Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Geronimo Stilton, o ratinho jornalista

 
 

Geronimo Stilton, o ratinho jornalista

Uma amiga que mora fora do Brasil mandou para meus filhos (7 e 5 anos), já faz algum tempo, um livro da coleção do ratinho Geronimo Stilton, em inglês. Fui traduzindo para o mais velho enquanto lia, meio aos trancos e barrancos, mas o sucesso foi  imediato.

Geronimo Stilton é um ratinho intelectual, dono do maior jornal de sua cidade. Quer mesmo é ficar em casa, tomando seu chá com biscoitinhos de queijo, mas acaba se envolvendo nas mais diversas aventuras (múmias num museu,  ossos de dinossauro num deserto, gatos-piratas).  Vive morrendo de medo, mas conta com bons e animados companheiros: seu sobrinho Benjamin,  uma amiga deste, belas ratinhas capazes de resolver qualquer encrenca...

Os livros são muito bem ilustrados,  o que significa um traço de história em quadrinhos não muito esquemático, cores ótimas e a atenção ao detalhe que toda criança requer. Há sempre um mapa da ilha dos ratos, um mapa da cidade em que Geronimo mora, e mesmo um corte longitudinal do edifício-sede da “Gazeta  Roedora”.

Este pai, de resto, identifica-se completamente  com a personalidade do protagonista, e isso não passa despercebido à pequena audiência doméstica.

A boa notícia é que os livros de Geronimo Stilton começam a ser traduzidos no Brasil. Infelizmente, o primeiro que chegou às minhas mãos (“O Manuscrito de Nostrarratus”) tem um começo um pouco desinteressante para crianças menores. O herói está às voltas com a contabilidade do jornal, até ser interrompido pela inconveniente secretária, que o convence a visitar a Feira de Livros de Ratofurt.  Nada muito palpitante para quem espera grandes aventuras.  As coisas vão ficando mais interessantes quando a secretária inclui um tio, totalmente desprovido de superego, na viagem, e impõe a Geronimo divertimentos radicais e gastos miliardários num hotel de luxo (que deveria se chamar “Ratz”, mas é “Ratritz” ou coisa parecida).  Há algo de sádico nos sofrimentos impostos a Geronimo –outros volumes não exageravam tanto a dose.  Mesmo assim, vale a pena dar uma olhada nessa estreia do ratinho no Brasil.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h35

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word, word, words

Você compra um laptop, e já vem instalado nele o horrível Windows Vista. Tudo bem. Aos poucos você se acostuma, e vai usando o seu Word todos os dias. Até que um belo dia, mais de um ano depois da compra, surge um aviso ameaçador.  O seu Word não é autêntico, você tem 15 dias para “regularizar a sua situação”, ou seja lá que nome isso tenha.

O que fazer? Tomado de pânico, fui ao site indicado na internet e lá você pode comprar o Office 2007 por 199 reais. Eles te entregam pelo correio. Ótimo.  Embora não tenha posição de princípio contra a pirataria, melhor pagar e ficar dentro da lei. Chega o CD com o programa legal, tento a instalação e...   avisos e mais avisos. Falta um arquivo no CD, nada funciona.

É o momento em que temos de recorrer ao técnico de computadores.  O meu está sempre disponível e foi rapidissimo. É assim que pego meu laptop com um novo Word nesta noite de domingo e começo a postar um pouco mais. Não que seja desculpa pela minha ausência do blog nestes dias;  a desculpa melhor veio no post abaixo.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h02

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Uff... uma semana comprida esta. Foram quatro editoriais, duas resenhas, os voltaires de sempre e ainda a participação na sabatina com o ombudsman, na segunda-feira. Ainda tenho uma orelha de livro para escrever até dia 30... Mas vou retomando por aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h27

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voltaire de souza

Algumas crônicas publicadas no jornal "Agora".

 

ÁGUAS PROFUNDAS

 

 

Chuvas. Enchentes. Situação caótica.

É São Paulo. Para muitos, o quadro é desesperador.

