Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

arquivos da rádio francesa

No site da "France musique", está em curso a celebração de aniversário de um programa dedicado a entrevistar grandes nomes da intelectualidade e da música francesa. Olivier Messiaen, Roland Barthes, Vladimir Jankélévitch têm suas vozes à disposição do internauta. Nesta semana, Colette, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras são os destaques. Ouça aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h34

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a direita capricha (3)

Ainda na “Folha” de hoje, Delfim Netto aparece com um artigo meio interplanetário, de tão esquisito. A questão do papel do Estado, diz ele, “não é uma questão de princípio ou de ‘filosofia’. Trata-se de um problema empírico que só pode ser resolvido por cuidadoso estudo da História, auxiliado por modelos muito gerais”.

 

E lá vai o modelo geral dele –tão geral, que não explica nem resolve coisa nenhuma.

 

O desenvolvimento é, essencialmente, um processo termodinâmico: a sociedade captura a energia dispersa em seu ‘habitat’ e a dissipa no consumo e na produção de bens e serviços.

 

O modelo é tão geral, diz ele, que explica tanto a organização de bandos humanos no neolítico (tratava-se de “desenvolvimento” naquele caso, ou de “atividade econômica” simplesmente?) quanto os conglomerados nacionais modernos.

 

Visto que o modelo termodinâmico não explica nada, Delfim Netto muda de assunto.

 

O homem só ganha ‘humanidade’ quando –alimentado—pode exercer sua imaginação criativa.

 

Isso só se torna plenamente realizável, diz Delfim Netto, quando se desenvolveu uma organização (o “capitalismo de mercado”, ou o “capitalismo”) que propicia ao homem, simultaneamente,

 

eficácia produtiva (para satisfazer o seu estômago) e liberdade individual (para alimentar sua imaginação criadora).

 

A não ser que se trata da imaginação para criar novos derivativos no mercado, não há nenhuma relação entre capitalismo e imaginação criadora –pois todo tipo de ideias imaginativas foi criado em sociedades não-capitalistas também. Das pirâmides do Egito à poesia chinesa, da arte esquimó à escultura dos gregos, aparentemente a imaginação sempre esteve presente nos seres humanos. Dizer que só o capitalismo dá “humanidade” aos homens é ir um pouco longe demais. Pode-se, claro, lembrar que só uma minoria, sob aqueles antigos sistemas sociais, pôde alcançar a plenitude de sua liberdade criadora. Mas o capitalismo não tem muito a oferecer, “por si só”, em matéria de combate aos privilégios de uma minoria.

 

Fica para os últimos parágrafos a resolução (?) do problema inicial do artigo, a saber o do papel do Estado. Que Delfim resume como sendo o de um “Estado forte, controlado por um freio constitucional seguro”. Estado forte é o ponto em comum de Delfim com os desenvolvimentistas de todas as épocas, sejam peemedebistas, malufistas ou dilmistas. Quanto ao freio constitucional seguro, trata-se de uma adaptação recente do antigo signatário do AI-5 a condições “termodinâmicas” mais amenas.

 

*  *

Para terminar esse passeio pelo pensamento de direita, pensei em comentar o artigo de Roberto Jefferson, publicado há dias na pág. 3; pareceu-me interessante, e surpreendente vindo de quem vem. Mas hoje vi na Folha, na seção de cartas, que se tratava de um plágio. Roberto Jefferson pediu desculpas. Poderia ter invocado o exemplo de seu antigo mentor, Fernando Collor, que plagiara na mesma “Tendências e Debates” um texto de José Guilherme Merquior. Vai ver que é o mesmo assessor que trabalha para ambos. Há aloprados em toda parte, afinal.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h04

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a direita capricha (2)

Continuo lendo a “Folha” de hoje e topo com um artigo (também reproduzido no “Estado”) de David Brooks, do “New York Times”, criticando a vitória de Obama na reforma do sistema de saúde americano.

 

Para o colunista, o fato de que planos de saúde privados sejam obrigados a pagar por doenças preexistentes, e não possam mais interromper o seguro em caso de doenças prolongadas como o câncer, significa uma ameaça ao “dinamismo americano”.

