Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

"A Partida"

 
 

"A Partida"

Muita gente havia me recomendado assistir ao filme “A Partida”, de Yojiro Takita –mas só agora aluguei o DVD. Todo mundo me dizia que, apesar do tema (um violoncelista perde o emprego e passa a trabalhar como preparador de cadáveres numa agência funerária), não havia tanto assim de pesado ou de mórbido no filme. Acreditei –e, se não fui ver, a razão é que ando meio preguiçoso mesmo.

 

Não foram necessários mais de dez minutos para me convencer da beleza de “A Partida”. Não é uma beleza sem concessões, por certo. Algumas cenas do protagonista tocando violoncelo ao ar livre, numa bela paisagem, parecem revelar que o diretor se encantou um pouco demais com a obra que estava fazendo. Mas algumas coisas desse tipo são perfeitamente perdoáveis, num filme que trata com tanta sensibilidade e amplitude do tema da morte.

 

Cada um dos defuntos cuidados pelo protagonista, e por seu humaníssimo, magnífico chefe no serviço, morre numa situação diferente, e traz problemas profissionais específicos para a dupla. Desse modo, em vez de um ritual rotineiro, e de uma realidade absolutamente cega e sem sentido, somos confrontados em cada velório com uma manifestação muito particular, muito surpreendente de vida.

 

Há segredos de uma família que só se revelam no momento de enterrar o jovem morto; cenas de grande amor e de brigas concentradas irrompem, sempre com surpresa e não sem certa graça, nos diversos episódios do filme. O nome devia ser “Partidas”, aliás, em vez de “A Partida”, como consta do DVD.

 

Dois conceitos muito fortes embasam o filme, a meu ver. O primeiro é o de que a morte pode significar algo mais do que a simples “execução” de um decreto da natureza; no filme, as cenas de velório surgem como uma espécie de coroamento, de epílogo, para biografias individuais que tiveram rumo (errado ou certo) e importância para outras pessoas. Cada morto está, por assim dizer, deixando sem saber uma mensagem para os que ficaram; não é a pior forma, acho, de encarar a coisa toda.

 

Em segundo lugar, “A Partida” fala ao mesmo tempo da importância e da desimportância das aparências. O ex-violoncelista, aprendiz de agente funerário, esconde da esposa sua nova profissão. Há naturalmente um “pé atrás” da sociedade diante de trabalhos desse tipo. Só se conhece aos poucos a grandeza dessa função, para além dos julgamentos superficiais.

 

Mas os julgamentos superficiais são também importantíssimos. A maquiagem que restaura, numa mulher amada, um pouco de sua antiga beleza é fundamental para que o viúvo, numa das muitas cenas emocionantes do filme, possa reconciliar-se com o que perdeu. Emocionante, mas quase nunca lacrimoso, e muitas vezes até engraçado, “A Partida” é uma daquelas obras em que velhos conceitos, como “humanismo” e “verdades universais” se recuperam do cansativo relativismo contemporâneo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h36

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Dilma, a marchinha

Para voltar ao tema dos publicitários (e marqueteiros), achei muito competente a marchinha de carnaval da candidatura Dilma Rousseff.

 

Naturalmente, chegaram para o autor da marchinha com uma missão: “você tem de ligar a imagem da Dilma à do Lula. Fixar na cabeça do eleitor lulista que agora ele tem de votar na Dilma.” O resultado pode ser visto no youtube.

 

 

 

A solução foi engenhosa: Lula e Dilma são as faces da mesma moeda. Recupera-se a frase de Obama sobre Lula ser “o cara” (isto é, aquele que a gente conhece, e que seria insubstituível por qualquer outro) e se apresenta Dilma como uma figura mais ou menos desconhecida (coisa que ela era até pouco tempo atrás): “quem é essa coroa?”

 

“Deixa o Lulinha sair” me parece um achado. “Nós gostaríamos que ele ficasse, mas ele pediu para sair, temos de deixar , mesmo a contragosto, que ele faça isso.” E, da “coroa” meio desconhecida dos primeiros versos, passamos agora a tratar Dilma de “Dilminha”, o que lhe confere não apenas a intimidade que não havia, mas também o espírito “paz e amor” que marcou a estratégia eleitoral do “Lulinha” em 2002.

 

Curiosa a imagem no fundo da tela quando a marchinha fala em manutenção do crescimento. Há um pica-pau correndo a toda velocidade. Mas o pica-pau não é vermelho? Precisamente, seria necessário neutralizar a conotação “comunista” que tanto pesou contra o PT e também pesa contra Dilma. Fazem um desenho animado de um pica-pau azul. A semelhança inconsciente, sem dúvida, acaba sendo com a do pássaro símbolo do PSDB, o tucano azul e amarelo. Mas um tucano mais rápido, mais esperto, o pica-pau azul. A “coroa” rejuvenesce em “Dilminha” e na agilidade infantil do desenho animado, moderada entretanto pelo azul tucano. Engraçado como o sujeito atrás de Lula e Dilma parece o Arruda, aliás. Vão ter de corrigir isso.

 

 

PS_  quem corrige sou eu, porque não é o pica-pau, e sim o bip-bip, quem aparece no vídeo, conforme alertaram vários dos comentários abaixo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h23

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voltaire de souza

Algumas crônicas de Carnaval publicadas no "Agora".

 

CAMISA LISTRADA

 

Escândalos. Denúncias. Preocupações.

A vida dos políticos brasileiros nem sempre é tranquila.

Chega a hora de relaxar.

O dr. Propíneo de Melo era uma importante liderança em Brasília.