Paulino era um otimista.

--O futuro será melhor.

O rapaz acompanhava as notícias do pré-sal.

Vastos depósitos de petróleo se escondem nas profundezas do mar.

--Com a grana que vai vir, tudo se conserta.

O país também compra grande quantidade de armamentos.

--Brasil potência, pô.

Cada boa notícia ele comemorava do mesmo jeito.

--Garçom, mais uma. No capricho.

As cervejas aumentavam o entusiasmo do rapaz.

--Ninguém segura este país.

Ele saiu meio torto do bar. O carro estava estacionado numa ladeira.

A escuridão da noite. O tropeço. Paulino foi conduzido até uma grande poça.

--Petróleo, gente. Petróleo. Está jorrando.

O corpo do rapaz foi enterrado ontem. Cova rasa. Mas um pouco mais perto do pré-sal.

O futuro chega para todos. Mas não vale a pena se apressar.

 

O FUTURO É JÁ

 

 

Debates. Esperanças. Petróleo.

O futuro começa novamente para nosso país.

É a descoberta do pré-sal.

Reservas gigantescas de ouro negro.

Enfiadas a vários quilômetros de profundidade.

Especialistas são convidados a debater.

A apresentadora de televisão Janaína Sabatini fazia uma entrevista.

Felício era um famoso geógrafo.

--Veja, Janaína. A questão é saber onde perfurar.

--Mas o senhor concorda que o petróleo é nosso?

--É meu, é seu... mas precisa saber o quando e o como.

--Então, professor Felício... Quando? E como?

Felício ficou em silêncio. No intervalo comercial, veio a resposta.

--Rapidinho. Agora mesmo.

Nos camarins, o ponto do pré-sal foi atingido magicamente.

Jorraram ondas de prazer. A entrevista continuou em clima mais ameno.

--Professor Felício... agradeço a sua disponibilidade de visitar nossos estúdios...

O petróleo é como o amor. Surge das profundezas. E daí ninguém segura mais.

 

FUMAÇA NO AR

 

 

Lei é lei. Não tem conversa. O cigarro está proibido em todo lugar.

O doutor Saavedra fumava quatro maços por dia.

Aos oitenta anos, o célebre advogado não queria mudar seus hábitos.

--E que respeitem meus direitos humanos. A dignidade pessoal.

Saavedra tinha compromissos num ministério em Brasília.

No saguão principal, ele acendeu o cigarro. Deu problema.

--O senhor não pode fumar aqui.

--Não estou fumando. E quem disse que não posso?

O guarda apontou o cartaz e o cigarro.

--Não há prova de que o cartaz é verdadeiro. E digo mais.

Soltou uma baforada na cara da autoridade.

--Não há prova de que o senhor seja guarda.

A cena foi acompanhada pelas câmeras internas. Saavedra indignou-se.

--Quem tem o direito de me filmar? Que é isso? Estado policial?

Jogou o cigarro no chão. E foi tratar de seus negócios com o ministro.

O segurança foi demitido. Para deixar de ser encrenqueiro.

O cigarro está proibido. Mas em Brasília sempre há fumaça no ar.

 

 

SEM RECURSO

 

 

Revolta. Ressentimento. A vida de um caseiro pode ser amarga.

Odilmar trabalhava para um figurão de Brasília.

O palacete à beira do lago era centro de negociatas e orgias.

--Um dia eu conto tudo. Pode crer.

O trabalho braçal garantia ao jovem um físico atraente.

Licéia Miquelini era uma experiente jornalista política na capital.

Trinta anos de carreira. Muitos furos de reportagem.

E muitas cicatrizes no coração. Fazia o cooper na calçada.

Olhares se trocaram. Papo envolvente.

Odilmar começou a contar o que sabia. Licéia sorriu.

--A gente continua o papo no meu apartamento.

Rolou o clima. Surgiram revelações. Práticas e teóricas.

--Mostra os documentos, Odilmar.

Na hora crucial, o rapaz fraquejou.

Os advogados dizem que faltou força de comprovação de sua parte.

