Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

cartazes de rua

 
 

cartazes de rua

Estive fora de São Paulo nas férias e consegui tirar algumas fotos de cartazes populares, retomando a série "pizzas e cia." que andava meio descuidada por aqui. Gostei desse hamburger, por exemplo:

A caligrafia é típica das carrocerias de caminhão. O mesmo ilustrador faz esta pintura de churrasco:

Mas o melhor, sem dúvida, é essa tigelinha minimalista:

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h02

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pizzas e cia. | PermalinkPermalink #

blog de cultura italiana

Mônica Gonçalves é professora de italiano em São Paulo, e começou um blog que traz muitos links e comentários para quem quiser saber mais da atualidade e da cultura da Itália. Sua seção de livros, por exemplo, traz lançamentos que dificilmente vemos noticiados por aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h49

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Um poeta em Hollywood

 
 

Um poeta em Hollywood

No artigo de quarta-feira passada (aqui para assinantes), sobre “O Loteamento do Céu”, livro de Blaise Cendrars (1887-1961), esqueci de mencionar um outro lançamento recente do poeta franco-suíço. Saiu em edição de bolso na coleção “Sabor Literário”, da José Olympio.

 

É bem mais curtinho (152 páginas) e singelo: “Hollywood, a Meca do Cinema” é uma série de textos jornalísticos que Cendrars escreveu para o “Paris Soir” em 1936, contando sua viagem de 15 dias à Califórnia.

 

Excelente conversador (uma caixa de CDs contendo suas entrevistas no rádio pode ser encomendada pela internet), Cendrars tem um estilo de grande loquacidade, que parece desmentir a tendência, tão forte nos poetas do modernismo, para a brevidade e a compressão das imagens.

 

“Hollywood” não tem a amplitude e a originalidade do “Loteamento”, que de uma página a outra passa da tentativa de embarcar um tamanduá num navio holandês aos relatos de levitação de um místico italiano, misturando lembranças da Primeira Guerra –onde um estilhaço amputou seu braço direito.

 

Mesmo assim, há observações curiosas, por vezes muito atuais.

 

Ah, esses conferencistas, que praga!

São os caixeiros-viajantes da cultura. Mercadejam bugigangas, levantam problemas, oferecem soluções, distribuem receitas, fazem dumping.

Mentem, todos eles, e confiam em si.

 

Cendrars não desenvolve essa acusação, que surge um pouco isolada no texto, a respeito de um industrial e “tecnocrata” (a palavra é apresentada como novidade) que ele encontra numa viagem de trem.

 

Mas talvez exista um fio condutor em livros e assuntos tão díspares. Do santo levitador a Hollywood, do conferencista à namorada ignorante que o filho de Cendrars arranjou certa vez, é possível identificar o tema, sempre presente, na mistificação e da credulidade. Ele próprio um mitômano irreprimível, Cendrars deve ter sentido o quanto as pessoas precisam acreditar nas mentiras que contam para iludir os demais.

  

Escrito por Marcelo Coelho às 10h43

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

declínio de um mestre

 
 

declínio de um mestre

Termino de ler, não sem bastante melancolia, a enorme (umas 1300 páginas) biografia do crítico e poeta inglês William Empson, escrita por John Haffenden. A velhice de qualquer um sempre deprime um bocado, mas o caso de William Empson, apesar de tratado respeitosamente pelo biógrafo, tem alguns lances bem patéticos.

 

Antes mesmo de completar 30 anos, William Empson tinha publicado um dos grandes marcos da crítica literária no século 20. Sete Tipos de Ambiguidade é um prodígio em matéria de leitura engenhosa de poesia; logo no primeiro capítulo, uma rápida metáfora num soneto de Shakespeare é capaz de render, na leitura de Empson, parágrafos e mais parágrafos de interpretações que se acumulam. Não contente em elucidar um único sentido para a comparação shakespeariana entre galhos de árvore no inverno e os bancos de um coral de igreja arruinada (“bare ruined choirs, where late sweet birds sang”), Empson descobre cinco, seis, sete, oito significados diferentes para o verso, que se acumulam. Mais adiante, em outro soneto, conforme se toma determinada palavra por verbo no pretérito ou por adjetivo, Shakespeare parece estar dizendo isto, aquilo, aquilo outro e o contrário de tudo isso.

