, Durey e Tailleferre. Mas, enquanto os outros cinco eram leves, meridionais, ensolarados (exceção feita a Durey, por ser completamente obscuro), Honegger sempre foi o “germânico” da turma, sem nada que o aproximasse da estética multicolorida dos demais.

 

Honegger é lembrado por sua peça sinfônica “Pacific 231”, que imita (não muito literalmente) o mecanismo de uma locomotiva. Fora isso, sua obra está entre aqueles clássicos “tarja preta” a que andei me referindo em alguns posts deste blog de algum tempo atrás.

 

Confesso que suas sinfonias 2 e 3, regidas por Herbert von Karajan, pesam como bigornas em cima de minha pobre cabeça, desde que me decidi a comprar o CD. Tinha lido um artigo colocando esta gravação entre as dez melhores do século 20, ou coisa que o valha. Mas não me dediquei muito a escutá-lo.

 

Ouço agora, graças à Naxos music library, os 4 cds do selo “Timpani”,  especializado em música francesa moderna, com a obra de câmera completa de Honegger. Tenho explorado bastante esses discos, sem me chatear, e cada vez prestando atenção num movimento ou num trecho em especial.

 

Tudo tem uma certa aspereza confortável, como a que se sente pisando descalço um tapete artesanal. Há momentos de nobreza rústica, e de alegria meio travada, semelhante a uma fruta que “pega” na boca. As descrições que faço poderiam se aplicar às obras, muito mais acessíveis e luminosas, de Milhaud. É como se fosse a mesma coisa, com uma paleta diferente: os verdes, turquesas, amarelos e carmins de Milhaud se tornam em Honegger marrom, chumbo, roxo e ferrugem, mantendo ainda, grossa como carvão, a nitidez do desenho.

 

Mas quem começa ouvindo a sonata para violino e piano no. 1, por exemplo, encontra logo uma virtude bonita, a da decisão, dentro de uma estrutura que, apesar de clássica, parece ir “a contrapelo” dos ouvidos. A sonata para violino solo é um exercício bachiano, impregnado da virilidade moderna –um Bach sem peruca.

 

Sem que tenha o oxigênio, o ar marítimo de Milhaud, a música de câmara de Honegger faz igualmente bem para o espírito. Espinafre, agrião, grapefruit: você sabe que não está tomando champanhe nem comendo pão com manteiga, mas sai de alguma forma vivificado da experiência.

 

Difícil encontrar música mais “musculosa”, mais feliz em plena tensão, do que o primeiro movimento do Quarteto no. 1, que todavia termina não em força triunfal, mas numa espécie de certeza do abandono. Segue-se um movimento lento que é puro “alongamento” muscular. Estamos, sem dúvida, numa academia, mas o que há de esforço nisso faz um bem danado.  Segue-se um terceiro movimento dos mais agressivos; parece Roussel, mas com um ar de ainda menos amigos. Não, não se oferece aqui uma superação musical daquilo que, nesse movimento, surge como ímpeto de força bruta. Talvez Honegger não quisesse transcender esse impulso vital, que é o de toda a sua música. Quando Villa-Lobos, um compositor parecido com ele, se arroja nessas veemências, podemos desculpá-lo, ou entendê-lo: tornou-se porta-voz de uma grandeza geográfica, de uma potência latente da nação brasileira. Honegger, aqui, está sendo apenas porta-voz de alguma coisa que não se sabe bem o que é.  

 

Obviamente, a saída para esse tipo de dilema é a religião: o uníssono que a religião assegura. O Quarteto número 1 termina com um coral mais lento, não direi feliz, nem mesmo apaziguado, mas dotado de lógica e de sentido, e humanamente satisfatório. As dúvidas continuam na cabeça do ouvinte, mas talvez sejam questão de pormenor.

 

 Uma bonita edição de imagens acompanha, neste video do youtube, "Pacific 231", de Honegger.

