Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

mortes paralelas

 
 

mortes paralelas

Comentando o fato de Farrah Fawcett ter morrido no mesmo dia de Michael Jackson, Ruy Castro escreveu uma coluna muito interessante

sobre o assunto das “mortes paralelas”: pessoas importantes que terminaram mal no noticiário pelo fato de uma celebridade maior ter falecido na mesma data. Ele cita o caso de Aldous Huxley, que morreu no mesmo dia de John Kennedy. No caso de Sarah Fawcett, nem sei se sua memória não acabou até beneficiada pela coincidência; alguns jornais deram-lhe bom destaque na primeira página, até para não parecerem injustos demais.

 

Ruy Castro não citou um exemplo marcante de “morte paralela”: a do compositor russo Sergei Prokofiev, um dos maiores do século, falecido em plena URSS no dia exato em que ninguém menos do que Stálin deixava este mundo.

 

No excelente livro de Alex Ross, O Resto é Ruído, há uma descrição do que aconteceu. Na manhã de 6 de março de 1953,

 

...Moscou se dissolveu no caos: milhares de pessoas acorreram ao salão do Kremlin, onde o corpo de Stálin estava em deposição, e centenas morreram pisoteadas. A notícia foi tão crucial que o Pravda não se deu ao trabalho de noticiar nos cinco dias seguintes que Sergei Prokofiev também havia falecido. [O pianista] Sviatoslav Richter soube da morte de Prokofiev enquanto voava para Moscou para se apresentar no funeral de Stálin: era o único passageiro num avião cheio de coroas de flores.

            Cerca de trinta pessoas compareceram para se despedir de Prokofiev. O Quarteto Beethoven foi instruído a tocar Tchaikóvski, embora Prokofiev não gostasse de Tchaikóvski; pouco depois o quarteto desapareceu na multidão para tocar a mesma música para Stálin. Não foi permitido que o carro fúnebre se aproximasse da casa de Prokofiev, por isso o caixão teve de ser levado à mão, contornando ruas bloqueadas por tanques e pela multidão. E as massas caminhavam em direção ao Kremlin por uma avenida. O corpo de Prokofiev foi carregado na direção oposta, por ruas desertas.

 

O trecho simboliza, sob a forma puramente fatual, um dos problemas centrais de todo o livro de Ross sobre a música clássica no século 20: o progressivo distanciamento entre compositores e o público de concerto. Certamente Prokofiev teve muito sucesso em sua vida, tendo feito música bem mais acessível do que seus contemporâneos Schoenberg ou Webern. Na URSS, claro, o drama tinha conotações políticas maiores do que no Ocidente: qualquer compositor, mesmo consagrado e bem-sucedido com o público (e talvez até por isso) podia de uma hora para outra ser acusado de “formalismo” e de não “falar a linguagem do povo”.

 

A narração de Ross vai apontando, entretanto, uma história mais rica em convergências entre público e compositores do que se costumava pensar por volta de 1950 ou 1970. É um panorama muito detalhado, muito claro, extremamente bem escrito e sem tecnicismo. Quem sabe falo mais do livro depois.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h36

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arte do vinil

Eis um exemplo do que pode fazer uma mente criativa --e dotada de imaginação visual-- com um velho disco de vinil:

 

Mais imagens em http://www.toxel.com/inspiration/2009/06/16/silhouettes-made-from-vinyl-records/

Escrito por Marcelo Coelho às 02h07

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greve na usp

Reproduzo aqui um trecho do artigo publicado na quarta-feira passada:

Se “minorias radicais” conduzem o processo, cabe perguntar onde estão as maiorias moderadas. Deveriam estar presentes nas assembleias (e piquetes) que decidem mobilizações em nome de todos.

         Nada mais alienado do que condenar o fato de uma assembleia “de gatos pingados” ter decidido uma greve, quando não se participa da assembleia.

         Estivesse presente nas assembleias, a “maioria ordeira” da USP negaria legitimidade aos movimentos de reivindicação. Em última análise, prefere delegar a defesa da ordem à PM.

         Diante de dezenas de ativistas enraivecidos, quatro policiais (que não são “a repressão”, mas têm nome, estado civil e endereço) foram cercados e humilhados moralmente. Quando chegou o reforço, professores, funcionários e estudantes (que têm nome, estado civil e endereço) foram atacados com gás e balas de borracha.

         Tudo se desumaniza, porque está em jogo uma contradição estrutural. Temos uma máquina burocrática –a da reitoria e seus órgãos ossificados de decisão—contra uma máquina sindical –que segue a lógica da mobilização de massas.

         Acontece que as massas são imaginárias (reduzem-se a uma minoria) e que a estrutura de poder na USP, supostamente defensora da lei e da ordem, é tudo menos democrática. Quando ninguém representa ninguém, ou representa mal, não há negociação humana possível, e a violência prevalece.

A íntegra do artigo pode ser lida por assinantes do uol que clicarem aqui.        

A maior parte das críticas que recebi a respeito desse artigo ia na seguinte direção: é fácil falar, mas as tais minorias têm a tática de convocar assembleias uma em seguida da outra, e estendem a duração das mesmas ao máximo, de modo que quando se faz a decisão em favor da greve só ficaram os militantes profissionais.

Conheço bem esse esquema. Quando participei do movimento estudantil da USP, aí por 1979, sofri muito com isso, e me convenci de que não tinha a menor vocação para a democracia direta. Esta terminava nas mãos de gente mais dura do que eu.

