Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

patópolis

Desculpem se estou chato, mas aqui vai outro trecho:

Passa-se de um quadrinho a outro sem problema: a disposição horizontal da página, com breves traves brancas --como um prédio de apartamentos a mostrar suas janelas iluminadas ao adolescente sorrateiro que, de noite, com um binóculo, quer surpreender cenas de sexo como as que leu no livro de Arthur Hailey--, simplesmente impõe seu ritmo binário e claro aos olhos, ao contrário da página de um livro, onde, sem tiquetaques e sem arejamento racional do espaço, as linhas escritas se empilham como se o ato de leitura, orientado de cima a baixo, equivalesse a uma queda lenta, a um mergulho no mar de piche escrito em que vírgulas nadam como peixes, ou a um despencar-se sem gritos no poço sem fundo do elevador das letras.

        

Escrito por Marcelo Coelho às 22h43

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Patópolis

Mais um trecho do livro que estou escrevendo

Mickey, seduzido pelos perfumes de um bolo cor-de-rosa de morango, bate à janela de Minnie. Tira da cabeça um ridículo chapéu palheta, imagem da frágil galanteria masculina. Oferece-se para limpar o jardim de sua amada, sem saber que logo perto se armava um terrível furacão, um tornado, melhor dizendo, que não deixará pedra sobre pedra no cuidado jardim da caprichosa rata. Eis a masculinidade que se aliena em pura força da natureza. Extinta a tempestade, Mickey tira o chapeuzinho em pedido de desculpas pelo estrago de que não foi responsável. Minnie não tem a generosidade da desculpa. Atira-lhe na cara o bolo que acabara de fazer. A cobertura rosa escorre pelo focinho do camundongo, que a lambe, e retira disso o prazer adocicado da derrota.

         Vire-se esta página sentimental. E o que encontramos em seguida? O encarte, sim, o triunfal encarte do Instituto Universal Brasileiro.

         Um homem pobre de bigode atesta, num retrato 3x 4, o quanto sua vida melhorou. Fez o curso de perfumista por correspondência. Outros cursos se oferecem: desenho industrial, corte e costura, contabilidade básica. Quantas carreiras não se abrem ao herdeiro masculino do clã Bonelli, atribulado na busca de um futuro digno na vida?

         Entretanto, essa palavra –futuro—inexiste nas histórias em quadrinhos. Patinhas não morrerá. Donald está condenado à mesma roupa de marinheiro. Mickey será de Minnie o eterno noivo. A infância, bem ou mal, é eterna.

        

Escrito por Marcelo Coelho às 09h19

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beleza clássica

 
 

beleza clássica

Continuo assinalando o poder da pura beleza física nos musicistas que surgem, com sucesso merecido, nesta primeira década do século 21.

Eis a premiada pianista russa Maria Mashycheva:

E também Anna Vinnitskaia:

 

sem esquecer a violonista Sharon Isbin:

 

 

e a soprano alemã Diana Damrau:

que fica um bocado atrás, convenhamos, de outra cantora lírica excelente, Kate Royal:

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h16

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patópolis

Mais um trecho do livro que pretendo escrever.

Cumpre então dar nosso adeus a Walt Disney, espécie de pai confiante na posteridade industrial de suas criaturas.     

        

         Vire-se esta página sentimental. E o que encontramos em seguida? O encarte, sim, o encarte do Instituto Universal Brasileiro.

         Um homem pobre de bigode atesta, num retrato 3x 4, o quanto sua vida melhorou. Fez o curso de perfumista por correspondência. Outros cursos se oferecem: desenho industrial, corte e costura, contabilidade básica. Quantas carreiras não se abrem ao herdeiro masculino do clã Bonelli, atribulado na busca de um futuro digno na vida? Mas essa palavra –futuro—inexiste nas histórias em quadrinhos. Patinhas não morrerá. Donald está condenado à mesma roupa de marinheiro. Mickey será de Minnie o eterno noivo.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h49

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nepotismo

Desculpem, mas achei muito bonitinho. Maria Beatriz, filha de Fernando Sarney, e neta de José Sarney, está cavando um emprego para o namorado. Afinal, não é o fim do mundo. O lindo é o tom de voz. Você pode conferir: http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/?hashId=jose-sarney-gravacoes-evidenciam-nepotismo-04023960CC918346&mediaId=282309

Sabe o que me sensibiliza? A familiaridade. Uma vez circunscritas a uma roda de conhecidos, não há mais que inocentes na jogada. Os Sarney, em suma, são tão capazes de carinho e de amor quanto qualquer um de nós. O Senado é só um detalhe.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h24

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Vanzolini, um homem de moral

 
 

Vanzolini, um homem de moral

Há coisas lindas em “Um Homem de Moral”, documentário sobre o biólogo e sambista Paulo Vanzolini, atualmente em cartaz no Espaço Unibanco. Como filme, é bastante preguiçoso: faz pouco mais do que entrevistar o compositor e gravar o “making of” de um show em homenagem a Vanzolini, que reúne, em simpática democracia, cantores da noite paulistana e grandes nomes da MPB, como Chico Buarque e Martinho da Vila.

         O grande acontecimento estético desse documentário, que mostra aliás uma cidade suja, desarranjada, nada fotogênica (e isto é um elogio), está entretanto no final. É quando se registram, nas vozes desafinadas de quase uma dezena de pessoas comuns, os versos famosos de Vanzolini: “levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”.

