Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Música e vida

"Mozart is life itself", exclama o pianista Piotr Andrezewski, e ele está certo. Mas o que acontece então com Haydn? Com Bach? Difícil imaginar óperas compostas pelos dois. Drama e fragilidade, talvez, seja o que falta a ambos. Mas o que sobra? Não é só inteligência. É algo que vai além do espírito.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h14

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sir Gawain

A história de Sir Gawain e do cavaleiro verde, que reproduzi no artigo desta quarta-feira (aqui para assinantes do uol), rendeu um desenho animado disponível no youtube. Não é grande coisa, mas tenta reproduzir os vitrais da Idade Média:

Escrito por Marcelo Coelho às 11h19

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literatura engajada

Traduzo os dois primeiros parágrafos de "Some Versions of Pastoral", do crítico William Empson. Apesar de tipicamente inglês, com tudo o que isso significa de (falsamente) pedante e irônico, Empson foi sempre, para os padrões de sua época, um esquerdista --a ponto de defender Mao Tsé Tung muito além do razoável. Escrevo isso apenas para desfazer a ideia que o tom do texto pode trazer ao leitor:

         É difícil para um inglês falar de forma categórica a respeito de arte proletária, porque na Inglaterra isso nunca foi um gênero com princípios estabelecidos, e o que existe nesse campo, que eu conheça, é ruim. Mas é importante experimentar e decidir o que esse termo deveria significar; minha suspeita, que vou procurar esclarecer, é que podemos nos tornar vítimas de uma falsa limitação.

         Em termos de propaganda, trabalhos muito bons já se fizeram; a maioria dos escritores quer que suas ideias sejam convincentes. Pope disse que até mesmo a Eneida foi uma “enchida de bola” política; sua melancolia sonhadora, impessoal e universal funcionou como uma forma calculada de sustentar o reino de Augusto. Por outro lado, a literatura proletária não precisa ser propaganda: Carl e Anna é apenas uma excelente história de amor; passa por proletária porque nenhum outro mundo social (ou ideologia) comparece na história exceto aquele dos personagens, que são operários fabris. Claro que decidir a respeito das intenções de um autor, conscientes ou inconscientes, é muito difícil. Só se escreve bem quando há forças muito sérias em conflito; e um escrito só perdura quando funciona para leitores que tenham opiniões diferentes das de seu autor. Por outro lado o que faz um público inglês apreciar um filme propagandístico russo é o fato de que a propaganda é por demais remota para ser aborrecida; um público “tory” [conservador] submetido a uma propaganda “tory” da mesma intensidade ficaria extremamente enfadado. De todo modo se concorda que existem boas obras que um marxista chamaria de proletárias; as questões mais urgentes para ele seriam as de se alguma obra boa poderia ser burguesa, e se algumas outras obras boas poderiam ser totalmente alheias a qualquer consciência de classe.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h33

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capela sistina

Um amigo envia o link para uma visão panorâmica da Capela Sistina. É preciso não se assustar com os pedidos (no meu caso, eles apareceram) de atualização do Quick Time e outros badulaques, que exigiram reiniciar o computador. Mas depois disso dá para ver os afrescos de todos os ângulos possíveis, sem turistas por perto, sem filas, sem barulho e sem flashes. A experiência turística de ir ao museu do Vaticano é, ou deveria ser, um dissuasivo final para a loucura dos pacotes e viagens. Um guarda fica falando pelo microfone, de três em três minutos, em todas as línguas: "silenzio per favore... questo è un luoco sacro..." E pede para não usarem flashes. Todo mundo para uns 30 segundos e recomeça a falar, e a tirar fotos. Humanidade pecadora, com certeza. Melhor ficar no virtual: http://www.vatican.va/various/cappelle/sistina_vr/index.html

Escrito por Marcelo Coelho às 17h13

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estilo jornalístico (4)

Um pouco mais de implicâncias com textos da “Folha”; espero que não pareça perseguição. Pelo contrário: sou sempre admirador dos textos de Ana Paula Sousa, por exemplo. Ela pega assuntos a meu ver chatíssimos (os relacionados à política cultural) e sabe torná-los interessantes e inteligíveis.

