Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

"a invenção das crenças"

Este é o título do ciclo de conferências do qual participo, nesta segunda-feira em São Paulo, depois em Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. Ando batendo a cabeça com esse assunto, sem ter conseguido formular muita coisa depois um bom período de leituras chatas sobre opinião pública. Em todo caso, ponho aqui algumas primeiras anotações para a palestra que vou ter de apresentar.

O assunto que me foi proposto é o das relações entre “crença” e “opinião”.

Confesso que andei um pouco perdido diante dessas duas palavras, que muitas vezes se aproximam muito; vou tentar me limitar aqui a comentar algumas questões talvez um pouco abstratas, mas acho que pelo menos dotadas de atualidade.

A pergunta básica que eu gostaria de formular, como início desta discussão, é  a seguinte. Afinal de contas, é possível, hoje, alguém ter opinião? Uma opinião própria, pessoal, individual, sobre qualquer assunto? Naturalmente, todo mundo tem suas crenças. Está convicto, por exemplo, de que Deus existe, de que duendes existem, de que a vacina que tomou contra a gripe suína de alguma coisa deve servir. A força dessas crenças, eu acho, já é uma questão muito relativa, porque não sabemos exatamente, nem a própria pessoa sabe, exatamente em que ela acredita quando ela diz que acredita em Deus, nem o grau de certeza que ela tem, depois de tomar a vacina, quanto à sua imunidade real diante da gripe. A dúvida, muitas vezes, é quase tão superficial quanto a crença; é só questão de raspar um pouquinho, para que ela apareça, e ninguém tem a mesma solidez de convicções durante as 24 horas do dia.

Estou usando aqui termos como “crença”, “convicção”, “certeza”, de forma muito genérica, sem me importar muito com a precisão, as diferenças que possa existir entre uma coisa e outra.

De todo modo, se me parece possível, e natural, que uma pessoa tenha “crenças”, minha pergunta é sobre se é possível, hoje, alguém ter opiniões. Ah, certamente, você vai dizer, as pessoas têm opiniões. Eu tenho, você tem, não existe nada de problemático nisso.

Pode ser, mas o que me inquieta, e começa a parecer para mim sinal de que existe, sim, algo de problemático nisso, é que se fala o tempo todo na figura do formador de opiniões. Não existe, ao que eu saiba, a figura do formador de crenças. Seria, talvez, o apóstolo, o pregador religioso, o líder carismático, o propagandista. Mas o que é, e o que faz, o formador de opiniões?

Ou seja, para reformular a pergunta. Por que, a uma certa altura, aquilo que parecia ser da ordem exclusivamente pessoal, a “opinião”, passa a ser entendida como algo que se oferece no mercado das ideias? Por que é que uma coisa que deveria “nascer” de nossa própria experiência, de nossa própria reflexão, de nosso contato com livros, jornais, com a realidade cotidiana, passa a ser visto como algo que depende de outros –dos “formadores de opinião”—para ser formada?

 PS- Agradeço muito os comentários postados, cheios de sugestões e bibliografias. Foram se acumulando enquanto eu não postava, de modo que demorei a responder, mas a "parada" no blog até que valeu a pena por atrair tantas contribuições...

Escrito por Marcelo Coelho às 01h56

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"Patópolis", resenhado por Gilberto Kujawski

Não resisto, e passo o link para o texto, muito generoso, de Gilberto de Mello Kujawski sobre meu novo livro. Pode ser lido aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h18

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Frank Kermode

 
 

Frank Kermode

Não vi se deram direito no Brasil, mas morreu nesta semana o crítico Frank Kermode, que tem seu "Um apetite pela poesia" e "A linguagem de Shakespeare" traduzidos por aqui. Aos 90 anos, ele tinha passado mais ou menos incólume pela voga da "teoria", da desconstrução e outros bichos, embora "The sense of an ending", o único livro dele que comecei a ler, fosse um bocado difícil; acabei desistindo, não por culpa da dificuldade dele, mas por desleixo mesmo... Kermode também aparece, de forma muito simpática, no documentário que Al Pacino fez sobre "Ricardo III", uma aula de interpretação shakespeariana, pelo menos do ponto de vista de quem não é britânico. Mais sobre Kermode pode ser lido aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h17

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DVDs sem prazo para devolver

Este blog não deveria ser lugar para se fazer propaganda, mas achei a ideia tão boa que não resisto a divulgá-la, sem ganhar nada com isso.

