Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

museu do futebol

 
 

museu do futebol

         Não tenho maior interesse por jogos, times, técnicos e craques. Mesmo assim, o Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, foi emocionante para mim.

         Logo no começo, há uma exposição temporária que vale qualquer obra de artes plásticas nas bienais da moda. Numa parede curva, estão dispostas as camisas dos mais variados times do mundo, obedecendo a uma clara gradação de cor. Depois, há painéis com milhares de peças de futebol de botão. O efeito é muito maior do que qualquer fanático de futebol pode prever; estamos diante de uma instalação belíssima, muito mais bonita do que a média das instalações.

         O museu todo é um espanto cenográfico.

         Uma sala se dedica apenas à derrota da seleção brasileira em 1950. Filmes de época, mostrando Getúlio Vargas e a campanha do petróleo, dão o contexto da tragédia.

         Sobe-se um andar, e de novo a escuridão: só se ouve o grande rumor das torcidas, até que nas telas imensas da parede se percebe que a sala é inteira dedicada ao torcedor –movimentos na arquibancada, gritarias, gestos coletivos, aparecem projetados na parede.

         Um módulo exclusivo para filmes de drible. Outro em que você pode sintonizar a voz dos grandes locutores de futebol, de Ary Barroso e Fiori Gigliotti a Osmar Santos e não sei mais quem.

         De repente, na escuridão das salas, você tem acesso a um banho de luz: é o campo do Pacaembu, ele próprio, que você vê de uma passarela em pleno dia.

         Levei meus filhos para o passeio.

         Como sempre, eles estavam mais interessados na parte interativa (alguns joguinhos virtuais, uma cobrança simulada de pênaltis) do que na beleza da coisa toda.

         Não sei com que idade se tornarão frequentadores de museu.

         Mesmo sendo um museu tão diferente, tão sem cara de museu, como esse do futebol.

         Vá, mesmo que não goste de futebol. Mas não leve os filhos, mesmo que eles gostem...

Escrito por Marcelo Coelho às 22h44

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chique, hein?

Imagens, tiradas do mesmo site de design do post anterior, mostrando taças de vinho feitas de cera vitrificada, se é que entendi bem.

(Alguns leitores reclamam desse tipo de post. Mas tento simplesmente mostrar que, enquanto cafajestes em Brasília se regalam com os chamados "prazeres da vida" e com vinhos caríssimos, não se importando com a sorte de seus caseiros, jardineiros, motoristas etc., não passam de sintomas da breguice nacional, sem saber o que é elegância de fato. Um dia eles aprendem.)

Escrito por Marcelo Coelho às 14h58

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Tudo que é sólido...

Não é preciso ser marxista para encarar as seguintes imagens, acessíveis no site dezeen, como sinal dos tempos.

Resolveram utilizar uma velha igreja como livraria, ou, digamos, templo do consumo:

 

Perto do altar, a cafeteria:

 

 

Talvez todo e qualquer livro seja, afinal, sagrado.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h45

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O dono do restaurante

Suponha-se que, no caso Palocci, o Ministério Público resolvesse pedir abertura de processo não apenas contra o ex-ministro, seu assessor de imprensa e o presidente da Caixa, mas também contra o dono do restaurante La Torreta.

Evidentemente, o STF teria de recusar qualquer suspeita contra o dono do restaurante.

Evidentemente, nada faria crer um envolvimento do dono do restaurante com o caso.

Mas os outros personagens suscitavam suspeitas, é óbvio. Nesse sentido o voto do ministro Celso de Mello, no STF, não é sintoma de delírio acusatório contra Palocci e seus amigos.

Caberia simplesmente abrir processo, até se saber se as suspeitas eram comprovadas.

Antes disso, tudo significa imaginar que Palocci, com todas as suas trocas de telefonemas e interesses no caso, está tão acima de suspeitas quanto o dono do restaurante “La Torreta”.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h01

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Curinga?

Para muitos comentaristas políticos, a figura de Antonio Palocci é classificada como “curinga”: pode ser que se torne candidato ao governo do Estado, ministro, e mesmo candidato à Presidência.

Não sei bem a força dessas especulações.

É um passo e tanto elevar Palocci, do fio de navalha por que passou no STF, à perspectiva de próximo presidente do país.

A especulação recuou um pouco; que tenha surgido é mera prova da simpatia com que o ex-ministro permanentemente conta junto ao empresariado, que naturalmente não se importa com o tratamento dado a um jardineiro qualquer.

Mesmo assim, reduzir Palocci a possível candidato a governador não deixa de ser uma ambição e tanto.

Faz bem Alon Feuerwerker, cujo blog se caracteriza menos pelo julgamento moral e mais –com extrema lucidez—à análise da “realpolitik”.

Segundo o analista, uma eventual candidatura de Palocci ao governo do Estado haverá de ter mínima interferência sobre o resultado final das eleições.

O ângulo deste blog, mais cultural do que político, traz outro tipo de questões.

“Curinga” ou “Coringa”? Sempre escrevi “coringa”, referindo-me à carta de baralho. Na “Folha”, todos preferem “curinga”.

Trata-se, em qualquer caso, do “joker”, a carta de baralho capaz de assumir as feições de qualquer outra –vereador, deputado, governador, presidente.

Mas o “joker” é também o bufão, o autor de estrepolias (estripulias?) impunes na corte do rei.

Nesse sentido é que surge, nas histórias em quadrinhos, a figura sinistra do Coringa, que tenta sempre rir por último, contra um Batman que, convenhamos, é um idiota.

Eis o Batmóvel, num seriado clássico, em perseguição ao Coringa. A corrida é frenética. Mas um sinal vermelho se acende. Batman pisa no breque.

“É preciso, Robin, sempre respeitar a lei”.

O Coringa escapa, no formalismo do homem-morcego.

Mas por que falo disso tudo? Palocci, na opinião geral, é um valioso curinga.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h44

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Para cegos

Mais uma coisa incrível no processo Palocci, ou melhor, no não-processo Palocci: foi a proposta de um dos advogados de defesa.

Quis propor algum acordo antes da abertura do processo, baseado na possibilidade de penas alternativas. Uma das penas era a doação de 500 resmas de papel próprio à leitura em braille para uma instituição de cegos.

Só 500 resmas? Haveria necessidade de distribuí-las à totalidade da população brasileira.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h28

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Mordomo? que mordomo?

Em mais uma das inumeráveis ironias do caso Palocci no STF, registro o protesto do advogado de Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal.

Mattoso foi o único a ter de enfrentar processo criminal: a denúncia contra ele foi  acolhida pelo tribunal. Quebrou sigilo bancário, ao apresentar o extrato de Francenildo ao ministro Palocci, que nada (nada?) tinha a ver com isso.

