Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

inferno da informação

 
 

inferno da informação

Quando eu quero desligar o computador, tenho de ir até o ícone “iniciar”. Quando quero ligar o celular, tenho de apertar a tecla vermelha, com um “x” ou uma barra em cima do desenho do telefonezinho.

Esse tipo de incompreensibilidade é explorado em grande detalhe por Christian Morel, no seu livro L’ enfer de l’ information ordinaire. O problema dos botões num rádio-despertador, os mistérios do manual de uma lavadora, os dilemas de um formulário do imposto de renda são analisados pelo autor.

Bem ao estilo francês, o tom é mais nervosinho do que bem-humorado. O texto, a cada momento, parece beirar a carta de reclamação de um consumidor qualquer. Mas, logo em seguida, faz um uso muito imaginativo e interessante de teorias lingüísticas.

Veja-se, por exemplo, o pensamento de Christian Morel sobre a necessidade de clicar duas vezes num ícone, quando uma vez só seria suficiente. Ou a necessidade de responder àqueles “pop-ups” que volta e meia aparecem na tela: “você quer mesmo sair deste programa?” Ele compara esse tipo de “resistência” dos comandos ao que acontece com as línguas “créoles”, ou seja, os idiomas “mestiços” que resultam do contato entre o francês do colonizador e a linguagem dos povos locais.

A despeito de suas diferenças, as línguas “créoles” têm contudo um traço comum: a duplicação enfática das formas verbais. Por exemplo, para dizer “estou comendo”, se diz: “nessa coisa de comer, estou comendo” [“je suis en train de manger”/ “question de manger, je suis en train de manger”]. Tome-se o duplo clique nos softwares. A necessidade de clicar duas vezes para abrir um programa ou um arquivo não tem nenhuma necessidade técnica. A navegação na internet, aliás, abandonou esse clique duplo, basta clicar uma vez nos links...

Outra comparação curiosa é com os botões de programação de alguns aparelhos eletrônicos, como o relógio, ou o rádio no painel do carro. Para algumas funções, não existe botão especial. Você deve pressionar o mesmo botão básico durante mais tempo, até que alguma coisa comece a piscar no cristal líquido. Christian Morel compara esse procedimento (que serve para economizar o número de botões) ao que acontece no idioma chinês (?), onde a acentuação mais longa ou mais curta de uma vogal modifica o sentido de uma palavra.

O pior, observa Morel, é a frequência com que são contra-intuitivos muitos procedimentos e modos de usar dessas geringonças todas. Ele cita o exemplo de um forninho elétrico programável.

Quando algum ser humano prevê uma ação no futuro, ele marca uma hora para começá-la e o prazo de sua duração; a hora de encerramento é consequência dessas duas variáveis. Vou jogar tênis às 18 horas, e vou jogar durante uma hora: logo, terminarei às 19 horas. É assim que a gente raciocina. Mas a engenharia do forninho elétrico, baseada numa falsa boa ideia, raciocinou de outro modo e concebeu o sistema a partir da hora do encerramento: para determinar o começo do processo, o usuário tem de marcar a sua duração e a hora em que deseja ver o alimento pronto. [Cria-se assim] um raciocínio que não é natural: planejar uma atividade a partir de sua hora de encerramento. A reação do usuário é ficar procurando em vão no manual como programar a hora de início do funcionamento do forninho.

Um palpite, aqui: talvez esteja faltando a ajuda de um antropólogo, porque como esses produtos são em geral feitos no Japão ou na China, é plausível que o “natural” para nós não o seja para eles. Lafcadio Hearn, um dos primeiros ocidentais a escrever sobre a cultura japonesa, disse que o Japão é o país onde tudo se faz “ao contrário”. Para enfiar uma linha na agulha, por exemplo, eles deixam a linha parada no ar e movem o buraco da agulha na sua direção... O livro está disponível, em inglês, neste link.

Depois continuo.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h31

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

Sarah Palin tupiniquim

Se há alguma inteligência, e não total desespero (o que acho mais provável), na escolha de Índio da Costa para vice de José Serra, talvez dê para encontrá-la no que aconteceu na campanha de John Mc Cain nos Estados Unidos. O senador republicano não representava os setores mais paranoicos e extremados de seu partido, e a escolha de Sarah Palin, desconhecida e bonita governadora do Alasca, teve o duplo efeito de ridicularizar a chapa inteira, pelo grau de ignorância e brucutismo de suas declarações, e ao mesmo tempo de satisfazer a sanha direitista anti-Obama, que Mc Cain encarnava mal.