 

Especialmente dotado para a Matemática, William Empson acabou preferindo os estudos literários, desenvolvendo uma promissora carreira em Cambridge –foi logo expulso da universidade, contudo, no dia em que acharam entre seus guardados nada mais nada menos do que... um preservativo. Eram assim as coisas em 1929.

 

Ele passou depois muitos anos dando aulas no Japão e na China. Seu livro seguinte, “Algumas versões de pastoral”, mantém a extrema capacidade de ver sentidos ocultos em poemas que à primeira vista parecem de leitura transparente. A famosa  “Elegy in a Country Church-Yard”, de Gray, fala genericamente de pessoas anônimas enterradas num cemiteriozinho de interior; Empson é especialmente arguto em ver naqueles versos pré-românticos o peso de uma sociedade onde inexistem carreiras abertas para os talentos de quem não é bem-nascido. Sua discussão sobre se é possível “literatura proletária”, tema candente na década de 30, é de grande sutileza e sofisticação.

 

Empson estava na China quando Mao tomou o poder, e defendeu os revolucionários por um bom tempo, mesmo depois de se evidenciarem os primeiros sinais de totalitarismo do regime. É que ele tinha vivido também o terror do regime que antecedeu o de Mao, quando a corrupção e a violência de Chiang-Kai-Chek atingia pesadamente não apenas a população em geral (hiperinflação era o de menos), mas também os próprios alunos de Empson na Universidade de Pequim, com casos frequentes de prisão, tortura e “desaparecimento”.

 

Empson era sobretudo um liberal de esquerda –até no próprio casamento, tolerando que sua mulher, a belíssima Hetta, tivesse tantos casos quanto quisesse, desde que de vez em quando ele próprio pudesse tirar algum benefício sexual dos amantes dela... Arranjo bissexual que, de forma bizarra, Empson quis obsessivamente identificar como o subtexto secreto das relações entre Leopold Bloom, Molly e Stephen Dedalus, no Ulisses de James Joyce.

 

Outras duas obsessões críticas de Empson, já do meio para o fim da vida, são mais importantes.

 

A primeira foi sua luta incessante contra o conservadorismo católico dos discípulos de T.S. Eliot, dos “new critics” do Sul dos Estados Unidos, como John Crowe Ransom, e da escola de F. R. Leavis. Investiu muito contra leituras “ortodoxas” e cristãs dos poemas de John Donne e de Coleridge. Foi provavelmente o primeiro a ver no “Ancient Mariner”, deste último, sinais de culpa vitoriana a respeito das viagens de exploração comercial inglesas.

 

O segundo ponto que fazia Empson insistir em polêmica a todo custo foi a crítica a um dogma que até hoje é seguido cegamente nos estudos literários: a ideia da chamada “falácia intencional”, ou seja, a de que a verdadeira crítica não deve imaginar “o que o autor estava querendo dizer”. Sem cair em psicologismo fácil, Empson reagia, com razão, contra essa camisa-de-força. Afinal, como interpretar o significado de um poema sem buscar saber quais as intenções do autor? Mesmo sem confessar explicitamente, um crítico está sempre atrás disso. Desde que admita, como dizia Empson, que há intenções conscientes e também inconscientes naquilo que ele escreve...

 

A melancolia de toda história é que, depois de décadas brilhantes, Empson entrou num declínio de dar dó. Sempre bebeu horrores, e seu descuido consigo mesmo era folclórico. Não se tratava apenas de aversão a banho: seus aposentos na Universidade de Sheffield batiam recordes de imundície. Oferecia uísque aos convidados em tigelas com restos de mingau. Na cama, pratos sujos, cascas de laranja, bitucas de cigarro e livros se amontoavam.

 

Veio depois um tratamento radioterápico e problemas dentários, que tornaram sua fala difícil de entender. Foi ficando surdo também, e quando se aposentou em Sheffield começou a se preocupar em fazer um pé-de-meia para a velhice, aceitando dar cursos em universidades americanas.

 

Sem a companhia de Hetta –que também bebia e fazia escândalos como ninguém--, passou alguns meses na Pennsylvania State University. Estava com 67 anos. Inventou de dar um curso tão esotérico que só dois alunos se inscreveram. Outro, sobre Shakespeare, teve mais inscritos. Mas foi esvaziando, à medida que ninguém mais conseguia ouvir o que ele dizia. Atendia alunos para entrevistas e orientações em grupos pequenos. Depois de pronunciar algumas frases brilhantes e de extrema erudição, caía num sono alcoólico, sem se mexer em sua poltrona giratória. Os alunos se divertiam então fazendo a poltrona rodopiar várias vezes com ele sentado nela. Empson não acordava. Sozinho no apartamento, dormiu com o cigarro aceso –o incêndio, felizmente, parou no colchão.