 

Mais do que isso, tem a técnica, tão rara no jornalismo brasileiro, de saber começar uma história pelo começo, e não pelo lide. O horror ao “nariz de cera”, a velha introdução ao cerne da matéria, faz com que se crie, por vezes, um congestionamento de dados dificílimo de atravessar. Do tipo: “recurso obtido pela procuradoria regional reverteu ontem o pedido de liminar que dava à empresa X o direito de reeditar as obras de Fulano...” Ana Paula Sousa consegue começar a reportagem de outro jeito, até que o leitor consiga chegar, no quarto parágrafo que seja, à informação “do dia”.

 

Demora, mas a gente consegue entender a importância do fato, pelo contexto oferecido antes. Bom, isso é uma avaliação geral. Mas veja-se como ficou o seu perfil da futura ministra da Cultura, Ana de Hollanda, publicado hoje na pág. A-2.

 

Todo o texto é ótimo de ler, pega o lado pessoal, a carreira artística, a sombra de Chico, etc. Mas o ponto mais importante, claro, é a atuação de Ana de Hollanda no mundo administrativo. E aí, leio:

 

Além de coordenar o Projeto Pixinguinha, voltado à música popular brasileira, ela participou da organização das câmaras setoriais da música. Muita gente ligada à política cultural tem, de Ana, a referência desse período.

 

O problema, claro, é saber o que foi o Projeto Pixinguinha, e o que foi a organização das câmaras setoriais da música. Mas isso a matéria não explica. Talvez seja chatíssimo explicar. Mas aí é que a leitura dos jornais se torna frustrante: a impressão é que, quanto mais você lê, menos você fica sabendo...

 

Na outra ponta do jornal, João Pereira Coutinho ataca, com muito espírito, a nova lei americana que libera a presença de gays assumidos nas Forças Armadas. Eis suas observações.

 

Faz parte da nossa sensibilidade moderna pretender impor os valores “corretos” em todos os contextos, grupos ou instituições. Mas é necessário respeitar a natureza própria de diferentes grupos e instituições.

 

Se a maioria dos soldados prefere não ter “homossexuais” a bordo; se a mera possibilidade de haver “homossexuais” nas Forças Armadas não contribuirá para a coesão, a confiança e a concentração dos homens em conflito, é um absurdo perigoso pretender impor os valores “corretos” da vida civil a uma instituição onde a sobrevivência, deles e nossa, se joga a cada momento.

 

Sei. Então o que dizer da presença de mulheres nas Forças Armadas? Não dificulta “a concentração dos homens em conflito”?

 

E de negros? Não prejudica a “coesão” dos homens em conflito?

 

E, num exército composto de descendentes de italianos, de poloneses, de irlandeses, de gregos, de espanhóis, não haveria riscos à “coesão” da tropa de qualquer modo?

O interessante dessas opiniões “interessantes” da nova moda conservadora é que seriam as mesmas, 50 ou 100 anos atrás, que se voltaram contra os direitos das mulheres, o sufrágio universal, o fim da monarquia... Sempre imagino o que, dessas conquistas básicas da humanidade, seria chamado ironicamente de “politicamente correto”.

 

E, sem me referir ao caso de Pereira Coutinho, penso também no que diriam a respeito da abolição da escravidão os conservadores como Pondé, que consideram impossível melhorar o mundo, porque o homem é e será sempre infeliz. 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h34

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uma noite de verão

 
 

uma noite de verão

Falei na semana passada de uma música de Samuel Barber, "Knoxville 1915". Vai aqui o link para sua interpretação com Barbara Hendricks, com a vantagem de ter a letra junto.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h58

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os melhores anúncios de todos os tempos

É um prazer assistir, pela internet, o programa dedicado aos dez melhores comerciais de todos os tempos. Você pode acessar neste link. Ou melhor, aqui.

Alguns (na verdade, muitos) comentários.