         Vendo a quantidade de pessoas humildes que repetem esses versos, na rapidez da edição cinematográfica, tem-se o efeito de um coro grego, só que sem a choramingação do original: a ideia de dar a volta por cima prevalece. Mas é o próprio Vanzolini quem avisa: mais importante do que “sacudir a poeira e dar a volta por cima”, vale lembrar o verso anterior: “reconhece a queda”.

         Falta isso, sem dúvida, ao otimismo brasileiro.

Escrito por Marcelo Coelho às 04h24

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patópolis

Mais um trecho do livro que estou escrevendo.

Uma coisa é certa: Walt Disney pendurava, no céu azul do abril de seus gibis, como uma bandeirinha branca de papel, a sua própria assinatura, legível como a de Margarida, impecável como a do Camundongo Mickey nos dias em que, bom cdf, esquentava os bancos escolares.

         Eis que, num dia terrível de 1966 –era um frio dezembro--, o pequeno leitor das revistinhas se depara com a notícia. Walt Disney morreu, Walt Disney está morto. Não lê a notícia nos jornais do dia. Sabe do fato por meio de um quadrinho histórico, inserido às pressas na diagramação –parem as rotativas!—do último gibi. O my God!, uiva a secretária, cadela esbelta de salto alto, no gabinete particular do último pavimento da Disney Incorporated. Providenciem um modo delicado de dar a notícia à petizada.

         Como se fosse numa lápide, eis então na página central da revistinha a imagem, fiel ao retratado, do próprio Disney: sorriso triste de despedida abrindo levemente, como uma asa breve de graúna, o ângulo do seu bigodinho circunflexo. Ao seu redor, um grupo heterogêneo se comprime: Mickey, Donald, os Sobrinhos, Pateta e, quem sabe, um esparso Metralha estão de luto: cada qual derrama a sua lágrima para o bom e velho Walt.

         Mas o leitor se pergunta: se estão ali, chorando a morte de Disney, quem então os desenhou? Poderia ser, mas sabemos que as coisas não são assim, que  Disney tivesse projetado, sabendo da morte próxima, seu próprio mausoléu, comovido e simples, não em pedra, mas na linguagem que lhe era cara ao coração; um quadrinho, e nada mais.

         Ah, se fosse possível contar a dor imensa que me vem desse mundo de farsas textuais. O quanto de comédia, na simples expressão “derramar uma lágrima”, existe? Haveria um reservatório, como um filtro na copa de cada alma, da qual se abastecesse, gota a gota, o copo que depois, na ocasião azada, coubesse verter, derrubar, pingar, como homenagem de pinguço aos ínferos santos da terra, “uma lágrima”? Ei-la então; “una furtiva lacrima”, expressa com canoros bicos, circundados de batom, o tenor que nada sente; serve-se o “Lachrima Christi” na Ceia dos Cardeais, o cardeal francês, interpretado por Sérgio Viotti num antigo teleteatro da TV Cultura, modula seus lábios sibaritas no relato de suas amorosas conquistas; o espanhol, Raul Cortez, ameaça a golpes imaginários de espadim o bom andamento da companhia de luz e força de Saragoça. “Mas como é diferente o amor em Portugal”. Natural que por essas bandas seja mais fácil às lágrimas que fluam.

         

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h39

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A timidez de "Um Homem Bom"

 
 

A timidez de "Um Homem Bom"

Também saiu “Um Homem Bom” em DVD. O tema do filme me fascina especialmente: de que modo um sujeito apenas tímido, não querendo desagradar ninguém, adere ao nazismo logo no início do regime, por bastante interesse próprio, mas também pela pressão do meio e por um bocado de vaidade.

         Talvez isso fosse compreensível em 1933, se o indivíduo não é dos mais lúcidos politicamente –nem sequer muito informado da coisa toda.

         Um dos problemas de “Um Homem Bom” é fazer um corte para 1938, quando o caráter do nazismo já estava bem mais evidente, e mostrar nosso personagem na mesma ingenuidade algo sonsa de antes. Simplesmente não dá para acreditar: ou o regime já o tinha corrompido um bocado, ou o filme é tão avoado quanto seu protagonista.

         E tímido, também, como seu protagonista: sente-se isso pela caracterização de alguns atos históricos de grande violência, como a Noite dos Cristais. Entendo que uma opção estética do diretor seria a de não mostrar cenas apavorantes; em “O Pianista”, por exemplo, não é preciso nem chegar à Noite dos Cristais para mostrar três ou quatro eventos capazes de enregelar qualquer um, sem usar de excessos “pornográficos” em matéria de barbárie.

         Mas em “Um Homem Bom” a Noite dos Cristais aparece, com grande uso de figurantes e cenários; o diretor quis de fato mostrá-la. E o faz timidamente, sem intensidade nem concisão. O mesmo se pode dizer, talvez, do final do filme –é como se “Um Homem Bom” não chegasse às últimas consequências do seu pressuposto. Entretanto, é justamente esse o tema central que se queria abordar.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h23

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Benjamin Button, filme Frankenstein

 
 

Benjamin Button, filme Frankenstein

Se gostei de “Benjamin Button”, não foi muito. O filme envolve, mas parece uma mistura de “Forrest Gump” (uma geral sobre o século americano) com “Titanic” (uma história de amor rememorada no leito de morte), a partir de um pressuposto bizarro, a do bebê que nasce velhíssimo e vai remoçando quanto mais avança em idade.