 Observe-se que o fato de imitar barulhos de trem não é um feito composicional extraordinário. Eis o que faz um arranjo popular, paradoxalmente celebrando a mesmice de Paris, em 1939, poucol tempo antes de os nazistas tomarem conta da cidade.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h53

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cartas de amor (2)

 
 

cartas de amor (2)

A propósito de um post anterior, sobre o livro Para sempre –50 cartas de amor de todos os tempos, lembrei-me de um célebre texto do romântico François-René de Chateaubriand, que acumulou muitas conquistas amorosas ao longo de seus oitenta anos de vida. Trata-se de uma passagem de seu último livro, uma biografia do Abade Rancé, fundador da ordem dos trapistas.

 

...é possível que uma correspondência particular entre duas pessoas que se amaram ofereça algo de ainda mais triste; pois o que vemos não são mais os homens, mas o homem.

 

De início, as cartas são longas, vivas; multiplicam-se; o dia não lhes basta: escreve-se ao pôr do sol; traçam-se algumas palavras ao luar,  incumbindo seu brilho silencioso, discreto e casto de cobrir mil desejos com seu pudor. Separamo-nos ao nascer do dia; do nascer do dia esperamos a primeira luz para escrever o que acreditamos ter esquecido de dizer. Mil juras cobrem o papel, onde se reflete o rosa da aurora; mil beijos se jogam sobre as palavras que parecem nascer ao primeiro olhar do sol; nenhuma ideia, nenhuma imagem, nenhum devaneio, acidente ou inquietude que não tenha a sua carta.

 

Eis que, certa manhã, algo de quase insensível desliza sobre a beleza daquela paixão, como a primeira ruga na fronte da mulher amada. O sopro e o perfume do amor expiram nessas páginas de mocidade, como uma brisa adormece à tarde sobre as flores; é o que percebemos, mas não ousamos confessar. As cartas se abreviam, diminuem em seu número, se preenchem de notícias, de descrições, de coisas de outra ordem; algumas cartas chegam com atraso, mas não há como se inquietar por isso; na certeza de amar e de estar sendo amados, ficamos mais tranquilos; não reclamamos, estamos conformados com a ausência. As juras seguem sempre seu caminho; são sempre as mesmas palavras, mas morreram; não têm mais alma: eu te amo nada mais é que uma expressão habitual, um protocolo gentil, o cordialmente de toda carta de amor. Pouco a pouco o estilo enregela, ou se irrita, e o dia do correio não é mais impacientemente esperado; é temido; escrever vira fadiga. Coramos em pensamento a respeito das loucuras confiadas ao papel; gostaríamos de reaver as cartas para jogá-las ao fogo. Que sobreveio de tudo? Será uma nova ligação que começa ou uma velha que termina? Não importa: o amor morre antes do objeto amado. Temos de reconhecer que os sentimentos do homem se expõem ao efeito de um trabalho oculto; febres do tempo, que produzem o cansaço, dissipam a ilusão, minam os transportes e mudam os corações, como mudam nossos cabelos e nossos anos. Contudo existe uma exceção a essa enfermidade das coisas humanas; ocorre por vezes que numa alma forte o amor dura o bastante para se transformar em amizade apaixonada, para tornar-se um dever, para adquirir as qualidades de uma virtude; é assim que perde sua transitoriedade natural e vive de princípios imortais.

UOL Busca François-René de Chateaubriand

Escrito por Marcelo Coelho às 17h46

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solidariedade e chuvas

Pode ser só impressão minha, mas não vejo tanta rapidez nos movimentos de solidariedade às enchentes no Nordeste, em comparação com o que ocorreu recentemente em Santa Catarina. Seria preciso comparar vários fatores --o número de vítimas, o quanto os estragos foram súbitos-- antes de chegar à conclusão mais tentadora: a de que o Sudeste liga menos para o Norte e Nordeste do que para aqueles, parafraseando Lula, loiros de olhos azuis. Fico preocupado com essa eventualidade. Claro, uma tragédia numa cidade de porte médio, como as do Vale do Itajaí, pode ser fotografada, televisionada, etc., com mais facilidade. Há mais problemas de acesso (e uma relativa escassez de material) quando a tragédia ocorre em comunidades longínquas, ainda mais isoladas pela chuva. Também o caso compete com as notícias da gripe suína. São muitos fatores, ainda em curso, para quem sabe uma pesquisa a ser feita por estudantes de Comunicação.