 

Hetta levou-o de volta a Londres, onde Empson teve seus altos e baixos, e pôde conhecer a alegria de ser nomeado cavaleiro do Império Britânico. Outro grande triunfo, nessa época, foi ser homenageado pela universidade de Cambridge, que o havia expulsado cinqüenta anos antes. Deu uma conferência sobre John Donne que, caso raro, foi aplaudida de pé pela audiência. Não era para menos: logo no começo, acabou a luz do auditório, e Empson continuou como se nada tivesse acontecido, citando de memória as mais obscuras e longas passagens daquele autor. Em Pequim, aliás, era a mesma coisa: dava seus cursos sobre literatura inglesa sem ter nenhum livro à disposição.

 

Empson morreu de cirrose em 1986, aos 78 anos; Hetta sobreviveu a ele vários anos, não se sabe bem como. As últimas palavras dela, no hospital, foram: “get me a strong Scotch”, algo como “manda um uiscão aí”.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h19

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

um ateu e o cardeal

Pode-se discordar muito de Bento 16 –e mesmo detestá-lo. Mas é, sem dúvida, um ótimo papa do ponto de vista intelectual. Mesmo suas encíclicas não padecem demais daquela linguagem cifrada, coberta do gesso das referências canônicas, que é mais ou menos obrigatória em documentos do gênero. Sem dúvida, parte significativa de suas mensagens se dirige a quem não é religioso, em especial aos intelectuais leigos, de forma sofisticada e ao mesmo tempo compreensível, mesmo nos pontos em que a lógica não me parece convincente.

 

Falei um pouco, no artigo desta quarta-feira (aqui para assinantes do uol), sobre o livro “Deus Existe?”, um diálogo entre um filósofo ateu, Paolo Flores d’ Arcais, e Joseph Ratzinger (quando ainda era cardeal).

 

Minha intenção, no começo do texto, foi mostrar que o livro nem chega a abordar diretamente a pergunta, tão simples e básica, do título. No final, a pergunta “Deus existe?”, deveria ser substituída por outra: “é possível encontrar fundamento absoluto para os valores do Iluminismo? Ou se trata apenas de valores contingentes, históricos, relativos, como quaisquer outros?”  

 

Ratzinger defende que valores como a tolerância, a dignidade humana e o respeito à Razão só podem ser absolutos se admitirmos a existência de Deus. Paolo Flores d’Arcais se complica nessa hora.

 

...em muitas sociedades primitivas –também eles eram homens!—o canibalismo ritual era considerado um dever ético-religioso... De modo que, se por natureza entendermos o que normalmente se entende, ou seja, todos os que pertencem à espécie Homo sapiens, com certeza não existe nem uma única norma que tenha sido compartilhada sempre por todos os homens.

 

(...) Se nós estabelecermos a priori que uma parte da humanidade era contra natura e a outra parte –que coincidência, aquela que compartilha nossas normas--, essa era a verdadeira humanidade, é evidente que realizaremos uma operação que todo mundo pode fazer, com seus valores, mas cuja conseqüência é dizer que quem não compartilhou ou compartilha desses valores, não só peca, como também está fora da humanidade: essa é a conseqüência lógica.

 

(...) Pois bem, e se aqui, presentes [neste teatro], houver pessoas que consideram que –por mais doloroso que seja, e, evidentemente, sem que deva ser utilizado como método contraceptivo qualquer –o aborto não é, porém, um delito? Serão, por isso, pessoas irracionais, anti-humanas?

 

Ratzinger responde citando uma encíclica de João Paulo 2º.:

 

“Há coisas sobre as quais uma maioria não pode decidir, porque estão em jogo valores que não estão à disposição de maiorias variáveis; há coisas em que acaba o direito de decidir da maioria, porque se trata do humanismo, do respeito do ser humano como tal”.

