Recebi um e-mail falando dos dois anos completos do blog "Images e Visions", editado por Fernando Rabelo. Traz notícias sobre exposições de fotografia, com muitos links e grande apuro visual. Vale a pena dar uma olhada aqui.
Escrito por Marcelo Coelho às 11h32
aprendendo a pensar
O poeta Ted Hughes fez uma série de conferências pelo rádio, dedicadas a alunos do ensino básico, para estimulá-los a escrever poesia. Algumas dessas conferências estão reunidas num livro curto, chamado Poetry in the Making. Traduzo o trecho de um capítulo, intitulado “Aprendendo a pensar”. Assim como existem pessoas que ficam correndo de um lado para outro, cuidando das coisas, enquanto outras simplesmente ficam sentadas –o mesmo acontece com a mente das pessoas. Alguns cérebros ficam se agitando e trabalhando e lembrando e questionando coisas o tempo inteiro, e outros cérebros ficam só deitados cochilando e mudando de lado às vezes. Ted Hughes diz pertencer ao segundo grupo de pessoas. Na escola, eu ficava atormentado com a ideia de que eu tinha pensamentos na verdade muito superiores ao que eu poderia por em palavras. Não é que eu não conseguisse achar as palavras, ou que os pensamentos fossem profundos e complicados demais para por em palavras. Simplesmente, quando eu tentava falar ou colocar no papel os pensamentos, eles tinham sumido. [...] Por alguma razão, eu fiquei muito interessado nesses pensamentos que eu nunca conseguia pegar. Às vezes nem dava para chamá-los de pensamentos; eram uma espécie de sentimento obscuro a respeito de alguma coisa. Não se inseriam em nenhum tema particular –história, aritmética ou coisa parecida [...] Acho que você pode ver o que estava acontecendo. Eu estava pensando direito, e mesmo tendo pensamentos que pareciam interessantes para mim, mas eu não conseguia segurar esses pensamentos dentro de mim, ou pescá-los quando os queria. [Acho que] a maioria das pessoas tem esse mesmo problema. Os pensamentos que as pessoas têm são flutuantes –só um lampejo, e depois desaparecem—ou, ainda que elas saibam que sabem alguma coisa, ou têm idéias sobre alguma coisa, não conseguem cavocar até chegar a elas quando querem. As mentes delas, na verdade, estão fora do alcance. É uma coisa curiosa dizer isso, mas é absolutamente verdadeiro. Existe a vida interior, que é o mundo da realidade básica, o mundo da memória, da emoção, da imaginação, da inteligência, do bom senso, e que funciona o tempo todo, conscientemente ou não, como o bater do coração. Existe também o processo do pensamento, pelo qual entramos nessa vida interior e capturamos as respostas e as evidências que nos dão base para tratar das questões que vêm de fora. Esse processo de vasculhamento, de persuasão, de emboscada, de caçada, ou de rendição, é o tipo de pensamento que precisamos aprender, e se não o aprendemos, nossas mentes ficam dentro de nós como os peixes no lago de uma pessoa que não sabe pescar.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h33
Não tive sorte com alguns DVDs recentes. “A Confissão”, de Norman Jewison, tinha bons motivos para me atrair. Michael Caine é um ex-colaboracionista francês, responsável pela morte de judeus durante a Ocupação. Conta com o apoio de figurões de uma sociedade secreta católica, e desperta as suspeitas de uma juíza (Tilda Swinton), disposta a levar o caso às últimas conseqüências. O resultado é um filme repetitivo, em que o personagem “torturado pelo passado” não se desenvolve, e em que a investigação policial é levada com exasperante incompetência. Filme para a TV, no máximo. Pior é “A Solução Final”, de Robert Young, um semidocumentário baseado nos depoimentos de Adolf Eichmann às autoridades israelenses. O caso fascinante do burocrata que organizou o transporte de milhões de judeus para os campos de extermínio é tratado de forma bastante caricata. Em determinado momento, mostra-se o romance entre Eichmann e uma condessa húngara anti-semita. Ele vai enumerando, como o Leporello da “Ária do Catálogo”, quantos judeus já matou em cada país. Isso, com a condessa pelada em cima do colo dele, dizendo “mais, mais...” Como pretexto para uma cena de sexo, acho o pior que já vi no cinema. A imaginosa extravagância de Quentin Tarantino, em “Bastardos Inglórios” (filme que comento no artigo desta quarta, aqui para assinantes do UOL), possui, entre outras qualidades, a de mostrar alguns nazistas astuciosíssimos, reservando a bestialidade para algumas ocasiões apenas. Alguns deles são antes animais predadores do que sádicos –o sadismo, talvez, fica mais entregue aos próprios americanos; mas a ironia de tudo privilegia mais a esperteza do que a perversão, o assassinato maquinal do que a malignidade metafísica. Esta só seria compreensível a partir de uma visão do Bem –que Tarantino não tem o menor interesse em acentuar. Bem bonito é o documentário “O Equilibrista”, vencedor do Oscar da categoria em 2008, que saiu agora em DVD. O filme de James Marsh conta a história de Philippe Petit, astro absoluto na arte de andar sobre a corda bamba. Sua maior proeza foi andar sobre um arame ligando as duas torres do World Trade Center. Foi necessária muita esperteza para driblar a segurança do lugar. O documentário recupera cada passo da operação, entre emocionados depoimentos dos participantes. O foco de interesse do filme é sem dúvida limitado, mas tudo se justifica quando vemos Petit, por fim, equilibrado naquelas alturas –como se se dispusesse a provar o valor de um só indivíduo sobre a enorme estrutura impessoal de ferro e vidro que ele conquistou. Naturalmente, o contraponto dessa proeza está no atentado promovido por Bin Laden –um louco bem mais perigoso do que Petit.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h20
Ganha um prêmio quem adivinhar o que é isso: 
(é o sapato "mojito", criado por Julian Hackes, que vi no site dezeen.)