 

Filmar uma história dessas coloca qualquer diretor ou roteirista diante de um problema estético insolúvel, a meu ver. Ou se mostra direitinho, por exemplo, o rosto encarquilhado do bebê –e o efeito é cômico—ou não se mostra, dando a impressão de que se recuou diante da exigência de levar ao pé da letra o pressuposto da história, como se o próprio filme não acreditasse nela. O resultado é que ficamos diante de uma espécie de arquitetura cômica num filme que quer ser sério (o que consegue parcialmente) e quer ser uma história de amor romântica (o que é de fato).

 

Apesar de haver uma série de peripécias interessantes no filme, tudo acaba tendo menos importância do que os feitos do grande personagem oculto de “Benjamin Button”: o maquiador.

 

Seria interessante se a história explorasse, por exemplo, o descompasso entre a mentalidade adolescente e o físico idoso do protagonista, e, mais ainda, o espírito velho dentro de um corpo jovem. Mas isso só de vez em quando aparece. No auge da juventude física, Benjamin Button comporta-se mentalmente como um jovem de fato: curte Beatles, motos e maconha. É que, afinal, o físico é tudo nesse filme. E o amor, é claro. De preferência físico também.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h44

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A política de "Milk"

 
 

A política de "Milk"

         Já meio de férias, aproveito para ver alguns DVDs lançados recentemente. Andava perdendo muita coisa que saiu no cinema.

         Começo por “Milk”, cinebiografia do primeiro político americano abertamente gay, que deu o Oscar de melhor ator a Sean Penn. É uma atuação muito convincente mesmo: poucos minutos de filme, e nos esquecemos completamente de que ali está um ator. Não só Sean Penn,mas todos os outros parecem pessoas reais; sem desmerecer o talento do ganhador do Oscar, que é evidente, isso também deve ser efeito da direção e da própria estrutura narrativa do filme, que não “ficcionaliza” nada.

         “Milk” é bem um filme da era Obama. A ideia de que a esperança (hope) move de fato as coisas, apesar das inúmeras derrotas e assassinatos, é a grande e comovente mensagem do final da história.

         Não apenas esperança, mas também coragem. Acontece que coragem não é apenas o fator que torna um líder excepcional, e capaz de mobilizar de fato multidões em torno de uma causa. Vemos também o quanto de violência pode nascer do puro medo, do ressentimento, da sensação de se sentir ameaçado por alguma razão imaginária.

         Seja como for, o que mais me chama a atenção em “Milk” é a qualidade da política americana. Não há dúvida de que há defeitos e problemas enormes por lá também. Acontece que há um mínimo de clareza nas coisas. Quem é contra os direitos dos gays, fala isso abertamente. Quem os defende respira fundo e vai em frente. Existe, bem ou mal, um “issue”, uma questão de interesse público, em torno da qual a disputa política se dá.

         O que desanima no Brasil é a escassez de “issues” desse tipo. Certamente, a questão das cotas raciais, dos direitos dos quilombolas, o conflito entre ruralistas e ambientalistas existe. Mas quando se pensa no que falam Dilma e Serra, Ciro e Lula, Mercadante e Alckmin, é inevitável perguntar que “issues”, que pontos de vista eles estão de fato defendendo. O vazio é impressionante. De resto, onde está o Harvey Milk da maconha? Gabeira desistiu do papel, ao que tudo indica.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h00

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o freguês da barbearia

 
 

o freguês da barbearia

         Vou ao banco, tirar dinheiro do caixa eletrônico, e passo pela barbearia da esquina. São cerca de três da tarde. A barbearia, toda envidraçada, é daquelas bem antigas, com profissionais de cabelos brancos, uma espécie de loção cor-de-rosa sem marca que pulverizam com uma bombinha como aquelas de tirar pressão. Como a rua é em declive, os fregueses que se sentam mais próximos da esquina parecem um bocado elevados a quem passa pela rua. Vejo um menino pequeno, cabelos encharcados, metido num aventalão branco como se fosse um antigo freguês do estabelecimento.

         Só percebo depois de uma fração de segundo: é o meu filho menor! A babá o levara para cortar o cabelo. Meu impulso inicial foi entrar na barbearia e ficar com ele. Verdade que tinha outras coisas a fazer. Não fui. Em geral, tendo a achar que o primeiro impulso, com os filhos, é o mais certo. Mas tive um prazer novo ao vê-lo um pouco mais de longe, entregue à própria vida, sem precisar de mim; ainda mais quando entregue a uma fração de existência tipicamente adulta. Com oitenta anos ou cinco, o freguês da barbearia será sempre o freguês da barbearia. A não ser, é claro, que fique completamente calvo na meia-idade, futuro que não desejo ao meu filho.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

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Paisagem, de Horacio Costa

 
 

Paisagem, de Horacio Costa

         “Grandeza” é uma qualidade que não se aplica habitualmente aos versos de um poeta moderno: a modéstia, a ironia, tendem a assumir o primeiro plano.

         Recebi pelo correio, entretanto, um livrinho de Horácio Costa, que é na verdade um poema longo e majestoso, escrito quando o autor estava na sala de espera do Hospital da Beneficência Portuguesa.

         Eis um pouco de sua solenidade, de sua grandeza, de sua poesia:

 

... as encostas

lá embaixo, sulcadas entre bairros

de espigões, talvez possam sugerir

semi-aconcáguas aos do montanhismo

entusiastas, que por aqui transitem

e aos médicos, o vislumbre da

distante cúpula da Catedral, cujos

bronzes estão cobertos por cinábrio,

o bimbalar mouco de sinos em toque

fúnebre, que lhes imprima o significado

da vida de cada um de seus pacientes:

velhos imigrantes portugueses, mães

nordestinas deixadas por seus machos,

e o significado de minha vida em

particular (...)