O advogado exclama: terminaram culpando o mordomo!

Data venia, será que o mordomo não era outro? Desde quando um presidente da Caixa virou mordomo?

Se for assim, o caseiro Francenildo seria o quê, na ordem doméstica?

Figura invisível no mundo dos interesses reais, sem dúvida; menos mal que tenha comparecido ao julgamento.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h22

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A Caixa comunica

Seria bom, a esta altura, que a Caixa Econômica Federal tranquilizasse seus correntistas com algum tipo de comunicado via internet. Do tipo:

 

 

Caro cliente da Caixa,

você deve ter tomado conhecimento de algumas notícias, por vezes tendenciosas, a respeito de problemas relativos ao sigilo dos dados bancários em algumas contas da CEF.

Queremos tranquilizar você e todos os demais membros da “Família Caixa Econômica” no sentido de que o sigilo de sua conta está plenamente protegido.

É difícilimo quebrá-lo.

Isso pode acontecer, entretanto, em qualquer banco privado também.

A ação dos criminosos não conhece limites.

Procure tomar cuidado com suas senhas.

Não revele seus segredos a ninguém.

Eles podem voltar-se contra você.

Contando com sua confiança e compreensão,

Caixa Econômica Federal.

 

PS- Aliás, o que é mesmo “quebra de sigilo”? Segundo recente voto no STF, o crime não está muito bem tipificado na lei.

 

PS2- Reiteramos que as autoridades estão sempre de olho em movimentações suspeitas na sua conta. Se você recebe dinheiro sem explicação, ou é suspeito de ter lavado recursos ilegalmente, não podemos nos responsabilizar pelo afirmado acima.

Tenha certeza, entretanto, que a Caixa está sempre a serviço de cidadãos honestos, e que se ninguém conseguir provar nada contra você, você está limpo.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h54

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Francenildo para governador

Diante da decisão do STF, por 5 a 4, em favor do ex-ministro Antonio Palocci –que agora acompanho em video-tape na TV Justiça—, gostaria de propor simplesmente o seguinte.

Francenildo para governador.

Afinal, depois de mobilizados o ministro da Fazenda, o presidente da Caixa Econômica e uma série de subordinados, e depois de uma forte campanha da imprensa contra ele, em função dos indícios de que suas movimentações bancárias eram suspeitas (tudo leva a crer que ele estava envolvido em lavagem de dinheiro), nada ficou provado contra ele, no Supremo Tribunal.  

O episódio está encerrado, o rapaz tem a ficha limpa.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h05

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Thomas Bernhard

 
 

Thomas Bernhard

Alguns textos muito inquietantes de Thomas Bernhard, em seu livro “O imitador de vozes  , que comento no artigo da próxima quarta-feira.

 

Hotel Waldhaus

 

Não demos sorte com o clima e, à nossa mesa, sentaram-se convidados repugnantes em todos os aspectos. Até nosso gosto por Nietzsche conseguiram estragar.  Mesmo depois do acidente automobilístico fatal, quando seus corpos jaziam na igreja de Sils, nosso ódio por eles ainda persistia.

 

Credo! É uma espécie de Milan Kundera do Mal. Curioso, entretanto, que o texto faça presumir uma visita compungida ao velório.

 

Receita

 

Na semana passada, morreram cento e oitenta pessoas na cidade de Linz,  todas elas acometidas da gripe que nesse momento grassa na cidade, mas não morreram da tal gripe, e sim em consequência de uma receita mal-compreendida por um farmacêutico recém-contratado. É provável que o farmacêutico tenha de responder à justiça por homicídio culposo, possivelmente, como o jornal noticia, ainda antes do Natal.

 

Qual o efeito de um conto microscópico como este? Talvez o de uma piada que não provoca riso, mas sim espanto e dor. Estranho e cruel escritor, esse Thomas Bernhard. Sinto que poderia passar bem sem ele, e não diria o mesmo de Kafka, por exemplo. Mas talvez eu esteja errado.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h41

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um pintor argentino

         Eis um pintor difícil. Seu nome é Eduardo Stupía, ele é argentino, e inaugura no dia 29 de agosto uma exposição individual na Dan Galeria.

         Digo difícil, porque não é simples decodificar seus desenhos/pinturas, em técnica mista (e ponha mista nisso: carvão, lápis, tinta, esmalte sintético, tudo é utilizado).

         Há sem dúvida muito trabalho físico envolvido em cada obra. Cobra-se, em troca, um grande trabalho do espectador.

         Não são meras afirmações de gesto plástico, rabiscamentos expressando intensidade.

         Há como uma memória do figurativismo: em meio à confusão toda, Stupía sugere, por exemplo, num cantinho da tela, uma cena realista de barcos no cais.

 

         Ao mesmo tempo, o artista mantém aquele tipo de violência no desenho que nos lembra Bacon, misturado talvez com os rabisquinhos de Cy Twombly. Sem dúvida, há certa “passividade” em render a realidade tal como ela é. Sem dúvida, há “atividade” frenética em pintores como Hans Hartung ou Jackson Pollock.

         Será que Eduardo Stupía procura uma síntese entre toda essa gente?

         Prefiro pensar que não; que encontrou seu caminho próprio, algo tenebroso quem sabe. Acho que seria um maravilhoso ilustrador para a “Divina Comédia” de Dante, tais as suas violências, e tal o seu, digamos assim, recolhimento diante do espetáculo do mundo.

Depois de uma “deixa” realista, o espectador naturalmente vai procurar formas reconhecíveis na grande massa do quadro inteiro. Será que encontra?

         Às vezes, parece que vemos o dorso enorme de um gato. Ou de uma mulher.

 

         E que coisa será essa ocupando o centro da pintura? Um beijo como o da escultura de Rodin, talvez?

Escrito por Marcelo Coelho às 16h56

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Poesia e solidão

 
 

Poesia e solidão

Eis o desespero masculino transformado em poesia.

 

Ela sempre passa por aqui,

e me olha. Sabe que eu não deveria

estar deitado neste capacho,

que tudo isso é uma tolice enorme,

que um homem não se faz

com estas fraquezas, com estas pernas trêmulas,

com esta boca seca e dolorida.

Ela apenas se contenta

em passar a mão na minha cabeça,

como se eu fosse o seu menino,

aquele que ela perdeu

na barriga.

