Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

revendo "Amarcord" (final)

 

Podemos lembrar, em todo caso, que o tio boa-vida do Titta é um fascista também, ou pelo menos um dedo-duro, como o filme mostra –e se caracteriza como um daqueles tipos italianos que vivem uma adolescência prolongada, levando uma existência parasitária dentro de casa, com os amigos de farra...  Mas não é o único tipo de fascista presente em “Amarcord”.

 

Mesmo assim, eu diria que as coisas são mais complicadas do que dá a entender Fellini, e que na entrevista que citamos talvez ele estivesse interessado em se defender por antecipação de qualquer crítica que “Amarcord” pudesse inspirar no tocante a ser um filme nostálgico do fascismo também.

 

Basta dizer que é muito diferente, no filme, o tom com que se narra a visita do fascista à cidade e a aparição do navio “Rex”. Aquele Mussolini em efígie, celebrando imaginariamente o casamento do menino gordinho com Aldina, a menina por quem ele está apaixonado, surge como uma imagem grotesca, ridículo, é muito feio. Já a cena em que aparece o navio Rex é inegavelmente muito bonita. A cena inicial, em que uma boneca de bruxa é queimada na fogueira, transmite igualmente uma poesia que a visita do fascista não tem.

 

No mesmo livro já citado, Fellini visionário, o crítico Luiz Renato Martins elege a cena do “Rex” como uma espécie de identificador das tendências ideológicas de toda pessoa que quiser comentar o “Amarcord”. Afirma que, no momento em que os personagens estão nos seus barcos, esperando a chegada do navio, e em que eles começam a fazer confidências, o filme de Fellini está parodiando o cinema fascista da época, sentimental, meloso. E que, quando o Rex aparece, pode-se ver que é um navio feito de papelão, achatado, como numa história em quadrinhos americana: Fellini quer justamente mostrar a falsidade daquele momento.

 

“O público”, diz Luiz Renato Martins, “tem diante de si uma disjuntiva: ou adere ao aliciamento dos sentimentos”, acreditando no melodrama, “ou se destaca, rompe a empatia com a gente do lugarejo envolvida pelos efeitos especiais da propaganda fascista, e vem então a questionar a postura embevecida e submissa e dela se distanciar”.

 

Ou seja, traduzindo: quem caiu no conto do navio “Rex”, achando a cena bonita, deve tomar cuidado porque está se deixando levar pelo fascismo que Fellini critica.

 

Devo dizer que acho muito bonita a cena do “Rex”. E que também percebi,  especialmente no final, que o mar não passa de uma cobertura de plástico –coisa que aparece em outros filmes de Fellini, como “Casanova” por exemplo.

 

Na minha opinião, falar em “disjuntiva” nesse caso, como faz Luiz Renato Martins, é um procedimento já um tanto autoritário... Se a cena do “Rex” é diferente do Mussolini falante, e sem dúvida é, isso traz uma ambiguidade ao filme.

 

Fellini não é Brecht, e seria infiel às próprias memórias se não lembrasse de momentos falsos, mas poéticos e bonitos ao lado de momentos mentirosos, além de grotescos e ridículos no momento histórico em que ele viveu. E as imagens do navio fascista não são necessariamente alusivas ao cinema fascita: são também imagens de filme americano (antifascista) ou de sonho, de evasão (fora da província, fora do fascismo).

 

Nesse sentido, valeria retomar os três modos de temporalidade mencionados no início deste texto. A “interrupção do fluxo”: aqui teríamos o sentido de uma adolescência, em que o sexo não se concretiza, é reprimido, é boicotado, e também o senso em que a autoridade é contestada, em que todos, por assim dizer, “caem em si”. Mas há o tempo congelado, o tempo “mágico”, por assim dizer, que foge do fluxo sem ser uma interrupção; é um tempo do desejo, talvez, em que as coisas estão vivendo por si mesmas, numa espécie de autonomia absoluta, não sei se religiosa, mas certamente livre, sem antecedente, sem causa, sem consequência.  E a terceira forma, a da “hipnose repetitiva”, da pantomima, seria a forma mais tipicamente fascista –e masturbatória, se quisermos: coletiva, desindividualizante, sem sentido, repetitiva, ritualizada.

 

Haveria em “Amarcord”, assim, um jogo triplo entre blasfêmia, sublimidade e ritual. Entre desrespeito, elevação e teatro autoritário. Entre desmistificação, fascínio e hipnose: e é nesse jogo que o cinema de Fellini se localiza, sem se fixar numa única posição.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h08

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ensaio sobre a neve

Traduzo como posso o curto poema de Sean O' Brien, que pode ser conferido(e ouvido) no original aqui.

ENSAIO SOBRE A NEVE

 

 

Já estivemos aqui, não muitas vezes,

Com a neve azul estendida sobre os tetos sombreados

E mais além a cidade que se abre,

Estendida, quilômetros dela, sem ninguém—

 

Parques desertos e passarelas congeladas

A anônima estatuária, os calçamentos de pedra

Como regatos de gelo enegrecido.

Em algum lugar, um passarinho. O seu pio

 

É como se lascasse um pingente de gelo

Diminuindo o tom, para depois tentar de novo.

Estivemos vivendo no lugar errado o tempo todo,

Mas podemos agora perceber o significado disso.

 

A sombra azul de neve atrás da casa.

O terreno baldio, o telheiro, os fiapos

De erva seca, o samba

De uma nota só do passarinho dentro do gelo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h47

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piorando o trânsito (2)

a respeito do artigo de quarta-feira na Ilustrada (ver post abaixo), recebo estes argumentos de um leitor:


Não é que a proibição de estacionamento nas ruas de São Paulo seja mais justa que o pedágio urbano (ambas são restrições por faixa de renda, já que quem tem mais renda poderá estacionar em garagens privadas).


É que você, como todo viciado em carro (como também sou), tende a apoiar medidas que tirem mais carros da rua, menos o seu. A nós, que já incorporamos o custo do estacionamento privado (ou que temos acesso a vagas gratuitas no local de trabalho), muito pouco importam essas restrições -- aliás, só ajudam, pois o trânsito flui mais.

Restrição a estacionar nas ruas existe em abundância até no país que foi feito pensando nos carros particulares: os Estados Unidos. Já morei lá e visitei várias cidades americanas, com as mais diversas restrições de estacionamento. A idéia não é restringir o uso de veículo, mas ordenar: eliminando vagas em toda uma pista, a rua "ganha" uma faixa a mais para os carros circularem; e também ganha fluidez retirando a fila-dupla que se forma toda vez que um carro quer estacionar numa vaga de rua. O mercado absorve essa mudança (trocando patrimônios históricos como a Mansão dos Matarazzos na avenida Paulista por novos pátios de estacionamento particular), e todos se ajustam às novas mudanças.

É como o rodízio, apoiado por muitos dos motoristas, que já se adaptaram às restrições de circulação seja por meio da adaptação ao horário de entrada/saída do trabalho seja pela aquisição do "carro do rodízio".

O pedágio urbano, por outro lado, lhe incomodaria muito mais. Talvez até lhe tirasse de dentro do automóvel. Talvez o fizesse largar o vício.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h34

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revendo "Amarcord" (3)

         Identificados esses três tipos de relação com o tempo, valeria a pena tratar em seguida das dimensões políticas do filme, que entre outras coisas é um retrato do fascismo numa cidade de província italiana. Cito uma entrevista de Fellini, feita na Itália em 1973, e republicada no livro “Fellini Visionário”, da editora Companhia das Letras.