         Imagino que muita gente tenha os mesmos problemas que eu com as locadoras de DVD. Você aluga 2, 3 filmes, achando que vai ter tempo de assistir a eles, e quando vê passou dez dias sem devolver e acaba com uma multa enorme nas costas.

         Pois bem, recebi um mailing, relacionado à Abril, com uma oferta do site netmovies.

         O negócio funciona assim: você paga uma mensalidade, faz uma lista pela internet dos filmes que quer assistir, e eles entregam o DVD na sua casa.

         Com uma grande vantagem: você NÃO tem prazo para devolver!

         Fica quanto tempo quiser, e avisa quando quiser que busquem. Só então eles te mandam outro DVD da sua lista.

         O negócio é muito inteligente. Como funciona na base de uma mensalidade, no fundo você está, sim, pagando pelo atraso. Se demora 15 dias para ver um filme, vê 2 filmes por mês, e paga a mesma quantia de quem vê 20 filmes por mês.

         Mas o que era dívida e preocupação, no caso das locadoras comuns, se torna luxo e comodidade, no caso da entrega a domicílio.

         Naturalmente, o preço do motoboy há de estar incluído na mensalidade.

         Mas eles economizam em logística (o DVD chega num envelopinho fino, não numa caixa de plástico que ocupa espaço para armazenar) e com os gastos de manutenção de cada filial, com seus atendentes, espaço de estacionamento, gastos de luz e aluguel, etc.

         Além disso, conseguem diminuir o número de DVDs ociosos, esperando na prateleira: você pôs uma lista de 20 DVDs que gostaria de alugar, e eles entregam conforme a disponibilidade deles. Numa locadora comum, eles têm de ter vários exemplares do mesmo DVD, que você e muito mais gente aluga e fica sem assistir... O tempo que você demora para ver o filme entregue a domicílio é “pago” por você mesmo, enquanto espera que outra pessoa, igualmente preguiçosa, veja o filme dela, que você também pediu...

         Todas as contas feitas, a ideia é genial. Durará pouco, imagino, porque daqui a alguns anos o download ficará muito mais fácil e a conexão entre o computador e a tela da TV será resolvida por algum tipo de “wi fi” qualquer.

Enquanto isso não acontece, a gente pelo menos pode esperar sentada.

         Detalhe, na promoção o primeiro mês custa 1 real.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h39

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Serra em parafuso

Em matéria de campanha eleitoral, minha curiosidade agora se resume ao seguinte: quem é, como surgiu, quando foi inventado e por que foi escolhido o marqueteiro de José Serra.

 

A iniciativa de colocar Serra na garupa de Lula valeria o prêmio de maior desastre em marketing eleitoral dos últimos 20 anos. Aliás, talvez valesse puxar pela memória e fazer uma lista.

 

Claro que não é esse erro que fez Dilma subir. Ela subiria de qualquer modo, por representar a continuidade de um governo com índices imensos de popularidade.

 

Mais uma vez, recomendo a esse respeito “A Cabeça do Eleitor”, livro do sociólogo Alberto Carlos Almeida, que demonstra em grande número de casos e exemplos a probabilidade quase certa de continuísmo nas eleições quando a popularidade de um governante é alta.

 

Mas se uma candidatura oposicionista estava praticamente condenada, desde o início, a perder esta eleição, isso não é desculpa para a malandragem tentada no horário político de Serra.

 

Dizer que a Dilma está tirando os méritos de Lula, está se apropriando da obra que Lula fez, como diz o jingle serrista, só não é totalmente malandragem porque é uma imensa burrice também.

 

Quem queria votar em Serra porque ele é oposição a Lula se sente traído. E quem é a favor de Lula percebe na hora que Serra está mentindo ao atrelar-se ao sucesso governista.

 

A estratégia é desonesta com quem é da situação e com quem é da oposição.

 

No fundo, o erro político de Serra vem de muito antes.