O que se considera “bom” e “clássico”, em matéria de comerciais, é o mesmo que ocorre com qualquer outra forma de expressão. Trata-se de uma atribuição concedida aos mais velhos. São eles, na verdade, os que se lembram do anúncio das Casas Pernambucanas (“quem bate? É o frio...”) ou dos cobertores Parahyba (tá na hora de dormir...) O julgamento, propriamente dito, o papel de “juiz”, tem uma espécie de relação necessária com a idade, com a velhice.

De resto, fora algumas marcas desaparecidas com o tempo, como a Vasp, valeria a pena se as Casas Pernambucanas ou a Valisère reproduzissem, tais como eram, os seus anúncios de antigamente. Não custaria nada, e seria um acontecimento no mundo midiático.

Senti falta, no programa da Jovem Pan, de maior respeito pela autoria dos comerciais. Quais os autores? Quem compôs?

Digo isso sabendo que o organizador do concurso tinha um programa sobre jingles na CBN, que deve ter migrado para a Jovem Pan, onde ele fazia justiça aos criadores de melodias clássicas na nossa infância: “Urashimatá-aro, um pobre pescador...” Os criadores eram devidamente homenageados.

“Nossa” infância? Perdoe-me quem tiver menos de cinquenta anos.

Seja como for, é a musica, acima de tudo, o que representa um passaporte para a eternidade clássica desses anúncios. Varig, Cobertores Parahyba, Casas Pernambucanas, sobreviveram não necessariamente pelo conteúdo imaginativo dos anúncios, mas sim pela qualidade das melodias e letras de seus jingles.

No mundo não-musical, os destaques foram o garoto Bom Bril, cujos avatares realmente impressionam, mas descaracterizam o tom brechtiano do início, em que o anúncio tinha a ironia de ser modesto, submisso, ambíguo. As transformações do garoto Bom Bril ao longo do tempo significaram, de certo modo, sua neutralização ideológica: tudo pode ser mimetizado, mas a ausência de auto-promoção paga o preço de se tornar indiferença, e mesmo cinismo, com o passar do tempo.

Espectadores mais recentes deveriam votar em alguns comerciais que terminaram injustiçados no concurso. O da Brastemp, certamente, que deu um passo além da Bom-Bril. O dos postos de gasolina São Paulo, que foram igualmente exemplo da transformação do “ruim” em “bom”,que é a alma da propaganda realmente genial.

Mais genial ainda, o anúncio da Vulcabrás com Paulo Maluf, que reuniu a extrema impopularidade do político, naquela época, com a popularidade sem charme nenhum do calçado mais feio da história.

Tudo isso terá sido criação de Washington Olivetto? Não sei, mas desconfio que sim. Grandes talentos musicais existiram na propaganda brasileira, mas só um gênio conceitual, salvo engano, o de Washington Olivetto.

No lance puramente estético, faltou lembrar, depois do comercial da Valisére, um dos bombons Garoto, no mesmo estilo.

A estética, folgo em dizer, é sempre subversiva. O produto propagandeado sobrevive menos do que a publicidade bem feita. Esta eleva o espectador a outros espaços. Nunca comprei um sutiã Valisère, por mim a fábrica pode falir, mas está viva, porque me toca e diz respeito a mim, a publicidade de um produto que expressa, além de qualquer interesse comercial, a beleza das primeiras coisas, o frescor de um presente inesperado, o encanto do pudor adolescente, a insegurança das rivalidades colegiais, a conquista de um espaço próprio.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h57

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capas promocionais

 

Gostaria de falar, na qualidade de simples leitor, aos grandes anunciantes de jornais, tipo Casas Bahia, Kalunga, Vivo e companhia.

Sabem o que acontece quando eu recebo o jornal com uma dessas capas promocionais que vocês inventam?

Eu arranco, e faço questão de não saber nem de perto qual a promoção que vocês estão divulgando.

Aliás, só estou falando da Vivo porque hoje apareceu uma capa promocional dessas, acho que no Estado.

Nem sei se a Kalunga e as Casas Bahia fazem coisas desse tipo.

Tenho uma vaga lembrança de revendedoras Ford ou GM.

A praga aparece no fim de semana.

Mas não tenham dúvida –eu arranco.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h05

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voltaire de souza

crônica recentemente publicada no jornal "Agora".