Recebeu um convite irrecusável. Camarote de luxo. Tudo pago.

--O senhor poderá assistir ao desfile com todo conforto.

--Mas quem é que está pagando?

Do outro lado da linha, ouviu-se um riso simpático.

--Ora... quem está pagando... o senhor quer mesmo saber?

--Sabe como é... uma mão lava a outra.

--Fique calmo, doutor Propíneo. Quem paga é o povo. Como sempre.

O argumento convenceu o experiente político.

--O carro pega o senhor amanhã às 19 horas.

Propíneo pôs uma camiseta listrada. O carro chegou na hora.

Dentro, dois agentes da Polícia Federal.

Levaram-no a uma cela de luxo na Superintendência.

--Tudo pago pelo povo, doutor. E o desfile do batalhão o senhor pode ver do pátio.

Em tempo de Carnaval, cada um cuida da própria fantasia.

 

 

 

CADA CAMÉLIA NO SEU GALHO

 

 

É Carnaval. Tempo de festa.

Mas não para todos.

O doutor Perrone era um importante político do Distrito Federal.

Problemas com a Justiça. O advogado dele era o dr. Saavedra.

As notícias não eram boas. Vieram pelo celular.

--Perrone. Você vai ficar preso na PF. Até quarta-feira.

--Não é possível. Do que me acusam? Do que me inquinam?

Anos de tabagismo tornavam incompreensível a voz do advogado.

--Kkkh... rrrhh... ppsshh... hã, hã.

--É grampo, Saavedra?

A linha estava cheia de interferência.

Logo se ouviram, nítidos, os sons de uma marchinha.

--Foi a camé-lia que ca-iu do ga-lho...

Perrone deu dois suspiros. Ficou esperando sua resposta.

Saavedra desligou o celular. Não era linha cruzada.

É que ele estava na matinê carnavalesca do clube Remadores do Havaí.

--Vamos lá, Gilvanka. O baile não pode parar.

Em tempos de confete, não adianta aparecer com panetone.

 

 

PROBLEMA CRÔNICO

 

 

Ordem. Higiene. Limpeza. A vida urbana depende disso.

Muitos prefeitos querem punir quem faz xixi na rua.

O doutor Sampaio aprovava a medida.

--Cadeia. Só assim esse povo aprende a ser educado.

O velho advogado tinha importantes negócios no centro da cidade.

Foi ríspido com o motorista de táxi.

--Ali na Xavier de Toledo. Como assim, não sabe onde é?

O taxista Gálverson era novo na praça.

--Pode parar. Eu salto aqui mesmo.

O doutor Sampaio começou a andar pelo centrão.

Seu passo era acelerado. Veio um velho problema. A próstata.

Sampaio procurava um local com banheiro adequado. Hesitações. Timidez.

--Desse jeito... vou acabar urinando perto desse muro.

Começou a chover forte na cidade. Em poucos minutos, a inundação.

Foi a salvação do septuagenário. Que entrou até a cintura no lago que se formava numa esquina. Nem precisou abrir a braguilha para se aliviar com segurança.

--São Paulo... esta cidade é formidável.

Para velhos problemas, acabam surgindo novas soluções.

 

 

ASFALTO SELVAGEM

 

 

Ordem. Higiene. Disciplina.

O país se prepara. A Copa 2014 vem aí.

Ednalvo era prefeito numa importante cidade do litoral.

Precisava de mais popularidade. E baixou o decreto.

--Está proibido fazer xixi na rua.

A fiscalização estava rigorosa nos dias do Carnaval.

Dois policiais se aproximaram de um jovem atlético.

Alto. Loiro. Físico de surfista. Tatuagens ali pela altura da cueca.

Que tinha sido abaixada na frente de um muro cinzento.

O rapaz se aliviava sem a menor cerimônia.

--Atenção. O senhor está infringindo a determinação municipal.

--What? Eu náun falayr pórtuguêsh.

Apresentou-se como o famoso cantor de rock Vinny Richard.

--Sou amííg da Madóónn... Lííg para éll no meu phone.

Foi liberado pessoalmente pelo prefeito Ednalvo.

Que acena para o povo, ao lado de Vinny, no camarote oficial da prefeitura.

Votos são como penicos. Quando faltam, é preciso pôr o bloco na rua.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h09

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felizes e infelizes

Houve algumas reações irritadas ao artigo que publiquei hoje na Ilustrada (assinantes do UOL podem ler aqui). Pelo que pude entender, tratava-se de pessoas entusiastas da pesquisa genética e das teorias de Richard Dawkins.

 

Mas eu também sou. O espírito do artigo, que falava sobre pessoas que parecem já ter nascido “felizes” e de outras que vivem de mal com o mundo, era principalmente ironizar a mania que temos de ver no DNA uma explicação para tudo.

 

Não é que eu desacredite do DNA. Existe entretanto uma diferença entre ciência e cientificismo, e, pior que isso, existe também uma interpretação de ciência que é puramente ideológica.

 

Todo dia vemos nos jornais alguém discorrendo sobre a possibilidade de se ter descoberto um “gene da religiosidade”, um “gene da solidariedade”, etc.  Torna-se corrente falar de “DNA” como a fonte de todas as características que queiramos atribuir a determinada coisa: “o fisiologismo está no DNA do PMDB”.

 

O que me parece curioso, nesse prestígio da genética aplicada a torto e a direito, é o quanto pode haver de religioso, mais especificamente de protestante, nos usos do darwinismo.