 

Não que eu queira minimizar as causas sociais e econômicas do fascismo,diz ele, mas quero apenas dizer que ainda hoje o que mais interesse nesse sistema é o traço emocional e psicológico da adesão a ele. Em que consiste esse traço? Em um certo bloqueio, uma paralisação no início da adolescência e, na minha opinião, um congelamento e uma interrupção do desenvolvimento do indivíduo levam necessariamente a alterações que procurem compensá-los. Talvez dessa maneira o fascismo se torne para alguns uma alternativa diante da perda das ilusões, algo como uma tentadora reação da ruptura de todos os obstáculos no instante em que o crescimento se orienta numa direção que leva a um sentimento de decepção e desorientação.

 

Fellini continua:

 

Não quero acreditar que nós, italianos, ainda não tenhamos superado a nossa adolescência e o fascismo... Mas tenho a impressão de que fascismo e adolescência ainda são, de uma certa maneira, estágios de nossa existência –a adolescência, da vida pessoal, e o fascismo, da vida nacional. Refiro-me com isso à forma de se permanecer sempre como uma criança, de se livrar da responsabilidade, de viver com o consolo de sempre ter alguém a quem cabe pensar, uma vez é a mãe, outra o pai, mais tarde o Duce, Nossa Senhora ou o bispo... Temos nesse meio a liberdade –limitada, porém aberta aos pensamentos mais absurdos— graças à qual podemos nos apoiar nos sonhos mais ridículos: no sonho dos filmes americanos ou no sonho oriental repleto de cores, no caso mulheres...

 

Fellini vai além dizendo que o catolicismo também faz com que, na Itália, “todos vivam numa espécie de redoma. Ninguém forma traços individuais característicos, mas apenas anomalias patológicas. Porém, é justamente esse o sentido da visita do chefe do partido. Todas as figuras do filme se reúnem naquele momento”. As manias e extravagâncias de cada um adquirem, segundo Fellini, “um sentido completamente diverso”. A festa fascista, diz ele, “bem como a passagem do [navio] Rex, a grande fogueira da abertura e cenas semelhantes são circunstâncias de burrice total”.

 

Seriam, continua Fellini, “fantasias infantis, por parte de pessoas que não têm força de se libertar do ritual, permanecer à parte, ficar em casa.”

 

Creio que, nessa entrevista, Fellini exagerou um pouco. Há elementos fascistas numa torcida de futebol, por exemplo? Certamente. Mas toda manifestação coletiva seria fascista, nessa ótica, porque em nenhuma manifestação existe, digamos assim, o predomínio do senso crítico individual sobre a nostalgia do ritual e a necessidade do sonho. E, certamente, Fellini é o primeiro a insistir na necessidade do sonho também, e em se deliciar com a fantasia.

 

Por outro lado, não dá para pensar na adolescência como simplesmente um momento “fascista”, porque também é típico da adolescência o desrespeito, a desobediência. Um fascista teria justamente a intenção de fazer do adolescente, da criança, da Itália, uma nova realidade, feita de “homens”, de “guerreiros”. Por mais que isso seja irrealista e falso, e delirante, o desejo de ordem, presente no fascismo, não é exatamente característico da adolescência. Embora o desejo de arruaça, também muito fascista, o seja.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h12

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Ponho aqui um trecho do artigo publicado hoje na "Ilustrada".

 

 

Os carros já tinham prioridade sobre o pedestre. De uns tempos para cá, o cenário das cidades vai deixando de ter até alguma aparência civil.

Para diferenciar-se do motoqueiro plebeu, os pilotos de Harley Davidson e outras máquinas usam capacetes da Segunda Guerra. Jovens, mesmo os mais pacíficos, aderiram aos coturnos e se cobrem com rebites de metal.

Não por acaso, são os manobristas e os seguranças quem mais parece seguir o figurino clássico (paletó e gravata) do cidadão “de bem”. Esqueci-me dos políticos, mas vá lá. Muitos burgueses –no velho sentido de “habitantes do burgo”— vestem-se hoje como lenhadores ou sitiantes.  

Leio agora que a prefeitura pretende proibir o estacionamento na maior parte das ruas do chamado “centro expandido”. Aprovo a medida, como um fumante que torcesse pela proibição do cigarro nos restaurantes, ou um alcoólatra entusiasta do uso do bafômetro.

Sou viciado em andar de carro, e sei do pequeno efeito das campanhas de cidadania sobre mim. Convenci-me de que o mero estímulo ao uso do transporte coletivo (mesmo se fosse facílimo e de boa qualidade) não mudaria a atitude das pessoas como eu.

Não é que o transporte público deva melhorar apenas. A vida de quem recorre ao transporte individual é que vai ter de piorar (ainda mais) para que um bom número de automóveis fique na garagem.

Eis, aliás, um fenômeno que comprova as velhas leis da oferta e da procura, assim como a crença liberal na “mão invisível do mercado”: conheço pessoas que já desistiram de ter carro em São Paulo.

Adaptam a vida a uma área menor da cidade, andam a pé, pedem carona, aprendem o trajeto de um ônibus e o caminho da melhor calçada. Num passe de mágica, o inferno do trânsito deixou de lhes dizer grande respeito.

Invejo-os, como um drogado que admira os recuperados do seu vício.

Tenho esperanças, assim, na proibição do estacionamento nas ruas de São Paulo –mais justa, aliás, que a ideia do pedágio urbano. Não porque vá melhorar o trânsito. Mas porque tornará mais cara e difícil a vida do motorista.

Assinantes do uol podem ler o texto inteiro aqui

Escrito por Marcelo Coelho às 17h43

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revendo "Amarcord" (2)

Um segundo tipo de relação com a temporalidade presente em “Amarcord” seria o da “paralisação” –as cenas em que tudo se fixa numa imagem, muitas vezes muito bonita, como as do pavão na neve, do navio transatlântico passando durante a noite, ou dos garotos dançando na frente do grande hotel, no meio da névoa. Aqui, há um processo de “indiferença”, vamos dizer assim, porque o navio, o pavão, os meninos, existem sem se dar conta de ninguém mais. Não respondem a ninguém, não interpelam ninguém, não são interrompidos por ninguém. Talvez por isso mesmo sejam inesquecíveis: duram para sempre na memória, porque não houve ninguém que os tirasse dali, que “puxasse o seu tapete”, que lhes desse a súbita sensação de estarem sendo vistos. O que não troca olhares com o outro seria, a rigor, algo que pode existir eternamente.

O que não quer dizer que não esteja de passagem. A própria cidade é um lugar de passagem –o navio não para ali, a corrida de carros também não, os turistas e as estações aparecem e vão embora.

         Além desse par de relações com o tempo, a do “fluxo interrompido” e a da “cena congelada”, identifico também um terceiro, que é o da repetição, do ritmo sa quase que hipnótica, que muitas vezes assume no filme a aparência de uma pantomima,de um balé, de uma cena sem palavras.