 

Fez a campanha situacionista na sucessão de Fernando Henrique. Apoiou publicamente um governo de cuja política econômica, no íntimo, ele discordava.

 

Ficou como candidato de oposição ao governo Lula, discordando mais do conservadorismo de seus aliados do que das linhas distributivistas e desenvolvimentistas de Dilma e Mantega.

 

Nos dois casos, preferiu criticar os aliados, nos bastidores, a dizer o que de fato pensa, em público.

 

O Ibope é o ópio dos políticos. Quando estava com índices altos de popularidade, Serra não se expunha; fez o mesmo que todos os outros, aliás. Quando começou a cair, não tinha nenhum discurso em que se segurar, e acaba caindo dos dois lados ao mesmo tempo. Cai porque é oposição, cai porque tenta fingir que não é oposição, cai porque gostaria de não ser oposição, cai porque gostaria de ser mais oposição mas acha que com isso cairia mais ainda.

 

A moral da história não depende, entretanto, das atitudes pessoais de Serra. É que, contra uma candidatura de centro-esquerda, chame-se varguista, populista, corrupta ou o que quer que seja, o lugar da oposição teria de ser ocupado por uma candidatura de direita, chame-se liberal, lacerdista, udenista ou o que quer que seja.

 

Esta iria provavelmente perder; mas o fato é que Serra não se encaixa nesse papel. Um candidato, mesmo derrotado, que seguisse o figurino de Lacerda poderia marcar posição e crescer daqui a quatro ou oito anos. Por estranho que pareça, a propaganda com Serra e Lula lado a lado expressa uma identificação real. Para falar romanticamente, a vida os separou... E

 

Enquanto isso, Tiririca apóia Mercadante, Serra tem de vice o Índio da Costa, a “social-democracia brasileira” obedece aos ruralistas e quem já foi leninista ou trotskista anda de braços dados com a bancada evangélica e a família Sarney.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h21

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"Com Quem Fica o Coração"

 
 

"Com Quem Fica o Coração"

Assisto à montagem de “Com Quem Fica o Coração”, espetáculo de grand-guignol dirigido por Maurício Paroni de Castro. Declaro meu interesse novamente: trata-se de grande amigo meu, que pôs em cena alguns contos de Voltaire de Souza no espetáculo “Aqui Ninguém é Inocente”, da sua companhia, a Manufactura Suspeita.

         Entra-se no teatro Ruth Escobar, e os atores já estão em cena, no que parece ser uma sala de cirurgia clandestina. O médico (Carlos Meceni) realiza uma autópsia, atrás de uma bancada; o cadáver não se vê. A morta, sim: Janine Corrêa está de pé, vestida com a bata branca dos pacientes, e comenta um pouco sua própria condição. O ajudante do médico (Josué Torres) aparecerá mais tarde. Um rádio toca música e pregação evangélica.

         Em primeiro lugar, o que chama atenção é a absoluta naturalidade na voz, na dicção de Carlos Meceni. É um operador entediado, falando barbaridades enquanto opera outras no corpo em morte cerebral. Seu cientificismo cínico irá contrastar, assim como seu vocabulário e sotaque, com o credo religioso, a linguagem e a mentalidade para lá de classe C do seu ajudante.

         Aos poucos se estabelece, com precisão extrema de detalhes, a diferença social e psicológica entre os dois personagens. Escrever isso é escrever pouco: o ajudante evangélico simplesmente não pensa segundo as mesmas regras do médico; as objeções e comentários que este lhe faz são ignoradas, num fluxo de ideias, convicções e narrativas que funciona sozinho. O ajudante é detalhista em suas memórias do passado: cita marcas e modelos de caminhão, raças de porco e de zebu, atropela-se citando personagens e mais personagens de algum episódio que viveu, sem se dar conta das ironias e das críticas do médico. Este, por sua vez, despreza o interlocutor, aborrece-se, reclama dos próprios problemas, atende a um sinistro celular. Sua familiaridade com a morte e com o mal é levada como um papo de boteco, enquanto a credulidade do antagonista tem o aspecto delirante que não é apenas o de uma religião fundamentalista, mas o de uma mentalidade quase que mutilada pela experiência da pobreza e da deseducação.