Mesmo assim, não há saída. Ou os tímidos tomam conta da assembleia (unidos, podem vencer) ou os profissionais, eterna minoria, ocupam seu lugar. Li recentemente uma citação de Lênin (será de Lênin mesmo?) dizendo o seguinte: "Você pode não se interessar pela guerra, mas a guerra está interessada em você". Pior se você se interessa pela greve na USP. Não vale, acho, esbravejar contra a minoria quando você, que é maioria, não faz valer o seu poder. Com todo o preço que isso traz.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h52

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corpo e juventude

Vai aqui um trecho do que eu falei no "café filósofico" de sexta-feira, na CPFL de Campinas.

Fiquei de discutir a “utopia do corpo eternamente jovem”. Com o “impacto das técnicas de manutenção da juventude artificial, qual seria o desdobramento de um “corpo sempre jovem”, para uma alma que vê o envelhecimento como apodrecimento sem significado?” Essa a pergunta proposta.

 

Apesar de a gente viver num mundo obcecado pela juventude do corpo, com academias de ginástica, clínicas de cirurgia plástica, cosméticos, botox, lipoaspiração, etc. etc., é importante dizer, para começar, que o desejo de eterna juventude não é, como se sabe, uma característica exclusiva dos tempos atuais. O mito da fonte da juventude, as utopias de Xangri-lá, etc., acho que são muito generalizadas, e não se localizam apenas no Ocidente contemporâneo. O que interessa ver é o que a sociedade contemporânea faz, com esse desejo de juventude que é muito generalizado.

 

Claro que para mim, como para muita gente, parece às vezes até doloroso ver um rosto de mulher totalmente deformado pelo botox, pelas plásticas... E também acompanhar o sofrimento psicológico de pessoas que nunca estão contentes com o próprio corpo, que tentam emagrecer loucamente,ou se matam numa academia. Há muito sofrimento, muita dor aí.

 

Uma primeira abordagem crítica a esse fenômeno seria dizer que a pessoa não se conforma com seu corpo “natural”, e recorre a tecnologias muitas vezes crueis, e desesperadas, para se manter jovem artificialmente.

 

Mas essa é uma crítica que eu não acompanho muito não. Eu sou a favor das tecnologias de rejuvenescimento. Sou a favor da tecnologia em geral. O problema do botox não é que seja uma tecnologia artificial. É que é uma tecnologia ruim. Fica feio, na maioria das vezes. Quando inventarem uma tecnologia melhor, podem me pôr na fila. Ah, você não será mais feliz com isso...! Pode ser que eu seja mais feliz sim. Pode ser que não, tudo bem. Mas eu vou ser um infeliz mais bonito... É um pouco como aquela história de que dinheiro não traz felicidade. Tudo bem, pode não trazer, mas sempre ajuda...

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h23

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de volta a simonal

         O “Mais!” deste domingo traz novos documentos a respeito do caso Simonal. Não tenho procuração de ninguém para defendê-lo, mas acho que a reportagem (do excelente Mário Magalhães) muda pouco nas interpretações que aparecem no documentário sobre a vida do cantor, que já comentei aqui.

         Segundo o “Mais!”, Simonal “declarou formalmente que era informante do Dops”, num depoimento à polícia em 1971.

         A edição explicita, de forma massacrante, uma “linha do tempo” que vai de 1971 a 1976, repetindo a mesma informação.

         Nada do que está revelado desmente a versão de seus amigos no documentário: a de que Simonal, para se livrar de um processo, invocou a condição de informante da polícia.

         Tudo indica que ele fez uma coisa horrorosa contra seu contador, Raphael Viviani. Imaginando-se roubado, Simonal armou uma sessão de tortura com Viviani, até que ele confessasse ter lesado o cantor. Contou, para isso, com amigos do Dops.

         Denunciado por esse crime, em 1971, Simonal não teria tido outra saída a não ser dizer-se informante do Dops. Faz sentido, dentro de uma profunda ignorância do quadro político da época, que o cantor simplesmente tivesse tentado “livrar a cara”, invocando relações com o sistema repressivo.

         Todos os testemunhos judiciais reproduzidos na reportagem se dedicam a reforçar essa versão, e se repetem automaticamente nas diversas instâncias a que o caso subiu.

         Mas continua sem prova a acusação de que Simonal foi informante. Nelson Motta, Miele e Chico Anysio, no documentário, acreditam que ele simplesmente quis se passar por informante, para aliviar as acusações (justas) que pesavam contra ele. “Digam-me o nome de alguém que foi dedurado por ele”, conclama Chico Anysio.

         Não se trata de inocentar Simonal. Mas acho que ainda faltam dados para condená-lo.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h36

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vampiros, hoje

Peço desculpas pela falta de tempo. Foram duas palestras na Folha e uma outra ainda, em Campinas, amanhã. E hoje ainda tem o lançamento da coletânea de contos de vampiros, da qual participo. Vai aqui a matéria da Folha Online.

Autógrafos marcam lançamento de antologia de contos sobre vampiros

da Folha Online

Divulgação

Antologia de contos sobre vampiros reúne textos feitos por 13 autores

Nesta quinta-feira (18), o centro cultural B_arco (R. Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 - Pinheiros - Oeste. Telefone: 3081-6986) realiza uma noite de autógrafos para promover o lançamento de "O Livro Vermelho dos Vampiros" (Devir, 2009), uma antologia de contos de horror idealizada pelo poeta e escritor Luiz Roberto Guedes.

O evento começa às 19h30 e conta com a presença dos 13 autores que participam do projeto: Andréa del Fuego, David Oscar Vaz, Flávia Muniz, Índigo, Jeanette Rozsas, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Coelho (membro do Conselho Editorial da Folha), Martha Argel, Moacyr Godoy Moreira, Richard Diegues, Santiago Nazarian e Tereza Yamashita.