Em todo caso, aqui vai o link da Globo para quem quiser fazer donativos. Pouquíssimos lugares em São Paulo, pelo que vejo.

http://acaoglobal.globo.com/TVGlobo/Projetos_Sociais/Informativo/acaoglobal/CDA/tvg_cmp_acaoglobal_pop/0,29859,,00.html 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h52

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cartas de amor

 
 

cartas de amor

Pedem-me para escrever, na “Ilustrada”, sobre uma antologia de cartas de amor, organizada por Emerson Tin para a editora Globo. De Cícero a Cruz e Sousa, tendem a ser repetitivas, e não é sempre que encontramos o talento de um escritor nas linhas de quem está apaixonado. Uma exceção é Eça de Queiroz, que não perde o dom da caricatura quando reclama (no maior lugar-comum de todo apaixonado) da falta de cartas de sua escolhida. Ele estava em Londres, em 1885, quando escreveu para Emília Pamplona, com quem se casaria no ano seguinte. Transcrevo um trecho.

 

 

 

Se –Jesus, que difícil e embaraçadora é a língua portuguesa para duas pessoas que ainda não se tratam por tu e que não podem decentemente tratar-se por você!—Se si fosse mais caridosa ter-me-ia já escrito. Não por minha causa, oh não! Mas por causa da chamber-maid. É uma alemã, toda gorda e toda redonda que não deixa de ter uma lamentável parecença com um chouriço de Strasburgo. Como há em Londres uma distribuição de cartas quase cada hora –eu obrigo-a cada hora, por um violento puxão à campainha, a rolar-se dificilmente a si mesma escada acima. Bate à porta já a tremer e a arfar. “Come in!” – “Yes, sir.” Com a maior polidez a que me posso forçar, pergunto se não há carta para mim. Não há. E a infeliz patrícia de Goethe lá rebola, como pode, pela escada abaixo –mas ainda ela não chegou ao último degrau, já eu calculando que passou outra hora, me dependuro de novo no cordão da sonnette. Nova, laboriosa, ofegante ascensão do chouriço. “Are you sure there are no letters?” – “Ya, shour not”. Isto quer dizer, na sua linguagem bárbara –“Yes, sure not”. E esta luta prolonga-se pelo dia adiante. Lamente a pobre criatura –e escreva-me para que ela não venha a perder as boas cores e o gosto à vida, neste incessante trepar e rolar por uma íngreme escada inglesa.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h16

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voltaire de souza (2)

Outros textos recentes do cronista do "Agora".

SHOW DE BOLA

 

 

A obesidade entristece muitos lares brasileiros.

Rejane dava um suspiro.

--O Carlos... quando eu casei com ele, era um gato.

Os anos se passaram.

--Olha ele agora. Um gordão.

Carlos enfrentava, com efeito, alguns problemas de sobrepeso.

--Não enche, Rejane.

Ele saiu da cozinha com várias coisas na mão.

Latinhas de cerveja. Pacotes de salgadinho.

--Mas você acabou de almoçar...

O motivo era nobre. Um jogo importante do campeonato estadual.

Carlos era corinthiano. E tinha confiança no time.

--Olha aí... olha aí... golaço!

No entusiasmo, Carlos abraçou Rejane com paixão.

O fim do jogo foi o início de outra majestosa porfia.

Rejane diz que o marido é show de bola.

No futebol e no amor, excesso de peso pode não ser problema.

O que conta é o desempenho em campo.

 

OUTRAS CULTURAS

 

 

Abuso. Irregularidade. Sem-vergonhice.

A farra das passagens aéreas corre solta no Congresso.