 

Índio da Costa chama Dilma de “ateia” (como se Serra fosse um coroinha) e diz “ter certeza” das ligações entre o PT e as Farc. É uma espécie de Sarah Palin tupiniquim. O fato é que Mc Cain perdeu por pouco, mas o extremismo da governadora do Alasca mostrou-se longe de ser um fracasso. Ela continua a ter destaque na política americana, e corresponde bem aos desejos do “tea party”, a vasta colcha de retalhos direitista e religiosa que faz barulho nos EUA. O vice de Serra desponta para assumir esse papel de vocalizar o inconsciente político de um PSDB civilizado demais para o gosto da direita local. Que é selvagem o bastante para aplaudir esse Índio de terno e gravata.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h06

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

"Policarpo Quaresma", de Antunes Filho

 
 

"Policarpo Quaresma", de Antunes Filho

Há tempos eu não assistia nenhuma peça dirigida por Antunes Filho. Reencontro em “Policarpo Quaresma” (Sesc Vila Nova) a mesma habilidade em encher os olhos do espectador com grandes cenas de grupo, numa movimentação de massas “corais” por vezes inesperadas (é o caso de uma multidão de loucos de camisola, quando nos apercebemos que Policarpo acaba de ser internado num hospício).

Para quem vê um espetáculo de Antunes Filho pela primeira vez, tudo deve parecer próximo de genial. De minha parte, menos do que uma característica apenas do estilo do diretor, sobressai um ar de truque.

Correrias desabaladas atravessam o palco sempre que o diálogo se arrisca a ficar um pouco chato. Cenas que poderiam ficar um pouco mais solenes ou dramáticas são estilizadas, com os atores andando de perfil em câmera lenta.

A estilização, de fato, parece ser mais importante do que o estilo: resume-se, com efeito, a uma série de procedimentos reconhecíveis (pétalas ou confettis jogadas para o alto, objetos cênicos com rodinhas empurrados a toda velocidade, um certo empenho em esfalfar os atores ao máximo...)

Quando se tratava de encenar Nelson Rodrigues, tenho impressão de que esse jeito estilizado, a maquiagem como máscara, a gesticulação como uma espécie de dança sem música, fazia sentido. O realismo cru seria uma ameaça estética no teatro de Nelson Rodrigues, e a fala dos atores, seu modo de se moverem, de rir e de se agruparem em cena tinham o mesmo efeito daqueles nomes próprios dos personagens rodriguianos, ao mesmo tempo reais, plausíveis, e vagamente fora de foco, como numa antiga foto em preto e branco: Herculano, por exemplo.

Mas “irrealizar” a história de Policarpo Quaresma, que não tinha o espírito de exacerbação suburbana das tragédias de Nelson Rodrigues, é uma opção a meu ver muito errada de Antunes Filho. O espetáculo fica parecendo uma opereta sem música suficiente, ou então um daqueles “resumões” teatrais dos clássicos da literatura brasileira exigidos pelo vestibular.

Policarpo é, como sabemos, um maluco que luta pela adoção do tupi-guarani como língua oficial do Brasil. Uma opção do diretor seria mostrá-lo assim, como uma espécie de Quixote, em conflito com a banalidade, a desonestidade e a estreiteza de seu ambiente real. Outra opção seria mostrá-lo como o único tipo sensato, num ambiente dominado pela loucura coletiva. Antunes Filho escolheu as duas coisas: é um maluco no meio de um ambiente totalmente tomado pela maluquice; Policarpo é tão caricato quanto os demais personagens. Ou melhor, a caricatura é feita do mesmo modo, tanto no Policarpo que aparece como um Visconde de Sabugosa, quanto nos outros personagens: soldadinhos de chumbo num brinquedo infantil, uma negra velha que lembra algum personagem de Chico Anísio, parlamentares de bigodão falso...De modo que a história toda se apresenta como farsa.