 

A essência dos EUA é a energia –o dinamismo do mercado, a mobilidade das pessoas e a criatividade dos empreendedores (...) Hoje, o vigor dos EUA é desafiado em duas frentes. Em primeiro lugar, o país está virando um país de idosos. Outros países gastam cerca de 10% do seu PIB com saúde. Nós gastamos 17% e prevemos dentro em pouco gastar 20% e, mais tarde, 25%. A nova legislação deveria pôr fim a esse aumento asfixiante, que vai impossibilitar mais investimentos em inovação, educação e tudo o mais, mas não o fará.

 

Por que não se pergunta quanto do PIB os EUA gastam em armamentos? E como diminuir gastos de saúde num país em que cresce o número de idosos? Naturalmente, se todos morressem mais cedo, por não poderem pagar tratamentos contra o câncer, o país ficaria bem mais “dinâmico”. De resto, todo mundo sabe que gastos com saúde podem ser direcionados para estratégias de prevenção de doenças tanto quanto para o atendimento de situações terminais, em que naturalmente os tratamentos se tornam caríssimos. É uma jeremiada fenomenal.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h32

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a direita capricha

Em matéria de pensamento de direita, o jornal hoje exagerou. Começo com o artigo de Guilherme Malzoni Rabello, na pág. A-7, erradamente classificado sob a rubrica “análise”. Não se trata de análise de nenhum fato ou circunstância específica, e sim de uma “ousada”, ma non troppo, denúncia dos limites da democracia.

         O autor começa criticando, corretamente, a mania de inaugurações e as discussões sobre calendário eleitoral –que substituem o debate de ideias. Mas aí vem o segundo parágrafo.

 

         Há tempos, a democracia transformou-se numa panacéia universal capaz de curar todos os males. Do PC do B ao DEM, todos têm por grande objetivo defender, reforçar, aprofundar a democracia no país e procuram fazer isso no canteiro de obras ou na televisão.

 

A avaliação seria, não digo verdadeira, mas pertinente aí por volta de 1982, quando de fato a luta política se concentrava mais na construção da democracia em si do que em propostas e concepções específicas. Mas ninguém, hoje em dia, fala na democracia como panacéia universal. O assunto, felizmente, está fora de discussão –exceto para os que, como Rabello, querem questioná-lo.

 

O problema está em pressupor que a democracia seja em si um valor acima de toda a discussão, quando é apenas um sistema de governo (...) E, como bem sabia Churchill, sistema de governo, por si só, não torna ninguém feliz.

 

Faz sentido o que ele está dizendo? Tenho para mim que a democracia é de fato um valor em si, associado à liberdade individual e à decisão por maioria de votos. Mas aceitemos que seja “apenas um sistema de governo”. De duas, uma: ou se trata de considerá-lo o melhor sistema já inventado, ou o menos ruim de todos (era essa a ideia de Churchill), ou se trata de um sistema entre outros, cujas desvantagens talvez não o façam preferível a, por exemplo, uma ditadura. É isso o que Rabello quer discutir? Ele concorda que a democracia é preferível a outros sistemas? Se se trata disso, considera-a também acima de discussão, imagino.

 

De modo que o artigo desembainha, por assim dizer, um punhal crítico para escondê-lo em seguida. A saída retórica do final do parágrafo é de uma ingenuidade colegial: “sistema de governo não torna ninguém feliz”. Mas não se estava discutindo a questão da felicidade. Apenas se a democracia deve ser preferida ou não.

 

No final, tentando parecer mais sensato e “bonzinho” do que de início, o autor diz que “boas obras públicas não garantem boa democracia”. Mas o que é querer uma “boa democracia”, a não ser tomá-la como um valor a ser procurado “por si mesmo”? Ele poderia dizer, para ser mais coerente, que “boas obras públicas não tornam ninguém mais feliz”. Para quem criticava a ideia de que “democracia seja um valor acima de toda discussão”, não há muita coerência em dizer que a mania de obras públicas corre o risco de minar “as bases do sistema democrático”.

 

Como redação de primeiro colegial, o texto seria desculpável pela confusão adolescente de opiniões e pelo esforço de dizer alguma coisa “diferente”. Como “análise” num jornal, é de dar vergonha.

 

  

Escrito por Marcelo Coelho às 17h20

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o segredo dos seus olhos

 
 

o segredo dos seus olhos

Para quem gostou do filme de Juan José Campanella, um brinde que me foi enviado por um amigo argentino. A atriz do filme, Soledad Villamil, é também cantora, e tem alguns números no youtube.