 

 

DE VENTO EM POPA

 

 

Luxo. Riqueza. Piscinas.

As mansões do tráfico despertam admiração e inveja.

No alto do morro, em plena favela, a repórter Juliana Tagarelli investigava o local.

--E aqui... vamos entrando... está a suíte...

As câmeras da TV exibiam todos os detalhes do palacete.

--Vejam só o banheiro de mármore do traficante Rodrigão...

Ela pedia para a câmera chegar mais perto.

Atrás da cortina de plástico, a descoberta macabra.

A cabeça do traficante. E de mais quatro comparsas.

Boiando ainda numa mistura de sangue e de formol.

--Aqui, dentro da banheira... olhem só meus telespectadores...

Dúvida e horror alteravam levemente os traços da bela jornalista.

--Mas quem terá cortado as cabeças dos chefes do tráfico?

Lá fora, algumas crianças se divertiam na piscina da mansão.

Com uma peixeira, o menor M. C. empurrava seus amiguinhos no trampolim.

--Andando na prancha... que o capitão do navio pirata sou eu.

Por vezes, a casa cai. Mas o navio nunca afunda.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h18

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arquitetura como ela é

Eis aqui uma foto tirada do site Dezeen, que registra as inovações arquitetônicas do dia. No caso, trata-se do projeto de um escritório japonês, para uma residência em região submetida a alta variação térmica no Japão. Interessava proteger os moradores do excesso de frio e de calor.

 

qualquer semelhança com uma prisão não é coincidência, acho.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h11

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Macbeth e a minhoca

 
 

Macbeth e a minhoca

Resenhei há algum tempo dois livros de G. K. Chesterton para a “Ilustríssima”, e não resisto a transcrever este trecho de O Tempero da Vida e outros ensaios (ed. Graphia).

 

 

A base de toda tragédia é que o homem vive uma vida coerente e contínua. Somente a uma minhoca é possível ser cortada em duas e deixar as duas partes distintas ainda vivas. Pode-se retalhar uma minhoca em episódios e eles ainda serão episódios vivos. Pode-se retalhar uma minhoca em idílios e eles se tornam idílios alegres e joviais. É possível fazer-lhe todas essas coisas precisamente porque ela é uma minhoca. Não é possível retalhar um homem e deixá-lo a se deblaterar, precisamente porque ele é um homem. Sabemos disso porque o homem, mesmo em suas mais obscuras e rasteiras manifestações, tem sempre esta característica da unidade física e psicológica. Sua identidade permanece o suficiente para ver o fim de muitas de suas próprias atitudes; ele não pode ser suprimido de seu passado com uma machadada; tanto quanto semeia deverá ele colher seus frutos.

         Eis portanto a base de toda tragédia, esta continuidade vívida e perigosa que não existe nos seres inferiores. Essa é a base de toda tragédia, e é certamente a base de Macbeth. O grande princípio de Macbeth, manifestado nas primeiras cenas com uma energia trágica que nunca foi igualada nem em Shakespeare nem em outros, é o do enorme erro que um homem comete quando supõe que uma única atitude decisiva irá desobstruir o seu caminho. A ambição de Macbeth, embora egoísta e de certa forma grave, não é em si criminosa ou mórbida. Ele conquista o título de Glamis em uma guerra honorável; vence e adquire o título de Cawdor; ele está ganhando o mundo e não sente nenhuma alegria em fazê-lo. De repende uma nova ambição se apresenta para ele (...) e ele percebe que nada atravessa seu caminho até a Coroa da Escócia exceto o corpo adormecido de Duncan. Se fizer aquela coisa cruel, ele poderá ser infinitamente alegre e feliz.    

         Aqui, digo eu, está a primeira e mais formidável das grandes evidências de Macbeth. Não se pode cometer uma loucura a fim de se alcançar a sanidade. A louca resolução de Macbeth não é uma cura sequer para sua própria irresolução. Ele esteve indeciso antes de sua decisão. Ele ficou, se for possível, mais indeciso após ter se decidido.  