 

É um poema de Heitor Ferraz, no livro Um a menos.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h18

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criticado por machismo

Eis o link para o blog de Marjorie Rodrigues, que condena meu post sobre Dilma e Lina Vieira: http://marjorierodrigues.wordpress.com/

Escrito por Marcelo Coelho às 05h28

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dica de livraria

 
 

dica de livraria

Para comprar livros nacionais na internet, costumo usar o site da Livraria Cultura, que tem aliás um link simpático: trata-se do programa “adote uma biblioteca”. Depois de feita a sua encomenda, eles sugerem uma série de livros que podem ser doados a bibliotecas perdidas nos cafundós do país. É uma boa forma de gastar dinheiro.

         Sem esse lado filantrópico, há uma livraria virtual que os interessados em psicanálise e ciências humanas podem visitar com proveito. Trata-se da Livraria Resposta, que toda semana manda por e-mail lançamentos nessa área, que nem sempre são noticiados na, hum, grande imprensa. Peguei boas indicações de livros nesse site.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h30

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cenas de Mercadante

Se é para fazer bonito, coisa que Aloizio Mercadante sempre tenta, mas nunca consegue, ele devia não apenas abandonar a liderança do PT no Senado mas o próprio partido. Está na hora de um movimento coletivo, seguindo o exemplo de Marina Silva, rumo a algum tipo de participação política menos chapa-branca do que a do PT atual. Lula, hoje, é uma espécie de Vargas peemedebista, com as qualidades e defeitos que isso traz, mas uma coisa é certa: o antigo PT nada tem a ver com o que existe hoje.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h07

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bola fora

Pela quantidade de comentários negativos, acho que errei feio no meu post sobre Dilma Rousseff e Lina Vieira. Peço desculpas pelo machismo da ideia toda, em especial no último parágrafo. Uma boa coisa dos blogs é a possibilidade de receber críticas, e não pretendo estar certo o tempo todo. Acontece que encaro o blog mais como exercício de subjetividade do que como missão jornalística. Minha subjetividade, em todo caso, foi clara demais naquele post, e terminou ferindo a subjetividade alheia... Paciência.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h27

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lei antifumo

No artigo para a Ilustrada desta quarta-feira, comento o papel de leis "repressivas" como fonte de legitimidade para governantes. Parece ter ficado para trás o tempo em que apenas obras públicas eram garantia de voto. Mencionei Paulo Maluf como um dos últimos representantes dessa escola política, mas esqueci-me de assinalar que foi sua a iniciativa de tornar obrigatório o uso de cintos de segurança em São Paulo --caso de uma lei que pegou. Assinantes do uol podem ler o artigo aqui

Escrito por Marcelo Coelho às 18h39

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Lina Vieira, Dilma Rousseff

Imperdível, neste momento, o depoimento de Lina Vieira ao Senado Federal. Tenho dúvidas quanto ao impacto real que poderá causar na credibilidade de Dilma Rousseff. Mas do ponto de vista simbólico, é impressionante o contraste entre a feminilidade de Lina Vieira e a dureza de Dilma. Um bom marqueteiro teria de levar em conta o artigo de Danuza Leão, na “Folha” deste domingo. Dilma dá medo. Não penso nas qualidades que ela poderia ter, sem dúvida notáveis, como presidente do Brasil. Mas é curioso ver as diferentes formas de identidade feminina que começam a entrar em jogo na disputa eleitoral. Marina Silva, Heloísa Helena, Dilma Rousseff: que mulheres são essas?

O grande problema de uma mulher combativa é o de não parecer histérica. Dilma vence esse teste com total segurança. Entretanto, há algo de assustador na sua atitude; uma Thatcher de esquerda, será este o perfil de um próximo presidente do Brasil?

Interessante que Lula, nascido da luta sindical, seja atualmente um papai bonachão, conciliador e evasivo.

Nesse sentido, Dilma seria tanto a sucessora natural de Lula quanto uma espécie de antípoda.

Não me esqueço de sua brutalidade quando a indagaram sobre a construção de um novo aeroporto nos arredores de São Paulo. A promessa tinha sido feita. Os repórteres perguntavam: será em Jundiaí? será em Viracopos? Dilma engrossou: “se eu soubesse, não diria a vocês”. Mas ela sabia perfeitamente de uma coisa: nenhum novo aeroporto seria construído.

Dilma enfrenta a imprensa como um inimigo. Lula trata a imprensa como uma criança manipulável.

A feminilidade de Heloísa Helena é de outra ordem. A militância abafa sua identidade. Poderia ser atraente, se não se restringisse ao cabelo puxado, aos óculos, à camiseta branca.

Representa, na verdade, a mesma dureza que Dilma encarna, numa versão mais burguesa.

Por que, indago, não ser simplesmente uma mulher?

Marta Suplicy bem que tentou. Mas o botox e sua agressividade natural estragaram o poder que ela poderia ter.

Marina Silva tem, mesmo nos momentos de maior indignação, certa fragilidade na voz. Não é desejável sexualmente: mas verdadeira em seu corpo, em seu rosto, em sua pele.

Nenhum charme nasce de Marina Silva. De certo modo, é o negativo de Dilma Rousseff, cuja ausência de charme não passa despercebida a ninguém.

Resta Lina Vieira. Foi, afinal, massacrada no Senado por Romero Jucá, líder da base governista. Tornou-se frágil, delicada, do jeito que todo homem espera de uma mulher. Triste e bonito destino.

(PS: o papel de Aloisio Mercadante nessa sessão foi infame).

Escrito por Marcelo Coelho às 12h34

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Piano, vinho, Debussy

 
 

Piano, vinho, Debussy

Um amigo, há muito tempo professor de piano em Nova York, esteve em casa nestes dias. Tempos atrás, neste blog, eu elogiara o CD dos Estudos de Debussy por Jean-Efflam Bavouzet. A reação dele veio por e-mail: trata-se de um pianista amaneirado, superficial, efeitista.

 

Aqui em casa, de partitura em punho, ele me mostrou a quantidade de coisas que o famoso virtuose ignorava na complexa textura pianística de Debussy, privilegiando apenas o impacto sonoro da própria virtuosidade.

 

Vivendo e aprendendo...

 

Mas esse amigo meu é incontentável. Como excelente profissional do ramo, suas avaliações estão no polo oposto dos simples entusiasmos de um discófilo. Horowitz? Só é genial quando acerta... caso contrário... Cláudio Arrau? Ótimo com orquestra. Sem orquestra... E Marta Argerich? O Chopin dela não dá certo.

 

Mito depois de mito caía nas avaliações de meu amigo. E ele me mostrou a mais fantástica e convincente interpretação do primeiro concerto para piano de Brahms. Não tinha a grife de nenhum pianista conhecido: foi tocado por Norman Krieger, com a regência de Jo Ann Faletta. Ouça aqui: http://www.normankrieger.com/

 

É de fato uma interpretação maravilhosa, num entendimento perfeito com a orquestra, numa sabedoria no uso da dinâmica, e numa presciência do rumo que a música deve tomar, raras de se ouvir nas melhores interpretações.