Licéia denunciou Odilmar às autoridades. O rapaz está na pior.

--Quebra de sigilo no cargo. E incompetência no exercício da função.

No tribunal do amor, só se entra com muito recurso.

  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h19

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Amantes

No artigo de hoje para a Ilustrada, comento o eterno tema do triângulo amoroso e o filme "Amantes", de James Gray. Um trecho:

A beleza de “Amantes” está no fato de que o personagem principal não nos inspira a menor confiança. Sabemos, desde o início do filme, que ele sofre de graves problemas emocionais. Toma remédios psiquiátricos, já tentou suicídio mais de uma vez, está morando com seus pais num apartamento bem pequeno, exposto a pressões, silenciosas ou nem tanto, para arranjar-se na vida.

         Diante de um personagem tão instável, a tendência do espectador é desacreditar de todas as suas atitudes; coitada da mulher que quiser namorá-lo.

         Não posso contar mais nada, mas saí do cinema concluindo que, desde o início, o protagonista tinha certeza absoluta quanto a quem amava de verdade.

         A arte de “Amantes” está em fazer disso um certo mistério; é esse o mistério, aliás, da vida real. Nossas certezas costumam manifestar-se com atraso. Os atos vêm primeiro, e por isso mesmo são muitas vezes contraditórios; nascem de diversas partes de nós mesmos. O desequilíbrio de Leonard, em “Amantes”, talvez venha do fato de ele só seguir, afinal, o lado para o qual pende o coração.

         Nada mais estabelecido, hoje em dia, do que o direito que cada um tem de levar a própria vida. São inúmeras as possibilidades abertas a qualquer pessoa, especialmente no plano afetivo. Fica mais difícil, naturalmente, saber o que se quer. E imaginar o que querem os outros –em especial numa família como a de Leonard—torna-se paradoxalmente muito mais importante nessa situação.

O artigo pode ser lido na íntegra, por enquanto, na nova edição digital da Folha.

Aliás, é uma experiência bem interessante ver o jornal direitinho, tal e qual, com anúncios e tudo, na tela do computador. Bem melhor do que a antiga versão da Folha On Line. Você clica num canto, e a página vira como se fosse papel impresso. O curioso é que, ao contrário do que se diz, minha leitura ficou muito mais demorada no computador do que costuma ser no papel. No jornal impresso, vou virando as páginas automaticamente, passando os olhos pelos títulos, e só parando quando acho importante. Com a imagem da página parada na tela do computador, encarrego-me de ler cada matéria até o fim, mesmo porque o ato de clicar no canto para virar a página dá mais trabalho, e tem algo de irreversível... 

São primeiras impressões. Vamos ver no que vai dar tudo isso.        

Escrito por Marcelo Coelho às 11h10

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O sexo vegetal

 
 

O sexo vegetal

Já escrevi sobre o poeta Sérgio Medeiros na “Folha" (leia aqui),

a respeito de seu livro “Alongamento”, publicado em 2005. Leio agora seu último lançamento, “O Sexo Vegetal”. É mais um livro misterioso, como um céu coberto de nuvens muito escuras e mutáveis, que se ilumina por momentos e depois se cobre novamente.

A comparação meteorológica vem ao caso num autor que é magnífico em registrar as mínimas nuances do tempo no decorrer de um dia. Em “Alongamento” havia coisas como

 

a luz

da manhã

tropeça

no morro

e incha

 

ou

 

quando o vento

sopra

no morro

a luz

se levanta

como um véu

de areia

e não assenta

mais

 

 

“Alongamento” descreve muitas cenas vistas de um apartamento à beira-mar. Em “O Sexo Vegetal” a paisagem é outra, de jardim, parque urbano ou de reserva florestal:

 

--silêncio... palmas...

 

--apenas sombras de galhos no escorregador: descem e sobem espontaneamente, como crianças

 

Ou

 

--a névoa enraíza tentáculos torcidos nos morros e cresce como grande arbusto, sedento de terra.