O professor de Física no colégio, mostrando o pêndulo, por exemplo, começa a dizer “tic, tac, tic, tac”, e a classe inteira segue o movimento com a cabeça. As odaliscas do harém, que estão chamando o vendedor ambulante das janelas do hotel, fazem o mesmo gesto de inclinar o pescoço. As mulheres do campo, que montam na bicicleta, sucedem-se numa igualdade de dominó. Um movimento “imitativo” aparece, claro, quando o chefe fascista visita a cidade, e todos –até o advogado narrador— saem correndo a acompanhá-lo no desfile. Durante a projeção de um filme, vemos a plateia inteira imitando, hipnotizada, os vaivéns que vê na tela. A cena em que os faróis do carro piscam, imitando o movimento de masturbação dos garotos, também poderia ser incluída nesse item da “imitação repetitiva”.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h32

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revendo "Amarcord"

Participei há uma semana de uma mesa-redonda sobre o clássico de Fellini, e vou postando aqui aos pedaços o texto de minha intervenção.

Tenho certa dificuldade em comentar um filme como “Amarcord”, de Fellini, porque a cada vez que eu o vejo prevalece a sensação de encantamento, de enorme poesia visual da maioria das cenas; tendo a não querer que uma interpretação, uma análise, estrague demais a mágica de tudo o que eu acabei de ver.

Mesmo depois de quase quarenta anos já, esse é um filme que não envelheceu; pode ser visto novamente mesmo que nada dele tenha sido esquecido. Pelo menos no meu caso, tenho bem clara a maioria das suas cenas, ainda que já tenha passado bastante tempo desde que vi “Amarcord” pela última vez.

Aquelas imagens que provavelmente ficaram gravadas no menino, no adolescente de Rimini que foi Fellini, na década de 30, têm também o poder de ficar gravadas na nossa memória, talvez por alguma força, alguma qualidade especial que de fato tenham.

Em todo caso, eu gostaria de, em primeiro lugar, fazer uma análise do que eu considero algumas formas de relação que o filme estabelece com o tempo –o tempo como fluxo de acontecimentos, e como espaço da memória. E, numa segunda parte, eu gostaria de relacionar esses “modos” de tempo com a questão do fascismo, tal como foi apresentada na ótica de Fellini e de algumas interpretações a respeito do filme.

         Iniciando com o tema do tratamento do tempo, eu distingo três tipos de situação, que se repetem em várias cenas. Não que não haja outros, é claro, mas destaco no filme três modalidades, por assim dizer, de pontuar o tempo. A primeira poderia ser chamada de “fluxo interrompido”. A segunda é a do “congelamento do tempo”. E a terceira seria a da “repetição hipnótica”.

         O primeiro desses modos, o “fluxo interrompido”, é o mais fácil de reconhecer. Encontramos esse tipo de interrupção no caso do narrador-advogado, por exemplo, que faz sempre explicações históricas sobre a cidade. Basta ele começar a falar que alguém joga uma bola de neve contra ele, ou faz algum barulho, impedindo-o de continuar.

Também as cenas em sala de aula, com os professores, têm vários momentos assim. É o caso do professor de grego que tenta manter a cinza do cigarro de pé na bituca, quando o aluno faz uma pernacchia e a cinza cai. De modo geral, o discurso dos professores, de modo geral, é boicotado, interrompido.

Existe também o motociclista que passa fazendo muito barulho pelas ruas da cidade, como que “encerrando’, ou virando uma página na história, mas sempre “cortando” o discurso anterior.

Há ainda o padre que, em vez de ouvir a confissão do menino, reclama com o sacristão a respeito de como arranjar as flores da igreja.

Quase como um subcapítulo desse modo de “interrupção do fluxo”, notamos também as cenas em que o personagem se vê surpreendido pelo olhar do espectador, ou o interpela diretamente. O pai que persegue o menino no jardim parece se dar conta, de repente, de estar sendo observado, e cumprimenta as possíveis testemunhas da cena. O advogado está sempre falando para o público, e quando a cidade inteira se prepara para ver o grande navio Rex, é o vendedor ambulante,  Biscein, quem se dirige aos espectadores.

Também nos momentos em que o menino se aproxima de alguma experiência com mulheres acontece essa interrupção: a mulher gordíssima da tabacaria resolve dar um basta, de repente, na brincadeira sexual –e Gradisca, na sala do cinema, também “corta” as tentativas do personagem no sentido de fazer uma aproximação. Em outro contexto, a mãe do Titta, no auge do ataque de fúria, entra no banheiro, olha para o espelho, se recompõe, um pouco como se fosse uma atriz no intervalo entre os atos.

         Esse modo de “cair em si” é sem dúvida uma interrupção do fluxo da história, que deveria transcorrer indiferente, sem se dar conta do espectador que a quem o assiste –e há, sem dúvida, os momentos em que os próprios personagens “puxam o tapete” uns dos outros, forçando a queda, a parada, o susto: qualquer coisa, enfim, que impeça a cena de prosseguir.

 

Seriam estes alguns exemplos do primeiro modo de temporalidade, o da interrupção, o da queda, da “puxada de tapete”.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h07

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Queimando dinheiro no Butantan

Mandam para o jornal muita revista de interesse para lá de restrito: o jornal dos empreiteiros de Minas Gerais, o anuário do Tribunal de Contas de Goiás, esse tipo de coisa.

 

Algumas semanas antes do incêndio no Instituto Butantã, ou Butantan, como querem agora, recebi... a revista deles.

 

Guardei, porque mesmo antes do que aconteceu a coisa tinha me parecido um bocado estranha.

 

São 64 páginas em papel brilhante, algumas delas com artigos de divulgação científica, outras noticiando eventos do Instituto.

 

Ainda que seja importante divulgar as atividades de lá, veio na hora, para mim, a impressão de que ali havia dinheiro sobrando.

 

Ocorre o incêndio, por falta de sensores automáticos para fogo, e seja qual for o valor científico da coleção de cobras, é simplesmente espantoso ler o que o ex-diretor do Instituto, Isaías Raw, declara à reportagem da Folha nesta quinta-feira.

 

Achando ou não que a pesquisa é ruim, e que as cobras nos potes de álcool são um absurdo, Isaías Raw era diretor do órgão, e tinha responsabilidade oficial de cuidar daquele patrimônio –ou de doá-lo a algum outro lugar. E o diretor que o substituiu, o que acha?

 

Pode parecer que estou personalizando demais este comentário.

 

Mas quem está personalizando as coisas é a tal revista do Instituto.

 

Na capa da edição que recebi (que tinha como tema, não se sabe bem o motivo, a Imigração Japonesa), está uma foto, de página inteira, do novo diretor passeando com seus dois netinhos no Butantã.

 

Na contra-capa, é Isaías Raw, com os dois netinhos, numa página inteira também.

 

Não é que devessem por uma jararaca em close, mas certamente podiam achar coisa melhor.

 

E maneiras melhores de gastar o dinheiro do instituto.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h02

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figurinhas da Copa (2)

Um leitor teve a gentileza de me enviar fotografias de um velho álbum (não era o meu "Olé", mas trata-se de uma preciosidade). Aqui vão.

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h24

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figurinhas da Copa

Vai aqui um trecho do artigo publicado hoje na "Ilustrada".

Não há de ser simplesmente por saudade da infância, em todo caso, que tantos marmanjos (até mesmo, devo dizer, na redação de um importante jornal paulistano) entregam-se à febre das figurinhas.