 

Que confusão! Em primeiro lugar, noto certa hipocrisia no argumento de Flores d’Arcais. Para muita gente, o aborto pode trazer dor psicológica, mas em última análise, se for para considerar que estamos retirando do útero apenas um grupo de células indiferenciadas, a rigor se trata de um método anticoncepcional qualquer, e não haveria nada de doloroso, exceto imaginariamente, em sua adoção. Pode ser chocante, e em todo caso não sou mulher, mas essa é a minha atitude, aliás.

 

Em segundo lugar, é um pouco estranho o veto de João Paulo ao direito de decisão da maioria. A maioria, infelizmente, pode decidir pelo pior; será genocida, assassina e pecadora, mas não há nisso uma conseqüência do “livre arbítrio” que o catolicismo nunca quis negar? Ratzinger prossegue:

 

Não estou de acordo com o argumento “histórico”, que diz que para todos os valores existe, na história, também uma posição contrária (...) esse fato estatístico demonstra o problema da história humana e da falibilidade humana.

 

Paolo Flores d’Arcais responde, algumas páginas depois.

 

Eu compartilho inteiramente da ideia de que a maioria não é suficiente para decidir qualquer coisa (...) Não é coincidência que as democracias modernas estejam fundamentadas em Constituições que estabelecem limites a qualquer maioria para decidir o que quiser.

 

O mediador do debate, Gad Lerner, intervém:

 

Por exemplo, se uma maioria quisesse restabelecer a pena de morte na Itália, considera que isso seria lícito?

 

Flores d’Arcais responde:

 

Nossa Constituição diz que não; naturalmente, seria necessário primeiro mudar a Constituição, os mecanismos de reforma da Constituição e depois... no estado atual, a norma fundamental de nossa convivência...

 

O debate continua, mas não deixa de ser curioso ver um ateu se segurando, mal e mal, no texto sagrado da Constituição italiana.   

Escrito por Marcelo Coelho às 01h36

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

amor extremo

 
 

amor extremo

Keira Knightley é uma atriz muito bonita, mas sua afetação passa dos limites em “Amor Extremo”, filme de John Maybury que estreou agora em São Paulo. Ela faz o papel de Vera Phillips, amiga de infância do poeta Dylan Thomas (1914-1953). Estamos em Londres, durante os bombardeios alemães, e Dylan (Matthew Rhys) já está casado com Caitlin (Sienna Miller). Mas encontra Vera, que encontra um soldado inglês, e está formado o imbroglio amoroso.

 

Formou-se o imbroglio, mas não se formou um filme. Keira Knightley passa o tempo todo dando uma espécie de sorriso malicioso, sem saber exatamente por quê. A personalidade exuberante de Dylan Thomas, na vida real, desaparece no rosto excessivamente maquiado de Matthew Rhys, que passa o tempo entre as duas mulheres sem dizer a que veio.

 

Mas talvez esteja aí o segredo do filme. O poeta simplesmente não se compromete com nada: nem com a guerra, nem com o filho, nem com as mulheres, e mal e mal rabisca alguns versos. É como se Vera e Caitlin fossem, cada qual à sua maneira, personalidades voltadas inteiramente para a paixão, enquanto Dylan Thomas, presumivelmente um indivíduo assaltado por todo tipo de sentimentos, surge simplesmente como um objeto a ser amado, a ser cultuado, algo entre uma criança e um fantasma, trazendo na maior parte do tempo infelicidade aos que o cercam.

 

Difícil dizer se esta é a intenção do filme, ou se simplesmente se trata de uma falha na caracterização de uma personalidade complexa demais para fazer parte de uma história de amor meio empacada.

 

A música de Angelo Badalamenti produz, só que conscientemente, esse mesmo tipo de ambigüidade. As melodias são “românticas”, antiquadas, mas as cordas divididas criam um efeito distorcido, de dissonância turva, como se o disco estivesse em baixa rotação. O motivo amoroso não desaparece, mas ganha um aspecto irreal, fora dos eixos.

 

O filme termina com um bonito verso de Dylan Thomas, falando dos amantes que, quando se abraçam, têm apenas suas dores entre os braços. Talvez essa ideia –dos amores que, mesmo realizados, continuam impossíveis—seja o que o filme tem de mais valioso; Sienna Miller, no papel de Caitlin, é quem melhor encarna esse sentimento; talvez seja a única coisa real do filme, na verdade.  