Mas, se não há nada sério em jogo, se por exemplo a Revolta da Armada e as atitudes de Floriano Peixoto, que são foco de denúncia amarga nas páginas de Lima Barreto, aqui aparecem como uma espécie de piada sem sentido, fica um pouco difícil saber por que, afinal, escolheu-se encenar aquela história. Se nos dias atuais todos soubéssemos o que foi a Revolta da Armada, se atualmente todos conhecêssemos e prezássemos a historiografia oficial republicana, a peça serviria para desmistificá-la. Mas quando se diz que determinado episódio histórico, que desconhecemos, e que não tem nenhuma ressonância na política atual, “na verdade” foi uma farsa, entra-se na tarefa inglória de desmistificar algo que ninguém estava mistificando. É como se eu publicasse um artigo dizendo que a nova versão proposta pela teologia muçulmana para organizar a coreografia dos dervixes rodopiantes não deve ser levada literalmente a sério.

Tropas de brinquedo aparecem agitando a bandeira nacional em “Policarpo Quaresma”, como para mostrar a tolice que há em agitar a bandeira nacional para saudar o governo Floriano Peixoto.

Mas ninguém está saudando o governo Floriano Peixoto hoje em dia. Qual a “tradução” disto nos dias atuais? Que é tolo entusiasmar-se com o crescimento do PIB no governo Lula? Ou que ser anti-lulista é como ser um Policarpo Quaresma? Que Policarpo Quaresma hoje seria João Pedro Stédile? Marina Silva? Norberto Odebrecht? Que estamos tão corruptos, autoritários e atrasados como nos primeiros tempos da República?

Impossível saber; a “crítica”, que faz todos os personagens parecerem absurdos na montagem não tem adversário definido; é “crítica” abstrata, contra quem diz A e contra quem diz não-A.

Talvez se possa dizer, pensando nas últimas palavras de Policarpo, que se trata de uma autocrítica da geração de Antunes: acreditamos em ideais que não eram possíveis de realizar. Mas isso faria de Policarpo um personagem mais humano, mais sincero. E o que a peça mostra é sobretudo um boneco, um visconde de Sabugosa, uma caricatura, que não podemos tomar como real. A estilização, aqui, se torna puro irrealismo –não há nada de real com que pretendesse se contrastar; irrealismo geral, irrestrito, e no fim das contas irrelevante, como uma opereta.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h47

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Em cartaz | PermalinkPermalink #

Alberto Guzik

Minha lembrança de Alberto Guzik vem de uns quinze anos atrás, quando tive de organizar um desses cursos sobre jornalismo cultural que são na verdade uma série de palestras independentes, uma sobre crítica de artes plásticas, outra sobre crítica literária, outra sobre crítica de TV, e assim por diante.

Havia dois convidados para falar sobre teatro: o diretor da Companhia do Latão, Sérgio de Carvalho, que falaria das 14 às 16h, e Alberto Guzik, nas duas horas seguintes.

Sérgio de Carvalho expôs, de forma cortante e praticamente irrespondível, suas convicções a respeito do que deveria ser o teatro –brechtiano, engajado—e atacou, com muito brilho, o teatro e a crítica que vinham sendo feitos no Brasil.

Como em geral sempre gostei do que vi da Companhia do Latão, minha concordância com suas teses era muito grande, mas não me cabia comentar a palestra. Sei que sobrou alguma para o Alberto Guzik, não me lembro se ele chegou a ser citado nominalmente, mas acho que sim.

Sim, com certeza. atenção! LEIA O COMENTÁRIO DE SÉRGIO DE CARVALHO ABAIXO. Pois o fato é Sérgio de Carvalho foi embora, e Guzik só chegou depois, sem saber o que tinha sido dito antes. Senti-me na obrigação, sempre meio desconfortável, de informá-lo das críticas que lhe haviam sido feitas. Eu também estava levemente sem-jeito porque havia escrito uma resenha sobre um romance dele, a respeito de um relacionamento interrompido pela Aids; o livro não me convencera muito, e isso não era difícil de intuir na minha resenha.

Veio a palestra de Guzik.

A primeira coisa que chamava a atenção era a beleza da sua voz. Poderia ser uma dicção um pouquinho puxada para o teatral, no gênero TBC-BBC, algo aristocrático, mas não trazia afetação nenhuma. Era um timbre ao mesmo tempo seguro e nada arrogante, firme e ao mesmo tempo modesto. O modo de Guzik mexer as mãos e inclinar a cabeça também tinha essa característica quase grã-fina, mas temperada de naturalidade, de simplicidade até.

