Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Ataques a Freud (e defesas)

Antes mesmo de sair por aqui o livro de Michel Onfray criticando Freud, já é possível ler no site da Pulsional algumas das respostas que tem provocado na França: veja o artigo de Elizabeth Roudinesco aqui.

Cá entre nós, confesso que não tenho muita paciência para o debate --pelo menos não agora.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h14

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voltaire de souza

Três crônicas publicadas recentemente no "Agora":

A PERUCA PRETA

 

 

Mistério. Fé. Inspiração. Chico Xavier.

O poderoso médium continua vivo. No Além. E nas telas de cinema.

Soraya fez o sinal da cruz.

--Não gosto dessas coisas.

O marido dela se chamava Roberto.

--Tem de ter a mente aberta, Soraya.

Mas o rígido catolicismo da dona de casa não permitia concessões.

--Missa é uma coisa. Mesa branca é outra.

--E cinema é outra. Vamos ver o filme, pô.

Era grande a fila na entrada do cinema. Soraya sentia medo.

--Fantasmagoria... aparição... não é comigo.

Um velhinho de boné apareceu de repente a seu lado.

O sorriso bondoso. Os óculos escuros. A peruca preta.

Soraya começou a gritar.

--É ele. O Chico Xavier. Veio aqui para me perturbar.

Não era o médium. Era o sr. Padovani. Ligado no cinema em 3-D.

--Esses óculos são formidáveis. O que a gente vê parece real.

A espiritualidade tem várias dimensões. Mas o mundo só continua com três.

 

 

 

 

 

NO BALANÇO DO MAR

 

Descanso. Lazer. Diversão.

É a terceira idade.

Bodas de ouro. O sr. Custódio chegou em casa com uma surpresa.

--Vandinha... Vandiiinha... está me ouvindo?

Ele mostrou as passagens do navio. Cruzeiro pelo Nordeste. Transatlântico de luxo.

Um antigo sonho do casal..

--E depois, Vandinha, o ar marinho vai fazer bem para sua bronquite.

O sol sorria sobre o porto de Santos.

Dentro da luxuosa embarcação, uma surpresa.

Em vez de aposentados cor-de-rosa, a apoteose de uma classe em ascensão.

Convescote de uma torcida organizada de futebol..

Junto, a comemoração de aniversário do Sindicato dos Marreteiros de Anápolis.

Samba. Cerveja. Barrigas. Chinelo Rider com o escudo do time.

Dona Vanda começou a vomitar. Acusa o balanço do navio.

O sr. Custódio teve ameaça de enfarte. No atendimento médico, Custódio engole, junto com a cápsula de Prontocord, as reclamações de sua esposa.

--Confessa, Custódio. Confessa a merreca que você pagou para me pôr nessa enrascada.

Navios de luxo são como brigas de casal. O importante é não perder a classe.

 

 

 

CONSTRUINDO O BRASIL

 

 

Projetos. Ideias. Empreendimentos.

O país precisa investir. O país precisa crescer.

Eduardo era um importante empresário da construção pesada.

Sua mente visionária descortinava usinas. Lucros. Viadutos.

Pelo celular, ele dava ordens a seus subordinados.

--Toca em frente. Não, não, a concorrência não vai dar problema.

Era intenso o trânsito na Berrini.

--O que foi? Espera aí que eu estou estacionando.

Eduardo se dirigia à luxuosa sede do Banco de Investimentos Precaução.

--Eu estou dizendo, Guimarães... pé na tábua, pô.

Dúvidas. Parágrafos. Contratos.

--Esquece, Guimarães. Bola pra frente, estou te falando.

Eduardo passava pela porta rotatória. E perdeu a paciência.

--Manda bala, ô cretino.

Foi um erro. No instante seguinte cinco pipocos explodiram o peito do empresário.

Era o bando do Tarrafa. Que assaltava o estabelecimento bem na hora.

Grandes construtoras estão sempre atentas à concorrência.

Mas, por vezes, a pressa põe tudo a perder.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h32

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vinicius digital

 
 

vinicius digital

Neste link, a biblioteca Brasiliana apresenta a poesia completa de Vinicius de Moraes, com a vantagem de se ter a visão fac-similar das primeiras edições.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h17

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greguerías (2)

 
 

greguerías (2)

“Quem põe a mão na orelha para ouvir melhor parece caçar a mosca do que se diz.” “Os cães buscam ansiosamente o dono que tiveram em outra encarnação.” “É difícil imaginar que uma caveira rindo seja uma caveira de mulher.”