         Os detalhes chocantes da trama não podem ser contados, mas deve-se registrar a abundância de sangue espirrado e humor negro ao longo da peça. O entrecho, que poderia ser mais esclarecido num ponto ou outro –esta é uma das críticas que sempre endereço a Maurício Paroni—interessa menos, contudo, do que o conflito em cena. De um lado, o racionalismo pragmático do médico, com o qual nos identificamos (até notar o abismo de perversão a que conduz). De outro, a irracionalidade pura do evangélico, que parece mais inocente, e com a qual é impossível identificação imediata, e menos ainda depois de se notar o extremo de brutalidade de que é capaz. Racionalismo e irracionalidade se espelham de modo aterrador no texto –tornando a presença da morta, esta é outra crítica, um pouco sem função durante boa parte do espetáculo.

         “Com Quem Fica o Coração” está em cartaz no Ruth Escobar, somente às quintas-feiras, às 21h30.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h01

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O mundo de Duda Mendonça

Eis um fenômeno novo na campanha eleitoral deste ano: é o videoblog de Duda Mendonça. O publicitário e marqueteiro ascende ao papel de astro absoluto, e expõe, para os próximos interessados, toda a sua vitrine para 2010.

Você clica num Estado da federação, e surge o cardápio dos “candidatos Duda Mendonça”. No Rio de Janeiro, por exemplo, o “candidato Duda Mendonça” é Lindbergh Farias, aspirante ao Senado. É uma grife mesmo; sua campanha é “by Duda Mendonça”. Aparece então um filmezinho, com o “making of” da campanha.

E o que vemos é incrível, pois se trata de Duda Mendonça vendendo seu produto ao candidato. Faz a publicidade da publicidade, por assim dizer; declara como ele próprio achou bom o jingle que criou para Lindbergh. Os candidatos parecem ser instrumentos de Duda, e não o contrário.

Em resumo: quando se acha que a farsa já chegou a um ponto de total transparência, sem mais nenhum disfarce, surge um fato novo, a desvelar ainda mais explicitamente o jogo do cinismo e da manipulação.

O blog pode ser acessado aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h22

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lançamento "Patópolis"

Quem acompanha o blog já leu alguma coisa do meu novo livro, que será lançado na próxima terça-feira, dia 17/8, a partir das 18h30, na Livraria da Vila, Fradique Coutinho, 915. Perguntaram-me se é livro infantil, mas não. Trata-se mais de um misto de memória e ficção, na verdade. Aqui vai a capa.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h00

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inferno da opinião

Ainda me preparando para uma palestra sobre “crença e opinião”, leio Les Fers de l’Opinion, de Philippe Bénéton (PUF, 2000). Traz a velha queixa conservadora contra a unanimidade iluminista; diz que a liberdade de opinião vale pouco quando alguém resolve criticar os exageros do anti-racismo ou manifestar-se contra o aborto. Elogia o clima mais plural da opinião pública norte-americana, quando afastada dos centros de pensamento liberal, como o New York Times. Escrito antes do 11 de Setembro, é um livro difícil de interessar depois do conservadorismo galopante dos últimos dez anos. Em todo caso, aponta uma ou outra questão que pode ser analisada.

Por exemplo, a tendência para se transformar tudo em “questão de opinião”.

 

O julgamento de opinião [ou juízo opinativo] começa desde que seja subentendido algum termo como: “De minha parte, acho que...” O conhecimento não se exprime, por exemplo, quando alguém diz “De minha parte, acho que o triângulo tem tais e tais propriedades”. Nem o testemunho: “De minha parte, acho que estou desesperado”. O ponto de apoio da opinião não está na realidade externa das coisas que se impõe ao sujeito do conhecimento, não está no engajamento da testemunha que dá a perceber o que se passa com ela, mas está na afirmação de si mesmo com relação aos outros (...) No limite, o opinador fala apenas de si mesmo quando fala de outra coisa.