 

Meu artigo sobre "O Segredo dos Seus Olhos" está na Ilustrada de hoje, e assinantes do uol podem lê-lo aqui.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h26

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o cérebro político (3)

O problema de Lakoff (ver posts anteriores) é se basear em supostas “constantes” do cérebro humano para explicar comportamentos que se situam num contexto histórico definido. Durante a Guerra do Vietnã, os falcões ganhavam a parada até o momento em que se percebeu que o custo da guerra era alto demais. Imagine-se se, dois anos depois da guerra do Vietnã, alguém viesse com a ideia de invadir a Bulgária ou Moçambique... Não haveria falcão que pudesse emplacar uma proposta dessas.

 

Outro fator relevante no sucesso dos “falcões” é que os Estados Unidos sofreram um atentado como nunca tinha acontecido desde Pearl Harbor. Não haveria “pomba” que emplacasse suas teses em 1943, imagino eu.

 

Sem contar com um dado importantíssimo no novo belicismo americano. Na época do Vietnã, qualquer garoto de 18 anos estava arriscado a ir para a guerra. Hoje as intervenções americanas são feitas com base muito maior de soldados voluntários, não de recrutas obrigatoriamente convocados. Nesse sentido, a opinião média se preocupa menos com a sorte de quem, afinal, não é filho, irmão nem parente.

 

Esse último aspecto precisaria de ser embasado com mais números, mas me parece estar oculto em muito do trololó em favor da “honra e do orgulho da América” que aparece em livros como Why I Turned Right- Leading Baby Boom Conservatives Chronicle Their Political Journey. Quem sabe comento isso outra hora.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h12

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o cérebro político (2)

Suponha, diz George Lakoff em The Political Mind, que você tenha de fazer uma operação séria. Na situação A, o médico lhe diz que há 10% de chances de morrer na cirurgia. Na situação B, o médico lhe diz que você tem 90% de chances de sobreviver. A realidade estatística é a mesma. O que muda é o “enquadramento” (frame) da questão. Na situação A o enquadramento é a morte, na situação B o enquadramento é a sobrevivência.

 

Daniel Kahnemann, prêmio Nobel de Economia em 2002, testou experimentalmente o que acontecia com as decisões das pessoas conforme o “enquadramento” da situação. Não é surpresa que, confrontadas com o enquadramento-morte, muitas pessoas acharam melhor não fazer a cirurgia hipotética. Na situação descrita com os 90% de sobrevivência, foi muito maior o número dos que optaram por fazer a cirurgia.

 

Em termos políticos, o que isso significa? Não se trata apenas da arte dos marqueteiros. Lakoff diz que, na maioria das decisões cotidianas, acontece que as pessoas tendem a escolher segundo os enquadramentos que destacam o lado positivo mais do que o negativo; tendem mais a evitar perdas do que a preferir ganhos; preferem enquadramentos mais “fáceis de entender” e menos precisos, em vez de enquadramentos mais precisos e menos fáceis de entender.

 

Isso favoreceria, segundo o autor, atitudes mais “guerreiras”, mais do tipo “falcão” na política externa americana. Tende-se a achar que uma invasão do Iraque será mais fácil e rápida do que realmente é. Existiria um “viés de otimismo” nas decisões cotidianas, por exemplo.

 

Um outro caso de experiência empírica é lembrado por Lakoff. Dizem a um grupo de estudantes que eles estão com 30 dólares na mão. Oferece-se então a possibilidade de jogar cara ou coroa, com chance de ganhar ou perder 9 dólares. 70% dos estudantes toparam o jogo. Em outro grupo, também com 30 dólares na mão, pergunta-se ao estudante se ele quer jogar cara ou coroa, com chance de terminar o jogo com 21 dólares, se perder, ou 39 dólares, se ganhar. É a mesma coisa do que o jogo anterior, do ponto de vista matemático. Mas só 43% toparam o jogo dessa vez.

 

No primeiro caso, o “enquadramento” definia o jogo em termos de “9 dólares”. No segundo caso, o “enquadramento” destacava uma diferença de 21 para 39 dólares, ou seja, uma diferença de 18 dólares. A referência conceitual muda, portanto, de modo a acentuar o risco, embora a aposta fosse rigorosamente igual num caso e no outro.