 

Mas a pergunta principal que tinha de ser feita a esse professor de interpretação pianística era a seguinte: afinal, vigora a justiça, ou vigora a injustiça, no mundo da música clássica?

 

Minha impressão é de que vigora a justiça. Ou seja, os talentos excepcionais acabam sendo reconhecidos, e os menores tendem a recolher-se a seu devido lugar.

 

Esse amigo não acredita tanto nisso. Considera que o marketing, a política das grandes gravadoras, o caráter impressionável do grande público preponderam sobre o mérito real dos musicistas.

 

Visão pessimista, de quem vive a coisa por dentro. Talvez, por viver a coisa por dentro, esse amigo exagere as injustiças, assim como um filho, numa família de muitos irmãos, pode sempre reclamar dos pais a falta de atenção de que foi vítima.

 

De fora, sou mais otimista. Afinal, apesar das manipulações mercadológicas, o mundo da música clássica é competitivo ao extremo. O mercado é ambíguo, reconheço, nesse ponto: pode ser distorcido pelo marketing, mas é purificado pela concorrência.

 

Depois de ponderar esse dilema, fiquei pensando também se não estamos às voltas com minúcias, como acontece com especialistas em vinho discutindo as respectivas qualidades de uma safra em comparação com outra.

 

Deus me livre disso. Meu amigo, aliás, abomina comparações entre diferentes pianistas: passatempo de discófilos, diz ele.

 

Que a música toque por si mesma, e que o compositor valha mais do que o intérprete: eis uma coisa que, num meio que tende ao pedantismo, vale sempre enfatizar. Ideia que meu amigo não se cansa de defender, aliás. Quem sabe das coisas nunca dá de sabido.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h33

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Esses arquitetos...

Os especialistas que me desculpem, mas não fiquei nada convencido com o que foi divulgado a respeito do novo projeto para o Museu da Imagem e do Som, na orla de Copacabana.

 

O que mais apareceu do projeto foi esta imagem:

 

 

Quem a divulga é o próprio escritório de arquitetura responsável pelo projeto, Diller Scofidio + Renfro.

 

O detalhe estranho é que o museu será construído no lugar da boate Help, que fica bem na ponta da praia, lá entre o posto 5 e o 6. No projeto dos arquitetos --para ficar mais fotogênico, quem sabe—o museu aparece deslocado muito mais para perto do Leme.

 

Não se trata só de implicância da minha parte. No fundo, acho que há em alguns arquitetos tamanha certeza a respeito da genialidade de suas “esculturas habitáveis”, que eles imaginam que são boas e lindas em qualquer lugar, sem prestar atenção no tipo de edifícios que as circunda.

 

A crítica pode parecer especialmente injusta nesse caso, porque o escritório de arquitetura inspirou-se claramente no calçadão de Copacabana, imaginando o acesso ao museu como um prolongamento do passeio dos pedestres.

 

Tudo bem. Mas também me parece inegável que um tipo de edifício como o proposto, com toda a sua espetacularidade prateada, exigiria um recuo maior para ser apreciado devidamente, e para destacar-se do resto dos edifícios vizinhos. É o tipo de museu-escultura que ficaria ótimo cercado de áreas verdes, num parque; ou então, numa ponta, num promontório qualquer da orla. Colocado no meio dos edifícios da avenida Atlântica, quase todos homogêneos, ele parece querer explodir os limites que o restringem.

 

As imagens do museu por dentro, e especialmente do cinema ao ar livre, na cobertura do edifício, são entretanto espetaculares: veja em http://www.dillerscofidio.com/

Escrito por Marcelo Coelho às 23h16

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Blogs no freezer

De todos os blogs da internet, estima-se que 94% não foram atualizados nos últimos quatro meses. Recomeço as postagens, depois de uma semana de desleixo, para não fazer parte da estatística –que encontrei no “Index” da revista Harper’s deste mês.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h45

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Por que ter filhos?

 
 

Por que ter filhos?

Entendo perfeitamente os pais que querem ter um único filho. Já não basta? Ei-lo, bebê que cresce, unificando pouco a pouco o que há de particular em mim, e na sua mãe.

O trabalho que dá é suficiente para desistirmos de outro. No meu caso, acabei cedendo às pressões da mãe e concordei com a ideia de um segundo

filho.

Vale a pena. É maravilhoso contemplar as diferenças entre o Primeiro e o Segundo. Como se fossem dois pólos daquilo que é a união entre um homem e uma mulher.

Que alternativa, que outra coisa, existe num segundo filho! Não tenho disposição para um terceiro: mas a variedade de que nosso DNA é capaz, eis um milagre espantoso.

Porém, os filhos não são apenas uma junção de DNAs distintos. São sujeitos livres, que durante boa parte do tempo nos ignoram, ainda quando pequenos, e muito mais quando chegarem à idade adulta.

Criar um foco de liberdade; dar nascimento a um entezinho autônomo; saber que da máxima dependência virá a máxima independência  --há algo nisso que não se resume ao mero sentimentalismo da paternidade, nem ao simples e velho amor. Corresponde, talvez, a uma despedida de nosso próprio jeito de estar no mundo, tão limitado. Despedida que não surge como perda, mas como acréscimo imaginário: eis o tipo de homem, o tipo de mulher, que fui capaz de fazer, e que vai além daquilo que eu próprio fui.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h06

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Poemas de Zbigniew Herbert

Aqui vão três textos em prosa do poeta polonês (1924-1998), que parece traduzir para uma língua mais humana a linguagem radical de Kafka:

 

QUANDO O MUNDO PARA

 

Acontece muito raramente. O eixo da Terra guincha e acaba parando. Tudo então fica sem se mover: tempestades, navios, nuvens pastando pelos vales. Tudo. Mesmo cavalos num pasto se tornam imóveis como num jogo de xadrez.

         E depois de um tempo o mundo se move de novo. Algum oceano engole e regurgita, vales devolvem seus vapores e cavalos passam do campo escuro para o campo branco. Também se ouve o sonoro choque do ar contra o ar.

 

CUIDADO COM A MESA

 

À mesa você deve sentar-se calmamente e sem devanear. Lembremos a quantidade de esforço que foi necessária às marés tempestuosas do oceano para se acomodarem em ordenados anéis de água. Um momento de distração, e tudo pode ser levado de roldão. Também é proibido encostar nas pernas da mesa, elas são muito sensíveis. Tudo, à mesa, deve ser feito de modo tranquilo e objetivo. Para devaneios, recebemos outros objetos de madeira: a floresta, a cama.