Keira Knightley, Matthew Rhys

Escrito por Marcelo Coelho às 00h27

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Em cartaz | PermalinkPermalink #

tempo perdido, tempo ganho

O esforço de criar a Wikipedia consumiu um total de 100 milhões de horas de pensamento. Bem pouco, quando se sabe que, por ano, os americanos gastam 200 bilhões de horas vendo televisão.

 

O número está em Here Comes Everybody, de Clay Shirky, livro mencionado numa resenha do TLS a respeito de The Wikipedia Revolution, estudo de Andrew Lih recentemente publicado na Inglaterra.

 

Em tese, é um número otimista. Veja-se quanta coisa engenhosa e boa se pode construir, quando as pessoas se dedicam a algo mais útil do que ver televisão. Não há estatísticas, entretanto, a respeito de tudo o que de ruim foi evitado pelo fato de potenciais assassinos preferirem ver filmes de violência e programas estúpidos na TV.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h42

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

cortando rente

 
 

cortando rente

Infelizmente, vou percebendo que a necessidade de “impor limites”, como se diz com tanta freqüência hoje em dia, é mais radical do que eu mesmo, que nunca fui banana com meus filhos (7 e 5 anos agora), sempre acreditei.

 

Embora eu tenha agido com bons resultados, na grande maioria das vezes em que as crianças andaram abusando da birra e da falta de educação, as coisas nos últimos tempos andaram meio sem controle.

 

Não que tenha havido grandes cenas de desobediência e agressão (pelo menos, não quando eu estava por perto). Mas o cotidianozinho das relações entre os irmãos andou chatíssimo nos últimos meses. Provocações sem sentido e disputas a troco de nada, de cinco em cinco minutos, podem muito bem ser classificadas de “normais”. Mas são um teste para a paciência de qualquer um.

 

E, de qualquer modo, não acho nada normal que irmãos com tão pouca diferença de idade sejam incapazes de brincar, por um tempo curto que seja, ou mesmo de conversar amigavelmente um com o outro.

 

Cheguei do escritório outro dia, e encontrei os adultos da casa com os nervos em pandarecos –tal a quantidade de briguinhas e chateações entre os dois irmãos. Falta de generosidade, implicância mútua, esforços de reconciliação desprezados por um dos envolvidos... Ora essa.

 

Ouvi sem surpresa o “relatório” da manhã. Certamente, já havia repreendido comportamentos desse tipo inúmeras vezes. Mas, como eu estava meio de mau humor, não esperei demais para fazer meu número repressivo.

 

Uma frasezinha nada grave de um menino contra o outro –“eu sei assobiar, você não consegue”—deu o pretexto para minha reação. Disse com fria seriedade que “isso não interessa. Não interessa a ninguém.”

 

Ou seja, dei o chamado “limite” antes mesmo que a gravidade da situação justificasse a bronca (nível 6 numa escala de zero a dez). Continuei no mesmo tom: “não quero um milímetro de provocação por aqui”. Nem sei se eles sabem o que é milímetro.

 

Funcionou –o estouro preventivo foi ameaçado mais vezes durante o dia, a propósito de minúsculas ameaças de chatice.

 

E, pela primeira vez em anos, os dois irmãos se trataram direito. Um se propôs a ajudar o outro a se enxugar depois do banho. Não discutiram sobre qual música deveria ser ouvida no CD do carro. Um fez questão de escolher a música que o outro desejaria. Estávamos no Palácio de Buckingham.

 

“Vamos ser amigos para sempre?”, um perguntou, e o outro respondeu que sim.

 

Claro que não serão. Não o tempo todo. Fiquei esperando que tudo “voltasse ao normal”, depois de passado o susto com a bronca. Mas as coisas continuaram bem. No dia seguinte, vi os dois sozinhos na sacada do apartamento, conversando sobre um assunto qualquer.

 

Perguntei-lhes se não achavam que a vida deles mesmos não ficava mais fácil dessa maneira. Disseram que sim; veremos.

 

O importante do caso, entretanto, foi que mais uma vez percebo o acerto de “cortar rente”. O limite, ou seja lá que nome tenha, deve ser imposto antes que todos estejam intoxicados de chatice –pois nesse momento uma bronca pode ser apenas o pretexto para novas reações de agressividade e de pirraça.

Numa palavra: quando se pensa em "dar limite", é que o limite já foi ultrapassado.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h55

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pais e filhos | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.

free stats