 

Há também

 

--em meio a folhas coloridas, uma palma seca boia na piscina depois da chuva, como um guarda-chuva fechado, soltando fios

 

Os trechos citados adotam, como muitos outros do mesmo tipo, um título comum: “Décor”. Esses pequenos “cenários” se alternam, ao longo do livro, com curtas narrativas que ilustrariam casos daquilo que o autor chama de “sexo vegetal”; geralmente, as relações epidérmicas entre um ser humano e plantas de qualquer tipo. Assim, uma jovem que descansa na grama estaria praticando esse tipo de sexo:

 

Uma moça nem magra nem gorda. Pedalava tenazmente numa estrada de chão nos arredores de Terenos quando viu um bosque junto a um portão fácil de abrir. Abriu o portão. Entrou no bosque caminhando. Nenhum cão ladrava: nem perto nem longe. O que era decerto raro naquela região. Sentou-se no capim. Logo se pôs de pé. Pedalou tranquilamente de volta para casa.

 

Em casa (quando despia a calça) constatou que tinha as coxas cobertas de areia. Areia morena com alguns fiapos de grama. Como se tivesse livremente rolado no chão.

 

Não se lembrava.

 

Eis um tipo de obscuridade poética que não requer explicação. Os trechos denominados “décor” empregam a metáfora; nesta curta narrativa, a metáfora não é “escrita” pelo poeta; acontece de fato, na troca de semelhanças entre a moça e o chão: “areia morena com alguns fiapos de grama” é no que parte dela se transformou, e o poeta simplesmente registra o “fato” acontecido.

Apolo e Dafne

Escrito por Marcelo Coelho às 15h33

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os feriados de Matisse

 
 

os feriados de Matisse

No artigo de hoje para a Ilustrada (aqui o link  para assinantes), comparei a pintura de Matisse a uma espécie de vida em eterno feriado. A lembrança, que não tive tempo de incluir, é de uma frase famosa de Hegel, para quem a pintura holandesa era “o domingo da humanidade”. Mas conheço a frase só de segunda mão; em todo caso, mais uma vez Vermeer e Matisse estão lado a lado, como aliás no ensaio de David Sylvester, que também citei no artigo.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h16

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o guia pervertido do cinema

Um filme raro, em sessão especial na USP. Segue o release.

Exibição do filme The Pervert's Guide to Cinema de Slajov Zizek.
obs.:
Áudio em inglês e  legendas em francês.

Quinta-feira
, 10/09/09, das 11h às 13h30 (são 2h30
de filme)
 
Sinopse:
O que pode a psicanálise dizer-nos sobre o cinema? Esta é a pergunta a que THE PERVERT´S GUIDE TO CINEMA se propõe responder. O filme conduz o espectador através de uma estimulante viagem por alguns dos maiores filmes de sempre. O guia e apresentador é Slavoj Zizek (lê-se Slavói Chichec), o carismático filósofo e psicanalista esloveno. Na sua apaixonada abordagem ao pensamento, vasculha a linguagem escondida do cinema, revelando o que os filmes podem dizer-nos sobre nós próprios. Seja destrinçando os enigmáticos filmes de David Lynch, ou deixando por terra tudo o que se pensava saber sobre Hitchcock. O filme estrutura-se a partir do próprio mundo dos filmes que discute; filmado em ambientes originais ou em réplicas dos cenários, cria-se a ilusão que Zizek fala a partir do interior dos próprios filmes. “The Birds” e “Psycho”, de Hitchcock são abordados por Zizek, considerando que aquele realizador é, provavelmente, o mais freudiano de todos. Prestem atenção à comparação que Zizek faz entre os três andares da assustadora mansão de Norman Bates (“Psycho”) e o conceito freudiano de Id, Ego e Superego. O psicanalista esloveno expõe os seus argumentos de forma tão natural e convincente e ao mesmo tempo tão rápida, que a nossa mente começa a girar vertiginosamente. Está estruturada em três partes: a primeira, está dedicada a Alfred Hitchcock e Lynch, e é sobre a diferença entre a realidade e os desejos; a segunda, é sobre a libido e a terceira é sobre a eficiência das aparências, centrada principalmente na obra de Tarkovsky e Chaplin. (Fonte: http://postmaster-br.blogspot.com/2007/06/perverts-guide-to-cinema.html)