 

CORAÇÃO

 

Os órgãos internos de todos os homens são lisos e carecas. O estômago, os intestinos, os pulmões, são carecas. Só o coração tem cabelos –arruivados, grossos, compridíssimos por vezes. Os cabelos do coração atrapalham o fluxo do sangue, como plantas aquáticas num rio. Os cabelos estão frequentemente infestados de bichos. Você tem de amar muito profundamente para catar esses rápidos e pequenos parasitas do coração cardíaco de sua amada.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h48

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Frost/Nixon

 
 

Frost/Nixon

         O filme do ano, pelo menos para quem é jornalista, já apareceu em DVD. Trata-se de “Frost-Nixon”,  quase um documentário contando como se deu a entrevista dramática entre um apresentador televisivo britânico e o ex-presidente dos Estados Unidos.

         A entrevista ficou famosa porque representou, finalmente, a admissão verbal de Nixon das malfeitorias que fez quando estava na Casa Branca.

         Como todo filme de Hollywood, é uma história de sucesso.

         Mas, como muitos filmes de Hollywood, mostra o quanto esse sucesso custa caro.

         Frost é um apresentador de TV, ainda jovem, mas em processo de decadência, que resolve entrevistar Nixon depois de ele ter renunciado à presidência, no furacão de Watergate.

         Nas três primeiras sessões de entrevista, Frost leva um baile. Minimizou, sem dúvida, a inteligência de Nixon.

         (Abro o parênteses fundamental deste post. Que jornalista brasileiro estaria seguro de não levar um baile de, digamos, Sarney, Collor, Fernando Henrique ou Lula?

         O filme nos mostra a saída: trabalho, trabalho e mais trabalho. De repente, Frost resolve se dedicar à entrevista com Nixon como se fosse um caso de vida ou morte.

         Só nesse extremo ele vira um verdadeiro jornalista.

         Estaremos nós, jornalistas brasileiros, à altura de contestar ponto por ponto os argumentos de um Sarney, de um Renan, de um Lula?)

         O filme, entretanto, é mais do que uma história de sucesso. É uma história de fracasso também, e o Nixon de Frank Langella surge como um dos mais marcantes personagens do cinema contemporâneo. Vale muito a pena assistir: tanto quanto uma luta de vida e morte entre jornalista e político, é também uma luta extrema entre dois excelentes atores, Langella (Nixon)  e Michael Sheen (no papel de Frost)

Escrito por Marcelo Coelho às 01h58

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o que aconteceu com Robin?

Esse é o nome, acho eu, de uma banda de rock. Mas encontrei um site que conta a história real. Clique aqui. O detalhe mais revoltante, a meu ver, é que Burt Ward estava prestes a estrelar um filme histórico, A Primeira Noite de um Homem, quando os estúdios acharam melhor mantê-lo em mais uma temporada ao lado de Batman, e entregaram o papel a Dustin Hofmann. Dustin Hofmann acabaria tendo sucesso de qualquer jeito, mas Burt Ward teve de se contentar com seu precário lugar de coadjuvante com Adam West. Bem que ele merecia uma primeira noite de homem.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h14

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relógio chique

para quem quiser ficar, como se dizia antigamente, "na crista da onda", acho este modelo de relógio insuperável:

 

Pode ser avaliado neste site.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h45

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Não te incomodar

 
 

Não te incomodar

Por falar nisso, eis um poema de Leonard Nathan, intitulado "não te incomodar":

Não te incomodar com o amor, quero dizer,

esses sonhos adolescentes de um grande, de um maior ainda,

de um amor maior que todos, sem falar

do tipo quebradiço e pessoal de amor –comparado,

por exemplo, com o bem público ou com pensamentos

muito mais duros sobre a morte, obliterando

os pensamentos sobre o amor, ou meditações posteriores

sobre o amor que se desenvolveu demais ou se desfez;

e não ser irônico tampouco, não

esquecer que chegamos sozinhos a este mundo

e que o deixamos também sozinhos; e não exigir

mais do que você pode dar, inseguro como sou

daquilo que reivindico: alguma coisa como o amor,

imagino: qualquer coisa daquelas cuja falta

temos sentido tão longamente,

tão fielmente, e com tanta ternura.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h34

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Igreja, aborto, eutanásia

         Fugimos do sofrimento, é claro. Mas será que nessa fuga não existe covardia? Covardia não no sentido moral do termo, mas sim no que o termo significa de recusa à verdade, fuga simplesmente de algo que pode ser útil e pedagógico para nós?

         Leio, num volume sobre bioética, o trecho em que Reinaldo Azevedo descreve suas sensações durante a morte do pai.

 

         Meu pai padeceu longamente de um câncer, que depois se generalizou em metástases várias... Já não podia mais se comunicar, mas estava vivo... Não sentia mais dor. Não sofria mais. Até seu último suspiro, que eu não olvidaria esforços para retardar, construí e reconstruí teias de afetos e de lembranças, caminhei pelos desvãos da memória, tentei entendê-lo melhor e a mim mesmo. Queria me fazer, e talvez tenha conseguido, a partir dali, um homem melhor. Meu pai estava vivo porque sua vida, mesmo naquelas condições, vivia em mim, na minha irmã, na minha mãe, nos seus netos, na generosa rede familiar que se criou, incluindo sobrinhos, irmãos, cunhados, para protegê-lo e dignificá-lo. Seu corpo ainda morno, embora já não emitisse qualquer sinal de consciência, me acolhia e me amparava, cobrava de mim entendimento.

 

É um trecho muito bonito, muito nobre, muito humano. Segue-se o comentário dos dois autores do artigo do livro sobre bioética, Francisco Borba Ribeiro Neto e Dalton Luiz Pereira Ramos:

 

O pai não é apenas um ser que sofre e causa sofrimento, mas é –antes de tudo—um ser a partir do qual o sujeito compreende melhor a si mesmo e ao mundo. O sofrimento é, paradoxalmente, oportunidade para a compreensão do sentido das relações afetivas. O ‘homem melhor’ para si e para o mundo, nasce da acolhida do outro e do sofrimento que isso acarreta.

 

Os autores do artigo contrastam esse depoimento com o de uma especialista que defende o aborto de um feto anencéfalo:

 

Cada gestante vai encarar a manutenção da gestão de um feto inviável de forma diferente. Apesar da tristeza, algumas se conformam com a situação ... Outras, na verdade a maioria, não têm a intenção de passar mais alguns meses carregando um feto para aguardar, paradoxalmente, a sua morte... Já ouvi de uma gestante sentir-se como um “caixão ambulante”. O diagnóstico em si já é muito duro; passar meses vivenciando essa perda pode ser encarado como tortura por muitas mulheres em tal situação.