Escrito por Marcelo Coelho às 18h58
criança e consumo Falei no artigo desta quarta-feira (aqui para assinantes do uol) sobre os brinquedos do Dia das Crianças, e de uma organização beneficente que, de certa maneira, em casos especiais, dá toda razão aos caprichos e desejos infantis. O “make a wish” (realize um desejo) atende pedidos de crianças com doenças graves. Mesmo se forem extravagantes, merecem ser cumpridos. O tema do consumismo nas crianças é vasto, mas ficam aqui duas dicas. Um livro, intitulado “Eu era assim”, reúne crônicas e reportagens recentes de Flávio Paiva, publicadas em sua maioria no “Diário do Nordeste”, de Fortaleza, e no Portal Cultura Infância, de São Paulo. Há muita informação sobre iniciativas a respeito dos efeitos da publicidade e televisão no público infantil. Nesta quinta feira, às 23h10, passa na TV Cultura o documentário “Criança, a alma do negócio”, de Estela Renner, mostrando o poder das marcas e da propaganda sobre as crianças brasileiras. 
desenho de David Hockney
Escrito por Marcelo Coelho às 18h52
Um poema de Murilo Mendes
História do Brasil, de Murilo Mendes, é um livro publicado em 1932. Lêem-se os seus sessenta poemas, antes de tudo, como uma negação do que possa haver de heróico na história brasileira. O leitmotiv do livro é a desmistificação da “história oficial”. Já o primeiro poema, “Prefácio de Pinzón”, confronta o leitor com várias negações. Quem descobriu a fazenda, Por San Tiago, fomos nós. Não pensem que sou garganta. Se quiserem calo a boca, Mando o Amazonas falar. Mas como sempre acontece, Nós tomamos na cabeça, Pois não tínhamos jornal. A colônia portuguesa Mandou para o jornalista Um saquinho de cruzados. Ele botou no jornal Que o arquimedes da terra Foi um grande português. O livro de Murilo Mendes não começa, assim, com uma cena de descobrimento; o nome “Brasil” não aparece, e tampouco os de Cabral ou de Pero Vaz; é Pinzón quem protesta. Está sozinho em cena, embora adote, em nome dos espanhóis, a primeira pessoa do plural. Seu protesto se tempera, quase se arrepende, quando para provar que não é “garganta”, ou seja, que não mente, Pinzón se prontifica a “calar a boca”. Todavia, se calar a boca, é aí que sua arrogância –e a irrealidade do seu pleito—haverão de confirmar-se. Pinzón terá como porta-voz o rio Amazonas, como se fosse um subordinado seu: “mando o Amazonas falar”. O tom, de todo modo, parece “cair em si” logo em seguida, com a coloquialidade (um pouco excessiva) de “tomamos na cabeça”, “botou no jornal”. , “não pensem que sou garganta”: um registro que justamente nega o que poderia ser uma “fala amazônica”. Pinzon conta com o Amazonas, mas reconhece: “não tínhamos jornal”, e o óbvio humor do anacronismo não deixa de ser mais uma forma de negar a história, assim como a coloquialidade era uma forma de negar a fala do personagem histórico Pinzón, que por sua vez ameaça negar-se pela fala do Amazonas, que é negada, para dar lugar ao ato de negar Cabral, ato que foi negado pela intervenção anacrônica do jornalista, que é assim o único “herói” (corrupto) da história. Dois testemunhos –o do Amazonas(real, mas hipotético) e o do jornalista (falso, mas efetivo)—são postos em contraste, e obedecem a duas lógicas diferentes: a do mando, no primeiro caso, e a do dinheiro, o “saquinho de cruzados”, no segundo. Entre as duas, naturalmente, interfere o poder conquistado por meio da palavra impressa, o jornal. O termo “fazenda”, entretanto, sugere um outro tipo de documento em papel, o título de propriedade de uma gleba, que precisa ser passado em cartório; é como se, entre Pinzón e Cabral, estivesse reproduzida a situação que opõe o ocupante tradicional de um terreno, de uma fazenda, e o recém-chegado que pode ostentar, graças a um “saquinho de cruzados”, o título formal de sua propriedade. Intitulando-se “Prefácio de Pinzón” o poema se coloca, ademais, em certa medida “fora” da narrativa que virá a seguir; nesta, a importância da palavra escrita –o poder do papel impresso—haverá de prevalecer sobre os protestos (meramente verbais) da personagem, excluída da história oficial, da história real, e da história que será contada nas páginas de Murilo Mendes. Pinzón reconhece que pode ser chamado de “garganta”, mas isso –falar-- é todo o poder que tem (e a virtualidade imaginária de um Amazonas falante) contra o que um jornalista pode escrever.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h10
Profecias para o Brasil