 

A ideia de predestinação –escolha divina responsável pelo nosso sucesso terreno—ganharia uma espécie de tradução “biológica” quando se fala tanto em carga genética, genoma, etc. Todo cientista sabe que isso não tem nada a ver com ciência –é na sua aplicação ao cotidiano, no uso corrente do apelo ao “DNA”, que uma teoria científica se torna permeada de ideologia.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h41

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brazilian english

Acaba de ser inaugurada, e pede contribuições de todos os interessados e praticantes, uma página especial da editora de dicionários Macmillan dedicada às contribuições da língua portuguesa para o inglês, e sobre as particularidades do inglês tal como falado e escrito por brasileiros.  O link está aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h30

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sem carros

Não daria para fazer isso no minhocão, mas gostei do que fizeram com uma via expressa em Seul, segundo postado no site eyebeam:

Escrito por Marcelo Coelho às 15h48

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mais releases

Seguindo sugestão preciosa de um leitor, vai aqui o link para um site dedicado a releases bizarros --entre eles o de uma boneca inflável para cachorros.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h17

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"Devassa", a cerveja

Deve se considerar um gênio o publicitário que bolou o nome dessa nova marca de cerveja, a “Devassa”. O rótulo traz a imagem de uma “pin-up”. Mais direto impossível. Há muitos anos se associa o consumo de cerveja à convivência com mulheres espetaculares. “Já que é assim”, pensou o publicitário, “vamos escancarar a coisa de vez”.

 

Devo ser meio antiquado, mas acho esquisito sentar numa mesa de bar e dizer para o garçom: “Manda uma Devassa aí.” Que tipo de público faria isso sem constrangimento? Se for para apostar nas classes baixas –dada a obviedade da “mensagem”—não sei se “devassa” é o melhor termo. Para as parcelas mais cultas e irônicas do público, que provavelmente estão acostumadas a entender “devassa” mais como uma palavra a ser citada, em itálico, e não utilizada em sentido próprio, o truque pode parecer baixo demais. Num caso, o termo seria excessivamente rebuscado –por que não chamar a cerveja de “Gostosa”? Manda uma gostosa aí... Ficaria melhor, eu acho. No outro caso, o termo seria excessivamente cínico: sei que não é para valer a associação feita entre mulher e cerveja, e por isso mesmo, bem, vamos nessa, o negócio é devassidão mesmo...

 

Devassa, mulher devassa. O termo está um pouco entre “pecaminosa”, pelo moralismo, e “sacana”, pela aprovação. Poderia estar na fala de uma personagem de Nelson Rodrigues: ou uma senhora puritana (e aí o termo ironizaria um pouco o puritanismo dela) ou um debochado, um canalha, que confessasse de uma vez por todas o seu gosto: “quero mesmo é uma viúva bem devassa!”

 

A ilustração do rótulo, lembrando os anos 50, reforça essa ambiguidade. Mostra uma mulher “gostosa”, mas não uma passista de escola de samba totalmente liberada. É devassa, mas não tirou a roupa ainda.

 

O velho artifício publicitário (mulher=cerveja) se desnuda; a mulher, não; e a terminologia “antiquada” funciona como álibi para um crime que se confessa.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h59

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a arte do release

Eis uma informação que recebi recentemente por e-mail. Apresenta cardápios diferenciados para o seu “pet”.

 Gosto especialmente da introdução, neutra e “sociológica”:

 

O aumento da expectativa de vida da sociedade moderna, a redução do número de filhos nas famílias, o auxílio na segurança do lar e a carência afetiva fazem com que humanos e animais tenham um relacionamento cada vez mais estreito. Os bichinhos de estimação são considerados membros da família, com direito a regalias e cuidados especiais.

 

Com isso, passaram a ser alvo ainda maior da preocupação dos donos, que não querem mais oferecer apenas o tradicional aos fiéis companheiros. As indústrias que atuam no segmento estão tão evoluídas que, além de roupas, brinquedos e petiscos, já disponibilizam alimentos desenvolvidos a partir de pesquisas com os donos.

 

A Premier Pet, por exemplo, acaba de lançar o Golden Duo,  inédito e que permite algo antes inimaginável: variar o cardápio dos cães no dia a dia. Se os humanos podem, por que não a bicharada?

 

Por que “inimaginável”? Antigamente, quando não existiam tantas rações para vender, o cachorro comia o que aparecesse.

 

Golden Duo possibilita ao animal desfrutar de uma experiência diferente a cada refeição, já que traz a variação de menu sem a necessidade de adaptação. A embalagem original vem com dois sabores exclusivos, embalados individualmente e que podem ser alternados pelo proprietário conforme desejado, incrementando a refeição dos pets: Frango à Moda Caipira e Seleção de Carnes ao Molho.

 

Puxa, mas só dois cardápios não garantem tamanha variedade de experiências gustativas.

Outro alimento diferenciado é o Premier Pet Ambientes Anti-idade, primeiro alimento no mundo específico para retardar os efeitos da idade em cães adultos, que conta com antioxidantes que combatem os radicais livres.

 

A Premier Pet é pioneira no Brasil no desenvolvimento de  alimentos de altíssima qualidade para cães e mantém um programa de constantes pesquisas junto aos consumidores finais.

 

Consumidores finais? Eis aí uma pesquisa de opinião sem dúvida um bocado difícil de ser feita.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h04

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medos da infância

Aqui vai um link para cenas do seriado "National Kid", cujos incas venusianos trouxeram muitos pesadelos à minha infância.