 

Os dois casos são bem diferentes, mas não há como não negar sua semelhança. Do ponto de vista católico, os dois se equiparam no mesmo princípio, que é o do respeito à vida, seja em que condições esta vida se prolongue, e em outro princípio, no caso mais importante, que é o de acolher o sofrimento, em vez de fugir simplesmente dele.

 

Fugir a todo custo do sofrimento pode implicar, com efeito, atitudes de total desumanidade. “Meu pai está velho e sofre de Alzheimer: torço para que ele morra. Se pudesse apertar um botão, ele já estaria morto.”

 

Hesito, contudo, em classificar de “desumana” a atitude desse hipotético parricida. Nada mais humano, com efeito, do que desejar a morte do pai... E, na medida em que esse pai está destituído de um mínimo de consciência humana, não é absurdo pensar que ele já esteja morto para todos os efeitos.

 

Contudo, o que há de verdadeiro na atitude católica está no ato de perguntar: “você está apertando esse botão por comodismo ou por piedade? por egoísmo ou por amor?”

 

Honestamente, eu diria que estou apertando por egoísmo. Com a ressalva, contudo, de que meu egoísmo não está prejudicando ninguém: o pai transformado em vegetal nada mais sente, não é mais ninguém.

 

Eis então que retorna o quadro de Reinaldo Azevedo, contemplando o próprio pai inconsciente, vivendo ao lado daquele corpo que foi seu pai a profundidade e as memórias de uma longa relação. Trata-se de alguém que não foge pragmaticamente do próprio sofrimento. Que o acolhe, na esperança de tornar-se de uma pessoa melhor.

 

Gostaria de ter essa espécie de acolhida cristã diante do sofrimento. Respeito-a muito. Mas não posso considerá-la como uma lei a ser seguida universalmente. Talvez outro filho, igualmente amoroso, não suporte ver a agonia silenciosa e sem dor do próprio pai. Talvez uma mãe infeliz prefira abortar o filho anencéfalo do que viver plenamente a agonia de uma gestação inviável.

 

Simplesmente não sabemos qual a profundidade, qual a frivolidade, da atitude de uma pessoa diante de situações tão extremas. Não sabemos qual o egoísmo, qual o altruísmo, o que de edipiano, o que de cristão, o que de intenso ou de frívolo existe na atitude de uma pessoa diante de um pai agonizante ou de um feto inviável.

 

Seria este um assunto a ser regulado por leis e constituições? No fundo, o feto e o moribundo não têm resposta a dar. O filho, e a mãe, envolvidos nessa situação extrema, estão vivendo apenas sua própria vida: suas próprias reações diante do que lhes foi dado enfrentar. Que cada um enfrente isso como possa –concordando com o aborto e a eutanásia, recuando diante dos dois como diante de um crime—é a única saída, a meu ver, do Estado frente a um dilema desse tipo.

 

O sofrimento, bem entendido, será objeto de acolhimento ou rejeição em qualquer hipótese. Não cabe ao Estado incentivar o sofrimento dos cidadãos.Será que cabe essa missão à Igreja Católica? Acho que não. Pode, e sabe, valorizar o sofrimento como arma nas mãos de Deus para engrandecer o cristão. Não pode provocá-lo inutilmente, e a isso se dedica há séculos. Que seja (e muitas vezes é) força a favor da alegria, não do sofrimento inútil, ao qual se alia.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 04h05

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A volta de Collor

Nunca pensei que tivesse de voltar a pensar em Sarney e Collor, tantos anos depois de superado o período de seu maior fastígio.

 

De Renan Calheiros não digo o mesmo: foi, afinal, ministro da Justiça de Fernando Henrique, e de Collor a Lula, manteve-se no nível de sempre, sem conhecer naufrágios de monta nem portos seguros no tipo de mar em que trafega.

 

Ver José Sarney na presidência do Senado não me choca especialmente. O que dele se revela deve ser apenas uma parte ínfima do que não se sabe ocorrer nas plenitudes do Maranhão, onde até a cunhada, ou irmã, não sei bem, é presidente do Tribunal Eleitoral. Hugo Chávez deveria fazer um estágio por aquelas bandas, se é que tem família tão extensa assim.

 

Mas Collor... aí é demais. Claro que não se deve acreditar em políticos, mas até a atuação de Renan Calheiros, nos debates do Senado, é mais sincera e digna do que o péssimo espetáculo do ex-presidente invectivando contra Pedro Simon.

 

Confira os vídeos. Primeiro, Renan batendo boca com Tasso Jereissati (que ainda tem muito a aprender no quesito das artes cênicas), e, depois, Collor contra Simon.

 

A carinha de bravo de Fernando Collor poderia entrar como exemplo em qualquer curso de teatro. O texto até que é bom: “engula, digira, suas palavras... parlapatão que és!”. Mas aquelas sobrancelhinhas ameaçadoras, aquele olhar supostamente destemido e meramente fixo... A ausência de naturalidade naquela indignação representa, a mim pelo menos, uma volta inimaginável ao passado. Um passado em que Collor convencia, ameaçava, mobilizava.

 

Eis um horror diante do qual a persistência de Sarney no cargo é coisa de somenos. Não que eu defenda Sarney. Mas se trata de um coronel que se apega ao poder apelando à conciliação e ao sentimentalismo.

 

Collor sempre quis ser uma espécie de “pós-coronelista”: quis encarnar os ideais da “modernidade” com uma truculência de playboy, sem saber que “ser moderno” não exigia suas proezas a bordo de um jet-ski, mas sim o refinamento mais debochado de um Fernando Henrique, na pose de um “elder statesman” –a mesma que agora, cabelos mais grisalhos, Collor pretende ocupar agora, invocando sua posição de “ex-presidente da República”.

 

(Que diminuição, mesmo assim, sua presença na tropa de choque de outro ex-presidente, a quem acusou das piores coisas. Os dois, Sarney e Collor, desgastam-se em plena subordinação a Lula. Eis, senhores, o triunfo completo do socialismo, da emancipação do proletariado... O espetáculo que vemos nesses videos é mais épico do que a Revolução Francesa, do que o Encouraçado Potemkin, do que a vitória de Stalingrado. Acordem-me quando terminar).  