Não se trata de uma doença retroativa, e sim antecipatória. Já é a torcida pelo título mundial o que se concretiza na luta pelo álbum completinho. Importa dominar, ter ao alcance dos dedos o conjunto dos adversários possíveis.

Num arroubo de alma que só se poderia chamar de ibérico, há torcedores que fazem questão de colar de cabeça para baixo as figurinhas do selecionado argentino.

Completar o álbum é vencer todo acaso e incerteza. Obtida a vitória, começa-se outro, assim como a conquista do Tetra não tira a vontade de chegar ao Penta, ao Hexa, que sei eu.

Irremediavelmente antiquado, volto a estranhar essa necessidade (no tocante às figurinhas, porque em matéria de futebol prefiro ficar calado). Nunca pensei, quando era criança, que fosse possível completar um álbum. Corria mesmo a desconfiança de que algumas figurinhas nunca tinham sido impressas.

O melhor, e mais precário, álbum que já tive se chamava “Olé”, e era desatualizadíssimo.

Reunia, como todo bom time de botão, pernas-de-pau já aposentados, cenas de campeonatos peremptos e ídolos de bigodinho que, nos meus verdes anos de calça boca-de-sino e cabelo “black-power”, já haviam sido esquecidos pelas multidões.

O desajuste, é verdade, mantém-se agora, mas com sinal contrário. Jogadores que supostamente participariam da Copa deste ano foram cortados, contundiram-se, e o álbum já deixou de retratar o tempo presente.

Todo colecionador, assim, corre em vão rumo ao futuro, para realizá-lo apenas como um testemunho do passado.

Desfiz-me dos meus antigos álbuns de figurinhas. Se pudesse reabri-los, sem dúvida gostaria de novamente verificar que ficaram incompletos. Ainda espero que, numa banca de jornal perdida no fim do mundo, possa achar num pacotinho aquele Mengálvio, aquele Dino Sani que me faltavam para completar a coleção.

A coleção? Melhor dizer: a página. Para que o álbum, com suas lacunas irritantes e figurinhas impossíveis, não se feche jamais.

A íntegra do artigo pode ser acessada pelos assinantes do uol aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h15

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ética e "caráter" (5)

No comentário do leitor Galdino Manoel ao post abaixo, há um link para vários artigos recentes sobre o experimento da obediência de Milgram. Foi parcialmente repetido não faz muito tempo, com resultados surpreendentemente semelhantes aos de 50 anos atrás. O abstract de um artigo ponho aqui em inglês mesmo. A íntegra, só para quem pagar 11 dólares ao site da revista.

By Burger, Jerry M.
American Psychologist. Vol 64(1), Jan 2009, 1-11.
Abstract
The author conducted a partial replication of Stanley Milgram's (1963, 1965, 1974) obedience studies that allowed for useful comparisons with the original investigations while protecting the well-being of participants. Seventy adults participated in a replication of Milgram's Experiment 5 up to the point at which they first heard the learner's verbal protest (150 volts). Because 79% of Milgram's participants who went past this point continued to the end of the shock generator's range, reasonable estimates could be made about what the present participants would have done if allowed to continue. Obedience rates in the 2006 replication were only slightly lower than those Milgram found 45 years earlier. Contrary to expectation, participants who saw a confederate refuse the experimenter's instructions obeyed as often as those who saw no model. Men and women did not differ in their rates of obedience, but there was some evidence that individual differences in empathic concern and desire for control affected participants' responses. (PsycINFO Database Record (c) 2009 APA, all rights reserved)

Escrito por Marcelo Coelho às 00h09

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novo visual

Recebo comunicado da Folha Online:

com a reforma gráfica da Folha e da Folha Online que ocorrerá neste fim de semana, todos os blogs perdem seus topos estilizados por determinação da Direção de Redação. Todos serão padronizados com o nome do blogueiro em destaque e o nome do blog, se houver, em segundo plano.

É, já estava enjoando um pouco. Sem rostinho, por favor.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h13

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ética e "caráter" (4)

Muito se comentou sobre o experimento de Stanley Milgram, já descrito rapidamente em post anterior, e bem melhor neste link.

 

O experimento destinava-se a “medir” a propensão das pessoas à obediência, mesmo diante de ordens evidentemente odiosas, como a de administrar choques elétricos cada vez mais fortes em seus semelhantes.

 

Algumas observações. Não é que exista um “sádico” dentro de cada um de nós. Ao contrário, muitos dos participantes do experimento se sentiram pessimamente durante a sua realização, quiseram parar com tudo aquilo... mas continuaram a torturar.

 

A questão propriamente moral é a da “obediência”, não a da “crueldade”. Lendo a descrição do teste, pensei que, naturalmente, o fato de se tratar de uma experiência realizada oficialmente numa prestigiosa universidade americana poderia ter contribuído para que os incautos obedecessem às ordens do “cientista”, sem questioná-las muito.

 

Ocorre que Milgram reproduziu a experiência num ambiente todo desconjuntado, num armazém suspeitíssimo, e mesmo assim a maioria das pessoas obedeceu às ordens de dar choques.

 

Podemos pensar também que na época em que foi realizado (começo da década de 1960) o respeito à ciência e à autoridade era bem maior do que hoje. E que os resultados do teste poderiam variar de país para país, de cultura para cultura.

 

Isso não importa muito, acho, para a conclusão tirada por John Doris em seu livro “Lack of Character”.

 

O ponto que ele quer provar é que o peso de nosso caráter –correção, valores, convicções na vida prática—tem relevância mínima para o que de fato acabamos fazendo ou não.

 

Pessoas pacíficas ou malvadas podem igualmente entrar na armadilha de torturar alguém, se as circunstâncias as levarem a isso. Mesmo quando essas circunstâncias não são de modo nenhum imperativas ou extremas; qualquer pessoa poderia parar de dar choques elétricos sem estar ameaçada de perder o emprego, perder a família ou coisa parecida...

 

Claro que uma experiência nunca reproduzirá perfeitamente as condições do mundo real. Podemos pensar que uma pessoa, no dia a dia, teria tido mais tempo de pensar no que estava fazendo, teria encontrado alguma reação dos amigos e familiares quando conversasse sobre o assunto, não se deixando levar sempre e de uma vez só à consecução dos atos descritos.

 

Mas também podemos dizer que, ao contrário, com o tempo o indivíduo iria sentir cada vez menos repugnância diante do próprio comportamento, encarando tudo, no fim, como uma profissão igual a qualquer outra.

 

Tanto nesta última hipótese quanto na situação concreta da experiência, um fator importante de “anestesia moral” parece ser o gradualismo dos atos cometidos. “Se dei um choque elétrico de 30 volts, por que não posso dar um de 45?” Os monstros raramente nascem da noite para o dia.

 

John Doris conta que o contrário também é verdade. A maioria das pessoas (não muitas) que se notabilizaram por ajudar os judeus durante a perseguição nazista foi aos poucos se envolvendo na causa; um pequeno favor levava a outro, até chegar a admiráveis atos de heroísmo. Por vezes, os heróis podem ser tão “normais” quanto também o foram, no início, os carrascos.