Organização: Profª Drª Belinda Mandelbaum – Departamento de Psicologia Social

Local:
Auditório da Biblioteca do IP
Cidade Universitária – São Paulo, SP

Escrito por Marcelo Coelho às 22h51

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boa semana

O tempo, nesta terça-feira, está de assustar. Mas um amigo me enviou um video do youtube capaz de garantir o bom humor para esta semana.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h21

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Blog das aventuras

 
 

Blog das aventuras

Em matéria de pai interagindo com filhos, este blog dá de dez a zero e é um exemplo (para quem conseguir imitar): http://www.cyberaventuras.blogspot.com/

Escrito por Marcelo Coelho às 10h00

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modernismos do passado

 
 

modernismos do passado

         O compositor francês Darius Milhaud está longe de ser um dos grandes radicais do século 20. Sua música tende a ser agradável e bonita, mesmo quando explora o campo infinito das dissonâncias e da politonalidade.

         Mesmo sem ser radical, ele era entretanto moderníssimo. Depois de muitos anos de curiosidade, acabei topando, graças à naxos music library, com as curtíssimas canções em que Milhaud musicou nada menos do que... um catálogo de sementes para floricultores. Violetas e jacintos recebem uma descrição técnica e precisa no texto: o suficiente para Milhaud inventar linhas melódicas irônicas e ambíguas. Soube também que ele fez o mesmo para um catálogo de máquinas agrícolas.

         Está nisso, a meu ver, a essência do modernismo: existe tanto uma referência aos padrões “poéticos” do passado (falar de flores, por exemplo), e uma espécie de jogo dilacerado com a técnica, com a mercadoria, reproduzindo na linguagem artística o drama de um mundo em que não é mais possível, cof, falar de flores. E, ao mesmo tempo, um flerte dos mais irônicos com o mundo industrial que se impunha no século 20.

         Estamos a anos-luz de distância desse modernismo, quase ingênuo a nossos olhos. A própria linguagem artística foi inoculada de tamanha sofisticação tecnológica que as composições de Milhaud soam conservadoras e agradáveis perto das ousadias de um Varèse e da turma que o sucedeu.

         Acontece que, depois da Segunda Guerra Mundial, e em especial depois do Vietnã, o mundo puro e duro do cientificismo técnico se mostrou diabólico demais –e pouco a pouco a arte musical foi recuando de seu delírio técnico.

         Não por acaso, uma das obras mais significativas desse “recuo” é a ópera “Nixon na China”, de John Adams, que celebrava (não sem loucura e ironia) um momento de distensão política.

         O fim da Guerra Fria (com a qual a vanguarda estética se relacionava para lá de ambiguamente) representou uma distensão também no plano musical. As pessoas ouvem agora Shostakovitch sem pensar em sua timidez diante dos cânones artísticos stalinistas; reavaliam o “reacionário” Sibelius.

         Mas nesse movimento pendular, talvez se perca o moderno, puro e cristalino, de um Milhaud –produto de uma época passada, sem dúvida, e sem dúvida mais “apolítico” do que a esquerda serialista e a direita de Sibelius; não que sua mensagem deva ser imitada hoje em dia. Guarda, entretanto, como um perfume de flor entre as páginas de um livro antigo, o charme de um período histórico que não temos mais obrigação de esquecer ou aceitar.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h19

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contos em três linhas

Escrevi há tempos sobre as micronarrativas de Félix Fénéon (veja o post). Há um ótimo texto a respeito escrito por Victor da Rosa, no "Diário Catarinense": link aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h33

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novo museu de ciência

Um novo museu de ciências será construído em Campinas, rivalizando com o recente “Catavento” aqui de São Paulo. Ouvi dizer que o conceito todo do museu será bem diferente, mas fico devendo uma entrevista com os idealizadores do projeto.