 

O rigor da versificação se mistura com a espontaneidade da  voz. Eis um grande poema. "Paisagem II" foi editado artesanalmente pelo Selo Demônio Negro, e o e-mail para contato com o editor, Vanderley Mendonça, está no colofão: vanderleymeister@gmail.com

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h37

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conto sobre vampiros

Vai aqui o trecho inicial do conto que escrevi na coletânea de histórias de vampiro organizada por Luiz Roberto Guedes:

Tratamento a laser. Mudanças nos hábitos alimentares, com decréscimo na ingestão de açúcares. Fluoretização da água. Novas substâncias anticárie, cuja aprovação era dada como iminente pela revista Drill --a Bíblia dos cirurgiões-dentistas em todo mundo.

“Estou acabado”, suspirou o dr. Júlio Zanini, enquanto as primeiras luzes do trânsito e das torres de rádio começavam a oferecer, pela ampla vidraça à prova de som e de bala daquele consultório na Paulista,  suas rotineiras distrações aos pacientes, pobres pacientes de boca aberta e olhos esbugalhados, que nada sabiam das perspectivas sorridentes --se é que cabe o termo-- que lhes divisava a ciência odontológica, a poucos passos de alcançar uma vitória definitiva na multissecular e incansável guerra do homem contra a cárie. “Estou acabado”, insistia o dr. Júlio Zanini, sem derivar dessa conclusão um desprazer tão grande assim. Pois a falência de um ofício, de uma profissão, de uma habilidade coletiva, institucionalizada, reconhecida pelo Ministério do Trabalho --a saber, a de perfurar milimetricamente, calafetar, britar, roer com motores velocíssimos e ínfimos a dentina corrompida de um ser humano-- era pelo menos um fenômeno de grande amplitude, uma desgraça corporativa, se quisermos, sem que nenhuma evidência de inépcia particular, nenhum sintoma individualizado de declínio, nenhum processo identificável de decadência pessoal --chame-se Mal de Parkinson, alcoolismo, diabetes, glaucoma--- pudesse ser apontado, convocando seu portador ao banco dos réus. Não, o banco dos réus já estava ocupado, ou melhor, já estava ocupada a cadeira da câmara de torturas --sem ajudantes caolhos ou corcundas entretanto-- que tivera, ao longo de tantos anos e séculos, visitantes variados, insuspeitos (donas-de-casa com um fraco por balas de cevada, velhos professores tabagistas, mocinhas de sorriso de cavalo), mas nunca, NUNCA!, repetia o dr. Júlio em retrospecto não menos amargo que triunfal, nunca um dentista poderá ser culpado de coisa nenhuma, se a profissão finalmente se acabar.

Ou seja, resumindo. Aos sessenta e sete anos, quarenta redondos de profissão, o dr. Júlio Zanini estava a ponto de perder todos os seus clientes, caindo um a um como dentes de uma gengiva frouxa, a despeito de todos os seus esforços para mantê-los no lugar. Não era fácil disfarçar o tremor naquela mão direita encarregada de empunhar espátulas, ferrinhos e brocas tão perto de tantos olhos inquietos e bocas imobilizadas como as de grandes peixes fisgados em anzóis recurvos, entre cusparadas de sangue e silvos de saliva. Não era fácil  --talvez-- disfarçar, sob a capa protetora da máscara cirúrgica, o carregado odor da halitose alcoólica que emanava, como um miasma tumular, do organismo do dentista. “Estou acabado”: menos mal que sejam os progressos da ciência, e não os decessos da vida, a causa claríssima de tal miséria. Não a bebida apenas --que fosse bom copo, vá lá-- mas a sensação de perda de controle, de fraqueza nas pernas, de exaustão na coluna vertebral, de diminuição da acuidade ocular,  tudo contribuía para que, não tão perto do fim da vida assim, mas tudo é pretexto nesse caso, o gosto do dr. Zanini pelos bons vinhos --quantas vezes pacientes agradecidos não lhe ofereceram, no final de um tratamento, a rubra e espessa seiva da Terra e do Sol!-- se acentuasse com o passar dos anos, assíduo como a escovação correta dos molares e incisivos; e, tanto quanto o uso sempre recomendável dos antissépticos bucais, consolidara-se também o hábito diário do puro uísque de malte.

Zanini contemplou seu próprio reflexo na vidraça, destacando-se pálido contra o final de tarde citadino, e tirou as luvas e a máscara cirúrgica. “Acabado”. Mais um dia de trabalho acabava também. A luz dicróica do consultório devassava as últimas memórias de beleza de seu rosto. Ter sido um homem bonito --um “rapagão”, diziam no seu tempo; ele preferia “um sujeito charmoso”--  ajudara-o bastante na vida profissional, fazendo com que os pacientes compensassem o desprazer vivido nas consultas com o fascínio que possa haver numa atitude de passividade justificada e consentida. “Ah, doutor Júlio, doutor Júlio...” quanta atração por trás de quanto sacrifício! E de quantas bocas não saíram quantas vozes, vozes de outros tempos que ainda ecoavam em seus ouvidos, cada vez menos sensíveis aos ruídos de sirenes e buzinas provindos da noite que caía.