 

... Eis algumas fórmulas que, quando sinceras, são sinais de liberdade de espírito: “Eu não sei, eu não entendi, é preciso colocar a coisa nesses termos? Eu me enganei, a questão está aberta, é preciso saber escolher as próprias ignorâncias...” Não são as fórmulas do opinador: “para mim, na minha opinião, isso é você quem acha, é a verdade de cada um...” Quais são as que dominam no discurso atual? A suspensão do juízo nunca é praticada se levarmos em conta apenas as pesquisas de opinião. Que aconteceria com os institutos de pesquisa se cada um se limitasse ao que verdadeiramente pensa?

 

Bénéton dá o exemplo de uma pesquisa realizada na França, pelo SOS Racismo, que perguntava o seguinte a um grupo de políticos:. “Se um dos seus filhos lhe dissesse que tem a intenção de casar com um negro, um judeu ou um árabe, qual seria a sua reação?” As respostas foram ótimas, é claro.

 

Que isso quer dizer a não ser que a armadilha funcionou bem?A pergunta diz, nas entrelinhas: quem quiser livrar-se da suspeita de racismo no mínimo deve dizer, como um dos entrevistados, “no problem”. Mas uma articulista, Annie Kriegel, recolocou as coisas nos devidos termos. “Por que mecanismo de hipocrisia ou pânico diante da acusação de racismo seria necessário ser esmagado se alguém diz que o qualificativo de “árabe” –aqui o termo genérico, de conotação pseudo-racial—designa um operário especializado sem cultura e de fé muçulmana (implicando para a sua esposa um estatuto de semi-reclusão)? Seria difícil que um intelectual de classe média, com nacionalidade francesa e algum tipo de fé católica, saltasse de entusiasmo se sua filha o informasse que vai se casar com aquele “árabe” específico. Mas se o “árabe” em questão designa um emir nadando em dinheiro, educado na Suíça, por que não? Devemos aceitar como “racista” o desejo fervente de ter seus netos educados na religião de seus avós?

 

Hum. Quando a pergunta fala em “árabe”, sem especificar do que se trata, é justamente porque quer medir se o pai tem restrição ao genro exclusivamente por ele ser árabe. O que não quer dizer, evidentemente, que a pesquisa esclareça muito sobre as tensões reais em funcionamento na sociedade francesa. Que podem  ter razões mais complexas –e outros culpados—além de um “racismo” abstrato, à la 1930.

 

O principal, em todo caso, é o modo com que se usam pesquisas para simplificar os problemas, e para obter respostas de efeito político unívoco.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h02

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"Meu malvado favorito"

 
 

"Meu malvado favorito"

Não sabia, até abrir a internet hoje, que “Meu Malvado Favorito” estava arrasando nas bilheterias. O filme infantil era só uma estreia de animação como as outras, que fui ver dentro da programação dominical do Dia dos Pais; o fato é que ganha mais dinheiro do que “A Origem” (mas a matéria lembra que os ingressos de “Meu Malvado Favorito custam mais).

Bem, não importa. A animação vale mesmo a pena. O foco principal da história, desta vez, é um vilão, que enfrenta um jovem rival nerd (um pouco no estilo Bill Gates) no seu objetivo de cometer o crime do século: roubar a lua. Para isso, tem de contar com a ajuda de três meninas órfãs, que ficarão expostas à sua mentalidade, digamos, sinistra.

Sem contar mais nada, só posso garantir que o filme assegura uma retumbante vitória do bem contra o mal. Vitória que se faz, entretanto, não com os habituais recursos atômicos e destrutivos do clichê cinematográfico.

Uma equipe de ajudantes eletrônicos, misto de bananinhas e bactérias, está a serviço do vilão, e contamina o filme todo com uma graça irresistível. A exemplo dos pingüins de “Madagascar” e do esquilo ansioso da “Era do Gelo”, certamente essa turma vai reaparecer em outras produções.

De alguma forma, é como se aqueles robozinhos fossem o inconsciente anárquico e infantil do vilão –cujas atitudes, de forma sem dúvida perversa, não se distinguem muito das de qualquer pai às voltas com a bagunça das crianças dentro de casa.