Algumas coisas singulares que tornam o Rio tão colorido e pitoresco já estão ameaçadas. Sobretudo as favelas, as zonas pobres no meio da cidade: será que ainda as veremos daqui a alguns anos? Os brasileiros não gostam de falar delas, do ponto de vista higiênico certamente apresentam um atraso em meio a uma cidade que brilha de limpeza e onde, graças a um serviço sanitário exemplar, a febre amarela antes endêmica foi erradicada ao longo de duas décadas. Mas as favelas dão um colorido especial a esse caleidoscópio, e pelo menos uma dessas estrelas no mosaico deveria ser conservada por representar um pedaço de natureza humana em meio à civilização. Este é o primeiro parágrafo de um capítulo intitulado “Algumas coisas que amanhã já poderão ter desaparecido”, que tiro do livro Brasil, Um País do Futuro, escrito por Stefan Zweig, e publicado em 1941. Tem mais. Ele prevê (com acerto) o fim da notória Zona do Mangue. Eis, entretanto, um trecho de suas impressões sobre a clássica região do meretrício. ...o mais surpreendente, a característica mais tipicamente brasileira nesse mercado é a calma, a tranqüilidade, a disciplina serena; enquanto nesse tipode ruelas de Marselha ou de Toulon ecoam risos, gritos, berros e gramofones enlouquecidos, enquanto os fregueses bêbados gritam, aqui todos são calmos e moderados. Supreendente, de fato.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h55
a arte de esperar
Chegou enfim o Dia da Criança, data que vinha sendo aguardada há uns dois meses pelos meus filhos (7 e 5 anos). Havia a promessa de um presente bastante caro, o jogo de Wii chamado Mariokart. Naturalmente, o mínimo de bom senso pedagógico indica que não se deve encher as crianças de brinquedos, e que fazê-las esperar por uma data certa é tão importante quanto surpreendê-las, às vezes, com pequenos presentes inesperados. Mas foi difícil agüentar a pressão para só dar o bendito Mariokart neste 12 de outubro. Claro, por medo de que faltasse nas lojas, tinha comprado o brinquedo há mais de 15 dias. E meu filho maior perguntava o tempo todo se ia ganhar, quando ia ganhar, se eu já tinha comprado etc. Como a data marcada foi antecedida de um sábado e domingo, parecia-me racional dar o presente logo no sábado, para que meus filhos aproveitassem o fim de semana, em vez de só dar na segunda. Resisti, entretanto. E aprendi que muitas vezes não é só por causa da pressão dos filhos que cedemos. O fato é que eu mesmo estava louco para dar o presente antes da data. O prazer, no fim, teria sido menor para todos os envolvidos. E ensinar a esperar é uma coisa que temos a obrigação de fazer com nossos filhos, acima de tudo por uma razão bem egoísta. Somos nós, os adultos, que não agüentamos esperar por nada. Vejo a minha irritação no trânsito, no banco, ou diante do computador. É porque sofremos de impaciência que educamos mal nossos filhos, querendo resultados imediatos... E é fácil, da parte deles, aprender com nossa impaciência, e com tudo o que há de resposta imediata, de pressa, de instantaneísmo, na vida contemporânea. Vejo que vou ficando muito edificante. Paro por aqui. De resto, foi só as crianças começarem a jogar o tal Mariokart que surgiram brigas e choros, a cada derrota que o joguinho impunha. Minha paciência foi assim testada novamente... Até que deu certo, pelo menos até a hora em que os meninos foram conduzidos, não sem algumas ameaças, para o merecido descanso.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h31
Houve quem reclamasse, no artigo desta quarta-feira para a Ilustrada (link para assinantes aqui), de algumas ironias sobre as Olimpíadas no Rio. O tema principal, reconheço, era outro: “Salve Geral”, filme de Sérgio Rezende que achei importante ver nestes tempos de oba-oba. Mas não resisti a um comentariozinho sobre a festa olímpica, embora tenha enorme preguiça de despertar polêmicas fáceis em torno desse assunto. Claro que vai ser bom para o Rio e para o Brasil. O tema da segurança, de resto, não me preocupa. Basta ver o que acontece no filme de Sergio Rezende. Os ataques apavorantes do PCC em São Paulo foram interrompidos, do único jeito possível em nosso país, com a sociedade e o Estado que temos: acordo secreto entre polícia e criminosos. Nada impede que isso seja feito nas Olimpíadas. Quanto ao resto, obras dispensáveis e corrupção estão no programa. É o preço, imagino, para toda essa felicidade geral. Só um detalhe me chamou a atenção. O Rio precisará ter mais 18 mil vagas em hotéis para o público das Olimpíadas. E quando acabarem as Olimpíadas? Os hotéis vão ficar em boa parte desocupados?