 

 

Revendo o seriado agora, que saiu em DVD, pensei que ia dar apenas risadas diante do ridículo da coisa. Enganei-me: há um componente sinistro naquilo tudo, e eu hesitaria em mostrar o DVD para meus filhos pequenos --sempre vítimas de pesadelos também. Tratei do tema no artigo para a Ilustrada de hoje, que assinantes do UOL podem ler aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

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O concerto "número 3" de Brahms

 
 

O concerto "número 3" de Brahms

Fico pensando no impacto que deve ter tido a plateia na primeira vez em que Busoni tocou, ao vivo, sua transcrição pianística da “Chacona” para violino de J.S. Bach. A partir da enorme força do violino solo, Busoni como que construiu uma cordilheira de volumes e de sombras. Antes, no violino, possuíamos apenas a linha sublime dos picos nevados contrastando com o céu e as nuvens. Com a transcrição de Busoni, toda a massa mineral e vegetal que sustentava aquele desenho puro surgiu titanicamente diante do público. E ouvir aquilo ao vivo, como se estivesse sendo inventado pela primeira vez...

 

A música de Bach é muito propícia a transcrições, e o próprio compositor transcrevia à vontade concertos dele mesmo e de outros autores. Será que o mesmo é possível com Brahms?

 

Está causando sensação, e bastante polêmica, a iniciativa do pianista Dejan Lazic, que pegou o concerto para violino, op. 77 de Brahms, e o transcreveu para piano: criou, por assim dizer, o “concerto número 3” de Brahms para piano e orquestra.

 

Ouvi alguns trechos no programa CD review, da BBC (acesse logo o link, porque só dura até a próxima sexta-feira). O começo do último movimento parece incrivelmente efetivo, com os voleios do violino ganhando musculatura invejável num Steinway fortíssimo. O comentarista da BBC trata a ideia de Dejan Lazic com bastante desdém: diz que a escrita pianística adotada na transcrição parece mais com Rachmaninov do que com Brahms. O trechinho escolhido ilustra essa opinião de modo convincente, mas não me parece capaz de estragar o prazer de ouvir um pianistão desses enfrentando um “novo” concerto de Brahms.

 

O problema, pelo que posso intuir, é que uma transcrição como a de Busoni acrescentou de fato algo inédito ao repertório. Talvez a “Chacona” não seja tão ouvida no violino solo, não tanto quanto na versão para piano. Acontece que o concerto para violino de Brahms é escutado com muitíssima freqüência, e a versão para piano não traz, desse modo, uma surpresa, uma descoberta tão grande para o ouvinte. Para os pianistas, em todo caso, a notícia é bastante interessante.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h40

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fã clube da pizza

 
 

fã clube da pizza

Não é bem um cartaz popular, como os que de vez em quando publico nesta seção do blog. Trata-se de uma embalagem de pizza a domicílio, que vale pela felicidade geral que pretende transmitir. Foi enviada pelo leitor Thiago, que reclama do caráter excessivamente bissexto das postagens deste tipo.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h15

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Nova York no inverno

Com o calor destes dias, recebo com alegria, por e-mail, estas fotos da neve em Nova York. Foram tiradas dia 10 de fevereiro por Antonina Nieznanowska, matemática e pianista.

 

No dia seguinte, 11 de fevereiro, o tempo começou a clarear um pouco.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h11

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"Norte"

Dá para ver neste link algumas das fotos em preto-e-branco que Marcel Gautherot tirou na Amazônia, durante a década de 40. A exposição está no Instituto Moreira Salles de São Paulo, e dá origem a um livro, com uma introdução primorosa de Milton Hatoum e Samuel Titan Jr. Foi um dos temas do meu artigo para a "Ilustrada", nesta quarta-feira, que assinantes do uol podem ler aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h20

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gibis a preço recorde

Está para ser batido o recorde de gibi mais caro num leilão para colecionadores --é o que diz a casa de leilões (e site) heritage auction. A revistinha "detective comics" n. 27, de 1939, já teria recebido lances prévios de U$ 350 mil. O leilão será no fim de fevereiro.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h33

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Kipling e o inconsciente

Reproduzo dois parágrafos de um texto de Rudyard Kipling; trata-se de um discurso pronunciado em 1933 na Associação dos Escritores Canadenses.

 

 

Nós que usamos as palavras desfrutamos de uma vantagem peculiar com relação a nossos semelhantes. Não somos capazes de dizer uma mentira. Ainda que desejássemos muito fazê-lo, somente nós, dentre todos os homens e mulheres cultos, somos incapazes de dizer uma mentira –em nosso horário de serviço.

Quanto mais sutilmente tentarmos fazê-lo, com mais certeza haveremos de trair algum aspecto da verdade a respeito da vida de nosso tempo.

 

Ocorre conosco o mesmo do que com a madeira. Cada nó e veio de uma tábua revela alguma doença ou acidente acontecido com o tronco enquanto ele crescia. Um cavalheiro chamado Jean Pigeon, que certa vez montou a estrutura de uma casa para mim, formulou isso brevemente. Ele disse: “tudo o que uma árvore experimentou numa floresta ela traz consigo para dentro da casa.” Esta é a lei para todos nós, cada um na sua terra.

 

 

Incapazes de dizer mentiras...? Claro que os escritores dizem mentiras, e não é exatamente isso o que Kipling estava sugerindo. Queria dizer que, mesmo quando tentam dizer mentiras, de algum modo a verdade sobressai nas entrelinhas. Mas, eis aí o truque do parágrafo, não se trata daquela verdade que os escritores estavam tentando esconder. Trata-se de uma verdade mais ampla, a que faz de cada escritor o testemunho de sua época –época que, como as outras, está cheia de tentativas de dizer inverdades ou de prestar parcialmente conta das realidades do mundo.