Vi, em todo caso, que o projeto arquitetônico do museu já foi aprovado. O vencedor do concurso internacional é o escritório de arquitetura brasileiro CHN, que foi criado em 2007.

Tiro a foto do site “dezeen” (www.dezeen.com), que sempre noticia feitos internacionais de arquitetura, sem ignorar o que fazem os brasileiros nessa área.

A foto não diz muita coisa, mas dá para ver que ainda estamos ligados a Paulo Mendes da Rocha (veja-se o exemplo do Mube), e menos às espetacularizações de UOL Busca Frank Gehry e UOL Busca Zaha Hadid.

O meu gosto talvez seja acusado de vulgar, mas prefiro as grandes gestualidades esculturais desses dois arquitetos à voluminosidade pétrea da arquitetura retangular tão prestigiada no Brasil.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h19

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Irritações e crise de Matisse

 
 

Irritações e crise de Matisse

O trecho final de um bonito ensaio de David Sylvester sobre Matisse talvez responda às dúvidas do post anterior.

 

Em 1º de junho de 1916, em meio à batalha de Verdun, Matisse escreveu a seu amigo Hans Purrmann, na Alemanha, contando-lhe sobre os trabalhos que estava fazendo, e prosseguia:

 

“Estas são as coisas importantes da minha vida. Não posso dizer que isso não seja um combate –mas não é o verdadeiro combate, sei muito bem, e é com especial respeito que penso nos recrutas que dizem, depreciativamente, ‘somos forçados a isso’. Essa guerra terá suas recompensas –que importância não dará às vidas, mesmo daqueles que não participaram dela, se puderem compartilhar dos sentimentos do humilde soldado que dá a sua sem saber muito por quê, mas tem uma vaga noção de que sua doação é necessária. Não desperdice comiseração com o discurso ocioso de um homem que não está no front. Pintores, e eu particularmente, não são hábeis em traduzir seus sentimentos com palavras –e, de resto, um homem que não está no front se sente razoavelmente bem por quase nada...”

 

Talvez tenha sido esse sentimento de culpa que levou Matisse a explorar e representar o combate no qual estava engajado [David Sylvester comentava os quadros em que Matisse se representava diante de uma modelo, pintando os próprios quadros]

 

...Georges Duthuit escreveu que certa vez viu Matisse deparar-se com tamanha resistência diante da tela que entrou numa espécie de transe, soluçando, ofegando, tremendo. Mas Matisse sempre tentou disfarçar a dor. Em suas palavras: “sempre tentei esconder meus próprios esforços e desejei que minhas obras tivessem a leveza e a alegria de uma primavera que jamais nos deixa fazer ideia do trabalho que aquilo lhe custa”. Ao mesmo tempo, ele de fato costumava se desgostar de que as pessoas não percebessem quão sofrido fora obter aquele efeito de ausência de esforço. Há a história, por exemplo, do retrato de sua esposa pintado em 1913. Quando o crítico norte-americano Walter Pach, seu amigo, viu a obra pela primeira vez, disse admirado que era como se o pintor tivesse precisado levá-la a cabo de um modo preferencialmente fácil. Matisse ficou muito irritado e protestou que o retrato, muito ao contrário, tinha exigido mais de cem sessões de pintura.

 

[...] Matisse era um dândi entre os pintores, do tipo que se esforça ao máximo para obter uma aparência casual. Ele queria que o público se interessasse não pela face sofrida do artista, mas pela face radiante da obra. Desde que a arte fosse boa, e seria boa por causa de sua beleza, não por causa de algum heroísmo implicado na sua criação. Alguém poderia precisar de heroísmo para criar beleza, mas a qualidade estaria na beleza, não no heroísmo. Mesmo naquela confissão de tempos de guerra sobre o quão exigente é a arte não há qualquer heroísmo na representação do artista, mas uma certa ironia e uma resoluta auto-supressão.