Hora de um último drinque, antes de pegar o trânsito de volta para casa. A gavetinha do armário de metal, em cujo tampo se equilibravam, tilintantes, os velhos instrumentos do ofício, já estava entreaberta; lá dentro, uma população liliputiana e disciplinada de garrafinhas de uísque, como a do frigobar de um hotel de luxo, mantinha-se em estado de mortal expectativa. Zanini se abaixou para escolher mais uma vítima.

Quando se levantou, o rapaz já estava lá. Sentado na cadeira de dentista. A primeira coisa que o dr. Júlio viu foram longas pernas, retas e estendidas, terminando em coturnos pretos que pareciam quase encostar no chão. Seu olhar fez depois o trajeto inverso, subiu pela calça justa, passou pelo cinto tacheado bem abaixo do umbigo, infletiu levemente em obediência ao ângulo indolente da cintura em direção à estampa incompreensível da camiseta até o pescoço fluorescente, ao pomo de adão em forma de diamante e ao queixo imberbe até parar no sorriso quase inexistente de dois lábios fixos, secos, doentes. Ia encontrar os olhos do garoto, mas parou.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h10

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mais voltaire de souza

Outra crônica publicada recentemente.

O DANÇARINO DE MADRI

 

 

O combate ao crime não pode cessar jamais.

A dra. Calíope era uma eficiente delegada.

Era estressante sua rotina no DP.

As amigas deram uma boa dica de lazer.

--Quer relaxar? Já tentou dança flamenca?

Leques. Vestidos rodados. Castanholas. Calíope resolveu experimentar.

O curso começava às dez da noite. O professor se chamava Fabián.

Em poucas aulas, Calíope ficou apaixonada pelo sedutor dançarino de Madri.

--Fabián... Fábian... tua cinturinha de toureiro.

Na delegacia, ela passava as horas distraída.

Mais de um bandido teve de segurar o riso quando em vez de algemas ela tirou da gaveta um par de castanholas.

Dia de revolta no xadrez. Traficantes no resgate. Metralhadoras pipocaram.

Em vez de se proteger, Calíope acompanhou o ritmo das balas.

Na base do sapateado curtinho. Três balas interromperam sua dança.

Calíope se recupera no hospital. Fabián cuida dela com carinho.

--Más furos en tu carne que un toro en la corrida. Pero me gusta la sangre.

Quando chega o amor, o coração humano se torna a mais incansável castanhola.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h40

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voltaire de souza

Alguns textos recentes do cronista do "Agora".

PARENTADA POP

 

 

Crise no Senado.

Maracutaias. Marmitas. Empreguismo.

O senador Pupo Campelo rebatia as críticas.

--Não tenho parentes no meu gabinete.

As notícias não eram essas.

Funcionários fantasmas ganhavam altos salários.

Mansões paradisíacas abrigavam membros do clã.

Pupo Campelo convocou os jornalistas.

--Venham. Entrem aqui no anexo 5.

O velho senador abriu as portas num gesto dramático.

--Onde estão os fantasmas? Hein? Hein?

Um silêncio se fez entre os jornalistas.

Logo em seguida, soaram alguns acordes de rock.

Os depoimentos variam. Mas muita gente jura que viu.

--Vi, sim. O Michael Jackson. Como se fosse um showmício.

Cantando a música de “Thriller”. Atrás, vampiros e mortos-vivos.

Com os traços fisionômicos característicos da família Campelo.

O problema do Brasil é que as elites sempre dançam conforme a música.

 

 

 

TARDE DEMAIS

 

 

Escândalos. Denúncias. O Senado vai mal.

Mas nem todos os políticos são patifes.

O doutor Gandolfo era uma importante liderança política.

Sério. Austero. Contido.

Seu discurso ecoava no plenário vazio.

Ele propunha mudanças radicais.

--Reformar tudo. Medidas cirúrgicas.

A voz de Gandolfo ia do grave ao agudo.

--Somos a face da Nação.

A gesticulação era frenética.

--Do jeito que estamos, não podemos nos olhar no espelho.

O velho líder balançava a cabeça. Fechou os olhos.

As luzes fluorescentes do plenário começaram a piscar.

Uma sombra branca tomou forma no vazio.

--Forget it, Gandóólf... esquéééss esse pááp…

Era o fantasma de Michael Jackson. Veio o enfarte. E um último recado.

--Véém comiig, Gandóolf... que aquíi non téyn mais jeeit.

Na política e na vida, por vezes, quanto mais se reforma, pior fica.

 

 

GRITO NOS CAMARINS

 

 

Cores. Paletas. Texturas.

O mundinho da moda volta a ferver.

A bela top model Juju Santoro estava arrasada.

--Celulite. Estou com celulite.

O desfile ia ser dali a algumas horas.

Moda verão. Biquínis bem cavados.

O estilista Kuko Jimenez dava os últimos arremates.

O grito ecoou pelos camarins.

--Jujuuu! O que-que-é issoooo?

A pequena imperfeição no bumbum direito deixou Kuko fora do sério.

--Uma tangerina. Uma poncã.

Ondas de ódio tomaram conta da alma do estilista.

A agulha de costura espetou sem dó o ponto flácido da modelo.

--Ai, seu bruto. Seu histérico.

--Me segura se não eu mordo essa mexerica.

O segurança Roberto agarrou Kuko com firmeza. E bastante carinho também.

Continuou agarrando o estilista durante todo o desfile. Que foi um sucesso.

O amor é como a celulite. Aparece com mais nitidez na hora do apertão.