 

Do mundo? Não exatamente, diz o parágrafo seguinte: cada escritor, querendo ou não dizer mentiras, estará expressando autenticamente a sua história de vida, impregnada do passado, da cultura, das tradições de seu país.

 

É fácil acusar essa visão de “racista”, se quisermos identificar tudo o que Kipling escreveu com a defesa do imperialismo inglês (é seu o poema “O fardo do homem branco”).

 

Acho mais interessante notar, nesse texto de 1933, o jogo entre o consciente e o inconsciente dentro de uma obra literária. O “inconsciente” de Kipling pode ser, ou não, “supra-individual” –embora a metáfora da tábua remeta mais à biografia de uma árvore específica do que ao conjunto da floresta.

 

Seja como for, a partir dessas palavras de Kipling podemos entender cada texto, para além das intenções conscientes do autor, como uma espécie de “sintoma” –e testemunho velado dos traumas experimentados por alguém, em determinada época. Nesse sentido, quanto mais o autor tentar ocultá-los, mais fortes os indícios deixados em sua escrita.

 

O raciocínio não lembra apenas Freud, mas também um grande leitor de Kipling, Jorge Luís Borges –para quem, por exemplo, se um autor argentino procurasse com toda a sua força  evitar referências ao próprio país, estaria por isso mesmo sendo mais tipicamente argentino, e verdadeiro, do que outro que se obrigasse a cobrir seu texto de referências locais. O “inconsciente nacional” não se identifica, entretanto, apenas nesse caso extremo de negatividade e rejeição. A própria ideia de um sujeito, sujeito autoral, forte e pessoal, é questionada o tempo todo por Borges: no conto “O Imortal”, por exemplo, a fala de um personagem, e de um narrador, se revela composta apenas de citações de outros autores. O recurso é usado em várias outras histórias de Borges, que jogam com a ideia de que o “eu” pode ser apenas a projeção de um “outro”, um antepassado, um texto, uma ficção.

 

Do nacionalismo antiquado de Kipling passamos assim ao pós-moderno de Borges, cosmopolita e desconfiado do que for “autêntico”, do que for “original”. O ponto de convergência entre as duas posições, em certo sentido simetricamente opostas, não é difícil de encontrar: trata-se da realidade do imperialismo britânico, e de sua crise, na primeira metade do século 20.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h26

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voltaire de souza

Textos recentemente publicados no jornal "Agora".

 

RETORNO DE UM CRAQUE

 

Ronaldo. Roberto Carlos. Adriano. Robinho.

Os velhos craques estão de volta.

Finalmente, a garotada vê seus ídolos de perto.

Tiago tinha doze anos. O fanatismo pelo futebol ocupava seu jovem cérebro.

--Beleza. Timaço. Tá ligado?

A mãe dele se chamava Edmeia e andava de mau humor.

--As férias já acabaram. E esse menino nem pensa em estudar.

Contratações. Esperanças. Camisetas.

--Vai para o quarto. Deixa de ser vagabundo.

Foi quando se ouviu uma voz no portãozinho daquele sobrado.

--Vagabundo? Nunca fui vagabundo, Edmeia...

--Carlos Mário? É você?

O marido. Voltando para casa. Depois de cinco anos de sumiço.

Os cabelos mais raros. Um dente a menos no sorriso.

Mas o bafo de pinga continuava o mesmo.

No primeiro minuto, levou duas caneladas de Edmeia.

Mas a vizinhança assegura que, de noite, Carlos Mário está batendo um bolão.

O casamento é como futebol. Pode ser decidido na prorrogação.

 

 

CENA PROIBIDA

 

Sexo. Baixaria. Apelação.

Os reality shows continuam a ser sucessos de audiência.

Claudiene voltava de um dia trabalho.

O marido se chamava Marley e estava desempregado.

Os olhos do rapaz estavam fixos na TV.

--O que você está assistindo, amor?

--Nada. É só um comercial de edredom.

Claudiene foi fazer a janta. Voltou depois de alguns minutos.

--Ué. O edredom continua aí?

--Pois é... dizem que é coisa fina.

Gemidos lascivos. Movimentos discretos.

Debaixo do edredom, participantes de um reality show se entregavam ao prazer.

Marley se levantou de repente.

--Que esfriada, hein? Acho que são essas chuvas.

Convidou Claudiene para ir debaixo dos lençóis.

Espirros. Calafrios. Indisposição geral.

A forte gripe de Marley impediu a concretização dos seus projetos conjugais.

A realidade não está na TV. Só se descobre debaixo do edredom.

 

TUDO PERDIDO

 

 

A cidade precisa de sol. A vida de dona Venísia também.

--Perdi os dentes. Perdi o marido.

Agora, a inundação atingira o modesto sobrado da anciã.

--Perdi tudo.

As águas começaram a baixar num fim de tarde.

Ela limpava sozinha o cômodo principal da residência. Veio o cansaço.

Já dava para se deitar na parte de cima da cama beliche.

A cômoda branca ainda estava coberta de lama.

Mas em cima da cômoda, algumas coisas importantes foram salvas.

--O retrato do finado. O copo com a dentadura. O relógio.

Dona Venísia estava ainda meio dormindo quando deu pela falta da dentadura.

Dentro do copo, brilhava um peixinho dourado.

--Venííísia... me tiiira daaquiii...

A boa senhora atendeu ao chamado daquela voz familiar.

--Alaor? É você?

O peixinho nada mais disse. Mas, quando soltou o animal na correnteza, Venísia julgou ver naqueles pequenos olhos um sinal de carinho e gratidão.