A palestra foi indo por vários assuntos, e Guzik deixou para se defender no final. Falou com bom senso, mas já com um pouco mais de paixão. Não havia fórmula certa nem errada para o teatro; o bom do teatro é que coisas boas podem ser feitas a partir de interesses, enfoques, preferências, escolas absolutamente diversas, e que cada um seja livre de fazer o que lhe parecer mais importante.

Dito assim, a seco, parece apenas um certo liberalismo eclético, que tem suas limitações, tanto quanto o exclusivismo estético do engajamento. Mas Guzik parecia pôr a sua vida toda naquelas frases –e eu, que comecei achando-o um pouco diminuído diante do rigor de Sérgio Carvalho, percebi que estava diante de um homem que, com serenidade, marcava o seu lugar, o seu valor, a sua inteireza.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h59

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

o livro-objeto

 
 

o livro-objeto

É moda prever o fim do livro, e é moda também dizer que o formato impresso é insuperável, que o cheiro do papel etc. fazem parte da experiência da leitura. Não tenho opinião sobre isso, mas observo uma coisa estranha.

 

Quanto mais falam que bom mesmo é o livro que você apalpa, dobra e cheira, mais aparecem invencionices no campo editorial.

 

Recebi agora um livro de Veronica Stigger, intitulado “Os anões”. O formato é compacto, bonito, com a capa naquele acabamento preto que os anúncios de celular e de laptop chamam de “steinway piano”, e com os cantos das páginas na bonita curvatura de uma carta de baralho, a exemplo da última edição de “Alice no País das Maravilhas”.

 

Muito bem. Você vai abrir o livro e, surpresa! Cada página é dura como um pau, plastificada, de modo que gruda na seguinte, e tem mais ou menos a espessura de um CD. Sinto-me como se tivesse voltado ao tempo em que a escrita era feita em tabletes de argila.

 

Qual a ideia, qual a justificativa dessa petrificação literária? Talvez tenha raiz num paradoxo. Já que a “materialidade” do livro deve ser valorizada diante de seus concorrentes eletrônicos, resolve-se fazer um livro bem “material”, sólido como um tijolo de baiano. Já que o livro é, antes de tudo, um “objeto”, faz-se o “livro-objeto”, o livro-peso de papel, o livro-enfeite, o livro-móbile, o livro-escultura...

 

Já vi livros sem capa, livros amarrados com barbante, livros com páginas de pano, livros com fibra de coco reciclada... Servem para dar de presente, e aliás é isso o que vem sustentando, imagino, parte da indústria editorial. Começou com os livrões de arte, livros contando a história da Ferrari ou com as 1000 bolsas Louis Vuitton que você deve comprar antes de morrer.

 

Agora, textos de literatura, de ficção, vão se embalando desse mesmo jeito; não que não possam ser lidos, mas o que importa é que sejam comprados, e quando você compra para não ler, é porque provavelmente comprou para dar de presente.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h30

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

o vice de Serra

Copio um trecho do artigo desta quarta-feira para a Ilustrada.

Alguns dias a mais, e o próprio Dunga poderia ter sido cogitado. Aplaudiram-no em sua volta ao país; é popular; é sério; é realista; sua ficha, ao que consta, é limpa; veste-se com apuro, não gosta de demagogia e já não promete muita coisa.

Ademais, Dunga não deve ter críticas à exploração do pré-sal, nunca falou em plebiscito sobre a pena de morte, e há de considerar radical demais a proposta de multar os cidadãos que deem esmolas na rua. Três pontos que o tornam mais moderado, ou menos exótico, do que Índio da Costa.

Multar quem dá esmolas! Em matéria de Estado policial, creio que nunca se imaginou ameaça tão severa contra as classes privilegiadas.

Brincadeiras à parte, o problema da escolha de um vice nunca é fácil de resolver. Há sempre a questão dos palanques estaduais, o tempo na TV, a composição com os demais partidos da aliança.

Provavelmente, tudo ficou mais complicado para o PSDB por alguns motivos de ordem política e outros de ordem pessoal.

Passo rapidamente pela questão política. A candidatura Serra hesita entre a identidade puramente oposicionista (Álvaro Dias reforçaria isso) e o perigo de confrontar-se com a popularidade de Lula. A situação partidária força uma aliança à direita (Dornelles e Kátia Abreu seriam os nomes adequados), mas o clima predominante é redistributivista e pró-Estado, e o próprio Serra se sente desconfortável quando levado a defender o oposto.