O autor dessas frases, Ramón Gómez de la Serna, nasceu em Madri, em 1888, e morreu em Buenos Aires em 1963. Admiradas por Borges, Cortázar, Buñuel e Octavio Paz, suas “greguerías”, ou aforismos, não são desconhecidas dos leitores de dicionários humorísticos e antologias do gênero.

 

Começo assim o artigo publicado na “Ilustrada” desta quarta-feira. (íntegra para assinantes do uol neste link)

 

O tradutor do livro, Vanderley Mendonça, mandou um e-mail muito atencioso explicando que a edição a que eu me referia, da Amauta, não é a mais recente. Ele é o fundador do selo “Demônio Negro”, com livros não digo de luxo, mas bem caprichados, de poesia.

 

Fico sem graça de notar alguns problemas na tradução de Vanderley Mendonça, que enfrentou bem o desafio de colocar em português as frases curtíssimas de Ramón Gómez de La Serna. Aforismo, como se sabe, é um tiro ao alvo: se não acerta bem no centro, perde totalmente a graça. De modo geral, as “greguerías” funcionam bem em português, mas haveria correções a fazer.

 

Não sei se “tela” é a melhor palavra nesta sentença: “O pano do toureiro é a tela do teatro de marionetes da morte”. Acho que seria melhor dizer que “A capa do toureiro é o pano de boca do teatro de marionetes da morte”.

 

O leitor também se confunde com esta tradução: “Camões e Cervantes são como companheiros de asilo, um é torto, outro é manco.”  O correto seria dizer que um é caolho, e o outro maneta. Só em português, estranhamente, “manco” é o coxo, o que puxa de uma perna. Como o nome diz, e o espanhol aplica, “manco” é aquele que não tem uma mão.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h34

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O Nazareth cubano

 
 

O Nazareth cubano

Bem gostosa de ouvir a música de Ignácio Cervantes (1847-1905), cujas "Danças Cubanas" saíram num disco do selo Concerto, na interpretação de Davide Cabassi e Tatiana Larionova. Uma amostra, aqui com o concertista Jorge Luís Pratts.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h16

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Greguerías

 
 

Greguerías

Este é o nome que o escritor espanhol Ramón Gómez de la Serna (1888-1963) dava a seus aforismos e paradoxos poéticos. No artigo para a Ilustrada da quarta-feira dia 21, escrevo sobre uma tradução, publicada no Brasil pela editora Amauta, da obra desse precursor do surrealismo e de Cortázar. Mas neste  link,  para a revista eletrônica Errática, já dá para ir lendo várias "greguerías", na tradução de Sérgio Alcides.

Em tempo: embora ainda possa ser encontrada em livrarias, a edição da Amauta não está mais disponível na editora. Uma nova edição, com capa dura, é a que foi lançada agora pela editora Annablume. Custa 35 reais, dez a mais que a anterior, e pode ser comprada aqui.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h22

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soft power, smart power

O próximo Roda-Viva, na TV Cultura, promete ser interessante: o teórico americano Joseph Nye, criador desses conceitos de "soft power" e "smart power" em matéria de relações internacionais, para contrapor-se ao belicismo duro e cru de Bush, será entrevistado por Celso Lafer, Demétrio Magnoli, Jaime Spitzcovsky e Flávia Campos Melo. A novidade é que nesta sexta, às 15h, a gravação do programa pode ser assistida ao vivo neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h47

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Poesia delivery

Um poema de Thomas R. Smith, intitulado "Trust" ("Confiança")

 

É como todas aquelas coisas na vida

Que você tem de responder com um sim ou não.

Assim você deixa o carro num mecânico que não conhece.

Às vezes é melhor ter confiança.

 

O pacote deixado nas mãos de um atendente

Esquisito, o cheque engolido pelo caixa eletrônico,

O envelope que passou por muitas mãos,

Todos no final aparecem no destino desejado.

 

O roubo que podia ter acontecido não houve.

O vento termina alcançando o lugar para onde ia,

Pelas árvores cobertas de neve, e o rio, mesmo

Congelado, vai dar no local previsto.

 

E às vezes você sente como a sua vida fielmente

É entregue, mesmo quando você não consegue ler o endereço.

 

Foi publicado no livro Waking Before Dawn, de 2007.