A esperança é como um peixe. A força das águas não os afoga jamais.

 

REPETINDO O ANO

 

 

Educação não é gasto. É investimento.

Amauri coçava a cabeça.

--Matrícula. Mensalidade... e agora o material escolar.

A lista do Colégio Integrado Tangente continha vários absurdos.

--Dez tubos de cola branca? Para que tudo isso?

Os três filhos de Amauri brincavam no videogame.

--Estojo completo de tinta a óleo?

O talento artístico deve ser desenvolvido desde cedo.

Amauri olhou com raiva para os três meninos.

--E vocês só querem saber de videogame.

Um atacadão de material escolar fazia promoção lá pelos lados do Peruche.

Amauri ignorou os avisos de mau tempo.

O Fiat 92 foi encontrado num barranco da Marginal.

Borrachas e lápis de cor ainda boiavam nas imediações.

No Hospital Santa Ismênia, Amauri se comunica por meio de desenhos.

Giz de cera e caneta hidrográfica ajudam na sua recuperação.

A educação é um processo contínuo.

Mas os erros de uma prefeitura se repetem ano a ano.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h23

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Álbum de família

Maurício de Macedo já publicou dezoito livros de poesia, diz a orelha de Palavras Tortas (ed. 7 Letras), o primeiro dele que leio. Vejo qualidades em seus versos –especialmente o dom para a metáfora surpreendente e súbita. Bem no começo do livro, por exemplo, o autor, preso ao dia a dia de Maceió, fala a respeito da própria poesia:

 

Ainda que ela não alce voos cosmopolitas

e se debata no círculo doméstico

dos pequenos dramas do cotidiano,

a gente faz.

A gente precisa e a gente faz

feito um imigrante ilegal

atravessando a fronteira.

 

 

A imagem dos dois últimos versos (não ficaria melhor se fosse um verso só?), com sua marca de atualidade e sua concretude, absolve o tom de quase clichê que se pode notar em “pequenos dramas do cotidiano” e “se debata no círculo doméstico”.

 

Uma boa limpeza dos clichês, além de mais desapego à influência de Drummond, ajudaria a revelar o poeta que Maurício de Macedo certamente é. Vemos Drummond demais, e um bocado diluído, num poema como este:

 

Não faça a poesia

que glorifique o santo

ou o herói.

(É predadora a espécie.)

Não faça a poesia

que veja o homem de longe

na abstração coletiva,

eufórica,

dos amigos do povo.

 

As palavras são velhas e sábias.

Não lhes ofereça falsos brilhantes.

Faça poesia, simplesmente.

É tudo o que elas pedem.

 

E a quantidade de lugares-comuns é considerável:

 

Escreve-se o poema

como quem escreve uma carta

e coloca a carta numa garrafa

e atira a garrafa ao mar.

 

Sem contar os clichês (“gelar de pavor”, “cortina de silêncio”, “o tempo urge”) e as palavras-clichê (“périplo”, ”lembranças que povoam meu silêncio”, “o poder”).

 

Esse “o poder” (no sentido de “O Poder”, “os Poderosos”) aparece num poema que, apesar do termo, diz uma coisa raramente ouvida atualmente:

 

O poder namora o hip-hop

e o cordel

como o agenciador de prostitutas

seduzindo meninas pobres

da periferia e do interior.

 

De fato, tornou-se normalíssimo hoje em dia criticar o populismo (estético e político), mas ninguém se questiona muito a respeito do favorecimento paternalista que se dedica à “literatura marginal”, ou da periferia...

 

Eis outro poema que trata de tema atual, e pouco explorado em verso:

 

Você sabe por que eu só gosto

de quem não gosta de mim.

Você sabe por que só procuro

rapazes que me molestam

e que me deixam sozinha

depois.

Você sabe por que minto

com a maior cara-lisa.

Você sabe por que tomo

tanto remédio para dormir.

Você sabe por que fico

tão aflita, às vezes,

piscando os olhos,

gaguejando,

querendo mudar de assunto,

você sabe por que, meu pai,

você sabe por que.

 

Verdade que o título (“Molestada”) abre demais o jogo do poema. Termino com este preciso e verdadeiro “Álbum de família”:

 

Nenhum abraço,

nenhum sorriso

--braços arriados,

olhares perdidos.

 

Quem vestiu

com a camisa-de-força da tristeza

aqueles corpos?

Quem colocou naqueles olhos

a luz de uma ausência infinita?

Quem fez descer cortinas de silêncio

entre as solidões perfiladas?

(...)

 

Quem cortou as mãos,

as línguas,

quem cegou aqueles seres

e os fincou num abandono mudo,

à margem do tempo,

como se fossem espantalhos?

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h33

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Deuses e demônios

Comentei para a Ilustrada (assinantes leem o artigo aqui) o livro “Os deuses no exílio”, do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1853). A ideia, muito sedutora, que orienta essa fantasia em prosa é a de que os deuses gregos, longe de terem sido meras superstições antigas, existiram de fato. O advento do cristianismo não teria, portanto, “dissolvido no nada” alguma coisa que nunca existiu. O que o cristianismo fez foi expulsar do mundo conhecido os antigos deuses, que passaram a viver clandestinos entre nós.

 

Não que Heine acredite nisso, naturalmente. Ele desacredita de Apolo e desacredita de Jesus. A questão é mais interessante: em que momento os cristãos deixaram de acreditar em Apolo e Júpiter?