 

Os “falcões” são mais populares do que as “pombas” na política externa americana, conclui Lakoff, porque “o viés cognitivo” está a favor deles. Vários tipos de viés, aliás:

 

O viés do otimismo. Os iraquianos vão nos receber com flores. Podemos ganhar facilmente. Se lutarmos com eles lá, eles não vão nos atacar aqui.

 

A desvalorização relativa. Não se trata de uma invasão, porque quem chama nossa ação de invasão é a Al Jazeera. Não se trata de uma rebelião contra um exército de ocupação, pois quem diz que é rebelião são “os insurgentes” que estão contra nós.

 

Aversão ao risco. Não podemos nos arriscar a perder no Iraque. Temos de ficar até ganharmos.

 

Muito bem, mas a análise de Lakoff me parece de extrema fragilidade. Continuo depois.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h54

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o cérebro político

George Lakoff é professor de Ciência Cognitiva em Berkeley, e um convicto opositor do conservadorismo republicano. Seu livro The Political Mind (Viking Press, 2008) pretende provar “por que você não pode entender a política americana do século 21 com um cérebro do século 18”.

 

Li até a página 50 sem que me abandonasse a sensação de que o autor apela para “descobertas” da neurolinguística, ou seja lá o nome que tenha, de modo muito simplista. Que determinado candidato consiga mais sucesso contando a respeito de sua história de vida do que se recorrer a argumentos puramente racionais a respeito de seu programa econômico –bem, eis um fato tão óbvio que não necessita de grandes explicações a respeito de como funcionam nossos circuitos de recepção de dopamina.

 

É sem dúvida uma tolice –ou melhor, uma invencionice—conceitual imaginar que os iluministas do século 18 não conheciam o potencial de mistificação, por exemplo, dos rituais coloridos, perfumados, sangrentos da Igreja Católica. Mas Lakoff acha que os iluministas do século 18 eram cegos para a influência das emoções sobre o pensamento humano, cabendo portanto um “novo iluminismo” capaz de responder taco a taco às manipulações de Bush, da Fox News e dos “think tanks” conservadores.

 

Bem, acho que não será escarafunchando os dendritos do hipotálamo que se encontrará alguma explicação real para o sucesso dos republicanos contra os democratas em 2004. A questão é obviamente de contexto político, de situação econômica do país, de fracassos ou sucessos de administrações anteriores...

 

Claro que há políticos mais emocionantes do que outros, e “narrativas” (a coragem do homem que enfrenta seus adversários, a vitória do homem que nasceu de novo depois de muitas derrotas etc.) capazes de render grandes votações para um candidato. Mas, nesse campo, a cultura e a linguagem de um país, em determinada época, é muito mais explicativa do que os sistemas de funcionamento cerebral. Que, dispensável dizer, são mais ou menos os mesmos há milhares de anos, e permitiram tanto o sucesso de Hitler quanto o de Cristo, o apoio à monarquia e ao regicídio, ao papa e a Lutero.

 

Mas há um capítulo interessante no livro: “Por que os falcões vencem”, sobre o qual escrevo depois.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h56

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nas alturas

Mas em matéria de release indesejado, e de ideia inútil, este aqui é um forte concorrente:

São Paulo, março de 2010 – Imagine degustar ao ar livre e sentado em uma mesa suspensa por um guindaste a 50 metros de altura, iguarias elaboradas por chefs renomados. Esta experiência única poderá ser vivenciada na cidade de São Paulo a partir de 18 de março. Criado na Bélgica, o projeto, realizado no Brasil pelas empresas Newdining e Mídia Foods, que chega ao País com a marca Brastemp Dinner in The Sky – está presente em 30 países e realizou mais de 700 jantares ‘nas alturas’ por todo o mundo em lugares como Paris, Dubai, Londres e Las Vegas.

Por aqui, o Jockey Club foi escolhido para representar São Paulo e receber as vinte e duas pessoas que participarão de cada uma das subidas – serão duas por noite – com duração aproximada de 1hora e meia. As programações serão realizadas às quartas, quintas e sextas-feiras, e aos sábados, sempre nos horários: às 20h e às 22h.  