Os escritores convidados, que representam diversas gerações, tiveram que criar textos que revisitassem o mito popular do vampiro. Acompanhados de ilustrações feitas por Manu Maltez, os contos mostram diferentes encarnações do morto-vivo e misturam sedução, humor e erotismo, sem deixar de lado o clima sombrio dos filmes e dos quadrinhos.

"O Livro Vermelho dos Vampiros"
Organizador: Luiz Roberto Guedes
Editora: Devir Livraria
Páginas: 144
Quanto: R$ 26
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h39

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crianças em viagem

 
 

crianças em viagem

         Minha ausência deste blog no feriado se deve a uma viagem ao Rio de Janeiro, que fiz com a família. Achei que, aos 7 e 5 anos, meus dois filhos poderiam aproveitar um pouco da cidade.

         Não deu muito certo; foi cedo demais. O tempo não ajudou nos primeiros dias, mas de qualquer modo crianças dessa idade desconsideram bastante as belezas naturais de uma cidade.

         Os pais propagandeiam ao máximo o passeio no bondinho no Pão de Açúcar. Claro que as crianças aderem ao programa; insistem em realizá-lo mesmo quando uma tempestade assustadora se aproxima.

         Eis que o tempo aclara. Vamos ao bondinho. É uma vitória. Da qual, todavia, os meninos logo se desinteressam. Há a sensação de ser transportado num teleférico; algum medo da altura, e só.

         Logo eles querem sair daquele lugar coalhado de turistas e de ilhas, de filas e de horizontes. Meu filho maior queria brincar com os videogames do celular da mãe; o menor exigia uma gigantesca torta de chocolate meia hora antes do almoço.

         Não vou condená-los por isso, claro. Lembro-me de ter entrado, criança, no velho bondinho do Pão de Açúcar; não sei se tinha cinco ou sete anos –fui duas vezes ao Rio nessa época.

         Guardo da experiência um monte de pernas de adultos e de nuvens. O significado da paisagem, a grandeza do panorama, é coisa inacessível às crianças.

De minha estada em Copacabana, em 1967 ou coisa parecida, só me lembro de algum divertimento na praia, do cheiro ruim que havia no elevador de serviço, do fato de que a TV carioca transmitia antiquíssimos seriados do Super-Homem e do Mandrake que não passavam em São Paulo.

         Imagino que meus pais talvez se irritassem, como me irritei agora. “Estamos vendo vistas maravilhosas, e o menino está grudado na televisão!”

         Uma tia passava horas na sacada do apartamento, vendo os movimentos do mar e da avenida Atlântica, naquele tempo anterior ao calçadão.

         Intrigava-me seu olhar absorto (ela era surda, além do mais). Muito mais tarde, explicaram-me seu fascínio. Senhora católica e solteira, o que ela acompanhava da sacada era a movimentação das prostitutas na calçada.

         Talvez não; recuso-me a interpretações tão perversas. Estava ali, simplesmente, vendo tudo, as montanhas e o vício, a praia e o pecado. Que importa?

         O chato de ser criança é que a gente não vê coisa nenhuma. Vemos apenas a televisão, o chocolate, a revistinha. Nossa visão é curta, recurva, minuciosa, pouco ereta. Não há paisagem possível. Há sensações corporais, e minúcias gravadas na retina. Toda criança é um microscópio.

         Anos atrás, levei meu filho mais velho ao zoológico. Mesmo fenômeno: ele não conseguia se fixar nos tigres sonolentos e longínquos que abanavam a cauda perto de uma pedra sem graça. Queria sorvete, queria ver formigas e gravetos.

         Não leve suas crianças para “passeios”. Elas só entendem “atividades” e “brinquedos”. Precisam de “assuntos”, não de “horizontes”.

         Sem compreender isso, irritei-me a valer neste feriado. Sinto que preciso de um descanso. No Rio de Janeiro, quem sabe.

foto de Hermano Taruma

Escrito por Marcelo Coelho às 15h46

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utopias em Campinas (2)

Para piorar a minha situação, eis o que recebi hoje por e-mail.

Debates sobre o mundo contemporâneo com grandes nomes da intelectualidade brasileira, antes restritos aos moradores de São Paulo e Campinas, agora estão mais próximos de qualquer um. O Café Filosófico CPFL, patrocinado pela CPFL Energia, pode ser visto ao vivo, online, durante as gravações que darão origem ao programa transmitido na TV Cultura. Desde junho, palestras de grandes pensadores podem ser vistas gratuitamente pela internet, todas as quartas-feiras, a partir das 20h30, e sextas-feiras, às 19h, no site www.cpflcultura.com.br/aovivo.
Quem assistir às palestras pela Internet verá a íntegra dos programas que, posteriormente, serão editados e exibidos na TV Cultura, normalmente algumas semanas depois. A íntegra do evento fica disponível no site da CPFL Cultura logo após o programa ir ao ar na TV. Assim, quem assiste online consegue se antecipar à programação da própria televisão. E ainda pode fazer, ao vivo, perguntas ao palestrante via sala de bate-papo ou discutir o programa com outros espectadores.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h19

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conto sobre vampiros

Transcrevo um trecho do conto sobre vampiros que escrevi para a coletânea organizada por Luiz Roberto Guedes, e que terá seu lançamento na quinta-feira, dia 18 de junho. na rua Virgílio de Carvalho Pi nto 426, depois das 19h 30.

 

O ÚLTIMO DRINQUE

 

                        Marcelo Coelho*

 

 

Tratamento a laser. Mudanças nos hábitos alimentares, com decréscimo na ingestão de açúcares. Fluoretização da água. Novas substâncias anticárie, cuja aprovação era dada como iminente pela revista Drill --a Bíblia dos cirurgiões-dentistas em todo mundo.