 

 

PRESENÇAS E FANTASMAS

 

 

Abusos. Espertezas. Malandragens.

É baixa a moralidade no Senado Federal.

O senador Desídio Macambira estava indignado.

--Nunca empreguei parentes no meu gabinete.

Já no gabinete dos outros senadores, ele não sabia informar.

--Fiz tudo o que podia pelo meu país e por minha gente.

Pela gente dele, em especial. O discurso continuava.

--Invoco agora os vultos do passado.

Passou os dedos nervosos pelo cabelo acaju.

--Ruy Barbosa... Joaquim Nabuco...

Ele começou a balbuciar frases desconexas.

--Sim... sou eu... sai daí. O que vossa excelência está fazendo?

Figuras esvoaçantes e transparentes começaram a surgir no seu ângulo de visão.

--Nabuco! Mas eu sempre fui teu amigo... Que fazes com esta espada?

O fantasma se aproximou. Desídio sentiu uma pontada real no coração.

Foi direto para o Incor. Passa bem. Os parentes é que não o visitam.

--Melhor assim. Vamos deixar o afeto de vocês no campo do sigilo.

Quando se confia nas sombras, os fantasmas estão sempre por perto.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h52

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lições de um alemão

 
 

lições de um alemão

         É difícil imaginar um general alemão que seja preguiçoso ao mesmo tempo; é difícil imaginar um general alemão inteligente também. Ao que tudo indica, Kurt von Hammerstein (1878-1943) era desse tipo.

         Estou lendo a genial biografia desse aristocrata antissemita e antinazista, Hammerstein ou A Obstinação, escrita por Hans-Magnus Enzensberger. Eis a tipologia que Hammerstein dos tipos militares.

         Distingo quatro espécies deles. Há oficiais inteligentes, aplicados, burros e preguiçosos. Em geral, essas qualidades vêm aos pares. Há os inteligentes e aplicados, que devem ir para o Estado-Maior. Depois vêm os burros e preguiçosos; esses são 90% de qualquer exército e são próprios para tarefas de rotina. Os inteligentes e preguiçosos têm o que é preciso para tarefas mais altas de liderança, pois têm clareza mental e firmeza nos nervos na hora de decisões difíceis. Mas é preciso tomar cuidado com os burros e aplicados; não podem receber nenhuma responsabilidade, pois só sabem causar desgraça.

         Sem dúvida, Hammerstein estava tentando justificar seus próprios defeitos. A preguiça, em si, não ajuda em coisa nenhuma. Ao contrário, leva a que os aplicados tomem o poder. Foi o caso dele: assim que os nazistas ascenderam ao governo, toda sua genialidade estratégica, como militar, foi dispensada –para alívio dele mesmo, que como autêntico aristocrata tinha horror à vulgaridade hitlerista.

         O que caracterizou os nazistas --com exceção de Hitler, talvez, que sem dúvida era inteligente—não foi exatamente a burrice nem a diligência. Foi a possibilidade de aliar burrice e diligência à selvageria. O segredo do nazismo, acho, foi o de possibilitar o máximo de selvageria dentro de um esquema ordenado. Era, no fundo, o segredo de toda guerra –coisa que um guerreiro como Hammerstein nunca poderia admitir.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h36

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totalitarismo dos restaurantes

Mais um trecho de "Patópolis", livro que escrevo quando posso.

         Entremos todavia, passo a passo, timidamente, nos primeiros restaurantes de luxo que a um ginasiano é dado frequentar. Abre-se uma porta de vidro: sons cálidos de acordeon inundam o ambiente, cozinham os fregueses num caldo de bouillabaisses; a voz de Jacqueline François engrossa a mistura em fogo brando, o creme-caramelo de Charles Trenet responde num vaivém de mar. Sim, o restaurante atesta que estamos em Paris.

         Ou é o gongo imaginário que aquieta a família inteira, aterrorizada um pouco diante do que lhe reserva o grande restaurante de Pequim: ninhos de andorinha, patos laqueados, ovos negros de cem anos. O silêncio se impõe: tudo é chinês. A água é chinesa, chineses serão os guardanapos, os tapetes, os ventiladores; a própria luz é chinesa, ziguezagueando em mesuras que se penduram entre biombos vermelhos e dragões dourados. Cada coisa é sua própria legenda de cinema mudo, dizendo: Pequim. Um jantar significativo. Ou melhor, numa história em quadrinhos: Em Pequim... Chegando em Pequim... Enquanto isso, em Pequim...

         Pequim! Naquele cenário fomos inseridos. E torna-se legítimo perguntar: existe a Pequim real? Não seria muito melhor do que a hipótese que temos aqui.  Qualquer restaurante de Paris será mais imperfeito do que este, no qual só toca música francesa, e de cujo cardápio jamais constarão raviolis nem feijões. Um restaurante português nos entope daqueles milhões guitarras, fados que não cessam, sardinhas em cardume; eis, amigos, o Vesúvio, fumegando lasanhas inextinguíveis, macarrões a retorcer-se em tarantelas. Um touro nos recebe, de olhos fixos; maître empalhado, múmia de Madri. Tudo se fecha, nenhum “pequeno detalhe” foi esquecido pelo dono do lugar. Não há objetos neutros, não há uma toalha de mesa que seja simples Toalha de Mesa (mas existem Toalhas de Mesa?): num coral de homenzinhos e mulherzinhas vestidos de verde e vermelho, a toalha entoará em ordem e alegria o hino austríaco, ou repetirá em bordados saltitantes o desespero das csárdas da velha Budapeste.