Conquistar a lua, no caso do vilão, equivale à luta real de toda criança para conquistar a atenção de pais e mães distantes. O recurso à disposição dos personagens do filme é um raio miniaturizador, capaz de fazer a lua caber no bolso de quem a quisesse roubar. Aplicado aos pais, esse raio de miniaturização, ou processo de “re-infantilização” psicológica, é então o que garantiria às crianças reais o domínio sobre os sentimentos dos mais velhos; aproxima-os delas, à medida que os faça capazes de brincar, e de esquecer seus objetivos de ganho, de sucesso, de trabalho. Para um Dia dos Pais, serve de lição. Não que eu me considere muito ausente ou desatento quanto às demandas dos meus filhos. Mas eles, naturalmente, são de outra opinião.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h11

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teoria da surpresa

Jean-Louis Dessalles, citado no post anterior, tem uma teoria curiosa a respeito do que é que produz interesse nas pessoas; assunto que interessa, é claro, a jornalistas. Ele diz que "um evento é inesperado quando é mais fácil de ser descrito do que de ser produzido". Penso nos truques de um mágico, por exemplo. Mas ele cita vários outros casos (resultados "redondos" na loteria, coincidências em geral) na sua página da web. 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h46

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inferno da informação (2)

 
 

inferno da informação (2)

Christian Morel, em L’enfer de l’information ordinaire (Gallimard, 2007), conta o caso de um acidente de avião, ocorrido em 1998. As notícias sobre o desastre, no qual morreram os 215 passageiros e os 14 tripulantes, naturalmente ocuparam os jornais daquela época.

Só em 2003, cinco anos depois, veio a público um relatório completo a respeito do acidente. Foi praticamente ignorado pela imprensa, embora trouxesse revelações de grande importância.

Por exemplo, a de que vários materiais da cabine, que se julgava à prova de fogo, eram na verdade altamente inflamáveis. Um pequeno curto-circuito incendiou os forros de isolamento térmico e acústico do avião, feitos de um material aprovado pelos organismos de segurança aérea. Uma reportagem do USA Today revelou, ademais, que a fiscalização sobre a segurança dos equipamentos eletrônicos do avião era feita por uma empresa que não tinha a menor independência para a tarefa: recebia dinheiro dos próprios fabricantes do equipamento.

Quem quer que tivesse lido as notícias sobre o acidente, em 1998, naturalmente perguntou sobre as causas do que aconteceu. Erro do piloto? Falha mecânica? Não me espantaria se as diversas hipóteses tenham sido consideradas nos jornais, com as possíveis entrevistas e declarações de alguns especialistas de assunto. A névoa da opinião, o jogo das diferenças de opinião, evidentemente não faz com que “cada leitor possa formar sua própria opinião”, pois o que falta no caso, tanto a especialistas quanto a repórteres e públicos, é uma quantidade de informações exatas, que só poderiam ser levantadas depois de longo inquérito.

Morel cita esse caso como exemplo de “história truncada”. O acidente é noticiado, mas não sabemos o que pensar sobre ele. As conseqüências mais sérias de toda a investigação –a saber, que tipo de materiais inflamáveis continua a ser utilizado nas cabines de avião, e quem fiscaliza isso—são ignoradas.

A notícia sobre o acidente seria uma instância extrema, segundo seu raciocínio, daquilo que ele chama “enunciado sem argumento”. Ou seja, uma situação em que a informação, por mais detalhada que seja, está solta, e “cai no vazio” (tombe à plat).

Veja-se um outro exemplo que Morel cita, baseado num texto de Jean-Louis Dessalles. Alguém fala de uma lebre, encontrada solta nas ruas de Paris. A informação desencadeia conversas porque ela traz uma problemática, e sugere uma estrutura argumentativa: os porquês do fato que se está comunicando. Como ele veio parar na rua? Quem é o dono dele? Por que ele está na rua? Mas se eu digo “um carro tem quatro rodas”, não há nada o que tirar dessa “informação”. O interlocutor, no máximo, vai perguntar “por que você está dizendo isso?”

Ou seja, o que está em jogo aqui é que toda afirmação inclui uma “argumentação” implícita; esse conceito citado por Morel vem do lingüista Oswald Ducrot, para quem as “razões” daquilo que se diz são constitutivas de todo ato de comunicação. “Um enunciado sem argumento não tem sentido, ou, mais precisamente, não permite conclusão”, diz Morel (p. 223).