“Estou acabado”, suspirou o dr. Júlio Zanini, enquanto as primeiras luzes do trânsito e das torres de rádio começavam a oferecer, pela ampla vidraça à prova de som e de bala daquele consultório na Paulista,  suas rotineiras distrações aos pacientes, pobres pacientes de boca aberta e olhos esbugalhados, que nada sabiam das perspectivas sorridentes --se é que cabe o termo-- que lhes divisava a ciência odontológica, a poucos passos de alcançar uma vitória definitiva na multissecular e incansável guerra do homem contra a cárie. “Estou acabado”, insistia o dr. Júlio Zanini, sem derivar dessa conclusão um desprazer tão grande assim. Pois a falência de um ofício, de uma profissão, de uma habilidade coletiva, institucionalizada, reconhecida pelo Ministério do Trabalho --a saber, a de perfurar milimetricamente, calafetar, britar, roer com motores velocíssimos e ínfimos a dentina corrompida de um ser humano-- era pelo menos um fenômeno de grande amplitude, uma desgraça corporativa, se quisermos, sem que nenhuma evidência de inépcia particular, nenhum sintoma individualizado de declínio, nenhum processo identificável de decadência pessoal --chame-se Mal de Parkinson, alcoolismo, diabetes, glaucoma--- pudesse ser apontado, convocando seu portador ao banco dos réus. Não, o banco dos réus já estava ocupado, ou melhor, já estava ocupada a cadeira da câmara de torturas --sem ajudantes caolhos ou corcundas entretanto-- que tivera, ao longo de tantos anos e séculos, visitantes variados, insuspeitos (donas-de-casa com um fraco por balas de cevada, velhos professores tabagistas, mocinhas de sorriso de cavalo), mas nunca, NUNCA!, repetia o dr. Júlio em retrospecto não menos amargo que triunfal, nunca um dentista poderá ser culpado de coisa nenhuma, se a profissão finalmente se acabar.

Ou seja, resumindo. Aos sessenta e sete anos, quarenta redondos de profissão, o dr. Júlio Zanini estava a ponto de perder todos os seus clientes, caindo um a um como dentes de uma gengiva frouxa, a despeito de todos os seus esforços para mantê-los no lugar. Não era fácil disfarçar o tremor naquela mão direita encarregada de empunhar espátulas, ferrinhos e brocas tão perto de tantos olhos inquietos e bocas imobilizadas como as de grandes peixes fisgados em anzóis recurvos, entre cusparadas de sangue e silvos de saliva. Não era fácil  --talvez-- disfarçar, sob a capa protetora da máscara cirúrgica, o carregado odor da halitose alcoólica que emanava, como um miasma tumular, do organismo do dentista. “Estou acabado”: menos mal que sejam os progressos da ciência, e não os decessos da vida, a causa claríssima de tal miséria. Não a bebida apenas --que fosse bom copo, vá lá-- mas a sensação de perda de controle, de fraqueza nas pernas, de exaustão na coluna vertebral, de diminuição da acuidade ocular,  tudo contribuía para que, não tão perto do fim da vida assim, mas tudo é pretexto nesse caso, o gosto do dr. Zanini pelos bons vinhos --quantas vezes pacientes agradecidos não lhe ofereceram, no final de um tratamento, a rubra e espessa seiva da Terra e do Sol!-- se acentuasse com o passar dos anos, assíduo como a escovação correta dos molares e incisivos; e, tanto quanto o uso sempre recomendável dos antissépticos bucais, consolidara-se também o hábito diário do puro uísque de malte.

Zanini contemplou seu próprio reflexo na vidraça, destacando-se pálido contra o final de tarde citadino, e tirou as luvas e a máscara cirúrgica. “Acabado”. Mais um dia de trabalho acabava também. A luz dicróica do consultório devassava as últimas memórias de beleza de seu rosto. Ter sido um homem bonito --um “rapagão”, diziam no seu tempo; ele preferia “um sujeito charmoso”--  ajudara-o bastante na vida profissional, fazendo com que os pacientes compensassem o desprazer vivido nas consultas com o fascínio que possa haver numa atitude de passividade justificada e consentida. “Ah, doutor Júlio, doutor Júlio...” quanta atração por trás de quanto sacrifício! E de quantas bocas não saíram quantas vozes, vozes de outros tempos que ainda ecoavam em seus ouvidos, cada vez menos sensíveis aos ruídos de sirenes e buzinas provindos da noite que caía.

Hora de um último drinque, antes de pegar o trânsito de volta para casa. A gavetinha do armário de metal, em cujo tampo se equilibravam, tilintantes, os velhos instrumentos do ofício, já estava entreaberta; lá dentro, uma população liliputiana e disciplinada de garrafinhas de uísque, como a do frigobar de um hotel de luxo, mantinha-se em estado de mortal expectativa. Zanini se abaixou para escolher mais uma vítima.

Quando se levantou, o rapaz já estava lá.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h55

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Luciana Mariano

 
 

Luciana Mariano

Para quem gosta, como eu, de arte naïf (mas não de tudo), vale a pena dar uma olhada nas telas de Luciana Mariano, que está com exposição na Galeria Jacques Ardies. Duas amostras:

 

 

Um quadro se chama "A Convidada"; o segundo é "Fazendo Comidinha". Espetacularmente expressivo, eu acho, é o detalhe da cortina balançada ao vento no segundo quadro, revelando a mais esquemática paisagem urbana possível. E que perspectiva...! É como se o apartamento em que se desenrola a cena estivesse num disco voador, de tal modo os prédios vizinhos são vistos de cima.

Gosto da arte "naif" (ingênua) na medida mesma em que sua ingenuidade é artificial. Como não imaginar algum subtexto perverso em "A Convidada"? É como se só o pintor ignorasse o que existe entre os personagens... Veja-se o olhar do marido, no primeiro quadro: ingênuas certamente são as duas mulheres, não ele. Veja-se a metalinguagem do segundo quadro: enquanto a mãe cozinha de verdade, as meninas brincam de cozinhar, em sua "naiveté". Se isso não é arte, me digam o que é.