 

De todo modo, não vi no livro de Doris uma pesquisa que ajudaria a confirmar sua tese: que tipo de pessoas eram aquelas que, logo no começo do teste de Milgram, resolveram interrompê-lo? Haveria casos (mais raros do que supomos, sem dúvida) de grande retidão de caráter? Se isso existe, será que só vale para as exceções? E será que o peso das circunstâncias, o predomínio destas sobre a personalidade, só vale de fato para os “normais”? O estudo das exceções seria tão importante, acho, quanto o estudo dos que estão na média.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h36

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Manet em leilão

Mais um recorde na venda de obras de arte está para acontecer, ao que tudo indica, daqui a um mês mais ou menos. Será leiloado em Londres este auto-retrato de Édouard Manet, coisa que não aparece todos os dias.

A avaliação inicial é entre 20 e 30 milhões de libras (30- 43 milhões de dólares), mas com certeza vai para bem mais do que isso. Detalhes (e lances prévios), para quem estiver interessado, aqui.

Pelo que sei, só existe um outro auto-retrato de Manet, não tão bom:

 

...e que lembra um pouco este quadro do Masp, que não é auto-retrato:

Escrito por Marcelo Coelho às 00h57

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Um trecho do artigo desta quarta-feira, em que acabei falando também do livro On Belief, de Slavoj Zizek, que ando lendo e depois tento comentar um pouco.

Uma das causas do último pânico em Wall Street –além, é claro, do déficit na Grécia— teria sido um dispositivo que começa a vender sem parar as ações que baixaram mais do que o previsto, desencadeando uma espiral de quedas no mercado.

Fala-se também em erro humano na operação, mas não importa. Como nunca, o processo crítico parece agir por conta própria. Há algum tempo ainda era possível conviver com a ilusão de que os vaivéns da economia dependem da vontade humana.

Bem que os governos ainda tentam. Mas se as ações de presidentes e ministros vão todas na direção de “acalmar o mercado”, não há dúvida de que se pautam mais pela obediência do que pela autonomia de poder.

Os chamados “agentes econômicos” se tornam, afinal, mais passivos do que nunca, quando o “software” de uma máquina está agindo por eles. Sem contar que, quando eles próprios tomam as decisões, nada indica que não seja em função de um outro “software” implantado em seus neurônios, obediente à moda, à opinião dos pares, ao rumor predominante.

É um jogo de espelhos, na verdade, correspondendo literalmente à origem do termo “especulação”.

Esse mundo que ninguém controla não é estranho à velha teoria marxista: se não esqueci o que costumava ler a respeito, o termo para isso é “alienação”.

A íntegra do artigo está disponível para assinantes do uol aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h26

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voltaire de souza

Três histórias recentemente publicadas no "Agora".

NO CARPETE AZUL

 

 

Charme. Beleza. Sedução.

É o concurso Miss Brasil.

Os bons tempos estão de volta.

O dr. Expedito Dedilho era um político influente no Distrito Federal.

Contratos. Licitações. Maracutaias.

--E aí? Deu para facilitar o nosso viaduto?

--Sabe como é, Expedito... os adversários podem descobrir.

Mas o dr. Expedito já não prestava muita atenção.

Uma comitiva de beldades brasileiras pisava o carpete azul.

--Ôpa. Ôpa. Essa aí é de Minas. E a outra é do Pará.

--No Pará a minha empresa também está na concorrência?

--Forte candidata...

--Quer dizer que eu vou ter de molhar a sua mão de novo, Expedito?

--É dando que se recebe, ô fofura...

--Quando a gente se encontra para acertar a comissão?

--Agora mesmo... já estou tirando a cueca...

O tapa da bela miss arrancou o celular do ouvido de Expedito.

Não adianta ele dar explicações. O amor não aceita concorrência.

 

A VOZ DA DISCORDÂNCIA

 

 

Projetos. Ideias. Utopias.

Uma cidade precisa renovar-se constantemente.

A prefeitura paulistana anuncia.

Pretende acabar com o Minhocão.

Carlos Egídio achava isso um absurdo.

--Como assim? Que irresponsabilidade é essa?

Ele apontava para o tráfego. Intenso naquela hora da tarde.

--Alguma dúvida sobre a utilidade dessa obra urbana?

O cigarro dele apagou-se durante o discurso.

--E eu? Como é que eu fico?

Carlos Egídio fez um gesto eloqüente com a bituca.

--Minha poltrona. Meu colchão. Meu patrimônio.

Os amigos aplaudiram a indignação de Carlos Egídio.

--É isso aí. Afinal, debaixo de onde a gente vai morar?

Para muitos mendigos, a via elevada é uma opção de moradia.

Carlos Egídio estava se animando quando uma Kombi o atropelou.

Alta velocidade. O acidente foi fatal.

Por vezes, é mais fácil derrubar um homem do que uma obra viária.

 

CONFESSO QUE BEIJEI

 

Pedofilia. Abusos. A Igreja enfrenta problemas nessa área.

Padre Deolindo dava uma entrevista à imprensa.

--Amigos. Irmãos. Eu confesso.

As mãos brancas do sacerdote cruzaram-se diante da mesa.

--Beijei aquele menino.

As máquinas fotográficas não descansavam.

--O corpo todo dele.

Uma lágrima escorria na face de dom Deolindo.

--Ele estava sem roupa. Praticamente sem roupa.

Fazia calor no auditório.

--Ele era tão bonitinho... tão gracioso.

Um murmúrio de escândalo correu pelo ar.

--O cabelo loirinho. Os olhos azuis.

O bom padre já estava chorando.

--Querem saber mais? Vou mostrar o menino para vocês.

Ele abriu uma cortininha. Tirou a estatuazinha do presépio.

E mostrou a imagem do Menino Jesus.

Neste mundo cheio de pecados, alguns beijos podem ser inocentes.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h21

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Um inverno

 
 

Um inverno

Aqui vão três imagens do livro “Um Inverno”, que reúne fotografias tiradas entre 1973 e 1974 por João Luiz Musa, numa viagem à Europa. O livro, da Imprensa Oficial/Edusp, foi lançado no Instituto Tomie Ohtake na semana passada.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h24

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Um pouco de Schubert

É só o áudio, mas esse movimento da sonata em lá maior, D. 959, com a pianista Hannah Shybayeva me foi recomendado por e-mail, e é música que vai longe, muito longe.

Há outros videos com ela no youtube, um concerto de Prokofiev que parece tocado por um tigre, mas o som não é lá dessas coisas.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h01

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ética e "caráter" (3)

 

O mais impressionante, no capítulo de John Doris que estou comentando (ver post abaixo), é a tabela que vem logo depois. Vemos em que momento os participantes da experiência psicológica de Milgram desistem de dar choques elétricos nas suas supostas “vítimas”.

Choques leves, de 15, 30, 45 e 60 volts, não fazem ninguém gritar. O primeiro “ai!” é pronunciado com 75 volts. Outro “ai!” no nível seguinte, de 90 volts. Uma só pessoa, dos 40 participantes da experiência, desiste de dar choques nesse momento.

105, 120 volts: “Ai! Isso dói de verdade”. 135 volts: “Ai!”

O choque elétrico já é considerado de nível forte. Aos 150 volts, a falsa “vítima” (que o participante da pesquisa não pode ver, mas ouve), diz: “Ai!!! Pessoal do teste! Já deu. Me tirem daqui. Eu avisei que eu tinha problema no coração. O meu coração está começando a dar problema agora. Por favor, me tirem daqui. Meu coração está dando problema. Eu me recuso a continuar. Me tirem daqui”.

Nesse ponto, houve seis pessoas que não quiseram continuar dando choques.