É uma das dicas diárias do site "The Writer's Almanac", que você pode receber por e-mail se inscrevendo aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h33

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quente e frio

 
 

quente e frio

Retomando a coleção de cartazes populares de comida, algumas pinturas bem primitivas que fotografei recentemente. Primeiro, este sorvete de copinho:

(a porta ao lado dá a dimensão da coisa)

Bem mais perfeito este sorvete de abacaxi, com forte ilusão de tridimensionalidade, além da cor muito boa do palito (ainda que torto):

Por fim, caldeirões de cozido num fundo de belo verde.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h21

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bilbioteca virtual

Ainda está no começo, mas os interessados em ciências sociais no Brasil e estudos sobre internet podem acessar livros gratuitamente em http://www.bvce.org/Default.asp

Escrito por Marcelo Coelho às 16h09

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igreja, imprensa, pedofilia

Como era mais ou menos esperado, dividiram-se meio a meio as mensagens que recebi a respeito da “carta a um pedófilo”, que escrevi para a Ilustrada de 31/3 (assinantes do UOL podem ler neste link). Houve quem apoiasse integralmente, e quem manifestasse forte decepção.

 

Acho que fiquei mobilizado pelo fato, mais uma vez, de surgirem críticas à imprensa quando esta diz o que tem de ser dito. Existindo ou não anticlericalismo na imprensa, não é essa a causa do noticiário sobre pedofilia. E fiquei irritado com o raciocínio de João Pereira Coutinho, que afirmara num artigo que há pedófilos em toda parte, e então porque ficarmos dando especial atenção aos pedófilos padres?

 

Foi para responder a essa pergunta que escrevi o artigo. Mas o truque retórico de escrever como que uma carta a um “pedófilo leigo” não permitiu que eu me estendesse sobre dois pontos importantes.

 

O primeiro é que quando alguma irregularidade surge no interior da Igreja, isso me parece de fato mais grave do que quando surge em outro lugar qualquer. Pois a Igreja tem um discurso claro de condenação aos erros e pecados da humanidade. Tem menos “direito”, acho, a fazer o que condena, do que por exemplo um famoso diretor de cinema ou fotógrafo erótico, que pelo menos terá parecido mais um lobo em pele de lobo do que um lobo em pele de cordeiro.

 

Penso a mesma coisa com relação a falcatruas envolvendo o PT. Pessoalmente, indignam-me mais do que as cometidas por um ex-PFL, porque durante anos o PT parecia seriamente comprometido com denúncias e investigações que agora chama de denuncismo e moralismo da imprensa burguesa.

 

Fui escrever isso em resposta a um leitor que me criticava pela carta ao pedófilo, mas acho que com a comparação só piorei ainda mais as coisas...

 

O segundo ponto que eu não abordei diz respeito à própria pedofilia. Acho que pode haver coisas muito piores do que pedofilia. Não sei exatamente o que as pessoas estão condenando quando falam de pedofilia.

 

Se se trata de um padre conflitado e frágil, que lida com menores de rua, e digamos que um menino de 12 ou 13 anos, com (infelizmente ou não) uma experiência sexual muito maior do que a do padre, passe a entrar num jogo de sedução... Quem é o manipulador, quem é o manipulado?

 

 Claro que abusar de uma criança de 4 anos é uma monstruosidade, mas em toda condenação a comportamentos sexuais existe um fator de desejo, por parte de quem condena também, e de pânico –o que faz com que sequer possamos ver concretamente o que acontece em cada caso: a palavra “pedofilia” serve para denominar coisas horríveis de fato e também aquelas que, por nos atraírem ou amedrontarem, queremos evitar considerando tão horríveis como as primeiras.

 

Assisti outro dia a “O Despertar da Primavera- O Musical”, espetáculo (roqueiro e barulhento demais para o meu gosto) baseado na célebre peça de Frank Wedekind, que fez escândalo na passagem do século 19 para o 20.

 

O autor mostrava nada mais nada menos do que o surgimento do desejo sexual entre adolescentes, bem grandinhos aliás, numa sociedade que os mantinha em total ignorância quanto aos fatos básicos da reprodução humana. Terror, suicídio, culpa monstruosa vitimava esses rapazes e moças.

 

A peça foi censuradíssima; só depois da Segunda Guerra Mundial pôde ser encenada na íntegra na Inglaterra. Hoje, pensei, para que fosse censurada, teria de pôr em cena crianças de onze ou doze anos.

 

Naturalmente, há um umbral biológico para a sexualidade desenvolver-se plenamente, e a contradição vitoriana estava em insistir numa equivalência entre maioridade civil e maioridade biológica, querendo que aos 16 anos uma menina acreditasse em cegonhas. Esse umbral biológico não se transpõe aos dez ou onze anos de idade. Mesmo assim...

 

Mesmo assim, quando ouço dizerem que aos 13 ou 14 anos uma pessoa não está “preparada emocionalmente” para a vida sexual, penso que há 120 anos isso era dito das pessoas com 16 ou 17... Será que não mudou nada nesse tempo todo? De resto, não sei se aos 30, 40, ou 50 alguém está “preparado emocionalmente” para a vida sexual tampouco.

  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h20

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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