PS- Quanto mais eu olho, mais detalhes aparecem. Há em "A Convidada" um quadro pendurado na parede, cuja sexualidade parece confessar o que não foi dito entre os personagens. Uma rosa vermelha deixada no chão: outra evidência. No segundo quadro, muito simpático o fato de o menino à esquerda brincar de carrinho, enquanto perto dele se vê, equilibrando a cena, uma rígida vassoura de cabo preto... Que beleza, além disso, as retas samambaias que caem no lado direito do quadro, lembrando o bordado da toalha de "A Convidada"...

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h50

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utopias em Campinas

Eis a enrascada em que me meti, aceitando o convite de participar de um café filósofico na CPFL de Campinas, daqui a poucos dias:

CPFL Café Filosófico 2009

Curador – Luiz Felipe Pondé

Filósofo, pós-doutor pela Universidade de Tel Aviv, professor da pós-graduação em ciências da religião da PUCSP, da Faculdade de Comunicação da FAAP e professor convidado da pós-graduação em ensino das ciências da saúde da Escola Paulista de Medicina, UNIFESP; colunista da Folha de S Paulo; autor, entre outros títulos, Crítica e Profecia, filosofia da religião em Dostoeivski, ed. 34, O Homem Insuficiente, Edusp, O Conhecimento na Desgraça, Edusp, e Do Pensamento no Deserto, ensaios de filosofia, teologia e literatura, Edusp.

 

Módulo – A Crise no Quarto: os fantasmas da perfeição.

Tema geral do módulo:

Vivemos em tempos de crise. A humanidade é uma espécie, como todas, adaptada a um meio ambiente quase sempre hostil: sofrimentos, violência, morte. Habitamos, entretanto, um tipo de meio ambiente distinto das demais espécies: o espaço interior, a alma, a mente, o espírito. Vivemos expectativas, fracassos, inquietações, e a consciência da dor. Os últimos séculos estabeleceram formas novas desses velhos dramas: sonhos políticos, técnicos, científicos, psicológicos e morais, todos marcados pela tentativa de interromper um destino infeliz aparentemente inexorável. Por isso, a crise atual tem marcas específicas: um deles é sua relação direta com os processos utópicos modernos.

Quando falamos em utopias pensamos imediatamente nos grandes modelos políticos criados a partir da obra de Jean Jacques Rousseau (século 18): revolução social, política e econômica. Todavia, a ideia de utopia é mais antiga e remonta aos renascentistas e a filosofia humanista: o homem é dono de sua vida e pode fazer com ela o que quiser. O sonho da vida perfeita, desde então, virou um fantasma: para chegar a felicidade, basta descobrir as fórmulas. Será? Pode o homem tornar-se perfeito? Tem ele a capacidade de construir um projeto perfeito de futuro? Sua natureza detém os recursos necessários para realizar este projeto? Pode o homem tornar-se pleno? Neste cenário, a modernidade tornou-se o grande produto dos processos utópicos: economia científica, políticas da liberdade e da justiça social, autonomia dos sujeitos.

Normalmente identificamos a “morte das utopias” como a queda do muro de Berlim em 1989: a morte da justiça social plena. Em 2008, outra imagem surgirá no cenário mundial como exemplo de “morte das utopias”: a crise da sociedade baseada no consumo e no mercado como fim de uma história que teria encontrado seu modelo último de aperfeiçoamento no capitalismo pleno.

Mas as utopias só não construíram fantasmas coletivos. Outros fantasmas, com nomes próprios, vieram a noite visitar os sonhos e pesadelos dos indivíduos em suas pequenas vidas comuns. E o que faz o indivíduo sozinho, a noite, no seu quarto, diante desses fantasmas? Para além dos grandes processos políticos e sociais, o que significou, em nosso cotidiano, vivermos sob a tutela de um projeto de perfeição? Como cada um de nós, na solidão da vida e de suas pequenas decisões que formam a malha quase invisível em que respiramos, viveu esta obsessão pela vida perfeita? Utopias da personalidade, da sexualidade, do amor, da liberdade, do conhecimento, varreram nossas vidas. Talvez, a cura, passe pelo enfrentamento da imperfeição e do conflito como universo último da vida. Seríamos, afinal, uma pequena alma que sabe mais do que deve, mas nunca tudo o que precisa? Enfim, teríamos diante de nós o risco de sermos um ser sem sentido último e sem certezas? Seria esta uma forma mais livre de viver? A imperfeição como horizonte?

Temas específicos de cada café filosófico:

1.      Luiz Felipe Pondé (filósofo, professor da PUCSP e FAAP, e professor convidado da EPM-UNIFESP e colunista da Folha de S Paulo)

Título – A Clínica do Trágico.

Uma visita a concepção trágica da vida (a tragédia grega e alguns filósofos trágicos posteriores) pode ser um recurso de enfrentamento dos fantasmas da utopia na medida em que coloca o homem diante de uma indagação ancestral: somos senhores de nosso destino? Qual o alcance da liberdade humana? No que os processos utópicos foram causa de uma modernidade covarde? Vida perfeita, sexo perfeito, amor perfeito, personalidade perfeita, liberdade perfeita, juventude eterna, todos fantasmas de um mau infinito. Em que medida o heroi trágico, aquele que luta sabendo que jamais vencerá, pode ser um modelo mais humano diante desses fantasmas? Seria a tragédia uma visão mais madura da condição humana?