Escrito por Marcelo Coelho às 02h20

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A dimensão oculta

Não se foi noticiado por aqui, mas soube pela internet da morte, aos 95 anos, de um antropólogo bastante importante: Edward T. Hall, autor de “A Dimensão Oculta”,  “The Hidden Dimension”, que na época em que foi publicada representou a abertura de um amplo e interessante campo de pesquisas.

 

Com ajuda de fotografias (lembro-me da de um café parisiense, atulhado de cadeiras a poucos centímetros uma da outra), Hall mostrava de que modo as diferentes culturas impõem formas distintas de relacionamento dos indivíduos com o espaço. Destaca-se, por exemplo, o quanto existe de gosto pela aglomeração e pelo contato físico, em alguns casos, e de distância, reserva, preservação da intimidade corporal, em outras culturas.

 

O estudo das diferentes linguagens corporais, muito importante aliás para funcionários americanos em missões estrangeiras, tinha de ser levado a sério –mas esse interesse de Estado não diminui o interesse intrínseco das pesquisas de Hall.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h35

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Seleção Natural

 
 

Seleção Natural

Otavio Frias Filho está lançando uma coletânea de ensaios, com esse título, para a qual eu quis escrever o posfácio. Aqui vai o começo do meu texto.

“Sua produção escrita”, diz Otavio Frias Filho a respeito dos textos de Victor Cunha Rêgo, publicista português de quem traça o perfil num dos ensaios deste livro, “sofreu as vicissitudes do texto jornalístico, que se comprime entre a véspera e o dia seguinte, demasiado preso a sua contingência”.

         Não há novidade nesse tipo de comentário: desde um clássico epigrama de Marcial (40?-102), tornou-se lugar-comum a ideia de que muita gente escreve em papel que vai embrulhar peixe no dia seguinte.

         Os artigos reunidos neste volume desmentem, e de certo modo reafirmam, em tom crispado, aquilo que o autor identifica nos artigos de Cunha Rêgo.

         Tudo seria bastante banal se enfocássemos o fato de que cada um desses textos, como diz Otavio Frias, “está demasiado preso a sua contingência”.

         Não está, nem era esse o espírito com que foi escrito. Desconfio, aliás, que nenhum jornalista abandona a ideia de estar escrevendo alguma coisa que irá durar mais do que o breve espaço de um dia. Todo jornalista sabe que, uma vez impresso, seu texto será testemunho de uma época para os anos que virão. Não seria jornalista se não desejasse isso.

         Aceitemos, entretanto, a “contingência” a que se refere o autor. O cerne de suas preocupações vai em outra direção, que a mesma frase sobre Cunha Rêgo indica com clareza. O texto de um jornalista, diz Otavio, “se comprime entre a véspera e o dia seguinte”.

         Essa ideia de “compressão” corresponde a uma experiência psicológica bem mais rica do que a da simples fugacidade. Passam-se os eventos, outros se sucedem, não haveria muito a se preocupar com tudo isso, se a atitude do autor fosse a mera indiferença diante do rápido girar do mundo.

         Mas a sensação de estar “comprimido” entre o dia de ontem e o dia de amanhã, entre o passado e o futuro, traz consequências muito mais alarmantes e dramáticas, e a meu ver esta coletânea de ensaios incorpora, na forma e no conteúdo, o que de desesperador e de estimulante existe em tal modo de relacionar-se com a História, com o cotidiano, com o tempo vivo dos homens.

         Se tivéssemos de apontar um único fenômeno, um tema básico, que seja  capaz de mobilizar os interesses de Otavio Frias Filho (servindo como ponto de partida comum à maioria dos ensaios deste livro), não erraríamos ao dizer que é a possibilidade, por ele várias vezes entrevista, de uma “compressão máxima”, de uma colisão mesmo, entre “o dia de ontem e o dia de amanhã”.

         Nada mais rotineiro, com efeito, do que a sucessão dos dias, o prosaísmo de de toda segunda-feira depois de todo domingo. Causa e efeito, antecedente e consequente, marcha lenta do progresso histórico, sucessão dos acontecimentos: nada poderia trazer mais desencanto e tédio para este jornalista-escritor, sem embargo do seu estilo de pensamento, sempre lógico, claro, avesso a elipses e precipitações.

         O que fascina Otavio Frias Filho é o que pode haver de magicamente significativo, de premonitório e de sintético numa cena de filme, num outdoor publicitário, num acontecimento histórico específico. Para o autor, alguns momentos, alguns fenômenos, podem realizar a proeza de trazer em si mesmos seu próprio passado e seu futuro. Do mesmo modo que o célebre “aleph” de Borges, ponto no espaço capaz de concentrar em si mesmo todos os demais pontos do espaço, Otavio procura, em cada ensaio, o instante prodigioso em que passado e futuro, o dia de ontem e o de amanhã, sobrepõem-se numa espécie de cifra simultânea, capaz de cristalizar em si mesma, imobilizando-o numa cintilação estética, o transcurso arrastado e penoso do tempo.       

Alguns leitores deste blog às vezes me recriminam de prestar serviços "ao meu patrão". Otavio Frias Filho não é meu patrão. É quem me ensinou, mais do que tantos outros amigos, o valor que existe em ser amigo de alguém.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h40

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utopia do corpo jovem

Um excesso de “ahns” e “uhns”; certa timidez insuperável; orelhas grandes demais, e mãos bonitas: este o retrato de Marcelo Coelho no video completo da conferência que fiz no café filosófico da CPFL, em Campinas, sobre a utopia do corpo eternamente jovem, cuja íntegra pode ser acessada aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h51

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Baseado em fotos e ultrassom, um estudante brasileiro de design, Jorge Lopes dos Santos, chegou a imagens deste tipo:

A notícia foi divulgada pelo blog dezeen, onde é possível encontrar mais informações.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h11

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Penguin Club

 
 

Penguin Club

         Tempos atrás, elogiei a nova geração dos videogames, os do tipo Wii. Meu filho, bastante frágil diante dos apelos da eletrônica, interessou-se pelo Wii, e achei um progresso. Em vez de neurotizar-se com as teclas de flechinhas à direita e à esquerda, que respondem pelos movimentos de um Batman impotente escalando prédios e barris de pólvora, o garoto de 7 anos trata de simular, no Wii, os movimentos de um jogador de boliche ou de tênis. O dispositivo eletrônico, acoplado ao braço como uma pulseira, oferece entretenimento mais parecido com esporte do que com joguinhos de computador.

         Doce ilusão. Entrou em casa, logo em seguida, a gripe do “Penguin Club”. Trata-se, pelo que consegui perceber, de uma cidade virtual, ou de “second life”, em que a criança adquire a identidade de um pinguinzinho. Logo se abrem para ela incontáveis possibilidades de consumo: móveis para seu iglu, animais de estimação que será preciso alimentar, roupas de inverno etc.