Macbeth e as bruxas, por Füseli (1741-1825)-

Escrito por Marcelo Coelho às 00h26

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manual do estilo jornalístico (3)

 

 

Ainda no tema do estilo,  terça-feira passada não foi um bom dia para a “Ilustrada”. Seleciono algumas passagens do texto da primeira página, que faz o balanço da Bienal de São Paulo.

 

“Há sempre um copo de mar para um homem navegar”: a frase sugerida como tema acabou descrevendo um presságio. O verso do poeta alagoano Jorge de Lima deu norte para uma Bienal de São Paulo de navegação não muito palatável.

(...)

Encontros fundamentaram plataformas de diálogo.

(...)

Num mundo que pende para a alienação, o viés político deu as cartas. Os excessos provocaram instituições públicas e privadas. A Justiça censurou uma obra que panfletava em época de eleição (...) Tudo em nome de um bem-estar normativo. Tudo pela sobriedade, justamente num lugar onde a embriaguez desvenda caminhos para a lucidez.

 

Navegações palatáveis, diálogos que precisam de plataformas, plataformas fundamentadas em encontros, um viés que dá cartas contra um mundo que pende... Eis um texto conceitual até dizer chega.

 

 

Esquisitice não é o defeito do artigo de João Pereira Coutinho na mesma edição. Alguns trechos:

 

Aceitar a “tirania da contingência”, tema fulcral das obras tardias de Roth, seria destruir a crença basilar de nossa civilização racionalista: a de que tudo depende de nossos esforços racionais rumo a um fim perfeito. E racional.

 

[A poliomielite em 1944] era um vírus furtivo que roubava vidas e destroçava infâncias com violência inaudita.

 

Faz parte da mentalidade racionalista atribuir ao divino a natureza do imponderável.

 

Lendo “Nemesis”, narrativa magistral de um Roth crepuscular...

 

Depois de violências inauditas, narrativas magistrais e crenças basilares, dobro o jornal e vou tratar da vida.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h35

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manual do estilo jornalístico (2)

Enquanto isso, recebo o seguinte convite pelo e-mail.

 

 

Prezado associado

 

         Por determinação do jornalista Sérgio de Azevedo Redó Presidente da Associação Paulista de Imprensa (API), incumbiu-me de convidar a V.Sa. para participar da audiência pública, objetivando criar o Conselho Parlamentar de Comunicação através do projeto da iniciativa do Deputado Estadual Antonio Mentor do Partido dos Trabalhadores-PT.

       Na oportunidade sua Excelência Deputado Antonio Mentor Convidou oficialmente para que o Presidente da API proferisse palestra sobre o tema.

         Sendo assim é de fundamental importância que o Ilustre jornalista compareça para dar suas sugestões ou críticas.

       Esperando poder contar com especial atenção de V.Sa. desde já agradecemos a vossa  esperada e prestigiosa presença neste importante momento de debate nacional sobre a liberdade de imprensa, controle e normatização dos meios de comunicação.

       Neste marco divisório, nós temos a responsabilidade de participarmos ativamente.

                          Data: 08/12/2010

 

 

Não sou, pelo menos não me consta que seja, associado da “Associação Paulista de Imprensa”. Será que é preciso diploma para participar? Certamente a associação ganharia credibilidade se promovesse um curso sobre uso da vírgula para seus associados. Outro curso sobre uso de maiúsculas. E outro curso, assim, meio geralzão, sobre “normatização” gramatical.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h35

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manual do estilo jornalístico

Julian Assange é tema de muitas considerações “comunicológicas”. No “Observatório da Imprensa”, leio coluna de Washington Araújo sobre a construção do “mito”. Eis uma amostra do tipo de prosa oferecido aos leitores do site.

 

Os elementos constitutivos para a criação de um mito podem ser ruins ou bons para a verdade. Mas a verdade é sempre factual quando se trata de esquadrinhar a pessoa humana e, no fundo, quem torna mito alguém é a trajetória percorrida por esse alguém. A trajetória do homem-que-se-torna-mito tem relação quase sempre direta de escolhas e estratégias adotadas durante o caminho de mitificação, seja na falsificação ou na comprovação de sua excelência.