         Provém dos “nervos esfrangalhados de um cigano”, dizia entre pigarros o velho professor Lukács, a dura música de Bartók: os óculos de massa preta, os dedos amarelos de nicotina, o sobrecenho carregado de certezas, do marxista húngaro nos leva de volta ao dourado crepúsculo de Oxford. Óculos de massa preta, sobrecenho carregado de teoria, ou coisa que o valha, eis outro avatar de um nosso conhecido personagem, o professor Ludovico, que se encarna no sarcasmo severo --coisa de titio decrépito, olhando entre as pálpebras caídas o decair do mundo—do professor Isaiah Berlin, farejando como um sabujo qualquer indício totalitário: seriam totalitários os restaurantes franceses em São Paulo? Tudo indica que sim: Charles Trenet, seus cassoulets, as reproduções desbotadas de Monet, a subserviência grisalha do sommelier, propondo merlots e cabernets.

         Eis a proeza, só aparentemente inatingível, da Coerência. Nas histórias de Luluzinha, acontecia também esse fenômeno –denominemo-lo o da Totalidade do Sentido. Em certas ocasiões, Luluzinha se imaginava pobre: a miséria roía sua roupinha vermelha, onde já se contavam remendos de outra cor; não apenas os seus sapatos eram furados, mas também eram furados os sapatos do mordomo; em petição de miséria se encontrava a limusine; em andrajos, a empregada da casa fazia a faxina.

         Miséria, falência: uma novela da época mostrava a saga da família Bonelli. Mãe inquebrantável, filhos de valor, fábrica fechada. Acostumam-se como podem, nossos personagens, à vida de privações. O primogênito, agora office-boy no centro imundo da cidade, conta com raros minutos para o almoço. A pastelaria está cheia de gente. Quanto esforço, quanto sacrifício, quantas cotoveladas até que adquire o seu precioso pastel, acompanhado, é claro, de caldo de cana, porque do mesmo modo que a calcinha tem de ser de algodão ordinário, sem caldo de cana não há graça nenhuma. Eis então que, numa última cotovelada do destino, um freguês mais afoito desequilibra o jovem Bonelli e, desgraça! o pastel cai no chão. O pequeno espectador está prestes a ter o coração partido; sabe que não se pega um pastel do chão para comer, e que portanto a fome, nada mais que a fome, será a recompensa do  office-boy pelo trabalho daquele dia.

         Qual não foi o choque do pequeno espectador quando, mais tarde, num piquenique na praia, uma bandeja de croquetes inteirinha rolou pela areia, e na barraca ao lado um francês, bem disposto e melhor alimentado, não teve dúvidas em recolher todos os croquetes, limpando-os rapidamente da areia que os cobria, ingerindo-os com sorrisos em seguida.

         “Eis um povo que sabe o que é a guerra”, filosofou um adulto na ocasião. Manhas, fricotes, portanto, os do jovem Bonelli com seu pastel. Mas a novela prosseguia, e a propósito de um aniversário ou vitória na Justiça –os processos da família Bonelli corriam a caminho de restituir-lhes a fortuna final—eis que a matriarca da família resolve comemorar com todos num restaurante. Sim, mas terá de ser um restaurante pobre. Ou melhor: um restaurante de pobre. Sentam-se à mesa, perguntam ao garçom –que é pobre também—o que há no cardápio; o cardápio lhes é apresentado, não tem encadernação de couro, é uma página encardida encapada em plástico, pobre a mais não poder. O “plat de résistance”, aquilo que o mestre-cuca oferece aos frequentadores do restaurante está inscrito em letras azuis, borradas, de mimeógrafo: “Comercial”.

         Mas o que é um “Comercial”? Arroz, feijão, bife e salada? Que seja, diz madame Bonelli, aprendendo tarde as coisas da vida. Voltarão para casa, satisfeitos, onde à espera da família estará a fiel empregada, que aceita trabalhar sem remuneração; a leite de pato; pobre entre pobres. Como nas fantasias mais lúgubres da Luluzinha, o Mundo-Mendigo se estendia, com dedos de conhecimento e sombra, a todas as classes sociais daquele diminuto círculo doméstico.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h44

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poesia em quebra-cabeças

 
 

poesia em quebra-cabeças

         O poeta Dirceu Villa nasceu em 1975, e seu livro Icterofagia (editora Hedra) é um bicho estranho. A começar pelo número de páginas: exatamente 200, coisa rara atualmente. Livros de poemas chegam no máximo a 100. Além disso, os poemas do livro às vezes são simples, sintéticos, e outras vezes se expandem em citações –grego, latim, italiano, alemão. Formas rimadas e versos densos são sucedidos por alguns jogos tipográficos. Anotações de viagens internacionais (será que o autor é diplomata) se alternam com cenas bem paulistas. Tudo entra nesse livro, e o próprio poeta se justifica ironicamente, dizendo o que não quer:

 

 

DINHEIRO PARA A POESIA, BOAS DICAS

 

Técnicas empregadas, em linguagem pedestre

(relacionar com o mundo contemporâneo).

Dividir bem as seções da obra, & que recebam descrição posterior.

Falar da vida, da cidade, mostrar que os poemas

Estão ligados a você como indivíduo.

Definir o tema do livro, apresentá-lo como uma unidade sólida.

Ressaltar sua brasilidade.

Explicar o título, se elusivo. Dar contornos sensíveis a ele.

Tirar todos os coelhos que ainda restarem da cartola.