Ele dá um exemplo muito simples, mas que considero especialmente interessante se aplicado para o jornalismo. O exemplo vem de uma receita de culinária. Lemos na receita uma instrução como “acrescente um pouco de açúcar”. Eis uma instrução que poderia ser mais precisa (“acrescente 15 gramas de açúcar”), mas a precisão no caso só serviria para dificultar o trabalho do cozinheiro, eu acho.

O problema, em todo caso, não é só saber o que consiste “um pouco de açúcar”, mas entender a receita. Morel continua: se a receita disser “acrescente um pouco de açúcar para quebrar a acidez do molho, ou da calda”, o cozinheiro perceberá o sentido da instrução, e poderá regulá-la melhor, imagino, segundo o seu próprio gosto. Ou, se a receita disser “acrescente um pouco de açúcar se você gosta de mais contraste entre o salgado e o doce”, eu posso concluir se quero ou não usar o ingrediente, e em que quantidade vou usar.

Trata-se, em suma, de uma argumentação, no sentido de Ducrot, o que não significa dizer alguma coisa em termos de certo ou de errado, ou de tentar persuadir alguém de alguma crença específica.

 Estamos aqui liberando, por assim dizer, a opinião do leitor sobre o caso, ou, mais precisamente, o gosto do cozinheiro. O que se ganha, em termos de texto, é uma questão de legibilidade, de entendimento, que não se confunde, por exemplo, com a pura precisão quantitativa (15 gramas), que é honesta e científica, mas em certa medida não é “humana”, ou não está em conformidade com o interesse do leitor.  

Adriaen Brouwer, Fazendo panquecas (c. 1625), wikimedia

Escrito por Marcelo Coelho às 17h19

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gordura e alguns conflitos

Uma leitora fez críticas ao artigo de hoje na “Ilustrada” (ver post anterior). Transcrevo seu e-mail.

 

Li sua matéria de hoje na Folha Ilustrada (Gordura para todos), e como você mesmo escreveu "há revista para tudo", gostaria de acrescentar que há matéria para tudo também, como a sua de hoje, sem um assunto inteligente ou que acrescente informação ao nosso dia, mas que pelo contrário, ajuda a destruir sonhos e vontades de pessoas que lutam para ser feliz sim, do jeito que são, desde que tenham saúde. Não discordo de você em alguns pontos a respeito da revista, mas se sua crítica teve um foco, você o perdeu no meio do caminho pois afetou as leitoras gordas e demonstrou claramente sua repugnância à este tipo de mulher.

Por outro lado, despertou o interesse de muitas pessoas em conhecer a revista Beleza em Curvas, te agradeço e não tenho dúvidas que muitas dessas curiosas podem ter a autoestima, a motivação e até mesmo a vida mudada por ler uma simples revista que não entra em contradição com o que apresenta, mas demonstra a realidade de uma mulher gorda, os seus constrangimentos, dificuldades e as soluções que elas podem dar para isso, seja emagrecendo ou se aceitando de maneira saudável.

Feliz ou infelizmente não uso tamanho 48, mas já sou leitora da revista Beleza em Curvas e sempre tenho contato com pessoas acima do peso. A propósito...além de formado em Ciências Sociais, mestre em Sociologia, entre outras coisas das quais aproveito para parabenizá-lo, quando é mesmo que você foi gordo para falar de uma gorda com um jeito tão áspero?

P.S. Outra carta:

Depois de ler sua coluna de 4 de agosto, “Gordura para todos”, fui procurar a tal revista na internet.

Não discuto suas críticas sobre o domínio de texto dos redatores.

No entanto, Marcelo, você não imagina como achei bom que essa revista tenha sido lançada.

 

Meu manequim é 44 e tenho 55 anos.

Isso significa que é dificílimo encontrar roupas para mim.

 A “ditadura axoréxica” é uma realidade, acredite.

 

E ela é parte de um estereotipo feminino que é o único – único – modelo existente na mídia.