Confortavelmente sentados em assentos que se movimentam 180º – e que seguem todas as normas de segurança – os convidados receberão um atendimento diferenciado. A estrutura é do restaurante é comandada pelo Chef Fred Frank que receberá os chefs convidados em nome da Brastemp.

 Uma instalação contemporânea criada pelo designer Alessandro Jordão, transformará cinco containeres marítimos em um charmoso espaço com arte, design e lounge com a cara BRASTEMP e ficará disponível para aqueles que queiram permanecer no solo. Todos os clientes serão recebidos com um Welcome Drink Chandon.

 O valor da experiência nas alturas é de R$ 600,00 e o cardápio na parte de cima, será variado e oferecerá pratos harmonizados com diferentes variedades de Chandon:

Entrada fria, entrada quente e prato principal com Excellence - a Cuvée de prestígio da Chandon

Sobremesa com Chandon Passion Rosé

 

Mais fotos neste link.

Naturalmente, se convidado eu aceitaria ir, mas com uma condição: a de me sentar exclusivamente nesta cadeirinha de trenó (século 18, provavelmente de Veneza), vendida por 5 mil euros em recente leilão da Sotheby's. Pertenceu à Duquesa de Sagan.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h17

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mensagem planetária

Spams são uma chatice, mas não me dou bem com os filtros e demais dispositivos para combatê-los. O do UOL, por exemplo, impõe a seus amigos um trabalho extra, o de provar que são seus amigos. Já me irritei ao responder e-mails da mesma pessoa, tendo sempre de passar pelo verificador do UOL.

 

E, no meio de muitos spams e convites indesejáveis, às vezes aparecem preciosidades como esta aqui:

 

Talvez você estranhe este convite tão singular mas, creia ou não, por você ser uma pessoa especial, livre pensadora e diferente das massas alienadas (e você sabe disso), estamos lhe convidando a participar dos estudos e prática de Ensinamentos com bases Científicas, relacionados com a evolução e o desenvolvimento da Mente Humana, que recebemos de Seres Espaciais Irmãos em missão de ajuda à Terra e à Humanidade.

 

(...)

 

Está surpreso por lhe conhecermos no mais íntimo do seu SER? E por estarmos lhe convidando justamente agora em que está mais necessitando? E como foi que o encontramos? Pois fique tranquilo, Irmão, e alegre-se, pois no Plano em que atuamos (Mental), não há segredos, limites, tempo e nem distâncias. . . tudo é possível e você terá as respostas no seu devido tempo! 

 

Esperemos, então.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h23

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Sobre os quadrinhos de Glauco

 

Reproduzi no artigo desta quarta-feira um artigo sobre Glauco, que escrevi para o antigo “Folhetim” em junho de 1987. Vai aqui o trecho final, que não foi para a edição de hoje da “Ilustrada”.

 

 

...

 

Despidas de interioridade, esquemáticas, volatilizadas em seu tênue maquinismo, as personagens de Glauco parecem não poder sustentar-se a si mesmas. Recorrem a uma impressionante quantidade de apetrechos, que as rodeiam como um enxame de coisas úteis e inúteis: cigarros, chupetas, seringas, televisão, geladeira, cachorro-quente (note-se que Geraldão não consome “hot-dogs”: seu consumismo é caseiro, vulgar, improvisado, consequência da pressa e do desespero).

 

Cada figura de Glauco parece assim, ter sua pessoa fora dela mesma, daí a impropriedade do termo “personagens”. Não é por causa de uma neurose transbordante que tantos objetos os circundam. Não há tampouco um acúmulo de coisas, o que faria pensar numa sequência cronológica, ao longo da qual os objetos fossem se acrescentando uns aos outros. Eles já estão ali, simultâneos, como se fossem para Geraldão o signo indispensável de sua própria diferenciação dentro do mundo. Todos conjuram o que têm à sua volta, mobilizam seus pertences num minuto, como se, na iminência do desastre, fosse necessário fugir com tudo o que pudessem carregar.

 

Zé do Apocalipse sempre volta para anunciar o fim dos tempos. Que o anúncio do fim se repita, parece ser uma condição secreta para todos os personagens sobreviverem como sempre são. Todos os instantes, todas as minúsculas partículas de rotina das quais dependem, todos os objetos que possuem serão assim concentrados num único quadrinho, do mesmo modo que seus passos e movimentos se resumem num só desenho.