Ah.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h17

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Casamento e morte de Hugues Cuénod

 
 

Casamento e morte de Hugues Cuénod

Na área das "mélodies", isto é, das canções eruditas francesas (Fauré, Debussy), os cantores mais conhecidos são Gérard Souzay, Charles Panzéra, Gabriel Bacquier.

Mas o tenor suíço Hugues Cuénod teve grande importância, estreando obras de Stravinsky na década de 50, fazendo uma das primeiras gravações de Monteverdi, ainda na década de 30, e deixando vários discos de "mélodies", como estas, no op. 58 de Fauré:

Nascido em 1902, Hugues Cuenod teve a sorte de manter a voz praticamente intacta até a velhice bem avançada.

O tenor morreu neste 3 de dezembro, aos 108 anos.

Graças a uma recente lei suíça permitindo o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, Cuenod pôde casar-se com seu companheiro Alfred Augustin, aos 104 anos. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 06h44

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a vingança de Stalin

         Você conhece o sistema Argos? Faz sucesso na Inglaterra, não sei se existe em outros lugares. É um novo tipo de loja –mas loja não é bem o termo.

         O lugar parece uma agência dos Correios ou uma lotérica, com várias filas diante dos caixas.

         Antes de entrar na fila, você deve se dirigir a uma série de bancadas de plástico, onde há dezenas de catálogos com todos os produtos possíveis. Os catálogos são como grandes fichários plastificados, com subdivisões básicas: brinquedos, artigos eletrônicos, artigos de cama e mesa etc.

         Você procura no catálogo o artigo que deseja; anota num papelzinho, que é como um talão da Mega-Sena, e só então entra na fila para pagar.

         Depois de pagar, você recebe uma senha, e fica esperando que desçam do depósito o produto comprado. Há várias cadeiras enquanto você aguarda ser chamado pelo número da senha. A coisa é bem parecida com um cartório, quando você está precisando reconhecer uma firma.

         Pronto! Depois de uns dez minutos no máximo, você pega o seu produto. Se quiser eles põem numa sacola plástica.

         Evidentemente, a vantagem do sistema é que os preços caem muito. Não há mais prateleiras, vendedores, lugares onde você possa ver os produtos, compará-los, segurá-los na mão. Trata-se da mesma lógica das compras pela internet (sites tipo amazon, por exemplo, que afinal são grandes depósitos, nada mais). A diferença é que, em vez de comprar pelo computador, você compra ao vivo –e eles economizam na entrega do produto também.

         Desse modo, as pessoas saem do sistema Argos com os pacotes que queriam –pagando menos.

         Mas é impressionante a tristeza que levam no rosto.

         Filas e mais filas, nenhuma fantasia, apenas a necessidade de consumo atendida da forma mais crua possível.

         Todo aquele ar de repartição pública se esclarece, para mim, quando penso num paradoxo: essas lojas Argos são o triunfo do socialismo... Ou melhor, é o consumismo sem embalagem, sem encanto: o realismo consumista.

          

Escrito por Marcelo Coelho às 19h50

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um mestre da gravura

Um dos primeiros mestres da gravura brasileira, Carlos Oswald (1882-1971) só conheceu o Brasil aos 24 anos. Filho do compositor Henrique Oswald (1852-1931), aliás finíssimo, Carlos nasceu em Florença, e estudou música, engenharia e química por lá.

Depois de sua volta ao Brasil, tornou-se professor de gravura no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro.

A partir de hoje, começa uma exposição de sua obra, na Caixa Cultural, e vai até 20 de fevereiro.

Eis algumas das obras:

 

 

"Tocando Debussy", de 1914, é uma gravura em metal que não nega a influência do pai compositor. Gosto da posição da moça, bem afastada do piano, de modo a valorizar os braços e o corpo longilíneo.

 

 

 

A luz romântica e as gradações de tom são o forte de "Teresópolis" (1925)

 

 

 

 

 

"Igreja de Santo Antônio" (1930)

 

 

 

...e o "allegro furiante" desta paisagem de Icaraí, água-forte aquarelada.