2.      19 de junho

Marcelo Coelho (sociólogo e colunista da Folha de S Paulo) coelhofsp@uol.com.br

Título - Utopia da liberdade e da juventude: crise e superação da liberdade perfeita num corpo eternamente jovem.

Um dos focos centrais das utopias modernas sempre foi o aumento da autonomia humana. Com a realização moderna de uma maior mobilidade social e psicológica, como ficam os homens e as mulheres diante do fato que quanto maior a liberdade, maior a insegurança afetiva e ética? Em que medida a liberdade é também uma maldição? Com o impacto das técnicas de manutenção da juventude artificial, qual seria o desdobramento de um corpo “sempre jovem” para uma alma que vê o envelhecimento como apodrecimento sem significado?

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h51

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deveres de um colunista

A pior coisa mesmo para um colunista é mostrar-se entediado. Você pode não ter vontade de escrever sobre as últimas dificuldades do governo ou sobre os problemas dos filhos com pais separados, e, às vezes, você pode estar sem um bom assunto. Quaisquer que sejam os seus sentimentos, você tem de demonstrar 100% de envolvimento. Não há nada mais fatal do que revelar seu ennui, já que, uma vez que você não se interessa, por que razão o leitor deveria se interessar? No início do romance Adeus a Berlim Christopher Isherwood imagina a sua vida em termos do número de cervejas que ele vai tomar; a imagem evoca uma infinita e fútil repetição. O colunista que olha para o futuro, e que mede sua vida de colunista dessa maneira, está acabado. De todos os atributos necessários a um colunista a estamina,[a vitalidade] é mais importante. Mas uma estamina imbuída por uma inacansável curiosidade, e tomada de paixão.

 

Este é um trecho de “Para que servem os colunistas”, escrito pelo jornalista inglês Stephen Glover, para The Penguin Book of Journalism.

 

Devo citá-lo num seminário interno da “Folha”, sobre as diferenças entre “análise” e “opinião” na escrita jornalística.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h03

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o vício do videogame

 
 

o vício do videogame

Durante o último ano, um dos maiores focos de tensão doméstica na minha vida teve nome e sobrenome: videogame, playstation 2. Meu filho de seis anos entrou de cabeça nesse mundo infernal de fases, vidas, créditos e combates. Saía do playstation para o computador: mais joguinhos, num frenesi de cliques e teclas de flechinhas, absorveram assustadoramente a sua atenção.

 

Grandes lutas se travaram no momento de tirá-lo do computador. Como um dependente químico em último grau, meu filho esperneava diante das regras e horários que, com um mínimo de bom senso, os pais devem impor a esse exercício de obsessão computadorizada.

 

É especialmente doloroso, para os pais, ver uma criança viciada. Ela se torna o espelho de nossas próprias dependências. Quem não corre, chegando em casa, até o computador para ver os últimos e-mails que recebeu? Ou recusa os apelos dos filhos (“vem brincar comigo!”) para conferir os recados na secretária eletrônica?

 

Nunca achei muito sério, por exemplo, o pecado da gula. Mas quando o vejo numa criança –roubando as jujubas que estavam reservadas ao irmão ou ao amiguinho--, percebo o quanto sou capaz da atitude, e do quanto nela existe de imoral.

 

Meu egoísmo surge em cores renovadas quando o percebo num filho que se parece, na mágica exatidão do DNA, comigo mesmo.

 

Felizmente, vejo também algumas qualidades minhas refletidas ingenuamente na descendência que gerei. O amor de um pai é mais forte do que qualquer outro, porque se alimenta de narcisismo também.

 

Mas voltando ao vício dos videogames. O problema desapareceu por completo.

A solução mágica se chama Wii.

 

É um outro tipo de videogame –e que, até por isso mesmo, hesitei muito em comprar para os meus filhos.

 

Acontece que o Wii é diferente de qualquer videogame. Simula, na tela, esportes como tênis, baseball, boliche e box. A criança (ou o adulto) acopla ao pulso um comando, uma espécie de “supermouse”, que transmite os movimentos do braço ao personagem projetado na tela da TV.

 

Passamos, assim, do mundo enclausurado dos botões e minúcias gestuais do videogame para o campo aberto, para o “ar livre”, se cabe a expressão, dos movimentos largos de braço impostos a quem simula um jogo de boliche.

 

De resto, um esporte como o tênis ou o box não tem a estrutura doentia das múltiplas fases de um videogame. Suas dificuldades são as mesmas; não crescem a cada vitória. Cansam mais, também. Posso imaginar alguém gastando horas e horas diante de um desafio no computador. Não é tão frequente alguém viciar-se num jogo de golfe.

 

Pelo menos, foi isso o que aconteceu em casa. O Wii, que tinha tudo para ser a intensificação diabólica do videogame, mostrou-se um antídoto saudável para o problema vivido nos últimos tempos. Longa vida a seu inventor.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h01

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óculos novos (2)

Faltou um adendo à minha saga pessoal dos óculos inencontráveis. Referi-me, no post anterior, a um modelo levíssimo, de hastes como molas, que usei durante um tempo.

 

Esqueci-me de contar que não foi apenas a curiosidade dos meus filhos o motivo de minha visita bem-sucedida à ótica perto de casa.

 

De tão invisível, aquela armação da marca Silhouette, jogada em meio às roupas sujas da véspera, entrou na máquina de lavar! A empregada embrulhou tudo –e talvez esteja precisando de óculos também—numa trouxa e jogou na lavadora.

 

Pelo menos a lavadora não quebrou; isso tem acontecido com frequência aqui em casa, com Brastemps ou não. Mas os meus óculos encontraram, por fim, seu destino merecido. Uma haste explodiu no processo de lavagem.

 

Foi assim que fiquei reduzido ao outro par de óculos, de reserva, que de tão torto me tornou semelhante a um quadro de Picasso.