 

Nos inícios do Cristianismo, especula Heine, os cristãos não achavam que os deuses gregos eram simples invencionice. Consideravam-nos demônios, ou seja, seres realmente existentes. Resquícios desse cristianismo primitivo ainda sobreviveriam no folclore medieval –e a maior parte do livro, com muito encanto, reescreve essas lendas europeias.

 

Só mais tarde Afrodite e Hermes, Marte e Proserpina, deixaram a condição razoavelmente viva de demônios para soçobrar na inexistência.

 

Por trás desse jogo literário, está uma teoria irônica e iluminista: a de que as religiões criam e destroem deuses e demônios, conforme a época.

 

Citei no artigo um exemplo contemporâneo e brasileiro, que vai no caminho inverso daquela relação entre cristianismo e paganismo europeu. Se os deuses pagãos da Grécia antes eram considerados demônios para depois serem tidos como simples entidades mitológicas, sem nem mesmo ocupar o digno posto de “inimigos da fé”, alguns cultos evangélicos fazem o percurso contrário.

 

Poderiam considerar o Exu, a Pomba-Gira e a Maria Padilha simples crendice primitiva, ou mitologia afrobrasileira. Não é isso o que acontece, leio em A Igreja Universal e seus Demônios (Fapesp/Terceiro Nome), do antropólogo Ronaldo de Almeida.

 

No cristianismo da Universal,

 

o diabo adquire uma identidade, um nome –e não é Lúcifer, nem Satanás. Os demônios que causam o sofrimento são as mesmas entidades que habitam os terreiros de Umbanda. Nesse sentido, não se trata somente da “manifestação” do diabo, mas, acima de tudo, da associação deste com as divindades que são cultuadas por uma parcela significativa da população brasileira.

 

Não é preciso assinalar –nem se deve exagerar-- o perigo de intolerância que pode haver numa fé desse tipo, que vê nos deuses de outra religião os diabos da sua própria.

 

O interessante, no caso, é que também essa fé termina sendo tão sincrética quanto a umbanda... Até aqui, conhecíamos um “sincretismo positivo”, por assim dizer, que soma a determinados deuses e santos outros tantos santos e deuses. Mas faz parte da mesma lógica um “sincretismo negativo”: que soma a um deus puro e único as dezenas de demônios que não estão na Bíblia, mas no terreiro logo ali ao lado.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h04

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Paisagens paulistanas

 
 

Paisagens paulistanas

Para embelezar um pouco o blog, seguem três imagens da mostra “Paisagens de São Paulo”, em cartaz no Palácio dos Bandeirantes. A primeira é uma paisagem (nada urbana, aliás), de Rebolo:

 

 

De Bonadei, contemporâneo de Rebolo no “Grupo Santa Helena”, apresenta-se um casario sem dúvida posterior, mas a diferença de datas não explica sozinha a agressividade bem maior das formas e cores. É como se uma pacata cena de subúrbio, ainda intocada por escavadeiras ou empreendimentos imobiliários, já estivesse entretanto sendo repuxada e distorcida no rumo da “modernidade”:

 

 

 

O contrário aparece com essa cena noturna de Gregório Gruber, cujo “hiperrealismo” e “objetividade” surgem como únicos instrumentos para conferir à avenida Paulista um ar meio bucólico e onírico, molhado quem sabe da lembrança daquela mesma neblina que se dissipava entre as árvores de Rebolo:

 

 

 

Aqui vão as informações do release recebido por e-mail.

 

No Palácio dos Bandeirantes acontece até o dia 28 de fevereiro a exposição “Paisagens de São Paulo”,  que retrata a capital paulistana.  São  46 obras  de artistas como Francisco Rebolo, Gregório Gruber, Alfredo Volpi, Candido Portinari, Julio Guerra e Benedito Calixto.
Na mostra, que acontece no primeiro andar do Palácio, os visitantes podem ver as transformações da paisagem da cidade de São Paulo sob o olhar de artistas que evidenciaram aspectos que hoje já não vemos, como o rio Tietê de João Batista da Costa, a Rua Direita de Júlio Guerra, as inúmeras paisagens do Morumbi produzidas por Rebolo Gonzales, a ruela de Volpi, as casas de Bonadei, entre outros.

       
Palácio dos Bandeirantes
Avenida Morumbi, 4.500 - Portão 2
Informações: 2193.8282 – monitoria@sp.gov.br
Agendamento Eletrônico*: www.acervo.sp.gov.br
Aberto ao público das 10 às 17 horas, de terça  a domingo.
Grátis.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h27

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De Marrakech a Hollywood

 
 

De Marrakech a Hollywood

Para se familiarizar com uma cidade estrangeira, é preciso um espaço fechado a que se tem algum direito e no qual se pode ficar sozinho, quando não se pode mais com a algaravia das vozes novas e incompreensíveis.

 

Assim começa um dos curtos capítulos de As Vozes de Marrakech, livro de Elias Canetti contando suas experiências na capital marroquina, em 1953.

 

Esse espaço deve ser silencioso, ninguém deve nos ver quando nos refugiamos nele nem quando o deixamos de novo. O melhor é se meter por um beco, parar diante de um portão e destrancá-lo com a chave que levamos no bolso, sem que nenhum mortal nos ouça.

 

Elias Canetti estava em Marrakech acompanhando uma equipe de cinema inglesa. Não ficamos sabendo que filme iriam rodar. Canetti gosta de se perder pela cidade, e pelas vozes da cidade. A única palavra que ele consegue entender é “Alá, Alá”, que os mendigos cegos repetem sem parar.

