Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

fotografia moderna

Sábado dia 30, na Pinacoteca do Estado, será lançado um livro com cerca de 159 fotos tiradas principalmente nas décadas de 1940 e 1950 por Gaspar Gasparian (1899-1966), “Pioneiro da Fotografia Moderna no Brasil”, como diz o título do volume. Coloco aqui três exemplos de sua produção.

Meninos pescadores, à espera, como fotógrafos, do instante decisivo:

 

 

O barco branco, que de tão branco parece ter cor:

 

 

 

E poste paulistano, apagado, irradiando luz em pleno dia:

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h28

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Eric Whitacre

 
 

Eric Whitacre

Depois de muitos meses com a orquestra de André Rieu no número 1 dos CDs mais vendidos de música clássica --valsas e polcas de Ano Novo--, o fenômeno de vendas na Inglaterra agora é um compositor de obras corais, Eric Whitacre. Ele é um rapagão nascido em Nevada, que estudou na Juilliard School of Music com John Corigliano. Achei bonito, dentro de uma tradição que (não sei se estou certo) está em algum lugar entre os compositores sacros ingleses do século 20 e o estilo de Samuel Barber. Para quem gosta, e ao mesmo tempo enjoou um bocado, do célebre "adagio para cordas" deste último, vale a pena experimentar isto:

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h38

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Em trânsito

 
 

Em trânsito

        

 

 

Transcrevo três poemas do último livro de Alberto Martins, Em Trânsito (ed. Companhia das Letras). Uma simplicidade próxima de Manuel Bandeira é bastante reconhecível, em especial no último dos três.

 

         Rosto

 

 

Que cara é essa

se descobrindo no espelho

atrás de cada pelo

de barba?

 

de longe

levanto as sobrancelhas

e aceno

como se deve

a um discreto companheiro de viagem

 

 

 

 

                   O outro

 

tarde da noite

vago pela casa

em busca de um livro

que deixei no outro quarto

 

mas o livro se esconde

as estantes não ouvem

a casa está cheia

de ruídos estranhos

 

dá um pouco de medo

passar assim em silêncio

entre as paredes

rente a mim mesmo

 

até que deparo

com outro sonâmbulo

chamando discreto:

“é por aqui, Alberto!”

 

 

         Poema expresso

 

de pé

apoiados no balcão

dois homens conversam

 

sobre assuntos do bolso

e do coração – de repente

um deles bate na madeira

e em voz baixa profere

paixão paixão paixão

 

enquanto acompanho

a lenta cocção

do pó

Escrito por Marcelo Coelho às 00h19

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Em trânsito

 
 

Em trânsito

        

 

 

Transcrevo três poemas do último livro de Alberto Martins, Em Trânsito (ed. Companhia das Letras). Uma simplicidade próxima de Manuel Bandeira é bastante reconhecível, em especial no último dos três.

 

         Rosto

 

 

Que cara é essa

se descobrindo no espelho

atrás de cada pelo

de barba?

 

de longe

levanto as sobrancelhas

e aceno

como se deve

a um discreto companheiro de viagem

 

 

 

 

                   O outro

 

tarde da noite

vago pela casa

em busca de um livro

que deixei no outro quarto

 

mas o livro se esconde

as estantes não ouvem

a casa está cheia

de ruídos estranhos

 

dá um pouco de medo

passar assim em silêncio

entre as paredes

rente a mim mesmo

 

até que deparo

com outro sonâmbulo

chamando discreto:

“é por aqui, Alberto!”

 

 

         Poema expresso

 

de pé

apoiados no balcão

dois homens conversam

 

sobre assuntos do bolso

e do coração – de repente

um deles bate na madeira

e em voz baixa profere

paixão paixão paixão

 

enquanto acompanho

a lenta cocção

do pó

Escrito por Marcelo Coelho às 00h18

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A invenção de Marilena Chauí

Alguns militantes da “linha dura” do Partido Comunista possuíam, pelo menos, algum senso de humor. Era o tempo em que Roger Garaudy chamava Sartre das piores coisas, e em que Sartre respondia à altura... E, num outro nível, Merleau-Ponty e Sartre divergiam e alternavam suas próprias posições a respeito da União Soviética, com argumentos de uma sofisticação muito grande, por menos confiáveis e lógicos que fossem.

Mas a intervenção de Marilena Chauí no debate eleitoral, que consta do site de Dilma Rousseff, é de uma tristeza sem fim. Nem valeria a pena continuar a demolição de seu renome filosófico, para a qual ela própria tem contribuído tanto. Vale a pena, em todo caso, ver a que ponto chega a sua falta de inspiração quando se trata de defender o PT. E tudo dito com uma raiva, uma intensidade, um senso deslocado da sua própria importância...

Ela começa dizendo que a democracia se caracteriza, sobretudo, pela invenção dos direitos. A frase é bonita, e entra naquele tipo de modismos pelo qual tudo é “inventado”: a invenção da infância, a invenção da democracia, a invenção da política, a invenção das crenças... (epa!).

Admitamos, de todo modo, que os direitos humanos não são “naturais” nem dados por uma espécie de autoridade divina, mas sim que se “inventam”, no sentido de que se renovam e, de tempos em tempos, conhecem outros acréscimos. Não se falava em direitos dos deficientes físicos, por exemplo, como se fala atualmente.