 

Quem vê minha foto no blog sabe que também uso lentes de contato. Aliás, lente, no singular: segundo a opinião de um oculista, que não deixa de me inspirar desconfiança, você pode perfeitamente usar a lente de contato para ver de longe num olho só, usando o outro, literalmente nu, para enxergar de perto. Uma espécie de monóculo invisível. Só me faltava, aliás, usar monóculo: quem antipatiza comigo teria plenas razões de me considerar um pretensioso consumado, um esnobe colossal. Bem que eu tento disfarçar um pouco.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h13

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óculos novos

Estive há pouco numa ótica, fazendo óculos novos. Os antigos eram tão leves, finos, delicados e imperceptíveis que simplesmente não conseguia encontrá-los mais quando os tirava do rosto.

 

Antigamente, não tirava nunca os óculos: melhoravam a minha vista, e ponto final. Hoje, minha miopia se soma à vista cansada, de modo que tenho de colocar os óculos para ver de longe, e tirá-los para ver de perto. Tiro-os, e, para dizer lusitanamente, “como não ishtou a usál-os”, não os encontro mais.

 

Agrava a minha situação o fato de que meu filho menor gosta de brincar com meus óculos, e não o impeço de fazê-lo. Conheço pessoas que tornaram os óculos um tabu para seus próprios filhos; estes estão proibidos de tocá-los, como às mais delicadas partes da anatomia paterna.

 

De minha parte, aceito a violência que meu filho faça à armação, verdadeiramente aracnídea, de uns óculos que comprei há anos, acho que da marca Silhouette. A coisa é tão frágil e sutil que as hastes funcionam como molas, e é impossível dobrá-las, recolhê-las, em “modo de espera”, como se diz na linguagem do computador. As hastes sempre estão abertas e vibrantes como antenas. Ora bolas! Que o menino faça delas o que bem entender.

 

O resultado é que andei uns tempos levando no nariz uma espécie de quadro de Picasso, abominavelmente torto, hesitando entre a frente e o perfil.

 

Na ótica, tudo era novidade. Existem agora armações feitas de não sei que material derivado dos pneus de fórmula 1; tudo é tão leve que até flutua, e a gente percebe que estava fora de moda quando tentava seguir os modelos de um Fernando Henrique Cardoso.

 

Claro que não aderi ao figurino dos últimos anos: o dos óculos pequenos, e que por isso mesmo tendem a acentuar seus próprios contornos pretos numa espécie de ironia inteligente e forte. Fiquei no meio-termo: hastes mais afirmativas, sólidas e escuras, segurando lentes ainda nuas, sem contorno colorido.

 

Seja como for, senti-me feliz e fantasioso, dispersando comentários engraçados à jovem atendente. Foi quando apareceu um senhor, a que minha imodéstia não concederá a estimativa de ser mais ou menos de minha idade. Ele vinha pegar os óculos que mandara fazer.

 

Estava no mesmo grau de euforia do que eu. Fez as mesmas gracinhas que eu fizera para a balconista.

 

Conclusão: o momento de fazer óculos novos é um momento de narcisismo liberado. Bem diferente do pudor que existe no barbeiro –onde nos livramos de uma desorganização e de um desleixo--, a visita à ótica é um momento de exigência, de gasto, de vaidade.

 

O cinquentão ao meu lado –como se eu não fosse um cinquentão também—permitia-se a uma vaidade discreta: a de alguém que está apenas corrigindo seus defeitos visuais, sua vista cansada. Ou repetindo, mais uma vez, a velha rotina de um “quatro-olhos” que, teoricamente, marcou toda a sua vida como a de alguém mais feio do que os outros.

 

As lentes e armações melhoraram muito desde 1968, quando pela primeira vez fui informado da necessidade de usar óculos. Só quem está na escala mais baixa de renda ainda usa lentes “fundo de garrafa”. As armações hoje seguem a mais instantânea lógica do mundo “fashion”. Como não ficar feliz, então, gastando os tubos numa ótica? De resto, que termo antigo, esse de “ótica”. Eyewear shop talvez seja o mais adequado.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h55

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tragédia aérea

A notícia de um grande acidente aéreo sempre horroriza, mas o pior é quando, pouco a pouco, vão aparecendo as histórias individuais das vítimas. Ainda mais quando se trata de um voo do Rio a Paris: na grande maioria dos casos, os passageiros embarcaram felizes. Um casal em lua-de-mel; um grupo de franceses, com suas mulheres, que receberam um prêmio pela produtividade na empresa em que trabalhavam... e agora deixam não sei quantos órfãos de pai e mãe na sua terra natal.

 

Os voos domésticos talvez não tenham tantas histórias assim –e quem lê jornais sempre se lembra, em casos como o do Airbus, de sua própria excitação ao fazer uma viagem de recreio ao exterior: a sensação de que a tripulação do avião está pronta para atendê-lo, a partida durante a noite, para no dia seguinte chegar com as malas num hotel da Europa... As fotos das vítimas, na maioria, trazem sorriso e alegria.

 

Basta do assunto. Um antídoto para esses pensamentos de desastre é a coluna, que descubro agora, de Patrick Smith, no site salon.com. Chama-se “ask the pilot”, porque quem escreve é piloto de avião, e se dedica a dissipar todo tipo de dúvidas que assalta os passageiros de avião, ainda mais numa hora dessas.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h36

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O caso Simonal

 
 

O caso Simonal

         Muito antes de Obama aparecer com o lema “Yes, We Can”, o cantor, ator e showman Sammy Davis Jr. escreveu uma autobiografia intitulada “Yes, I Can”: não a li, mas o sentido da frase era mostrar de que modo um jovem negro, aliás bastante feio, mas dotado de imenso talento conseguiu chegar ao estrelato.