O vice do tucano, assim, teria de ser precisamente alguém que não significasse nada, que não inclinasse a balança para nenhum lado.

A questão não é apenas política, mas também pessoal. Fulano? Não suporta Serra. Beltrano? Serra não o engole.

Ninguém é bom o bastante para que Serra o aceite, e ninguém é tão ruim que não possa rivalizar com ele.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h09

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Aruba para quem merece

A foto, aberta em duas páginas,  é como um imenso colírio azul, claríssimo, irreal: é o mar e o céu de Aruba, cercados de nuvens brancas como um sonho. O anúncio é da Lew Lara, e vem com esta frase, flutuando sobre o horizonte:

 

EU FINJO QUE ESTOU DORMINDO PARA NÃO DAR LUGAR NO ÔNIBUS.

 

E, manuscrito em hidrográfica preta, o corolário:

 

Ninguém é bom o suficiente para o paraíso.

Vá para Aruba.

 

Eis um caso, especialmente perverso, do velho refrão publicitário “Porque você merece”. O lema é conhecido: ninguém tem a menor necessidade de um Tag Heuer com mil mostradores, nem de uma bolsa Louis Vuitton em couro de crocodilo cor-de-rosa. Sabemos que você não precisa. Então dizemos que você “merece”, como se a justificativa para tamanho gasto fosse uma premiação por aquilo que você fez. Mas o que você fez? Nem você sabe. Você merece não porque fez alguma coisa, mas por outra razão. Você merece porque é rico.

 

Aqui, no anúncio de Aruba, a jogada foi inverter os sinais. Você não merece (o paraíso). Então, tem direito a Aruba; é por modéstia, por humildade, quase que por penitência que você vai para lá.

Afinal, sabemos de seus pecadilhos. Por exemplo, o de fingir que está dormindo para não dar lugar no ônibus.

Mas um momento! Nunca fingi estar dormindo para não dar lugar no ônibus.

Não porque eu seja especialmente ético.

É porque eu nunca ando de ônibus.No máximo, fingi estar dormindo para não conversar com o motorista do meu Bentley.

O publicitário sorri. “Sim, sabíamos disso... Está vendo? Você é mais inocente ainda, então. Pode ir a Aruba e ficar não num hotel cinco estrelas comum (isso é para quem anda de ônibus), mas num resort com campo de golfe freqüentado pela Paris Hilton. Aliás, você se lembrou de comprar alguns sapatos de golfe novos?”

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

você pensa o que acha que pensa?

 
 

você pensa o que acha que pensa?

Diz Dostoiévski:

 

O homem tem tal predileção por sistemas e deduções abstratas que está disposto a negar intencionalmente a verdade, a negar a evidência dos seus sentidos só para justificar a lógica.

 

Nada mais errado, dizem Julian Baggini e Jeremy Stangroom (e não Strongroom, como escrevi no artigo desta quarta-feira). Eis o comentário dos dois filósofos, no livro Você Pensa o que Acha que Pensa?

 

Se você se pegou fazendo que sim com a cabeça e concordando com Dostoiévski nessa cáustica rejeição da lógica, este teste poderá fazê-lo pensar duas vezes. Dostoiévski não tinha razão: os seres humanos são terríveis quando se trata de lógica e estão dispostos a negar a simples evidência dela só para justificar palpites e intuições.

 

O que se segue, no capítulo 2 desse livro, é uma série de exercícios, com suas soluções explicadas, que parecem simples mas pegam em contradição mais que três quartos dos leitores.

 

O melhor do livro, entretanto, é o primeiro capítulo, onde se mede a coerência interna das opiniões do interessado. São 30 frases, e o seu trabalho é apenas dizer, sobre elas, se concorda ou discorda, genericamente. Exemplo:

         “As pessoas não deveriam usar o carro se pudessem fazer o mesmo trajeto a pé, de bicicleta ou de trem”.

         “Os genocídios são uma prova da capacidade humana de praticar um grande mal”.

         “A medicina alternativa vale tanto quanto a medicina tradicional”.

 

Você vai respondendo, e depois preenche uma tabela complicada, onde se identificarão os seus “pontos de tensão” opinativa. É interessante, e o tom dos autores é muito bem humorado.

 

A íntegra do artigo que escrevi sobre o livro está disponível, para assinantes do UOL, aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h39

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.

free stats