 

Fogem da destruição carregando tudo o de que precisam para sobreviver, ou seja, tudo o que é acessório, utensílio, apetrecho –é comum que se lembrarem, em determinada circunstância, de suas roupas de mergulhador, aparecendo no último quadrinho com pés de pato e tubo de respiração. Acessórios, apetrechos: o apocalipse já parece ter destruído o resto, isto é, eles mesmos.

 

Mas Glauco seria trágico demais segundo esta interpretação. A leveza, a graça, a espontaneidade do que acontece nos quadrinhos a desmentem. É que nesse ato de conjurar as coisas; de reunir tudo o que sobra; de agarrar-se, de prender-se com inúmeros braços a um caos de refugos, superfluidade e lixo, não há desespero.

 

Ao contrário, todos esses objetos, todos esses detritos aparecem como que por interferência mágica do cartunista. Glauco atende carinhosamente às necessidades de suas criaturas. Nas charges políticas, é comum que de um quadrinho para outro o presidente Sarney se veja investido de tudo aquilo de que necessitava para governar –o cetro de um monarca africano, uma espingarda ou fantasia de carnaval. A necessidade que as figuras de Glauco revelavam era tão intensa, tão completa, que sequer haveria tempo para procurar-inutilmente—o objeto necessitado. Ele surge, num milagre instantâneo e derrisório, em suas mãos. Estão todos salvos.

A íntegra do artigo está disponível para assinantes do uol neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h13

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pechinchas em DVD e CD

Até 70% de desconto em alguns itens, neste link. Claro que há CDs bizarros, como o que faz uma antologia de 60 anos de cânticos do escoteiros franceses. Mas é possível encontrar as "masterclasses" de Cortot, por exemplo, além de muito mais coisas boas (não só de música clássica).

Escrito por Marcelo Coelho às 22h25

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partituras clássicas

 
 

partituras clássicas

Neste link, de graça: http://pt.cantorion.org/

Escrito por Marcelo Coelho às 17h39

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O Cavalo Branco

 
 

O Cavalo Branco

“Um dos mais belos filmes do mundo”. Se você lê isso, na capa de um DVD, a tendência é desconfiar. Por outro lado, mesmo o publicitário mais cara-de-pau poderia inventar um elogio menos exagerado, mais convincente. Se foi tão longe, e resolveu dizer que esse “é um dos mais belos filmes do mundo”, quem sabe não teria razão? De modo que peguei na locadora o filme de Albert Lamorisse, chamado “O Cavalo Branco”, que acaba de sair pela distribuidora Cinemax.

 

O filme tem só 47 minutos, e foi feito em 1953 em preto e branco. Mais branco do que preto, aliás. Durante a maior parte do tempo, tem a estrutura de um documentário. Conta a vida de um menino de seus dez ou onze anos, numa região do sul da França, plana e pantanosa, à beira-mar. Nessa região, a Camargue, existem até hoje bandos de cavalos selvagens.

 

O menino é um pescador paupérrimo, que resolve domesticar o mais selvagem desses cavalos. Vendo o filme, você naturalmente vai achando tudo bonito –a paisagem, as inúmeras sequências de galope à beira-mar, a espécie de identificação que existe entre o menino, com seus cabelos loiros, e o cavalo, com a longa crina branca.

 

Mas só quando o filme termina, de um modo meio onírico, é que a gente se convence de ter assistido “um dos filmes mais bonitos do mundo”. É mesmo. Tão bonito, e tão apenas bonito, que talvez nos dê a impressão de que está faltando alguma coisa nele. Mas, com 47 minutos de duração apenas, o filme de Albert Morisse (também autor de outro clássico para crianças e adultos, "O Balão Vermelho") é certamente uma obra-prima.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h52

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Mais de Minas

Este poema, publicado no tabloide "a parada" no. 8, de Belo Horizonte, tem algo a ver com o post anterior. É de João Vitor Leal.

dia desses

Não gosto desse clima

Quente e nublado.

E você diz

Que essas coisas não são de geladeira.

Aquelas são.

Guarda logo que se pensar estraga.