Aos 165 volts, começam os gritos. 180 volts: “Eu não aguento essa dor. Me tirem daqui!” Mais uma pessoa pára de dar choques.

Choques muito fortes, de 195, 210, 225 volts, e o choque intenso de 255 volts, com os gritos correspondentes, não fazem ninguém parar com a tortura.

Com 270 volts, e um grito “agônico”, duas pessoas interrompem a tortura.

Só gritos com 285 volts;com 300 volts a “vítima” (lembro que os choques são falsos, mas quem os aplica não sabe disso) grita várias vezes: “Eu me recuso a responder mais qualquer coisa. Vocês não podem me prender aqui. Me tirem.”

Ninguém para. O choque de extrema intensidade, 315 volts, produz um “grito de intensa agonia”. Uma pessoa para com os choques.

Outra para com um prolongado grito aos 330 volts. Já não já mais gritos aos 345, 360, 375, 390, 405, 420, 435 e 450 volts.

Vinte e seis pessoas, das 40 recrutadas para o experimento, obedeceram totalmente às instruções, infligindo toda a sequência de choques em suas supostas vítimas. Só 14 interromperam a coisa, em vários estágios, como se viu, do processo todo de tortura.

 

gravura de  Goya

Escrito por Marcelo Coelho às 00h46

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ética e "caráter" (2)

Continuo a postar alguns trechos do livro Lack of Character (“Falta de Caráter”), de John Doris, que estou lendo para uma palestra sobre ética. O autor, filósofo americano, faz um resumo muito preciso do famoso “experimento de Milgram”, pelo qual pessoas “normais” se revelaram, na sua maioria, prontas a torturar com choques elétricos seus semelhantes.

 

De 1960 a 1963, o psicólogo S. Milgram efetuou diversas variantes de seu experimento com aproximadamente 1000 voluntários, recrutados de vários grupos socioeconômicos da área de New Havia: funcionários de correio, professores secundaristas, engenheiros, operários –que atenderam a anúncios de jornal e a convites pelo correio procurando participantes pagos para um estudo sobre memória e aprendizado na Universidade de Yale. Eis como a história continua.

 

Ao chegar ao local indicado, o voluntário é recebido por um “pesquisador” de jaleco branco, que o apresenta a outro suposto voluntário (que na verdade é colaborador da equipe de pesquisadores). Explica-se ao recém-chegado que o estudo é sobre os efeitos do castigo no aprendizado. Faz-se um sorteio (na realidade arranjado previamente) para apontar quem será o “aluno” e o “professor” no experimento. O recém-chegado fica com o posto de “professor” e o outro suposto “voluntário” (na verdade comparsa do pesquisador) fica no papel de “aluno”. O “aluno”, um afável contador de meia-idade, é amarrado a uma cadeira para que se evitem “movimentos excessivos”. Um eletrodo é fixado em seu pulso, com uma pomada para “evitar bolhas e queimaduras”. O pesquisador avisa aos participantes que choques elétricos a serem usados como castigo, embora possam ser extremamente dolorosos, não causarão “dano permanente no tecido corporal”. O “professor” recebe uma amostra bastante desconfortável do choque a ser aplicado, para que fique convencido da autenticidade da coisa. Na verdade, os “choques” a serem administrados no “aluno” serão falsos, e ele não sentirá dor nenhuma.

 

O “professor” então é levado a outra sala, e senta-se à frente de uma impressionante “máquina geradora de choques”, que o pesquisador diz estar ligada ao eletrodo do “aluno”, que está agora oculto das vistas do “professor”.

 

São feitas perguntas, num tipo de teste, para o “aluno”, que de propósito irá respondê-las incorretamente, conforme uma tabela organizada previamente. O “professor” foi instruído a aumentar a intensidade dos choques a cada erro do “aluno”.

 

Se o “professor” começa a ficar preocupado com o andamento da experiência, e manifesta dúvidas sobre isso –coisa que aconteceu com muitos dos participantes—o pesquisador responde com frases já preparadas: (1) “Continue, por favor”, (2) “Para o sucesso da experiência, você deve continuar”, (3) “É absolutamente essencial que você continue”, (4) “Você não tem alternativa, você tem de continuar”.

 

... Se o “professor” se recusa a continuar mesmo depois da frase 4, o experimento é interrompido, e o “professor” é classificado, para fins da pesquisa, como desobediente; se o “professor” vai adiante e administra o grau máximo de choques no “aluno”, será considerado pela pesquisa como obediente.

 

A porcentagem dos que foram até o fim, pensando estar dando choques reais no “aluno” até ele supostamente perder a consciência, foi de 65%, no exemplo dado por John Doris. Detalhes e comentários ficam para depois.  

 

O Dr. Steel e sua Banda de Robôs (foto do wikimedia)

Escrito por Marcelo Coelho às 01h59

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Flora Sussekind e a crítica (2)

Retomo o comentário feito em post anterior sobre o artigo de Flora Sussekind, disponível no Globo Online. Para quem o lê de cabo a rabo, fica a impressão de uma dissonância entre o tom apaixonado, de “manifesto”, e o tom afinal meio esmaecido de suas propostas.

 

Ela se insurge contra três artigos que continham elogios, se não a Wilson Martins, ao lugar que ele ocupava no debate literário. Haveria nesses elogios muita nostalgia por uma espécie de “pureza” da literatura. A transformação de Wilson Martins em “imago exemplar” (?)

 

Parece expor inequívoca vontade a algo próximo à tradição das Belas Letras, a um regime estável e hierarquizado de vozes e gêneros, a regras fixas de apreciação e prática textual, a um apagamento de novos espaços de legibilidade, espaços ainda não demarcados ou nomeados, e sugeridos por formas de compreensão expansivas, e não exclusivas, do campo da literatura.

 

 

Muito bem: seria o caso, então, de considerar inútil a velha avaliação dos lançamentos do mercado editorial em termos de sua qualidade literária? Wilson Martins estaria errado ao hierarquizar vozes e gêneros?

 

Talvez não. Talvez essa abordagem, com as “regras de apreciação” costumeiras, que nos fazem considerar Graciliano Ramos superior a Paulo Coelho, deva continuar. E talvez estejam certos os que dizem que o espaço para esse tipo de coisa diminuiu nos dias de hoje, com um resenhismo muitas vezes sumário, resumido demais.

 

O ponto de Sussekind é que há um conservadorismo implícito nos lamentos a respeito dessa diminuição. O resenhista-relâmpago e a literatura “sem potencial de instabilização” se merecem.

 

É preciso, diz ela,

 

Definir outros espaços de atuação e trânsito, lugares não demarcados (retroativamente) pelo beletrismo redivivo, nem pelas identidades estáveis do resenhista, do prefaciador, do professor judicativo, do ficcionista auto-mimético.

 

Novamente, a condenação é tão genérica que funciona como um guarda-chuva gigantesco, no qual cabe tudo o de que a autora não goste, mas também tudo o que normalmente se entende por “literatura”.

 

Ela diria que esse “normalmente” é uma palavra conservadora também... Mas o que sobra, depois dessa condenação total aos beletristas, aos auto-miméticos, aos livros que não instabilizam, que são incapazes de “reinventar a sua sociabilidade”, que são incapazes de “produzir condições outras para a própria prática”?