O famoso deputado Propício de Albuquerque estava preocupado.

--Essa mamata vai acabar.

Protestos. Denúncias. Notícias.

--Temos de aproveitar antes que seja tarde.

Reuniu a parentada em sua mansão no Lago Norte.

--Façam seus pedidos. Para onde vocês querem viajar?

Num bloquinho, ele anotava tudo.

--Cinco passagens para Miami... Paris, onze...

O sobrinho adolescente de Propício era criador de caso.

--Calma aí. A vovó já foi cinco vezes para Miami. E eu não fui nenhuma.

--Cala a boca, moleque.

--Injustiça, pô. Na minha idade, preciso conhecer outras culturas.

Propício fez anotações em silêncio. Dias depois, tudo estava resolvido.

O sobrinho ganhou passagem de primeira classe. Para o México.

Lugar de muita cultura. E onde uma epidemia de gripe elimina os mais fracos.

Mas quem vive no mar de lama não teme enfermidades suínas.

 

VINGANÇA SEM PALAVRAS

 

 

 

Medo. Pânico. Precaução.

A gripe suína tira o sono dos brasileiros.

Ademar curtia uma feijoada.

--E aí? Será que eu posso comer?

A mulher dele se chamava Edite e fez cara de desprezo.

--Você é burro mesmo, hein.

Já está esclarecido: a gripe se transmite pela tosse. Pela saliva. Pelo espirro.

Mas não pela lingüiça. Pela carne-seca. Pelo torresmo.

Sabadão. Ademar saiu com os amigos.

A feijoada foi até as oito da noite.

O obeso pai de família desabou na cama da suíte.

A mulher foi se deitar no horário de sempre.

A cerveja. O feijão. A caipirinha.

Os roncos de Ademar tinham alcance quilométrico.

--Acorda. Seu porco. Seu suíno.

Da boca aberta do marido, micróbios saíram numa vingança sem palavras.

Edite foi internada com gripe forte. Estado de observação.

Vacinas previnem a gripe. Mas não há cura para a falta de amor.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h10

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voltaire de souza

Algumas crônicas publicadas recentemente no jornal "Agora".

 

NO FIM DO TÚNEL

 

 

Violência. Desrespeito. Agressão.

No Rio de Janeiro, passageiros de trem são vítimas da barbárie.

Seguranças dão pontapés. Murros. Chicotadas.

O clima estava tenso na estação. Muita gente disposta ao quebra-quebra.

Rojões e armas leves estavam nas mãos de alguns usuários do serviço.

--Bateu, levou.

Quem dizia isso era o Salviano.

Rapaz do morro. Consciente de seus direitos e de sua dignidade.

O segurança Brandão tinha pouca paciência com esse tipo de conversa.

--Couro no lombo desses baderneiros. E é pra já.

O enfrentamento ia acontecer. Mas naquele momento fez-se um estranho silêncio na estação. Um homem alto apareceu lentamente. No fim do túnel.

Roupa branca. Barba espessa. No pescoço, o nó de uma grossa corda.

--Tiradentes? Será possível?

--Mais vidas eu tivesse... mais vidas eu daria....

Brandão largou o chicotinho. Salviano cantou o hino nacional.

E soltou o rojão em homenagem aos mártires do povo.

Um trem de subúrbio é como corda de enforcado. O aperto não traz bons resultados.

 

DE PRIMEIRA CLASSE

 

 

Roma. Londres. Paris.

O charme da velha Europa fascina os brasileiros.

Dona Terezinha ia completar oitenta anos.

Filhos. Netos. Uma vida feliz.

Mas seu maior sonho ainda estava para se realizar.

--Conhecer a Europa. Como eu queria...

Um de seus netos se chamava Ubiratan.

E trabalhava como assessor parlamentar.

Passagens aéreas não são problema para quem tem amigos no Congresso.

--Vovó. Antes do seu aniversário, eu prometo...

O coração da anciã bateu mais forte.

--Você vai de primeira classe.