Pois bem, Marilena Chauí passa a defender o governo Lula com base nessa ideia da “invenção” dos direitos. Mas que direitos Lula “inventou”? Podemos dizer que atendeu, muito mais do que o governo FHC, direitos previstos na Constituição, como o direito a um salário digno, à educação, à moradia, à saúde. Mas isso é atender direitos, não tem nada de “invenção”. Claro que, se Marilena Chauí dissesse apenas que o governo do PT melhorou a vida de milhões de miseráveis, isso não seria “filosófico” e “sofisticado” o bastante...

Não, os adjetivos não são esses. O que Marilena Chauí procura é dar um tom mais “radical” ao que, afinal de contas, é política social bem-sucedida por parte do governo Lula. Insisto em colocar esses elogios ao governo Lula aqui, para não ser injusto e não entrar no espírito de matilha da militância oposta.

E tudo fica muito mais “radical”, é claro, quando Marilena Chauí avança em seu discurso, para dizer que uma vitória de Serra seria uma ameaça à democracia, à liberdade de expressão, aos direitos humanos...

Tudo isso, é claro, em meio a críticas à mídia, que não encarnaria a “verdadeira” liberdade de expressão. Pena ver que, para criticar a mídia, Marilena Chauí tome as dores de ninguém menos do que Romeu Tuma! É que o site do UOL divulgou, erroneamente, e por um curto período de tempo, a morte do candidato. Isso teria ajudado o candidato da “mídia”, claro, que seria o Aloysio Nunes. Falta explicar por que razão a “mídia” dava, em todas as pesquisas, a vitória do candidato governista Netinho, ao lado de Marta, na disputa pelo Senado. As pesquisas não são manipuladas para ajudar a direita?

Bom, se eu fosse comentar os absurdos que aparecem de todos os lados, nessa campanha, eu não faria outra coisa.

Registro um de Fernando Henrique, em todo caso, segundo divulgado pela coluna de Nelson de Sá (será um petista?) FHC diz que o aborto não é uma questão política, porque já está regulamentado na legislação...

A política, não sei se emburrece os intelectuais, mas certamente os ajuda a dizerem besteiras sem tamanho.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h58

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o legado de Marina

Não é culpa de Marina Silva, claro, mas quem esperava que sua candidatura representasse um avanço no debate político vê ocorrer o efeito inverso. Não sei de nenhum compromisso mais forte dos candidatos com a causa ecológica –mas sim uma correria alucinada no rumo da carolice. Curioso como tanta religião termina resultando em mentira, hipocrisia e atos de escroqueria. Todo mundo percebe que Serra e Dilma não são contra o aborto, e muito menos são figuras capazes de comungar e se ajoelhar sem que alguma frase do Evangelho sobre os fariseus, os sepulcros caiados e coisas do gênero ressoem em alguma catacumba em Roma ou Jerusalém. Enfim, não é problema meu a religião que eles tenham. O que é meu problema é ver a incapacidade da sociedade para se defender desse surto comungante.

 

Ainda sobre o assunto religião e política, os assinantes do uol podem ler meu artigo na Ilustrada de hoje aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h25

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dois irmãos

 
 

dois irmãos

A velhice, ou, se preferirmos, a madurez, está se tornando especialidade do cinema argentino, o que não é um fenômeno criticável por si mesmo. Dá ocasião a filmes sensíveis, algo melancólicos mas afinal de contas conciliadores, hábeis ao tratar de emoções em meio tom.

Dois Irmãos”, de Daniel Burman, tem bem esse espírito, pelo menos no encaminhamento geral do roteiro. Mas o espírito ameno contrasta com a caracterização das personagens principais. Antonio Gasalla e Graciela Borges vivem o par, nada fraternal, do título. Ela é uma arrivista trambiqueira, que oprime e explora o irmão, sujeito tímido e passivo, que com seus sessenta anos se dedica a cuidar da mãe doente.

Tem-se a impressão de que o filme tenta transpor, sem muitos desastres, alguma peça de teatro que terá servido como veículo para o talento inegável dos dois atores principais. No palco, a presença de Graciela Borges, com seus figurinos impagáveis e mesquinharias espantosas, serviria àquela função, tão necessária ao público, da personagem que se gostaria de esganar ao vivo.

Espera-se o tempo todo a reação, o grande momento explosivo pelo qual Antonio Gasalla haverá de dizer à irmã “um monte de verdades”. O teatro pode viver dessa tensão –como é, vai ter briga ou não vai ter?—sem que as personagens precisem se transformar muito ao longo da peça.

No cinema, isso funciona menos: as tiradas repetidas, as cenas mais ou menos equivalentes que se sucedem, não contam com aquele espaço vazio, aquele oco, aquele intervalo de ar que existe entre o público e os atores. A película “adere” mais ao rosto dos atores, o cenário é mais fluido, há menos máscara e mais interiorização. O talento de Gasalla e Graciela Borges não deixa margem a dúvidas; mas não constitui um triunfo, e o filme inspira mais carinho do que admiração.  

Escrito por Marcelo Coelho às 15h02

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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