 

 

Na biografia que me mandaram do artista, uma coisa que é novidade total para mim. Carlos Oswald foi quem desenhou a estátua do Cristo Redentor, inaugurada em 1931. Seus esboços, mandados para Paris, foram executados pelo escultor Paul Landowski (1875-1961). Aqui vai um deles.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h43

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voltaire de souza

NA IDADE DA PEDRA

 

 

O turismo deve ser incentivado.

Mas o Brasil não é só samba, praia e futebol.

É também emoção. Muita emoção.

Hassan vinha de uma terra distante.

Lá pelos lados do Irã. Onde a religião não é moleza.

Uma jovem trai o marido, e é condenada ao apedrejamento.

Hassan achava correto. E chegava ao nosso país com um objetivo claro.

--Esbalhar a fé no Algorão. E drazer a môrt aos infiêize.

Fanatismo. Religião. Ou motivos políticos?

Por vezes é difícil desvendar a mentalidade de outras culturas.

Hassan foi tomar um cafezinho no bar mais próximo.

--Gafê brasileira... bior que no minha derra.

Foi quando passou o primeiro veículo blindado.

Tiros se seguiram de todos os lados.

Moças de biquíni fugiam de traficantes.

Lágrimas vieram aos olhos do experimentado terrorista.

--Belêz. Nem brecisa jogar bedra nos mulyer sem-vergonia. Vai na chumba mesmo.

Culturas variam. Mas, quando balas voam, sempre se está na idade da pedra.

 

 

AGORA VAI

 

 

Insegurança. Medo. Esperança.

É o Rio em guerra com o tráfico. Eduvaldo estava confiante.

--Agora vai.

Ele acompanhava tudo pela televisão.

--Mata. Passa a metralha, pô.

A namorada dele começou a achar demais.

--Você sempre foi da paz, Eduvaldo.

O rapaz ficou em silêncio.

Ondas de adrenalina e testosterona invadiam seu organismo.

--Vem cá, Lisiane. Vem cá, estou falando.

A bela jovem aproximou-se de Eduvaldo com um risinho.

Na hora do amor, entretanto, Eduvaldo negou fogo.

Sonhos agitados perturbaram sua madrugada.

O capitão Nascimento aparecia com um trabuco.

--Missão dada é missão cumprida. Ô fanfarrão.

Abandonado por Lisiane, o rapaz está agora na base de antidepressivos.

Algumas mulheres, por vezes, são como os morros cariocas.

Nem sempre é fácil entrar com tudo.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h31

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por falar em caixões...

Na Itália renascentista, as roupas eram guardadas em baús, muitas vezes com pinturas riquíssimas. Este exemplo é do Palazzo Vecchio, em Florença:

 

A curiosidade não está aí, mas sim no fato de que a cômoda com gavetas só foi inventada no século 17!

Escrito por Marcelo Coelho às 22h14

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sonhos debaixo da terra

Tudo começou em 1951, quando morreu a avó de um dos rapazes que trabalhavam na marcenaria. O sonho daquela senhora era viajar de avião. Sem tê-lo alcançado em vida, surgiu a ideia: por que não fazer um caixão de defunto em forma de avião, para enterrá-la ao menos conforme esse desejo?

Assim começou a indústria de caixões de defunto de Ata Owoo, em Teshi, um subúrbio de Accra, capital de Gana.

A tradição se firmou, e atualmente há caixões em forma de tudo. Uma máquina fotográfica gigante, por exemplo. Ou um cacau. Ou uma garrafa de Coca-Cola. Alguns exemplos:

 

 

 

 

 

(esta é um de um museu em Houston, Texas -http://www.flickr.com/photos/mgraessle/

 

 

Há quem chame essa tradição de uma forma de "celebrar a vida" mesmo em ocasiões fúnebres. Vitalidade não falta nessa forma de arte, mas é, digamos assim, uma alegria exterior, enquanto a melancolia, essa se esconde dentro.

 

Caixões desse tipo podem ser encomendados, para colecionadores ou uso pessoal, neste link.

 

Também há um livro sobre o assunto, mas custa quase o preço de um caixão no site da amazon.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h53

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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