Dona Terezinha se preparava aos poucos para a viagem.

Veio o telefonema. Urgente.

--Vovó. É agora ou nunca. Vão tirar as passagens de todo mundo.

A boa senhora se apressou. Malas. Valises. Casaquinhos.

A dor no peito. O enfarte fulminante. De primeira classe foi seu funeral.

A morte é como passagem aérea. Pessoal e intransferível.

 

MODOS XUCROS

 

 

Equilíbrio. Serenidade. Moderação.

É isso o que deve prevalecer nos tribunais.

Na Alta Corte de Apelações, o clima era tenso.

No banco dos réus, o famoso e desonesto banqueiro Ruizito Valadares.

Os juízes divergiam no caso. O debate foi ficando sério.

--Vossa Excelência... é uma cavalgadura togada.

--Me respeite. Fartei-me de seus modos jagunços, Excelência.

Um terceiro juiz tentou acalmar os ânimos.

--Arrém. Arrém. Encerremos a sessão...

--Assim que me pedirem desculpas.

--Não se desculpam os chorrilhos dos mais xucros.

--Não será Vossa Excelência quem me dará lições de montaria.

--O que disse? O que disse?

Togas se agitaram. Punhos se fecharam. Microfones levaram sopapos.

Quando a sessão foi encerrada, já era tarde demais.

O banqueiro Ruizito Valadares escapara por uma porta lateral.

E já está em Miami. Com passagem paga pelo Congresso.

A Justiça é cega. Mas, por vezes, também deveria ficar surda e muda.

 

 

PAPO PAPAL

 

 

Paixões. Impulsos. Mulheres.

Na vida, são grandes as tentações de um homem.

Fernández Moros era um importante político latino-americano.

--Libertad para el pueblo. Luchando siempre.

Era conhecido seu interesse pelos movimentos de base.

Desde os tempos em que Fernández era bispo na região de Cochabamba.

Depois, a política. O governo. As responsabilidades de Estado.

Em seguida, os escândalos. Filhos. Crianças. Bebês.

--Papá. Papá. Padrecito.

Durante a vida eclesiástica, Fernández se dedicara ao amor.

--Solamente una vez... la noche en que me quieras...

Agora, o remorso. A angústia. A crise de consciência.

--Esta noche me emborracho.

Juntou uísque e muita oração. Fechou os olhos.

Uma visão severa surgiu à sua frente. A mitra. O báculo. A batina branca.

Os sapatinhos vermelhos. Era o Papa Bento 16. Com um único conselho.

--Ferrnántêss. Sua pêsta qvadrrado... Téin te uzarre o kamitsínia. Si non, dá probrrema.

Certas conclusões são como filhos. Só aparecem depois de muito tempo.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h08

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Vírus e filhos

 
 

Vírus e filhos

 

Comento rapidamente, no artigo da próxima quarta-feira, o livro do médico Stefan da Cunha Ujvari, A História da Humanidade Contada pelos Vírus (ed. Contexto). Vai transcrito aqui um trecho perturbador. Versa sobre a utilidade de vírus anteriormente letais.

 

 

Após ocorrer a fecundação (...) a futura célula que formará o feto inicia sua migração para a cavidade uterina. No mesmo instante em que as divisões celulares caminham a passos largos, já no útero algumas células iniciam a formação da placenta. Ela formará nutrientes e oxigênio para o crescimento do futuro feto. Algumas células se proliferam e se infiltram no interior da parede uterina.

(...) Aqui entram em ação alguns genes pertencentes aos retrovírus endógenos.

         No passado esses genes eram responsáveis pela produção de proteínas responsáveis pela fusão do vírus à célula invadida. Esses genes auxiliavam o ataque viral e introdução do seu material genético na célula. Hoje, esses antigos e agressivos vírus estão incorporados em nosso DNA. Seus genes comandam a produção de proteínas liberadas nas células enraizadas na parede uterina.