 

Sobram... os poemas de Carlito Azevedo (que “reinventa a própria dicção em meio à tensão entre o poema como narrativa e percurso e a sua dramatização interna em estações imagéticas instáveis”). Seja lá o que for isso –e faltaria, em vez de uma longa peça acusatória contra tudo e todos os outros, dar exemplos da proeza de Carlito Azevedo--, será que é só Carlito Azevedo quem instabiliza o campo literário hoje em dia no Brasil?

 

Flora Sussekind diz que não. Há também Bia Lessa e Maria Borba, diretoras de teatro, e Rodolfo Caesar, que é compositor mas escreveu um livro também, no qual “escrita e escuta se desdobram e interferem, potencializando o campo de tensões em que se investiga a experiência composicional”. E também Nuno Ramos, “que, em livros como Cujo e Ó (Iluminuras), adquire um nível singular de presença, parecendo intensificar-se exatamente pelo lugar de fora em que se processam essas intervenções.”

 

O artigo de Flora Sussekind termina com essa frase. Faltou demonstrar, primeiro, como e por que Nuno Ramos e Carlito Azevedo são exceções no panorama. Segundo, se não há muito mais gente fazendo o que eles fazem, seja lá o que estejam fazendo na interpretação sussekindiana. Terceiro, quem é que –fora Mirisola e Patrícia Melo—se insere no padrão auto-mimético e (coitado do Mirisola!) mercadológico.

 

Mas explicar tudo isso, apontar os autores que “instabilizam” e criticar os que “não instabilizam” exigiria muito mais espaço do que o artigo de Sussekind ocupa.

 

Exigiria, na verdade, que Flora Sussekind escrevesse semanalmente num jornal ou na internet, avaliando segundo esses critérios (fixos?) a produção contemporânea... algo como Wilson Martins costumava fazer, segundo os critérios dele, é claro.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h33

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O bispo tem razão

Está certo, apesar da extrema suscetibilidade da opinião pública nesse assunto, o que diz o bispo de Blumenau, dom Angélico Sândalo Bernardino: tocar em adolescente não é a mesma coisa que tocar em criança.

 

“Avaliem vocês no meu lugar, mas eu acho diferente. Também deve ser punido, e a lei pune. O próprio Estatuto [da criança e do adolescente] faz diferença: uma coisa é pedofilia, outra é efebofilia.”

 

Não ajuda muito quem quer utilizar o termo “pedófilo” como estigma. Mas usar sexualmente uma criança de 4 anos, ou de 10, é monstruoso, e não acho monstruoso ter relações sexuais com alguém de 16 anos. Claro, não estou defendendo estupro nem assédio sexual.

 

Mas pode haver perfeitamente sexo consentido entre um padre adulto e um ou uma adolescente de 16 anos. Se houve abuso de poder, se houve intimidação etc., é para se verificar caso a caso.

 

Isso não torna os padres mais culpados ou mais inocentes do que fizeram; a profissão prega castidade, e permite situações (como a de professor) em que o poder se disfarça hipocritamente e se aproveita da inocência. Mas há casos e casos, volto a repetir, e chamar tudo de “pedofilia” pode ser um tremendo moralismo contra o que (também isso acontece) seja amor –culpado, contraditório, mas tão genuíno quanto qualquer outro.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h36

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Flora Sussekind e a crítica

A crítica literária Flora Sussekind lançou uma forte peça polêmica (veja no Globo online) intitulada “A crítica como papel de bala”. O “gancho”, como se diz em jornalês, foram os elogios póstumos a Wilson Martins, que durante décadas assinou um rodapé literário no Globo, além de ter sido o autor da famosa “História da Inteligência Brasileira”, entre outros volumes. Concordando-se ou não com as opiniões e o modo com que Wilson Martins encarava a função da crítica, o fato é que ele produziu muitíssimo, e acompanhou o tempo todo os lançamentos literários no Brasil.

 

Pois bem, Flora Sussekind começa assinalando dois aspectos dessa espécie de onda póstuma de elogios a Wilson Martins.

 

O primeiro é que a nostalgia –“não há mais críticos assim no Brasil”—evidencia “o apequenamento e a perda de conteúdo significativo da discussão crítica, assim como da dimensão social da literatura no país nas últimas décadas”. Verdade. Se por últimas décadas entendemos os últimos 40 anos, a TV, e não o romance, ocupou essa “função social” de ficcionalizar o país para o público; o cinema, com altos e baixos, também.

 

Mas aí vem o segundo aspecto notado por Flora Sussekind na “wilsonmania”. É a hegemonia cultural do conservadorismo, que (cito a autora)...

 

...envolve desde o retorno às figuras todo-poderosas do especialista monotemático, do agenciador com capacidade de trânsito institucional e do colecionador de miudezas, às interlocuções preferencialmente de baixa densidade dos minicursos e palestras-espetáculo, do universo das regras técnicas e das normas genéricas e sub-genéricas, fixadas acriticamente em oficinas de adestramento, à glamorização midiática de instituições autocomplacentes como a Academia Brasileira de Letras e correlatas, a formas variadas de culto a personalidades literárias, em geral mortas (e Clarice Lispector, Leminski, Ana Cristina Cesar têm sido objeto preferencial de dramaturgias miméticas, curadorias acríticas, ficções e comentários “à maneira de”), mas também em vida veem-se autores, mal lançados em livro, se converterem em máscaras que, com frequência, os aprisionam em marcas registradas mercadológicas de difícil descarte. Como se tornou,a meu ver, a trajetória tão distinta de Marcelo Mirisola e Patrícia Melo, para ficar em dois exemplos cuja produção poderia ir bem além do exercício automimético.

 

Se estou contando bem, são oito fenômenos distintos que se juntam sob o mesmo guarda-chuva conceitual. Valeria a pena ir com um pouco mais de calma aí. A impressão que dá é que Flora Sussekind resolveu fazer uma lista de tudo o que ela desaprova e buscar uma explicação “cultural-ideológica” para o problema. O resultado, como costuma acontecer nesses balanços gerais da situação cultural do tempo, fica muito vago. Se é para criticar de fato, fica difícil fazer isso sem dar nomes próprios e exemplos concretos. Claro que nem sempre é conveniente apontar o dedo para os bois certos, mas não há alternativa. Leio o texto mais de perto.

 

Problema no. 1, segundo a autora: “o retorno às figuras todo-poderosas do especialista monotemático, do agenciador com capacidade de trânsito institucional e do colecionador de miudezas”;

Mas quem são essas figuras, como, quando, onde? Haveria problema no fato de um crítico se especializar, sei lá, na vida e na obra de Olavo Bilac ou de Sousândrade? Estaríamos “retornando”, com isso, a um passado indesejável? Ou é simplesmente a continuidade de uma tradição em pesquisas universitárias que, por certo, não preenche as necessidades todas de uma intervenção real da crítica na literatura contemporânea, mas não deixa de ter sua utilidade específica?

E há, naturalmente, “o agenciador com capacidade de trânsito institucional”. Tem gente que se especializa nisso –consegue financiamento para colóquios, insere articulistas em revistas acadêmicas estrangeiras, julga a concessão de bolsas e prêmios em concursos... Bem, mas se isso aparece mais agora, ou “retorna”, no dizer de FS, é meramente sinal, eu acho, de uma maior institucionalização da vida literária –coisa que nunca impediu os lances de ruptura e rebeldia, seja com os “beats” nos Estados Unidos, seja com os surrealistas na França.