         Para “comprar” esses complementos (eis o lado educativo do jogo), o pinguinzinho terá de trabalhar duro. Há empregos numa pizzaria, por exemplo, em que conforme a quantidade de pizzas feitas o nosso pequeno herói ganha as moedas que irá gastar logo em seguida.

         Até aí, tudo bem. O problema é que o “Penguin Club” se torna mais viciante do que qualquer outro jogo de computador. Pois o videogame normal acaba quando se desliga o laptop. Aqui, não. O pai pode desligar o computador, mas a criança continua endividada ou workaholic em seu mundo virtual. Alimentar os animais de estimação se torna, por exemplo, um dever moral, contra o qual a proibição paterna de acessar o jogo não dispõe de legitimidade.

         Mesmo assim, em casa foi possível regular a apenas dois dias por semana o acesso ao “Penguin Club”.

         Enquanto isso, meu filho sofre para aprender a andar de bicicleta sem rodinhas.

         Lembro-me sem saudade de minhas lutas nessa área.

         Convencido de que seu pai nunca aprendeu a andar de bicicleta (se aprendi durante alguns anos, desaprendi nas décadas seguintes), meu filho se desespera e desanima.

         Conseguiu avançar alguns metros em linha reta, durante as férias que passamos num hotel-fazenda.

         De regresso a São Paulo, foi levado ao Parque do Ibirapuera para aprimorar a nova habilidade.

         Não houve jeito. Não quis saber de bicicleta. Chorou diante da dita cuja, alugada com tanta esperança pelos pais.

         “Não sei, não ando, vou cair”.

         Apelos, ameaças, argumentos, nada adiantava.

         Seria um crime desperdiçar todos os esforços dispendidos no hotel-fazenda: se lá meu filho estava perto de saber andar de bicicleta, uma desistência agora significaria jogar no lixo todas as conquistas feitas alguns dias atrás.

         Foi então que o “Penguin Club” mostrou sua utilidade.

         “Se você tentar andar de bicicleta de novo”, disse a ele, “você terá uma hora a mais de ‘Penguin Club’ quando a gente voltar para casa”.

         Ele subiu na bicicleta sem rodinhas. Treinou, caiu, levantou-se, pedalou, foi em frente, deu a volta por cima.

         De choroso e humilhado, de deprimido e envergonhado, de medroso e sem auto-estima que estava, ganhou neste dia a certeza de que sabe andar de bicicleta.

         Entregou-se depois ao videogame.

         O “Penguin Club” é vício, não há dúvida. Mas com um pouco de barganha sempre se pode transformar um vício em virtude.

        

Escrito por Marcelo Coelho às 23h46

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Sérgio Viotti

Para quem ouvia a Cultura FM por volta de 1980, era como se a rádio tivesse um único locutor, trabalhando sem descanso: tratava-se de Sérgio Viotti. Ator e teatrólogo, ele soube fazer da locução de rádio uma arte também. Não é apenas que sua voz, refinada sem afetação, penetrante e suave ao mesmo tempo, fosse inconfundível e inimitável.

        

         Lembro-me de uma série de programas em especial, sobre a arte pianística de Guiomar Novaes. O texto, do musicólogo Arnaldo José Senise, tinha talvez o defeito de uma convicção férrea: a de que a pianista brasileira foi a maior de todos os tempos, superior a qualquer outro músico do presente, do passado ou do futuro. Apesar disso, a série apresentava um cuidado, um capricho raros no mundo do comentário de música erudita. Os exemplos, as explicações, os trechinhos musicais mais ínfimos eram reproduzidos, repetidos, analisados, até que mesmo o mais leigo dos ouvintes (eu, no caso) se convencesse das teses de Senise.

        

         Pois bem, Sérgio Viotti resolveu dar aos textos do programa uma “interpretação” que fosse pelo menos comparável às interpretações da própria Guiomar Novaes. Cada palavra, cada frase, recebia as inflexões adequadas, como que figurando, numa espécie de onomatopeia articulada, o sentido que deveria ser transmitido. Se Guiomar Novaes se esforçava, segundo Senise, para anular o efeito percussivo dos marteletes do piano, privilegiando o caráter cantante do instrumento, Viotti fazia o mesmo, acentuando quase que desagradavelmente o som da palavra “martelete”, para em seguida repousar nas nasais de “cantante”, que transfiguravam o som do “t”, agressivo na primeira palavra, elástico como um trampolim na segunda.

 

         O prazer de Sérgio Viotti em locuções desse tipo talvez explique o fato de que dedicou tantos anos a esse trabalho quase anônimo. Só mais tarde vi seu rosto, em algumas novelas de televisão. Não que eu assistisse mais que dois minutos de um capítulo. Mas havia uma, da Manchete, em que ele fazia o papel de um traficante internacional, ou coisa que o valha. Seu personagem chamava-se “o Grego”, e tinha um sotaque vagamente francês. Como chefe de quadrilha, ele costumava dar preleções a seus subordinados. Eu adorava. “Non se esquééçan. Nossa organizaçón non é uma inshtituiçón de carridad.” O físico adiposo, os lábios grossos, os dedinhos gordos, a careca... a ideia, naturalmente, era trazer às telas um vilão covarde e repulsivo.

 

         Pode haver coisa melhor? Digo, se a cretinice das novelas é total, o único prazer que elas realmente oferecem do ponto de vista dramático está, sem dúvida, no poder que possuem de tornar irreais os seus personagens malvados. A irrealidade de tudo, numa novela, salta à vista: dos diálogos aos amores, da burrice dos personagens à mesa do café da manhã. Mas que a vilania seja irreal, e que toda noite, com hora marcada, um escroque se lembre de dizer que sua “orrganizaçón” está longe de ser uma “entidád benemerrent”... Isso é impagável.

        

         Houve também uma histórica telemontagem de “A Ceia dos Cardeais”, em que Viotti, no papel de cardeal francês, contracenava com Raul Cortez, no de espanhol, e de, perdoem-me a injustiça da memória, não sei que outro grande ator no papel de cardeal português. As falas do cardeal francês, na peça em versos de Júlio Diniz, não eram das mais marcantes, e a exuberância de Raul Cortez terminou sendo o que mais me impressionou. Ainda assim, a voz de Sérgio Viotti, em sua arte de ser cortês –passe o trocadilho—sem nunca perder a naturalidade, o tom de puro improviso em meio ao máximo controle, vencia qualquer rival. Existe a expressão “voz educada”. Em Sérgio Viotti, e acho que só nele, essa expressão adquiria plenamente o seu sentido literal.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h41

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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