 

 

Mas quem não se intimidar com a quantidade de referências poliglotas e com o áspero título do livro pode se surpreender com poemas como este:

 

QUEBRA-CABEÇA

 

para Isabela e Ricardo

 

Há crianças,

elas exigem que você se comporte

e entenda a história,

que evidentemente tem um sentido.

 

Não é uma questão de disciplina,

mas de imaginação:

basta compreender as coordenadas

de onde não há dúvidas:

 

“Todas as perguntas têm resposta

se você sabe perguntar direito”,

dizem elas,

“e quem responde?”, você pergunta.

 

“Tá vendo?

já perguntou errado.”

Escrito por Marcelo Coelho às 00h08

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violino arrepiante

 
 

violino arrepiante

         Em matéria de barulheira, uma bela opção é o CD de concertos para violino e orquestra da compositora polonesa Grazina Bacewicz (1909-1969), que acaba de sair no selo Chandos. A indicação faz parte de uma série antiga de posts por aqui, dedicados à música clássica de alto risco.

         O CD da Chandos coloca as apostas em alto nível, começando pelo concerto no. 7 da compositora, já meio na linha de seus contemporâneos poloneses como Lutoslawski: grandes explosões na orquestra, alternadas com delicados traços de harpa, tudo gerando efeitos de impacto, num expressionismo que assusta de início mas depois vai ganhando inteligibilidade e produzindo uma espécie de prazer interiorizado, desde que nos deixemos hipnotizar pelas ondulações da música. Alguns toques de ritmo “alla polacca” e o terrível virtuosismo da solista Joanna Borowicz tornam o concerto mais acessível.

         Já o concerto no. 3, comparativamente, é capaz de agradar de imediato. Estamos mais ou menos no mundo de Bártok, cujas “músicas noturnas” o Largo do concerto no. 7 já evocava, mas como que refletidas num espelho curvo, meio distorcido.

         Só que agora, neste “allegro moderato” do concerto no. 3, a melodia tem raízes populares mais identificáveis, um certo “paisagismo” lírico que não exclui, como é preciso em todo bom concerto, grandes acumulações e momentos climáticos. A entrada do violino, bem calma, lembra bastante o concerto no. 2 de Bártok, e tudo flui: orquestra e violino respondem-se mutuamente com transparência e brio.

         Para quem gosta de música do século 20, descobrir a obra de Grazina Bacewicz está longe de ser uma má ideia. E, para o violinista, há um bom número de cadenzas arrepiantes para exibir virtuosismo sem parecer frívolo demais.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h12

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os nhonhôs de Brasília

Por falar em rojões, vai aqui o começo do artigo desta quarta-feira na Ilustrada:

Milho verde, quentão, fogueira: não tenho nada contra. Quem gosta de festas juninas, que vá. Mas confesso que as fotos me incomodam depois.

         Recentemente, apareceu uma no jornal que foi de doer. Era o senador oposicionista Heráclito Fortes, vestido a caráter para a noite de São João. Uma curtíssima gravata amarela, na tonalidade quindim, saltava da respeitável papada do parlamentar.

         Menos de um palmo adiante, a gravata desistia do trajeto: a enorme e rotunda extensão xadrez da camisa de flanela desencorajaria, com efeito, até mesmo os mais auriverdes pendões da esperança.

         Heráclito Fortes é um dos mais bem-humorados membros do Senado Federal, e se por lá o deboche costuma se fazer a sério, menos mal que recorra aos chapéus de palha e botinas de elástico na ocasião apropriada. Mesmo assim, tenha dó.

         Certo, não foi culpa dele se foi fotografado; muito menos se a foto saiu na “Folha”. O mesmo talvez se deva dizer de Lula e Marisa, que também apareceram a caráter no já costumeiro arraial da Granja do Torto.

         Lá estava o presidente, com as sobrancelhas unidas a carvão, calça remendada e ar meio desenxabido, de mãos dadas com uma sardenta Marisa de vermelho. 

         Não, não fica bem. Se quiserem fazer as festas, que façam –mas gostaria que em segredo. Tantas coisas são feitas às escondidas em Brasília, que não seria difícil vetar o acesso da opinião pública ao congraçamento desses marmanjões.

Assinantes do Uol podem ler a continuação aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h44

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noites de campeonato

 
 

noites de campeonato

         Não sou corinthiano, mas parabenizo o time por mais uma conquista; não sou corinthiano, mas quase fiquei, por ocasião dos primeiros gols de Ronaldo, em quem já não se acreditava.

         Agora, para quem tem crianças pequenas em casa, cada uma dessas finais de campeonato se transforma num verdadeiro inferno. Tudo bem, moro perto de um estádio, mas o jogo nem foi aqui em São Paulo, e os rojões vão no mínimo até meia noite e meia. Pior, o foguetório é acompanhado cada vez mais de um tipo de vociferação gutural, a que falta até mesmo a nota canora da alegria: ouço urros de animal ferido, lamentos cavernosos, uivos de assombração.

         Não importa o time, meus filhos acordam apavorados. Bebês naturalmente sofrem mais. É o tipo da coisa que vai compondo uma vida de cidade grande que se torna a cada dia menos urbana, menos policiada, menos civil. Contribui para isso o fato de os jogos serem tão tarde.

         Rabugices da meia-idade, ou de “envelhecente”, como diz, se não me engano, Mário Prata. Paciência: um dia vou terminar surdo, ou, quem sabe, fanático por futebol.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h38

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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