“Colecionador de miudezas”—certo, isso existe, mas será que é isso o que está ocupando o lugar da crítica relevante nos jornais e na vida literária em geral?

 

Problema no. 2- intervenções de baixa densidade em cursos e palestras. Com certeza, pode ser desperdício ver um grande talento crítico se esfalfar em palestras para um público mais geral, que às vezes nem leu a obra que o crítico está explicando. A questão do “retorno financeiro” oferecido por instituições como Casa do Saber e congêneres deve ser abordada. Quanto um jornal paga por um artigo, quanto a Casa do Saber paga por uma série de palestras? Sem contar os profissionais das viagens, concursos, bienais do livro... Mas não é impeditivo que se dê palestras e se faça coisas de mais densidade também.

 

Problema no. 3- a glamurização midiática de instituições como a ABL. De fato, notícias sobre a Academia Brasileira de Letras são bem mais frequentes agora do que há vinte ou trinta anos. Notícias sobre saraus e bibliotecas na periferia também. O problema está na falta de qualidade do que se escreve em geral, não na glamurização –que em outros tempos nunca foi pequena em se tratando de autores como, digamos, Hemingway ou Thom Gunn, Roland Barthes ou Oscar Wilde... o que nos leva ao

 

Problema no. 4- culto a Clarice, culto a Ana Cristina Cesar. Sim. Culto a Adorno, culto a Faulkner, culto a Rilke, culto a Dickens... Faz parte, com ou sem babaquice.

 

Problema no. 5- autores que viram marca registrada, como Marcelo Mirisola ou Patrícia Melo (pelo menos dois nomes foram citados!). Bem, muitos outros autores se repetem, fazem automimetismo. Exemplos: Nelson Rodrigues, Dalton Trevisan. O problema não está aí, nem é recente. Fernando Pessoa escreveu “à maneira de Fernando Pessoa”, Verlaine “à maneira de Verlaine”.

 

Em resumo, para falar de modo um pouco “conservador”, o problema é mais da qualidade do que se escreve e critica, do que de algum tipo de fenômeno identificável pela sociologia cultural intuitiva –que costuma ver nos fatos A, J, K e L sintomas do processo geral Y –mercantilização da cultura, decadência moral do Ocidente ou o que quer que seja. Não nego que haja razões sociais precisas para A, J, K e L. Mas não dá para ir tão depressa.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h47

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arte no microscópio

Óxido de zinco e óxido de titânio não são em tese substâncias das mais inspiradoras para o devaneio visual. Coisas desse tipo deram entretanto aos pesquisadores Ricardo Tranquilin, Rorivaldo Camargo e Daniela Caceta, da Universidade Federal de São Carlos e da Unesp, o segundo e o quarto lugares numa competição internacional de nano-arte.

 

Diz o release da Ufscar:

 

As imagens das obras de nanoarte são captadas por poderosos

microscópios. As obras devem ter imagens que variam de um a 100

nanometros – um nano equivale a um milímetro dividido por um milhão

de vezes. Em seguida, os cientistas/artistas colorem essas imagens de

acordo com sua sensibilidade.

 

Os cientistas ainda lançam nesta semana a 6ª edição do CD com imagens

produzidas no laboratório de São Carlos. Além das imagens, o material

é composto por música clássica, garantindo uma “viagem” para os

interessados. “Queremos mostrar as imagens para que as pessoas se

interessem pela ciência e também pela música clássica”, explica o

professor Elson Longo, um dos coordenadores do trabalho.

 

Eis algumas das imagens premiadas.

 

 

 

 

O site do concurso pode ser acessado aqui. (Infelizmente o fundo musical não é dos mais clássicos.)

Escrito por Marcelo Coelho às 18h23

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os filmes da Vera Cruz

De Mazzaropi a "Grande Sertão Veredas",  da "Família Lero-Lero" a "Sinhá Moça", passando por documentários em curta-metragem sobre Marcelo Grassmann e Portinari, os estúdios da Vera Cruz fizeram, com os problemas que se pode imaginar, filmes importantes para a história brasileira. A novidade é que estão todos disponíveis na internet, neste site. A Blinkxbrasil também traz todos os filmes de Sérgio Bianchi, que gostando ou não fazem você pensar sobre o Brasil, e sobre determinada forma de ver o Brasil. Até onde verifiquei, os filmes são rápidos em matéria de "buffering", sem aquelas paradinhas chatas.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h27

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revistas acadêmicas

Não sei se isso dura, mas o "Project Muse" oferece acesso ao conteúdo de uma quantidade de revistas universitárias. Clique aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h16

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assim vai a campanha presidencial...

Recebo, como todo mundo a esta altura, vários e-mails por dia falando mal da Dilma e do Serra. "Falar mal" não é bem o termo, há xingamentos e radicalismos do tipo que conhece todo internauta. Circula agora uma charge atribuída ao Angeli, colega da Folha. Aqui vai:

 

Estranhei, avisei o Angeli, que me enviou a verdadeira charge que ele fez, nos tempos de fastígio do Maluf:

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h05

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ética e "caráter"

 
 

ética e "caráter"

 

Imagine uma pessoa falando no telefone de um shopping center. Quando ela sai da cabine telefônica, aparece a Alice, que deixa cair uma pasta cheia de papéis, que se espalham bem no meio do caminho da pessoa do telefone. Será que essa pessoa vai parar e ajudar Alice antes que sua obra-prima seja pisoteada pela multidão que está no shopping atrás de promoções? Talvez isso dependa de como é a pessoa do telefone: Jeff, um pequeno empresário que só pensa em lucro, talvez não ajude, enquanto Nina, uma ativista política que cuida de gatos vira-lata, provavelmente vai ajudar. Nina é do tipo que tem compaixão pelas outras pessoas; Jeff não é. Em circunstâncias desse gênero, esperamos que cada um se mostre como verdadeiramente é. Mas isso pode ser um erro, como mostra um experimento feito por Isen e Levin em 1972. Nessa experiência, quem perdia os papéis era uma auxiliar da pesquisa, ou “confederada”. Para um grupo dos que falavam no telefone, foi colocada uma moeda de dez centavos no compartimento de devolução das fichas da cabine; para outro grupo, o compartimento estava vazio. Eis os resultados:

 

Encontrou moeda- 14 ajudaram, 2 não ajudaram

 

Não encontrou moeda- 1 ajudou, 24 não ajudaram

 

Se Jeff, o ganancioso, achou a moeda, ele provavelmente terá ajudado, e se Nina, que é compassiva, não achou a moeda, provavelmente não ajudou. É a situação, e não [o caráter] da pessoa, que parece ter feito a diferença.

 

Este é um trecho de Lack of Character- Personality and Moral Behavior, livro do filósofo John M. Doris, que andei lendo para falar sobre o velho tema da ética. O livro é razoavelmente curto (169 págs, mais muitas outras de notas) e claríssimo, mas deu trabalho para ler, no sentido da concentração exigida pela argumentação do autor. Por isso, até, ando tão preguiçoso por aqui. Mas o blog, principalmente, deveria servir para meus “fichamentos” de leitura, objetivo que recupero aos poucos. Depois continuo.

"Cabine telefônica à meia-noite", foto de closedmouth, disponível em wikimedia

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h44

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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