        

         A carreira de Wilson Simonal, contada de modo fascinante no documentário “Ninguém Sabe o Duro que eu Dei”, poderia ser uma versão brasileira desse espírito “yes, I can”.

        

         Não me lembro qual dos entrevistados do filme, aliás excelente na escolha dos depoimentos, assinala o fato de que, nos anos 60, o papel do músico negro no Brasil era o de ser sambista: Simonal surgia como exceção, cantando outros gêneros de música, e, sobretudo, comandando ele próprio um show de televisão.

        

         No meu artigo para a “Ilustrada” de hoje (assinantes do Uol leem aqui), tentei transmitir uma impressão que mistura minhas memórias daquela época com a experiência de ver agora os arquivos de Simonal.

 

         Ele se comportava, de modo quase provocativo, como um negro americano. Lembro-me de um episódio da família Trapo, programa humorístico famoso da época, em que por algum motivo aparecia um “black” naquele caótico lar capitaneado por Otelo Zeloni. Era um negro altíssimo, mascando chiclete, riquíssimo: aos meus olhos de criança, e provavelmente aos de todo brasileiro na época, aquilo parecia um espantoso paradoxo. O americano –dominante—pode ser negro –dominado. Somos inferiores ou superiores a ele? Talvez a resposta fosse encará-lo à luz do ridículo, ou do exotismo.

        

         Esse ridículo, esse exotismo, eram de resto o modo com que americanos, brancos ou não, tendiam (tendem?) a encarar os brasileiros. Vide Carmen Miranda.

        

         Nossa vingança foi nos transformarmos nós mesmos em Carmen Miranda, durante o tropicalismo: Chacrinha era a caricatura de si mesmo, o patetismo de Teixeirinha era cantado a sério, mas com toneladas de ironia, por Caetano Veloso, e Glauber Rocha, com “Terra em Transe”, assumiu o delírio equatorial como um espelho, e o grotesco como depuração da realidade política concreta.

        

         Acho que a mesma mistura de ironia e jogo para valer, entre levar-se a sério na medida mesma em que se assume um papel de caricatura, estava por trás da “pilantragem” de Simonal. Mas ele aplicou esse procedimento não à imagem do brasileiro abananado, mas do showman americano de sucesso.

        

         Os americanos gostam de usar a palavra ídiche “chutzpah”, para se referir a um extremo de autoconfiança, a uma quase temeridade na certeza de que, impondo-se, a pessoa de talento alcançará sucesso. Não há maior exemplo de “chutzpah” no Brasil –onde essa característica tende a ser meio rara, eu acho— do que o show de Simonal com Sarah Vaughan. Ele não sabia falar inglês, mas fala. E não se intimida nem um pouco ao contracenar com a grande diva do jazz. Veja no youtube.

 

         Não seria esse tipo de “chutzpah”, aliado a muita pilantragem, o que levou Simonal ao catastrófico ato de entregar seu contador, de quem suspeitava, nas mãos de torturadores do Dops?

 

         O assunto é muito bem comentado por alguns dos entrevistados. Nelson Motta, o “Boni” da Globo, Miele, consideram que ele não tinha nenhum vínculo real com o sistema de informações da ditadura. Só quando foi chamado à polícia, depois de o contador fazer queixa contra ele por sequestro e sevícia, é que ele resolveu se apresentar como figura relacionada ao sistema repressivo.

 

         Boni diz uma coisa que parece convincente: se ele fosse mesmo um dedo-duro do regime, os poderosos da época não o teriam abandonado à própria sorte. Simonal terminou preso, com efeito. E mesmo o contador não teria tido condições de levar o processo adiante, de prestar queixa na polícia por ter sido torturado no Dops, se Wilson Simonal tivesse de fato costas quentes com o regime. Chico Anysio, muito fluente na argumentação, pergunta: “afinal, até hoje nunca apareceu ninguém dizendo ter sido dedurado por Simonal”.

        

         Claro que, vendo o cantor no auge da felicidade e do sucesso, torcemos para que ele não tenha sido pior, como pessoa, do que o documentário já mostra.

        

         Quanto ao papel da esquerda, Artur da Távola e Ziraldo fazem raciocínios interessantes. Artur da Távola aproveita para criticar a imprensa, sua capacidade de assassinato moral. Ziraldo explica melhor, a meu ver, a atitude do “Pasquim” atacando Simonal. Não era permitido atacar o presidente Médici, o delegado Fleury... Simonal concentrava, como um pára-raios, tudo o que estava entalado em matéria de crítica ao SNI, à delação sistematizada, ao terror de Estado. Ninguém se incomodou muito, na época, em pensar no que o cantor pudesse estar sofrendo com isso.

 

         Será que estava? O tempo todo, desde o começo? Ou só quando “caiu a ficha” de que sua carreira estava acabada? Infelizmente, o documentário não foi feito a tempo de ouvir o próprio Simonal. Ele aparece, já no fim da vida, num programa da Hebe, mostrando um documento da secretaria de Direitos Humanos atestando que “não há registro” de Simonal pertencer aos quadros dos informantes do SNI. Mas não sabemos o que ele tinha a dizer a propósito do seu contador, dos amigos do Dops, e mesmo de sua aposta em se dizer a favor da ditadura, quando o episódio começou a aparecer nos jornais.

        

         Como espectador, fico pensando apenas: “a história não poderia ter acabado de forma diferente?” Tanta gente terminou reconciliada com a opinião pública, apesar de comprometimentos com o regime... Cito o caso mais fulgurante, o de Teotônio Vilela. Não é a mesma coisa, claro. Pois é, isso é que me deixa triste: não é a mesma coisa.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h35

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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