 

É como se nenhuma vida nova fosse independente de um princípio de morte. Como se cada gravidez fosse, em última análise, um câncer. Vivemos para criar novos seres como nós, e morremos nesse processo.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h34

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relativismo corporal

Para quem gosta de elogiar a sensualidade única da mulher brasileira, vale dar uma olhada no que faz a bailarina russa Ulyana Lopatkina, dançando "Sherazade", de Rimsky-Korsakov. O link está aqui.

No fundo, sensualidade, como qualquer outra coisa, é 90% questão de técnica.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h03

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taxistas e contos de fada

 
 

taxistas e contos de fada

         Fui ver com meus filhos a exposição inspirada em contos de fadas no Centro Cultural Banco do Brasil. “Era uma Vez... Arte Conta Histórias do Mundo” é um belo trabalho de curadoria de Kátia Canton, reunindo ilustrações muito originais para “Chapeuzinho Vermelho”, “A Roupa Nova do Rei” e “O Patinho Feio”, por exemplo, ao lado de gravações, disponíveis em fones de ouvido, de histórias africanas ou italianas.

         Para as crianças, ou pelo menos para as minhas, de 7 e 5 anos, a exposição entretanto não deu certo. Meu filho maior, aliás, tem um certo trauma de exposições, desde que viu há algum tempo na Pinacoteca um vídeo que focalizava uma boca enorme, pronunciando palavras que ele não compreendia. Ficou com um medo enorme dessa boca, e não pode ouvir falar de novas visitas à Pinacoteca.

         O menor é muito agitado, aproveitando qualquer espaço de museu para correr como um adoidado.

         De qualquer modo, uma coisa ajudaria o sucesso da exposição no CCBB entre as crianças. Seria preciso colocar os quadros a uma altura um pouco mais compatível com a estatura dos pequenos visitantes. Crianças menores têm dificuldade em ver o que está pendurado na parede.

         Mais instalações e menos quadros, quem sabe, funcionariam melhor. Uma instalação de Luiz Hermano, no subsolo do prédio (onde ficava o cofre do Banco, como se pode ver pelas pesadas portas de ferro que se preservaram), traz alguma sensação de aventura para as crianças. Os adultos, entretanto, não estarão enganados se a considerarem meio feia, desajeitada, incapaz de criar o clima que pretende.

         De todo modo, o passeio valeu a pena. Meus filhos puderam conhecer o centro da cidade, totalmente vazio no feriado, com seus prédios cerrados apontando para o céu. Reencontrei, no meu filho menor, uma experiência de infância: a de olhar para o alto, enquanto nuvens corriam rápidas num dia de vento, e ter a impressão de que os edifícios se moviam.

         Um capítulo à parte merecem os motoristas de táxi a que recorri no passeio, incapaz que sou de chegar na rua Álvares Penteado de moto próprio.

         Na ida, o chofer do ponto perto de casa contou uma tentativa de assalto de que foi vítima nesta semana. O assaltante tinha 74 anos! Entrou no carro, com o braço esquerdo na tipoia, enquanto a mão direita empunhava uma faca.

         “Esse aí eu encaro”, raciocinou o taxista, travando o braço do passageiro com uma mão, abrindo a porta do carro com a outra, e jogando com os pés o assaltante para a humilhação do meio-fio.

         O bandido septuagenário foi arrojado à calçada no exato momento em que uma senhora saía de sua residência. Ela interpelou o taxista: como o senhor faz isso com um homem de idade? O taxista invocou sua condição de vítima. A mulher exultou: envolveu-se numa perseguição ao pobre velho (demente, talvez?) até que ele desaparecesse de vista.

         Na volta, peguei um táxi cujo motorista rememorava seus feitos de antigo praticante de artes marciais. Participaria de um campeonato paulista de caratê, mas seu peso estava abaixo do prescrito para a categoria em que se inscrevera.

         “Nenhum problema”, foi o seu raciocínio na época. “Entro num bar, tomo três litros de água, e na pesagem fico com o peso certo.” Urinaria depois, e participaria do desafio.