 

A palavra-chave desse texto de David Sylvester (no livro Sobre Arte Moderna) é, sem dúvida, “beleza”. Talvez o motivo de Matisse ter sido um bocado esnobado antigamente esteja na sua procura, pouco “moderna”, de beleza: daí ter tido a fama de ser muito “decorativo”, se comparado a modernistas mais “durões”. Há um fundo de machismo nessa avaliação, que de resto já passou de moda.

 

Mas faço o comentário sem ter ainda ido ver a exposição de Matisse na Pinacoteca. Gosto do que conheço de suas pinturas, mas o melhor é tentar perceber o seu impacto real.

 

Xi, mas existe tanta coisa para ler sobre Matisse! Antonio Gonçalves Filho, no “Estado” deste domingo,  comenta uma impressionante coletânea de ensaios a respeito do pintor. Se vier a escrever sobre ele, vai ser na base do puro, hum, impressionismo, porque não vou ter tempo de ler tanta coisa assim.

 

Na abertura da exposição Matisse, Pinacoteca do Estado. Que moldura desgraçada, hein?

Escrito por Marcelo Coelho às 23h47

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Arte e crítica

Olho a minha janela, são dez da manhã, e vejo um céu quase branco de tão azul.

Uma pureza se estende sobre os telhados, tão amarelos ou cor-de-abóbora como os de Delft.

Que privilégio!

Vermeer captava o momento inesquecível de uma vida marcada pela iminência da morte.

Fico pensando se não é a morte que embeleza tudo. Que dá ao fato sua significação suprema.

Recuso esta interpretação.

Beleza é vida, não é morte.

Ou será que não?

Por que, afinal, meus instintos críticos (destrutivos) se voltam, neste blog, contra artistas que afirmam a vida (Vermeer, Matisse)?

Qual o rancor que mobiliza o jornalista?

Seria óbvio dizer que ele é um artista frustrado.

Ele sabe, contudo, que pode fazer de um texto crítico uma obra de arte.

Coitado dele! É um artista iludido...

Mas talvez todo artista viva essa ilusão.

 

vermeer, vista de delft

Escrito por Marcelo Coelho às 10h14

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queremos Getúlio

Eis uma imagem rara, que escaneei dos meus guardados, propondo a continuidade de UOL BuscaGetúlio Vargas no poder, nos idos de 1945.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h13

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Dilma e os médicos

“Palavras, ai palavras/ que estranha potência a vossa!”, dizia Cecília Meireles. Achei pesado o tratamento dado pela “Folha” de hoje às declarações de Dilma Rousseff a respeito de seu tratamento oncológico.

Ela disse que “acredita” ser de cura o diagnóstico dos médicos.

Os médicos dizem que “o risco de recidiva é baixíssimo. Então, a gente espera que ela esteja curada”.

A “Folha” publica, no título de uma matéria, “Há expectativa de cura”, o que é imensamente mais pessimista do que o titulo adjacente, “Dilma se diz curada de câncer”.

O que era, basicamente, a mesma avaliação clínica se torna contradição entre médico e paciente.

Mesmo que fosse, seria natural. O otimismo heroico do vice-presidente Alencar não teve tratamento agourento.

Mas esse enfoque, nem do ponto de vista humano, nem político, se justifica.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h07

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caso Palocci

Um trecho do artigo que sairá amanhã na Folha (a íntegra para assinantes pode ser acessada aqui):

Um político se vale do poder para entrar em negociatas; enriquece; engorda o caixa de sua próxima campanha. Trata-se, na linguagem popular, de um ladrão.

         Outro político, ou o mesmo, usa o poder para intimidar um cidadão comum, prejudicá-lo, levá-lo à prisão se possível.   Trata-se, a meu ver, de mais do que um ladrão. Trata-se de um tirano.

         Gostaria de saber em qual das categorias, se é que pertence a alguma, classifica-se o ex-ministro Antonio Palocci.

         Mas não saberei nunca. Pois o Supremo Tribunal Federal resolveu rejeitar a denúncia contra ele.

        

Escrito por Marcelo Coelho às 12h42

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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