 

Entramos no frescor da casa e fechamos o portão a nossas costas. Está escuro, por um momento não se vê nada, à maneira dos cegos espalhados pelas praças e ruelas que deixamos para trás. Mas logo recobramos a visão. Veem-se os degraus de pedra que levam ao primeiro andar, e lá em cima damos com um gato. Ele encarna a ausência de sons por que ansiávamos.

 

O gato, muitos camelos, alguns jumentos têm nessas memórias de Canetti uma presença tão forte quanto a dos humanos –crianças prostitutas, mendigos aos trapos, comerciantes que se escondem atrás de montanhas de repolhos ou sacas de açúcar.

 

Subimos e descemos, respiramos o silêncio. O que é feito da correria desenfreada? Da luz ofuscante e dos sons estridentes? Das centenas de rostos?

 

Caso raro em Canetti, a sequência de perguntas parece um bocado retórica, revelando uma vontade meio artificial de “fazer literatura”.

 

Nessas casas, não há muitas janelas para a rua, às vezes não há nenhuma; tudo se abre para o pátio, e este se abre para o céu. Só no pátio existe a possibilidade de um contato suave e comedido com o mundo ao redor.

 

Mas também é possível subir até o terraço e ver todos os telhados horizontais da cidade.

 

Canetti, cujo desejo sexual está sempre espreitando através do texto, tinha também outras expectativas ao subir no terraço.

 

Aqui, pensava eu, vou ver mulheres como em contos de fadas, daqui vou espiar os pátios dos vizinhos e espreitar o que estivessem fazendo.

 

O dono da casa, porém, adverte-o: homens não devem subir nesses terraços. Nada mais indecente se, por acaso, seus olhar cruzasse com o de alguma mulher da vizinhança. Não bastam os véus e as roupas, qualquer insinuação de curiosidade está banida daquela sociedade.

 

.......

 

Faço um corte e passo a outro livro de viagem que estava lendo, Hollywood,  de Blaise Cendrars.

 

Em Hollywood, todas as ruas levam... a um estúdio! E também, qualquer que seja o ritmo em que você ande, e seja qual for a direção que você tome e o tempo que leve para se orientar, qualquer dessas ruas que se cruzam à sua frente e que seguem em linha reta para o leste, o oeste, o sul e o norte, acabará fatalmente em um muro.

 

Esse muro é a famosa muralha da China que cerca todos os estúdios e que faz de Hollywood, que já é um lugar difícil de se atingir, uma verdadeira cidade proibida, ou até pior que isso, porque Hollywood comporta vários recintos internos que delimitam diversos kremlins que bloqueiam o acesso a diversos locais; e creio que não é por causa do esplendor e da atração exercidos por seus astros pelo mundo afora que se batizou Hollywood (...) de Meca do Cinema, mas, sim, apropriadamente falando, por causa do acesso a seus estúdios, que é praticamente intransponível para os não iniciados, como se, realmente, querer penetrar em um estúdio equivalesse a querer entrar à força no santuário dos santuários!

 

Muros e proibições, desejo e profanação-com o poder não se brinca. Cendrars narra a violência, física e simbólica, que se pode experimentar nas barreiras criadas em Hollywood. E acrescenta uma informação curiosa-embora o rigor fatual não seja o forte do poeta. Nos anos 30, havia patrulhas na Califórnia, não para impedir apenas o acesso de imigrantes mexicanos, mas também de imigrantes dos Estados vizinhos. Não me lembro disso em “As Vinhas da Ira”, nem num filme de King Vidor que comentei recentemente, “O Pão Nosso”, mas bem que pode ser verdade.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h07

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História da Inteligência Brasileira

 
 

História da Inteligência Brasileira

Um pequeno estudo poderia ser feito sobre aquelas fotos de escritores e intelectuais, sentados na poltrona, com uma enorme estante de livros atrás deles. Sempre me parece uma situação ridícula –meio como aquela clássica mão no queixo, em posição de “pensamento”, que tanto ou mais se vê por aí.

 

Pois bem, em boa parte dessas fotos, sempre aparecem alguns livros facilmente identificáveis: um Aurélio, por exemplo. Ou, em mais da metade dos casos, as capas coloridas da “História da Inteligência Brasileira”, de Wilson Martins, crítico que morreu esta semana aos 88 anos.

 

Nunca acompanhei sua imensa produção no jornalismo diário, e se muita gente discordava de suas avaliações, o fato de ser conservador ou pró-vanguardas não importaria muito se houvesse muitos outros como ele, constantes na tarefa de dar conta da produção literária contemporânea.

 

Mas li vários volumes da “História da Inteligência Brasileira”, obra bastante útil para quem quiser se informar sobre o dia-a-dia, ou o ano-ano, da produção intelectual no Brasil.

 

O grande problema é a ambição do título. Não pela piadinha, tão comum, de que o livro de Wilson Martins deveria ter todas as páginas em branco. Mas sim porque não se trata de “história” propriamente dita.

 

Embora Wilson Martins fale das correntes e das modas intelectuais em vigor durante determinada época, a “História da Inteligência Brasileira” é, principalmente, uma cronologia dos livros publicados no Brasil.

 

Nesse sentido, constitui um trabalho abrangente e, até onde sei, o mais completo já feito. Mas é uma leitura bem cansativa, por que a qualquer ano, 1837 ou 1941, a gente se depara com uma lista de títulos de enfiada, que Martins até tempera com certa graça, mas que dificilmente corresponde a uma visão mais ampla do “processo”, das condições de produção, dos dilemas, dos esforços envolvidos no exercício da função de intelectual ou de escritor no Brasil.

 

O microscópico predomina e se acumula nos volumes –que ficam ali, parados, na prateleira dos fotografados do dia.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h06

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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