         Pelo que entendi, um dos organizadores do campeonato se opôs ao plano. Sucedeu-se uma exaltada discussão. Os dois, sem entrar em nenhum tatame, passaram às vias de fato.

         O motorista de táxi sorria para mim. “Adivinha quem ganhou a luta?” Fiz a cara de quem sabia que tinha sido ele.

         Meus filhos, com outros dois amiguinhos, se engalfinhavam no banco de trás.

         Voltei para casa pensando que cada adulto, em especial se for homem, e mais ainda se for motorista de táxi, está imerso em seu próprio conto de fadas.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h22

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dois realismos

 
 

dois realismos

Verdade e realismo

 

 

O escritor Mário Araújo, prêmio Jabuti de 2006, na categoria Contos e Crônicas, publicou no ano passado um belo livro pela Bertrand Brasil, intitulado “Restos”.

 

Eis como começa.

 

         Andamos, eu e o zelador, pelas aleias floridas, até a quadra 23. Ele começou a escavar a parede. Cresci ouvindo dizer “que a terra há de comer”, mas agora não havia mais terra nem nada. Era habitação vertical até para quem já morreu. 

         Perguntei-lhe o nome. Ele me disse que se chamava Marcílio, e eu fiquei perturbado. Marcílio era o nome do meu avô.

         O Marcílio diante de mim mantinha o cigarro no canto da boca enquanto lutava para remover os tijolos.

         “Esse cigarro não faz aumentar o cansaço?”, perguntei, puxando conversa.

         Após alguns segundos em silêncio atrás da fumaça que subia, ele resmungou: “Faz é descansar mais rápido”.

 

Trata-se de ótima prosa realista, que irá evoluir, ao longo do conto, na descoberta dos restos mortais de alguns parentes do narrador, na rejeição do coveiro diante da possibilidade de exumação, e na esplêndida frase final:

 

Abaixei-me e vi, no espelho, que meu rosto era uma síntese de elementos que não existiam mais.

 

Passemos a esta outra forma de realismo, a de Marcelo Mirisola, no livro Animais em Extinção. Cito o início do livro.

 

         A mesma situação de 1993. A diferença é que naquela época eu tinha 27 anos, meus pentelhos ainda não haviam embranquecido, e a vista era de frente para o mar.

         Naquele final de ano eu acreditava na biologia. Tinha o tempo da espera e ainda não havia me desencantado comigo mesmo. Um cara assim, nesta situação, digamos, de passaporte carimbado –agora entendo—está “apto” para amar e para acreditar nesse sentimento.

         A situação em si mesma é um desastre consumado, e o termo “apto” é quase um xingamento, mas não encontro outro que combine ou conjugue melhor a expectativa do devir com a breguice genética de querer ser feliz. Portanto, acreditar na biologia era para mim acreditar no amor. Era estar encantado.

 

Mantenho a isonomia de linhas nas duas citações. São suficientes para se distinguir entre duas formas de realismo. O primeiro, de Mário Araújo, é um realismo “de fora”; a fidelidade ao que acontece não envolve o narrador, ainda que este ocupe a primeira pessoa. O segundo realismo, de Marcelo Mirisola, é um realismo “de dentro”: o narrador se confunde com a primeira pessoa, e ocupa, por si só, o centro do espetáculo –enquanto Mário Araújo deixa o espetáculo correr diante dos olhos do leitor.

 

Qual dos dois realismos é melhor? A meu ver, o de Marcelo Mirisola: é mais verdadeiro, e ao mesmo tempo mais literário, no sentido de fazer de si próprio, da própria escrita, o palco dos acontecimentos. Pode-se dizer, entretanto, que o realismo de Mário Araújo é mais artístico: afasta-se do confessional, reelabora uma experiência que sai em jorro no texto de Mirisola.

 

Mas –última pergunta—será realista o texto que reelabora uma experiência direta?

Por outro lado, será estético o critério do realismo?

  

Escrito por Marcelo Coelho às 02h19

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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