Por conseqüência, aqui no Brasil, nas melhores e nas piores lojas do ramo só há roupas até o tamanho 40 (e olhe lá!), modelito jovenzinha.

 

A opção é procurar as poucas lojas para obesas, que vendem só batas, e a preço de ouro.

Mulheres de meia idade e meio gordas: cafonas fora do sistema, da moda, e das lojas.

 

Você diz que: “Ser como é”, nessa linguagem, equivale a ter um lugar definido no mercado consumidor. Sua identidade se afirma pelo que você consome...

 

Bom, pode acreditar que não afirmo minha identidade pelo que consumo, mas realmente preciso comprar uma roupa de vez em quando.    

 

Escrevo, principalmente, para pedir-lhe que pense se já não é hora de serem considerados (quem sabe até admirados) outros padrões de imagem pessoal, e que eles sejam veiculados, e que gerem produtos para comprar, sim.

 

Isso de forma alguma impede que nossa identidade se afirme de maneiras mais consistentes, passando pela criatividade, pela política, pelas relações pessoais, pela expressão pessoal, etc...

 

Mas, para isso, não precisamos nos exilar do mercado consumidor ou tentar acabar com o sistema capitalista, certo?

(Não que não dê vontade)

Escrito por Marcelo Coelho às 21h16

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gordura sem conflitos

A revista “Beleza em Curvas” traz dicas de moda e beleza para mulheres com obesidade. Escrevi sobre o assunto na “Ilustrada” (a íntegra para assinantes do UOL está aqui). Seguem alguns trechos.

 

até que demorou muito para o surgimento de uma revista de moda voltada para mulheres acima do peso. Recebo o primeiro número de “Beleza em Curvas” (editora Digicamp).

Trata-se de uma “revista para quem ampliou o seu espaço para ser bonita”, diz a capa. E só num desbragado esforço de eufemismo estamos falando de “gordinhas”, de pessoas com “alguns quilinhos a mais”.

As fotos, as dicas de consumo e os discursos de auto-estima se voltam para mulheres em estado de categórica obesidade. Existe “vida feliz acima do tamanho 46”, diz o editorial. “Viemos para dar espaço para todas as mulheres reais deste gigantesco, miscigenado e plural país”, continua o texto.

Gigantesco? Difícil saber se há controle consciente sobre os jogos de palavras que, naturalmente, ficam de tocaia quando se escreve sobre um tema tabu, como o da gordura feminina.

Domínio de texto, de qualquer modo, não é o forte dos redatores da revista. Cada página traz quantidades imoderadas de erros gramaticais, e o leitor deve estar preparado para encontrar frases como esta: “o amor é uma palavra antiga, mas um conceito pouquíssimo utilizado no geral”.

Ou ainda: “numa antiguidade quase presente, a mulher era vista pelos maridos como reprodutora feminina”.

Mas vamos em frente. São tantas as páginas de mulheres realmente gordas, jovens, bem maquiadas e afirmativas, que o principal objetivo psicológico de “Beleza em Curvas” acaba por ser alcançado: naturaliza-se um pouco a obesidade, e reforça-se a sensação de como também é estranho o padrão da anorexia

 

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Apesar disso, há limites para essa “ação afirmativa”, ou melhor, “auto-afirmativa”. Um assunto não pode deixar de ser tabu nas páginas de “Beleza em Curvas”.

Trata-se da comida. A única reportagem sobre o tema insiste na importância da alimentação saudável: cenouras, tomates, grãos de soja. A mulher gorda e bem-resolvida parece ter, aqui, a curiosa característica de não se interessar por chocolate ou marzipã.

É dinâmica, esportiva, sensual. Alimenta-se com moderação, veste-se bem, não tem complexos.

Ou seja, é uma mulher magra-só que com mais peso. A contradição vem à tona num só momento da revista: uma reportagem sobre cirurgias de redução do estômago. A afirmação da gordura convive com a sua negação.

O “padrão anoréxico” pode ser criticado. Mas há outra ditadura, na verdade, a ser combatida-e uma revista para gordas não difere de qualquer outra revista nesse aspecto. Trata-se da ideia de que, por uma espécie de auto-hipnose regada a muito consumo, você pode ser feliz sendo como é.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h16

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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