Escrito por Marcelo Coelho às 00h22
"As vozes do sótão"
Resenhei na semana passada, para a Ilustrada (aqui o link para assinantes), “As vozes do sótão”, de Paulo Rodrigues. Trata-se do autor de “À margem da linha”, breve romance que elogiei no seu lançamento, há alguns anos. Nos dois livros, a quantidade de clichês incomoda um bocado, mas me parece que o autor os utiliza voluntariamente. Em “À margem da linha”, tínhamos a história de dois irmãos que fogem de casa, seguindo a linha do trem. O narrador conta a aventura da perspectiva de quem já perdeu as perspectivas e encantamentos da infância –de modo que a rigidez fraseológica seria quase que uma conseqüência do seu envelhecimento. Em “As vozes do sótão” o narrador é um sujeito convencional, do ponto de vista das convicções e sentimentos: estamos na década de 50, ele é um alfaiate, perturbado pelo adultério da mulher. É também um sujeito nada convencional do ponto de vista do equilíbrio psicológico: ouve vozes, e mais tarde no livro o narrador se desdobra, se espelha, em outros dois. Há um certo jogo “pós-moderno” nisso, que mais tira do que acrescenta persuasão ao livro todo. De modo que, por vários motivos, o uso do clichê se justificaria também. Mas vai ficando difícil ler página depois de página cheias de trechos como este: ...Aos poucos, porém, a voz foi ocupando espaço, tornando-se inevitável, a ponto de eu não dar mais um passo sem antes ouvi-la. Foi ela que me desviou para o caminho do ódio, trilha por mim desconhecida e que só palmilhei após um violento conflito interior. Difícil juntar tantas palavras desnecessárias em texto tão curto. A voz “tornou-se inevitável”: dizer que ele “não podia dar mais um passo sem antes ouvi-la” acrescenta pouco. “O caminho” se repete em “trilha”, o “conflito interior” bem que poderia ganhar outro adjetivo que não “violento”, e “palmilhar”, pode ser implicância minha, mas é uma palavra que deveria ser banida do dicionário. O narrador logo depois informa que alimentou a voz “com desvelo e carinho verdadeiramente paternais”. Desvelo e carinho? E estamos só na primeira página do romance...
Escrito por Marcelo Coelho às 23h23
livros em banca de jornal
Tenho bastante antipatia por livros caros e de capa dura. Nos Estados Unidos, é quase uma regra: o lançamento vem em capa dura, e só mais tarde surgem as edições em “paperback” e em formato de bolso. No Brasil, a moda vai pegando. O livro, que era um artigo caro, vai-se transformando por vezes em puro artigo de luxo –coisa para se dar de presente, mais do que para comprar e ler. Fiquei feliz, assim, de topar numa banca de jornais com uma nova série de livros de bolso, editada pela Hedra –com alguns títulos que nunca tinha visto por aqui. Exemplos: uma antologia de poesia catalã, outra de poesia galega, outra de poesia basca... “Cultura Estética e Liberdade”, de Schiller (uma coleção de cartas entre Schiller e um príncipe dinamarquês, que constituem uma primeira versão das “Cartas sobre a Educação Estética do Homem”, segundo informa a extensa introdução de Ricardo Barbosa). Há também clássicos anarquistas e uma narrativa de Heine, “O Rabino de Bacherach”, com introdução de Marcos Mazzari. Cada volume sai entre 15 e 19 reais.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h02
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