O jornal traz alguns trechos de uma entrevista minha a Jovino Machado, mas uma falha de edição faz com que algumas das perguntas do entrevistador tenham perdido o negrito, misturando-se ao texto da resposta... Fico parecendo uma espécie de esquizofrênico, mas acho que não é o caso de insistir nesse ponto.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h58

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Sem paciência com Serra

Quanto mais Serra esperar para lançar sua candidatura, mais cairá nas pesquisas. Acho difícil que se recupere depois. Aliás, acho que já passou da hora de Serra se lançar. Do jeito que a coisa anda, até seus eleitores andam perdendo a paciência, e é possível especular se uma candidatura Aécio, partindo mais de baixo, não teria chances melhores depois. Aécio poderia fazer um papel mais conciliador, mais de unidade nacional-mineira, uma vez que o discurso de oposição tem enormes dificuldades de emplacar no eleitorado.

 

Se o PSDB tivesse realizado prévias, a campanha bem ou mal já teria começado para o lado da oposição. Seria um problema para a unidade do partido? Mas que unidade? Melhor uma divisão às claras do que esse joguinho em que três ou quatro tucanos gastam a maior parte do seu tempo.

 

Acho especialmente irritante, e inadequado a quem quer ser líder político, essa atitude de só jogar para ganhar, de nunca correr riscos.

 

Bem interessante o editorial do “Estado de Minas” de hoje: “Minas a reboque, não!”

 

http://www.uai.com.br/em.html

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h58

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Mais tosco ainda

Se a propaganda da "Devassa" é tosca e apelativa, como escrevi abaixo, não sei como qualificar o artigo do antropólogo Roberto da Matta, publicado hoje no "Estado". Leia  aqui. Apesar de ter tido bons insights sobre o Brasil, faz tempo que Roberto da Matta parece ter perdido o senso da autocrítica. Nem engraçado ele chega a ser. A ideia de"Uma fábula no reino de Jambon" é imaginar um país em que as fezes de seus habitantes se transformavam em ouro. A parábola se estende por vários parágrafos, ironizando, por exemplo, os políticos que resolvem estatizar o produto, criando um ministério para tratar do assunto, e um comitê de sábios que "separa por decreto o cagar do defecar".

Sou eu que estou ficando moralista demais? Ou estamos todos loucos? Por falar em perda de prumo, leia-se o último parágrafo do editorial de hoje do "Estado":

Enquanto Lula estiver no governo, as ameaças à liberdade de imprensa parecem controladas. Mas o que poderá acontecer se outro nome do PT ocupar a presidência da República?

Escrito por Marcelo Coelho às 17h09

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Mulheres e cervejas

Apesar do que escrevi num post abaixo sobre a marca de cerveja “Devassa”, acho bobagem proibirem o anúncio com Paris Hilton. Quase todo anúncio de cerveja tem mulheres tão ou mais provocantes do que a vilipendiada celebridade americana.

 

Ana Paula Gonçalves, ouvidora da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, defende a suspensão do anúncio com uma frase esquisita: a medida seria necessária “para que a mulher não seja tratada como um produto”.

 

O mais pertinente, acho, seria dizer o inverso. Esse tipo de publicidade me choca porque faz a cerveja ser tratada como mulher. Conforme a quantidade de seu consumo, a cerveja faz o indivíduo se transformar num gordo, num chato, num impotente, num traste que nenhuma mulher gostaria de ver por perto. Associar consumo de cerveja com beldades dando bola me parece desonesto, basicamente, por causa da disso.

 

Mas é também verdade que o consumo de cerveja está associado a duas coisas –conversa descontraída e prazer adulto. Uma quantidade enorme de namoros começou com ajuda de bebida alcoólica, e não há muitas coisas que se possa identificar exclusivamente com um privilégio da vida adulta: sexo, cigarro, carros, bebida estão “naturalmente” associados, portanto.

 

A questão é saber se deve haver propaganda de cerveja, qualquer o tema que venha a ter. Inclino-me mais a defender que se tratem os anúncios de bebida como os de cigarro –e por que não há fotos de advertência nas garrafas de bebida?—mas essa é uma questão bem subjetiva, a meu ver. É notório, também, que não há fiscalização nenhuma quanto à proibição do consumo de bebidas para menores de dezoito anos.

 

Em todo caso, se a publicidade é mantida, e a associação mulher/bebida existe, só peço que não façam coisas tão toscas, tão apelativas, como essa campanha da Devassa.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h35

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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